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História 1 Degree - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá, meus amores, como vocês estão?
Hoje é aniversário da minha soulmate Dassa, e como prometido essa é uma lembrancinha pra ela. Espero que goste BB!

Preparem os lencinhos e por favor não desistam da história pela metade, eu prometo que tem um final feliz :D


Eu vou disponibilizar nos meus fixados do Twitter as Concept Photos da fic, para ilustrar melhor a história. Quem tiver interesse, o @ é Kriptomikey1998.

https://twitter.com/KriptoMikey1998/status/1240064933141843974?s=19


Boa Leitura!!

Capítulo 1 - Fly


Fanfic / Fanfiction 1 Degree - Capítulo 1 - Fly

Os pesquisadores da Estação King Sejong acordaram animados para aquele dia de trabalho. Estavam muito próximos de conseguirem amostras, do que especulavam ser uma camada de meteoros embaixo do gelo polar. Seria uma conquista e tanto para a Coréia do Sul, se sua base na Antártica recolhesse provas suficientes para defender tal descoberta. 

Jaebeom e Youngjae eram os dois mais ansiosos por aquilo. O geofísico e o geólogo discutiam desde a faculdade sobre a possibilidade de existir algo parecido, escondido no manto branco da superfície gelada, e finalmente estavam prestes a encontrá-la. 

A equipe da missão contava com sete pessoas no total, estavam na estação há quase 9 meses e fizeram muitas descobertas nesse período. A base, apesar de permanente, estava sendo usada apenas pela equipe G7, e por se tratar de um grupo pequeno, o governo limitava consideravelmente as verbas e recursos. Diferente dos residentes anteriores, que recebiam os suprimentos por entregas semanais de helicóptero, eles precisavam se abastecer quinzenalmente com os mantimentos, água e combustível que Jinyoung buscava no vilarejo de nativos em uma ilha vizinha, de avião. 

Park Jinyoung, o namorado de Jaebeom, além de piloto, era glaciólogo. Ele e o Lim se conheceram em uma expedição no Ártico, contratados pela Marinha Sul-Coreana para trabalharem em um navio de pesquisas, onde estudaram os efeitos do descongelamento das calotas polares durante seis meses. Fora um período muito difícil em suas vidas, não podiam demonstrar muito afeto ou sequer terem um contato muito próximo, afinal estavam em dependências militares e extremamente homofóbicas. 

Quando a expedição chegou ao fim, os dois finalmente puderam se entregar à paixão enlouquecedora e envolvente a qual se viram rendidos. Com pouco mais de um ano de relacionamento firme, os dois conseguiram comprar um apartamento modesto, porém confortável, no centro de Daejeon e adotaram três gatinhos: Nora, Kunta e Odd. 

Trabalharam por três anos na KAIST, Instituto Coreano Avançado de Ciência e Tecnologia, por indicação de Youngjae, e fora lá onde conheceram seus outros quatro amigos, que hoje integram sua equipe. Jackson era um médico honconguês que ingressara em microbiologia há alguns semestres, Mark era químico ambientalista e trabalhava no mesmo laboratório de Jaebeom. O técnico em robótica, BamBam, auxiliava os seis homens com seus equipamentos, e Yugyeom, o mais novo entre eles, era oceanólogo no mesmo departamento de Jinyoung. 

Quando o pedido de financiamento de pesquisa do Lim e Choi obteve retorno e fora aprovado, eles não poderiam ter montado um time melhor. Passaram por três meses de treinamento intensivo e mal podiam esperar para desfrutar daquela oportunidade. Era o momento mais importante de suas carreiras. 

— Já terminaram de arrumar as tralhas? — Jaebeom questionou ao ver os amigos com roupas apropriadas para enfrentarem o frio cortante que fazia do lado de fora.

— Está tudo pronto, se dermos sorte conseguiremos as amostras ainda hoje. — O sorriso do Choi tomava conta de todo seu rosto. — BamBam deu um jeito de sincronizar os localizadores que instalamos e encontrou alguns sinais de metal na última galeria que nós fomos. 

Era uma ótima notícia, Youngjae era a pura expectativa em pessoa e sua empolgação contagiava os demais. Amavam o que faziam e estavam sendo contemplados por uma oportunidade única, mas às vezes, a saudade de casa e da civilização falava mais alto, e nenhum dos sete reclamaria se pudessem concluir suas pesquisas o quanto antes. 

— As expectativas estão altas para hoje, JaeJae parece uma criança. — Jinyoung brincou, abraçando a cintura de Jaebeom. — Vou ter que fazer papel de babá. 

— Yah, não seja ranzinza, você também está animado, eu te conheço. — O Lim beijou as bochechas quentinhas. —  Alguma novidade?

— Sooyoung ligou, nossas crianças estão bem. Ela os levou para a casa dos meus pais nesse fim de semana. 

— Estou com saudades deles. — O bico de Jaebeom tirou um sorriso do Park, que não tardou tomar seus lábios em um beijo casto. 

— Eu também estou. — Tirou uma mexa dos olhos estreitos, prendendo-a atrás da orelha. — O que vai fazer hoje? Ia ser bom se fosse com a gente. 

— Estou com alguns testes em andamento no laboratório, Mark está me ajudando com os cálculos. — O mais velho respondeu. Ele soltou o aperto na cintura fina e terminou de fechar o zíper do casaco térmico de Jinyoung, até cobrir seu queixo. — Queria ir com vocês, mas não posso pausar o experimento. 

— Não tem problema, Yug vai também. Fica tranquilo, uh?

— Isso era ‘pra me acalmar? Agora sim que eu estou preocupado. — Jaebeom arregalou os olhos pequenos e riu quando levou um tapinha no braço. — Bom trabalho, toma cuidado. 

— Você também. — Jinyoung lhe puxou para um beijo calmo e escondeu o rosto na curva de seu pescoço, distribuindo alguns selinhos na pele cálida. 

— Ew! — Yugyeom passou por eles carregando uma mochila de equipamentos, e gritou quando o acastanhado correu atrás de si. 

O Lim estava feliz e era grato por ter aquelas seis pessoas consigo; se não fosse por eles, ele provavelmente já teria enlouquecido naquele lugar, mas aquela pequena e escandalosa família fazia qualquer lugar no mundo ser seu lar. 

— Os detectores estão apitando como loucos. Com certeza tem algo nas paredes daquela galeria. — BamBam entrou na sala de convivência, apontando para os corredores às suas costas. — Estava um barulho insuportável no laboratório. Eu acabei de enviar as coordenadas ‘pro seu socializador, Jinyoung hyung. 

— Obrigado. — O acastanhado pegou as chaves da snowmobile na entrada. — Jackson já acordou? 

— Ele ‘ta no LAB-2, mostrando para o Mark algum tipo de fungo que encontrou numa das hélices do Basler. — Jaebeom explicou. — Parece que tem formato de estrelinha ou alguma coisa do tipo. 

— O que o Jackson estava fazendo com o meu baby? — Jinyoung arregalou os olhos, vendo o mais velho rolar os dele. 

— Eu ‘tô começando a ter ciúmes desse avião. Às vezes acho que gosta mais daquela lata velha do que de mim. 

— Não fala assim dele. — Os lábios de Jinyoung formaram um bico cheinho no mesmo instante. — Ele é de 1943, mas foi todinho reformulado, você sabe muito bem que ele tem tecnologias que muitos aviões americanos novos não têm. 

— Quando ele vai te defender assim, hyung? — Youngjae provocou, brincando com fogo. 

— Vamos indo, já perdemos preciosos 30 minutos. — O Park anunciou, desviando a atenção do namorado. — Vamos manter contato e atualizar a base sobre qualquer informação relevante. A central havia avisado a possibilidade de nevasca nas próximas semanas, mas é bom ficar de olho, nos avise se disserem algo mais sobre isso. 

— Certo. 

— Eu te amo. — Afundou-se no abraço cálido mais uma vez.

— Eu também amo você. Te vejo mais tarde, meu amor. — Jaebeom lhe deu um selinho de despedida, logo vendo o corpo bonito e todo agasalhado sumir pela porta principal com Yugyeom e Youngjae. 

 

 

O frio era cortante naquele inverno, mesmo com as botas de feltro e mukluks,  os tradicionais calçados dos esquimós, Jinyoung não conseguia sentir os dedos dos pés. O termômetro devia estar marcado uns vinte graus negativos, o que para o norte da Península Antártica já era considerado muito mais gelado do que a média anual. 

O deserto de gelo se estendia por toda a área que seu campo de visão era capaz de alcançar, apenas os três homens no meio daquele lugar esquecido pelos deuses. O sol ainda não havia dado as caras por completo, aparecia mesmo apenas quando o dia estava ao meio. 

O Park checou as informações em seu localizador  mais uma vez, e teve certeza de que estavam no lugar certo quando viu várias luzes vermelhas piscando na tela. Havia metal congelado naquelas paredes há poucos metros abaixo de onde estavam pisando.  

— Tem certeza de que essas cordas estão bem presas? — Yugyeom perguntou, fechando a trava do capacete de segurança. 

— Eu já conferi duas vezes, estamos bem. — Youngjae garantiu e chamou por Jinyoung. — Está pronto, hyung?

— Estou. Acho que é melhor usar um detector portátil quando descerem. — O Park lhe estendeu o aparelho. — Finquem bem as travas das botas, esse gelo está muito escorregadio. 

A parede da galeria deveria ter no máximo uns dois andares de altura, a fissura de entrada possuía a metade do tamanho, e no fundo, era possível observar a água corrente embaixo do gelo, provavelmente algum tipo de lago ou poço subterrâneo. 

Jinyoung cravou os grampos fundos no solo congelado para a ancoragem, prendeu os mosquetões nos baudriers que os dois rapazes usavam e os liberou para começar a descida. 

A corda principal estava presa a snowmobile, enquanto o peso do acastanhado e seus próprios arneses controlavam altura em que estavam içados. Yugyeom adorava aquele tipo de rappel, enquanto Youngjae preferia o conforto da terra sob seus pés, mas naquele momento era o necessário e ele faria tudo o que pudesse para encontrar suas amostras.  

Os dois mais novos analisaram cada centímetro do paredão, utilizando seus equipamentos e experiência para fazerem seu trabalho. Temperaturas, densidade, volume, e todas as outras informações que conseguiam recolher era extremamente importante. 

Youngjae estava mais abaixo do que Yugyeom, o geólogo tinha uma bela voz e ela ecoava pela galeria numa música calma, a qual os amigos apreciavam. Não precisou mais do que uma hora para que os detectores começassem a sinalizar loucamente que havia ferro naquele exato ponto onde o Choi estava. 

— Hyung, a talhadeira, por favor! — Pediu ansioso. — Acho que encontrei. 

Com cuidado e com os nervos aflorados, Jinyoung desceu a ferramenta para Yugyeom, junto de um martelo próprio para aquele tipo de procedimento. Youngjae travou o seu freio ATC como pôde e pegou os equipamentos, começando a quebrar o gelo no lugar preciso. Ele conseguia ver a sombra da rocha de ferroníquel, e se aproximava dela a cada batida. 

Todo o seu trabalho havia o levado até ali, todo esforço e estudo prestes a ser recompensado. Só precisava de mais algumas entalhadas e ela estaria em suas mãos, pronta para Jaebeom analisá-la e fazer os cálculos que os levariam até a prova final de sua teoria. Aquele meteorito nunca poderia estar ali se não estivessem certos, e a sensação de certeza era uma das melhores que o geólogo já havia experimentado. 

Do lado de fora da galeria, no topo daquela abertura, Jinyoung começou a sentir o chão tremer sob seus pés, aquilo não podia ser um bom sinal. Estavam em uma planície bem sólida pelo que haviam estudado anteriormente, a única oscilação no solo era aquela depressão onde os mais novos se encontravam. 

Um barulho característico de algo se partindo o alertou, e quando olhou para baixo novamente, percebeu o que estava acontecendo. 

— Jae, para! — Ele gritou alto o suficiente para que o rapaz o ouvisse com clareza. — Está trincando. 

—  Vai aguentar, estou quase lá. — Do lugar onde a parede estava sendo perfurada, uma rachadura subiu com rapidez, partindo o gelo como se fosse nada. — Só mais um… 

Quando finalmente o bloco se soltou, a última pancada fez a trinca chegar até o buraco onde estavam os grampos que os sustentavam, o estourando. 

Tudo aconteceu rápido demais, Jinyoung quase foi puxado para dentro, caiu de bruços no chão, sentindo os arneses apertando sua cintura e pernas com toda força, ficando à poucos centímetros da borda. A corda que sustentava Yugyeom foi içada alguns metros acima e ele se chocou ruidosamente contra o paredão de gelo, gritando de dor na perna esquerda de imediato.

Com o súbito desnível de altura, os equipamentos de Youngjae foram praticamente soltos no ar, e o Choi caiu pesado sobre a água congelada. O guincho agonizante desesperou o mais novo deles e Jinyoung entendeu que a vida dos amigos estava unicamente em suas mãos naquele momento. 

O Park respirou fundo, tentando controlar o máximo que podia a vontade de vomitar e se levantou com dificuldade, buscando forças para pensar racionalmente e ajudar os outros. 

— Y-youngjae, não se debata, não se debata! — Pediu assustado, revirando a bolsa de equipamentos atrás de mais cordas e mosquetões. — Se agarre no gelo, segure na borda, Youngjae-ah, pode fazer isso por mim? 

O geólogo podia sentir a temperatura alucinantemente fria da água queimando sua pele e pressionando seus órgãos internos, respirar estava se tornando uma tarefa extremamente difícil e dolorosa. Ele procurou se focar na voz do glaciólogo para se manter acordado e obedecer a ordem que ele havia lhe dado. 

Youngjae tentou levantar o braço direito mas uma corrente de dor excruciante emanou do seu ombro para todo o seu corpo, e foi então que ele percebeu a ponta de uma estalagmite cravada em sua pele. Ele lutou contra as náuseas e a sensação de desmaio que estava lhe tomando conta, e fixou sua visão no meteorito congelado perto de si. Ele havia encontrado o que por tanto tempo estava buscando, não permitiria que tudo fosse em vão. 

Reunindo o resto de energia e força que ainda lhe sobrara, o Choi se agarrou a beirada com o braço esquerdo e parou de se debater, esperando o resgate. 

— Yugyeom-ah, prenda isso no seu baudrier, jogue o outro para o Youngjae. — Jinyoung esticou o corpo para estender dois mosquetões grossos e fortes para o moreninho. — JaeJae, tente fazer o mesmo, prenda no arnês da cintura. 

Levou alguns segundos agonizantes, mas o equipamento foi preso como instruído e o acastanhado correu para a snowmobile, ligando o veículo. Ele não sabia de onde estava tirando forças para fazer tudo aquilo, sentia o coração bater na garganta. Precisava agir rápido. 

Deu partida e vagarosamente içou os dois rapazes para fora da galeria, deixando algumas lágrimas caírem enquanto ouvia seus gritos. Yugyeom conseguiu se colocar de pé e mesmo com muita dificuldade para se manter em apenas uma perna, ele ajudou Jinyoung a acomodar Youngjae numa espécie de trenó de carga, que ficava atrelado à moto para carregar equipamentos. 

— Aqui é Pepi para Defsoul. Está na escuta? — A voz do Park mal saía e as mãos tremiam segurando o rádio comunicador. — Base, por favor, responda. Câmbio!

Youngjae estava pálido, o corpo trêmulo foi envolto por alguns cobertores térmicos e embalado por Yugyeom que, tentava ao máximo esquecer de sua própria dor para acudir o amigo.

“Defsoul na escuta, prossiga Pepi, câmbio.”

Apenas ouvir a voz do namorado foi o suficiente para Jinyoung sentir que não estava sozinho naquele momento. Não pôde deixar de ficar aliviado por JB não ter ido à galeria consigo naquele dia, ele poderia estar na mesma situação que os mais novos, ou senão até pior. 

— Jaebeom. Aconteceu um a-acidente, Youngjae e Yugyeom estão feridos. — Chorou, esquecendo-se completamente dos procedimentos de rádio comunicação. — Eles precisam de ajuda, o Jackson precisa ajudar eles. 

“Acidente? Você está bem? Está ferido, Jinyoung?” Era possível perceber toda sua angústia pela voz. 

— Comigo não aconteceu nada, mas os meninos precisam de ajuda. Jaebeom, eu não sei o que fazer. 

“Se acalma, amor. Traga-os para cá agora, já vamos preparar a enfermaria. Vai dar tudo certo.”

— Eu espero. — Fungou ao prender os dois rapazes com segurança ao veículo. — Câmbio final.  

 

 

As mãos de Jinyoung apertavam os guidões da snowmobile com toda força, era como se estivesse prestes a desmaiar se os soltasse um tiquinho que fosse. Ele  sabia que passar quase um ano na Antártica não iria ser nenhum acampamento de férias e que podia envolver muitos riscos, mas nunca pensou que algo daquela natureza fosse mesmo acontecer. 

Não ter o auxílio e direcionamento dos militares, como tinha no navio do Ártico, lhe transmitia uma enorme sensação de impotência. Mesmo com todo treinamento pesado que tiveram, eram apenas cientistas não muito familiarizados com fortes emoções. Ele vivia nas alturas sempre que podia, amava voar e essa sem dúvidas era uma experiência aventureira, a diferença era que quando tinha o manche nas mãos, ele possuía controle e propriedade daquilo que estava conduzindo.

A sua angústia pareceu diminuir um bocado quando avistou a base e pôde ver a silhueta de Jaebeom entre as outras três que esperavam por eles. Sua cabeça doía, e sua visão estava embaçada pelas lágrimas, estavam quase lá. 

— Me ajude a levá-los para a enfermaria. — A voz de Jackson soou distante mesmo tendo estacionado ao lado do honconguês. 

O Lim abraçou Jinyoung com força e o ajudou a sair de cima da moto. Aqueles braços eram sua fortaleza, sua segurança e refúgio. 

Quando o mais baixo viu o tanto de sangue que Youngjae deixou para trás após ser carregado para dentro, ele não aguentou. Seus dedos se agarraram aos de Jaebeom enquanto vomitava seu café, junto de toda ânsia e desespero que havia guardado pelo caminho. O moreno o tranquilizou e o ajudou a escovar os dentes e se livrar das roupas térmicas. O sentou no sofá da sala de convivência, coberto só por uma manta felpuda para tomar um chá e cuidar dos seus ferimentos leves. 

— Eu senti tanto medo, Beommie. — Confessou baixinho, tomando mais um gole da bebida que começava o aquecer por dentro. O choro era baixo, porém contínuo, diferente dos soluços altos que não conseguira segurar quando chegaram. — Quando eu vi aquela coisa enfiada no braço de Youngjae dentro da água, achei que ia perder nosso amigo.

—  Não pense mais nisso, Sseunie vai cuidar deles agora, você fez tudo certinho. — Jaebeom lhe acariciou as maçãs do rosto queimadas pelo vento cortante, lhe oferecendo um sorriso acolhedor. 

As palmas das mãos de Jinyoung tinham pequenos cortes, ganhos na tentativa de segurar as cordas no acidente, mesmo com as luvas a pele ficou em carne viva. O geofísico cuidou de cada um deles, os limpou, passou pomada, enfaixou as palmas e por fim deixou um beijo singelo em cada uma delas. 

As costelas do Park também estavam machucadas pela pancada no chão gelado quando caiu. Jaebeom espalhou uma pomada anti-inflamatória pelos hematomas e trilhou selares pelo tórax bonito. Aos poucos, o cuidado e carícias do namorado ajudaram Jinyoung a se acalmar e aquietar seu coração aflito, mesmo que por pouco tempo.

Ele se lembrou de avisar que apesar do ocorrido, haviam conseguido a tão esperada amostra e Jaebeom a levou para o laboratório eufórico para colocá-la na estufa, antes de voltar a cuidar do Park.

Fazia menos de meia hora que ele havia conseguido cochilar no colo do Lim, quando Mark apareceu na sala. 

— Jinyoung-ah, me desculpe por te acordar, mas preciso que se vista e prepare o Basler. — O químico pediu com certa urgência nos olhos. 

— O que aconteceu, hyung? — O piloto logo se colocou de pé, fazendo uma careta pela dor que sentiu nas costelas. 

— Jackson fez tudo o que podia aqui, tratou dos ferimentos que deu e colocou o joelho do Yugyeom no lugar, mas a perna está fraturada em uma região complicada, talvez precise de uma pequena cirurgia e Youngjae precisa de um hospital logo. S-seunie está com medo de tirar o gelo e ele ter hemorragia, e nós também não temos sangue aqui para transfusão. 

Toda a tranquilidade se esvaiu de seu corpo novamente e Jinyoung começou a se vestir com pressa. Não sabia como manteria seu psicológico em ordem para pilotar aquele avião até o continente, mas não mediria esforços para fazê-lo. 

— Peça para BamBam se aprontar, vou precisar de copiloto. 

— Todos iremos, Jack disse que não dá conta de cuidar dos dois sozinho durante o vôo. — Mark explicou. —  Já empacotei o necessário e nossos pertences. 

— Eu… Eu não posso ir agora. — Jaebeom avisou nervoso. — A amostra, preciso fazer os testes ainda congelada, é a nossa única chance. Podem apostar que depois do que aconteceu, o governo vai encerrar essa exploração, eu preciso terminar os experimentos e garantir a validade das evidências. 

— Você não vai ficar aqui sozinho! — Jinyoung arregalou os olhos, incrédulo. Aquela ideia era absurda. 

— Amor, por favor, tente entender. Se eu não analisar a amostra aqui, podemos ter alterações, preciso terminar. Youngjae e Yugyeom arriscaram a vida por isso, não vou permitir que tenha sido por nada.

Aquela fala tocou o íntimo do glaciólogo, ele sabia que Jaebeom estava certo e sabia da importância daqueles resultados para os amigos, mas isso não diminuía a sua angústia de deixar o homem que amava sozinho na base, no meio do Polo Sul. 

— Não tem com o que se preocupar, N’yeongie. — O Lim continuou argumentando. — Temos estoque de suprimentos suficientes para sete pessoas para os próximos oito dias, eu preciso ficar aqui mais uma semana, no máximo. Eu vou ficar bem, você volta para me buscar na próxima sexta, uh? 

O clima estava tenso demais, não tinham muito tempo para discussão mas Jaebeom conseguiu convencer os amigos, e principalmente o namorado, de que iria permanecer na ilha. Algo dentro de Jinyoung não estava correto, ele não sabia dizer se era algum tipo de pressentimento ou apenas estresse causado pela situação atual, mas ele não estava nenhum pouco confortável com aquele aperto no peito. 

Uma semana não parecia muito, entretanto, seria a primeira vez que ele ficaria longe de Jaebeom em quase sete anos. Estava acostumado a ter o homem ao seu lado todas as noites, seriam os dias mais angustiantes de sua vida.

O Lim também não estava nada animado com aquela situação, mas devido às circunstâncias teria que dar conta das demandas imprevistas. Ele não podia deixar seu incômodo de ficar sozinho transparecer, se hesitasse por um segundo que fosse, Jinyoung voltaria atrás e jamais permitiria que continuasse com tal loucura. Ele precisava manter o foco em seus objetivos e fazer seu trabalho, sem deixar as inseguranças o atrapalharem. 

O cuidado para colocarem os dois rapazes feridos dentro do avião foi imenso, Jackson estava devotando praticamente toda a sua atenção para Youngjae, que requeria maiores cuidados. Yugyeom por sua vez, iria se virar bem durante a viagem, quem sabe dormir um pouco para esquecer da dor, Mark tinha a missão cuidar de sua perna nesse meio tempo. 

O maknae da equipe abraçou Jaebeom apertado, pedindo para que ele se cuidasse e voltasse logo a se juntar a eles. Até o Choi, que lutava para se manter acordado a mando de Wang, estava preocupado com o amigo mais velho. 

— Tem certeza mesmo que não tem outro jeito? — Jinyoung o olhou com os orbes cheios de lágrimas. 

— Infelizmente sim, amor. — Envolveu o menor em seus braços, o vento forte dificultando ainda mais aquela despedida. — Olha, se for te deixar mais tranquilo, eu vou gravar vídeos todos os dias sobre como andam as coisas aqui. Você iria gostar disso? 

O leve aceno de cabeça, junto do olhar melancólico que recebeu fez Jaebeom sorrir e lhe beijar os lábios. Estavam rachados e desidratados pelo frio mas nenhum dos dois se importavam, apenas sentir o calor que emanava daquele esfregar de bocas era capaz de lhes dar segurança e selar o compromisso de que se veriam dali sete dias.  

Depois de mais alguns carinhos e muitos “eu te amo’s”, a ficha de Jinyoung finalmente caiu de que realmente tinha que partir e ele entrou no avião. BamBam já o esperava no assento do copiloto e lhe entregou os fones. 

O barulho das hélices do Basler gelaram o estômago de Jaebeom, ele acenou para Jinyoung e deu alguns passos para trás quando o avião decolou da pista, que Mark e BamBam limpavam todos os dias para se livrarem da neve. 

Conforme a aeronave diminuía nos céus rumo ao Chile, o coração do Lim diminuía na mesma medida, enquanto a preocupação com os amigos feridos e o namorado apenas aumentavam. 

A base sempre fora muito grande apenas para os sete, mas agora que estava sozinho ali dentro, ela aparentava ter se tornado um labirinto enorme e vazio. Para tentar aliviar seus pensamentos apressados e distrair um pouco a cabeça, Jaebeom se colocou a trabalhar sem pausa. Havia ficado por aquela única razão e daria o melhor de si. 

Conforme as horas iam passando, mais imerso nas pesquisas ele se via. Há aquela altura, os outros seis já haviam chegado no Cabo Horn e estavam sendo devidamente atendidos. 

Do lado de fora, a neve caía impiedosa, aumentando consideravelmente o acúmulo de gelo nas planícies. Os flocos que se precipitavam  em grande quantidade deixavam as janelas todas brancas, mas os olhos estreitos de Jaebeom estavam atentos apenas em seus cálculos e monitores, o deixando totalmente alheio da tempestade que acontecia no mundo exterior. 

Já era tarde da noite quando o rádio comunicador o tirou de seus afazeres e as informações o atingiram como um raio de preocupação:

“Central para Estação King Sejong, ordem de evacuação imediata! Câmbio.”

Os dedos trêmulos seguraram o rádio, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Antes que pudesse tentar responder qualquer coisa, a voz avisou mais uma vez: 

“Repito, evacuem a base imediatamente. Previsão de nevasca para as próximas doze semanas. Nenhum vôo será autorizado a partir de amanhã por questões de segurança, câmbio final.”

 

Jaebeom estava perdido. 




 



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