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História 826 notas de amor para Emma- Garth Callaghan - Capítulo 3


Escrita por:


Capítulo 3 - Capítulo - 2



2.
Se Deus lhe enviou um caminho
cheio de pedras, Ele lhe dará sapatos
resistentes. — Ditado irlandês

 


SANGRIA VERMELHA
Mais uma vez, eu a perdi de vista. Eu corria, mas ela era mais
rápida. Eu tinha que me manter na trilha, mas ela se atirava entre
árvores e arbustos. Não conseguia alcançá-la. A trilha era desigual e
desnivelada. Eu corria para cima, para baixo, direita, esquerda, em
meio à sujeira. O sol da tarde me alcançava através das folhas
amareladas e vermelhas. Minha esposa e vizinhos estavam bem atrás
de mim, mas todos nós gritávamos o seu nome. Eu fazia o melhor que
podia para correr à frente, mas já sentia falta de ar. Estava assustado.
Ela nunca ficou sozinha assim, com tanta liberdade. Eu tinha que
mantê-la no meu campo de visão.
Acampávamos — uma atividade que, particularmente, não gosto.
Durante uma caminhada com nossos amigos, nossa cachorra Noel saiu
correndo atrás de alguma coisa e sumiu. Nós a tínhamos resgatado há
menos de um ano de um abrigo para animais de estimação em que ela
estava há 59 dias. Esse abrigo do município, nas proximidades, não
tinha a política do “não matar”. Portanto, depois de 60 dias, os animais
eram sacrificados. Ela foi salva desse destino por causa de um grupo
de resgate aos animais, o FLAG (For The Love of Animals in
Goochland [Pelo Amor dos Animais de Goochland]). Noel mal
parecia um cachorro quando a encontramos. Era só pele e osso. Sua
pelagem estava desigual e escassa.
Ela claramente ficou sozinha por um tempo. Era arisca com
pessoas e aparentava ter um medo mortal de mim. Lissa e Emma
tinham certeza: Noel era a cachorra que precisávamos salvar.
Eu não queria outra cachorra em casa. Lucy era a minha
cachorra. Eu a escolhi e amei por treze anos — minha mistura de
rottweiler com pastor-alemão. Lucy morrera apenas quatro meses
antes de Lissa e Emma armarem uma cilada para mim, com imagens
de cães resgatados.
Continuei correndo, mesmo que meus pulmões estivessem a
ponto de explodir. Bailey, a golden do vizinho, estava junto com Noel e
eu pude ver uma bola amarela de pelos um pouco à frente. Tudo que
esperava é que Noel não estivesse tão à frente dela.
Finalmente, vi as cachorras, algum cheiro fez a alegria delas.
Consegui alcançá-las e colocar a coleira de volta em Noel. Soltei um
grande suspiro de alívio, agradecido que o resto do nosso fim de
semana não seria gasto vagando pela natureza, na expectativa de
trazer, de alguma maneira, Noel para casa.
Nossos vizinhos, Mike e Sheryl Bourdeau, haviam nos convidado
para acampar, uma última fuga antes do outono começar. Pelo menos
acampávamos em cabanas e não em barracas. Eu encarava muito
melhor uma cabana do que dormir no chão. Celebrávamos o
aniversário de Sheryl e, naquela noite, Mike tinha planejado um
fantástico jantar com grelhados. Brindamos à aniversariante com
vinho tinto e comemos cupcakes gourmet. Jogamos alguns jogos e
aproveitamos a companhia uns dos outros. A noite chegou ao fim
rapidamente. Quando me preparava para deitar, precisei usar o
banheiro. Enquanto estava em pé fazendo xixi, olhei em choque. Minha
urina estava vermelha como sangria.
Não imaginava quais eram as causas daquilo. Não havia dor. Não
havia nenhum outro indício de que houvesse alguma coisa errada
comigo.
Comecei a surtar.
Encontrei Lissa e contei o que havia acontecido. Peguei meu
smartphone e tentei procurar por alguma explicação. Mal havia sinal.
Saí para a varanda da cabana, segurando meu telefone acima da
cabeça e o inclinei no ângulo exato para conseguir algum sinal. Sangue
na urina é chamado de “hematúria macroscópica”. Li sobre algumas
possíveis causas. Ao fim de uma lista assustadora, havia duas causas
que eu e Lissa desejávamos ser a resposta: exercícios vigorosos e uma
excessiva quantidade de beterrabas. Além de ter corrido um pouco,
mais cedo, tentando alcançar Noel — um tipo de exercício que não faz
parte da minha rotina normal —, dentre os deleites de aniversário de
Shery l havia um cupcake vermelho, de uma loja gourmet. Embora
isso não tenha passado pela minha cabeça, Lissa sugeriu que a loja
pudesse ter usado suco concentrado de beterraba para dar cor ao
cupcake. Nós nos acalmamos o suficiente para dormir, com a
esperança de que fosse somente um caso esporádico e não alguma
coisa com o que realmente se preocupar.
A excursão do acampamento terminou sem outros incidentes, e
eu estava quase que despreocupado com o que ocorreu. Fomos para
casa e retornamos à nossa vida normal, até eu ver sangue na minha
urina novamente, no dia seguinte. Embora eu não seja do tipo que se
aflija com pequenas coisas, percebi que deveria ir ao médico para
checar isso. Marquei uma consulta com meu clínico geral, o dr.
Morgan.
Depois de fazer exames de rotina, o dr. Morgan informou que
tudo estava em ordem, com exceção da minha urina. Ele disse:
— Pode não ser nada. Mas pode ser alguma coisa.
Então, ele quis que eu visitasse um urologista em Virgínia para
falar com um especialista. Quando deixei seu consultório, ele me disse
que, caso eu não conseguisse marcar uma consulta rapidamente, eu
deveria ligar para que ele agilizasse o cronograma.
Felizmente, consegui para o dia seguinte. Encontrei o dr. Tim
Brandford por acaso. Seguimos os mesmos procedimentos que haviam
sido tomados com o dr. Morgan, e percebi que o dr. Brandford usou a
mesma frase descomprometida: “Pode não ser nada. Mas pode ser
alguma coisa”. (Ensinam essa frase nas faculdades de medicina? Para
usar quando você não tem a menor ideia com o que está lidando? Isso
deveria acalmar o paciente? Se sim, não estava funcionando.) Ele
terminou com “Vamos marcar uma tomografia computadorizada”.
Ele queria excluir a possibilidade de algo mais sério, pois achou que
talvez estivéssemos lidando com pedras nos rins ou alguma coisa
menos preocupante.
Dois dias depois, eu me preparava para a minha primeira
tomografia. O processo parece padrão. Beba uma bebida branca
nojenta chamada “contraste” às 21h, na noite anterior ao exame. Beba
de novo uma hora e meia antes do exame. Não use metal. Beba mais
contraste enquanto espera no consultório. Esse processo me deixou
tranquilo. Não tive tempo para ficar nervoso ou preocupado. Eu
achava que fazer uma tomografia estava para além do diagnóstico
procurado.
A parte engraçada do exame foi a conversa que tive antes de
começar. Deitado sobre a mesa de metal, eu esperava para ser
inserido no tubo.
— Você já fez uma tomografia antes? — a técnica me perguntou
calmamente. Balancei a cabeça em tom de negativa. Um leve sorriso
se abriu no rosto dela. — Ok. Você será colocado na máquina uma vez.
Escute as instruções e respire quando for instruído. Na segunda vez, nós
ligaremos o contraste. Alguns pacientes sentem um gosto levemente
metálico em suas bocas. Depois disso, você sentirá como se tivesse se
molhado. Não se preocupe. Não é real.
E sabe de uma coisa? Ela estava certa.
Essa pequena conversa é parte do processo. Definir as
expectativas para que o paciente não surte quando sentir como se
tivesse feito xixi nas calças. Ouço as mesmas palavras toda vez.
A tomografia não durou muito e, antes que percebesse, eu já
estava a caminho de casa. Agora, só me restava esperar. Seriam cinco
dias até que os resultados ficassem prontos. Como eu não estava muito
preocupado com eles, consegui me focar em outras coisas. Minha
empresa teve um projeto de fim de semana para um escritório de
advocacia local. Houve um evento de caridade envolvendo brinquedos
para crianças ao qual compareci. Mantive-me ocupado e esperei para
encontrar o médico.
 


...............................
Novos começos chegam, muitas vezes,
disfarçados de finais dolorosos.
— Lao Tzu
...............................

 


Enfim chegou a hora de encontrar o dr. Brandford. Minha
consulta era bem antes das três da tarde, e Lissa precisava pegar
Emma na escola. Sozinho, sentado no consultório, meu calcanhar batia
no chão nervosamente. Eu achava que, provavelmente, tudo estava
bem, mas ainda assim não gostava de estar ali.
Apenas me dê meu atestado de saúde ou uma recomendação para
me exercitar mais e eu posso seguir meu caminho.
Não foi esse o caminho.
Dr. Brandford entrou. Olhamos a minha tomografia, e os
próximos 45 minutos foram um borrão. Ouvi palavras como “tumor” e
“doze centímetros”. Ouvi “biópsia” e “É grande o suficiente, teremos
de tirar isso de você de qualquer modo”. Então, “A taxa de mortalidade
é bem alta para câncer de rim que se espalhou”.
Meu cérebro não conseguia entender o que estava sendo dito.
Pelo amor de Deus, eu deveria ter pedras no rim ou algo assim. Lissa
sequer estava comigo porque não era para isso ser sério!
Tudo que eu sabia era que o dr. Brandford estava marcando
alguns exames adicionais para verificar o que exatamente estava
acontecendo em meu corpo. Fui para casa com uma névoa. Embora
soubesse que ele dissera um monte de coisas diferentes e discutira
diversos resultados, tudo o que escutei foi “Sr. Callaghan, você vai
morrer”.
Enquanto dirigia, minhas mãos seguravam o volante com força.
Eu sabia que deveria ligar para Lissa. Prometi que daria notícias assim
que terminasse. Mas não era algo que eu conseguiria explicar por
telefone. Precisava dar a notícia pessoalmente.
Dirigi mais rápido, temendo chegar em casa e desesperado para
ver Lissa. Mas quando entrei na garagem, ela estava vazia. Onde
estavam todos? Elas sabiam que eu precisava delas?
Sou uma pessoa paciente, mas, ainda assim, tenho meus limites.
Enquanto andava pela cozinha, meu telefone tocou. Lissa. Elas
estavam a caminho de casa. Não deveria ter atendido meu telefone.
Sabia que Lissa perguntaria coisas, mas eu não sabia mais o que fazer.
Ela era minha salvação e eu sentia como se estivesse afundando. Eu
estava nervoso só de ouvir sua voz.
— Como foi a consulta? — ela perguntou. Eu quase conseguia vê-
la em minha mente, a avenida em que estava, cuidadosamente
dirigindo nossa minivan, Emma no banco de trás. A normalidade que a
envolvia.
Tudo estava prestes a desmoronar em torno dela. Antes de eu
conseguir evitar, pensar em alguma coisa para enrolar até ela chegar
em casa, disparei: “Estou com câncer”.
No que eu estava pensando? E se ela sofresse um acidente porque
se distraiu com essa notícia terrível? Mas eu não estava pensando
direito. Estava desesperado. Chocado. Precisava de alguém para me
ajudar a processar tudo isso.
Elas chegaram em casa alguns minutos depois. Lissa conduziu
Emma até a cozinha para fazer um lanche, então ela me encontrou no
quarto, no andar de cima, e nos abraçamos fortemente. Havia tantas
perguntas, e eu, realmente, não tinha nenhuma resposta.
Sim, o médico tinha certeza de que era câncer.
Sim, provavelmente, terei de operar.
Sim, tem que ser retirado do meu corpo mesmo que seja um
tumor benigno. Tinha envolvido meu rim.
Sim, parece que se espalhou.
Não, nós não sabemos as causas.
Não, eu não sei o que fazer.
Sim, eu estou em perigo.
Sim, eu estou assustado.
Não, eu não sei como contar a Emma.
 


Lição 11:
APRENDA AS FUNÇÕES BÁSICAS DE UM CARRO.
Eu não aprendi a dirigir até estar no último ano da escola. Embora
meu pai tenha me levado em sua caminhonete para uma estrada
secundária anos antes, eu não tinha muita prática. Eu até podia dirigir
bem e seguir as regras de trânsito, mas ainda não me sentia muito
seguro com os carros. Eles eram bem estranhos para mim.
Em um fim de semana, eu me armei de coragem para perguntar
a uma garota se ela gostaria de ir ao drive-in
1 do vale Brook. Embora
Heidi tenha dito sim, ela perguntou se poderia levar uma amiga.
Estranhei, mas eu realmente queria passar mais tempo com ela, então
concordei. Busquei as garotas e fomos.
Aquele era um drive-in antigo, com alto-falantes em postes e
parquinho para as crianças brincarem antes de escurecer. Assistimos
ao filme e nos divertimos bastante. O problema começou na hora de ir
embora. Dei partida na caminhonete velha do meu pai, um Ford
modelo F-100 Stepside. Pisei no acelerador, mas a caminhonete não se
moveu. O que estava acontecendo? Eu não tinha experiência suficiente
para solucionar o problema, então engatei a ré. Talvez estivesse preso
em alguma coisa. Nós movemos um pouco, mas não fomos muito
longe nem com alguma velocidade. Tentei balançar o caminhão,
trocando as marchas. Consegui mexer um pouco de terra. Também
ralei em um dos postes de alto-falante e uma luz traseira. Foi
fantástico. Que jeito de impressionar seu encontro!
Caminhei até o telefone público e inseri uma moeda para ligar
para casa. Falei para o meu pai o que estava acontecendo.
Ele escutou cuidadosamente e me disse o que fazer. Eu deveria
seguir suas instruções rigorosamente.
— Volte para o caminhão, pegue uma lanterna e abra o capô.
Olhe para a área do motor por alguns minutos e finja que você sabe o
que está fazendo. Feche o capô com confiança e volte para dentro do
caminhão. Dê partida e abaixe o freio de mão. Leve as garotas para
casa, e você pode substituir a lanterna traseira amanhã.

 

Obrigada, pai...



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