História { Eclipse - Mijan} - Capítulo 5


Escrita por: ~

Postado
Categorias Harry Potter
Personagens Alvo Dumbledore, Bellatrix Lestrange, Dobby, Draco Malfoy, Gregory Goyle, Harry Potter, Hermione Granger, Lord Voldemort, Minerva Mcgonagall, Pansy Parkinson, Poppy Pomfrey (Madame Pomfrey), Severo Snape
Tags Amor, Aventura, Dracomalfoy, Drama, Drarry, Eclipse, Harrypotter, Poção
Visualizações 310
Palavras 10.308
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Ficção Adolescente, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Survival, Violência
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Spoilers, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


^^ Boa leitura!

Capítulo 5 - Quinto Capítulo - Nada a perder.


Draco passou uma noite longa e difícil lutando contra a torrente de pensamentos, perguntas e imagens que dançavam sem parar por sua mente. Estava desesperadamente tentando achar algum sentido naquilo tudo e falhando miseravelmente. Havia algo estranho em Potter, algo tenaz, intenso e totalmente irritante, e o que quer que fosse havia prendido Draco em sua armadilha.

Durante os anos, havia dito a si mesmo que não queria nada mais do que ver Potter indefeso, preso, atormentado, recebendo cada punição que Draco achava que o outro garoto merecia. Assim podia assistir a Potter ter um colapso. Seria a prova de que ele precisava, para ver o quão patético Harry Potter realmente era, o quão digno de desprezo, o quão fraco sem o resto do mundo se curvando para puxar seu saco. Nem uma só vez ele havia considerado que pudesse estar errado; que Harry talvez tivesse força própria e uma tenacidade que Draco não podia enfrentar.

Harry Potter havia sido um morador permanente dos pensamentos mais intensos de Draco por anos. Até agora nunca tinha se deixado aprofundar nas razões de por que Potter era uma força motivadora tão grande por trás de suas ações e motivos. Havia sido simplesmente a rotina diária: acordar, escovar os dentes, ir para a aula, atormentar Potter. No entanto, com a situação corrente pesando em si, ele se repreendeu por não ter percebido o tamanho do problema. Havia sido uma obsessão total, e essa obsessão havia de afetá-lo eventualmente. Ele soubera o tempo todo; só não havia admitido para si mesmo. De algum jeito, sempre soubera.

O único jeito que conseguiria resolver qualquer coisa seria falar com Potter, questioná-lo, entrar em sua cabeça. O motivo oficial para sua tarefa designada de guarda se tornou secundário à sua nova missão pessoal. Queria saber por que a pequena cicatriz em seu braço era um assunto tão sensível. Queria saber como diabos Potter conseguia ser tão indiferente quando falava com o Lord das Trevas. Mais do que tudo, por baixo de tudo isso, precisava saber por que achava o garoto fascinante.

Até agora, sua fascinação tinha sido do lado de fora, olhando para dentro. As interações de Draco com os outros, até com sua família, sempre tinham sido impessoais. Com Potter, tinha atravessado essa barreira, mesmo que inadvertidamente. Agora que tinha tido um gosto da visão de dentro, queria mais. Precisava de mais.

Ele mal podia admitir até para si mesmo que tinha tido uma conversa com Potter, mas era exatamente o que tinha sido: uma conversa civilizada. Havia o deixado nervoso, como uma criança que acabara de descobrir o pote de doces escondido no fundo da despensa; com medo de ser pego, mas mesmo assim incapaz de resistir à tentação das coisas gostosas escondidas ali. Repassou todo o diálogo em sua cabeça, repetidamente, e descobriu que seu estômago se remexia desconfortavelmente em certos pontos da conversa.

Quando Harry o desafiara a dizer o nome do Lord das Trevas, assustara-o sem sombra de dúvidas, mas, pensando novamente no assunto, seu fôlego ficava preso na garganta. Sentira um arrepio estranho pelo couro cabeludo quando Potter havia sussurrado "Obrigado", e um solavanco repentino quando era azarado o suficiente para ser pego por um daqueles olhares verdes intensos; olhos que perfuravam seu cérebro, até uma parte de si que ele não queria reconhecer. Quando ele segurara o pulso de Harry, ou enquanto segurava Harry para que não caísse para trás quando os ferimentos ameaçavam fazê-lo desmaiar de novo, o contato físico parecera estranho a Draco, como tocar um fio desencapado.

Draco afastou a memória do toque o mais rápido possível. Mesmo com sua família, o contato físico era limitado e impessoal. Proximidade não era parte de sua vida, mas quem teria esperado que um contato tão breve, com uma pessoa que ele jurara odiar, poderia fazer uma rachadura vulnerável nas muralhas que ele erguera em volta da parte de si que queria calor, toque e emoção humana? Essas coisas não pertenciam à vida de um Malfoy. Não havia lugar para elas. Eram uma responsabilidade.

Havia um jeito das coisas funcionarem no mundo. Draco sabia disso; havia tomado cuidado em aprender suas lições e confiava em seu pai. No entanto, seu carrinho de maçãs perfeito agora estava passando por cima de buracos muito profundos na estrada, e quem no mundo imaginaria que seria Potter quem os cavaria? As pequenas coisas, coisas que qualquer outro teria deixado passar, estavam começando a virar seu mundo de cabeça para baixo. Ou, pensando melhor, seu mundo ainda estava certo e ele tinha sido posto de ponta cabeça.

Assim, ele se achou caindo sem escapatória para uma descoberta difícil. Eles não eram tão diferentes, ele e Harry, não mesmo. Insistia para si mesmo que a idéia era ridícula, noite e dia, Sonserina e Grifinória. Claro, havia diferenças, a maioria das quais o colocavam em desvantagem, para seu desapontamento, mas as semelhanças eram o foco de sua atenção agora. Sua curiosidade não deixaria mais o assunto desaparecer por conta própria. Tinha que saber mais. Obviamente, se quisesse alguma chance de não estragar completamente, teria que tratar o assunto com muito cuidado.

Em algum lugar dessa bagunça, uma nova lição valorosa estava balançando a frente de seu rosto, isca em um anzol particularmente desagradável, mas sabia que perder essa lição, não morder, seria imperdoável. Passou a noite tentando decifrar o ensinamento, para avançar um passo.

No entanto, enquanto observava Harry durante a noite, só chegou a uma conclusão. Harry não dormira na noite anterior.

À noite passada, Harry estivera perfeitamente imóvel, sem se mexer, sem se virar, aconchegado contra a parede. Teria sido um ato muito convincente também, se não fosse a performance desta noite. Em algum ponto desta vez, Harry deve ter finalmente caído no sono. Parecia que sono para Harry era uma coisa agitada, e ele logo estava se remexendo e virando no chão do calabouço, murmurando para si mesmo, gritando ocasionalmente, envolvido em algum pesadelo. Nas palavras indistintas, Draco podia distinguir nomes, e começou a tomar notas mentais meticulosas das emoções mostradas a cada novo nome, cada um sendo uma janela que Potter abria, inconscientemente, em seu subconsciente.

Primeiro, Harry chamou pela mãe. Oh, o pobrezinho perdeu a mamãe. Draco esperava lágrimas para acompanhar esses chamados, algo patético e ridículo na mente de Draco. Não estava preparado para a fúria que vira em vez disso. Apesar de uma falta de provas completa e compreensível, Draco estava bem certo de que Harry estava sonhando com o Lord das Trevas, a causa da morte de seus pais. Lágrimas, ele podia ter rido delas. Isso, por outro lado, o assustava. Em algum ponto, Harry sibilou de dor, sua mão se elevando até a testa, causando um susto em Draco.

Não muito depois disso, Draco escutou os nomes de Ron e Hermione. Preocupado com a sangue ruim e o pobretão, sem dúvida, como devia estar. Quando o Lord das Trevas começar sua vingança sistemática com a destruição de Hogwarts, eles estarão entre os primeiros a morrer. Enquanto devia estar animado com esse conhecimento, ao invés disso deixou seu rosto apertado e seu peito estranhamente vazio. Voldemort matava ousada e cruelmente, e, ainda que Draco dissesse a si mesmo várias vezes que queria a escola livre de sangues ruins, a completa destruição de Hogwarts e as mortes de tantos estudantes pareciam violentas demais, até para ele. Era sua escola também.

A mão de Harry golpeou o chão, ainda que permanecesse adormecido, murmurando, "Não! Eles não, eles não... Eu. Pegue a mim... Não posso... Deixar pior... Não! Minha culpa... tudo minha culpa...".

As sobrancelhas de Draco se franziram e ele se inclinou para a frente em sua cadeira, apoiando-se nos joelhos. Harry continuou a gemer, enquanto virava para o lado e de volta para o lugar, Draco podia ver manchas de umidade em suas roupas da condensação no chão de pedra. Os arranjos para a noite eram definitivamente desconfortáveis, mas aparentemente parecia que os sonhos eram piores. Ainda que pudesse somente adivinhar as imagens passando pela mente de Harry, Draco sentiu que estava começando a fazer uma sinopse muito boa delas.

"Não vou deixá-lo me usar... Chegar a eles... Não vai me usar... Prefiro morrer".

Draco não estava ciente de que sua boca estava começando a se abrir e que sua respiração estava se tornando irregular enquanto ficava totalmente absorvido em assistir à cena.

"Não eles... Ou ele ou eu... Sozinhos... É para mim... Não mate... Não quero isso... Minha culpa. Tudo minha culpa. Sirius!".

Com uma guinada violenta, Harry se virou de barriga para baixo e acordou, ainda ofegante. Quando percebeu onde estava, estapeou o chão com um grunhido e arranhou a superfície da pedra como se tivesse garras, como se fosse um gato enorme rasgando um tapete peludo, antes de se levantar. Manteve a cabeça abaixada, mas Draco ainda podia ver os músculos se juntando em sua mandíbula.

Como se estivesse completamente inconsciente do resto do ambiente, Harry voltou para seu lugar à parede, esfregando embaixo de um calombo no bolso da camisa. Ele enfiou a mão nas dobras das roupas e puxou os óculos, os quais, depois de sua noite se contorcendo, pareciam ainda mais quebrados do que antes. Estava prestes a colocá-los quando percebeu o quanto estavam danificados. Com um resmungo de irritação, começou a delicadamente dobrar e torcer a armação em alguma coisa que pudesse ficar em seu rosto.

Todo o tempo, ignorava completamente o garoto fora da cela, olhando para ele intensamente.

Draco não ia ser o primeiro a falar. Ele se recusava. Seria prejudicial à sua dignidade ceder à sua curiosidade assim, admitir em voz alta que queria de verdade falar com Potter.

Harry moveu a haste dos óculos para frente e para trás na dobradiça, produzindo um rangido alto.

Draco mordeu o lábio inferior. Suas perguntas o estavam pressionando, exigindo atenção, e para a sua extrema irritação, Potter ainda o ignorava. Retorcendo a ponte do nariz, e então as hastes de novo, Harry apertou o rosto em concentração, continuando a não prestar a mínima atenção em Malfoy.

Draco se remexeu.

Harry verificou as lentes dos óculos, mais uma vez as hastes contra a luz fraca das tochas do calabouço, e sacudiu a cabeça. Puxou a ponta da camisa e limpou as lentes nela, sem motivo, porque não podia limpar arranhões e sua camisa estava tão suja quanto os óculos. Quando finalmente os segurou a sua frente de novo, estavam tão ruins quanto antes, mas suspirou resignado e os colocou no rosto. Inclinou-se de volta contra a parede com um baque surdo e os óculos quebrados caíram em seu colo.

"Potter, me dá logo a droga dos óculos!". Draco não percebeu que tinha falado até que as palavras escaparam de sua boca.

Harry já tinha começado a tentar equilibrar os óculos quebrados em seu rosto de novo quando ouviu as palavras de Draco e congelou. Ele abaixou a mão direita para poder ver Draco sem ter que virar a cabeça, ainda segurando os óculos no rosto com a esquerda. "Quê?".

"Você está me deixando maluco mexendo nesse troço", ele disse, impacientemente. "Deixa eu consertar logo e acabar com isso".

Harry abaixou a mão esquerda, ainda segurando os óculos. "Ah, então agora é o Cara Legal, vindo consertar tudo? Você não pode bancar o 'tira-bom tira-mau' quando você é o único tira, Malfoy".

"O que é 'tira-bom tira-mau'?". Draco parecia autenticamente confuso.

"Esquece, é coisa de trouxa".

Draco revirou os olhos. "Já sabia".

Harry se inclinou para a frente, desafiador. "O que isso quer dizer?".

Draco apertou os dentes por um momento.Não o irrite se você quer fazer perguntas, ele se lembrou. "Esqueça. Você quer que eu conserte os óculos ou não?".

"Eu posso consertá-los sozinho", Harry disse, obstinadamente.

"Você tem que transformar uma coisa tão simples num maldito debate? Seus óculos estão quebrados e eu me ofereci para consertá-los".

Harry pegou os óculos do colo e os colocou de volta no rosto brutalmente. "Eles estão ótimos", ele disse.

Os óculos caíram de volta em seu colo.

O rosto de Draco se contraiu quando uma risada ameaçou escapar.

Harry tentou franzir a testa. A risada reprimida de Draco deveria ter encorajado, mas quando Harry olhou para os óculos caídos em seu colo e então de volta para Draco, que agora ria abertamente, os cantos de sua boca se curvaram num sorriso meio envergonhado. Ele se pegou rindo secamente; tinha que admitir que era um pouco bobo.

Quando Draco parou de rir, ele finalmente perguntou, "Então, vai me dar os óculos ou não?".

Harry respirou fundo para se acalmar e deixou os ombros relaxarem. "O que eu tenho a perder?".

Levantando uma sobrancelha enquanto se levantava da cadeira, Draco ponderou. Isso mesmo, o que ele tinha a perder? O que qualquer um dos dois tinha a perder? Ele deu um passo em direção à cela, mas então, pensando melhor, arrastou a cadeira atrás de si para sentar perto das grades.

Harry o olhou curiosamente, mas concedeu em inclinar para entregar os óculos pelas grades.

Draco verificou os danos enquanto sentava em sua cadeira. "Você fez um trabalho e tanto neles".

"Eu acho que não causei a maioria dos danos sozinho", Harry disse cinicamente.

Draco concordou com a cabeça enquanto virava os óculos nas mãos antes de anunciar num tom brusco. "Você causou uma parte deles". Ele puxou a varinha e deu uma batidinha de leve nos óculos. "Reparo".

Com um estalido fraco, os óculos se restauraram perfeitamente na mão de Draco. Ele sorriu em aprovação de seu trabalho, e então os entregou de volta a Harry pelas grades.

Colocando os óculos de volta no rosto, ele agradeceu a Draco com um aceno de cabeça silencioso. Não era muito, mas era um reconhecimento. "O que você quer dizer, que eu causei uma parte dos danos sozinho?", ele perguntou, tentando manter a voz indiferente, para disfarçar a curiosidade e ligeira confusão.

Draco inclinou a cabeça. "Você não se lembra? Se mexendo e revirando a noite toda enquanto dormia, você provavelmente rolou por cima deles algumas vezes. Sobre o que você estava sonhando?".

Se Harry tinha começado a relaxar, ele não estava relaxando agora. Suas costas e ombros se enrijeceram e sua expressão ficou fria. "Quê?", ele sussurou.

Claro, Harry sabia que falava durante o sono. Ambos, Dudley e Ron haviam confirmado isso, mas ainda assim, que diabos ele poderia ter dito na frente de Malfoy? Preferiria deixar Dudley ficar perto dele à noite com um gravador do que deixar Malfoy ouvir uma palavra sequer de seus pensamentos privados, mas não havia nada que pudesse fazer. Não importa o quanto tentasse, eventualmente cairia no sono, expondo seus pensamentos inconscientemente para Malfoy, preso como algum animal em exposição para o benefício de seu captor. Agora realmente sabia como a cobra do zoológico se sentira.

"Você estava falando enquanto dormia". Draco continuou, se lembrando de tratar o assunto devagar se quisesse alguma resposta. "Se contorcendo bem violentamente também, devo acrescentar".

"Bom, o chão de um calabouço não é exatamente o melhor lugar para doces sonhos, não é verdade?".

"Gostaria de um ursinho de pelúcia, Potter?". Ele não pôde resistir.

"Cala a boca, Malfoy!".

"Que sensível!". Draco se inclinou para trás em surpresa fingida.

"O que você esperava, Malfoy?", Harry rosnou. "Que eu cuspisse os meus sonhos todos para você? Sem chance. Eu fiz muito disso na aula da Trelawney e tudo o que ela fez foi me lembrar de como minha morte estava perto. Bom, agora já sabemos a resposta para essa pergunta, não?".

Draco estremeceu por dentro. Aproximação errada. Definitivamente a aproximação errada. Mediu as próximas palavras cuidadosamente. "Bom, visto que você estava gritando nomes de pessoas a noite toda, eu vou admitir que estou um pouco curioso sobre o que você estava sonhando, para juntar com o quem".

"Nomes? Eu não me lembro", Harry replicou cautelosamente.

Draco observou o rosto impassível de Harry com os olhos estreitos. Um empurrãozinho, talvez? "Alguma coisa sobre a sua mãe...".

"NUNCA fale sobre os meus pais", Harry disse com tanta força que Draco se ajeitou na cadeira, verbalmente estupefato.

"Deus, Potter, eu não estava a insultando, eu só estava tentando refrescar a sua memória, que aparentemente é bem curta".

"Minha memória é ótima, muito obrigado".

"Era pelo Sirius Black que você estava gritando? Ele não é...?".

"CALA A BOCA!", Harry berrou, trincando os dentes como um animal ferido, e pela primeira vez desde que tinha sido capturado, mostrando algum traço de fraqueza emocional. "Só CALA A BOCA sobre ele! Você não tem nenhum direito... Você não pode dizer...". Sua voz se partiu.

Sentado ali com as palavras lhe faltando, Harry tentou afastar os pensamentos para longe, tentou esquecer. Não havia nada que pudesse fazer, nem por Malfoy nem por Sirius. Ambos estavam atualmente fora de seu alcance, ainda que ele com certeza os trocaria de lugar, se pudesse. Como tudo o mais, toda a sua vida, só o que ele podia fazer era continuar forte e enfrentar isso sozinho. No entanto, uma coisa era certa, que ele não ia ter um ataque de nervos na frente de Malfoy. Era a última coisa que faria. Continuara firme até agora; não ia desistir. Nunca ia desistir. Nem agora, nem nunca. Acalmou sua respiração e olhou para a parede mais distante, desejando poder ser invisível, esperando para Malfoy aproveitar a oportunidade de sua fraqueza repentina e atacar.

Draco, no entanto, também se achava numa falta de palavras, mas por uma razão totalmente diferente. Geralmente queria deixar Harry triste, queria irritá-lo, mas isso era diferente. Dessa vez, não tinha querido fazê-lo, e tinha falhado completamente em sua tentativa de não irritar o garoto.

Claro, Draco sabia que Black havia morrido, ainda que não tivesse sido do conhecimento público; Black tinha sido parente de sua mãe, ainda que um que tivesse sido deserdado. Ttambém sabia que Black tinha sido amigo dos Potter e, de algum lugar em sua memória, estava vagamente ciente de que Sirius era o padrinho de Harry. Era isso? Potter ainda estava de luto? Mas não tinha sido Black quem traíra os Potter? Espere, não, esse era o conhecimento público. Seu pai havia mencionado uma vez que Black tinha sido acusado injustamente, o que fazia sentido, como o homem nunca seguira Voldemort. Potter sabia de tudo isso? Era ainda mais uma perda de família para o Menino Que Sobreviveu? Estranho.

A linha de raciocínio de Draco foi interrompida pela chegada do café da manhã.

"Bom dia, Senhor Malfoy, senhor!". Biddy cumprimentou alegremente. "Aqui está seu café da manhã, Senhor Malfoy, senhor! E um bilhete da Senhora Malfoy". O elfo doméstico indicou um pequeno rolo de pergaminho na bandeja. "O Senhor Malfoy vai precisar de mais alguma coisa, senhor?".

Draco sacudiu a cabeça e fez um gesto com a mão para dispensar o elfo doméstico. Com uma curvatura profunda, Biddy deixou o calabouço. Olhando brevemente para Potter, Draco abriu a carta.

"Draco, ainda que oficialmente eu ainda tenha que declarar não saber onde você está, o Ministério naturalmente suspeita, e espero que cheguem para revistar a mansão amanhã. Seu pai chegará esta noite. Você acompanhará o prisioneiro até a base de operações do Lord das Trevas ao norte, e vai continuar a ter a honra de guardar o prisioneiro. Dê a Biddy uma lista de coisas que vai precisar enquanto estiver lá. Eu estou designando-a completamente para você de agora em diante, para cuidar das suas necessidades. Você deixou seu pai e eu muito orgulhosos".

Nenhum carinho, apenas negócios. Não era uma surpresa. Era o jeito de sua mãe. Para ela, mencionar seu orgulho de Draco era um elogio extravagante. Provavelmente não a veria antes de partir com Potter. Deixando isso de lado, Draco se concentrou no assunto principal.

A ordem de evacuar a Mansão não era surpresa. Tinha que acontecer, Draco sabia. Seu pai não estivera na mansão e, com Draco e Harry sendo as duas pessoas desaparecidas, obviamente a Mansão Malfoy seria revistada e assim Potter teria que ser movido. Não estivera certo de que seria permitido continuar suas tarefas de guarda uma vez que Potter fosse mudado de lugar e agora estava grato por isso, por mais de um motivo. Primeiro, significava que ganhara pelo menos um fio de aceitação entre os seguidores do Lord das Trevas, mas também e em sua mente, mais importante, teria a oportunidade contínua de falar com Potter.

Enrolou a nota de novo e a colocou no chão. Um segundo depois, ela rompeu em chamas.

Harry o olhou com curiosidade.

"Nenhuma evidência". Draco tentou explicar.

Potter meramente resmungou em resposta.

"Certo, então", Draco murmurou para si mesmo, enquanto pegou a bandeja de café da manhã e começou a empilhar comida em dois pratos.

"Como você sabia?", Harry perguntou calmamente.

Draco levantou a cabeça. "Sobre o quê?".

"Sobre... Sirius". Sua voz estava fraca e se engasgou na última palavra. "Não foi de conhecimento público".

"Bom". Draco abaixou o prato. "Minha família tende a ter informação de dentro, como você sabe. Sempre teve. Além do mais, mesmo que ele fosse rotulado como um traidor, era um parente distante da minha mãe".

"Distante", Harry bufou com desprezo. "Eles eram primos de primeiro grau. Isso não é exatamente distante, ainda que eu diga queele merecia uma família melhor. A idéia de ser parente seu".

"Meu?".

"Não seja estúpido. Se ele era primo da sua mãe, então você também é parente dele, sabe?".

"Suponho que sim. Nunca me preocupei em pensar nisso".

"Claro que você nunca pensou nisso", Harry disse friamente.

"Ele era um traidor de sua linhagem, então realmente não importa". Draco não gostava do fato de que não tinha certeza de onde essa conversa estava chegando, havia muitas possibilidades, e nenhuma era exatamente agradável.

"Eu devia ter esperado uma atitude assim de você". Harry cruzou os braços em cima do peito. "Para pessoas como você, família é uma coisa que se pode descartar no instante em que se torna inconveniente, ou ameaça manchar sua maldita imagem".

Claro, esse conceito era familiar demais para Harry, tendo sido dito toda sua vida que não era mais do que um incômodo, um peso para seus tios. Ele não servia para nada, e devia ter sido ignorado no dia em que foi posto à sua porta. Escondido do mundo, verbalmente repudiado. Agora, era fácil para Harry ignorar a dor que atingiria a maioria das pessoas por pensar que sua família não se importava nem um pouco com elas. Ele crescera com isso. Malfoy não.

Draco ficou sentado, com o rosto impassível, mas interiormente estupefato. "Não, não é assim".

"Não, Malfoy. É exatamente assim. Se você não teve a metade da lavagem cerebral que eu achei que tivesse, veria claramente".

"Ele era um traidor". Draco repetiu vagamente, mas por baixo disso, sabia que Harry estava certo, até o último detalhe. A honra do nome da família deve ficar acima de qualquer indivíduo. Era assim que as coisas funcionavam. No entanto, do jeito que Harry dissera, o conceito tomou uma nova dimensão na mente de Draco.

"Ele tinha suas próprias idéias, Malfoy. A maior parte do problema parece ser que ele realmente se importava com as pessoas. Isso o tornava uma inconveniência, uma mancha, e então sua própria família achou melhor limpar o nome dele da árvore genealógica. É assim que é com pessoas como você, Malfoy? Eles deserdam os parentes no momento em que se tornam um inconveniente?".

A boca de Draco parecia seca. Ele se recostou lentamente, pensando. Claro que uma pessoa que trouxesse desonra a família seria deserdado. Excluído, porque as pessoas não tinham nenhum valor além sua utilidade particular ao nome da família. Draco tentou afastar o pensamento, mas continuou borbulhando embaixo da superfície. Havia tentado ignorar tantas coisas nos últimos dias que seu cérebro não podia mais esquecer.

Seu julgamento estava chegando e ele podia sentir. Se hesitasse, se cometesse um erro, se falhasse, seria deixado de lado sem consideração? Insignificante para sua família? Não... Seu pai nunca faria isso... Faria? Além disso, ele era um verdadeiro Malfoy. Não hesitaria, não cometeria nenhum erro.

Deu à idéia um último empurrão para fora do caminho e respondeu. "Você não saberia nada sobre preservar a honra de uma linhagem. Algumas pessoas não merecem os sobrenomes que carregam, não trabalharam por eles. Eu, no entanto, sim. Minha família também. Um nome pode ser um peso".

Harry estreitou os olhos para Draco e lhe deu um sorriso fino e maldoso. "Tão orgulhoso de ser um Malfoy, não?".

Draco levantou o queixo. "Absolutamente. Meu sobrenome tem uma herança orgulhosa. Ele realmente significa alguma coisa".

"E o que exatamente o nome Malfoy significa?". Ele parecia positivamente malicioso.

"As melhores tradições bruxas, pureza do sangue, honra...".

"Que tradição". Harry o interrompeu com uma expressão de escárnio. "Para que serve uma tradição de família se a família não importa?".

Sem querer ouvir isso nem um pouco, Draco replicou. "Importa muito! Mas isso não significa que você não tenha que lutar pelo seu lugar"..

"Ah, entendi". Harry acenou a cabeça lentamente, como se ponderasse a idéia profundamente. "Então Sirius não lutou pelo lugar dele nos seus padrões, não correspondeu às expectativas, então ele não tem valor. Qualquer um que não seja o modelo perfeito de um sonserino puro sangue que odeia trouxas e venera Voldemort não vale nada certo?".

"Você é um maldito grifinório de mais, Potter. Cavalheiro, defendendo todo mundo".

"Ah, então suponho que seja uma coisa de sonserino não se importar com ninguém além de si mesmo?".

"Alguma coisa assim", Draco respondeu secamente. "E você é um grifinório. Eu não esperaria que pudesse entender o que significa defender o nome da família".

Harry congelou. O engraçado era que eleentendia. Ele odiava o jeito que famílias como os Malfoy funcionavam, ele nunca faria parte em algo assim, mas ele entendia o que Draco estava dizendo. Ele tinha orgulho do nome de sua família também. Ele o defendera... E tinha se magoado muito quando percebera que nem o nome Potter estava imaculado.

Olhando para o pouco que sabia de sua família, lembrou-se de seus próprios pensamentos confusos quando entrara na memória de Snape. Pensando no que seu pai e Sirius tinham feito, tinha quase vergonha de seu comportamento, de pensar que Snape odiava o nome Potter por causa das ações de seu pai. Ações que pareciam estranhamente sonserinas à sua maneira. Muito sonserinas, na verdade. Ele piscou, engoliu. "Eu quase não fui", ele sussurrou.

"Do que você está falando, Potter?".

"Um grifinório. Eu quase não fui um grifinório". Sua cabeça se inclinou para baixo. Ele parecia quase envergonhado de si mesmo.

Com isso, a boca de Draco se abriu com surpresa, e então ele lentamente se inclinou para frente, observando Harry muito próximo. "Como você quase podia não estar numa certa casa? O Chapéu Seletor apenas escolhe uma baseada no que você tem, ou não tem, entre as orelhas".

"Ele ia me botar em outra casa e eu tinha ouvido algumas coisas sobre essa casa, e não queria ter nada a ver com ela".

"Potter, você não vai me dizer o que eu acho que você vai me dizer".

Harry concordou com a cabeça e sua voz se tornou ligeiramente distante, como se puxando as palavras de uma vaga lembrança, o que claro, ele estava. "Você poderia ser grande, sabe, está tudo aqui na sua cabeça e a Sonserina lhe ajudaria a alcançar essa grandeza". Ele citou. "Foi isso que o Chapéu Seletor disse para mim".

"Então porque diabos ele te botou na Grifinória?".

"Eu pedi para ele não me colocar na Sonserina".

"Por quê?". A voz de Draco era uma mistura de confusão e descrença.

"Por duas razões, acho". Harry suspirou e passou os braços em volta das pernas a sua frente, olhando para o chão. "Primeiro, eu tinha ouvido que todos os bruxos que ficaram maus tinham sido da Sonserina. Segundo...". Ele olhou para Draco, "Você já tinha sido mandado para essa casa. Prioridade não necessariamente nessa ordem".

Draco olhou de volta para Harry, emudecido. Não havia razão para acreditar que Potter estivesse mentindo. Ele realmente parecia envergonhado da idéia de pertencer à Sonserina, como se tal coisa fosse uma vergonha. O fato de que Draco era parte do motivo pelo qual Harry achava a idéia de ser um sonserino tão repulsiva só tornava a idéia mais irritante. Simultaneamente, a idéia de que os dois quase tinham estado na mesma casa era... Era...

O Chapéu Seletor não mentia e sabia coisas sobre as pessoas, coisas que elas mesmas não sabiam sobre si e, por alguma razão, ele tinha achado que Harry pertencia à Sonserina, como Draco. Não era um pensamento agradável, mas respondeu a ao menos uma das perguntas pressionando sua mente. Ele e Potter não eram tão diferentes, não de verdade. Agora que possuía a resposta, não tinha certeza se gostava dela ou não. Do mesmo jeito, as implicações eram inegáveis.

Olhando para Harry agora, Draco era forçado a reconhecer o garoto como algo que ele nunca vira antes ou, no mínimo, nunca se deixara reconhecer; Potter era um igual. Nunca admitiria em voz alta, obviamente, mas sabia. Isso também forçava uma carta que Draco percebeu-se jogando mais freqüentemente do que gostava nesses últimos dias: respeito.

Em outro canto do cérebro de Draco, a outra parte do que Harry dissera estava começando a ressoar desconfortavelmente. Tinha feito Harry odiar a Sonserina antes mesmo de ser selecionado... E isso o incomodava. Ele não era realmente tão ofensivo, era? "Você mal me conhecia, e já tinha decidido que me odiava. Não é um pouco crítico da sua parte?".

Harry contraiu os lábios. "Da primeira vez que eu te encontrei, só o que você fez foram comentários maldosos sobre Hagrid e como todos que não eram puro sangue não deveriam viver, muito menos ir à escola. Você se vangloriou de como ia entrar no time de Quadribol, e então perguntou meu sobrenome como se isso decidisse tudo sobre mim".

"Isso... Isso foi na Madame Malkin. Você... Realmente se lembra disso?".

"Parece que a minha memória não é tão curta, afinal".

"Não, acho que não". Draco concordou lentamente com a cabeça. "Eu também me lembro".

O breve silêncio que se seguiu foi a admissão de uma coisa que eles sempre souberam. Desde o começo, estabeleceram-se como rivais, como homens marcados. Ninguém afetava Draco como Harry, ninguém fazia o sangue de Harry ferver como Draco. Estiveram lá desde o começo, medindo um ao outro, sua rivalidade servindo como uma companhia quase tangível, constante.

De um jeito perverso, Draco percebeu que se perdesse isso, sentiria falta, como se uma parte de si mesmo se perdesse com a separação. Tinha brigado com Harry por muito tempo. Ficou sem fôlego ao se lembrar de que ia mesmo perder a companhia; Harry logo iria morrer nas mãos do Lord das Trevas. Era sua vitória, Draco se lembrou. Devia estar excitado, mas agora não tinha certeza.

Era loucura. Ele tinha vencido. Era o que sempre quisera, desde o dia em que estendera sua mão a Potter, somente para ser desprezado.

Desprezado. Certo. Talvez Potter fosse mais sonserino do que queria admitir. Naquele momento, Harry tinha preparado a balança da luta entre eles com uma carga muito pesada. A escala que balanceava a luta pelo poder tinha finalmente se inclinado, e era somente agora, olhando para trás, que Draco percebia o quão precariamente tinha se equilibrado, que oponentes dignos eles eram um para o outro.

Mas não tinha sido Draco realmente controlando esta batalha. Ele não tinha vencido. Era a vitória definitiva de Voldemort, enquanto Draco ainda lutava contra uma rivalidade infantil. Harry era como um rei que tinha sido descuidadamente derrubado antes do xeque-mate, sem empate. Voldemort tinha as peças poderosas, e Draco era o peão usado para encurralar Harry. Nada mais. Parecia errado ver terminar assim, que alguma coisa estava faltando. Parecia vazio.

Draco suspirou, olhou para a bandeja do café, e distraidamente perguntou, "Chá?".

"Eu já te disse", Harry respondeu suavemente. "Eu não gosto...".

"De chá sem açúcar". Draco terminou por ele. "Você já me disse. Só estava sendo educado".

"Por que você não bebe?".

Draco se permitiu um pequeno sorriso quando olhou para Harry. "Porque eu também não gosto sem açúcar".

Harry olhou de volta para Draco com mais do que um pouco de incredulidade, mas finalmente se permitiu sorrir em divertimento. "Você podia chamar Biddy e pedir açúcar, sabe".

"Agora, porque eu não pensei nisso?", Draco murmurou sarcasticamente.

Harry inclinou a cabeça para trás. "Muito ocupado me atormentando, provavelmente".

"Consegue pensar em um passatempo melhor?". Draco deu um sorriso afetado.

"Honestamente...", Harry disse em voz baixa.

"Não responda a isso". Draco serviu um copo de suco de abóbora. "Marmelada ou geléia de amora?".

"Marmelada", Harry respondeu facilmente.

"Não está lutando contra cada coisa que eu faço agora, não é?". Curiosidade verdadeira se escondia numa ponta de sarcasmo.

Harry cruzou os braços sobre o peito, recostando-se ligeiramente. "Por que me incomodar?".

Draco sentiu um sentimento de esperança inexplicavelmente forte. Bom, talvez não totalmente inexplicável, ele argumentou consigo mesmo. Talvez Potter estivesse amolecendo. A idéia era bem agradável. "Começando a confiar em mim ou coisa assim, Potter?", ele perguntou.

"Não. Eu nem gosto de você".

Ainda que nada óbvio tivesse mudado no comportamento de Harry, o motivo oculto em suas palavras fez o estômago de Draco se revirar como se um tapete tivesse sido rapidamente puxado debaixo dele. Se ele sentia que estava ganhando terreno antes, a sensação foi embora num piscar de olhos. "Potter, eu acho que fui o mais cordial possível sob essas circunstâncias".

"Você entendeu errado. Você me entregou a Voldemort para morrer e não pense que eu não estou obviamente ciente disso. Cada vez que eu olho para sua cara por essas barras, eu lembro que você me pôs aqui".

"Caralho, Potter! Eu só estou fazendo o meu trabalho!". Sem reconsiderar as implicações de suas palavras, Draco continuou. "Não é como se eu tivesse uma escolha no assunto! É o trabalho do Lord das Trevas, não minha responsabilidade. Eu não estou matando ninguém!".

A voz firme de Harry era um contraste alarmante contra a tirada frenética de Draco. "Você realmente acha que não é sua responsabilidade? Cresça e desista da sua ilusão, Malfoy. Meu sangue está nas suas mãos agora, não importa de que lado você olhe. Isso é uma coisa que você não pode manter na consciência pelo resto da vida, isso se você tem uma consciência. Do que, francamente, eu duvido".

Draco olhou para as mãos e rapidamente olhou para longe de novo, apertando em punhos e cerrando os dentes.

"Se preocupar com a honra da família", Harry disse num tom falsamente calmo. "É nisso que você é bom. Eu tenho problemas maiores, porque se eu morrer nas mãos de Voldemort, então todo mundo com quem eu me importo vai junto. Bom, os que ele ainda não matou. Eu já me sinto responsável por mortes suficientes, mas desta vez você começou. Você é a causa. No momento em que você me apunhalou no ombro, aceitou a responsabilidade não só pela minha morte, mas pela deles também. Espero que esteja orgulhoso de si mesmo".

Harry ficou em silêncio por um momento e olhou para baixo, não tanto em pensamentos profundos, simplesmente longe dali.

Draco mordeu a língua. Ele não tinha matado ninguém. Ele não. Claro, algum dia, como Comensal da Morte, ele podia matar alguns trouxas e sangues ruins sem remorso, mas ele nunca tinha realmente pensado nisso. Era uma coisa em um futuro distante e não era real. Mas isso, isso era sangue em suas mãos... Suas mãos. A faca, em suas mãos, apunhalando, envenenando, matando. Isso era aqui, isso era agora.

Finalmente o próprio Harry quebrou o silêncio. "Ainda assim, você estava certo em uma coisa. Morrer de fome não vai me fazer bem nenhum". Sua voz era enganosamente casual, mas Draco podia sentir a raiva e amargura contidas com força abaixo da superfície.

Justo quando as coisas tinham parecido começar a relaxar... Draco fechou os olhos. Ele não podia suportar olhar para Harry naquele momento. Podia ter salvado o garoto de ter estado perto da morte depois que Voldemort tinha acabado de brincar com ele, mas Draco o colocara lá em primeiro lugar. Odiava admitir, mas não tinha escolha. Potter estava certo. Amaldiçoado a morrer nas mãos de Voldemort e era Draco quem segurava as correntes.

Mas pelo amor de Deus, o que ele estava pensando? Era simplesmente seu trabalho! Ele, Draco Malfoy, estava só cumprindo sua tarefa. Como Potter podia culpá-lo por isso? Uma vez que esta bagunça estivesse terminada, a confusão iria desaparecer, seu destino marcado pelas tradições estaria limpo de novo, e ele poderia seguir seu caminho com a consciência igualmente limpa. E sim, ele tinha uma consciência, droga, mas era uma consciência de Malfoy. Ele ainda era um Malfoy. Um Malfoy orgulhoso.

No entanto, não era o Malfoy de dentro de si que de repente se pegou dizendo. "Sinto muito".

"Não, não sente". A resposta de Harry não era dura ou amarga, só uma simples constatação de um fato, mas de algum jeito, tornou tudo pior.

"Eu disse, não?".

"Já ouviu a frase 'ações falam mais alto que palavras', Malfoy? Você não sente muito. Não acho nem que você seja capaz de sentir muito".

"Então que diabos você quer, Potter?". Draco levantou as mãos em exasperação.

"Acho que seria óbvio, até para você. Eu sei que você não pode fazer. Você nunca conseguiria, porque seu pescoço é mais importante do que o de qualquer outro".

Draco engoliu contra sua garganta seca e tentou sua melhor expressão de escárnio. "Ah, e eu suponho que deveria colocar o seupescoço antes do meu?".

"Não só o meu, seu idiota! O de qualquer um! Quando Hogwarts for destruída, e será se Voldemort fizer as coisas do jeito dele, quantos dos seus amigos vão morrer? Ou você não tem amigos de verdade? São só pessoas que você usa, no verdadeiro estilo Malfoy? Eles significam alguma coisa para você, Malfoy?".

A mente de Draco voou até seus colegas de classe. Claro, eles eram seus companheiros de escola, mas seus amigos? Ele havia crescido com Crabbe e Goyle, e havia conhecido alguns de seus colegas da casa desde que eram crianças, mas o quão próximo realmente era a qualquer um deles? Num nível pessoal? Proximidade nunca fora parte da equação com seus conhecidos, mas ainda assim, não queria que eles morressem. A possibilidade de que eles estivessem em risco nunca havia cruzado sua mente, mas agora parecia inevitável.

Harry examinou o olhar assombrado no rosto de Draco com fria aprovação. "Não importa muito mesmo. Você é covarde demais para se arriscar por qualquer um deles, mesmo se importasse. Isso te privaria da satisfação imensurável de me ver morto. Sem sombra de dúvida, isso é o mais importante. Você não pode provar que sente muito. Mesmo se sentir; você não pode fazer isso".

Draco correu o risco e se permitiu olhar para Harry de novo. Aqueles olhos estavam terrivelmente expressivos, provocando-o, desafiando-o, explicando para ele mais precisamente do que com palavras todas as centenas de formas em que ele era covarde, mas desta vez, também estavam procurando-o. Era quase indescritível, mas Draco conhecia o rosto de Harry quase tão bem quanto o seu próprio, e podia ver. As sobrancelhas de Potter estavam levemente franzidas, e sua boca estava repuxada mais do que deveria. Por baixo de sua expressão de desafio familiar, Draco podia ver que Harry o estava implorando, esperando além da razão, que Draco fosse dizer que ele estava errado. De algum jeito, Draco podia aceitar o desafio caloroso, podia querer provar que sentia muito. Jogo mental ou não, Draco se sentiu quase desejando que pudesse... Mas não.

Ele abaixou o olhar. "Você está certo. Eu não posso. Eu não posso ser uma coisa que não sou Potter, então não tente se enganar".

"Eu não estou enganando a ninguém, Malfoy. Eu sei que você não pode". Ele falou sem rodeios, e desta vez Draco não ousou procurar os olhos de Harry por outra pista do que ele estava sentindo. Draco não tinha certeza se imaginara o traço de desapontamento em sua voz.

Harry continuou. "Mas não se engane pensando que pode colocar a culpa naquele maldito e régio nome dos Malfoy. Suas escolhas te fazem o que você é". Ele riu amargamente. "Você disse que não era sua escolha. Besteira, Malfoy. Mesmo escolhendo um caminho diferente, você toma a decisão de ser o que é. Eu escolhi não ser um sonserino. Para você, Sonserina era exatamente o que você queria, sua escolha. Eu fiz as escolhas que queria, não importa se vou viver ou morrer. Suas escolhas... São completamente feitas por você".

Draco fechou os olhos contra a torrente de emoções tomando conta deles. Claro que ele queria estar na Sonserina, a mais nobre das casas. Sangues puros, ricos, poderosos e um Malfoy para completar, não havia outro lugar onde pertencesse. Nenhum outro lugar. A possibilidade de que pudesse ficar em qualquer outro lugar nunca passara por sua cabeça, assim como seu destino de seguir a tradição da família nunca tinha entrado em questão. Nunca tinha lhe ocorrido que algum tipo de escolha ativa estava envolvida, e a possibilidade não era confortável.

Sem abrir os olhos, ele gritou. "Biddy!".

O elfo doméstico apareceu com um estalido. "Sim senhor, Senhor Malfoy, senhor! O que Biddy pode fazer pelo senhor, Senhor Malfoy?".

"Biddy, por favor me traga um açucareiro e uma colher extra".

"Sim senhor, Senhor Malfoy, senhor!".

Ambos os garotos esperaram em silêncio absoluto até que Biddy retornou. "O Senhor Malfoy está querendo mais alguma coisa de Biddy, senhor?".

Draco considerou a pergunta. "Sim, na verdade. Uma coisa. Comece a preparar uma mala com as minhas capas e vestes mais quentes e umas mais frescas, mais as minhas necessidades básicas para higiene. Eu te chamo mais tarde com uma lista de outras coisas particulares que eu preciso, mas tudo deve estar preparado para hoje à noite".

Biddy se curvou obedientemente. "Sim senhor, Senhor Malfoy, senhor!".

"Você pode ir. Obrigado".

Biddy desapareceu, ainda curvada.

Sem olhar para Harry, Draco perguntou. "Uma colher ou duas?".

Harry hesitou. Malfoy estava evitando aprofundar a discussão do assunto, o que só podia significar que ele estava pensando sobre o que dissera. Parecia demais colocar alguma esperança na moral de Draco Malfoy, mas no momento, era a única chance que ele tinha. De fato, quase parecia ser uma chance muito boa, julgando pelo que ele podia ver. Draco estava curvado sobre o açucareiro, visivelmente concentrado no chá, mas qualquer outra pista que Harry pudesse detectar nos modos do garoto gritavam que ele estava travando uma batalha interior com si mesmo. Agora, Harry podia somente se perguntar o que venceria aquela batalha. Enquanto isso, o chá estava começando a cheirar bem. "Duas".

Draco serviu as xícaras de chá e então colocou duas colheres de açúcar em cada uma. Ele carregou uma das xícaras e um prato de café da manhã para a fenda nas grades, e esperou Harry encontrá-lo.

Harry levou seu tempo para se levantar antes de andar com passos lentos e medidos até onde Malfoy o esperava. Quanto pegou seu café da manhã, examinou o rosto de Draco à procura de pistas, dicas, e qualquer sinal de que o que ele dissera esivesse penetrando. Estava.

Ainda que encoberta por uma máscara bem praticada, certamente estava lá. A pergunta era: seria suficiente? Alguma sobra de humanidade, se inflamada corretamente, podia acender algo que causaria o garoto a ceder. Malfoy, ele podia dizer, estava simultaneamente procurando-o, com uma coisa em mente.

Como se respondendo a pergunta não dita, Harry disse simplesmente, "Não, eu não desisti".

Pela expressão no rosto de Draco, aquilo era exatamente o que ele estivera se perguntando.

"Você tem me estudado esse tempo todo... E não pareça tão surpreso, eu sei que você estava... Então se você aprendeu qualquer coisa sobre mim, você já devia saber que eu não desisto facilmente". Harry deu as costas para as grades e começou a andar vagarosamente para seu lugar, ainda falando. "Voldemort me amarrou numa lápide e eu não desisti. Rabicho tinha cortado meu braço e tirado meu sangue para ressuscitar o corpo de Voldemort, e eu não desisti".

Ele parou na parede, ficando em seu lugar usual, mas não se virou. "Voldemort lançou a maldição da morte em mim, pela segunda vez na minha vida, e, mesmo enquanto o feitiço vinha na minha direção, eu não desisti. É a única razão pela qual estou vivo agora. Então, até o último milésimo de segundo do maldito eclipse, quer a lua desapareça e leve a minha vida com ela ou não, eu ainda não vou desistir".

Draco, que estava congelado no lugar, as mãos ainda na fenda entre as barras por onde Harry pegara seu café da manhã, finalmente abaixou os braços. "Eu nunca esperei que desistisse". Ele admitiu. "Acho que ficaria desapontado se você tivesse".

Harry se virou. Abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas pareceu reconsiderar. Não precisava perguntar o que Malfoy queria dizer. Entendia perfeitamente. Deixando um sorriso suave repuxar os cantos de seus lábios, ele inclinou a cabeça em direção a Draco. "Obrigado pelo chá". Ele tomou um gole. "O suficiente de açúcar, também".

Draco levantou as sobrancelhas na mudança inesperada da conversa de morte nas mãos de Voldemort para chá, mas finalmente se permitiu sorrir de volta. Ele retornou à bandeja de café da manhã, pegou sua xícara e a levantou. "O que me diz? Ao chá com açúcar?".

E à Sonserina e à Grifinória, a nunca desistir, às escolhas boas e escolhas ruins, a cada semelhança que nós temos e cada diferença que criamos?

Harry levantou a própria xícara. "Ao chá com açúcar".

Os garotos viraram as xícaras ao mesmo tempo. Quando Draco abaixou a sua e olhou pela borda, Harry já estava se colocando contra a parede. Ele equilibrou o prato nos joelhos e colocou a xícara a seu lado, então começou a atacar o café da manhã com voracidade.

"Nenhum pouco com fome, não é?".

Harry falou através de uma boca cheia de torrada. "Eu não como desde o jantar da noite antes de você me seqüestrar. Estou faminto".

"Ah, é", Draco disse em voz baixa enquanto se recostava em sua cadeira e começava a cutucar seu próprio café.

Alguns minutos se passaram com nada além do som da louça se chocando antes de Harry cortar o silêncio. "Então, por que você mandou Biddy arrumar uma mala? Vai a algum lugar?".

"Vamos nos mudar para o quartel general do Lord das Trevas", Draco disse simplesmente. "Sabíamos que era só uma questão de tempo antes que eles começassem a procurar aqui de qualquer jeito, e o quartel general é imapeável, então eles não nos acharão lá".

Harry se recostou contra a parede. "Suponho que faz sentido. Era sobre isso que era a carta?".

Draco lhe lançou um sorriso entre escárnio e maldade. "Acho que você é bem observador. É, era isso".

"Sua mãe te enviou?".

"É. E daí?".

"Você está na mesma casa que ela. Porque ela simplesmente não desceu para te ver? Quer dizer, ela não esteve aqui nenhuma vez desde que você chegou, não que eu tenha visto. Ela se não se importa em te ver?". A pergunta carregava traços de pena, o que era a última coisa que Draco queria de seu prisioneiro, mas, ao mesmo tempo, tocou num ponto sensível.

"Ela não gosta de 'lugares horríveis como calabouços'. Era mais conveniente mandar um bilhete".

"Conveniente", Harry murmurou suavemente. "É, muito inconveniente descer para ver um membro da família dela".

Essa era uma conversa que Draco não queria começar de novo. "Mais chá?".

Harry inclinou a cabeça, divertido pela necessidade repentina de Draco de acabar com o assunto, então sorriu. "Claro. Duas colheres de açúcar, por favor".

Draco não se mexeu. Estava muito ocupado observando o rosto de Harry. Draco raramente via um sorriso que não fosse carregado de escárnio ou maldoso ou cheio de satisfação arrogante, como se as pessoas a sua volta achassem que era abaixo de sua dignidade sorrir direito. Os poucos sorrisos verdadeiros que tinha visto certamente não tinham sido dirigidos a ele. Jovialidade não era uma coisa comum entre as pessoas de seu nível e, nunca tendo a experimentado, é impossível sentir falta de uma coisa que nunca tivera. No entanto, Potter tinha acabado de sorrir abertamente pare ele. Sem zombaria, sem maldade, só um sorriso, quase como um amigo. Era uma coisa linda e agora Draco percebia o que estava perdendo.

O sorriso de Draco se fechou um pouco. "Qual é o problema?".

A questão acordou Draco de seu transe. "Nada, não tem nada errado. Me dê a sua xícara". Ele pegou a xícara de Harry, encheu-a, colocou o açúcar e a passou de volta pelas grades sem uma única palavra.

Harry o olhou curiosamente enquanto aceitava a xícara de chá, e a testou com um gole. "Obrigado", ele disse, ainda observando Draco.

Harry tinha quase esvaziado a xícara quando Draco finalmente falou de novo.

"Você já teve uma namorada?".

Harry engasgou no último gole de chá, cuspindo e tossindo. "Quê?".

"Eu perguntei se você já teve uma namorada. Eu te vi levar aquela grifinória para o Baile de Inverno no nosso quarto ano, mas você não parecia muito interessado nela".

Harry se assustou com a mudança de assunto brusca. "De onde essa conversa saiu?".

"Estou puxando assunto, Potter". Draco expirou profundamente em frustração. "É o que pessoas educadas fazem quando não tem mais nada a dizer. Em outras palavras, estou tentando ter uma conversa civilizada com você. Se isso for muito difícil, como tomar chá sem babar na camisa, me avise".

Harry rapidamente enxugou o queixo, fazendo Draco rir. "Não", ele finalmente disse. "Não, eu nunca tive uma namorada de verdade".

"Isso é bem engraçado, para o famoso Harry Potter".

"Claro". Ele torceu o nariz. "Especialmente considerando que eu sobrevivi por meses de controvérsia no meu quarto ano por uma suposta namorada que eu nunca tive. É quase irônico, pensando bem".

"Você não saiu com aquela corvinal ano passado?".

"Nem me lembre disso".

Draco riu. "Foi tão ruim assim?".

Harry olhou para Draco lamentavelmente. "Pior".

Eles riram e, depois de um momento, ambos os garotos esqueceram que havia barras de ferro os separando, mas foi Harry que finalmente recuperou a razão. "Não era isso que você queria me perguntar, era?".

O sorriso de Draco se fechou. "Você está certo, não era"..

"Então vá em frente e pergunte. Você me tem como uma audiência cativa, então pode perguntar. O que você tem a perder, lembra?".

Draco mordeu o lábio inferior. "Eu queria saber onde você conseguiu a cicatriz em seu braço. Não a do basilisco. A outra. A que você não queria que eu visse".

"Ah", Harry disse, neutro. "Entendi. A grande charada, só o que você queria era satisfazer a sua curiosidade. Estou certo, Malfoy? Pois bem, me permita te divertir".

Ele respirou fundo, se acalmando. "Eu ganhei essa na noite em que Voldemort recuperou seu corpo. Ele estava usando algum tipo de feitiço que requeria o sangue de um inimigo para ressucitá-lo. Suponho que eu sempre tenha sido o inimigo ideal. Então, enquanto eu estava amarrado numa lápide, amordaçado, Rabicho pegou um punhal e cortou meu braço para tirar o sangue. Essa cicatriz é uma lembrança do meu fracasso. Voldemort voltou, e não havia nada que eu pudesse fazer, amarrado como estava. Me lembra de que Cedric morreu e eu não pude impedir. Acima de tudo, me lembra das mortes que provavelmente ainda estão por vir, exatamente como essa outra cicatriz...". Ele apontou para a testa. "...Me lembra das mortes do passado".

Draco encarou-o, abertamente chocado. Sua boca se moveu lentamente, como se quisesse dizer alguma coisa, mas ele não tinha palavras.

"Era isso que você queria saber? Escavar minha cabeça um pouco? Isso te incomoda, Malfoy?", ele perguntou.

Claro que o incomodava. Não deveria, é claro, mas incomodava. Sempre parecera ser uma luta sem sangue. Draco sabia que as Artes das Trevas freqüentemente eram bem nojentas, mas não é todo dia que se recebe um relato tão pessoal de alguém que tenha sido usado dessa maneira. Tais pessoas não costumam sobreviver depois de serem usadas para propósitos como esse. Usado, como um peão num jogo moral. Mais uma vez, Draco se perguntou se não era mais um peão.

Evitando seus olhos por um momento, Draco rapidamente se recompôs por fora, mas quando ele se virou de volta, a farsa acabou mais uma vez. Engoliu em seco, procurando por algo a dizer. Finalmente, ele se decidiu por uma pergunta simples. Parecia estúpida até para seus próprios ouvidos, mas tinha que ouvir a resposta por si mesmo, de uma pessoa que tinha sobrevivido a tantas situações inacreditáveis. Ele tinha que saber se Potter ainda era humano por baixo disso tudo.

"Doeu?".

Harry manteve a expressão neutra enquanto estudava as reações de Draco, a última mudança sutil em sua expressão e tom de voz. A fala arrastada tinha sumido completamente. Ele finalmente tinha ultrapassado. Deixando seus ombros relaxarem, lançou a Draco um sorriso rápido e doloroso. "Sim, doeu".

Draco concordou lentamente com a cabeça. "Eu acho...".

"Sim?".

"Podemos voltar à conversa fútil?". Ele tentou um pequeno sorriso.

"Claro". Harry lhe lançou um sorriso torto, como se o último assunto da conversa nunca tivesse acontecido. "Então... Você já teve uma namorada?".

"Potter!"

Harry e Draco passaram as próximas horas em uma conversa surpreendentemente leve. Com uma mudança de passo tão agradável, nem ocorreu a nenhum dos dois começar uma briga, e pela primeira vez, nenhum dos dois o queria.

Para Harry, a vida dentro da cela do calabouço já era desagradável o suficiente, e depois da combinação de pensamentos confusos, e uma visita particularmente adorável de um bruxo das Trevas perturbado, ele agradecia a calma relativa. Ela lhe dava um momento para respirar, sem nada mais, mas também apresentava uma oportunidade para ver uma coisa que nunca tinha visto antes: Draco Malfoy, agindo como um ser humano. Quem teria esperado? Ainda, ali estava ele, rindo e conversando e respondendo perguntas sem uma ponta de malícia, a astúcia mal escondida ou as segundas intenções. Se isso era uma farsa ou não Harry não sabia, mas se fosse, então era uma farsa muito boa, e Harry pegaria o que pudesse. Mesmo se fosse só um fruto da sua imaginação, ele quase podia se deixar acreditar que Malfoy era a coisa mais próxima de um aliado que ele encontraria até escapar, se escapasse, e ele certamente precisava de um aliado.

Draco, por sua vez, estava fascinado pela conversa, e também meio cansado. Brigar somente serviria para deixá-lo mais exausto, e não tinha a mínima vontade de fazê-lo. A poção para dormir sem sonhos podia manter uma pessoa acordada e funcionalmente alerta, mas estava longe de ser um sono real, e ele podia sentir o cansaço em seus ossos. Ele não podia deixar seu posto. Era sua honra, sua tarefa, e agora, tinha se tornado algo mais, quase um prazer. Mesmo com a exaustão, sua conversa com Harry tinha sido uma distração mais do que adequada para fazer a experiência valer a pena.

"Então era isso?", Draco perguntou, olhos só um pouco mais arregalados do que o normal.

"É", Harry disse orgulhosamente. "Um veado".

"Você tem alguma idéia por que o seu tem essa forma em particular?". Draco inclinou a cabeça curiosamente.

Harry pressionou os lábios, pensativo. "Bom, acho que não faz mal nenhum contar a alguém agora, mas meu pai era um animago, e sua forma era um veado. Só que eu não sabia disso até depois de aprender a produzir um Patrono".

"Interessante. Bom, só o que eu posso dizer é que aquela droga era enorme. Acho que você merece o troféu, ele quase me matou de susto".

"Não é como se você tivesse me dado muita escolha, sabe".

"Verdade, mas você tem que admitir que foi uma idéia bem esperta". Draco sorriu, travesso. "A gente obviamente te enganou, se você teve que usar um Patrono para nos afastar".

"Touché". Harry concedeu o ponto.

Naquele momento, a tranca da porta do calabouço se mexeu, fazendo o barulho ecoar pelo calabouço. Draco imediatamente se levantou, seguido um milésimo de segundo depois por Harry.

Lucius Malfoy entrou no calabouço, sua capa esvoaçando. "Nós não temos muito tempo. Eu suspeito de que o Ministério possa tentar uma invasão noturna. Draco, as suas coisas estão prontas?", ele disse com uma pressa que se impunha sobre o decoro usual de sua voz.

"Sim, pai", Draco respondeu automaticamente, voltando às suas maneiras bem treinadas, indicando duas malas pequenas ao lado de sua cadeira.

"Excelente. Biddy!".

O elfo doméstico apareceu com um estalido. Depois de seu comportamento alegre em suas últimas visitas ao calabouço, Harry quase ficou chocado ao ver como ela se encolhia miseravelmente diante de Lucius. Quase ficou chocado, mas nem tanto. Ao invés disso, a visão o enfureceu, e foi com grande dificuldade que ele se manteve quieto.

"Sim senhor, Senhor Malfoy, senhor?", ela guinchou.

"Leve as coisas de Draco para o quartel general de uma vez". Lucius mandou.

Numa pressa induzida pelo pânico, ela agarrou as malas e desapareceu.

"Agora você". Ele se virou para Harry. "Não tente nenhuma gracinha, ou eu terei um grande prazer em deixar a sua existência miserável ainda mais miserável até o Lord das Trevas estar pronto para você".

Os olhos de Harry se viraram subconscientemente para Draco, antes de ele inclinar a cabeça para o lado, revirar os olhos e dizer preguiçosamente, "Que seja".

Draco teve que morder a língua para não rir. Um dia antes, ele teria ficado furioso de ver Potter se dirigir a seu pai de um jeito tão desrespeitos. Agora, parecia ridiculamente engraçado. No entanto, ao invés de rir, Draco transformou seu rosto na máscara familiar e permaneceu calado.

Lucius continuou a observar Harry, nunca realmente fazendo contato visual, enquanto instruía Draco. "Destranque a cela".

Draco pegou a chave no bolso das vestes e a colocou na fechadura. Quando a porta abriu, Lucius cuidadosamente apontou a varinha para Harry. "Saia. Agora".

Esticando-se para o máximo de sua altura, Harry obedeceu a ordem, mas enquanto passava por Lucius, o homem mais velho espetou o braço de Harry com a varinha. Harry se afastou sibilando de dor, como se tivesse sido atingido por um choque elétrico.

Draco sentiu uma pontada estranha de proteção. Ele tinha passado um bom tempo remendando os ferimentos de Harry, levando tempo e cuidados para prevenir mais dor. Parecia estranho agora simplesmente ficar parado e assistir seu próprio pai causar essa dor. Num arroubo súbito de inspiração, Draco deu um passo à frente. "Pai". Ele deixou um sorriso torto repuxar os cantos de sua boca. "Por favor, me permita levar o prisioneiro".

A cabeça de Harry se virou para o lado em surpresa, capturando o olhar de Draco, e ainda que o rosto de Draco permanecesse frio, um entendimento passou entre eles.

"Draco", Lucius sorriu parecendo satisfeito. "É gratificante vê-lo levando sua tarefa tão a sério. Sim, você pode, mas eu te aviso uma coisa".

"Sim, pai?".

"Nunca olhe nos olhos de seu inimigo", ele disse. "Você pode acidentalmente confundi-lo com um ser humano".

A respiração de Draco se prendeu na garganta, e era provavelmente uma boa coisa, porque de outro modo, ele podia ter deixado escapar o protesto louco de que Harry era com certeza um ser humano. O olhar frio de seu pai afastou rapidamente o pensamento, o empurrou para longe de sua língua, mas ele não desapareceu. Depois do que havia visto e ouvido, por mais que respeitasse seu pai, era impossível continuar acreditando nisso. Reassumindo seu comportamento bem treinado, ele curvou ligeiramente a cabeça em obediência. "Sim, pai". Ele puxou a varinha do bolso e a apontou para Harry.

"Muito bem, Draco. O prisioneiro é seu". Ele colocou a mão no bolso e retirou uma pequena pirâmide de cristal. "Esta é sua Chave de Portal. Você não pode aparatar para as masmorras embaixo do quartel general. Eu vou aparatar pessoalmente até a entrada pelos procedimentos normais e me encontrarei com você nas masmorras depois. Se você precisar de qualquer coisa, chame o elfo doméstico. É seu agora".

Lucius fez uma pausa e olhou brevemente entre os dois garotos, deixando seus olhos pousarem em Draco mais uma vez. "Você estará sob direta observação do Lord das Trevas durante o tempo em que estiver no quartel general", sua voz era fria. "Tenha a certeza de não falhar em suas tarefas".

Draco abaixou a cabeça numa curvatura endurecida. "Sim, pai. Eu não falharei".

Acenando com a cabeça uma vez, Lucius colocou a Chave de Portal no chão e a ativou com a varinha. "Agora vá".

A varinha de Draco ainda estava apontada para Harry, mas ele podia sentir sua mão tremer imperceptivelmente contra a madeira lisa. Ele cuidadosamente evitou contato visual enquanto indicava a pirâmide no chão. "Quietinho, Potter", ele disse, sua voz cuidadosamente medida. "Sem movimentos rápidos".

Obedecendo às próprias instruções, Draco lentamente dobrou os joelhos e estendeu a mão livre em direção à Chave de Portal. Simultaneamente, ele tentou acalmar seu coração, que tinha começado a bater rapidamente em seu peito. Seu pai o estava observando. Ele precisava ficar calmo, de cabeça fria, em controle total de si e seu prisioneiro. Ele tinha que ser cada centímetro do Malfoy que seu pai esperava, não o Draco curioso, nervoso e inseguro que começara a surgir nas últimas horas.

Copiando seu captor, Harry se agachou e estendeu a mão para a Chave de Portal, não se permitindo olhar para Draco. Ele podia sentir a varinha apontada para ele, mas também a tensão quase não discernível irradiando do outro garoto. Nenhuma surpresa. Malfoy provavelmente estava tão ansioso para pisar no covil de Voldemort quanto ele. Quem estaria. Ainda assim, havia outra causa para o nervosismo de Draco, Harry percebeu. Ele podia sentir o olhar duro de Lucius em cima dos dois, percebendo com interesse que Draco estava sob maior observação do que ele naquele momento.

A mão de Draco estava a meros centímetros da Chave de Portal, e ele lentamente contou em voz alta. "Três... Dois... Um".

As mãos dos garotos mergulharam simultaneamente para o pequeno alvo. No curto tempo e espaço do movimento, as mãos colidiram a um milímetro da superfície da Chave de Portal, as pontas dos dedos se entrelaçando por puro reflexo. O contato inesperado de pele com pele, mão com mão, lançou um arrepio alarmante pelo braço de Draco. Mesmo quando sentiu a palma da mão fazer contato com a Chave de Portal, toda a sua consciência estava centralizada no sentimento brilhante correndo das pontas de seus dedos até a base de sua espinha. Ele teve que se segurar para não ofegar em choque quando sua cabeça se levantou, cruzando o olhar com o de Potter.

No ultimo milésimo de segundo antes da Chave de Portal o levar, ele viu o mesmo olhar arregalado de surpresa que sentia sendo mostrado no rosto de Harry, e ele sabia que Harry também sentira.

Draco não teve tempo para considerar se seu pai notara ou não sua reação por tocar Harry. Os sentimentos incríveis do contato foram rapidamente substituídos pelo puxão familiar de uma Chave de Portal sendo ativada. Havia a sensação de ganchos invisíveis agarrando por trás de seus umbigos, e o som de seus pés deixando o chão, enquanto a Chave de Portal jogava-os no epicentro de tudo, direto na toca da serpente.

N/T: Mil desculpas pelo atraso. É que eu traduzi uma parte numa lan e quando eu fui no pc de casa ver se estava no meu e-mail, NÃO ESTAVA (sonha


Notas Finais


Caralho fico pensando....NOSSA como eu li tudo isso? :o Acho que quando vocês terminarem a fic tambem vão dizer isso 😂😂😂


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