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História 03 ( beyond the love - choni ) - Capítulo 26


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Capítulo 26 - Quartos separados


Fanfic / Fanfiction 03 ( beyond the love - choni ) - Capítulo 26 - Quartos separados

 

Cheryl B. Topaz – Point Of View

Agora tinha uma responsabilidade a mais em minha vida, Nathan Price, o garoto de quase dezenove anos que aparentemente não tem compromisso com nada. Bom, nós seguimos o conselho de Margaret e decidimos nos conhecer, a primeira vez que saímos juntos foi estranho e não houve muita conversa, mas aos poucos começamos a criar uma intimidade. 

Faz uma semana que sou madrinha do Nathan, duas que não vejo minha mulher. O tempo que Toni me pediu está enorme, não aguento mais viver sem saber se estaremos juntas ou não, se ainda me ama ou me quer, sinto sua falta todos os dias, penso em nossa pequena família o dia inteiro. Por mais que tenha distrações, trabalho e agora o Nathan ainda é difícil manter minha mente longe de pensamentos que só nos levam ao divórcio.

Queria ver minha amiga, me aproximar de Gracie que está em sua barriga, mas é impossível quando sua inquilina é Barbara Palvin, a ex da minha mulher e a modelo mais odiada por mim. Sinceramente, sinto que estou perdendo minha afilhada para ela, a mesma deve passar vinte e quatro horas por dia junto de Sabrina, é óbvio que a criança sente sua presença, se acostuma com a voz. 

Ah, definitivamente odeio essa mulher! 

Hoje seria um dia importante, combinei de mostrar a escola a Nathan, nós não compartilhamos de muitas intimidades, não sobre a vida pessoal. Não sei sua história, da onde veio ou como se sustenta, mas sentia que estávamos próximos de chegar nesse momento. 

Tudo é seu? 

A voz do garoto soou maravilhada, o mesmo ao adentrar a escola percorreu o olhar por cada canto analisando desde as paredes até o piso. 

— Sim e de uma das minhas melhores amigas.

— Uau, por isso que você é madame.

Seu olhar veio ao meu novamente, revirei os olhos.

— Você não vai parar de me chamar de madame?

— Quanto mais te conheço, mais sei que é. – balançou os ombros em inocência. — Só que é uma madame gente boa, sério. 

Abri um pequeno sorriso para ele, nós dificilmente trocávamos elogios então, era um avanço termos essa troca de admiração, por mais que seja apenas um “gente boa”.

— Hey. – Maeve apareceu sorridente. — Novo aluno? 

— Só se ele quiser. 

Encarei o garoto. 

— Terei que pensar na possibilidade. 

Relutou, não me surpreendia que tudo com ele fosse difícil.

— Se estiver interessado, dou aulas de corda. – a loira ofereceu. — Aliás, adorei a tatuagem. 

Fez sinal com a cabeça para o pescoço de Nathan, ainda não havia identificado o desenho eternizado em sua pele e achava melhor assim, havia um receio de me arrepender de saber o significado. 

— Valeu. 

Sorriu timidamente. 

— Vamos, vou te mostrar o resto. 

Falei evitando ficar tanto tempo perto da loira. Nós nos afastamos aos poucos, talvez por minha causa, mas com a ajuda dela. É inevitável olhar para Maeve e não pensar em traição, no quanto machuquei Toni. A culpa não era dela, é totalmente minha, porém se tornou dolorido manter uma amizade com a mais nova.

Nathan parecia interessado na escola – ao menos era o que demonstrava. Havia algumas aulas acontecendo, nós estávamos no meio da tarde, mas consegui lhe mostrar boa parte da escola. Principalmente o meu cantinho favorito, a classe de piano. 

— Essa é minha preferida. 

— Piano? 

Ele resmungou.

— Qual o problema? 

Adentrei a sala, fechando a porta atrás de mim.

— Nenhum... – murmurou, dando passos lentos por entre as cadeiras e instrumento. — Você toca?

— Toco. 

— Prove. 

Desafiou-me. 

Olhei para Nathan, ele realmente estava falando sério. Caminhei para o banco a frente do piano, deslizando meus dedos pelas teclas e tocando um clássico de Beethoven. 

— Isso é uma música? Você nem canta. 

Parei os movimentos na hora, levantando o olhar pro garoto.

— Não conhece Beethoven? Em que mundo você vive?

— Em um mundo normal. – respondeu como se fosse óbvio. — Toque uma música de verdade. 

— Beethoven é arte! 

Retruquei, ofendida com suas palavras.

— Pra mim é chato. 

Abri a boca, completamente desacreditada.

— É serio, toque e cante porque desse Beethoven aí não entendi nada. 

— A única pessoa que me ouve cantar é a minha esposa então, nem sonhe. – fechei o piano, levantando o corpo. — Você acabou com nosso tour. 

— Ah, qual é? Cante uma música. 

— Não! – meu tom era firme. — Chega por hoje. 

Falei caminhando em direção a saída.

— Você é difícil, ein. 

Ele ria. 

— Eu? Você chamou Beethoven de chato. 

Minhas palavras saíram entre dentes arrancando mais risadas do garoto que se divertia com minha irritação. Revirei os olhos para ele, o levando para a saída do prédio. 

Estava completamente decepcionada com seu gosto.

×××

 

Depois de ser obrigada a ouvir que Beethoven, um clássico e gênio da música é chato, nada poderia piorar meu dia. Foquei no trabalho após deixar Nathan ir, sempre o orientando que me mandasse mensagem se houvesse qualquer coisa. Nós nos falamos algumas vezes pelo celular, mas eram algo do tipo: “como está se sentindo hoje?”, seguido de respostas curtas e repetidas, nada demais. 

Cheguei em casa cansada, mesmo que não passe mais tanto tempo na escola, me desgasta pensar que poderia ter a companhia de Toni e Leo junto comigo, mas não os tenho por culpa minha. Todos os dias me bate um medo de que estejam esquecendo de mim, me substituindo aos poucos e quem sabe, nunca mais se lembrarão de quem sou. 

Por mais demorado que fosse meu banho, nada me relaxava. Estiquei os pés no sofá, a cabeça no braço do mesmo e foi o suficiente para acabar cochilando. Ao acordar, percebi em meu celular que já era tarde da noite, mas havia uma mensagem do Nathan. 

“Quer sair pra fazer alguma coisa? Comer uma pizza?”

Fazia meia hora da mensagem, dei uma leve risada ao perceber que o garoto só poderia estar brincando. Quer dizer, já eram passada das onze da noite.

“Não está na hora de criança estar na cama? Vá dormir, Nathan.”

Digitei, juntando uma xícara que havia na mesa do centro da sala e a levando para a cozinha. Ainda no caminho senti o meu celular apitar em mais uma mensagem, estranhei a rapidez. 

“Claro, claro, não queria incomodar. Boa noite, Cheryl.”

Quando li notei que algo estava acontecendo. Por que me mandaria texto tão tarde? Não queria incomodar. Mas nem falei nada, só poderia estar com problemas. Suspirei, voltando a digitar.

“Onde você está?”

“Indo dormir, está na hora, não?”

“A verdade.”

Pedi, temendo que pudesse estar exposto a vícios.

“Na rua? Na verdade, estou na calçada.”

“Só me mande sua localização e me espere, se você não estiver ai quando chegar terá problemas. Vamos comer uma pizza.”

Nunca fui muito boa em lidar com as pessoas, com Nathan era mais difícil ainda porque não havia muito diálogo sobre nossas vidas. Lembro de uma vez deixar escapar que mora com alguns amigos que fazem faculdade, ele não me disse nada sobre seu estudo ou o que faz da vida, apenas que mora com esses outros adolescentes. 

Sou curiosa o suficiente para querer bombardeá-lo de perguntas, mas um dia após nosso primeiro contato onde Margaret nos apresentou, conversei com ela sobre como deveria me portar. A mais velha me aconselhou para ir com calma, não assusta-lo e fazê-lo confiar em mim. Era bom ter a visão dela, saber que confia nele porque se não tivesse sua palavra com certeza não chegaria nem perto daquele garoto. 

— Você estava com fome. 

Observei ao vê-lo devorar a pizza.

Busquei Nathan em uma rua deserta, estava sentado na calçada e com poucas roupas para o frio de Seattle. Pensei por um momento como seria se não tivesse o ajudado, se não fosse sua madrinha e tivesse outra pessoa que não entendesse que ele precisava de alguém. Paramos na primeira pizzaria aberta, buscamos por uma mesa e o deixei escolher os sabores, ainda não tivemos a conversa sobre o que está acontecendo até porque não sou muito boa com as palavras.

— É, fazia um tempo que não comia. 

Deu de ombros.

Nem havia tocado em meu pedaço de pizza, estava sem fome. 

— Por que estava na rua? 

Minha curiosidade falou mais alto do que o ir com calma. 

— É que... – ele soltou o pedaço que iria comer de volta no prato. — Esses meus colegas de quarto estavam dando uma festa, rola muita coisa, então prefiro ficar andando na rua. 

— Bebidas? Drogas? – assentiu. — E os seus pais? – seu olhar desviou do meu. — Digo, não tem outro lugar para ir? 

— Não, estou morando de favor com esses amigos. – confessou, parecia envergonhado ao falar. — É complicado... 

Pegou o refrigerante, bebendo um grande gole do líquido. Meu olhar permanecia nele, o analisando enquanto criava tantas teorias que poderia numera-las de um a cem. 

— Nathan, quero confiar em você pra te ajudar da melhor forma, mas para isso precisa me contar algumas coisas.

Falei demonstrando toda minha sinceridade em querer ser uma boa madrinha, ajudar não somente com o vício, mas com os problemas pessoais que são nossas maiores ruínas. 

— Eu sei. – sorriu pressionando os lábios. — Já fui de outro grupo do AA, mas o meu padrinho era um bosta e lembrava meu pai, houve algumas desavenças com os frequentadores, achei melhor sair de lá. – explicou. — Enfim, aquele machucado no meu rosto foi porque procurei meu pai, pedindo pra ficar com ele pra não ter que depender desses amigos, mas ele também é um alcoólatra e me bateu como todas outras vezes. – vi algumas lágrimas aparecerem em seus olhos. — Minha mãe se separou do meu pai a algum tempo, tenho uma irmã mais nova, quando comecei a beber e me drogar, ela disse que seria igual a ele e me expulsou de casa, pra nunca mais voltar e não ver minha irmã. Foi quando resolvi parar, a minha irmã me amava, mas provavelmente nem se lembra de mim mais, só quero voltar a vê-la quando puder ser um bom exemplo, sabe? 

Nathan virou o rosto para deixar as lágrimas caírem, o meu peito doeu com tanta informação, eu que queria tanto saber de sua vida não pensei que seria tão doloroso ouvi-lo falar sobre. 

— Nós podemos sair daqui? – perguntei, enxugando as lágrimas que inevitavelmente caíram e ele me olhou. — A gente leva a pizza. 

O garoto apenas concordou, limpando seu rosto molhado enquanto chamava o garçom para embrulhar nosso alimento. Em poucos minutos estávamos de volta ao meu carro, dei partida sabendo exatamente o destino que teríamos.

— Pra onde vai me levar? Esse não é o caminho do meu quarto e...

— Você não vai para o apartamento dos seus colegas. 

Interrompi, focada na estrada.

— Vai passar a noite na minha casa. 

×××

 

— Não deveria ter falado com sua esposa antes?

Nathan perguntou baixinho quando adentramos a casa, o silêncio no enorme local me fazia suspirar. Queria ter que contar a Toni que estaria trazendo um novo inquilino, mas para isso teríamos que estar morando juntas. 

— Ela não mora aqui. 

Falei, percebendo que não conversamos sobre Toni.

— Não? 

Seu tom era confuso enquanto caminhava para sentar no sofá mais próximo, o observei abrir a caixa de pizza e continuar a comer, nunca vi alguém ter tanta fome. 

— Nossa casa é em outro bairro, nós... – o encarei, percebendo o olhar curioso. — Nós estamos dando um tempo. 

Confessei com um suspiro. 

— Divórcio? 

— Não, sem divórcio. – falei mais para mim do que para ele. — A Toni está magoada e precisa de espaço então...

Sentei ao seu lado. 

— Toni. – repetiu o nome, seu olhar foi longe. — Lembro de falar na reunião, mas não prestei muito atenção. 

— É, mas não precisamos falar disso. – interrompi o assunto que me machucava tanto. — Me conte mais sobre você.

— O que quer saber? Já percebi que é curiosa, faça suas perguntas. 

Balançou os ombros, mordendo mais um pedaço de pizza. 

— Escola. Você se formou? 

— Nah. – franziu o nariz. — Parei no ensino médio, último ano. 

— Só faltava um ano e não se formou? 

Arqueei as sobrancelhas.

— Beber parecia mais legal, ir a festas...

— Uhn, ok. – estreitei o olhar em sua direção. — E nunca pensou em sair desse apartamento com amigos? Buscar outro lugar? 

— Todos os dias, consigo alguns trabalhos temporários, as vezes até roubei... – me olhou esperando minha reação. Não, não estava surpresa. — Mas só roubo de quem é rico, ta? 

— Tudo bem, Nathan...

Murmurei, a vontade era de lhe dizer um enorme discurso e dar uma lição de moral, mas com seu histórico familiar parecia impossível. O que ele poderia fazer? Precisa sobreviver. Mordi os lábios, buscando uma solução em minha mente. 

— O dinheiro que ganho ou roubo uso pra comer, ajudo esses amigos do apartamento. Eles são ricos, geralmente nem querem meu dinheiro, acho que me mantém lá pra ver se Deus perdoa as merdas que fazem. 

Riu ao falar. 

— Você brinca com coisa séria. 

O repreendi e ele fechou a expressão.

Suspirei, continuando com minhas curiosidades.

— Agora, me diga o que faria se fosse pra faculdade. – pedi, o mesmo parecia pensativo. — Alguma coisa relacionada a música? 

Sugeri, ele fez uma careta. 

— Nem pensar.

Nathan respondeu, meus ombros caíram em desanimo. 

— O que se vê fazendo? 

— Hum... – levou a mão ao queixo. — Educação Física. 

— Educação Física?!

Disparei, não disfarçando nem um pouco minha indignação com sua escolha, Nathan percebeu meu julgamento, franzindo a testa ao me olhar. Tossi algumas vezes, me contendo.

— Quer dizer, educação física parece ótimo... – murmurei. Educação Física, serio? Será que ele sabe todas opções que tem? — Mas você tem certeza? Já pensou sobre os outros cursos e... 

— Cheryl, pare de ser controladora! 

Interrompeu-me, rindo ao final. 

Nathan é diferente das pessoas que convivo, ele não tem medo de dizer o que pensa sobre mim. Digo, sei de todos julgamentos que meus amigos e até minha esposa tem, mas que guardam para eles porque provavelmente os comerei vivos por me dizerem, o garoto a minha frente simplesmente não têm medo nenhum de mim. 

— Você pergunta e eu respondo, sem ficar tentando mudar minha resposta. 

Explicou, suspirei fundo. 

— Vou pegar um café, você me da trabalho. 

Falei levantando do sofá enquanto o mesmo ria. 

A verdade é que precisava pensar um pouco, queria ajudar Nathan de alguma forma, levar ele pra trabalhar na escola e ter um lugar melhor pra morar, quem sabe pressiona-lo a voltar a estudar. Não quero coloca-lo onde não se sinta a vontade e definitivamente não quero alguém em minha escola dizendo que Beethoven é chato. Havia outra possibilidade em minha cabeça, mas dependeria de alguém, uma pessoa que não quer me ver nem pintada de ouro.

— Estive pensando... 

Falei ao voltar para a sala.

— Claro que esteve. – riu ao falar, franzi a testa. — Nós temos pouco contato, mas já percebi que em certos momentos você precisa de pausas dramáticas. 

— Pausas dramáticas? Você me ofende, sabia? 

Sentei novamente ao seu lado, não havia mais pizza. Lhe alcancei uma xícara de café, o mesmo não se importava nenhum pouco com minhas repreensões enquanto bebia um gole do líquido.

— Falo verdades. – deu de ombros. — Sinto muito se ninguém falava antes. 

— Podemos falar sério?

— Não estávamos? – revirei os olhos. — Desculpa.

Ajeitou sua postura ficando sério. 

— Quero conseguir um emprego pra você, mas tem que me prometer que vai sair do apartamento desses amigos assim que receber o primeiro salário. 

— Controladora... 

Cantarolou, levando a xícara até os lábios.

— Nathan, estou tentando te ajudar! – firmei meu tom. — Aliás você tem que voltar a estudar, o mais rápido possível.

— Ah, não.

Resmungou como criança.

— Pensa na sua irmã, se quiser ser um bom exemplo tem que pelo menos ter se formado para ajuda-la a se formar também. Quantos anos ela tem? 

— Sete.

Sorriu ao falar da mais nova. 

— É quase a mesma idade da minha cunhada. – sorri junto com ele ao lembrar da Samantha. — Enfim, amanhã a tarde vamos a um lugar juntos, irei arranjar um emprego pra você. – bebi meu café, levantando o corpo. — Vamos dormir, tenho que trabalhar cedo. 

— Cheryl. – ele tocou em meu pulso segurando-me, o encarei. — Obrigada de verdade, você nem precisava fazer tudo isso. 

— Achei que era o que as madames faziam. 

Brinquei rindo, ele fez o mesmo negando. 

— O sofá é seu hoje. 

Falei deixando a xícara na mesa do centro para poder pegar as mantas que estavam em cima do outro sofá. Normalmente passava um bom tempo deitada apenas coberta com elas, bebendo café, lendo, escrevendo...

— Bem melhor que o do apartamento. 

Apalpou as almofadas.

— Achei que você tivesse um quarto. 

— Sim, a sala é o meu quarto. 

Respondeu de forma simples, retirando os calçados para esticar o corpo no sofá. Balancei a cabeça em concordância, estava arrependia de não ter me aproximado dele antes, o meu pré-julgamento quase não deixou-me conhecê-lo. Hoje era mais uma noite que não conseguiria dormir direito, por toda situação de Nathan estar invadindo minha mente e por claramente, passar mais um dia sem contato com Toni. 

×××

 

Nathan percebeu meu nervosismo ao dirigir, levando em conta que fiquei parada em dois semáforos seguidos quando havia ficado verde, era realmente difícil não reparar. Nós estávamos indo para o local onde tentaria lhe arrumar um emprego, o único problema é que não sabia se seria bem-vinda, se conseguiria ajuda-lo ou se ao menos tentaria. 

Faltando muito pouco para chegar, meus dedos firmaram no volante, Nathan desistiu de tentar descobrir o que me fazia tremer tanto. Peguei ele no apartamento onde mora, é claro que o obriguei a tomar um banho e se vestir bem. As roupas mais bem apresentadas que ele tinha era blusa larga e calça jeans surrada, o tênis preto era o mesmo de sempre tanto que quase estava cinza de tão sujo. 

— Puta que pariu.

Ele exclamou assim que manobrei para estacionar. 

— Agora entendi porque está com tanto medo, vamos encontrar sua mulher. 

Falava enquanto admirava a bela fachada da academia Team Topaz, deveria ficar feliz em ver o meu sobrenome tão em destaque, mas só me fazia pensar até quando ele ainda será meu. 

— Nunca te vi tão nervosa, ela te da tanto medo assim? 

— Não. 

Respondi, retirando meu cinto de segurança.

— Só quero conseguir esse emprego pra você. 

Menti. 

É óbvio que estou morrendo de medo e surtando, Toni pode simplesmente me expulsar da academia. No momento estou esperando qualquer coisa vir dela, inclusive não querer me ouvir. 

Respirei fundo saindo do carro antes que desistisse de ajudar Nathan, ele fez o mesmo caminhando junto comigo para dentro do estabelecimento. Todos me conheciam, acenei, desejei boa tarde e até sorri para alguns funcionários. Nunca fui de frequentar a academia, mas eles tinham um certo respeito pela mulher da chefe. 

— O que está fazendo aqui? 

Parei meus passos ao ouvi-la, o meu olhar que a procurava encontrou seus castanhos a alguns metros a frente em meio a aparelhos de musculação. Atraímos algumas atenções, aquilo não me agradou em nada, muito menos a ela. 

— Podemos conversar? 

Pedi em tom calmo. 

— Minha sala. 

Pronunciou as palavras, girando o corpo em direção a mesma. Troquei um olhar com Nathan, ele tentou me incentivar com um sorriso e polegares para cima. Meus olhos rolaram e seguimos para sala da Toni. 

— Quem é ele? 

Seu tom soou ríspido fechando a porta atrás de nós. 

— Esse é o Nathan. – apresentei o garoto. — Sou madrinha de sobriedade dele. Já comentei sobre com você, lembra? A Margaret queria e não aceitei varias vezes. 

— É, lembro. 

Cruzou os braços, não poupando o olhar para Nathan. 

— Quer saber? Nós precisamos conversar sozinhas. – dei passos até a porta a abrindo. — Nathan, por favor. 

— Claro.

Concordou, abaixando a cabeça e saindo da sala para nos deixar a sós. Assim que fechei a porta, virei o corpo para a morena que estava sentada na cadeira atrás da mesa, só pelo olhar conseguia ver o quanto está brava. 

— Cheryl, o que está fazendo? Esse garoto parece... Um marginal. Desde quando o conhece? Não me diga que está morando com você.

— Pode parar? 

Retruquei, sentindo raiva de suas tantas desconfianças. 

— Nathan tem vários problemas, mas é um garoto bom. – o defendi, esperando não me arrepender depois. — Não, ele não está morando comigo, mas passou uma noite em minha casa. – Toni abriu a boca para falar, mas levantei a mão a impedindo. — Ele está precisando de um emprego para poder pagar um lugar pra morar e pensei que tivesse alguma vaga aqui. 

— Aqui na academia? Nem conheço esse garoto! 

— Toni, Nathan precisa de verdade. Queria levar pra escola, mas tudo pra ele lá é um tédio. – puxei o ar. — Não posso te contar sobre a vida dele, mas asseguro que quer mudar, quer se formar e...

— Ele nem se formou? 

Deu risada, negando com a cabeça.

— E quer que o contrate? 

— Coloque ele pra varrer o chão, limpar os aparelhos, secar o suor dos clientes... – disparei irritada com sua relutância. — Tanto faz! Mas quero que esteja em um lugar que deseje trabalhar, que se sinta bem e possa continuar querendo melhorar.

Desabafei com a lutadora ofegando ao final. 

— Posso pagar o salário dele se dinheiro for o problema. – continuei enquanto a morena me analisava. — Só estou tentando ajudar alguém, pode fazer isso por mim? 

— Tudo bem, Cheryl. 

Foi tudo que saiu por entre seus lábios, relaxando os ombros e baixando totalmente a guarda. Contive o sorriso enorme que queria abrir, sentando na cadeira a sua frente para ficar mais próxima, percebendo uma brecha para lutar por nós.

— Aproveitando que estou aqui, eu...

— Toni, acabei de chegar. 

O meu pescoço girou com rapidez ao ouvir aquela voz, por um momento pensei que era coisa da minha cabeça, mas ver Barbara adentrando a sala da minha mulher na maior intimidade foi uma grande surpresa. 

— Você sabe se...

A modelo que fechava a porta, parou de falar ao virar o corpo em nossa direção, estacionando no mesmo lugar com o clima que pairou naquela pequena sala. Os meus punhos se fecharam automaticamente, pressionando as unhas contra a palma da mão para aliviar a raiva que poderia me influenciar a fazer bobagens. 

— Desculpa. – encolheu os ombros. — Volto depois. 

Saiu as pressas sem nos dar tempo para impedi-la, o ar que saiu por minhas narinas estava quente, lentamente retornei minha atenção para Toni, sua expressão neutra e inocente me irritava mais ainda. 

— O que ela faz aqui? 

Meu tom saiu entre dentes junto de um rosnado. 

— Treinando. – deu de ombros. — Diga para Nathan vir amanhã cedo, ele pode...

— Vai agir como se sua ex não estivesse aqui? 

Perguntei completamente irritada e levantando meu corpo. 

— Cheryl... 

— É óbvio que vai aproveitar pra ficar em cima de você. 

— Cheryl... 

Repetiu, erguendo o corpo ao se apoiar na mesa. 

Encarei os castanhos furiosos, quando a raiva toma conta mal raciocinamos, principalmente na hora do ciúmes e do sentimento de perda que toma conta. Só que quando vi a expressão de Toni seria e firme percebi que não poderia lhe cobrar nada, absolutamente nada. Não quando minha ex trabalhou comigo, deu em cima de mim e também se aproveitou de nossa fragilidade. 

— O Nathan vai estar aqui amanhã cedo, não se preocupe. 

Me afastei da cadeira, um nó se formando em minha garganta e as lagrimas vindo com força. O meu peito doía ao ver que minha mulher estava sendo tirada de mim e não poderia fazer nada, não quando presenciou-me em um quase adultério. 

— Cheryl?! Tudo bem? 

O garoto se preocupou ao me ver sair da sala. 

— Você começa amanhã. 

Tentei dar meu melhor sorriso a ele. 

— Sério? – arregalou os olhos em animação. — Ah, você é incrível! Obrigada! 

No susto, os seus braços me envolveram em um abraço cheio de carinho e gratidão. O meu coração se aqueceu, o afastei fingindo odiar o contato e nós brincamos um com o outro enquanto saíamos da academia. Não a vi mais, nem Barbara, também não fiz questão. 

Estou devastada com a possibilidade de perder Toni. 

 

Toni Topaz – Point Of View

De primeira é difícil não se assustar com estilo de Nathan, não poderia ser hipócrita de dizer que não me preocupei e muito ao perceber ele próximo da ruiva. E se for agressivo? Quiser algo dela? Tentar machuca-la ou rouba-la? Fiquei com esses pensamentos a noite toda, mas hoje quando mostrei a academia para ele tudo mudou. O garoto não tinha maldade em suas ações, até me contou um pouco de seus sonhos futuros sobre fazer faculdade de educação física. Agora entendia porque Cheryl queria ele trabalhando ali. 

Ele seria um faz tudo e temporariamente, é claro. Só porque Cheryl pediu não iria confiar de primeira, demoraria para o tornar um funcionário oficial da Team Topaz, mas o salário que daria o ajudaria muito.

— Você trouxe algo pra comer? 

Perguntei assim que encerramos o primeiro turno. 

— A Cheryl me deu alguns trocados. – coçou a nuca ao falar da ruiva, ele parecia receoso para dizer seu nome perto de mim. — Posso sair pra comer depois? 

— Claro. – dei de ombros. — Você ainda está na casa da Cheryl? 

— O que? – arregalou os olhos. — Não, não. Foi só uma noite, espero que não precise mais, não quero incomoda-la. 

Balancei a cabeça em concordância, o analisando. 

— Entendi, daqui a pouco você terá seu próprio lugar. 

Incentivei, ele sorriu com a possibilidade.

— Toni. – olhei para Barbara, me surpreendi de vê-la ali naquele horário. — Estava passando por aqui e pensei de almoçarmos juntas, o que acha?

Arqueou as sobrancelhas. 

— Claro.

Troquei um rápido olhar om Nathan, não conseguia decifrar sua expressão fechada ao notar a modelo, só depois me dei de conta da sua ligação com Cheryl e obviamente desgosto por Barbara. 

— Nathan, pode ir almoçar, fique a vontade. 

— Irei.

Seu tom mudou em segundos para irritado, saindo as pressas de nosso campo de visão. Encarei minha ex que estava antônima demais para prestar atenção no garoto que será mais um protetor da ruiva.

— Vamos? 

Barbara sorriu para mim, assentindo. 

Nós fomos a um restaurante perto da academia e em seu carro, tenho que confessar estar próxima da modelo, é meio impossível não estar quando encontro-a todo dia no mesmo horário em meu local de trabalho. Por muitas vezes ficamos matando tempo juntas, Barbara consegue me distrair, parar de pensar somente em Cheryl e na decisão de continuarmos ou não juntas. 

Ontem quando a ruiva viu minha ex, tentei transparecer normalidade como se não me importasse com suas reações. Consegui ver a raiva em cada movimento, o ciúmes se apossando enquanto falava comigo e por fim, a tristeza ao aliviar o tom, saindo da minha sala sem olhar para trás. Eu juro, queria não ter esses desejos, mas meu primeiro pensamento foi beija-la e fazê-la gemer meu nome em minha sala, dizer o quanto sou sua. Não poderia e não queria me deixar levar, não por alguém que não merece meu perdão tão facilmente. 

— Então, não te arrumei problemas ontem, certo? Nem tivemos tempo de conversar. 

Barbara tocou no assunto delicado, não sabe sobre minha “separação” com Cheryl. A verdade é que sinto um leve interesse da modelo em mim, não quero lhe dar falsas esperanças sendo que minha relação com a ruiva está uma bagunça.

— Não, tudo bem.

Dei de ombros ao encara-la. 

Nós estávamos esperando nossos pedidos no restaurante, de frente uma para outra sentia o olhar de analise da Barbara em cima de mim. 

— Sabe que pode me contar tudo, não é?

— Claro. – suspirei, ela sabe que tem algo de errado. — Nós estamos... Estamos dando um tempo, houve muitas brigas e era melhor afastar, entende? 

— Oh, sim. – não parecia surpresa. — Estaria mentindo se dissesse que não sabia, vocês eram bem mais unidas e acho que ouvi Sabrina falar que a Cheryl precisava dela hoje, por isso sai de casa um pouco. Talvez não fosse visita-los por minha causa e não quero constrange-la. 

— Você é incrível. – elogiei admirada com sua atitude. — Não precisava fazer isso, ainda mais pela Cheryl. 

— Ah, o que ela fez demais para mim? Roubou minha namorada? Puf. – seu tom brincalhão rindo ao final, mas com certeza não era engraçado para mim. — T, eu estava brincando...

Buscou minha mão acima da mesa dando um leve aperto, pressionei os lábios, assentindo enquanto apreciava o carinho de seu polegar em minha pele. Estava carente o suficiente para suspirar apenas com um toque em minha mão. 

— Você fez coisas para mim, eu fiz para você junto da Rebeka, mas agora é passado. Podemos ser boas amigas ou... 

A modelo não terminou suas palavras, o garçom chegou com nossos pedidos colocando os pratos a nossa frente. Barbara abriu um sorriso, se divertindo com a interrupção. 

— Bom, nós podemos ser o que você quiser e acredito que saiba disso. 

Deu de ombros após dar a primeira garfada em seu almoço.

Sim, ela estava insinuando que poderíamos voltar e sim, fiquei completamente sem palavras, nem a fome mais estava presente em meu estomago. 

É estranho, péssimo e idiota, mas no mesmo instante pensei em Cheryl, que ainda não tinha certeza sobre nós, mas não significava que daria uma chance a Barbara, tanto que só de pensar em ficar com minha ex um sentimento de culpa se apossava de meu peito. É óbvio, ainda amo aquela ruiva com todo meu coração, só que talvez esse amor esfrie se não deixa-la se aproximar mais. 

Barbara soube contornar a nossa conversa, mudando de assunto após o clima que se instalou. Esse foi um dos melhores dias desde a briga, de ver aquele quase beijo e afastar Cheryl. O primeiro dia do Nathan foi ótimo, ele sabia lidar com as pessoas mesmo que alguns fizessem cara feia para sua aparência, é bom de papo. Ainda encontrei a modelo novamente no horário do deu treino e os sorrisos e olhares não eram mais disfarçados.

Minha única surpresa do dia foi Willian aparecer no estabelecimento dizendo que havia coisas suas para pegar, não me importei em deixa-lo andar livremente pela academia. Nossos advogados já trataram de sua quebra de contrato, não tínhamos mais nada para conversar. O seu tempo no local foi no máximo de quinze minutos, saiu com uma bolsa cheia que entrou vazia. Seria estupido pedir para vê-la ou alguém acompanhar seus movimentos, eu mesma reclamava de ter tantas coisas do treinador deixada para trás. Era melhor assim, sem mais brigas, nem com ele, nem com Cheryl, nem com ninguém...

×××

 

É sempre bom pensar antes de mentalizar algo. Ontem, mentalizei que não teria mais brigas com ninguém, estava disposta a ficar sossegada em meu trabalho e sem perturbações... O quão iludida estava sendo? 

Final de tarde na academia é sempre um pouco mais movimentado, pessoas entram e saem com frequência, não me preocupei quando um grupo de três pessoas adentraram o local, mas deveria. 

— Toni Topaz.

Levantei o olhar, estava concentrada em bater no meu saco de pancadas, mas parei ao ver dois desconhecidos e Willian. Meu ex treinador tinha os braços cruzados, o olhar de superioridade não me agradava. 

— Algum problema? 

Franzi a testa, encarando os três. 

— Nós somos da equipe do UFC, temos uma denúncia e um depoimento de seu próprio treinador que usou de estimulantes para se beneficiar na última luta. 

— O que? 

Arregalei os olhos ao ouvir um deles.

— Esse é o seu local de treino? 

O desconhecido chamou minha atenção.

— Sim, mas... 

— Nós precisamos revistar suas coisas. 

— Não. – parei a frente dos dois. — Não podem fazer isso! 

— Você tem um contrato com a organização, assinou os termos onde permite todas as regras, inclusive em caso de denúncia deixar que revistem suas coisas. 

Mordi os lábios, suspirando ao lembrar que era verdade. 

— Ok...

Falei, dando brecha para os dois passarem. Acompanhei com o olhar vendo os desconhecidos adentrarem minha sala. A última vez que tomei remédios foi um dia antes da luta, depois nunca mais tive nenhuma pílula junto comigo, eles não conseguiriam achar nada, mas mesmo assim me senti receosa e com medo, afinal, estavam certos em desconfiar.

— Toni, tudo bem? 

Nathan tocou em meu ombro preocupado. 

— Sim, só algumas... 

— Achamos isso. 

Aquele homem voltou mais rápido que o esperado, havia um pequeno pacotinho em sua mão transparente e cheio dos remédios que tomei para me ajudarem. Os meus olhos se arregalaram, um estalo em meu cérebro fez com que girasse o corpo em direção ao Willian. Talvez estivesse tão amedrontada que não pensei nesse idiota, na vinda dele ontem, que acabará de armar para me prejudicar.

— Foi você. 

Rosnei ao ver um sorriso brincar em seus lábios. 

— Seu filho da puta...

Meu corpo avançou em sua direção, mas braços me seguraram enquanto ele ria em deboche. Tentei me soltar de Nathan, queria dar um belo soco na cara daquele idiota.

— Senhorita Topaz, precisa se acalmar.

Um dos integrantes do UFC pediu. 

— Seu merda! Isso vai acabar com sua carreira também.

— Minha carreira? Eu mal tive uma e você ainda fez questão de me humilhar! Aceite as consequências, pois sabemos que se drogou para ter vantagens. 

Cuspiu as palavras, fazendo meu sangue correr mais rápido nas veias.

— Me solta! 

Desferi uma cotovelada contra o estomago do garoto, sentindo o mesmo afrouxar o aperto com o golpe e conseguindo me soltar, mas assim que fui para cima de Willian, Barbara parou a minha frente.

— Toni, não faça isso. – pediu me impedindo de passar. — Calma, respira, ok? 

Respirou fundo a minha frente, fiz o mesmo.

Senti suas mãos em meu rosto o segurando, repetindo os movimentos até que estivesse calma o suficiente. Nos afastamos, Willian não estava mais ali e era melhor assim. 

— A organização do UFC entrará em contato com sua equipe. 

O homem falou, dando-me um último olhar antes de ir. 

— Porra... Porra... 

Murmurei atordoada. 

Estava completamente fodida! 

×××

 

— Você é uma irresponsável. 

O tom de Marina era tão alto do outro lado da linha que poderia estourar meu alto-falante. Fechei os olhos com força, perdida no tempo que estava tomando o maior esporro de toda minha carreira.

— Parabéns, provavelmente vai ficar sem lutar por no mínimo um ano e só Deus sabe quanto tempo irão te vetar de subir em um octógono.

— É, eu sei...

Sussurrei, derrotada. 

Não havia desculpas ou argumentos. 

Marina suspirou.

— Pra quem mais contou? 

— Só você. Quanto tempo pra estar na mídia? 

— Amanhã de manhã provavelmente. – bufou, seria um grande trabalho pra ela. — Se prepara você terá que devolver o cinturão. 

Balancei a cabeça, mordendo os lábios para segurar as lágrimas.

— Desculpa por tudo isso, é uma merda... Não pensei direito, é culpa minha. 

— Tudo bem, Toni. – seu tom suavizou. — As pessoas erram. Vou ter que desligar porque o dia será cheio amanhã. 

— Ok, obrigada.

— Tchau, Toni. 

Despediu-se. 

Encerrei a chamada, jogando o celular no sofá e fazendo o mesmo com meu corpo. Não havia mais condições de ficar na academia com o olhar julgador de quem ouviu e entendeu o que acontecia. Tudo que fiz foi sair as pressas daquele local, dizendo que precisava ficar sozinha.

Só peguei meu celular novamente para mandar uma mensagem para a única pessoa que precisava saber de mim sobre isso tudo. O “Cherry” em seu contato fazia meu coração doer um pouco. 

“Quero conversar. Pode me encontrar em casa?”

Sua resposta veio tão rápida que me assustei.

“Na verdade já estou indo, Nathan me disse que aconteceu algo na academia. Estou chegando.”

Poderia dizer que aquele garoto é um fofoqueiro, informante da ruiva em minha academia, mas vi no seu olhar o quanto se preocupou com meu estado emocional. É, em dois dias minha opinião sobre ele estava mudando e isso era bom, não queria ninguém que não seja confiável perto de Cheryl. 

Os minutos passaram e fiquei na mesma posição, Lion estava deitado no tapete, acabei liberando a Debora mais cedo hoje sem nem saber de toda essa confusão. Quis dar o dia de folga para a mais velha, para agrada-la e porque não paro muito em casa, mal previa que o que mais iria querer nesse momento são seus conselhos. 

— Toni. 

Ouvi a voz dela. 

Sentei no sofá, lembrando de que ainda tem sua chave. 

— O que aconteceu? Vim correndo. – jogou suas chaves e bolsa no sofá livre, sentando ao meu lado. — O Nathan não me disse nada, só que teve uma confusão e... 

— Cheryl, fica quieta. – pedi a interrompendo. — Tenho uma coisa pra contar. 

— Está me assustando. 

Murmurou, deslizando as mãos para junto das minhas. 

Ah, como sentia falta do nosso contato, da maneira que segura firme minhas mãos para demonstrar segurança. Encarei os seus castanhos, não queria chorar, mas as lágrimas viam com cada vez mais força. 

— Eu usei estimulantes. – confessei se uma vez, Cheryl franziu a testa. — Antes da luta, percebi que meus treinos estavam muito fracos e não conseguia render o suficiente. Precisava recuperar meu ritmo ou era certo que perderia... O Willian me ofereceu os remédios, de primeira não aceitei, mas depois sim e usei até o dia da luta. 

— Nós... Nós estávamos juntas? 

Sussurrou, parecia confusa. 

— Sim, mas não nos falávamos.

— Toni... – me chamou. — Você usou drogas? 

— Basicamente. 

Balancei a cabeça, concordando com suas palavras. 

Cheryl desviou nossos olhares, as mãos saíram das minhas e seu corpo elevou. Fiquei a observando colocar as mãos nos cabelos enquanto fechava os olhos, puxando e soltando o ar aos poucos. 

— Você não fez isso, não é possível... 

Murmurou, mais pra si do que pra mim. 

— Cheryl... 

— Toni, você pode ter acabado com sua carreira! – seu tom se alterou, ela me encarou negando. — Tem noção disso? 

O meu peito estufou, poderia receber lição de moral de qualquer um, menos dela. Não, não havia motivos para Cheryl ter alguma razão nesse momento, não depois de quase me trair com sua ex. Não depois de sair de casa quando era mais importante para mim. Levantei o corpo ficando de frente para ela. 

— Quer saber? Esquece! – esbravejei contra a ruiva que se encolheu com minha atitude. — Nem deveria ter me dado o trabalho de te contar. 

Os ombros da maior caíram.

— Toni. – neguei, virando o corpo para lhe deixar sozinha. — Toni, para. 

Pediu, sua mão firmou em meu braço. 

— Só... – encarei os castanhos, ela suspirou. — Vamos conversar, por favor?

O seu tom era calmo, inseguro, receoso... Muito diferente da Cheryl de minutos atrás que tentava me repreender por usar remédios. Desvencilhei-me de sua mão, caminhando de volta para o sofá e sentando, meus braços se cruzaram. 

— Então, Willian te ofereceu os remédios? 

A ruiva sentou ao meu lado, as sobrancelhas arqueando aos poucos. 

— Não posso culpa-lo, eu quis tomar e ganhar vantagem, mas ele me assegurou que ninguém saberia e... Porra, fui uma estúpida. 

— Me desculpa por me alterar, não esperava isso vindo de você, sei o quanto ama lutar e o quanto valoriza sua profissão. – Cheryl mordeu os lábios, deixando o olhar cair para as mãos. — Deveria estar mais presente pra saber o que estava acontecendo, tentar te ajudar de alguma forma. 

— Agora tanto faz. – dei de ombros. — Tudo que tenho que fazer é esperar virem buscar meu cinturão e darem a punição. 

Joguei minha cabeça para trás, suspirando com o pensamento de ficar um longo tempo sem pisar novamente em um octógono. Marina tem razão, ninguém sabe o quanto posso ficar sem lutar, eles provavelmente terão uma reunião com o conselho da organização para decidirem. 

— Ei, Tee. 

Senti os dedos de Cheryl deslizarem para minha mão, ergui a cabeça novamente, o meu olhar encontrou com os castanhos enquanto a mesma firmava seu toque em mim, a vi engolir a seco e respirar fundo demonstrando nervosismo. 

— Pode não ser o momento, mas quero conversar sobre nós. – não desviou o olhar em nenhum segundo. — Podemos? 

— Tudo bem. 

Foi tudo que saiu por minha boca, não poderia mais adiar a conversa ou prolongar o tempo que a mantenho afastada, isso não está fazendo bem para nenhuma das duas. 

— Ok, eu vou falar. – lambeu os lábios, ajeitando a postura e tirando a mão de mim. — Tive uma conversa com a Sabrina ontem, ela me aconselhou a lutar por nós e é o que vou fazer, Toni. Eu acredito que não passamos por várias provações durante anos pra chegar até aqui e desistir tão facilmente, o amor que sinto por você é claro e o meu desejo é ficar com você, manter nosso casamento. Tudo que preciso é de um voto de confiança seu, uma oportunidade de te mostrar que nós valemos a pena, uma chance, Tee. 

— Cheryl...

— Não, primeiro me escute. 

Interrompeu-me. 

— Nós nos tornamos adolescentes, imaturas e irresponsáveis, que agem sem pensar, falam coisas da boca pra fora e machucam uma a outra. Chega disso, quero voltar ao que éramos, aquelas duas mulheres que confiavam uma na outra, conversavam e resolviam os problemas juntas. Estou disposta a ceder quantas vezes forem preciso, a implorar pra que me aceite de volta e mesmo que me mande embora agora, irei voltar, Toni. 

Encerrou, esperando uma resposta.

— Você sabe o quanto me magoou. – falei, ela balançou a cabeça em positivo. — Aquela imagem de vocês duas tão perto será difícil esquecer, a maneira que disse como te sufoco, que se sentiu livre... Caralho, isso me machucou demais. Sempre tentei ser o melhor pra você, Cheryl, estava tentando conseguir seu perdão por ter acusado daquela maneira e de uma hora para outra, saiu de nossa casa sem olha pra trás, sem previsão pra voltar...

As lágrimas vieram, era previsto quando a lembrança da primeira vez que tive certeza que Cheryl estava interessada por outra veio a minha mente. A ruiva a minha frente já chorava, silenciosamente apenas de me ouvir.

— Concordo que tivemos atitudes imaturas, mas você foi a primeira a negar uma chance a nós, quando não me perdoou e fingiu estar tudo bem. Nós poderíamos ter voltado com tudo ao normal, estar juntas e talvez não ter chegado a esse ponto. 

— Eu sei, tenho tanto a me desculpar... 

— Não estou afim de desculpas, sinceramente. – confessei. — Mal consigo acreditar que não sinta nada pela sua ex.

— Toni, eu não sinto. – respondeu com rapidez. — Juro que não consigo nem mais olha-la, quero tanto seu perdão e confiança de volta, faço qualquer coisa para isso, posso demiti-la e nunca mais...

— Não. – enxuguei as lágrimas. — Não quero saber dela, Cheryl. Eu cansei, quero saber de você e nós somente. Temos tanta coisa pra mudar, conversar e resolver, isso já basta. 

Funguei, respirando um pouco.

— Quero te dar a oportunidade de reconquistar minha confiança e lutar por nós, mas...

— Toni, não. – suas mãos vieram ao meu rosto. — Não diga que não pode, pense em tudo que passamos juntas e no quanto fomos felizes, lembra dos momentos bons. – pediu, o tom falhando com o choro em meio ao desespero. — Eu quero recuperar o que tivemos de melhor e aprender com o que foi ruim, você só precisa acreditar um pouquinho em mim e me dar uma oportunidade...

Cheryl puxou o ar, estufando o peito e encarando-me, suas mãos firmaram no meu rosto, os castanhos compenetraram nos meus, as pupilas dilatadas se moviam com rapidez.

— Me deixe voltar para casa? 

Sussurrou, o rosto perigosamente perto do meu. 

— Por favor, me deixe voltar para nossa pequena família e mostrar o quanto quero estar com vocês. 

Ela estava decidida, focada, confiante. Seria a maior mentira do mundo dizer que não a queria com nós novamente, eu quero, é o que mais desejo, porém ainda havia um certo receio de que tudo desabasse novamente, de uma hora pra outra e de vez. 

— Toni, confie em mim. – voltou a falar. — Irei consertar tudo, eu prometo. 

— Não sei...

Murmurei. 

— Amor, por favor. 

O meu coração vibrou, o “amor” saindo por entre seus lábios mexia comigo. A quem estou querendo enganar? Essa mulher me têm com poucas palavras, poucos gestos. Ela simplesmente me têm, como nenhuma outra. Mas não precisava deixar isso tão claro. 

— Pode voltar. 

Um sorriso começou a crescer em seus lábios com minhas palavras. 

— Você fica na segunda suíte. 

A sua expressão murchou, levantei o corpo para não me render ao seus castanhos piedosos ou bico que se formara nos lábios para tentar me convencer a mudar de ideia.

— Toni...

— Vamos com calma. – a interrompi, girando os calcanhares para encarar a ruiva que agora estava de pé. — Não disse que quer lutar por nós? Pois estou pronta para ver isso. 

— Pensei que poderia lutar por nós em nossa cama...

Sussurrou, o tom indicando a malícia. 

Estreitei o olhar.

— Não, segunda suíte pra você. – permaneci séria. — Ao menos que prefira voltar pra antiga casa e...

— A outra suíte está ótimo! 

Interrompeu-me usando de uma falsa satisfação.

— É, pensei que estaria.


Notas Finais


Voltei?!


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