História A Adorável e Insuportável Eleonora - Capítulo 7


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Palavras 3.472
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 7 - O Pato e a Verdadeira Eleonora


Fanfic / Fanfiction A Adorável e Insuportável Eleonora - Capítulo 7 - O Pato e a Verdadeira Eleonora

O som foi um tremendo estrondo. Ressoou pelo meu quarto mas eu consegui ouvir a uma distância muito maior. Eu não entendia o porque minha mãe queria que eu saisse dali. Era o meu próprio quarto. Por que ela queria ficar sozinha nele?

Eu nunca esqueci aquele som.

Foi o pior de todos os que eu já tinha ouvido. Aquele barulho selou o meu destino, acabou com o meu futuro e me transformou na mulher que sou hoje.

A angústia desesperadora.

Já teve a sensação de que algo terrível aconteceria e seu estômago embrulhasse? Ou sua pele sentira um arrepio e seu corpo ficaria gelado? Era a mesma sensação. Era a pior sensação. Ela me consolava. Eu precisava me recordar de algo pior. Pior do que agora. Pior do que esses olhares julgadores.

Eles todos olhavam para mim. Julgada. O burburinho começara.

-S-senhorita.....

-...............

- Eu ouvi isso mesmo? Ora sua....

-...............

- Que absurdo! Ela falou isso mesmo?

-...............

- Impressão de vocês, se acalmem!

-...............

- Parem com esse barulho, estão em minha casa e aqui não é salão de festas!

-...............

- Quietos! Deixem ela falar! Senhorita Eleonora, as palavras que sairam de sua boca....são reais ou ouvimos coisas?

-...............

- Que falta de noção e educação! Ela ofendeu a senhora Do Carmo!

-...............

- Essas crianças mal-criadas!

-.................

- Alguém faça alguma coisa! Senhora Do Carmo, não deixe barato!

-..................

- Parem com esses burburinho, deixem a garota se explicar!

-..................

- Senhorita Eleonora, como explica isso?

- Eu........

- Senhorita Carmem, não vai fazer nada com relação a sua afilhada? A senhorita deveria intervir!

- Não, não, farei, concordo com ela.

- O QUE? QUE ABSURDO! CONCORDA COM ELA?

- Concordo, mas vocês não entenderam o que Eleonora quis dizer. Er....ela quis dizer que as vagabundas eram as prostitutas que agridem a moral da senhora Do Carmo ao se envolverem com seu marido. Não é mesmo Eleonora? Você quis dizer isso certo?

O olhar súplico de Carmem era quase avassalador. Minha verdadeira vontade era me revelar ali mesmo. Para todos. Era dizer que eu achava a senhora Do Carmo  vagabunda por agredir uma mulher e simplesmente ignorar a indecência do marido. Minha vontade era dizer que todos eram um monte de bosta que só se importavam com aparência, dinheiro e status. Eu diria isso em bom tom e sairia dali com honra e orgulho. Faria minhas malas e fugiria. Mas para onde eu iria? Seria expulsa da minha casa, com certeza. Meu pai não me deixaria ficar. Eu sabia que eu era covarde. Talvez Carmem não fosse a única covarde.

- S-sim. F-foi exatamente isso. M-me desculpem.

- QUE SUSTO!

- Minha nossa. Por um momento achei que a senhorita Eleonora era uma mulher leviana.

- Nunca mais diga tais palavras, senhorita. São muito feias. Mas concordo com elas.

- Sim e como! Essas mulheres de bordel são vagabundas e deveriam ser presas sim.

- Senhorita Eleonora, eu deveria lhe agradecer por isso. Muito sensata.

Ódio e raiva eram meus únicos sentimentos. A víbora da Carmem conseguiu contornar toda a situação novamente. Todos os idiotas se convenceram com suas palavras. Olhei para o lado e Nicholas estava impassível, não reagia. Parecia que nem em meus olhos ele queria encarar. Eu tinha certeza que como ele era moderno e aparentemente, uma boa pessoa, jamais compactuaria com tal violência com as mulheres. Provavelmente ele pensa que agora eu sou uma pessoa muito mais deplorável do que antes. Depois de alguns minutos, quando o assunto em questão tinha finalmente terminado, algo realmente inesperado aconteceu. Nicholas se aproximou de mim e me disse calmamente em meu ouvido:

- Vamos dançar?

- O que? M-mas....ninguém está....

- Sim, o jantar termina em cinco minutos e finalmente os Alencar permitirão uma dança calma. Eles odeiam barulhos.

- Bom....t-tudo bem.

Quando o sinal para o início da dança tocou, vários casais se levantaram da mesa de jantar e se propuseram a seguir a sinfonia da música no salão. Nicholas segurou minhas mãos e eu pude presenciar o olhar iluminador que Carmem me jogou com esse gesto terno do meu futuro marido. Tentando ignorar o arrepio estranho que senti quando os lábios de Nicholas se aproximara do meu ouvido (O que foi isso, afinal? Devo estar necessitada mesmo de sexo para me sentir assim com o pato), eu sabia que algo ruim estava para acontecer. O olhar de Nicholas não era o mesmo, quero dizer, ele sempre me olhou de forma indiferente, mas agora seu olhar era mais penetrante e parecia declamar um certo ódio pela minha pessoa.

- Por que não desiste desse casamento?

- C-como?

- Eleonora...eu não sinto algo a mais por você. Por que não desiste? Quer tanto assim minha herança? Viver infeliz ao meu lado? Trocaria felicidade por dinheiro? Vamos ser francos um com o outro.

- M-mas....por que está falando isso agora?

- Por que? Bom, eu simplesmente não suporto mulheres que gostam de humilhar outras mulheres. Concordar com aquele absurdo da senhora Do Carmo, simplesmente me convenceu que você não merece nem o meu respeito e minha compostura.

- B-bom, eu....

- Você sempre gagueja, sempre, mas falou em alto e bom som sobre algo que eu acho totalmente deplorável. A senhora Do Carmo carrega sempre pares de chifres e ignora o fato do seu marido ser o maior culpado da situação toda.

- N-não falei por mal, e-eu....

- Falou sim, ou quer tentar se encaixar na sociedade. Não sei como você pode estar tão desesperada assim por dinheiro. Você é bonita, Eleonora. Alguns dizem que você é adorável, mas o que fez hoje realmente me decepcionou. Por um momento, achei que você era gaga ou tímida demais. Vejo que eu estava errado. Você é interesseira.

- M-mas N-nicholas....

- Pare de gaguejar.

- Não sei o que dizer.

- Por Deus, eu me sinto o pior dos homens quando estou do seu lado. Você nunca tem opinião própria? Você sempre concorda com o que os outros falam? Você não tem uma personalidade afinal? O que quer da vida, Eleonora? Vamos, me diga. Sua madrinha te pediu para dizer aquilo da senhora Do Carmo, não foi? Você simplesmente obedeceu por que quer muito se encaixar na sociedade, não é mesmo?

- E-eu....n-não sei.

- Nunca quis perder a compostura com uma dama. Mas eu realmente não entendo como pode existir alguém assim, Eleonora. Você não consegue dizer nada mais sobre você mesma?

- E-eu.....não.

- Ótimo. Preciso ir.

Eu sabia.

Obviamente na mente de Nicholas eu era uma imbecil por concordar com o absurdo da senhora Do Carmo. Provavelmente, ele pensara que eu não tinha nem capacidade para julgar alguém por mim mesma e apenas obedeci as ordens de Carmem. Olhando envolta notei que eu estava sozinha e percebi que Nicholas chamou outra dama do salão para dançar. Enquanto eu tentava encontrar algum lugar para sentar, só conseguia assistir meu futuro marido rodopiando com outra dama. Muito mais bela e com mais personalidade que eu provavelmente.

- Eleonora, onde está Nicholas? Fiquei radiante quando o vi te chamando para dançar, mas agora você está aqui sozinha, o que aconteceu?

- Pode brigar comigo, Carmem. Solte sua raiva.

- O que? Como assim?

- Pela burrada que eu fiz no jantar.

- Aquilo? Ah, não se preocupe. Eu contornei a situação se você não percebeu.

- Sério mesmo? Você é sempre tão exigente e sempre pega no meu pé. Não vai me dar um sermão?

- Não. Tudo acabou bem. Mas onde está Nicholas?

- Carmem....

- Estou vendo ele! Mas....o que significa aquilo? Quem é aquela mulher?

- Carmem....pare....está falando alto!

- Mas que audácia! Como ousa dançar com uma dama que não é sua noiva?

- Carmem!

- Mas, OLHE! OLHE O QUE ELE ESTÁ FAZENDO!

Eu olhei. E foi estranho.

Nicholas estava beijando aquela mulher. Obviamente eu não me importei com o que vi. Nicholas era apenas um pato. O pobre coitado foi forçado a se casar comigo e estava destinado a me sustentar. Ele poderia beijar quem ele quisesse. Depois do casamento, eu fugiria com um amante. Ele pode beijar essa dama e todas as outras do salão. Estou bem com isso.

- NICHOLAS MONTENEGRO, PARE AGORA MESMO! NÃO TEM VERGONHA NA CARA? SUA NOIVA ESTÁ AQUI!

Enquanto eu olhava ao redor, notei que todos os casais que estavam deslizando em sintonia com a música se assustaram com os gritos de uma suposta mulher. Carmem iniciou seu escândalo decretando e carimbando totalmente a minha vergonha. Nicholas apenas a olhou violentamente.

- Senhorita Carmem, já que está fazendo um escândalo no meio de tantas pessoas, posso dizer a todos que eu fui obrigado a ser noivo da senhorita Eleonora. Como temos platéia, eu não quero mais mentir. Vejam bem queridos amigos, essa mulher e meu pai me obrigaram a me casar sem amor. E se vocês me viram do lado dessa senhorita, provavelmente é porque eu estou sendo forçado a fazer algo que não quero.

- ORA COMO OUSA! OLHE PARA A ELEONORA! ESTÁ FAZENDO ELA CHORAR!

Chorar? Como assim? Eu não estou chorando. Carmem está louca? Ela perdeu totalmente o juízo e a noção. Eu jamais choraria em uma situação como essas. Eu não estava depositando sentimentos nesse plano. As pessoas iriam considera-la uma pirada. Carmem chutando de vez a sua reputação. Olhei para Nicholas e de repente eu senti seus olhos ficarem com um tom de compaixão como eu nunca vi antes.

- Me perdoe senhorita Eleonora. Eu não queria fazê-la passar por isso, mas não posso continuar concordando com esse casamento sem sentir amor. Eu não....queria....que ficasse assim....

- Ficasse como? Eu não....

Mas o que? O que era isso?

Coloquei a mão em meu rosto e notei que estava molhado. Mas quando isso aconteceu? Eu não conseguia me lembrar. Eu não conseguia entender. Eu estava chorando. Chorando de verdade. Por que eu estava me sentindo assim? O que estava acontecendo comigo? Primeiro eu chorei quando Nicholas colocou o anel em meu dedo e agora estou chorando porque ele disse que me desprezava? Não, eu estou errada. Estou louca. Não sei o que está acontecendo. Não foi essa a razão desse misto de emoções. Com certeza, era um choro de raiva e ódio. Com certeza era isso.

- C-com licença...

Corri.

Corri até onde meus pés conseguiam. Chorava compulsivamente. “Eleonora, por que está chorando?”, “Patética”, “Você é ridícula”. Sim, eu me sentia a pior das mulheres, mas não conseguia entender minhas emoções. Eu era tão alegre, forte e feliz em Campinas. Amada, adorada e cheia de amigos. Aqui eu me sentia sozinha e infeliz. Eu queria ser feliz, eu precisava dessa felicidade. Eu necessitava demais disso. Eu queria voltar a ser como eu era. Eu queria demais.

- Eleonora, volte aqui!

- Carmem, sua bruxa, me deixa em paz!

- Fique calma! Acho que sua encenação deu certo.

- Não consigo, não quero, não consigo mais!

- Não consegue o que? Ouviu o que eu disse? O pai de Nicholas está dando a maior bronca nele e todos no baile estão recriminando a postura do rapaz, isso é ótimo pra gente.

- Eu não posso. Não posso engana-lo desse jeito.

- Pare com isso! Você está indo muito bem Eleonora.

- Você não entende.

- Não entendo mesmo. Já falamos sobre isso antes. Você está parecendo um disco arranhado, qual é o seu problema?

- Não sei. Não sei.

- O que aconteceu com você? Onde está a garota decidida que treinei semanas atrás?

- Eu me sinto sufocada e triste. Estamos passando dos limites.

- Bobagens. Cresça Eleonora. Estou cansada dos seus chiliques de moral.

- Fui desprezada duas vezes em público! Isso nunca aconteceu comigo! Você não entende?

- Bom pra aprender a viver com o lado ruim da vida, Eleonora. Nós seres humanos sempre seremos desprezados uma vez ou outra. Não se preocupe, o senhor Montenegro dará um jeito na situação.

- Eu quero ir embora!

- Nem pensar! Nicholas vai pedir perdão e terá que ser em público!

- Adeus, Carmem!

- Onde está indo? Eleonora! Onde vai?

- Para onde mais? Para sua casa!

- Mas nosso carro só chega no fim da noite!

- Não importa, vou pedir uma carona. Ah e é minha especialidade Carmem! Pedir carona para estranhos, eu fazia muito isso em Campinas para me divertir.

- Maluca, está doida? Aqui é a capital. Não pegue qualquer carro! Volte aqui, Eleonora!

Eu já estava longe.

Entrei em um carro qualquer e apenas disse “vá logo”. Não olhei para os olhos do motorista, mas ao que me parece, não era confiável. Senti um arrepio quando notei que ele me olhou de forma muito estranha. Um sorriso maligno e enigmático. Eu estava sendo doida, mas pelo visto isso não era novidade. Eu queria ser apenas eu mesma. A velha Eleonora, a terrível sedutora. Homens que me amavam e me davam tudo. Quem era Nicholas Montenegro para me desprezar afinal? Ele não me conhecia de verdade. Nunca iria me conhecer. E eu nem me importava com isso.

“Nicholas Montenegro é bom nos esportes, educado, conhecedor de literatura. Já leu mais de mil livros. Um verdadeiro cavalheiro”.

Quem se importa com o que ele é?

“Você não merece um homem como ele, Eleonora”.

Verdade, não adiantava negar. Meus pensamentos ruins me mostravam que Nicholas era bom demais para mim. Mas por que estou pensando nele dessa forma? Quem se importa se ele gosta de mim? Ele é apenas um pato. Apenas um pato.

“Pobre Eleonora. Foi desprezada em público por Nicholas Montenegro”.

Dane-se.

Eu precisava de um amante. Eu precisava de alguém. De alguém. Qualquer um.

- Por que está chorando coisa linda?

- Está tendo uma visão, senhor. Não estou chorando. Todos estão vendo muito mal ultimamente.

- Para mim claramente está saindo lágrimas dos seus olhos. Quer um consolo?

- Consolo? Bebidas? Cigarros? Quero.

- Não, algo melhor. Carinho, por exemplo.

- Dispenso, obrigada. Apenas dirija.

- Para onde vai?

- Para lugar nenhum.

- Vai custa caro.

- Tudo bem.

...........................................................................................................

- Onde estamos?

- Na minha casa.

- Sua casa?

- Sim, vou te dar as bebidas e o cigarro que precisa.

- Obrigada.

- Vou querer algo em troca.

- Certo.

- Sabe o que é né?

- Sei sim.

- Você quer mesmo?

- Quero.

A casa do motorista era bem simplória. Aparentemente, não tinha posses. Ele era um senhor em torno de 50 anos de idade. Eu nunca tinha me relacionado com alguém tão mais velho. O problema é que eu necessitava disso agora. Eu precisava. Eu estava a beira do colapso por todo o desprezo que ganhei de Nicholas.

- Como está a bebida?

- Maravilhosa.

- Te acho maravilhosa.

- Eu não sou.

- Duvido muito. Bom, vem aqui comigo.

- Tudo bem.

Eu tirei parte das minhas roupas. Enquanto eu manuseava o tecido que me cobria, olhei para os olhos do motorista e vi apenas desejo. Um desejo imenso por mim. Não era puro, obviamente, mas eu queria isso. Me sentir desejada. O problema é que esse tipo de olhar estava começando a me incomodar. Não era o olhar de desejo que eu queria.

“Você não é assim, Eleonora”.

“Você nunca foi uma prostituta”.

“Pare com isso, é errado”

“Não, Eleonora. Algo aqui não está certo. Você quer fazer isso apenas para esquecer as coisas ruins”.

As mãos mais maduras do homem que me tocava era motivo de risada e alegria no meu passado, mas agora eu não conseguia ficar feliz. Algo mudou em mim. Eu não sabia definir o que era, mas apesar de tentar me fazer de forte e me consolar com esse absurdo que eu estava participando, eu entendia que vir para o Rio de Janeiro fez com que algo despertasse. Algo que estava preso dentro de mim por muitos anos.

- Pare.

- O que?

- Pare.

- Ainda não comecei.

- Não posso. Não quero.

- Sério?

- Sim, me desculpe.

- Inacreditável. Vocês mulheres....

- Me desculpe senhor, tenho que ir.

- Eu não vou te levar! Vá por aquela rua e siga á direita.

- Tudo bem, obrigada!

- Ei, só tome cuidado com o barranco aí na frente e...........EIIIIIIIIII!

Dor.

Não lembrava de mais nada.

Só me recordo que escorreguei e bati a cabeça.

....................................................................................................

- Senhorita Eleonora, como estás?

- Antonia?

- Sim, sou eu. A senhorita estava desacordada.

- Onde estou?

- Bom, na casa de sua madrinha.

- Ela não é minha madrinha.

- Jura? Mas ela disse que.....

- Tudo bem. Como vim parar aqui?

- Um homem alto, forte e bonito te trouxe no colo e disse que você tropeçou e caiu. Onde a senhorita esteve pelo amor de Deus?!

- Lugar nenhum. Antonia pode me trazer um chá, por favor?

- Sim, senhorita.

Infelizmente não podia contar a Antonia a loucura que eu tinha feito. O que eu não entendia era a questão do homem alto, forte e bonito que ela comentou. O motorista que quase me violentou não se encaixava nesses padrões. Quem será que me trouxe até aqui?

- Antonia!

- Sim, senhorita.

- Esqueça o chá e me traga bebidas!

- Bebidas? Mas....a senhorita Carmem....

- Dane-se a Carmem! Preciso beber e fumar! Tive um dia horroroso. Quero voltar a me sentir como eu era. Vamos, me ajude!

Era disso que eu precisava. Ser a velha Eleonora por uma noite. Ou então, por todos os dias daqui pra frente. Eu já tinha tomado minha decisão. Iria fazer as malas e ir embora no dia seguinte. Que Carmem se danasse! Meu pai e meu futuro também! Eu era um pássaro livre e dona do próprio nariz. Chega de receber ordens e sermões. Chega de sofrer, ficar triste. Quero alegria!

“Mas não com homens muito mais velhos e estranhos”.

Abri minha mala que trouxe de Campinas e achei algo que Carmem não conseguiu jogar fora na época que estávamos no meu treinamento de boa moça. Era uma das minhas roupas mais bonitas. Escondi no meu quarto porque eu queria guardar como lembrança, mas agora eu poderia usar já que tinha tomado a decisão de desistir do plano maluco da minha falsa madrinha. A roupa era provocantemente vermelha. Chocaria a sociedade do Rio de Janeiro inteira se me vissem vestida nela! Caprichei na maquiagem também! Eleonora estava de volta!

Desci para a sala de estar com as bebidas nas mãos. Acendi meu cigarro. Forcei os empregados a ligarem o aparelho de música e comecei a dançar.

- Senhorita Eleonora, tem uma coisa que....

- Xiiiiiii.....ouça a música.....

- Mas senhorita.....

- Antonia, sem sermões chatos! Ouça a música. Vamos dançar!

E dancei. Dancei sozinha. Que nem uma doida varrida. Rebolei, me diverti, pulei que nem doida. Eu sabia que os empregados estavam chocados, mas quem se importa? A vida deveria ser assim, para ser vivida intensamente. Passaram alguns minutos e eu começara a sentir que a bebida estava fazendo efeito.

- Venham aqui galera. Antonia, vem....aqui....

- A senhorita parece bêbada, mas atrás da senhora....

- XIIIIIIIIIIIIIIIII. N-não t-tô b-êbada.

- Senhorita, vire o rosto e....

- XIIIIIIIIIIIIIIIIII. AIIIIIIIIII VELHA CHATAAAAAAAAAA!

- Mas.......

- XÔ FALAR. VOU DAR A REAL AGORA. ATENÇÃO I-RMÃOS! S-SOCIEDADE HIPÓCRITA DOS RIQUINHOS DE MERDA DO RIO DE JANEIRO. EU ODEIO VOCÊS! VOCÊS O-ODEIAM AS MULHERES, SÃO VICIADOS NA GRANA E SÃO TODOS UNS A-RROMBADOS! TRAÍRAS DE ESPOSAS, MALDITOS TODOS. “AH ELEONORA, VOCÊ TEM QUE CASAR E MIMIMI”. VÃO PARA O RAIO QUE OS PARTA!

- Senhorita!

- XIIIIIIIIIIIIIIII. N-NÃO TERMINEI CHUCHU. QUERO DIZER A T-TODOS QUE EU AMO ISSO Ó, A BEBIDA. O CIGARRO. SIM, AMO FUMAR E FICAR COM O PULMÃO TODO CHEIO DE FUMAÇA QUE NEM AQUELE TREM LÁ HAHAHAHAHA.

- Meu Deus.....

- ANTONIA, OLHA. E-EU QUERO DIZER QUE O NICHOLAS MONTENEGRO ACHA QUE É O MELHOR HOMEM DO MUNDO, MAS É O MAIS IMBECIL POSSÍVEL! QUEM É ELE PARA ME DESPREZARRRRRRRRR????. NICHOLAS, MORRAAAAAAAAAAAAA. HAHAHAHAHAH.

-..............

- SENHORITA ELEONORA, QUER UM CHÁ DE BOLDO? SENHORITA ELEONORA, PERDOE-ME. PERCO A COMPOSTURA COM VOCÊ, MIMIMI, BLÁ BLÁ BLÁ. AHHHHHHHH HOMEM CHATO DO INFERNO! SE ACHA O MAIOR SANTO MAS É UM IDIOTAAAAAAAA. NICHOLAS VOCÊ É UM IDIOTAAAAAAAAAAAAAAAAA.

-..............

- QUE FOI HEIN? E-ESTÃO OLHANDO O QUE ALI? O QUE TEM ATRÁS DE.....

Bom, se eu acreditava que meu deslize no jantar foi o pior do dia, eu estava enganada. Quando olhei para trás, ele estava ali, sentado na sala de estar e por incrível que pareça, eu não tinha visto ele chegar antes de começar todo o meu teatrinho. Nicholas se levantou da poltrona e olhou bem fundo dentro dos meus olhos com o rosto mais impassível do mundo.

Pelo visto, o pato descobriu minha verdadeira face e dessa vez, eu não tinha Carmem para me socorrer.



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