História 13, 43 e 40 - Capítulo 1


Escrita por:

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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jung Hoseok (J-Hope), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Personagens Originais
Tags Bts, Drama, Hoseok, Oneshot, Romance, Taehyung, Yoongi
Visualizações 14
Palavras 4.269
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Shoujo (Romântico), Universo Alternativo

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


oi oi galero, essa é a primeira oneshot que posto aqui no ss, então espero que gostem, votem e comentem :)

Capítulo 1 - Único


Parte Um

Ele tinha olhos de oceano, de noite estrelada. Não, não azuis. Escuros. Totalmente negros e bonitos demais para estarem atrás daqueles óculos ridículos que Taehyung insistia em usar. Eram olhos que mereciam aparecer, serem vistos e apreciados como verdadeiras obras de artes expostas em museus, mas não era assim que ele via a si mesmo; talvez um amontoado de problemas e confusão sem fim, uma beleza que somente eu via nele. Ninguém nunca dizia o quanto ele era bonito. Ninguém além de mim, e por isso ele não acreditava nas minhas palavras quando eu as dizia em tardes aleatórias no sofá da minha casa enquanto o via tomar o café da minha mãe.

Taehyung era um esquisito, de fato. Tinha umas manias estranhas, usava muitas roupas listradas e tinha medo de borboletas, mas isso nunca foi o suficiente para mudá-lo diante de mim. Eu o conhecia como as linhas das minhas mãos, de uma forma que ninguém nunca pôde negar, de uma forma irracional, porque combinava com ele e com a pessoa que mostrava a mim todas as vezes em que nos víamos depois da escola. Talvez ele tivesse medo do que eu pudesse fazer; minhas decisões erradas eram as dele também, mas eu não me importava de chegar um pouco mais tarde em casa por acompanhar seu trabalho no estúdio de arte da universidade.

Eu amava vê-lo pintar. A forma como sua mão esquerda segurava o pincel – na maioria das vezes mergulhado em tintas azuis de vários tons – e seu jeito único de me olhar através da tela me diziam que ali, dentro daquela sala minúscula todo dia perto das seis, era nosso lugar e nosso momento de pura intimidade. Meus trabalhos da escola eram todos feitos em sua companhia e diante de sua possível ajuda quando não havia algo envolvendo matemática, e eu simplesmente achava isso a coisa mais incrível do mundo todo. Tê-lo ao meu dispor para me ajudar, com as mãos e as roupas sujas de tinta azul me fazia sentir especial para ele porque eu era a única. Não havia mais nenhuma garota que era capaz de vê-lo do jeito que eu via naqueles momentos, ou que recebesse sua ajuda com o dever de casa, ou que recebesse seus olhares profundos através das telas. Existia apenas eu.

Além de um amante das artes plásticas, Taehyung era também um amante da sétima arte como nenhuma outra pessoa que eu conhecia. Em algumas noites do mês, quando não precisava fazer hora extra no trabalho ou não tinha nenhuma obrigação da faculdade, ele aparecia na porta da minha casa com uma pilha de filmes para nos fazer companhia. Filmes clássicos, filmes de ficção científica, filmes dos anos oitenta. Meus pais gostavam tanto de Kim que não era problema algum assistir filmes conosco, sempre comentando algo com ele a respeito do enredo ou dos efeitos especiais. (Ele estava ansioso para a estreia de Titanic e havia ignorado todos os comentários negativos de seu amigo Yoongi a respeito do filme. Fomos ao cinema três vezes em menos de uma semana, e Taehyung chorou como uma criança em todas elas).

O fato de ele segurar minha mão naqueles momentos perto dos meus pais me causava calafrios por motivos que eu não lembrava depois para comentar. Eu apenas apreciava muito o toque de sua pele na minha sempre que possível porque era a melhor sensação de todas. Suas mãos eram grandes, sua pele um pouco mais escura que a minha, os olhos profundos atrás dos óculos finos; talvez eu tenha me apaixonado primeiro por seus detalhes do que por ele em si. Quando me beijava, ele ajeitava os óculos no topo de sua cabeça. Não o tirava de forma alguma, mas no fundo eu gostava de como a armação marrom ficava afundada nos fios grossos e volumosos de seus cabelos.

Nossa relação era tão achegada, tão completa. Eu sentia os sentimentos dele e ele tornava tudo mais fácil para nós dois. Eu amava a forma como ele me fazia sentir, como se a estadia das borboletas houvesse sempre um período a mais, uma nova chance de ficar e fazer as coisas do jeito certo. Às vezes, meus olhos não conseguiam fugir dele, da sua imagem parada na esquina da escola, do seu sorriso largo e dos olhos que quase sumiam toda vez que isso acontecia. Era difícil acreditar que a poesia dele também era a minha e que suas inspirações também eram as minhas. Tudo nele também era meu.

Ele tinha meias de estrelas, moletons listrados e balas de pêssego nos bolsos. Era a marca de Taehyung, mas eu já estava tão acostumada que raramente percebia esses pequenos detalhes sobre ele: detalhes vagos, imperceptíveis quando se conhece alguém há tanto tempo. Gomas de mascar não faziam seu tipo, nem refrigerante, nem mesmo sorvete no verão. Ele era definitivamente estranho, mas era o estranho que eu conhecia. Que somente eu conhecia tão bem.

Taehyung e meu irmão se davam bem na maioria das vezes. Tirando a vez em que quase começaram uma discussão no restaurante por causa da batata, e também a vez em que fomos passar um dia na praia e Kim derrubou o sorvete de Josh sem querer. Eles jogavam videogame na sexta-feira, saíam para comprar doces juntos e lavavam a louça do jantar no domingo. Além disso, Josh emprestava o carro sempre que íamos ao cinema. Todos se davam bem e pareciam prezar muito isso porque Taehyung era realmente uma boa companhia e todo mundo gostava dele demais a ponto de perderem o contato ou se envolverem em uma discussão boba.

Eu o amava. Amava a forma que nos entendíamos, a forma como nossa relação fluía, a forma como sempre conseguíamos consolar um ao outro.

Ele mudou tudo em mim para depois ir embora.

Eu chorei, fiquei brava, quis matá-lo. Desejei jamais tê-lo conhecido ou trocado uma palavra sequer com ele. Mas, no fim, eu apenas esperava que ele voltasse.

Taehyung não deu explicações e eu nunca quis exigir nada que ele não quisesse me dar. Meus dias eram resumidos na espera de cartas, ligações, qualquer coisa pela qual ele pudesse me dizer o motivo, ou dizer que estava enganado. Era uma tortura permanecer apenas com poucas palavras em uma mistura de ódio e saudade. Eu não aguentava mais e pensei que fosse morrer.

“Eu não quero mais estar com você. Me desculpe.”

Foi como se eu estivesse em um lugar distante, longe de casa e de todos que eu conhecia. Eu tinha vinte anos e ele vinte e dois. Durante sete anos eu havia guardado muita coisa dele, tanto os moletons que ele esquecia como suas memórias e não queria me livrar de nada porque perdê-lo era triste o suficiente. Eu me sentia deslocada e confusa por ser a única que não sabia de nada o tempo todo, perdida por não ter explicações. Ficava pior a cada segundo e eu conseguia atingir o fundo do poço tentando descobrir os motivos por trás de sua partida, que no fim nunca foi justificada. Ele havia ido embora. E era somente isso.

Eu sentia sua falta todos os dias. Sentia falta do estúdio, das suas telas e dos seus tons de azul, da sua roupa suja de tinta. Sentia falta de tirar fotos suas, de fazê-lo playlists inteiras, de vê-lo se sujar ao comer chocolate porque dizia que suas mãos suavam muito. Sentia falta de tocar seus cabelos, de tocar seus dedos, de tirar os óculos de seu rosto. Eu sentia falta, e mesmo que ele fosse o culpado, Taehyung ainda era a primeira pessoa a quem cheguei a entregar meu coração inteiro numa bandeja. Embora ele não fosse mais a mesma pessoa eu ainda o amava e ainda esperava que ele voltasse para mim um dia; talvez batesse na porta da minha casa, ou me mandasse uma caixa de balas de pêssego no trabalho. Eu o esperava nem mesmo que fosse apenas para pegar de volta seus moletons listrados.

Não vi Taehyung por meses. Eu pensava que ele havia simplesmente desaparecido da cidade, mas em uma tarde de sábado ouvi uma conversa de Josh com meu pai.

“Eu vi o Kim hoje cedo.”

“Não conte para sua irmã.” Meu pai advertiu. “Onde ele estava?”

“No mercado. Comprando balas de pêssego.”

Naquela tarde, enquanto caminhava pelos corredores da galeria de arte da cidade, vi uma representação de Van Gogh. Eram usadas as mesmas técnicas dele e eu sabia quem havia feito aquilo. De alguma forma eu me senti extremamente feliz naquela noite: não por ter finalmente ido até a galeria depois de tanto prometer a mim mesma, ou por ver a assinatura de Taehyung no canto da pintura. Eu apenas estava feliz por conseguir encará-lo indiretamente através daquela tela, como se ele estivesse do outro lado, me encarando como sempre fazia enquanto pintava.


Parte Dois

Eu costumava chamá-lo de Min, mas naquele dia, na estreia perdida de Titanic, eu o chamei de Yoongi. Não porque isso o irritava ou por qualquer outro motivo parecido, mas sim porque chamá-lo por seu primeiro nome soava como algo mais íntimo para nós. Yoongi odiava filmes – não os filmes em si, mas o fato de que estar dentro de uma sala de cinema o impedia de sair para ir ao banheiro ou fazer uma pausa, e ele havia aceitado assistir a tão famosa estreia do ano junto comigo. Eu estava ansiosa para assistir, mas quando ele descobriu que o filme tinha mais de três horas quase teve um ataque do coração.

Yoongi era exagerado com o que se dizia a respeito a quase tudo: ficava desesperado quando acabavam os pirulitos de laranja do mercado, quando sua encomenda de chocolates da Suíça demorava, quando o atendente da farmácia se mostrava grosso. Apesar de muito explosivo ao mesmo tempo em que muito antissocial, ele era sensível e se entristecia mais rápido e mais facilmente que a maioria das pessoas que eu conhecia. Eu particularmente gostava quando algo diferente acontecia e ele corria até a minha casa para me dizer que estava triste ou que estava tão feliz que não aguentava mais guardar tudo para si mesmo. Era carente, sentimental, mas tinha uma alma de gênio incrível.

Era bom quando passávamos horas a fio dentro do apartamento que dividia com o irmão e ele me mostrava suas novas composições no verdadeiro estúdio que era seu quarto. Yoongi sempre teve uma boa mente e um intelecto incrível para tudo, e eu o admirava com um semblante de quem se ama e deseja proteger até do vento, e talvez ele tenha demorado um pouco mais que seis meses para perceber. Estava sempre ocupado, perdido dentro do próprio apartamento; no fundo eu amava a forma como ele vivia, escrevia e descrevia os sentimentos das outras pessoas como se fossem os seus. Meus avós o tinham como o neto mais velho de todos: vinte e três anos, terminando a faculdade de música e desempregado.

Sobre Yoongi e a estreia de Titanic naquele ano: eu não me importava nem um pouco de abandonar a sessão para caminhar com ele pelos becos ao redor, afinal, nós tínhamos chance de ver outro dia. Titanic ainda estaria lá, sendo exibido por semanas enquanto eu perdia um momento único. Todos os momentos com ele eram únicos e inesquecíveis, mesmo que não fizéssemos nada o dia todo além de ouvir música em seu walkman na praça e comer balas de ácido. Aquele era o verdadeiro Yoongi e o que gostava de fazer, como preferia aproveitar seus dias. Em silêncio, ou na companhia de uma boa música. E eu amava fazer parte daquilo com ele.

Éramos apenas nós dois na maioria das vezes, isso quando Hoseok, seu amigo da faculdade, não resolvia aparecer. Ele era um cara legal, de fato, mas eu preferia muito mais quando ficávamos em silêncio, sem risadas escandalosas e conversas sobre trabalho. Então, quando seu amigo aparecia, eu apenas fazia um café e sentava num sofá ao longe, vendo-o através da porta aberta do quarto; sua pele esbranquiçada, os cabelos castanhos que caíam sobre os olhos e a blusa xadrez amarela eram fatores repetitivos mas que sempre tornavam Yoongi mais bonito do que da última vez. Era algo que eu não entendia como funcionava.

Na noite de quarta-feira eu comprei nossos ingressos para a sessão de estreia de Titanic. Ele estava cansado de tanto me ouvir falar do filme, então me beijou na fila do restaurante de frango em meio a todas aquelas pessoas. O lugar estava praticamente lotado, mas ele pareceu não se importar, e eu continuava lá, com o rosto queimando e segurando uma embalagem enorme de frango.

“É amanhã. Pare de ser tão ansiosa.”

Era difícil para qualquer um, até mesmo para nós, definir o que éramos. Entendíamos perfeitamente a situação, mas nada era feito a respeito. Eu o amava, e disso eu sabia muito bem, mas não fazia ideia do que passava através daquela cabeça maluca que Yoongi tinha e me faltava coragem para confrontá-lo. Tinha medo de assustá-lo, de magoá-lo, de fazê-lo sentir-se mal consigo mesmo por algum motivo, então minha única opção era deixá-lo decidir as coisas por si mesmo. Ele parecia ter controle do próprio tempo, uma ordem sobre suas ações e suas decisões mais impensadas, e tudo era sempre muito, muito calculado. Mas, depois de tudo, eu nunca descobri se ele me amou naqueles dias, ou em qualquer outro momento da vida.

No dia seguinte nos encontramos perto da estação de metrô. Yoongi sempre procurava se vestir da maneira mais simples possível, no entanto, eu o encarava como o mais bonito de todos. Levando em conta sua esquisitice, havia milhares de garotos mais bonitos, mais interessantes, mais ricos que ele me qualquer canto da cidade que eu me dispusesse a procurar, mas quando eu olhava para ele meus pensamentos mudavam drasticamente. A beleza e o interesse se tornavam vagos, e o dinheiro já não valia mais porcaria nenhuma. Existia apenas ele ali. O Yoongi de sempre. O meu Yoongi de sempre, com uma camiseta de De Volta Para O Futuro e um tênis amassado tirado do fundo de seu armário.

E como eu já previa, ele não aguentou mais que uma hora na sessão e desapareceu no corredor escuro, dizendo que ia dar um passeio e que logo estaria de volta (afirmou que não faria muita diferença já que o filme tinha mais de três horas de duração). Mas ele não voltou. O filme acabou, haviam se passado mais de duas horas e ele não tinha voltado. Eu não estava na posição de ficar brava porque o conhecia, sabia de seus limites e aquilo havia sido demais para ele, mas tudo foi tão triste que eu o queria ali para abraçar e pousar a cabeça em seu ombro. E àquela hora ele podia estar em qualquer lugar.

Não era nada pessoal, pelo menos foi o que ele me disse uma semana depois de me deixar esperando-o na porta do cinema por duas horas.

“Eu tenho planos.”

“Que tipo de planos?”

“Do tipo que não podem incluir você.”

Ele estava certo, de qualquer forma. Eu não queria ser um empecilho, uma pedra no caminho que ele estava trilhando para o futuro, então disse que estava tudo bem e que eu jamais ficaria magoada com algo do tipo. Óbvio que era uma mentira tola, mas era o suficiente para acalmá-lo quando nossos momentos juntos se tornaram raros. Eu estava muito ocupada com a faculdade e ele com o trabalho que havia arranjado em uma biblioteca perto do cinema. Yoongi precisava de dinheiro já que o irmão não morava mais naquele apartamento e não pagava as contas com as quais ele nunca precisou se incomodar, e aquele trabalho de dez horas, embora trouxesse a renda necessária, era algo exaustivo. E meses depois, eu percebi que havia perdido todo e qualquer contato que tínhamos.

Meus avós foram ao hospital naquela noite de segunda-feira porque vovô estava resfriado, e embora ele realmente tivesse a imunidade baixa e ficasse daquele jeito várias vezes, vovó nunca perdia a oportunidade de pegar umas pílulas de graça com o médico. Havia um recado na secretária eletrônica. Pensei que fosse tio Jun perguntando do vovô ou minha amiga Kate me chamando para ir ao cinema. Meu quarto foi preenchido por uma voz que eu conhecia muito bem, mas que parecia distante. E realmente estava.

“Oi, sou eu, Yoongi. Você está bem? Certo... Eu... Eu estou no aeroporto agora e você não está em casa. Faz tempo que não nos falamos, mas eu ainda lembro o número do seu telefone. Acho que nunca vou esquecer já que sempre fui tão acostumado... Enfim. Eu estou indo para Londres. Sinto muito por não ter dito nada antes, mas é que as coisas estavam extremamente diferentes em relação a nós e... Você sabe. Eu apenas queria falar com você antes de ir, dizer que está tudo bem, se é que você quer saber de mim. Consegui um bom dinheiro naquele emprego horrível. É o suficiente para mim por agora, para me sustentar por lá... Me sinto muito feliz. Acho que é isso. Me desculpe por qualquer coisa que eu tenha feito em todo esse tempo que nos conhecemos, ou que costumávamos nos conhecer. Eu preciso ir.”


Parte Três

Hoseok vestia uma camiseta do Joy Division quando nos conhecemos. Eu estava na biblioteca da universidade procurando um livro de Murakami e ele, com o cabelo bagunçado e uma HQ do Homem de Ferro na mão direita, dormia com a cabeça no tampo frio da mesa. Eu não sabia seu nome, nem o que estava cursando, nem se ele lembrava das regras que iam contra dormir, comer ou fazer bagunça na biblioteca. Preferi ir atrás do livro em outro lugar. Voltei a ver Hoseok somente algumas semanas depois, mas eu não havia esquecido ele durante todos aqueles dias.

Nossa história começou quando minha colega de classe, Seun, passou meu número de telefone para ele. Fiquei desesperada por dias, esperando que ele ligasse, ou que simplesmente aparecesse na minha frente e dissesse que não estava interessado, que eu não era seu tipo, ou qualquer outro motivo que pudesse existir. Eu não procurava um relacionamento porque nunca havia de fato tido um, mas Hoseok parecia uma ótima companhia, mesmo que não pudéssemos ter nada. Nós ainda tínhamos chance de ser amigos e fazer coisas juntos, então quando Seun apareceu com aquela ideia de dá-lo meu número de telefone, não pensei em recusar; eu queria que ele me ligasse, mesmo que tivesse que esperar dias por isso. Hoseok me ligou pela primeira vez no dia vinte e dois de setembro.

E várias outras vezes depois disso.

Eu nunca tinha muitas coisas para dizê-lo quando o telefone tocava no meio da tarde, ou perto da hora do início das aulas. Conversávamos sobre o clima, sobre os professores e sobre música, mas raramente nos víamos pelos corredores da universidade. Eu gostava de livros e de música; ele gostava de música, mas não de livros. Preferia quadrinhos da Marvel. Pensei várias vezes em dizer a ele que o vi naquela tarde em que ele vestia uma camiseta do Joy Division e dormia na biblioteca com uma HQ do Homem de Ferro. Mas eu nunca disse. Hoseok nunca soube.

Nem mesmo quando começamos a sair e a nos comportarmos como um casal.

Íamos ao cinema, ao seu restaurante favorito, a lojas de discos e livrarias. Eu amava estar com ele, falar com ele e ouvi-lo contar piadas horríveis. Quando estávamos juntos, qualquer lugar se tornava nosso canto especial onde podíamos ouvir música no walkman que pegava emprestado de seu amigo Yoongi e conversar sobre qualquer assunto. Eu gostava de como ele dizia que eu era bonita, que queria adotar um cachorro quando nos casássemos e chamá-lo de Jack. Era muito cedo para nós dois, de qualquer forma, mas eu amava fazer planos com ele mesmo que estivessem claramente distantes. Era uma das coisas que eu mais amava fazer.

Tudo em Hoseok era perfeito de algum modo. Desde a ponta de seus dedos até seus olhos vermelhos depois de chorar. Eu odiava vê-lo triste, desanimado, chorando por causa de sua mãe ou por causa do trabalho, mas era a única chance que aparecia diante de mim para ele me visitar no meu apartamento. Ele se mostrava muito sensível em certos momentos, e eu parecia ser a pessoa que apenas enxugava suas lágrimas frias e consolava seu coração aflito com um chá e um abraço. Aqueles eram meus momentos felizes, enquanto para ele eram os piores. Eu estava pronta para vê-lo triste, ou feliz, ou chorando, ou sorrindo. Eu nunca esquecia todas as versões que Jung tinha porque não me era suposto fazê-lo, mesmo que ele conhecesse apenas uma parte de mim.

Não pensávamos sobre isso durante um filme, ou no intervalo das aulas, ou quando nos beijávamos e eu sentia seu cheiro de perto. Apesar de muito inteligente, ele não notava a maioria das coisas que aconteciam ao seu redor da mesma forma que as outras pessoas. Sua ligação com a música era maior que a ligação que tinha com sua família, ou com o resto dos seus amigos, ou comigo. O processo de compreensão da cabeça dele foi algo demorado para mim, mais do que qualquer outra coisa com a qual eu já tenha me confrontado. Eu o amava, e tinha certeza disso, mas algumas coisas estavam fora do lugar na nossa história. Sempre estiveram.

Demorei muito para entender que, na verdade, ele era livre. Hoseok amava música, visitava galerias de arte onde um amigo fazia exposições de suas obras, tinha cheiro das balas de uva que guardava nos bolsos. Seu sorriso era largo, mas suas lágrimas também se mostravam fortes quando as coisas não iam muito bem. Ele era livre para fazer o que quisesse, e mesmo que nunca tenha deixado claro para mim, eu sempre soube. Em minha esperança rasa e ao mesmo tempo em que forte perante ele, eu pensava que Hoseok nunca teria coragem ou oportunidades de me deixar.

Nos dávamos muito bem, muito mais do que em qualquer relacionamento que eu pudesse algum dia imaginar ter. Cheguei a pensar que ele seria a pessoa com quem eu me casaria um dia, e teria uma casa, e um cachorro chamado Jack; e a pessoa com quem eu passaria o resto dos meus dias. Um pensamento um tanto dramático, melancólico e temperamental para um relacionamento que durou quinze meses, é claro, mas ele me fez sentir todas as coisas desde aquela tarde em que o vi dormir na biblioteca. Depois de Hoseok, nunca consegui ler uma HQ do Homem de Ferro outra vez. Tinha cheiro da partida dele, dos moletons que ele me emprestava para voltar para casa quando estava frio, das pontas dos dedos dele. Todas as coisas foram diferentes depois que Hoseok apareceu, e também depois que ele foi embora. 

Seu amigo Yoongi estava indo para Londres. Hoseok me chamou em seu apartamento uma semana antes e disse que precisava apenas resolver seu passaporte. Havia guardado dinheiro por bastante tempo, e aquela oportunidade que eu pensava que nunca chegaria, chegou de surpresa.

“Meus planos são outros agora. Eu sinto muito.”

Eu disse que estava tudo bem. Não consegui chorar na frente dele, nem mesmo dizer qualquer coisa que fosse contra. Respeitava sua decisão de deixar o país, mas isso não implicava de forma permanente em sua vida; eu não tinha controle sobre nada, e Hoseok era alguém livre, completo e diferente de mim. Se ele me deixasse, estava tudo bem porque era ele. Talvez tenha ficado um pouco triste pela nossa repentina falta de contato, ou pelas ligações que duravam horas e que de um momento para o outro cessaram. Nunca pude ter certeza dos sentimentos dele por mim e isso tornava as coisas mais interessantes, mas naquele dia eu acabei desejando nunca tê-lo conhecido.

Foi estúpido e infantil da minha parte, mas não pude evitar me sentir daquela forma. Hoseok estava indo embora para longe e planejava nunca mais voltar, e eu estava sendo deixada para trás pela única pessoa que havia verdadeiramente amado na vida. Mesmo se ele dissesse que um dia voltaria, que era temporário, que eu poderia esperá-lo tranquila, eu ainda permaneceria imersa na mesma dor intensa em que me encontrava; faltava uma semana, mas eu não queria mais vê-lo, ouvir sua voz ou receber um abraço de despedida. Hoseok esperava que eu fosse ficar bem, que eu fosse lidar com os problemas da mesma forma que ele lidava.

E eu nunca o esqueci. Não conseguiria nem se tentasse.

A verdade é que eu não esperava lembrar. Esperava que, logo na semana seguinte em que ele se fora, eu fosse finalmente conseguir dormir tranquila; e suas lembranças conectadas a mim como cabos de aço fossem se soltar uma a uma. Mas lá estava eu, no dia seguinte à sua ligação para se despedir de mim, chorando apoiada na pia do banheiro, esperando que fosse apenas uma brincadeira do universo e que Hoseok estivesse atrás da porta, me convidando para ir ao cinema e assistir Titanic pela terceira vez. Eu estava louca; de fato, uma desequilibrada que aguardava ansiosamente sua volta, embora eu tivesse a plena certeza de que Hoseok jamais voltaria para mim. Então me restava apenas sua voz ecoando na minha cabeça como uma música nas vezes em que ele dizia que me amava e eu duvidava, mesmo sempre dizendo que o amava de volta.

Hoseok me amou do jeito que sabia. E talvez, dessa forma, ele tenha me amado mais do que eu o amei. Em suposta consequência, as lembranças dos tempos que passamos juntos me arruinaram depois de sua partida.

Afinal, é impossível esquecer alguém que tenha nos amado tão profundamente.


Notas Finais


é isto. até a próxima.


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