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História 11 Maneiras de Encontrar o Amor - Drarry - Capítulo 7


Escrita por:


Notas do Autor


-Ponto de vista: Harry.
-Subcategoria: Drama.

Capítulo 7 - Seja Político


Quando a chuva estiver caindo

E meu coração estiver ferido

Você sempre estará por perto

Isso eu sei com certeza

No One, ALICIA KEYS. Traduzido

 

Quando me dizem que é estranho eu fazer política, visto que sempre dizia que não faria, o que penso é: "E o que sabemos sobre o futuro?". Há um ano atrás jamais pensaria em participar de um debate político para o cargo de Ministro da Magia Britânica, tampouco que faria isso solteiro e com meus filhos longe de mim. Então, repito: "E o que sabemos sobre o futuro?". 

Depois da recente separação que tive, as coisas ficaram complicadas. Gina ficou possessa, ainda acredita que me separei por tê-la traído com outra, mesmo que tenha dito dezenas de vezes que não foi isso, que pedi o término apenas porque não a amo mais do jeito que amava. Mas não adiantou. Gina foi embora e levou nossos filhos. Fez as cabeças deles contra mim e agora eles se recusam me ver. Não os culpo, pois só estão sendo manipulados pela mãe deles. Agora vivo solidão e saudade todos os dias.

A política foi, então, uma forma de escape. Eu não queria ter tempo livre para passar sentindo saudade dos meus filhos e desejando retirar o que fiz. Uni a isto, uma forte vontade de tentar algo diferente, de encarar um desafio. A política foi o desafio que resolvi experimentar.

Hermione, já há uns anos, vinha sugerindo que queria largar o cargo, pois sentia que fizera tudo que pretendia nos anos que ficou. O mandato de um Ministro não tem prazo, então a única maneira dela sair seria anunciando uma nova eleição. O problema era que Hermione dizia não se sentir bem deixando o cargo para qualquer um, queria ter alguém de confiança para disputar pelo cargo, mas não encontrava ninguém. Na verdade, ela queria me dar o cargo dela. Passei muitos anos recusando. Até que tudo aconteceu e eu resolvi aceitar. Sabia que seria uma enorme responsabilidade, mas tive certeza que me doaria ao máximo. Apesar de estarmos vivendo um período conturbado, sabia que conseguiria o cargo. Ninguém teria coragem de disputar a posição comigo. Não estou me vangloriando nem nada disso, apenas era a realidade. A minha fama por si só me daria a vitória.

Só que não.

Houve outro candidato. Alguém cujo pensei que nunca mais brigaria na vida, que esse tempo já havia passado, principalmente depois da confusão com Albus e Scorpius com o vira-tempo. Mas, não, Malfoy não iria deixar as coisas acontecerem tão facilmente assim. Então, de repente, eu não era mais o candidato certo, mas um dos candidatos. Demos início há três exaustivos meses de campanha.

Eu tenho apoio da atual Ministra e tenho meu passado heroico para usar. Deveria ser fácil vencer Malfoy. Mas não é. Malfoy não tem apoio da Ministra nem um passado heroico, mas tem como arma a mobilização social dos bruxos. Os tempos atuais o favorecem e muito.

A campanha dele é baseada nos direitos iguais aos bruxos e ao fim das injustiças. Durante os últimos anos, ocorreu um alarmante crescente nos números de ataque às famílias puro-sangue. As ruas e locais públicos são, atualmente, inacessíveis para essas pessoas. Elas são obrigadas a viver com medo de serem atacadas ou mortas. Grandes tragédias aconteceram, de mortes, de pessoas isoladas, casais ou até famílias inteiras que chegaram a ser massacradas em casa. 

Nesse tempo, Malfoy iniciou um movimento de apoio a essas pessoas. Se tornou um líder da causa, apoiado pela grande maioria da comunidade bruxa. Entretanto, um grupo terrorista jamais parou de exercer terror e a onda de violência persiste acontecendo. 

O trabalho que Malfoy exerce é de fato muito notável, mas não esperava que ele fosse se apoiar nisso para se tornar Ministro. Se eu ganhar, vou defender os puro-sangue com o mesmo fervor que ele defenderá, por isso, não havia necessidade de competir comigo. Mas, obviamente, o imbecil insistiu em se tornar Ministro.

A opinião pública fica bastante dividida. As intenções de voto são meio a meio. Todas as famílias puro-sangue sem exceções declararam voto a ele, além de muitas outras famílias não puro-sangue que o apoiam. Já o meu eleitorado consiste nas pessoas que acreditam que eu poderei resolver este problema, já que sou o Salvador-Do-Mundo-Bruxo. Contudo, também existem os contrários ao Malfoy, que discordam do movimento dele e pregam que os puro-sangue só estão recebendo de volta o ódio que espalharam, que o Ministério não deveria se envolver e aguardar a fúria cessar. Estes votam em mim também, por acreditarem que eu seja um defensor dos trouxas e contrário aos sangues-puro. Isso acaba manchando meu nome e fazendo com que outras pessoas, assustadas com a possibilidade de eu realmente renegar esta classe, deixem de me apoiar e apoiem Malfoy.

É complicado. Mais complicado do que esperei que seria. Mas é um desafio. Eu não queria um desafio afinal? Com certeza não posso dizer que estou com tempo sobrando atualmente.

 

Está mais lotado do que pensei que estaria. E é estranho ver este lugar ao qual já vi tantas vezes lotado desse jeito. 

Como tecnicamente eu não devia estar espiando, levo um tremendo susto quando alguém me cutuca as costas. 

"Que coisa mais feia, Potter. Sabe muito bem que não é certo sair antes de ser chamado para o debate".

Suspiro aliviado. É apenas o Malfoy. Se fosse Hermione, estaria em problemas. Mas, pensando bem... Não sei se Malfoy é tão melhor. Desde que passei a chamar Malfoy de Draco as coisas ficaram estranhas. Entretanto, eu já vim preparado para esta situação. Resistirei a todas tentações que vierem de Draco, em busca de ficarmos longe de qualquer cama disponível. As camas... Elas são as vilãs. São como ímãs.

"Digo o mesmo, Malfoy".

Tento não reparar, mas só de pensar em não fazer, já faço. Draco está muito bonito. Um tipo de bonito charmoso, já que ambos estamos vestidos formalmente para o debate. 

Me forço para focar a atenção no presente, no agora. E no agora sei que devo parar de reparar, por isso desvio o olhar. Me lembro do motivo de estarmos aqui, do motivo de eu estar aqui. Me lembro da promessa que fiz, do plano que tracei. Fico com medo de ele perguntar sobre as cartas não respondidas que me enviou, ou do encontro que marcamos ao qual não compareci. Por isso, resolvo evitar essas questões.

"Não devíamos estar nos vendo antes do debate".

"Vou te massacrar de todo jeito. Te vendo ou não".

"Prefiro não te ver agora. Preciso pegar raiva suficiente de você para o debate".

Sei que não estou dizendo toda a verdade. Este não é o único motivo pelo qual gostaria de não ver Draco agora. Acho que ele sabe disso.

"Quando dizemos não querer ver alguém agora, significa que queremos vê-la em outro momento" diz ele. "As minhas corujas ainda não aprenderam a responder minhas cartas por você. E nem a irem aos nossos encontros, sabe".

Isso. Esta conversa agora não dá.

"Depois conversamos, Draco. Tenho que voltar para o camarim e continuar treinando o meu roteiro".

Ele simplesmente balança a cabeça. Sei que o magoo fazendo isso. Mas, assim doerá menos do que do que se eu enganá-lo.

Sigo para o camarim, que também é o quarto de Rose durante as férias. Assim que ela e sua família se mudaram para a Mansão Ministerial perguntei o que achava de viver aqui. Ela respondeu que era solitário. Fiquei confuso e a lembrei de que a família dela não havia diminuído, então não haveria como ficar solitária pela mudança. Hoje, enquanto encaro este enorme quarto, entendo perfeitamente o que Rose quis dizer. A sobra de espaço dá espaço para os pensamentos e sentimentos aflorarem. Ao mesmo tempo que me diminui, o quarto me engole por todos os lados. Estou num quarto de gigantes.

Pego o roteiro, mas não consigo concentrar. Olho para o retrato ao qual escondi a fotografia. Coloco ele de pé novamente. Rose, Lily e Albus me encaram. Por um momento é bom vê-los felizes na foto, mas logo comparo com a última vez que os vi. Estavam tão o oposto da fotografia. Lily chorou dizendo que não entendia o motivo de eu estar fazendo aquilo com a mãe dela. A frase que ouvi de Albus foi eu te odeio. Fazia anos que não ouvia ele me dizendo isso, doeu como se fosse a primeira.

Quando me tornei pai, jurei jamais levar mal para os meus filhos. Quebrei a promessa ao destruir a nossa família. Fui egoísta e joguei - queimei - tudo que sempre quis e almejara na vida. 

Mas, aprendi com meus erros, vou consertar isso. Prefiro viver toda uma vida infeliz do que ver meus três filhos tristes por um segundo.

Alguém entra no camarim. É Hermione, ela avisa que o evento vai começar. Pego meus papéis e a sigo pelo corredor. Não digo nada e ela respeita o meu silêncio. Hermione acha que é porque estou ansioso pelo debate. Quem dera que minha maior preocupação fosse o debate.

Há dois palanques no altar da escada. Um em cada lado, e no centro uma escada desce até embaixo, onde se encontra com uma multidão disposta ao redor de mesas circulares. Metade aplaude quando me vê assumir o palaque esquerdo, a outra metade faz cara feia. Arrisco uma olhada para Malfoy, mas ele está concentrado revisando seu roteiro. Ou talvez seja uma desculpa. As luzes focalizam em nós dois, o restante do ambiente está escuro. O público está ansioso, pois é o único debate que acontecerá e estamos há poucos dias da eleição. É minha última chance de conseguir mais alguns votos, e de tirar alguns do Malfoy. Uma música de suspense toca baixo. 

Mais luzes se concentram em outro ponto no início da escada. A pessoa que vai guiar o debate sobe. Ela veste um vestido brilhante prateado, seus longos cabelos loiros vão até o fim de suas costas. Está muito bonita, mesmo que bastante diferente da época da escola, mas quando sorri, o sorriso é inconfundível. Luna sorri e me cumprimenta. Geralmente ela me abraçaria. Luna gosta de abraçar as pessoas que gosta durante um bom tempo e bem apertado. Mas se contém desta vez, visto que está em trabalho. Faz o mesmo com Draco.

"Boa noite a todos. Iremos dar início ao debate sem enrolações. Vou somente lembrá-los que todo o debate será publicado na edição de amanhã do Pasquim, que é o jornal responsável pelas campanhas políticas deste ano" comunica Luna.

Luna explica as regras do debate para mim e Malfoy. Após dizermos que entendemos ela dá início. Na sorte, ficou decidido que perguntaria primeiro.

"Nos últimos anos, mais precisamente desde que sua esposa morreu, surgiram vários boatos de que o senhor tem mantido relações homo afetivas. Não se sabe se tais informações procedem, embora algumas sejam, de fato, bastante convincentes. Mesmo assim, tal situação desagradou a comunidade bruxa gay, que consideraram este comportamento, caso seja real, uma irresponsabilidade com seus deveres políticos e de imagem pública. Este quadro me deixa apreensivo quanto sua preocupação com este assunto. Por favor, explique quais serão as medidas que tomará referente à defesa desta comunidade, ou se durante seu mandato se preocupará somente com os puro-sangue".

Enquanto pergunto, ele me olha surpreso. Eu lhe devolvo um olhar que diz eu avisei. 

Mas, na verdade, ele não está bravo. Se parar pensar é engraçado. A hipocrisia de logo eu, que há poucos dias estava na cama com ele, fazer esta pergunta, ou o engraçado é a hipocrisia da sociedade fingindo que acreditam que Draco, eu ou qualquer outro político admitiria algo assim durante a campanha? Todos exigem que os políticos, famosos, qualquer pessoa de vida pública sejam verdadeiros quanto a sua vida pessoal. Dizem que é o dever a ser cumprido, mas a questão é que ninguém é obrigado a aguentar o massacre que chega depois que a bomba é solta, além claro da própria pessoa que comerá o pão que o diabo amassou diariamente por ter sido sincera.

Malfoy nega os boatos e reafirma sua intenção de proteger outras parcelas além dos puro-sangue. Acho que deu bom para mim. Com esta minha pergunta muitos preconceituosos desistirão de votar nele e votarão em mim. Pois, mesmo que ele negue, depois que é sugerido ninguém mais dá ouvidos.

Chega a revanche. Pelo jeito que me olha, me preparo para ouvir a pior arma que ele preparou para aquela noite.

"Aproveitando que o senhor bateu neste tópico da transparência, minha pergunta será referente a isso. Tem alguns meses que boatos sobre uma possível separação entre você e sua esposa surgiram. Apesar de não haver provas, a onda de desagrado da população foi crescente, já que ninguém quer ver o fim deste casal modelo da sociedade bruxa. Além disso, esta situação levantou suspeitas de, caso os boatos sejam reais, o senhor esteja mantendo a informação em sigilo durante o período de campanha, o que levanta a dúvida que qual coisa terrível poderia ter acontecido para tamanho sigilo. Dessa forma, gostaria que o senhor afirmasse que nenhum escândalo surgirá após a eleição, afirmasse que está sendo verdadeiro com seu eleitorado".

Malfoy me pôs contra a parede. Se confirmar o término perderei apoio, mesmo que não envolva nenhum escândalo da minha parte. Sei que perderei, pois haverá pessoas que acreditarão nas teorias de traição ou de coisas piores. Mas, também não preciso mentir, vou dizer a verdade, ou melhor, aquilo que se tornará verdade.

"Os boatos são mentirosos. Garanto que eu e Gina estamos muito bem juntos. Afirmo com satisfação que não haverá escândalo futuro. Ressalto minha preocupação em ser verdadeiro com meu eleitorado e manter a transparência".

Perderei alguns votos certamente com esta pergunta, mas acredito que serão poucos. A maioria acredita demais em meu relacionamento para cogitarem a aceitar este boato. 

O lado ruim é que o assunto me desconcentrou para as outras que virão. Vou me esforçar para não cair em nenhuma armadilha do Malfoy.

 

Depois do debate, houve o Jantar Eleitoral. O Jantar Eleitoral é feito somente para os políticos. Em teoria serve para os candidatos firmarem acordos com os integrantes do Conselho Bruxo em busca de políticas melhoradas. Trocado em palavras menos rebuscadas, serve para negociar o apoio dos conselheiros em troca de cargos e salários melhores do que o outro candidato oferece.

Acredito que me saio bem, apesar de ter ficar meio avoado em alguns momentos. 

No fim, restam poucos ainda presentes. Os que restaram estão conversando com Hermione, afinal ela ainda é a Ministra em função, por isso nunca é demais dar mais um elogio. Hermione parece totalmente à vontade, me pergunto se conseguirei ser como ela algum dia. Às vezes me faço a pergunta do motivo de estar fazendo isso, mas respondo a mim mesmo que preciso disso. Se Gina não me aceitar de volta, vou precisar ainda mais disso.

Apesar de não querer, apesar de desejar fazer justamente o contrário, vou até a mesa de Malfoy e me sento. Não há mais ninguém na mesa e não existe uma regra que proíbe os candidatos de conversarem, então acho que não deve ter problema.

Ninguém diz nada. Ele está bebendo, me sirvo uma taça da bebida. Viro de uma vez e encho outra. Esta vou beber mais devagar. 

Não tenho certeza do que dizer. Ao mesmo tempo que quero conversar sério, colocar um ponto final em nossa relação, também quero simplesmente jogar conversa fora, falar de coisas triviais e sem importância. Porque enquanto estou converso com Draco, é o único momento que fico realmente tranquilo, que me sinto totalmente em paz e sem pensamentos ou preocupações em segundo plano.

"Debate emocionante" comento.

Draco concorda com a cabeça. 

"Queria ter algum palpite que parecesse correto, mas tudo parece muito meio a meio" diz.

Nenhum de nós dois sabemos o que dizer em seguida. Ele sabe que tenho algo importante para falar e está me esperando.

"Draco, eu...".

"Uau, vocês não estão brigando?!" exclama Luna.

Ela e Hermione estão vindo. Parece que Hermione está levando ela até a saída. Só agora percebo que Luna é a última no salão. Hermione não diz nada, pois desconfia que algo esteja acontecendo entre nós. Mas nunca tocou no assunto e eu a agradeço imensamente por isso.

"Não diga nada cedo demais, Luna" brinca Draco, mas suspeito que contenha um pouco de verdade implícita para mim.

"Amei o debate. Até pensei em um ótimo título para a capa do Profeta de amanhã. Bem, na verdade dois, mas sei que o outro não posso usar. A última vez que relacionei alguém a um cocatrice não deu muito certo, embora os cocatrices sejam criaturas adoráveis".

Eu e Draco concordamos com ela, fingindo que entendemos. Hermione ri, com certeza é a única que sabe o que diabos é um cocatrice.

"Está bem, vamos indo" diz Hermione. 

E então pigarreia se lembrando de algo. Retira da bolsa duas chaves e coloca na mesa.

"As chaves dos camarins de vocês, aonde também vão dormir. Estou entregando agora porque assim que levar Luna até a porta, vou desmaiar sobre a cama. Rony deve estar me esperando também, ele se tranca no quarto em eventos assim. Rony é um ótimo Primeiro-Cavalheiro como conseguem ver".

"Não tenho certeza se vou mesmo dormir aqui, Senhora Excelentíssima Ministra" diz Draco. 

É um tipo de brincadeira dele chamar Hermione assim mesmo quando não precisa. Hermione não gosta nada, o que faz Draco fazer ainda mais.

"Óbvio que vai. Nós ainda temos um café da manhã com importantes nomes amanhã. Devemos estar de pé às cinco da manhã e já está tarde. Será muito mais ágil se os dois dormirem aqui".

Draco revira os olhos.

"Com tamanha lógica é impossível não fazer" murmura.

"Muito bem então. Até amanhã, senhores candidatos" diz Hermione, devolvendo o tratamento formal de Draco.

Draco sorri brincalhão, enquanto elas se afastam.

"Nem parece que é uma socadora de rostos".

Rimos. Uma coruja pousa na mesa e entrega uma carta para Draco. 

Ele olha somente o remetente da carta e logo a guarda no bolso. Vejo que, seja lá do que se trata a carta, Draco não quer ler na minha frente. Não faço perguntas, porque meus pensamentos já estão em outro assunto. 

"Draco, sinto muito por não ter te respondido, e por não ter ido ao encontro".

Não sei se fico triste ou feliz por notar que o assunto o deixa desconfortável tanto quanto a mim.

"Eu tomei uma decisão importante. Não seria certo se eu fosse ao encontro e levasse... Isso que temos mais adiante. Se fizesse, estaria te enganando e não quero isso".

"Você vai voltar com ela, né?".

Draco não fala como se estivesse triste, fala como se fosse uma decepção para ele. Não o culpo, sou uma decepção para mim também.

"Não aguento ficar longe dos meus filhos, Draco. Você também é pai, sabe como é. Tem meses que não vejo ou converso com eles. Estão com muita raiva de mim e o único jeito de eu arrumar isso é dando de volta para eles o que tirei, a família".

"Uma família onde você é infeliz. Ou vai dizer que agora voltou a gostar dela".

"Não. Mas, é o que vou fazer. Não por ela, mas por meus filhos. Jurei que daria a família que não tive a eles, mas não estou fracassando nisso".

"Gina não tem o direito de fazer o que está fazendo, Harry. E, não existe somente o tipo de família que você sonhou. Existem famílias de pais divorciados que são felizes".

Não aguento ouvir. Draco não entende, ninguém entende. 

"Não, não. Por favor, pare..." peço, ou suplico.

Preciso dos meus filhos próximos a mim. James, Albus e Lily. São minha vida. É como se precisasse de certa quantidade de um combustível diário para funcionar. Eles são o combustível. Se não me abastecer diariamente, fico na reserva. O problema é que já estou tempo demais na reserva. Agora só consigo ver o posto, só vou sossegar quando lá chegar. 

Draco segura minha mão sobre a mesa. Eu observo nossas mãos juntas em torpor. 

"Você não está sozinho, Harry. Sei como te ajudar a passar por isso".

Recolho meu braço. Não acredito que Draco disse isso.

"O que você sabe? Já se separou alguma vez? Scorpius já disse que te odeia e se recusou em te ver? Já? Já, Malfoy?" brigo.

"Não, mas...".

"Não tem mas! Você não pode me ajudar, porque a única coisa que pode me ajudar é estar com meus filhos de novo".

Me levanto. Tenho que ir embora. Tenho que deixar Draco, tenho que deixar esta conversa e essa vida atual que tenho levado.

"Sinto muito se te estou te decepcionando. Mas, só fizemos sexo algumas vezes. Foi só isso. Sexo não vai me dar o que estou procurando, Malfoy".

"Para você não foi nada além de sexo?" pergunta.

Não foi apenas sexo. Teve as conversas noite adentro. Sentimentos momentâneos de tranquilidade e sossego. Os beijos que eram como declarações de carinho... Teve muito mais do que sexo. Quero dizer isso a ele, mas acho que só vai piorar as coisas. Vai dificultar para darmos o ponto final. Não quero alongar algo ruim.

"Foi apenas isso" digo. 

Quebrei Draco. Dá para ver seus planos se partindo através de seus olhos. Penso que vai chorar, mas não chora. Apenas continua me fitando com um olhar que vale mais do que mil lágrimas.

Não posso continuar vendo esse olhar, então digo: 

"Se cuida, Draco".

Dou as costas e volto para o camarim. 

 

Tomo banho e deito. Mas mal consigo me manter de olhos fechados porque meus pensamentos não param.

Dever e vontade. São as palavras que me rodeiam. Dever e vontade.

Conheço meus deveres. O mais importante deles é reunir minha família novamente, e não posso fazer isso junto com Draco. Então, para cumprir o meu dever, devo suprimir minhas vontades. E a minha vontade mais forte é ir até o quarto ao lado, onde Draco está, bater, pedir desculpas e dizer que ele significa muito para mim. Dever e vontade. Por que são tão complicados?

Pensei que seria mais fácil. Sei lá, quando decidi que iria tentar reatar com Gina, não me ocorreu que iria ser tão difícil largar Draco para trás. 

Me lembro da primeira noite que fiquei com Draco. Foi na casa dele. Eu tinha acabado de descobrir sobre sua candidatura, e estava muito puto com isso. Bati em sua porta pronto para brigar. Mas, o que ele me deu foi muito melhor do que qualquer briga. Draco me escutou, ele me deu atenção. Não a atenção bajuladora que sempre recebo e nem a atenção julgadora que estava recebendo dos meus amigos naqueles dias, apesar de tentarem não fazer. 

Quando o xinguei, ao invés de retrucar ele me convidou para jantar. Fiquei tão desnorteado com tal recepção que apenas fui entrando na casa. Logo que meu desnorteio passou, então pensei que aquilo tinha dado muito errado. Eu tinha ido para brigar afinal e não comer. Porém, eu já tinha entrado, já tinha o seguido até a cozinha e já estava observando ele terminar de preparar a comida. Não tive escolha senão ficar. Mesmo ainda estando zangado.

Acusei ele de estar se candidatando apenas para me irritar. Draco foi bem convincente ao me explicar que ele estivera esperando há muito essa oportunidade de se candidatar. Além disso, disse que para o atual momento vivido, não teria Ministro melhor do que ele. Discordei nesse momento, mas levei na esportiva. No fim, compreendi as razões dele e vi que não tinham sido tomadas para me provocar.

Após terminarmos este assunto, fomos para outros. Ele me perguntou sobre Gina e meus filhos. Eu poderia ter ocultado a verdade dele, mas não fiz. Talvez não tenha enxergado problema em contar para ele, ou talvez simplesmente tivesse que desabafar com alguém imparcial em relação à Gina.

Draco me ajudou ouvindo meus motivos e sentimentos conflituosos que estava sentindo naqueles dias. Contei tudo a ele. Fiz a escolha certa, pois ele me ajudou bastante depois disso. Me aconselhando e me animando com as histórias malucas de seus antepassados. Ele realmente conseguiu me ajudar por um bom tempo. Pena que não durou.

Aquela foi a melhor noite em meses. Tudo por causa dele.

Acordei na manhã do outro dia com uma terrível ressaca, dormindo abraçado com Draco no tapete da sala dele. Não me arrependi no momento. Na verdade fiquei surpreso ao perceber que gostei bastante de tudo que houvera na noite anterior. Só fui me arrepender disso depois, agora para ser mais exato.

Se aquela noite não tivesse ocorrido, eu teria feito menos uma pessoa infeliz. Não estaria sendo consumido pela culpa. Tento convencer a mim mesmo que não tenho culpa em escolher minha família diante a tudo, mas não sou suficientemente convincente ao que parece. Fico triste por ter deixado Draco triste, apesar de saber que ele já passou por coisas piores e que não vai significar exatamente a morte para ele.

Me pego sentindo saudade de duas coisas conflituantes. Saudade de Draco e saudade da minha família. Quero ao mesmo tempo ter Draco em meus braços e ouvir as risadas dos meus filhos ao nosso redor. Quero isso, mas como falei, são apenas vontades. Não vejo esta vontade se tornando realidade.

 

Ouço batidas na porta. 

Já tenho certeza de quem está do outro lado. Será que veio brigar comigo? Ou pior, será que veio me pedir para repensar minha decisão? Por favor que não seja isso, pois tenho medo de não ter força suficiente para tomar a atitude que não é o caminho mais fácil para mim, mas é o caminho mais fácil para os outros. 

Me dirijo até a porta pensando nisto.

"Harry" chama ele.

Encosto a testa na porta. Não consigo. Sei que se vê-lo, vou acabar andando para trás. Como sei que isso não vai me aquietar por muito mais que uma noite, não posso correr o risco de vacilar. Não vou abrir a porta.

"O que é?" pergunto.

Ele demora responder. Agora não tenho certeza se ele ainda está do lado de fora.

"Menti mais cedo" sussurro. 

Talvez ele nem esteja mais aqui.

"Como é?", a pergunta dele chega.

"Eu menti. Você significa muito mais do que sexo. Mas... Não é simples assim. Não é só questão de gostar ou não gostar".

"Entendo". 

Ele entende?

"Entende?".

"Sim. E quanto aquilo que eu disse que poderia te ajudar, não estava dizendo da boca pra fora. Realmente tenho uma forma de te ajudar. Bem, algo que possui muitas chances de te ajudar".

Quero dizer que não há nada que ele possa me dar que vá substituir o que falta. Não digo isso porém, porque talvez haja alguma esperança que não estou enxergando.

"O quê?" pergunto.

Realmente desejo que ele me forneça algo que me ajude. Seria um sonho. Se não ajudar, ele estará me magoando ainda mais.

"Desde que você me contou sobre seus filhos, pedi a Scorpius que tentasse retirar as ideias que a mãe de Albus colocou na cabeça do amigo dele. Scorpius vem fazendo isso desde então. Há um mês Scorpius me disse que achava que tinha feito Albus entender o seu lado, mas que ainda não tinha coragem para admitir isso para a mãe e irmãos. Então escrevi uma carta a Albus, pedindo que tentasse convencer os irmãos a escreverem uma carta a você, disse que isso te deixaria muito feliz. Abus tem tentado muitas vezes, mas estava sendo realmente complicado. No entanto, recebi uma coisa mais cedo que me surpreendeu e que acho que vai gostar. Eu não li, então, não sei se são boas notícias, mas espero muito que sejam".

Um envelope foi empurrado por baixo da porta. O mesmo envelope que vi a coruja entregando para Draco mais cedo. Ele deve tê-la guardado para entregar após o jantar para mim, mas então houve toda a confusão e não conseguiu. 

É uma carta do Albus. Ou será que é uma carta de todos?

Pego o envelope e abro a porta. Draco não está mais aqui.

Com a carta em mãos, já noto que contém a assinatura de todos os três no fim dela. Choro só em perceber isso. A julgar pela letra desleixada, porém não tão feia quanto a de Lily, deve ter sido Albus quem a escreveu.

Papai, 

Nos desculpe por termos recusado conversar com o senhor, mas tudo foi tão complicado. 

Scorp e o pai dele me fizeram perceber que o que mais importa para mim é que você e Mamãe sejam felizes. Embora eu preferisse que isso acontecesse com vocês juntos, não posso pedir que o senhor fique infeliz por nossa causa. Por isso, sinto muito mesmo. 

Ficamos com raiva pelas coisas que Mamãe contou. Que o senhor havia traído ela com outra mulher e que tinha nos trocado por ela. Sei lá, quando vimos Mamãe chorando daquele jeito enquanto dizia isso, foi demais para gente. Ficamos com muita pena dela. Ainda mais quando ela segurou nossas mãos e disse que agora nós éramos a única família que sobrou. Mamãe não nos pediu para ficarmos longe do senhor, mas nos fez prometer que não a abandonaríamos como você havia feito. Não sei exatamente o que ela quis dizer com isso. Mas, de qualquer maneira, ficamos chateados e achamos que se te víssemos, estaríamos quebrando a promessa. Sr. Malfoy e Scorp disseram que esta história de traição é mentira. Esperamos muito que seja mesmo.

Bem, por carta é melhor pararmos por aqui. Depois conversamos mais nas férias que está chegando. Queremos passar a maior parte delas com o senhor, apesar de termos medo de como a Mamãe vai reagir a isso. Enfim, tchau. Nós amamos você!

Alb, Jamy e Lily. 

 

Eu poderia dizer que me sinto muito feliz. Mas parece pouco. Estou tão feliz a ponto de nem saber como ainda estou de pé. Há várias manchas de lágrimas na carta agora. Eu ainda estou chorando, mas estou sorrindo também. 

Preciso comemorar isso com alguém. Alguém não, só há uma pessoa com quero comemorar. Draco. Quero festejar isso com ele e agradecer também. 

Acabo de me dar conta que esta carta muda tudo. Talvez eu consiga realizar minhas vontades, e não ser obrigado a cumprir meus deveres. Quero dizer, ainda existem deveres, mas estes são outros. Tenho que cumprir um deles agora mesmo.

Entro no quarto do Draco. Como havia suspeitado não estava trancado. 

Ele não está dormindo. Olha para mim quando entro. Sua expressão é analisadora. Quando sorrio ele relaxa, pois percebe que as notícias foram boas. Subo na cama e o beijo. Acho que recomecei a chorar. Seguro seu rosto e o encaro.

"Muito obrigado, Draco. Nossa, o que você fez foi tão importante para mim. Tão significativo. Espero que saiba que jamais esquecerei isso".

Ele segura minhas bochechas. Automaticamente me pego inclinando em direção às suas mãos. Ele não diz nada, apenas me beija de novo.

Esse beijo carrega um significado. Sinto que estamos começando algo importante nesse momento. Este é o instante zero de um novo ciclo e de uma nova vida que está vindo.

Mesmo quando jogo meus sapatos fora e os beijos vão se tornando mais frenéticos. Ainda assim, é diferente de tudo que já fizemos, porque desta vez não me sinto culpado de estar contente ao lado dele.

Não estamos apressados. Tiramos nossas roupas com paciência, porque não queremos que isto chegue ao fim tão cedo. Não existe coisa que me tornaria mais feliz do que estou agora. Tento transmitir a sensação para Draco. Acho que consigo, pois a sinto retornando. 

Quero sentir cada pedaço do corpo dele. Estou beijando e o tocando por inteiro. É intenso ao mesmo tempo que é simples. Nossos movimentos são programados para seguirem uma dança. Nós somos a melhor dupla nesta dança. Os movimentos ficam cada vez mais fortes. Nesse momento só enxergamos um ao outro. É só o que importa. Sabemos pelo olhar que trocamos, que isso é amor. Não tem como não ser. Um daqueles que nos faz derrubar um batalhão inteiro só para vivermos dele. Ele faz parte de mim e eu faço parte dele. Perfeição única.

Estou me perdendo no futuro. Consigo enxergar com precisão o que pode acontecer. Estou me perdendo no presente. Eu me contentaria somente com o presente, apesar de amar o futuro. Achava que era impossível ter tudo. Talvez realmente seja para algumas coisas. Mas, nesse caso, eu tenho tudo que quero. Eu tenho tudo. Tudo. As coisas que amo. No meu alcance.

Estamos cansados e suados, mas não com sono. Desfrutamos de outro tipo de união agora. A simples união da companhia, da presença.

"Te amo como jamais amei" digo.

"Sério?" pergunta ele como se tivesse dúvidas.

"Não é o momento me fazendo falar isso. Falo sério, Draco. Eu te amo".

Beijo sua cabeça e ele sorri. 

"Nesse caso, eu também te amo, Harry".

Talvez eu não sobreviva a isso. Espero que meu coração seja forte o suficiente para aguentar tudo desta noite. E ainda tenho mais para dizer:

"Outra coisa... Você vai sozinho ao café da manhã com a Hermione".

Draco não entende de princípio, mas logo a compreensão chega.

"Não, Harry. Por que está dizendo isso?".

"Porque tem que ser você. Hermione queria que alguém bom assumisse o cargo dela, esse alguém é você, e não eu. Farei isso apenas por uma aventura, mas você fará porque gosta disso, e se preocupa de verdade com as pessoas. Você é a melhor pessoa para o Ministério".

Draco parece ter levado uma pedrada na cabeça.

"Eu... Sou Ministro da Magia então?".

Digo que sim sorrindo largo.

"Meus parabéns".

Ele sorri bobamente para o nada por um tempo, e então me encara.

"Nós dois governaremos juntos. Você será o Primeiro-Cavalheiro" diz eufórico.

"Acho que consigo ser melhor do que o Rony" digo rindo.

Sei que enfrentaremos muitos problemas ainda. Haverá complicações, mas elas estão em tudo na vida. A única coisa que sei é que não aceitarei mais viver algo por obrigação, por achar que não há outra escolha, porque agora vi que sempre há uma opção melhor do que a pior. As coisas do universo não são imutáveis. Elas são bagunçadas mesmo e quase nunca nos dão a realidade que esperamos. Desse modo, somos os responsáveis por determinar se nossas realidades estão ou não nos satisfazendo. Se estamos insatisfeitos, mudemos então. Pois existem partes da vida que precisam ser moldadas ao nosso gosto, e outras, que estão perdidas e precisam ser descobertas. Mas é preciso se arriscar para encontrá-las.

 

Você e eu, juntos

Além dos dias e das noites

Eu não me preocupo, porque

Tudo vai ficar bem

 

As pessoas continuam falando

Elas podem falar o que quiserem

Mas o que eu sei é que

Tudo vai ficar bem

No One, ALICIA KEYS. Traduzido


Notas Finais


Ficaram morrendo de raiva da Gina? Eu também fiquei, e o pior é que coisas assim acontecem muito (não só com as mães, mas com os pais também). Apesar disso, eu gosto da Gina, jamais havia posto um papel de vilã nela nas minhas fics, mas nessa ela teve que assumir esse papel infelizmente.

Spoilerzinho: Capítulo ADIANTADO nessa semana!


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