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História 11 Maneiras de Encontrar o Amor - Drarry - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


-Ponto de vista: Draco.
-Subcategorias: Ação, aventura, humor.

Capítulo 8 - Aprenda a Viver como Herói


Aquelas luzes brilhantes estão nos iluminando

Essa batida tão forte está fazendo você querer

Dançar como se não houvesse amanhã

Como se não houvesse amanhã

Como se não houvesse amanhã

Oh, nós podemos fazer a nossa noite

Não se preocupe com isso

Don't Worry, MADCON (Ft. RAY DALTON). Traduzido

 

O lado ruim de ser herói é ter o horário bagunçado, ficar pouco tempo ao lado da família e viver escapando da morte... Isso é o que se ouve, e é tudo mentira! A vida de um herói de verdade, que trabalha fora dos quadrinhos e das salas de cinema é bem mais legal. Você quer aprender como é? Então vem comigo.

Antes de qualquer outra coisa, se você tem medo da própria sombra, ou aprecia passar os dias em ambientes controlados e seguros, esse trabalho não é para você. Então, lá vai a primeira lição (pincel e pergaminho na mão): Deixe seus medinhos em casa, ou vá trabalhar num super seguro e chato escritório.

Recomendo sempre iniciar o turno de trabalho fazendo algo que anime teu corpo e já te deixe alerta. Hoje, como trabalharei no período da noite, então isso se faz ainda mais necessário, por isso farei a coisa que mais me ajuda com isso, que são as corridas de rua.

Os caras me recebem com empolgação. Batem na lataria do meu novíssimo carro, que peguei especialmente para correr. Ele é fácil um dos mais legais de todos os carros que posso ver estacionados, o que faz com que os corredores praticamente gotejem saliva no meu capô. Abaixo o vidro, e sorrio convencido para os que notam o carro com a boca aberta.

"Eu sei, ele é um monstro, mas não tão monstro quanto o motorista dele" falo, estendendo a mão para cumprimentar os caras.

Lição 2: Mantenha a presença, mas nunca maltrate ninguém fazendo isso.

Depois de todos me dizerem oi, eles continuam boquiabertos, mas agora comigo e não com o carro. Aquele que eu arrisco ser o mais famosinho da região se aproxima.

"Feiticeiro, caramba! Não pensei que viria mesmo para a corrida", o cara diz.

"Quando dou minha palavra com alguma coisa, pode ter certeza que cumpro".

Eles parecem nem me ouvir.

"É o Feiticeiro mesmo, meu irmão", outro diz em choque. "Ele vai correr com a gente".

"Sou seu fã, Feiticeiro. Te admiro pra cacete, sabe por quê? Você salvou a filha da amiga da neta da prima da minha mãe. Ela tinha ido no supermercadinho perto da casa dela numa tarde, e foi feita de refém por uns assaltantes de merda. Sem brincadeira, ela diz que passou pelo terror. A polícia ficou de fora, mas com os reféns no lado de dentro, ninguém sabia o que fazer. Tenho certeza que se você não tivesse chegado, os polícia acabaria entrando com tudo e a garota teria morrido. Mas, por sorte, o Feiticeiro chegou. Você surgiu no telhado da mercearia e disse que ajudaria. E ajudou. Não sei nem como, mas cinco minutos depois a porta abriu, e todos os assaltantes estavam caídos no chão. O Feiticeiro já tinha ido embora. Cara, falaram disso por semanas no jornal de lá, a coisa foi louca. Ainda lembra, Feiticeiro?".

Lição 3: Se for um bruxo, não dê entrevistas para os trouxas, pois ficará vulnerável, e correrá risco de ser pego pelo Ministério da Magia.

Para as pessoas que salvo, e seus familiares, o ocorrido fica salvo na cabeça delas, só que para nós, heróis, logo aquele dia vai se misturar com outros iguais, e você vai acabar se lembrando de apenas algumas coisas a longo prazo. Por exemplo, esse cara não tem ideia de quantos mercadinhos já impedi de serem assaltados, por isso pergunta isso. Porém, você nunca pode cortar o barato de um fã seu deste jeito.

Lição 4: Você sempre diz se lembrar de todos os serviços que já fez.

"Claro. Como poderia me esquecer desse dia? Foi emocionante".

O rosto do cara muda para uma expressão de agradecimento. Percebo que outros estão se preparando para fazerem mais perguntas, as quais devo evitar.

"Então, essa corrida vai rolar ou não?". Acelero o motor do carro. "Viu? Minha máquina está impaciente".

Os corredores logo se apressam para a corrida iniciar ao meu pedido. Deve ter cerca de quinze carros que participarão da corrida. Zack, o organizador da corrida, vem com um mapa para me explicar a rota. Será da maneira que pedi, toda feita em rodovias e não na cidade. Como está de noite, e este arredor não é muito movimentado, não terá problema nenhum. 

Enquanto o corredor termina de me dar as últimas informações, vejo pelo retrovisor um carro preto se aproximando. Não é um carro típico de corrida, talvez seja um policial disfarçado. Cutuco Zack, e indico o retrovisor. Ele desce para conversar com quem quer que seja. Por precaução, mantenho o motor ligado caso seja preciso uma fuga rápida.

Observo tudo pelo retrovisor. Eles conversam um pouco. Inicialmente, o motorista mostra certo nervosismo, mas repentinamente acaba e ele parece ficar calmo. A pessoa do carro preto está fazendo muitas perguntas ao que parece. 

Então, Zack volta andando em direção ao seu carro. Entra e fecha a porta. Não se mexe, apenas permanece perdido, olhando bobamente o nada. Isso não está me cheirando boa coisa, tanto que meu coração começa a acelerar. Tem algo chegando. 

Quando me dou conta, o carro preto para do meu lado. O vidro está abaixado, e quem dirige é Harry Potter. Primeiro, fico surpreso, depois, me recomponho. É óbvio que Potter se tornaria auror, ou algo assim. É a cara dele.

"Boa noite, velho amigo. Você não sabe o tamanho da minha surpresa em te ver por aqui" cumprimento simpaticamente.

"É como se fala, Malfoy, a justiça demora, mas chega para todos" responde. 

O tempo fez bem para o Potter. Está mais forte, já que antes só era osso. Também está mais bem cuidado, barba rala cuidadosamente feita, nova armação de óculos... Isso me faz lembrar de quando era apaixonadinho por ele nos tempos passados. Antes da Segunda Guerra Bruxa.

Livro meus pensamentos dessas coisas antigas. Tenho que me concentrar no agora.

"Veio me trazer justiça, Potter? Me diga, por que ser herói dos trouxas é errado?".

"Você já ouviu falar do Estatuto de Magia, ou das leis que proíbem a prática de magia em locais trouxas e, principalmente, em frente dos trouxas?".

Suspiro, como se tivesse cansado desta conversa, e realmente estou. 

"Bom, então vai ser uma pena".

"Por quê?".

"Estava pensado em te chamar para sair".

Lição 5: Em caso de encurralamento por inimigos, jogue uma distração e escape.

Pela surpresa, Potter tem alguns segundos de atraso para tentar entender o que foi dito. Tenho que usar este tempo para traçar um novo plano.

Levo o carro com rapidez para trás. Agora, Potter já voltou a si. Dou uma rápida volta, e acelero. Potter faz o mesmo e vem atrás de mim. 

"É uma perseguição o que você quer, Potter? Então é o que terá" murmuro, sorrindo de canto.

Sinto que se quisesse, poderia aparatar, mas prefiro correr, afinal, ainda preciso de uma corrida para iniciar a noite. Só espero que Potter não infarte e aguente o tranco, pois o que vou fazer com ele será louco.

Murmuro uma dúzia de feitiços rapidamente. São para impedir Potter de danificar meu carro, ou a mim, por meio de feitiços. 

O velocímetro sobe cada vez mais. Chego à oitenta, e à cem. Cento e vinte. Os poucos carros que passam por perto de nós estão muito mais devagar. Tudo está mais devagar. É uma área de plantações rasteiras de hortaliças, e formam um borrão nos meus lados conforme corto pela estrada.

Ouço a voz de Potter, amplificada, me dando ordens para encostar.

"Se não parar, as coisas vão ser piores quando for pego" ameaça.

Faço uma curva fechada para entrar na plantação. Desculpe, pobres hortaliças, mas tenho que brincar um pouco com Potter. Ganho um pouco de distância, porque até Potter desviar também e voltar a me seguir, já me afastei muitos metros na velocidade que estou. 

Não tenho a mínima ideia de para onde estou indo. A plantação é enorme, e ocupa várias colinas. Potter me persegue por entre elas. O carro se move com dificuldade, às vezes ameaça perder o controle em regiões muito íngremes. Com Potter é pior, por ser menos acostumado a dirigir do que eu. As plantações começam a ficar mais espaçadas, elas rodeiam uma fazenda. Vou na direção dela para deixar Potter com medo do que posso fazer.

Há algumas luzes acesas dentro de casa. Um senhor sai, abismado com o que vê. Dois carros correndo sobre sua plantação, é de abismar qualquer um mesmo. Fico dando voltas nos arredores da fazenda, Potter não consegue me pegar, pois meu carro é muito mais forte e rápido, o dele está quase pedindo socorro. Me preocupo quando vejo que agora o senhor está armado e disparando nos carros. 

Nenhum tiro acerta, mas não dá mais para brincar. Escolho um ponto alto e acelero para lá. Tento imaginar o quanto o pobre do Potter deve estar se sentindo péssimo com isso tudo. Ninguém mandou vir atrás de mim.

Ou Potter está muito determinado a me capturar, ou está apreciando o esporte.

Na subida da montanha o meu carro já tem dificuldade, porque o relevo é muito inclinado. Torço para Potter parar ou desistir, mas não acontece. Finalmente, chego ao topo com Potter na minha cola. O topo é aberto, mas se fecha em um penhasco. Vejo o corpo do rio. O penhasco me espera com um rio lá embaixo. Estou encurralado, porque não há como voltar.

Só me resta uma alternativa. 

Não é o que eu queria, mas vai ser divertido também. Olho no retrovisor e vejo Potter parando o carro. Agora estou quase na beirada do precipício. Ele desce de seu carro, e fica me olhando incrédulo. Dou uma última pisada funda no acelerador, os pneus traseiros derrapam, enquanto os da frente perdem o chão. Logo estou no ar, caindo. Meu carro se inclina, o cinto sustenta meu peso para me impedir de enfiar a cara no para-brisa. Espero até o último segundo. Imagino Potter lá em cima, provavelmente achando que fiquei louco. Talvez eu realmente tenha um certo nível de loucura, porque toda a emoção de estar caindo vale a pena. Sorrio de canto à canto, antes de aparatar e deixar que o carro caia sozinho.

Surjo numa elevação do próprio penhasco. O lugar é escondido, caso Potter olhe de cima pra baixo, então estou seguro. Não tem como ele adivinhar que estou aqui, porque com certeza ele sabe que aparatei. 

Assisto meu carro afundar na água, enchendo-se de água e se afogando. Vou precisar arrumar outro, caso queira passear na cidade antes de partir para a próxima. Pensando bem... Se Potter está atrás de mim, provavelmente há outros. Devem ter infestado a cidade, ou vão infestar depois dessa. Após o trabalho desta noite vou embora daqui.

Ouço um barulho ao meu lado. É Potter. Não consigo me proteger antes de me acertar um feitiço, que me faz perder a consciência.

...

Espero acordar amarrado numa cadeira em algum lugar sujo, mas acordo no banco do carona do carro que Potter estava usando. Não estou amarrado, com exceção de uma pulseira preta no meu pulso, a qual não sei o que faz, só que não consigo retirar por mais que tente. E estou sem minha varinha.

O carro está estacionado na beira da estrada, que está ainda mais deserta do que estava antes. Pela hora do painel, indica que se passou pouco mais de uma hora. Estou trancado dentro, é impossível abrir as portas. Onde está o Potter?

Vasculho a porta-luva do carro, porque...

Lição 6: Se estiver sem saída, mantenha a calma para pensar melhor.

E...

Lição 7: Aproveite qualquer oportunidade para aprender sobre seu inimigo.

Mas também, porque não tenho mais nada para fazer.

Encontro várias objetos abandonados, papéis e saquinhos plásticos de balas. Tem um pedaço de jornal rasgado, como se tivesse sido destacado para ser guardado. É uma versão bem antiga, mas como não tenho mais notícias do mundo bruxo, qualquer coisa será novidade. 

Nele, se lê uma matéria que denigri bastante a imagem de Potter, que é algo que só vi acontecer no quinto ano de Hogwarts. 

Diz que Potter tem decepcionado constantemente seus seguidores, por conta de revelações polêmicas que tem feito, como dizer que os aurores do Ministério da Magia se preocupam apenas com os casos que julgam serem de maior prioridade, que sempre envolvem pessoas amigas do governo, e por ter assumido uma postura de combate a preconceitos, dizendo que os bruxos só sabem falar do preconceito com os trouxas e nascidos trouxas, mas esquecem de proteger as mulheres, animais mágicos, seres mágicos e gays, por exemplo. 

"Caramba, Potter colocou a boca no trombone".

Também cita a recente separação de Potter com a Weasley. Depois disso, o anúncio para a comunidade bruxa sobre sua sexualidade, assumindo-se bissexual. Parece que até oficializou um namoro com um homem, mas que durou muito pouco porque a mídia e as pessoas caíram em cima do pobre rapaz, que não aguentou a pressão e cascou fora. 

Por último, diz que o ápice do descontentamento das pessoas com Potter foi quando recusou o trabalho de participar das equipes de busca e rastreamento em minha procura. Potter disse, em entrevista, que não achava tão errado o que eu estava fazendo, e que havia problemas mais sérios para se preocupar. O chefe dos aurores anunciou que Potter sofreria punições por esta fala. 

Agora não estou entendendo nada. Potter, há algum tempo atrás, havia indicado discordar do que eu fazia, e até me perseguiu e capturou. Mas, há semanas atrás ele havia dito justamente o contrário. Será que ele mudou de ideia? Será que foi forçado a me capturar pelo Ministério e pelo chefe dos aurores? 

Não sei, mas quero muito descobrir.

Me dou conta de uma coisa. Se antes Potter era um babaca (um babaca que eu amava, mas, ainda assim, babaca), agora ele se tornou uma pessoa muito boa e inteligente, de acordo com tudo isso. Apesar de estar me prendendo neste exato momento.

...

Demora cerca de meia hora para Potter aparatar para dentro do carro no banco do motorista.

"Ora só, vejo que acordou".

Potter tem os cabelos molhados, e os seca com uma toalha que pegou no banco traseiro, depois a joga para trás de volta. 

"Por que está todo molhado?".

"Porque estava retirando um carro do fundo do rio, por culpa de certo alguém" resmunga ele irritado.

"Foi divertido, você devia tentar um dia". Potter revira os olhos, enquanto liga o carro. "Como me achou lá?".

"Enquanto falávamos sobre justiça e essas coisas lá na corrida de rua, aproveitei sua distração para conjurar em você um feitiço localizador".

Lição 8 (neglicenciada): Quando achar que escapou, verifique se não há feitiços conjurados em você.

"Te peguei desta vez, Malfoy", ele se gaba sorrindo tranquilamente enquanto dirige.

"Para onde está me levando?".

"Primeiro, vamos deixar este carro em um lugar seguro. Depois, vou te levar pra casa".

"Pra minha casa?" pergunto surpreso.

"Pra minha que não é, Malfoy".

Potter está muito engraçadinho para o meu gosto e minha paciência. 

"Como assim? Você não devia me levar para o Ministério?".

"Não estou trabalhando para o Ministério. Estou trabalhando para Narcisa em particular".

Não vejo minha mãe há anos. Desde que decidi que o mundo bruxo não era para mim, e que eu tinha uma péssima mãe, a qual era melhor manter distância. Então, fugi de casa e fui viver no mundo trouxa.

"Então, o Ministério não sabe que você está comigo, e nem vai saber? Por que você se arriscaria tanto assim por um trabalho da minha mãe? Aposto que não é por dinheiro".

"Você não vai entender, mas digamos que devo um grande favor a sua mãe. E quando ela me ligou com esse pedido, não pude negar. Fora que... Não estou me arriscando tanto quanto você pensa, as coisas já estão meladas entre mim e... quase todo o resto do mundo".

É hilário como Potter quer parecer despreocupado, mas falha miseravelmente.

"Sei disso. Bisbilhotei todo o carro, e li a matéria do Profeta" falo.

Potter se retesa, repentinamente tenso ao saber que sei de tudo. Deve estar esperando que eu reclame de algo, ou fique bravo com ele, igual ao resto do mundo.

"Você melhorou bastante desde a última vez que nos vimos. Quase parece gente inteligente agora".

Minhas palavras tem um efeito calmante nele, que abaixa os ombros e diminui a força que apertava o volante.

"Bom, obrigado, eu acho. Mas isso não vai me fazer desistir de te levar até a Mansão Malfoy".

"Ah, o que minha mãe quer comigo?" pergunto indignado. "Eu disse a ela que viveria minha vida em paz".

"Isso foi antes de você se tornar o 'Feiticeiro'. Agora, ela está preocupada com a possibilidade de você ser preso, e quer colocar juízo na sua cabeça antes que aconteça".

"Pelo amor, ninguém consegue me pegar. Bem... Ninguém conseguia. Por falar nisso, como conseguiu me encontrar?".

"Tenho contatos que ficaram sabendo que o Feiticeiro iria participar da corrida de rua".

"Francamente, povo fofoqueiro".

"Corridas de rua são ilegais. Um herói não deveria fazer isso, Malfoy".

"Não deviam ser ilegais quando são feitas à noite em rodovias desertas" defendo.

No fundo, sei que as corridas de rua são erradas. Mas, são como um vício. Deve ser meu maior defeito.

Potter apenas nega com a cabeça, mas não discute.

Não quero ir para minha mãe, porque não aguento conviver mais com ela. Mas, é bem melhor do que ser preso. Se não fosse um grande empecilho.

"Potter, você tem que me escutar. Hoje, eu tenho um trabalho para fazer. Um assalto vai acontecer. Se eu não impedir, haverá muito prejuízo e possíveis mortes".

Potter me ouve calado.

"Será numa joalheria. São uma organização de bandidos muito poderosos e perversos, eles gostam de fazer muito estrago. Você tem que me ajudar a ajudá-los, Potter".

"A que horas isso vai acontecer?".

"Daqui mais ou menos duas horas" respondo ansioso.

"Tudo bem".

"Tudo bem? Simples assim?" pergunto desconfiado, tem que haver algo escondido.

Potter aponta para a pulseira esquisita que está no meu braço.

"Isso daí é como um GPS. Você pode tentar fugir de mim, mas vou saber exatamente onde está. É melhor do que o feitiço localizador, porque é impossível de ser retirado, a não ser que eu mesmo te liberte".

Isso é uma merda, mas ao menos poderei impedir o roubo. 

"Não vamos ficar de papo furado durante duas horas. Pode haver outras coisas a fazer" digo.

"Quer que eu vá com você dar uma de herói?".

"Você já nasceu herói, Potter. Eu me tornei um para os trouxas, mas, você? Você é herói de berço".

"Não sou herói de ninguém, Malfoy" diz, com o olhar distante, perdido em pensamentos, exalando tristeza por seus poros.

"Mesmo assim, vamos comigo. Será uma aventura, acho que está precisando".

"Uma perseguição de carro já não foi aventura demais?".

Rio.

"Vamos, e eu te mostro o que é uma noite de aventura de verdade, Potter".

"Se eu fiquei mais inteligente, você ficou mais maluco com os anos, Malfoy" diz, mas pelo seu sorriso, sei que aceitou.

...

Depois de deixarmos o carro dele estacionado em um bairro tranquilo, aparato com ele até meu trailer.

"Como vivo viajando pelo país, e não passo mais do que uma semana em um mesmo lugar, necessitei de uma casa móvel" explico. 

Potter observa tudo com o olhar entretido. Meu trailer é grande e novo, mas está muito bagunçado, o que me deixa nervoso. Vamos dizer somente que não aprecio muito os trabalhos domésticos. Ou, talvez seja porque ele seja o primeiro que entra nele além de mim. É tudo que eu tenho de mais íntimo, por isso pego rapidamente as coisas que precisaremos para sair daqui logo.

Duplico minha Nimbus 2002, amarro minha bolsinha de cintura, que é enfeitiçada para caber tudo dentro dela, e peço minha varinha de volta.

"É melhor não fazer nada", ele diz ao me entregar.

Logo subimos nas vassouras e levantamos voo. 

"Costumo sobrevoar as cidades à noite em busca de algo que eu possa ajudar, pode ser acidente, assalto, incêndio e até alguém que vai pular da sacada - já aconteceu comigo. Mas, o principal meio de localizar problemas é pelo rádio da polícia". Ligo o rádio e o coloco no suporte que criei para este fim. "Agora é só esperar, e voar enquanto isso".

Lição 9: Tenha meios de informação seguros, e quanto mais instantâneos ao crime melhor.

O centro da cidade é cheio de prédios altos e espelhados, o que torna a vista linda. Nunca pensei que faria isso com Potter, mas estou me sentindo mais forte do que normalmente me sinto. Deve ser porque estamos em dois, e com dois bruxos nenhum trouxa pode se meter.

"E se alguém nos ver?" pergunta Potter.

"É madrugada, Potter. E se verem, vão pensar que o Feiticeiro arrumou um aliado".

"Como foi que se tornou o Feiticeiro?".

Me lembrar disso traz péssimas sensações.

"Bom, tudo começou quando vim viver no mundo trouxa. Como já não me encaixava entre os bruxos, achei que aqui me encontraria facilmente, mas não aconteceu. Fiquei muito tempo perdido sem saber o que fazer. O dinheiro que levava acabava rapidamente, então tinha que pensar em algo logo. Encontrei uma vaga de garçom em um restaurante, no meu primeiro dia tentaram roubar lá. Estava com minha varinha, porque nunca saio sem ela, então, quando eles me mandaram entregar todo o dinheiro da comissão e gorjeta que eu havia ralado para conseguir, respondi que não iria, e apontei a varinha para o peito dele. Ele riu, sem entender. Estuporei todos eles e liguei para a polícia. Depois, fugi, vendi meu apartamento e mudei de cidade por medo de as pessoas que me viram fazer magia me encontrarem, ou o Ministério".

"Por causa disso decidiu se tornar herói dos trouxas?".

"Mais ou menos. Eu tinha um namorado. O nome dele era Alex, trabalhava comigo no restaurante, tinha arrumado a vaga para mim. Sabia de tudo sobre mim, eu o amava demais".

"Eu sinto muito" fala, já adiantando o desfecho.

"No meio da confusão de quando reagi no assalto, um dos bandidos baleou Alex no peito. Ele morreu na hora... Isso foi comigo para a outra cidade. A raiva e indignação por tudo isso. Numa noite quis seguir os policiais da cidade durante todo um dia para ajudá-los com o que acontecesse. Neste dia, combati dois roubos e salvei um bebê de cinco meses de um andar em chamas. Foram as coisas mais emocionantes que já havia feito na vida. Não o ato de salvar as pessoas, ou de impedir assaltos, mas sim de ver as pessoas retornando a salvo para as famílias. Decidi que aquilo seria a minha ocupação, então no outro dia fiz o mesmo, e no outro também, até o dia de hoje".

"Mesmo que todos digam que o que você faz é errado, não é errado. Não acredite neles, Malfoy". Sorrio agradecido. "Quando fiquei sabendo disso não encontrei problema algum. Você não fere o Estatuto, pois os trouxas nem reconhecem que você é um bruxo, e que existem mais como você. Para eles, você é um herói, o Feiticeiro, alguém com poderes".

"Então, por que falou do Estatuto quando me encontrou mais cedo?".

"Porque eu queria saber sua resposta, e também porque queria te distrair para lançar o feitiço localizador".

"Espertinho".

Rimos.

Nós dois voando me lembra dos jogos de quadribol que jogávamos em Hogwarts. Eu amava jogar com ele, apesar de sempre perder. Ele me pergunta sobre o que estou pensando. Não sei se a pergunta dele é íntima demais para se perguntar no nosso caso, mas não ligo muito, pois vejo que quero responder.

"Tenho saudade dos jogos também. Mas não entendo por que você sente saudade disso, você nunca venceu de mim" fala, me dando um leve empurrão de brincadeira. Só então percebo que estamos voando lado à lado, e bem devagar.

"Não, mas adorava te ver jogar. Além de ser uma ótima oportunidade de esbarrar em você. Me desculpe por isso, eram apenas impulsos provocados por excesso de hormônios".

"Sério que você gostava de mim? E, sério que está me contando isso sem nem ficar envergonhado?".

"Por que ficaria? Já faz tanto tempo. Hoje em dia, quase nada me deixa preocupado de verdade".

"Percebo isso". 

"E, você se preocupa com tudo. Percebo isso também".

"Só porque não me jogo de penhascos não quer dizer que me preocupo com tudo, Malfoy".

Encaro o rádio, que se mantém mudo. 

"Pelo visto a cidade está calma hoje" murmuro. "Então, me acompanhe e vamos criar nossa própria diversão sem preocupações".

"Melhor não, Malfoy. Você faz coisas muito loucas".

"Potter, você precisa se deixar relaxar. Tirar todo o peso do mundo das costas, e ficar leve. E só há um jeito de fazer isso, tentando. Agora vem comigo".

Faço uma manobra que já testei várias vezes. Me deixo cair da vassoura - desta vez, dando um tchauzinho para Potter -, e aparato no terraço de um prédio próximo. Chamo minha vassoura de volta antes que ela chegue ao chão. Isso tudo é feito muito rapidamente, e Potter me encontra estupefato. 

"Tire o peso das preocupações e fique leve!" grito.

Quando já penso que ele não vai fazer, então ele faz. Exatamente como eu, surgindo ao meu lado, ainda recuperando a vassoura. Seu rosto está branco, mas lentamente retorna a cor, e Potter não consegue esconder completamente a satisfação de ter feito.

"Você é louco" é o que diz apenas.

Não dou resposta, porque pulo do prédio. Em seguida, aparato de prédio em prédio, às vezes nas ruas e em algumas praças, outras vezes nos postes de luz, nos telhados das casas e sobre os solitários caminhões que ainda transitam, aproveitando cada oportunidade de arriscar mais.

Ouço Potter me seguindo, imitando tudo que faço. É como uma competição, se ele não fazer algo que eu faça, será como estar perdendo. Não acredito que estou fazendo isso com ele, e meu coração para quando ouço a risada dele. Uma risada linda, quase infantil, como se estivesse experimentando algo muito empolgante pela primeira vez.

Ficamos assim por algum tempo, até pararmos na estrutura de uma ponte. 

Ambos estamos cansados e ofegantes pelo exercício, mas incrivelmente sorridentes.

"Ainda acha que sou louco?" indago, com a certeza de que ele gostou.

"Isso é demais, tenho que admitir".

Um silêncio confortável se instala entre nós. Ninguém quer atrapalhar, queremos somente apreciar o momento. Balançamos os pés, enquanto olhamos ora para baixo ora para o horizonte.

"Por que quer ficar longe de sua mãe?".

"Acho que ficarei melhor longe dela, só isso. Ela nunca foi boa, sabe. Gosta de mim do jeito estranho dela, eu sei, mas não é o que eu queria. Quando a situação aperta, ela está lá pra mim. Mas, quando não aperta, no dia a dia, ela simplesmente não está. Ela some, se tranca nela mesma, e parece que não importo nada pra ela. Conversava comigo só para saber quando eu ia começar a cuidar dos negócios da família, e quando ia arranjar um marido. Então, quando vi que o mundo bruxo havia ficado pesado demais pra mim, não tive receio nenhum de abandoná-la. Me despedi dela e tudo mais, entenda... Não que eu não goste dela, é só que... É melhor ficarmos longe, as coisas são melhores assim. Acho que você não deve entender".

É a primeira vez que conto isso para alguém.

"Acho que sim. Você queria que ser tratado por Narcisa de uma maneira que não foi. Você queria que ela fosse mais amorosa, ou que mostrasse mais seus sentimentos. Penso assim porque a impressão que tenho de Narcisa é de ser uma mulher fria e indiferente a tudo na maioria do tempo, por isso penso que este é o problema. Entendi bem?".

Só percebo que estou chorando quando Harry me abraça com um braço, e eu encosto a cabeça no seu ombro.

"Você me entendeu melhor do que todas as pessoas já conheci, Harry".

"Não acha que vive muito sozinho? Digo, com quem você tem convívio, Draco?".

Lição 10: Um herói bom, é o herói que não tem com quem se preocupar além dele mesmo.

"Uma das minhas regras de vida é não me afeiçoar a ninguém, então vivo sozinho por escolha. Nunca levo as pessoas que conheço de uma cidade para outra. Me ocupo o suficiente com meu trabalho, ajudando as pessoas".

Espero que Harry faça algum tipo de discurso sobre a importância das pessoas. Porém, o que ouço é:

"Eu tenho pessoas, quero dizer, tenho meus amigos. Mas, sei lá, às vezes é como se não tivesse ninguém. Como se ninguém entendesse o que falo, e como se eu não escutasse o que eles falam. Mas, acho que isso é mais sobre mim, sobre eu estar me afastando - mesmo sem querer, e sem perceber muitas vezes. É como um auto-boicote, e isso me deixa irritado frequentemente".

"Acho que você está cansado da vida que está levando. E, este cansaço, este tédio, está te fazendo afastar de seus amigos, mas, na verdade, não é de seus amigos que quer se distanciar subconscientemente, é da sua vida, por isso que sempre parece preocupado, mas acho que a preocupação, no seu caso, é melhor dita como desanimação".

É legal termos esta troca. Nunca tive alguém que se propusesse a ouvir meus dilemas, e que depois me contasse os seus. É novo. É grande, e diferente de qualquer outra coisa que já fiz.

"Talvez você é o que falta para agitar minha vida. Por que não nos tornamos amigos? Você precisa de pessoas, e eu de algo que tire o meu cotidiano do comum. Podemos ser a solução um do outro", ele propõe animado.

"Seria legal" digo, sorrindo triste. "Mas não dá".

"Por quê?".

"Porque esta é a vida que quero ter. Não quero viver escondido em algum canto, quero ser livre e salvar pessoas. E, para isso, não posso ter pessoas que importam comigo". 

Harry pensa antes de falar.

"Não posso largar tudo para te acompanhar" diz.

"Tudo bem. As coisas são como são".

Ele suspira e pigarreia para mudar de assunto, eu deixo o ombro dele e me espreguiço.

"Você disse que se importa comigo?" pergunta ele, sorrindo gozador.

"Harry, a minha vontade é te chamar para sair. Só não faço porque, como disse, as coisas são como são".

Harry cora bastante.

"Odeio a sua espontaneidade" murmura.

Rio.

"É sempre assim. As pessoas pedem para as outras serem sinceras, mas se são, não gostam".

"Ah, cale a boca. Não está na hora do assalto?".

Busco um relógio, e encontro no telão de um prédio.

"Um pouco cedo, mas já podemos ir para ficarmos de virgília". Ele concorda, e ficamos nos observando. "Obrigado" digo, mesmo sem pensar em todas as razões por estar falando, mas somente pela necessidade de dizer. Me inclino e o beijo na bochecha. "Me acompanhe" peço, antes de me jogar da ponte.

...

"Não era à uma da manhã?" pergunta Harry, vendo os carros estacionados nos fundos da joalheira.

"A informação que recebi dizia isso, mas devem ter decidido vir mais cedo".

A joalheria é grande, ocupando uma área enorme com dois andares. É o lugar mais procurado da cidade quando se fala em compra de joias. Por isso, com certeza, conta com um grande sistema de segurança, além de vários guardas, mas, desta vez a segurança será pouca com os caras que estão roubando.

Pode-se dizer que o grupo chamado ROX é meu maior rival. Os seus planos bem elaborados e equipe bem treinada fazem ser impossível pará-los, a menos que você saiba do roubo de antemão.

Fiquei sabendo deste roubo antes de acontecer, e isso foi inédito, porque a grande habilidade do grupo são serem discretos e rápidos, de modo que quando se conhece do roubo, já aconteceu há muito tempo. Outra incrível habilidade dos bandidos é driblar os sistemas de segurança. São conhecidos por assaltarem as casas mais bem protegidas, e as próprias empresas que trabalham com segurança. É uma dúvida sobre como eles conseguem esses feitos.

Desta vez, porém, cheguei bem na hora do roubo, e, infelizmente para eles, não haverá roubo bem sucedido.

"Harry, você espera aqui neste prédio. Quando acabar, venho te buscar".

"Eu vou com você, Draco".

"Não. Eu trabalho sozinho, e não quero te arriscar".

"Eu sou auror, posso conseguir te ajudar. Além disso, você me prometeu que eu salvaria alguém hoje".

"Certo. Mas, escute bem, você tem que me ouvir e obedecer caso precise, sim?". Harry acena fracamente. "Harry Potter?".

"Tá. Vou ouvir você. Qual é o plano?".

"Primeiro, precisamos entrar lá e dar uma boa olhada, depois fazemos um plano".

Lição 11: Faça um reconhecimento detalhado e preciso antes de qualquer ação.

...

Eles entraram pelo fundo, arrombaram a porta da garagem, que é por onde os carregamentos de joias chegam, e estacionaram o caminhão deles lá, provavelmente para encherem com as pedras roubadas.

Há cinco guardas vigiando a porta, os quais temos que apagar.

Eu e Harry aparatamos na sacada, agachamos para não sermos vistos. Os bandidos vagam embaixo da gente, pela garagem, e às vezes olham a rua. Todos estão fortemente armados, e suas posturas revelam que estão bastante alertas.

"Acho que consigo apagar dois deles rapidamente, o que vai deixar três. Precisamos ser silenciosos para não alertar os de dentro, por isso, eles não podem disparar. Você consegue cuidar de dois, logo que eu apagar os dois primeiros? Terá que ser rápido".

Lição 12: Ataques surpresa são mais seguros e eficientes.

De dentro do meu bolso de cintura, retiro uma pistola, comumente usada com dardos tranquilizantes em animais. Só que a minha é equipada com agulhas especiais banhadas em poções do sono.

Lição 13: Tenha equipamentos e armas de trabalho úteis.

"Sabe disparar isso?" pergunta Harry tenso.

Me zango com tal pergunta imbecil.

"Muito bem por sinal" respondo, tentando não levar para o lado pessoal.

"Como vai disparar em dois rapidamente, e ainda pegar o terceiro aqui em baixo?".

"Por favor, Harry, você está falando com um profissional".

Harry gira os olhos. Cada coisa que a gente é obrigado a passar...

"Ao meu sinal".

Acompanho os movimentos dos homens atentamente até ficarem em uma posição estrategicamente favorável. Então, disparo nas costas de um grandalhão, depois no peito de outro. 

Nesse instante, Harry já aparatou atrás de um bandido. Ele o agarra pelo pescoço, e usa a varinha para chamar a arma de outro cara. Escorrego para baixo da sacada, onde caio sobre o último guarda armado, que se desmonta no chão. 

Daí é fácil. Com minha pistola, disparo no bandido que foi desarmado por Harry para o impedir de correr, e, com a varinha, desmaio esse que está nos meus pés. Harry solta o cara que mantinha preso, que foge correndo, mas é pego por um feitiço conjurado por ele.

Fazemos um sinal positivo um pro outro, e caminhamos para a entrada da joalheria.

Ouvimos vozes vindo de dentro, e barulhos de coisas sendo jogadas no chão. Me pergunto como eles conseguiram entrar. A porta é tão forte que devem ter precisado de máquinas barulhentas para arrombar, então como os guardas não ouviram?

Nos escondemos atrás de um vaso enorme de planta. Na nossa frente, os bandidos obrigam os vigias a ensacarem tudo das prateleiras.

"Rápido, vagabundos. Se continuarem nesta lenteza, logo terei que dar um incentivo doloroso", o bandido os apressa.

"São muitos... Doze? Quinze? Para lutar contra todos precisaremos de uma distração" fala Harry.

Lição 14: Quando em desvantagem numérica, utilize distrações.

Procuro no bolso por qualquer coisa que possa ajudar. Encontro uma bomba de gás esverdeado, que comprei na última visita que fiz aos Gêmeos Weasley em busca de mais equipamentos, mas já pensava que não as tinha mais, porque faz muito tempo que não arrisco voltar lá. Mostro para Harry, que aprova.

"Acho que vai dar certo. Só não seja atingido por nenhuma bala. Aparate bastante para deixá-los confusos, desmaie-os, e se tiver uma chance, guarde alguma das pedrinhas no bolso".

"O quê?".

"Nosso salário, idiota".

Lição 15: Herói também come e compra roupas, então nada mais justo do que tirar proveitos pequenos do seu trabalho.

Libero o carrinho(bomba), que avança silenciosamente até o meio do salão e estoura.

Gritos irrompem em meio à fumaça esverdeada, tornando a orientação confusa. Estuporo dois em sequência. Um me avista e dispara, mas aparato, surgindo do seu lado e roubando-lhe a arma, em seguida a batendo na cabeça dele.

"É o Feiticeiro!" ouve-se o grito.

Tento ver Harry, mas não consigo distingui-lo entre as várias sombras que se formam na fumaça.

Algumas prateleiras da loja são derrubadas pelos guardas que fogem. O chão cobre-se de joias, o que faz com que muitos caem ao pisar nelas. Inclusive eu, infelizmente.

Uma vez no chão, um cara gruda em mim, colocando as mãos no meu pescoço. É careca, e sua maior arma é seu bafo inebriante.

Aparato para qualquer lugar na tentativa de fazê-lo me soltar. Ficamos sobre o vidro da mesa de amostras, que já se encontra saqueado. O careca parece enjoado pela aparatação, mas não me solta. Ao contrário, bate minha cabeça contra o vidro duas vezes. Então, surjo na altura máxima da sala, e nos deixo cair. Viro nossos corpos para que o dele fique embaixo do meu. Quando chegamos no chão, ouço algum osso dele se partir, o que o faz soltar meu pescoço, que está pegando fogo. Estuporo o careca.

Lição 16: Aproveite-se do espaço para ser astucioso.

A fumaça se dissipou completamente, então posso ver que há vários caras caídos no chão, o que significa que Harry está fazendo um belo trabalho. No entanto, ainda restam alguns de pé, disparando a todo vapor nele, que se esconde atrás da bancada do caixa. Aparato ao lado dele.

"Você está bem?" pergunta preocupado.

"Estou. E você?".

Antes de responder, os tiros cessam e fica tudo em silêncio, a exceção de passos lentos na direção da escada. A menos que todos tenham sofrido AVC simultaneamente, estamos com problemas.

"Draco Malfoy e seu companheiro misterioso, apareçam para conversarmos".

"Como ele conhece seu nome?".

"Com o acontecido naquele restaurante, os trouxas desconfiam que este seja meu nome verdadeiro, embora não conste em nenhum de seus registros oficiais".

"Não vão querer aparecer? Nem você, Harry Potter? Os meus homens contaram que se parece muito com ele, é verdade?".

Harry perde a cor do rosto. Como trouxas podem reconhecê-lo? Talvez não sejam trouxas, ou, pelo menos, o homem que fala não seja trouxa. De qualquer maneira, logo descobriremos isso, pois aparatei atrás dele e acabarei com isso.

Melhor não, pensando bem. Se eu fizer isso, terei oito disparos na minha direção, e isso não é uma boa conta. O melhor é levantarmos e fazermos o jogo dele por enquanto.

Harry também parece perceber. Pegamos fôlego e ficamos de pé. Oito caras armados apontam para gente, além de outro parado no meio da escada. É o líder. Carrega uma varinha, e veste terno preto. Não me recordo de vê-lo antes, então devia ter estado em outro lugar durante a primeira confusão acontecia.

"Esperei muito por este dia, Malfoy. Já havia começado a acreditar que nunca aconteceria, mas olha só... Quase conseguiu nos pegar desta vez".

O homem tem um sorrisinho extremamente irritante. Já o odiei no primeiro contato.

"É uma surpresa vê-lo, Harry".

"Quem é você?", Harry quer saber.

"Para o mundo bruxo, estou morto há quinze anos. A verdade é que falsifiquei minha morte e vim trabalhar no mundo trouxa. Só que com a profissão contrária à do Malfoy". Ele ri. "Com magia é fácil driblar qualquer sistema de segurança, e quantos guardas haver, de qualquer lugar. Vi esta oportunidade e acatei. Não sou o líder de toda a ROX, apenas o líder deste trabalho. A ROX já existia desde muito antes de mim. Ninguém nunca pôde nos impedir a nada, nem os trouxas e nem o temível Feiticeiro".

"Os outros são todos trouxas?" pergunta Harry, apontando para os bandidos armados.

"Sim. Apenas os líderes costumam ser bruxos, e, é claro, o próprio Rox".

"Rox é o mandachuva do bando chamado ROX. Faz sentido... Vou atrás dele depois de acabar com você" digo.

O líder me ataca com magia, revido rapidamente. Os outros avançam para cima de Harry, atirando-o agressivamente.

Não demoro muito para perceber algo realmente muito ruim.

Lição 17: Enquanto trabalha contra trouxas, não se esqueça de treinar magia também, pois pode acontecer de precisar algum dia.

O cara é muito habilidoso, muito mais do que eu era na época de Hogwarts, a qual era acostumado a duelar. Estou enferrujado, e isso é péssimo de se notar. O líder adora perceber isso.

Sou empurrado por alguém.

"Deixa que eu cuido dele. Você fica com os outros oito".

Me sinto envergonhado de aceitar isso, mas não tenho escolha. É fato que Harry deve ser muito melhor do que eu em combate mágico, por ser auror e viver neste meio.

Lição 18: Respeite suas habilidades e limitações para o sucesso da missão.

Pude comprovar rapidamente que Harry, de fato, se sai muito melhor do que eu. Mas não tenho tempo para ficar admirando, pois há oito homens a ponto de atirarem em mim.

Usando o chafariz de um elefante de aparência cara como defesa, saco minha pistola e começo a atirar. Consigo acertar um no pescoço, que desmonta como macarrão cozido.

Também uso minha varinha. Lanço explosões de fogo na direção deles para dispersá-los.

Eles disparam tanto que só sobra os cacos da perna do elefante acima de mim, mas ao menos estão mais distantes um do outro agora.

Aparato atrás de um deles, e o atinjo. Aproveito a situação para acertar outro próximo antes de voltar para o chafariz, que ainda está sendo baleado pelos idiotas. Sobram cinco.

Lampejos de várias cores infestam o ambiente a todo momento, são dos feitiços de Harry e o canalha bruxo. A luta deles está brutal, o que me faz querer ir ajudar Harry, mas sei que a melhor forma de ajudar é acabar com os outros primeiro.

Os bandidos estão avançando na minha direção. Murmuro um feitiço para levitar todas as joias da área que estão caídas no chão. Elas flutuam, e voam para perto de mim, agora são o meu arsenal.

Eles percebem tarde demais o que vou fazer. Lanço as pedras nas costas deles, alguns caem no chão com dor, e os que não caem com a dor, caem quando pisam nas pedras. Estuporo dois que estão no chão, outro atiro com a pistola. Um está correndo, mas faço um feitiço que solta cordas mágicas que envolvem os tornozelos dele, e a ponta está ligada na minha varinha. Com um movimento para a esquerda, jogo o homem por meio das pernas amarradas de encontro com a parede. Com certeza desmaiou.

Não vejo mais ninguém em pé, então olho para Harry. Ele está sobre o corpo caído do outro cara. Sorrio para ele porque conseguimos e acabou. Porém, a expressão de Harry está apavorada enquanto olha para algo no meu lado.

Sobrou um cara acordado dos que estavam caídos no chão. Devo ter esquecido dele, ou pensado que já tivesse desmaiado. Não importa, pois sinto uma pressão no peito, que me empurra para trás fazendo-me cair de costas. Harry o atinge, e vem correndo na minha direção.

Toco o lugar que doí e minha mão volta ensanguentada.

"Draco, meu Deus. O que eu faço?".

"Não me leva para o hospital trouxa" digo com dificuldade para respirar. "Eles vão acionar o Ministério sobre mim". E muito menos me leve para o hospital bruxo, sinto vontade de dizer, mas isso é obvio.

"E-Eu estudei um pouco de procedimentos mágicos-cirúrgicos na escola de auror. Talvez consiga te ajudar, mas não sei...".

"Harry, você consegue, sei que consegue".

A dor é cruciante, parece queimar tanto que tenho certeza que meu peito deve estar ficando preto de tão torrado. E, a respiração, cada vez mais difícil.

"Mas, eu preciso de ingredientes, e de um lugar para preparar poções. Não dá, Draco. Não dá!".

"No meu trailer. Lá tem tudo. Tudo de poções. Vai ter tudo lá. Me leve pra lá. Harry, por favor, me salve".

Sinto Harry aparatando comigo. Pensei que a dor não podia piorar, mas ela triplica. Já não sei se estou gritando ou chorando, porque me sinto afundar na inconsciência.

Posso ouvir Harry murmurando alguns feitiços de cura, que vão conter um pouco o sangramento. Ele me deitou na minha cama, e agora está vasculhando tudo em procura dos meus artigos de poção. Quero dizer a ele, mas não consigo falar. Ele acha. Está separando um monte de ingredientes. Fica virando para mim e dizendo algo, provavelmente me tranquilizando. Olho para o teto do trailer. Não consigo mais segurar. Quando pisco não tenho força suficiente para abrir os olhos novamente.

...

Acordo algum tempo depois.

Harry molhando meu rosto, batendo no meu rosto. Não adianta.

Harry virando algo na minha boca.

Acordo gritando de dor. Ele está puxando a bala de dentro de mim usando magia. Pinga outras poções no ferimento aberto, que ardem tanto quanto a bala saindo. Desmaio de dor.

Estou bebendo outra coisa amarga. Harry está mais calmo. Sorri, e me beija a testa.

Mais dor. Está fechando o ferimento. Doí, mas não tanto quanto antes. Harry me dá mais poção, esta me faz adormecer imediatamente.

...

Acordo ouvindo vozes de várias crianças, que especulam sobre o trailer e dizem querer ter um. A cada frase, as palavras louco, animal e bichão são incluídas. O trailer está estacionado em um bairro residencial, então acontece muito de haver crianças brincando na rua. Logo elas vão embora.

Me lembro de tudo que houve, e fico enormemente agradecido por estar vivo. Esta foi a vez que mais tive medo da morte, a outra foi quando quase fui incinerado na Sala Precisa de Hogwarts, e a outra foi quando fui atingido por um sectumsempra. Em todas as vezes o Harry esteve presente, coincidência ou não?

Esse homem me salvou, de novo. Harry é viciado nisso, é a única explicação. Ou, o universo quer cruzar nossas vidas a todo custo.

Me sento na cama. Meu peito está enfaixado, mas não sinto dor nenhuma. Ainda bem, porque a minha cota já estourou.

Harry deve ter ouvido meu movimento, pois vem me ver. Está usando uma camiseta minha, é de turista – eu tenho muitas assim -, e tem escrito: Vim, descobri e estou pronto para outra. Ela fica boa em mim, já nele nem tanto. Traz uma bandeja com o café da manhã.

"Esta camiseta ficou horrível em você".

"A minha ficou com tanto sangue... Nem te conto nada" diz, balançando a cabeça com repúdio às memórias sangrentas.

"Nem sei como agradecer. Você me salvou, Harry. E, usando poções ainda por cima. Nunca pensei em algo assim".

"Por que não cala a boca e engole essa rosquinha?" diz, me olhando irritado, mas sorrindo. "Comprei numa padaria aqui perto, por isso não sei se é bom, mas ouvi uma senhorinha dizendo que eles tem a melhor rosquinha da cidade".

"Você lembrou de chamar a polícia?".

"Eles foram todos presos", ele garante.

Saber de bandidos sendo presos sempre me deixa calmo, mas com esses bandidos que quase me mataram, sinto um prazer imensurável. Embora ainda falte o resto do bando.

"Você está com alta para passear alguns metros, mas não pode ser herói por, pelo menos, uma semana" alerta.

"Isso é bom". Levanto meu braço, aonde estava a pulseira GPS. "Um acamado não pode fugir de ninguém. Esta é a mensagem?".

"Não. A mensagem é: Você não precisa fugir de mim".

Harry disse isso com intensidade suspeita, o que me faz pensar que há entrelinhas.

"O que quer dizer?".

"Vou contar para sua mãe que te encontrei, mas você não quis vê-la. Vou contar a verdade".

"Não estava me referindo a isso".

Ele desvia o olhar nervoso. Acho que sei o que ele quer falar, o que ele vai falar. Mesmo eu dizendo que não posso ter um relacionamento com ele. Falei isso a ele antes de quase morrer. 

Entretanto, enquanto estava grogue por causa da perda de sangue, me peguei pensando que se fosse morrer, queria ter tentado namorá-lo. Isso foi completamente o oposto ao que dissera uma hora antes, mas foi o que pensei. Agora, estou em dúvida sobre o que pensar.

"Sei que não quer retornar para o mundo bruxo, também sei que ama viver como vive, e que diz não querer ninguém com você. Nossas vidas são incompatíveis do jeito que estão, mas isso não quer dizer que não possamos mudá-las. Estou disposto a largar tudo para viver esta vida com você, porque percebi que também estou cansado do mundo bruxo. Se você me aceitar com você, podemos fazer nosso próprio mundo. Um mundo entre o bruxo e o trouxa, só para nós".

"Quer ser herói dos trouxas comigo?" pergunto incrédulo.

"Se você desistir da ideia de ficar sozinho".

Sinto um conflito acontecer dentro de mim, mas o conflito não acontece entre o certo e o errado, mas sim entre aquilo que acho que deveria fazer e o que quero fazer.

"Se sente aqui perto de mim" peço, batendo na cama.

Harry se senta tenso, ansioso pelo que vou dizer.

"Estou cansado de ficar sozinho. Quero ser um bom herói, e para isso pensava que não ter pessoas por perto era a melhor opção. Não tenho certeza do que vou dizer, mas é o que sinto agora. Te ter perto de mim vai me tornar mais forte. Se ficarmos juntos, serei um herói melhor. Talvez eu não precise de muitas pessoas, mas preciso de, pelo menos, você".

Lição 6 (corrigida): Um herói bom, é o herói que tem alguém com quem possa sempre contar, e que lhe dá força a cada dia.

Uno nossos lábios, e iniciamos um beijo calmo. Adoro o contato dos seus lábios contra os meus. Adoro o jeito que ele segura meu rosto. Adoro o jeito que nossas línguas se enrolam. Adoro o fato de ele estar aqui comigo, e o fato que vai continuar por muito tempo.

"Vou pedir demissão, despedir dos meus amigos, pegar roupas e dinheiro, avisar Narcisa que você está bem e... Te encontrar aqui à noite. Me espera?" pergunta Harry, ao se afastar de mim.

"Com certeza".

"Ótimo. Até mais tarde".

Ele me dá mais um beijo, ao qual custamos nos separar, e aparata.

Mais tarde, estamos pegando a estrada.

Harry dirige o trailer. Eu não gosto muito porque tenho certo ciúme do carro, mas pretendo abrir uma exceção para o moreno.

"Para onde vamos?" pergunta.

"Nos considere em guerra com a ROX. Vamos encontrar todos eles, e prendê-los".

"Puxa, eles são nossos vilões?".

"Pode ter certeza".

"Vamos acabar com eles" diz, se inclinando e me dando um selinho. "Mas, só daqui uma semana, é claro".

Tento fazê-lo mudar de ideia, mas o que consigo são apenas risos da parte dele. Por fim, vou para trás, com a intenção de preparar um jantar para nós. Apesar de ter me mostrado desagradado, na verdade, acho que talvez seja bom tirar uma semana de férias. Até os heróis tem que tirar férias.

Lição 19: O mais importante de tudo é dar o seu melhor para fazer o bem, pois é o mais importante para qualquer herói. O resto, você arrisca, define e aperfeiçoa.


Notas Finais


Me contem o que acharam, gostaram deste capítulo? Este foi o último que eu escrevi dos onze. Tchauzinho, até a próxima!


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