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História 3 - Um Momento de Coragem - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Ela estava livre


Acordei de novo naquela cama... naquela casa... naquele lugar.

Os mesmos móveis em volta, a poeira dançando pelo ambiente e eu não aguentava mais. Sentei-me na cama, encarando meu reflexo no vidro da janela. Meus cabelos bagunçados, meu rosto inchado, meus braços doíam e eu simplesmente querendo ir embora.

Sorri em angústia, encarando a falta de brilho em meus olhos novamente marejados. As marcas de sua mão ainda jaziam em meu rosto, assim como os roxos em minhas pernas e braços. E eu ainda me sentia suja...

Fora mais uma noite difícil.

Seus gritos ainda ecoavam, me causando enormes dores de cabeça. As lágrimas não tardaram a escorrer por meu rosto, assim como os soluços. Meu corpo tremia em desespero e cansaço.

Aquele casamento não estava bem. Não enquanto ele fizesse parte.

A porta debaixo bateu e eu congelei. Minha respiração entrecortada e as batidas descompassadas do meu coração dificultavam ouvir de onde seus passos vinham. Eu não sabia se ele atravessava o corredor, se subia as escadas, ou se teria saído. Eu sentia meus pelos se eriçando e meu sangue correr frio apenas com a ideia de ele estar se aproximando.

Eu estava novamente com medo dele.

Quando a porta do quarto se abriu, fechei meus olhos, torcendo para que ele apenas fosse embora.

- Aí está você. – aquela voz rouca embrulhou meu estômago e senti um tom de ânimo em sua voz. A porta se fechou com violência e meu coração falhou. – Pensei que não fosse acordar a tempo de me encontrar em casa, querida. – o sorriso era palpável em seu tom de voz.

Eu tinha medo de seus passos, de sua voz, da sua presença. Ele era o monstro do qual um dia me vi apaixonada. E eu sabia o que ele queria agora.

- V-vá embora. – pedi em um sussurro, sentindo meu corpo tremer cada vez mais.

- Perdão, querida, você sabe que eu não ouço quando você resmunga. – eu chorei. Por favor, apenas vá embora.

- V-vai e-embora! – aumentei o tom, virando levemente meu rosto escondido por meus cabelos. Sua expressão era de confusão. Eu até poderia acreditar que era um bom homem, se a noite passada não estivesse estampada em meu corpo e, principalmente, meu rosto.

- Querida, tá tudo bem? – perguntou se aproximando. Saltei da cama, me afastando e ficando de frente para ele. Seu tom de preocupação fazia com que eu me sentisse louca. Fechei meus punhos.

- Eu não sou louca. – retruquei.

- Mas... amor, o que está acontecendo? – se aproximou mais.

- Não! – recuei, atirando um pé de tênis contra ele. Meu corpo pedia distância. – Vá embora! Chega, por favor, chega! – supliquei. Ele riu.

- Nós já lidamos com isso antes, você sabe o que acontece. Você não quer repetir as outras noites, não é? – meu corpo estremeceu e as imagens logo vieram em minha cabeça. Suas mãos me apertando, seus gritos e todo o resto que me fazia temê-lo todas as noites.

Ele se sentou na cama, de costas pra mim, e começou a desabotoar sua camisa. As lágrimas brotaram e meus joelhos cederam. Encarei o chão frio a minha frente, sentindo o desespero me consumir.

- Vamos, levante-se. Você sabe que odeio quando faz drama. – um pé de um sapato plataforma reluziu a minha frente. Era minha chance. Não restava mais nada pra mim.

Agarrei sua alça com força e me levantei com um salto, batendo com o calçado em sua nuca. Seu grito de dor ecoou e eu corri pela porta, sentindo tudo ficar em câmera lenta. Eu me vi correndo pelo corredor ouvindo seus gritos e passos atrás de mim. Meu coração estava acelerado e desabei sobre a escada a minha frente. Tudo escureceu por um momento e uma dor latejava em minha cabeça.

- Viu o que acontece quando tenta escapar? – ele se gabava ainda na parte de cima das escadas, enquanto meu corpo se recuperava. Me levantei com dores e, em um impulso, me lancei contra a janela da sala.

Eu sabia que a porta estaria trancada, mas aquela janela velha não suportaria.

Caindo sobre os cacos, vi meu sangue escorrer. A dor dos cortes não era nada comparado a todas as humilhações... e eu cansei de sangrar por ele. Estava na hora de fazer por mim.

Eu corri em disparada para o pequeno muro e pulei. Seus gritos eram altos atrás de mim. Ele pedia para as pessoas me segurarem, mas elas estavam assustadas demais com aquela cena.

Eu via os carros, as casas, os jardins, as crianças, as pessoas. Era tão lindo. Fazia tanto tempo desde que ele me prendeu... desde que perdi as forças para lutar contra ele.

Atravessei a rua em disparada, ouvindo um pneu de carro cantar e um homem gritar furioso após ter freado bruscamente, e pulei ao ver o carro tão próximo a mim.

- Desculpe. – murmurei e olhei para trás, vendo meu pesadelo se aproximar. Tornei a correr para a calçada oposta a ele e, quando a alcancei, um grito me fez congelar. Olhei para trás mais uma vez.

Ele estava ali... caído. Meu pesadelo possuía um carro por cima de sua cintura. Seu rosto estava inerte.

Acabou. Ele não ia voltar, não podia voltar.

As pessoas se aproximavam e o burburinho aumentava, assim como o número de pessoas que me encaravam. Uma ambulância chegou.

Não, eles não podiam ressuscitá-lo. Eles não... Ele morreu, não ia voltar, estava acabado. Mas se ele voltasse... meu corpo estremeceu. Ele viria atrás de mim.

Tornei a correr.

Ele não podia ver por onde eu ia, ele não ia me encontrar mais, eu não retornaria nunca mais.

Corri o mais rápido que pude, fazendo um ziguezague entre as quadras para despistá-lo. Ele não vai me alcançar.

E então eu parei, sentindo o ar fugir de meus pulmões. Estava de frente para uma praia. Suas águas reluzindo a luz do sol eram perfeitas.     

Caminhei insegura até a borda do mar. Eu sentia o vento bater contra meu rosto, levando meus cabelos com ele. Meus pulmões se encheram de ar e fechei meus olhos. Com meus braços para no ar, eu gritei. Gritei o mais alto que pude, com toda força que pude. Eu senti minha liberdade me envolver, meu coração bater mais forte e ninguém entenderia o que aquilo significava pra mim. 

Naquele pôr do sol eu me refiz. Com meus pés enterrados na areia, com minhas feridas ardendo, com o mar revolto a minha frente, o vento balançando meus cabelos e arrepiando cada centímetro do meu corpo, eu sentia a adrenalina e a vida a minha volta. As lágrimas que escorriam de meu rosto não poderiam ser de outra coisa além de alívio.

Acabou... Ela sabia que ele não voltaria. Ela estava livre... Ela está livre.



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