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História 7 Anos - Cophine - Capítulo 44


Escrita por:


Capítulo 44 - A gente nasceu para amar uma à outra.


Pov Delphine

Pela manhã despertei com meu celular tocando. Acordei meio desnorteada e infelizmente Cosima acordou junto.

-Me desculpe. - Peço ainda procurando meu celular na bolsa. Acho que estava com tanto sono que não estava conseguindo pensar direito. O cansaço estava me vencendo aos poucos.

-Tudo bem. - Sua voz saiu doce e sonolenta. Dei até um sorriso e agradeci aos céus por poder ouvir a sua voz de anjo. Cosima é o meu anjo.

Quando finalmente achei, olhei o visor verificando quem era e atendi.

-Oi, filha.

-Mãe, já podemos ir? A mãe Cos está acordada? - Valentina pergunta.

Encarei meu relógio de pulso e marcava as 6:10 da manhã. A hora passou muito rápido e eu quase não dormi porque de uma em uma hora entravam enfermeiros para checar e medicar Cosima. 

-O hospital só abre as nove para visita, meu bem. Espere mais um pouco. - Falei baixo porque parece que minha esposa voltou a dormir. - Fala com a Sophia para vim também.

-Ela não quer muito não, mãe. - Disse. - Ela está mal desde ontem. - Respirei fundo antes de responder.

-Fala com Sophia para vim por que eu quero falar com ela.

-Tá bom.

-Ajuda ela, Valentina, por favor. - Sentei no sofá. - Ela ainda não entendeu muito bem o que está acontecendo.

-Eu vou falar com ela, mãe. Não se preocupe. - Disse me tranquilizando um pouco.

-Obrigada, filha. Seus avós virão com vocês ou mais tarde?

-Disseram que vão ir mais tarde e o tio Félix vai com a gente agora.

-Ok. Descansa mais um pouquinho e as nove você vem. - Olhei meu relógio de pulso mais uma vez.

-Tá bom, mãe, beijos.

-Beijos, filha, te amo.

-Também te amo.

Encerramos a ligação. Só tombei minha cabeça para trás e fechei os olhos. Eu estava muito cansada, fazia uma semana que não dormia direito preocupada com a minha esposa e com as crianças. O pior é que eu estava agitada e mesmo se eu quisesse ter uma noite normal de sono, não conseguiria.

Confesso que fiquei um pouco chocada quando Cosima perguntou quem eu era. Ela acordou não lembrando nem à idade. Fiquei até com medo dela me rejeitar e pedir para eu ir embora, mas não, ela quis que eu ficasse e ainda me deu um selinho no final da noite.

-Está tudo bem? - A voz suave da minha esposa ecoa no ambiente.

-Está sim. - Abri a boca com sono. - Só é a Valentina.

-Valentina é a mais velha, não é?! - Cos abriu os olhos com um pouco de dificuldade para me encarar.

-Sim, tem quinze anos. - Respondo.

-E a menorzinha?!

-Tem onze.

-Ok... é que eu não quero ficar tão esquecida perto delas. - Confessou. - Estou com medo de fracassar e elas se magoarem comigo.

-Elas não vão, Cos. Pode ficar tranquila. - Me levantei e cheguei mais perto dela para olhá-la melhor.

-Seja sincera, eu era uma boa mãe?

-A melhor de todas. - Dei um sorriso de canto. - Parece que você sabia de tudo e sempre lidava com elas da melhor maneira.

-Eu estou me sentindo uma impotente, eu não sei mais nada de ninguém. - Abaixou seu olhar para as mãos. - Não sei nem qual é a cor favorita das minhas filhas que mal lembro do rostinho de uma que estava aqui ontem e da outra parece que nunca vi. E de você eu não sei nada também, só sei o que me falou.

-Mas isso não é culpa sua, Cos. De ninguém na verdade.

-E se eu nunca mais lembrar do meu passado? - Seus olhos se encheram de lágrimas. - Nunca mais lembrar daquelas sensações das primeiras vezes que fiz algo, e se eu esqueci como faz sexo? Ou como beijar na boca de língua? Como serei uma esposa para você?

-Você acha que eu vou te deixar por isso? - Pergunto cruzando os braços. Não que eu tivesse ficado ofendida, mas nunca me passou pela cabeça deixar Cosima por essas coisas.

-Se você quiser me deixar vou entender. Não quero que perca a sua vida daqui para frente com uma manca que não sabe nem qual o nome das filhas direito. Você é jovem e bonita, vai arrumar alguém rápido. Aquela médica por exemplo, ela já está em cima.

-Estou achando que você quem gostou dela. - Dei um sorriso de canto tentando aliviar o clima.

-Amei a forma como ela falou e sorriu para você. - Disse séria. Agora ela não estava muito para brincadeira. - Estou falando sério, você merece uma vida boa e não isso aqui, não sei nem que dia eu saio desse hospital, e para onde vou também? Não sei nem onde fica a minha casa.

-Eu não vou te deixar, Cosima. Nunca! - Dei mais ênfase na última palavra que falei. - Eu amo você e vou estar aqui para tudo, se for preciso eu fico horas e horas contando mais coisas que vivemos, te mostro todos os sabores de sorvete para você experimentá-los de novo e te levo na praia para você conhecer novamente a sensação que é ver o mar pela primeira vez.

-Eu não mereço você, Delphine. - Sua voz saiu triste e isso me cortou o coração.

-Como sabe que não me merece se não lembra de como você sempre se importou comigo? Você sempre me ajudou com tudo, Cos. Quem segurava a minha barra era você. Tudo o que eu sou e tenho hoje, devo à você que esteve sempre ao meu lado me ajudando e não me deixando desanimar. Eu que não te mereço, Cosima.

-Merece sim, você é maravilhosa. - Percebi que uma lágrima escorreu do seu rosto e ela logo enxugou.

-Então a gente se merece, tudo bem?! - Me aproximei mais para sentar ao seu lado.

-Tá bom.

Dei um sorriso fraco e resolvi mudar de assunto, estava tudo muito recente e não estávamos em condições de conversar sobre isso e dessa forma. 

-Como está se sentindo?

-Estou melhor, meu corpo ainda continua meio dolorido mas estou bem.

-Animada para tentar andar hoje pela primeira vez? - Apoiei minha mão em cima da sua que estava na cama.

-Estou um pouco. - Deu um sorriso de canto com os lábios colados. - Será que ainda sei andar?

-Você é Cosima Niehaus, consegue fazer tudo! Eu desconheço algo que não consiga fazer. - Falei com total convicção fazendo com que seu sorriso aumentasse.

-Deita aqui do meu lado. - Cos chegou um pouco para o lado com certa dificuldade e eu a ajudei e depois deitei do seu lado deixando meus sapatos em baixo no chão. - Vira para mim, quero olhar em seus lindos olhos.

-Me cantando assim eu fico tímida. - Me virei agora de frente para ela.

-Você é uma mulher tão linda que eu fico sem graça por estar desarrumada assim perto de você. - Disse me fazendo rir. Eu fico extremamente feliz por saber que o seu senso de humor não mudou.

-Que isso, você é a mulher mais linda do mundo de qualquer jeito. Olha essa pintinha que tem na bochecha, é a coisa mais fofa do mundo. - Fiz carinho na sua bochecha com os meus dedos delicadamente. Cosima gostou tanto que fechou os olhos e deu um suspiro mordendo os lábios. - O que foi?

-Eu queria beijar você mas não escovei os dentes. - Abriu os olhos e voltou a me olhar. - Queria saber como é beijar uma deusa assim como você.

-Eu posso te falar que pela a minha experiência de beijar você que é ótimo. - Dei um sorriso sugestivo. - Quer provar pela segunda vez como se fosse a primeira?

-Só depois que eu escovar os dentes, Del. - Sorriu desviando seu olhar para outro ponto do quarto. - Vou te poupar dessa. 

-Eu também não escovei os meus, melhor deixar para depois mesmo. - Concordei.

-Na verdade, eu estou com medo de beijar. - Confessou. - É porque não sei se eu sei, entende?

-Entendo e tudo bem, não quero que faça nada que te deixe desconfortável. - Peguei seu rosto para me encarar. - Tudo bem? Não quero cobranças aqui, entendeu?!

-Entendi, Del. - Respondeu sorrindo. - Obrigada por tudo o que tem feito por mim, você é incrível.

-Você é mais. - Fiz carinho no seu rosto enquanto encarava seus lindos olhos. - Eu te amo.

-Se eu falar que te amo também você vai achar que é meio cedo ou que estou falando da boca para fora levando em consideração que eu perdi a minha memória? - Perguntou e antes que eu respondesse alguma coisa ela continuou. - Porque eu sinto que amo você, tipo amor mesmo. Em menos de cinco dias você conseguiu me fazer te amar de novo.

-A gente nasceu para amar uma à outra, Cos. Para nos amarmos nessa e em outras vidas e outras dimensões. - Observei seu belo rosto por alguns segundos e voltei a falar. - Então eu não acho que é cedo demais para você me amar, eu sei que me ama, os seus olhos denunciam isso.

-Eu queria poder lembrar da nossa vida. - Lamentou abaixando o olhar. - Eu tenho certeza que eu era a pessoa mais feliz do mundo só por ser casada com você. - Voltou seu olhar para mim. - Eu te amo, Delphine.

-Eu te amo, Cosima. Será que eu posso beijar a sua bochecha?

-Você não precisa pedir para fazer isso, Del. - Abriu um sorriso. - Claro que pode.

-Não quero invadir o seu espaço, meu amor.

-Beija a minha bochecha, vai. - Pediu como uma criança pidona.

Me aproximei e deixei um beijo carinhoso na sua bochecha. Fomos interrompidas por batidas na porta e quem abre é a Doutora Dias. Ela sorriu nos vendo tão próximas e disse:

-Vajo que a senhora acordou muito bem.

-Melhor impossível. - Cosima respondeu virando a sua atenção para ela. - Não tem como ficar mal com uma mulher dessas do meu lado.

-É, não tem como mesmo não... - A médica concordou e minha esposa a olhou desconfiada. - Sentiu algum desconforto ou dor durante a noite?

-Não muita, só estou um pouco dolorida.

-Isso é normal porque o seu corpo ficou parado por um semana. O fisioterapeuta virá mais tarde e te ajudará com isso. - Disse. - Posso recolher o seu sangue?

-Pode.

-Vou levantar para ficar mais confortável. - Me mexo saindo da cama.

-Fica aqui segurando a minha mão? - Cos pediu.

-Claro, meu bem. - Dei um sorriso ficando em pé do seu lado e segurando a sua mão.

Rosa se aproximou e pegou uma cadeira para sentar ao seu lado.

-Quando eu vou poder tomar um banho descente? - Cosima perguntou.

-Se o fisioterapeuta achar que já pode, a senhora está liberada. - Respondeu colocando as luvas.

-Vou poder ter uma ajudinha da minha esposa? - Cosima me encarou e deu um sorriso que eu bem conhecia.

-Bom, se a senhora não se sente confortável com enfermeiras te ajudando, acredito que não será problema ela te ajudar.

-Você aceita me ajudar a tomar banho, Delphine? Só não me ajoelho aqui porque não posso.

-Aceito. - Digo sorrindo e fazendo carinho na sua mão. - Não vejo problema em ajudar.

-Seus cuidados são tudo o que eu preciso.

Rosa tirou o sangue da minha esposa calada, acho que ela não gostou muito da pergunta sobre o banho. Não posso fazer nada, só o que posso fazer é ajudar a minha esposa a tomar banho e isso vou fazer com todo o prazer do mundo.

Eu estou feliz pelo jeito em que ela estava lidando com a situação. Cosima poderia muito bem virar as costas para o mundo e se fechar já que não lembra de ninguém, mas não, ela mostra que está interessada em saber das coisas e das pessoas.

Assim que ficamos sozinhas no quarto voltei a deitar do seu lado e meu estômago começou a roncar de fome.

-Parece que alguém está com fome. - Cos comenta.

-Não lembro qual foi a última vez que eu comi. - Apoiei minha não na barriga.

-Naquelas fotos que me mostrou não estava tão magra assim. - Comentou me analisando de cima a baixo. - Del, você tem que comer.

-Eu não me alimentei bem essa semana, inclusive você vai até brigar comigo porque eu só levei as crianças para comer MacDonalds. - Lamentei virando o meu rosto para encara-lá.

-MacDonalds... - Repetiu as palavras pensando.

-É... - Ela me interrompeu.

-Deixa eu adivinhar... tem alguma coisa haver com massa, tipo macarrão? - Me encarou pensativa.

-Não.

-Tem alguma coisa haver com pizza?

-Não, meu bem. É aquela logo do palhaço.

-Hambúrguer! - Falou numa animação contagiante que me fez até sorrir.

-Sim!

-Estranho que eu lembro mais ou menos das cores, são laranja e vermelho não é?!

-Acertou!

-Mas eu não consigo lembrar do gosto e nem nada disso, isso é muito estranho.

-Quando você sair daqui podemos ir lá, você amava, sempre pedia BigMac.

-Combinado, vamos ver se eu vou gostar pela segunda vez. - Deu um sorriso. - Del, vai lá na cantina comer algo.

-Não quero te deixar sozinha, amor. - Fui sincera, eu realmente não queria. - Já basta o tempo em que ficamos longe.

-Eu entendo, Del. Mas você tem que se alimentar e se não fizer isso eu vou ficar triste.

-Tudo bem, eu vou. - Dei um suspiro me levantando da cama.

-Estou falando para o seu bem, não quero a minha esposa doente.

Fui até a minha bolsa e a peguei.

-Tudo bem? Não fica brava comigo.

-Tudo bem, não estou. - Voltei a me aproximar dela.

-Traz algum doce para mim?! - Pediu com uma carinha de cachorro que caiu da mudança. Ela me ganha sempre assim.

-Amor... eu não sei se você pode comer doces ainda.

-Um docinho não mata ninguém, Del. - Insistiu.

-Tá bom, eu não resisto a você mesmo. - Me dei por convencida.

-Me casei com a pessoa certa. - Comemorou com um sorriso.

-É, eu faço todas as suas vontades. - Não conseguindo segurar, dei um sorriso de canto também. - Já volto. - Me inclinei e deixei um beijo na sua testa.

-Cuidado com médicas inconvenientes. - Alertou assim que eu me afastei. Eu sabia bem de quem ela estava falando. 

-Pode deixar comigo. - Pisquei para ela e saí do quarto.

Caminhei para fora do hospital com um sorriso. É ótimo saber que Cosima não tem mais risco de vida e que em alguns dias ela voltará para casa.

Assim que cheguei na lanchonete que tinha ao lado de fora, avistei Rosa sentada em uma das mesas sozinhas comendo um sanduíche. Ela parecia brava falando ao telefone.

-Eu quero um hambúrguer simples, por favor. - Pedi a atendente.

São sete da manhã e eu estou comendo hambúrguer? Sim. Eu sou mãe, eu faço as regras.

-Tá bom! Se não quer acreditar, não acredita! - Dias disse com raiva desligando o celular.

Fui até o freezer e peguei uma coca-cola. Me aproximei da doutora e resolvo perguntar:

-Posso me sentar?

-Claro, senta aí. - Respondeu educadamente.

Só estávamos nós duas ali e não tinha o porque sentarmos separadas se nos conhecíamos. Me sentei na sua frente e abri meu refrigerante.

-Está tudo bem? - Pergunto um pouco preocupada.

-Está. Só é a minha namorada brava comigo achando que estou traindo ela por estar dois dias de plantão seguidos. - Explicou dando um suspiro. - Acho que vou terminar, não posso fazer isso com ela.

-Você gosta dessa moça?

-Gosto. - Afirmou como se aquilo fosse o óbvio.

-Quer um conselho de quem já passou por isso?

-Fala, Cormier.

-Escolhe ela. Sofri por sete anos na minha vida por não ter escolhido a Cosima, eu poderia ter evitado muita coisa. Mas é aquilo, se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. - Levei o canudo até a minha boca e dei a primeira golada no meu refrigerante.

-Mas você não acha que poderia ter sido diferente também? Vamos supor que vocês acabaram a faculdade e se casaram, você continuou vivendo para o seu trabalho e ela frustada porque a esposa não dá atenção para ela. Poderia muito bem ter esfriado o amor dela por você.

-Poderia sim. Mas eu creio que não iria deixá-la ir embora. Faria de tudo para reconquista-lá. Levando em consideração que eu era jovem também, quando a gente é nova não pensamos muito nas coisas. - Dei de ombros. - Bom, é só um conselho de uma boba.

-Quem diria, eu aqui ouvindo conselhos de Delphine Cormier... - Deu uma risada. - Você foi muito cafajeste comigo.

-Eu sei, mas eu tinha deixado bem claro que não queria um relacionamento. - Tentei me defender.

-Mas não precisava sair sem avisar e não ligar no outro dia. Me senti um lixo, sabia?! E ainda caí duas vezes no seu papinho furado. 

-Você foi a primeira pessoa com quem eu fiquei depois da Cosima, três anos depois que ela se foi para ser mais exata... - Rosa me interrompeu.

-Você ficou três anos sem sexo? Não pareceu...

-Fiquei. E depois que eu fiz com você, me senti horrível...

-Nossa, obrigada! - Deu um sorriso sarcástico.

-Não, é que eu tive a sensação de estar traindo ela, não sei te explicar, mas eu tinha prometido que seria só dela e ela só minha e...

-Tudo bem, eu entendi. - Deu um sorriso me tranquilizando.

-Aqui o seu hambúrguer, senhora. - A moça do caixa o colocou na minha frente.

-Obrigada. - Sorri.

Dei a primeira mordida e quase gemi de tão bom que aquilo estava. Talvez, também pode ser porque eu estava com muita fome.

-Posso te fazer uma pergunta? - Pego um guardanapo para limpar a minha boca.

-Claro, manda aí.

-Por que ela não esqueceu como fala? Ou como ela consegue saber que dois mais dois é quatro se ela esqueceu?

-Entenda uma coisa, Del. Tem uma parte do nosso cérebro que se chama hipocampo, já ouviu falar? - Concordei com a cabeça e ela continuou. - Ele é considerado o principal local de armazenamento temporário da memória, principalmente a memória a longo prazo. Como mostra os exames que fizemos, esse foi o único local do cérebro dela afetado na hora do acidente.

-Mas ela vai ficar assim para sempre? - Pergunto com um pouco de medo da resposta. - Ela esqueceu de tudo o que vivemos.

-É possível que ela volte a lembrar sim das memórias antigas, ela acabou de acordar e o corpo dela ainda está entendendo o que aconteceu.

-Mas quanto tempo isso pode durar?

-Não temos uma resposta para isso, Del. Como eu te disse, cada paciente é um paciente, já vi casos de horas a memória voltar, casos de dias e meses, como também vi de anos. 

-Meu deus...anos... - Coloquei minhas mãos no rosto tentando processar essa informação.

-O fato dela saber que dois mais dois são quatro é porque tem um lado do cérebro, o hemisfério esquerdo, que é chamado de "cérebro acadêmico" onde é responsável pelo raciocínio lógico, fala, matemática, linhas... as coisas que aprendemos durante a vida, entende?

-Sim, entendo. 

-Por sorte, essa lado não foi afetado. Tenho certeza que se colocarmos ela fazer um cálculo do mais simples ao mais difícil ela consegue dentro dos aprendizados dela. Bom, eu falo de cálculo porque ela é engenheira, mas, por exemplo, se pedirmos para ela desenhar um círculo, ela vai saber, porque aprendeu que a forma do círculo é uma bola, grosseiramente falando.

-Entendi... - Eu estava visivelmente abalada com essas informações.

-Pensa pelo lado bom, Cosima está encarando isso da melhor maneira, ela não se fechou, não está brava com ninguém e está disposta a aprender novamente sobre as pessoas. Ela tem um coração muito bom. - Apoiou sua mão em cima da minha tentando me confortar. - Como médica eu posso dizer que ela está se recuperando muito bem, e como amiga, acredito fielmente que ela vá sair dessa rapidinho.

-Obrigada. - Meus lábios se formaram em um

sorriso. - É bom saber que você acredita nisso também.

Ela deu um sorriso e encarou meus lábios.

-Está sujo aqui. - Rosa passou o dedo delicadamente nos meus lábios limpando a sujeira. Na hora eu paralisei e senti um frio na espinha. - Pronto.

-Ah...obrigada. - Respondi de um jeito atrapalhada.

Ouvi o seu bip tocar e agradeci mentalmente porque porque o ambiente tinha se transformado completamente.

-É... o dever me chama. - Disse verificando. - Até mais tarde, Del.

-Até.

As crianças chegaram às nove em ponto junto com Félix.

-Cadê o meu beijo. - Pergunto ao vê-las entrando.

-Bom dia. - Valentina foi a primeira me abraçar.

-Bom dia, mãe. - Sophia me abraçou em seguida.

-Meu Deus...olha só para vocês. - Cosima diz chamando a nossa atenção. - Como vocês são lindas. - Dava para perceber que ela estava claramente emocionada. - Vem cá.

-A gente veio te visitar todos os dias. - Minha filha mais velha fala.

Sophia recuou um pouco e continuou abraçada comigo. Acho que ela ainda estava em choque por causa de ontem.

-Valentina. - Cosima disse aquelas palavras como se tentasse recordar dela. - Como você é parecida com a Del. - Apoiou suas mãos no rosto de nossa filha.

-É, as pessoas dizem isso. - Respondeu sorrindo.

-E você... - Cosima encarou Sophia agora. - Por que não se aproxima de mim?

-Vai lá, filha. - A encorajei.

-Sophia, eu sei que você está com medo mas eu queria muito que você confiasse em mim. - Cos começou dizendo. - Ouvi dizer que você gosta muito de desenhar.

-Eu gosto. - Soso respondeu. - A gente fazia isso juntas.

-Podemos fazer isso ainda. - Cosima respondeu.

Meu pai e Elisa chegaram à tarde e as crianças ainda estavam lá. Ela se aproximou da minha esposa e com os olhos cheios de lágrimas disse:

-Você quase me matou de susto, Cos. - Passou a mão no seu rosto e minha esposa a olhou meio confusa. - Eu sou a mãe da Delphine, querida.

-Ah que legal! Você é a minha sogra! - Disse de um jeito fofo porém engraçado nos fazendo soltar uma gargalhada.

-Sim, eu sou. - Elisa respondeu. - Você nos deu um susto, mocinha.

-Ainda não estava pronta para deixar Delphine viúva, ela é muito bonita para ficar sozinha. - Brincou dando um sorriso. - Delphine me contou que você e o pai dela estão ajudando a cuidar das nossas crianças nesses dias, obrigada.

-Não precisa agradecer, querida. - Apoiou a mão em cima da dela. - Tudo o que importa é que você está bem e se recuperando cada dia a mais.

-Eu penso que tive mais uma chance de ver pela primeira vez de novo tudo o que para mim era comum. Isso é maravilhoso! - Seus olhos se encheram de lágrimas também. - Hoje parece o dia mais feliz da minha vida porque eu vi o rostinho das minhas filhas que eu esqueci como que era.

-A vida está te dando outra chance, Cos.

-Delphine, podemos conversar lá fora? - Meu pai pergunta com as mãos no bolso.

-Claro. Já voltamos. - Avisei.

Saímos e fomos caminhando para fora do hospital, o clima agora já estava mais quente e o sol raiava no céu.

-Delphine, você tem que estar na empresa em quarentena minutos. - Disse e eu o olhei confuso. - Marco Antônio estará lá.

-O que? - Pergunto não acreditando muito.

-Tem quase duas semanas que você não bota o pé lá. Furou reuniões e alguns clientes não gostaram da sua atitude.

-Como você queria que eu fosse para lá se a minha esposa estava aqui entra a vida e à morte? - Cruzei os braços.

-Mas agora ela acordou e já está bem. Você precisa ir lá conversar com ele e ver o que Marco Antônio tem para dizer.

-Ele é o cara mais chato e sem noção que existe no mundo, pai. - Bufei.

-Bom... ele é bilionário e dono de três empresas, talvez ele possa fazer uma proposta boa. E, também tem muitos documentos que você tem que assinar que estão lá. - Apoiou a mão no meu ombro. - Cosima está bem, Del. Se eu pudesse fazer isso por você, com certeza faria, mas ele pediu para falar com você.

-Tudo bem. - Respirei fundo massageando minhas têmporas. - Vou ir lá resolver isso.

-Você sabe que eu sempre estou aqui, não é?!

-Eu sei, pai, e sou extremamente agradecida por isso. Só tenho que ir em casa tomar um banho e colocar uma roupa mais formal. 

-Vem cá, minha pequena. - Abriu os braços e eu o abracei. Eu precisa de forças mas estava tão cansada. Não vejo a hora disso tudo voltar ao normal.

Voltamos para o quarto e elas estavam lá rindo de algo que Valentina tinha dito. A atenção foi para a gente.

-Eu tenho que ir resolver umas coisas no trabalho. - Falei indo em direção a minha bolsa.

-Está tudo bem? - Cosima perguntou um pouco preocupada.

-Está sim. - Me aproximei dela. - É que tem um tempo que não vou lá e você sabe...eu preciso.

-Tudo bem. - Deu um sorriso meigo. - Você consegue voltar antes para a minha primeira consulta com o fisioterapeuta?

-Eu vou tentar, Cos. Prometo. - Apoiei minha mão em cima da sua dando uma apertadinha.

-Nós vamos estar com você, mãe. - Nossa filha mais velha disse.

-É, vamos te ajudar! - Sophia acrescentou.

-Obrigada, crianças. - Minha esposa sorriu para elas.

-De qualquer forma, eu volto para dormir com você. - Me aproximei e deixei um beijo na sua testa. - Tchau.

-Tchau.

Me despedi das minhas filhas com um beijo na bochecha e saí indo em direção a minha casa. Coloquei uma música calma no ambiente tentando aliviar, em vão, a tensão. Eu estava muito cansada mentalmente e fisicamente.

Primeiro foi as brigas diárias que tive com Valentina, depois, briguei com Elisa e descobri que ela não é a minha mãe biológica e agora isso acontece com a minha esposa. Ela era a única que segurava a minha barra. Sinto que estou desmoronando aos poucos.

Tomei um banho rápido assim que cheguei e resolvi colocar uma calça social preta com um blazer. Alisei meus cabelos rapidinho, passei um rímel nos olhos e para finalizar um batom vermelho. Eu tinha que estar no mínimo apresentável já que não piso na empresa vai fazer duas semanas.

Cheguei lá e todos me olhavam com certa compaixão, eles sabiam o que tinham acontecido com a Cosima e sempre me mandavam mensagem perguntando como ela estava. Fico feliz que tenho uma equipe ótima de profissionais. Dei uns acenos para o pessoal que eu via no corredor e segui direto para o elevador para o meu andar. dei um suspiro e saí daquela caixa metálica indo para o balcão da minha secretária.

-Boa tarde...quase noite. - Olhei meu relógio de pulso.

-Senhora Cormier! - Ela deu um sorriso enorme ao me ver ali. - Como é bom ver a senhora.

-Meu pai é rabugento quando quer. - Dei um sorriso também. Por experiência própria, eu sabia que o meu pai se transformava no trabalho. Ele dizia que para ter uma ótima empresa, tinha que ser distante de seus funcionários. Eu já penso diferente, para mim, o segredo do sucesso começa com uma ótima convivência com os funcionários.

-Posso te dar um abraço? - Perguntou. Bianca é a menina mais carinhosa que eu conheço, ela tem vinte e cinco anos e trabalha comigo desde os dezenove.

-Pode. - Ela deu a volta no balcão e me abraçou com um abraço carinhoso. Não tinha maldade e nem nada disso, na verdade, a gente tem uma relação mais fraternal. Trabalhamos muito tempo juntas.

-Eu sinto muito pelo o que aconteceu com a sua esposa, eu rezei por ela todos os dias. - Ela se afastou para me encarar.

-Obrigada, Bianca. - Sequei uma lágrima que escorreu no canto dos meus olhos. Não sei o porque mas ultimamente tenho estado bastante emotiva.

-Como ela está?

-Está bem agora, esqueceu de tudo mas aos pouquinhos está se recuperando bem. - Falei. - Um dia após o outro né?!

-Pois é. - Concordou. - Acredito que ela vai ficar boazinha rapidinho, você vai ver! A senhora sua esposa é forte.

-Ela é. - Dei um sorriso colocando minhas mãos no bolso. - Bom, vou para a minha sala e o que precisar pode me chamar. Leva para mim as coisas que preciso assinar e analisar, por favor. - Vou me afastando para a minha sala. - E um cafezinho também!

-Senhora Cormier... - Ela vai atrás de mim para tentar falar algo. Mas, quando abro a porta da minha sala tive uma surpresa.

-Marco Antônio. - Digo chamando a sua atenção. Ele estava parado de costas olhando pela grande janela à paisagem lá fora.

-Delphine Cormier.

-Esqueci de avisar, desculpa. - Bianca fala arrependida.

-Não se preocupe, tudo bem. Traga café para ele também.

-Ok, com licença.

Ela se afastou e eu fechei a porta seguindo em direção a minha mesa para deixar minha bolsa lá.

-Você tem uma ótima vista daqui. - Comentou ainda com as mãos no bolso.

-Sou privilegiada. - Digo. - A que devo essa visita?

-Seu pai disse que estava fora por um tempo. - Finalmente ele me encarou.

-É, tem acontecido muitas coisas. - Dei um suspiro me apoiando na mesa.

-Você parece cansada. - Ele veio se aproximando.

-Você não sabe o quanto. - Ele me analisou por alguns segundos e disse:

-Nunca mais respondeu meus e-mails, senhora Cormier.

-Como eu disse, tenho andado ocupada.

-Tudo bem...

-Eu não quero ser inconveniente, mas por que está aqui?

-Por que não marcamos um jantar? Eu posso te contar melhor. - Pegou a minha mão para beijar mas eu a afastei rápido.

-Você sabe que eu sou casada, Marco Antônio. Mais respeito.

-Só estou sendo educado, Cormier. - Ele se virou e começou a andar para perto da janela novamente. - Você nunca me deu uma chance na faculdade. Imagina só, a gente juntando as empresas, nos casando e tendo filhos. - Virou de novo para me encarar.

-Eu não vou imaginar porque eu já sou casada e tenho duas filhas. E eu não estou aqui para falar sobre vida pessoal, o que o senhor quer?

-Vim dar um oi e falar que estou abrindo uma cede aqui. - Ele veio se aproximando novamente. - Você não quis se unir comigo, agora vamos ver se aguenta contra. E diga ao seu papai que quando isso daqui for a falência, irei fazer questão de comprar e trocar para o nome do meu pai que ele tanto amava. - Deu um sorriso debochado.

-Você não aguenta uma briga de cachorro grande, Marco. Estou mais tempo nisso do que você, eu forneço para mais de 60% da cidade.

-Você não sabe do que eu sou capaz, Cormier.

-Com licença. - Bianca bateu na porta e entrou com os cafés.

-Obrigada. - Sorri assim que ela me entregou. - Não, não. Para ele não precisa. Marco Antônio já está de saída.

-Se cuida, Delphine. - Ele colocou as mãos no bolso novamente. - Depois só vou aceitar as suas desculpas se se ajoelhar para pedi-las.

-Não se preocupe, isso não irá acontecer. - Sorri e acenei um tchau com a mão.

Aquele homem insuportável saiu da sala e ficamos só eu e Bianca.

-Qual é a dessa cara?

-É um maluco que me atenta desde a época da faculdade, ele não consegue superar o fato de eu não querer ele. - Dei a volta na minha mesa e sentei em minha cadeira. - Pode ficar com o café.

-Obrigada, Del. Vou trazer os documentos que a senhora pediu.

-Ok.

Liguei o meu computador e comecei a trabalhar. Antigamente eu fazia isso para tentar distrair a cabeça e esquecer um pouco do mundo, hoje isso já não faz mais sentido e parece um fardo pesado.



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