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História 4 - Uma Pessoa Amada - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Vovó


Fazia tempo que não visitava aquela pequena residência.

Talvez eu me sentisse ocupada demais, cansada demais, querendo apenas mais um dia comigo mesma que sequer vi os dias passarem.

Mas eu nunca me esqueci dela. Sempre pequenina, com seus cabelos brancos, olhar cansado e sorriso singelo. Seus olhos possuíam um brilho terno e carinhoso, capaz de dar paz a pessoa mais conturbada que conheça.

Creio nunca ter visto ela chorar, mas ainda há quem diga que seria uma velhinha frágil. Eu dou risada dessas pessoas, pois nunca teriam conhecido velhinha mais viva. Vovó pela cozinha era um furacão; para dar bronca em papai por sair sem agasalho, uma raposa – quieta, observadora, mas, quando menos se espera, ela ataca -; com suas costuras e tricôs então?! Nem te conto. Mas quando não estava em seus afazeres, sua calma e paz eram de fato contagiantes. 

Dificilmente eu a vi cansar. O brilho em seu olhar é penetrante, trazendo alegria nos seus dias mais escuros. Seus doces eram capazes de acalmar qualquer temporal e ela, a doce velhinha, com seus cuidados e preocupações, representava o mar mais calmo e brilhoso que um marinheiro poderia encontrar.

Sempre me lembro de minha infância na pequena casa. Seu terreno era consideravelmente grande, em comparação com a casinha em seu interior, mas vovó amava seu gramado, suas árvores frutíferas e flores – todos cuidados com maior atenção. Eram quase como filhos. Era tão bom vê-la regar suas flores, cortar a grama, colher algumas frutas quando estava na época e, logo após lavá-las, íamos comê-las, sentadas na escadaria, vendo os carros passarem na rua de trás de sua casa.

Também lembro das histórias de sua época. Algumas vezes, vovó repetia a mesma história incontáveis vezes, mas em momentos diferentes. Eu nunca me atrevi a lhe dizer isso, mas sempre receei por essa sua suposta perda de memória, assim como cogitava a ideia de esse ser apenas seu gosto em contar aquela história.

Recentemente papai contratou uma cuidadora para ficar com vovó. Faz anos que a pequena senhora morava sozinha, mas, segundo ele, a idade chega para todos – e com vovó não foi diferente. Margarida é uma mulher doce, mas tenho pena dela por vovó sempre pegar em seu pé e, quando vovó implica com alguém, não há quem a segure. Por sorte, Margarida é persistente e realmente gosta de vovó. Sempre dissera que ela lembra muito sua falecida mãe, por sua vivacidade. Com o tempo, vovó passou a implicar menos, visto sua solidão dentro da pequena casa. Sem Margarida, ela apenas teria as visitas de meu pai e eu – e estas estavam diminuindo por conta do trabalho e a vida que cada um seguiu.   

Logo estava de frente ao jardim de vovó. Agora um pouco mais descuidado do que antes, pois vovó passou a acompanhar as novelas e acabou se desligando um pouco de seu precioso jardim, mas sua beleza prosseguia; suas flores vivas, suas árvores com frutos e a grama – incrivelmente verde – estava um pouco mais alta do que devia, segundo o gosto de vovó.

Me enchia o peito estar aqui novamente. Um sorriso se abria em meu rosto, antes mesmo de eu adentrar a residência, e meu coração se aquecia apenas com a ideia de revê-la.

Me aproximei do portão e apertei o botão da campainha uma, duas e, na terceira vez, uma pequena velhinha surgiu a porta, com seus cabelos brancos, olhar cansado e um sorriso singelo.

Era bom ver vovó novamente e, apesar de nossos desencontros, pelo brilho penetrante em seus olhos cansados, a alegre velhinha também jamais se esqueceria de mim. 



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