História 48 Horas - Capítulo 3


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Drogas, Tragedia, Violencia
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Hentai, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura.

Capítulo 3 - Capítulo dois: Fins e meios


-x- Capítulo dois -x-

Fins e meios

 

 

Cogitou que as gotículas aquecidas que pendiam do chuveiro amenizariam os tormentos que lhe afligiam - físicos e morais -, mas tudo não passara de uma equivocada suposição. Envolveu o corpo com sabão neutro, e as espumas dizimaram os germes e arrancaram crostas de sangue e resíduos, deixando os ferimentos com um tom róseo-avermelhado inerente à carne-viva. Obrigou-se a abafar os murmúrios de protesto quando a água quente passeou outra vez sobre as escoriações. A anatomia tremeu, embora morna, e o tórax, abdômen, membros superiores e inferiores retesaram sua musculatura indicando o incômodo.

Alisou os fios escuros e massageou o couro cabeludo com uma generosa quantia do shampoo de Beatrice. Fragrância que não remetia à essência amadeirada dos produtos de higiene pessoal que lhe pertenciam. Quando os fios estavam limpos, girou o registro cessando a cascata.

O banho chegara ao fim.

O quadril foi abraçado, a nudez encoberta, por uma toalha alva que retirou do gancho situado entre box e pia, anteriormente alocada a um metro e meio do chão. Mexeu os pés sobre o tapete e descalço, gotas prateadas deslizando do busto, caminhou para o quarto em cuja cama Beatrice se sentava. Ao lado da mulher, no colchão macio, uma velha maleta de primeiros-socorros.

- Anda, venha cá - exigiu ela, ao dar leves tapinhas na superfície acolchoada. Aaron obedeceu, carecia de curativos. Achegou-se, portanto, próximo à namorada. - Lavou bem esses ferimentos? - quis saber. Calçou as luvas descartáveis e abriu a malinha de plástico, retirando de seu interior soro fisiológico, gazes, esparadrapo e um frasco de álcool setenta.

- Sim - anuiu Aaron. Trincou os dentes quando começou a higienização mais caprichada dos machucados, e soltou um grito agudo quando ela derramou álcool sobre eles. - Uau, isso queima - comentou, contendo o aturdir instaurado à garganta.

- Mas cura! - a morena rebateu, compenetrada ao ponto de ignorar as caretas que ele fazia.

- Sinto muito por isso - Aaron balbuciou, com penúria. A voz modificada pelo remorso de submetê-la em situações tão complexas, quando ela merecia uma realidade mais pacífica e livre de nocivos contratempos. - Eu te amo.

- Eu sei.

- De um jeito torto - o homem articulou.

- De um jeito muito torto - elucidou ela.

- Mas, mesmo assim, eu te amo.

As mãos hábeis de Beatrice realizaram a tarefa com delicadeza absurda, e um quarto de hora depois o serviço fora finalizado. Satisfeita, ela proferiu:

- Tente não se mexer muito durante à noite para não retirar os curativos - guardou o que sobrara dentro da maleta, e enfiou as gazes sujas numa sacola plástica que terminaria no lixo. - Tome esses analgésicos que deixei em cima do criado-mudo - apontou para o móvel. Aaron seguiu seu movimento com o olhar. - Fará com que você se sinta melhor. Trarei uma bolsa térmica com gelo, para aliviar as costelas - sentenciou, e deu meia volta levando consigo o material de descarte. - A propósito - estancou os passos e volveu o pescoço para encarar o homem que tentava se acomodar de modo confortável na cama de casal. - Eu te amo também, seu idiota.

Aaron sorriu, Beatrice continuou:

- Agora repouse. Você precisa estar descansado para pensar numa maneira de contornar esse estorvo.

- Amanhã será um longo dia - Aaron articulou, socando o travesseiro antes de afundar a cabeça sobre ele. Fechou os olhos por um célere momento. O amanhecer traria, sem sombra de dúvidas, tempestuosa jornada.

 

-x-

 

 

A lanchonete do bairro mais parecia uma caixa de sapatos. O lugar era escuro e o papel de parede desgastado, em uma parte ou outra do teto amarelo notavam-se borrões de gordura ou bolor, algumas aranhas pequenas costuravam suas teias nas quinas das paredes, e no piso vermelho acumulava-se camadas e camadas de cera, numa tentativa falha de melhorar o aspecto do local. TJ não ligava para a aparência do estabelecimento. Motivo mais saboroso o levara à lanchonete do Big Pig.

- Não sei por que insiste em vir nesse lugar - disse Malcon, primo caçula de TJ. Mesma tonalidade na pele, traços diferentes.

Tinha olhos num tom castanho claro, em formato de semente de ameixa e os lábios menos generosos do que os do seu mentor. Havia também a ausência do cavanhaque e o rosto seria desprovido de pêlos não fosse pelo bigode ralo que remetia a um garoto na puberdade. Apesar da pouca idade, era homem de confiança e empenhava-se para prosperar nos negócios ilícitos no qual fora inserido. Não apresentara resistência. O crime facilmente o seduziu por vantagens que, em sua concepção, compensavam o risco.

- O Big faz a melhor costelinha de porco que eu já comi na vida. E nem preciso ressaltar o quanto sou apaixonado pelo pão de milho e o purê de batatas - TJ comunicou. Uma poça de saliva se formou abaixo da língua e o estômago roncou ilustrando a expectativa pela refeição.

- E pelo quiabo.

- Sim. E também pelo frango frito - passou a língua ao redor dos lábios. Estava faminto.

- Tudo bem. Consigo compreender seus motivos, mesmo sabendo que alguém menos assíduo se espantaria com o lugar - Malcon brincou.

- Não sou fresco. Aprendi bem cedo que até pedra pode ser incrivelmente saboroso quando não se tem mais do que um mingau de aveia ralo para comer.

- Lamento por sua infância - Malcon proferiu e sorveu um longo gole de Pepsi, pelo gargalo da pequena garrafa de vidro.

- A sua não foi muito diferente - TJ sorriu, sardônico. - Mas hoje não precisamos mais nos preocupar se o armário da cozinha está cheio ou vazio. Isso é o que importa - sibilou. - Veja, Big Pig trouxe nosso banquete - exclamou, e Malcon virou a cabeça para enxergar o homem obeso que caminhava na direção da mesa onde ambos se acomodavam.

O sujeito gordo e rosado lembrava um grande porco. Um suíno que fora alimentado com fartura para ser morto nas vésperas de Natal e constituir o destaque da ceia. Carregava a bandeja com as duas mãos, e o avental possuía manchas do que Malcon deduziu ser o saboroso molho que ele pincelava nas costelinhas enquanto as mesmas eram lentamente cozidas no bafo do carvão. Mas aquilo era apenas uma pequena parte do segredo. O restante, Big não confessaria nem sob tortura.

Malcon também tinha os seus.

 - Espero que gostem - falou o cozinheiro após depositar os pedidos sobre a toalha de papel com uma estampa quadriculada. Pratos anteriormente citados na conversa entre os primos. A coloração dourada do empanado do frango, um deleite aos olhos.

- Não tem como não gostar - TJ proferiu. Fez um meneio de cabeça em agradecimento e o homem retornou ao calor da cozinha para preparar as refeições dos demais clientes que aguardavam no pequeno salão.

Malcon olhou pela janela de vidro. O dia estava cinza. As nuvens indicavam possuir apreço pela cidade naquela época do ano, e uma imperiosa chuva costumava cair quando menos se esperava. Malcon sempre sabia quando ela estava a caminho. Aprendera a prever tempestades quando tolos as ignoravam. E nem sempre elas tinham caráter como as gotas que eram cuspidas violentamente pelo céu. Às vezes seu tato incluía muito mais do que literalidade.

- Prove a costelinha - o primo indicou. Dedos e boca lambuzados pelo molho cor de telha.

- Vou ficar só no frango - Malcon respondeu e mordeu, feroz, uma asinha. Os dentes maceraram a carne branca e o sabor se uniu ao paladar como uma amante voraz. Depois de devorar o petisco e retirar bem as fibras dos finos ossos, depositou os mesmos num prato vazio e esfregou os lábios um no outro, sentindo a sensação escorregadia de óleo. - Brown tem mandado notícias? - iniciou um diálogo com interesses profissionais.

- Os tiras da Narcótico acharam o galpão, levaram tudo - TJ proferiu, atacando a broa de milho.

- Soube que haverá uma recompensa para quem lhe entregar.

TJ bufou, desacreditado. Achava as atitudes da polícia quase cômica.

- Metade de Detroit está sob minha influência. Por qual razão me entregariam?

- Você tem inimigos. - Malcon enfiou uma colher na vasilha do purê e abocanhou o metal. A massa amarelada bailou na mucosa oral antes de descer, pastosa, pelo esôfago. Repetiu o gesto três vezes, e voltou sua atenção para outra asinha de frango.

- Nesse mundo no qual sou rei, não é possível agradar a todos. E se for necessário que eu suje minhas mãos, irei fazê-lo quando preciso.

- Deveria permitir que outros resolvessem a parte sangrenta - Malcon exprimiu e bebeu mais um pouco da Pepsi. TJ preferira a Fanta Laranja.

- Gosto de ver o medo brotar nos olhos dos covardes que ousam me desafiar. Ontem à noite, por exemplo, eu me diverti com um branquelo. Um desses metidos à besta que desfilam orgulhosos suas bundas brancas quando na verdade não passam de vermes sem valor - confessou, uma fagulha de repulsa preencheu a fisionomia dura.

- Outro viciado?

TJ sorriu.

- Claro.

- Quanto ele lhe deve? - Malcon sondou.

- Quinhentas pratas. O débito era de três meses. Eu iria acabar com ele ali mesmo, mas ele me disse que me entregaria o dobro se eu lhe desse 48 horas para conseguir o valor. Então, eu cedi. Adiei o julgamento.

-  Acha que ele fará o que prometeu?

- Duvido muito - TJ articulou, sincero. - Penso que ele somente me deu tempo de ponderar um método mais doloroso de dar um fim à vida dele.

- Realmente fará isso?

- Óbvio! - TJ discorreu, concedendo à mesa um leve tapa. - Tenho um nome a zelar. As pessoas precisam saber que não posso ser passado para trás - discursou.

Malcon não tinha tanta certeza. Acreditava que todos possuíam um ponto fraco, embora o primo se achasse acima de qualquer risco. Uma atitude imprudente, à percepção do mais novo.

- Qual o nome desse coitado? - Malcon inquiriu.

- Aaron. Ele trabalhava naquele lava-jato pouco depois da ponte.

- Sim, me recordo - Malcon anuiu. - Andou me importunando há uns meses. Queria mais cápsulas de cocaína.

- Eles sempre querem mais. Cheiram até fritar a porcaria do cérebro - TJ ilustrou, conduzindo uma garfada ao pote com quiabo.

- São como zumbis - murmurou Malcon. - Nunca gostei deles.

- Viciados ou zumbis? - TJ indagou, irônico, mascando de boca aberta. Anterior aos caninos, dentes de ouro reluziam na arcada superior.

- Zumbis. Viciados são úteis até se transformarem na porcaria desses malditos zumbis. Depois só nos trazem problema - falou. Esticou as mãos para furtar a famosa costelinha da qual o primo tanto gostava.

- Aaron não me trará problemas. Ele arcará com sua palavra. - TJ parecia despreocupado e a refeição era o único foco de seus diabólicos pensamentos.

- Como pode ter tanta certeza que ele irá fazer o que falou?

TJ parou de comer e olhou para Malcon.

Um vislumbre do garoto pelo qual nutria grande estima. Sangue do seu sangue, entretanto, além de tudo, alguém em quem confiava a ponto de lhe colocar a par de todos os seus negócios. Se um dia as coisas saíssem do controle, via no parente seu sucessor. O homem que assumiria o controle do tráfico naquela região, se porventura ele fosse preso ou morto. Porém, em circunstâncias como aquela, receava que Malcon fosse ingênuo demais. Temia que ele estivesse um passo atrás, quando sua destreza mental deveria estar três à frente. Mais audaz que tudo, mais esperto do que todos.

- Sei onde a namoradinha dele trabalha.

- Pretende colocar as mãos nela e fazê-la de moeda de troca?

TJ gargalhou, sádico. Não precisava articular audivelmente um sim, pois Malcon o havia compreendido.

 

-x-

 

Beatrice deixou um abastado desjejum sobre a mesa, pela manhã. Um gesto para demonstrar a Aaron que estava ao seu lado, mesmo em momentos tão complicados.

Quase não pregara os olhos durante a noite. Acordava volta e meia, preocupada demais com o homem que caíra num sono letárgico, embora murmurasse e tremesse em espasmos - ainda sonolento -, conforme a madrugada avançava. A mulher, no entanto, acordou antecedendo ao raiar do sol. Tomou um banho rápido, vestiu suas roupas, e preparou um café da manhã generoso, cuja metade jazia à espera de Aaron.

Chegar ao trabalho duas horas antes do comum concedeu-lhe a oportunidade de ajuizar se realmente deveria fazer aquilo que cogitou durante as horas de insônia. Seria a primeira vez que se renderia a atitude que poderia ser interpretada como atrevimento, contudo precisava buscar auxílio pois se amedrontava com a hipótese de Aaron perder, em definitivo, a cabeça. Em todos os sentidos passíveis de interpretação.

Ajeitou também alguns documentos em pastas acomodadas numa estante anexa à mesa da recepção. Verificou as consultas marcadas para aquele dia, e reagendou uma senhora que telefonara ao consultório há duas luas, solicitando gentilmente que sua vez fosse remarcada. Ligou o computador e começou a redigir uma lista de itens que precisavam ser comprados para que Phillip - o dentista e consequentemente seu chefe -, lhe desse dinheiro e aval para a aquisição. Rezava para que ele pudesse lhe conceder bem mais. Tamanha abstração mental que nem percebera a presença do ruivo.

 

- Bom dia - Phill saudou, entrando no recinto com um sorriso brincalhão. - Chegou cedo.

- Pois é - Beatrice respondeu. No rosto um riso amarelo, sinônimo de ansiedade e expectativa. - Eu gostaria de conversar com você - confessou. Esperava que o dentista fosse tão filantropo quanto se orgulhava de explanar em conversas telefônicas com mulheres que Madeleine, sua esposa, nem desconfiava. Todavia, uma parte sua tinha certeza que o tipo era só uma das muitas encenações do adúltero. - Algo íntimo.

Phillip sentou no sofá da recepção e folheou o jornal que adquiria no trajeto até ali. Encarou o relógio de pulso e comunicou:

- Diga. Temos meia hora até a chegada do primeiro paciente.

- Não farei enrolações, não sou boa nisso - Beatrice discorreu, insegura. Via no sacrifício e constrangimento a saída; a única alternativa ao seu alcance para libertar Aaron.

 

- Essa é a qualidade que mais admiro em você - ele acentuou, mas quase que instantaneamente lançou um fitar cobiçoso ao decote dela.

Beatrice percebeu, e o embaraço açoitou seu estômago. Teve náuseas. Gostaria de ordenar que ele ao menos contivesse o desejo libertino e lhe tratasse com pudor e dignidade. Há tempos preferira ignorar o assédio do que se posicionar de forma ferrenha contra ele. Precisava do emprego. Aaron também. Resignação fora o caminho escolhido por pura e simples necessidade. Matinha, porém, o cenho sisudo externando assim que nunca daria ao patrão algum tipo de liberdade. O sujeito de cachos cor de ferrugem e olhos esverdeados preferia fazer-se de desentendido e quando possível soltava uma ou outra insinuação desrespeitosa.

- Diga-me do que se trata - exigiu o homem.

Beatrice respirou fundo. Adotou toda a coragem e ímpeto que nem mesmo sabia deter. Agarrou-se no motivo que fomentaria aquela súplica, obrigou-se a engolir o orgulho e disse:

- Phill, você poderia me emprestar mil dólares? - Entrelaçou os dedos, e a mão sobre a mesa remetiam a uma prece muda. - Posso trabalhar até mais tarde, e aos domingos. Você pode diluir essa quantia mensalmente, retirando parcelas do meu salário. Por favor - o timbre assumiu notas embargadas. Prendia o choro. Ouvir um sim iria beirar a experimentar o paraíso. - Por favor, Phill.

Ele estudou-a meticulosamente, e ambição carnal tocou cantigas em sua mente devassa.

- O quanto precisa desse dinheiro? - esquadrinhou.

- Muito. Muito mesmo.

- É emergencial, então? - questionou, imaginando uma resposta afirmativa. Beatrice encheu-se de esperança.

- Sim. Se você concordasse com isso me seria de grande ajuda.

- Certo - Phillip disse. - O grande 'x' da questão é: o que você está disposta a fazer em troca desse favor?

- O que? - Beatrice indagou, boquiaberta. Negando-se a acreditar que ele ousara ultrapassar tal linha, fazendo sugestão tão degradante. - Como assim?

- Não se faça de ingênua e pura - Phill levantou do sofá e caminhou até ela. Com as costas do dedo indicador acariciou a bochecha da mulher que o encarava, atônita. - Não é segredo algum, e você sabe que desde a primeira vez que eu lhe vi, desejei você nua - confessou, descarado. - Totalmente nua na minha cama.

-x-

Aaron agradeceu silencioso pelas horas de sono das quais desfrutara.

Análogo à noite anterior, Beatrice deixara sobre o criado-mudo outro comprimido para que ele pudesse ingerir assim que descolasse as pálpebras a um novo amanhecer. Fato que ocorreu quase à hora do almoço, repouso estendido dado ao cansaço solicitado pelo corpo machucado. Assim que colocou os pés ao chão, quando se sentou na beirada da cama, esticou a mão direita e capturou o remédio azul. A elipse desceu por sua garganta com o auxílio de um generoso gole de água que sorveu de um copo acomodado ao lado da cartela.

Bocejou.

Esticou os braços, e a musculatura dos membros torneados relaxou quando se espreguiçou manhoso, tal qual um bichano. A serenidade no rosto sonolento compunha caráter antagônico com os receios, abissais e elétricos, que repercutiam em sua mente. Havia uma urgência pungente para encontrar uma trilha que o conduzisse de forma honesta à quantia devida a TJ. Contudo, carecia de um mapa bastante nítido para guiá-lo à rota desconhecida.

Não queria ter que abdicar do juízo para assim sanar o débito com o traficante, mas quanto mais analisava as perspectivas – concluindo que não estavam a seu favor -, a hipótese de se transformar em algo que jamais pensara cintilava reluzente num canto oculto do próprio limbo. Como a estrela que brilha ao topo de uma árvore de Natal.

Andou até à cozinha com passos firmes, porém lentos.

Temia forçar demais a anatomia, e a costela protestava a cada iniciativa de abraçar a ligeireza. Sorriu quando os olhos descobriram o desjejum sobre a mesa retangular. Ovos, bacon, pães, biscoito. Leite, suco, café. Queijo, geleia, pasta de amendoim. Os gêneros alimentícios postos de forma organizada, bem como prato, copos e talheres. Um nobre gesto de Beatrice para conceder ao namorado uma fatia de ânimo.

Ao roncar, o estômago indiciou que recebera de bom grado aquela oferta, capaz de encher a visão e, dentre em pouco, o sistema digestivo.

Sentou-se numa das extremidades do móvel e preencheu um copo pequeno com café. O líquido negro pendeu da garrafa térmica como uma veia de petróleo jorrando no deserto e o aroma característico varreu suas narinas conferindo-lhe momentâneo alento.

Bebeu um pouco. Gostava assim, sem açúcar. O amargor foliou na língua, entretanto logo fora ocultado pelo sabor adocicado que a acometeu quando Aaron mordeu uma torrada na qual dispôs espessa camada de geleia de amora. Em seguida, serviu-se de queijo, tiras de bacon. Inclusive os ovos mexidos – já frios – soaram-lhe incrivelmente apetitosos. Beatrice acertara em cheio. Talvez fosse aquele um dos seus mais intrigantes e apaixonantes dons.

Aaron não se julgava digno de uma mulher como ela.

Gostaria de nunca ter feito as escolhas nocivas que fizera, e detestava-se, com furor, por acabar tragando-a para dentro desse poço, corrompido em breu,  por sua total  inabilidade de galgar estradas mais seguras. Para si e para aqueles que insistiam em lhe acompanhar quando o perigo e um trágico epílogo era um desfecho previamente cantado. Mas, por Deus, daquela vez precisava haver uma alternativa; uma daquelas similares aos contos de fada, onde o final feliz era certeza cravada, bem como a sentença de um juiz num tribunal. 

Todavia, o lampejo de raciocínio que lhe acometera enquanto retornava ao quarto, almejando outro banho para ele mesmo refazer os curativos, nada possuía de serenidade. Há tempos se esquecera de tal objeto, achava que não careceria usá-lo por sua letalidade. Somente ponderar a utilização lhe suplantou um calafrio na espinha; contudo, a curiosidade por saber se ele ainda estava estático em seu esconderijo, fez com que Aaron arrastasse o criado-mudo – o que lhe causou um súbito surto de dor – para frente do guarda-roupa. Subir nele foi tarefa concluída após três tentativas e os glóbulos focais se esbugalharam quando ele pôs as mãos na caixa de papelão guardada ali em cima.

Desceu, e a cama transformou-se em seu pousio.

Colocou o quadrado sobre o colchão e o abriu. A tampa sendo retirada com uma lentidão que indicava que o homem buscava coragem para ir adiante. Talvez porque ajuizava que aquilo era uma atitude extremista e que deveria ser recorrida somente quando todo o resto falhasse. Ah, mas Aaron parecia ter uma misteriosa atração pelo verbo falhar, e no término da linha o desespero era a única companhia que insistia em mantê-lo por perto.

Sempre.

Suspirou demoradamente quando a caixa finalmente fora aberta. Em seu interior, pentes de munição para a pistola que ganhara após uma partida de pôquer, anos atrás. No centro, a Glock reinava com sua imponência. G19. 9 mm. Apesar da simplicidade o modelo austríaco possuía ótima velocidade de disparo, além de ser leve, segura e ter boa precisão. O sangue do homem correu célere nas veias e o miocárdio estimulou uma taquicardia, quando experimentou o metal na palma de suas mãos.

Inspirou o ar, inundando os pulmões, e colocou a arma dentro da caixa, apressado, como se o item bélico lhe causasse dolorosa queimadura, negando-se a se ancorar na atual conjectura.

O fim não poderia justificar aquele meio. Ceder à tentação seria como corromper o último sopro de pureza de sua flagelada alma.

 


Notas Finais


O que acharam? Beijos.


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