História A Arte da Autodestruição - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Drama, Suícidio
Visualizações 23
Palavras 1.790
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Poesias, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Mutilação, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


TW*****
Cuidado ao ler, pode ser um gatilho.

Nesta one há referências de O Quinto Fantasma, minha outra história.

Quando eu escrevi O Quinto Fantasma, foi como se eu estivesse fora do meu corpo. Em nenhum momento aquela história foi sobre mim. O Quinto Fantasma não fala sobre meus problemas, ou reflete quem eu sou.
Mas esse texto aqui embaixo, ele sim reflete quem eu sou. Tudo aqui descrito é sobre mim, e são coisas que eu penso e vivo. Foi escrita de madrugada, no desespero, e é muito pessoal, então não sei se vou mesmo deixar ela aqui exposta. Mas por enquanto, está aí. Eu mesma, resumida em algumas poucas palavras confusas.

Espero que não seja um gatilho nem ofenda ninguém. Meu único objetivo com essa história é me expressar.

Eu estou tão cansada.

Capítulo 1 - Capítulo Único


 

Nunca precisei de objetos afiados.

Quando o peito aperta e o coração parece feito de pedra. Quando os olhos ardem com as lágrimas e a garganta fecha. Quando a alma se torna escura feito a madrugada, eu não precisei de uma navalha.

"Pra que esse elástico aí no braço?"

Sempre tem alguém para perguntar. Sempre tem alguém curioso. Eu sempre respondo a mesma coisa.

"É um elástico de dinheiro. Eu uso para ajudar na lei da atração. Toda vez que olho para ele, eu penso em dinheiro. Pensar em dinheiro atrai".

Deixa ela, eles diziam. Ela adora essa coisa da lei da atração.

É minha desculpa. É a melhor desculpa para o motivo de eu andar sempre com um elástico no pulso, pendurado feito uma corrente envenenda. São algemas que me mantém dentro da realidade.

Eu roubo os elásticos. Amarelinhos, brilham toda vez que encontro no chão, ou jogados sobre a mesa da professora, ou caem discretamente da bolsa da minha mãe. Eu pego todos eles, observo, aprecio. Deixo no pulso, quanto mais melhor.

"Mas pra que esse elástico aí no braço?".

"É pra atrair dinheiro", eu disse. Eu não disse, "Se eu não puder me entorpecer com a dor ardida desse elástico, posso acabar ficando louca".

 

Você acha mesmo que o único jeito de ferir a própria pele é com uma lâmina?

 

Começou em uma madrugada fria de arrependimento. O que foi dito, o que foi feito, o que foi ingerido. Tudo doía. Menos meu braço.

É uma brincadeira estúpida. Você puxa o elástico, e depois solta. Deixa estalar na pele. Uma vez, duas, dez, cem vezes. Cem vezes em cada braço, duas vezes cem, cem vezes cem. 

O mesmo elástico que você segura de um lado e dá a alguém a outra ponta, e então se afastam. Um teste de confiança. Você confia que a pessoa não vai soltar o elástico e castigar seus dedos. Confia que o elástico não vai estourar subitamente e ferir ambos, porque a confiança quando esticada além da conta pode machucar as duas partes envolvidas.

Não posso confiar em mim mesma. Vez após vez após vez, estico o elástico e traio minha própria confiança, meu próprio senso de vida, ao deixar que ele me puna.

As primeiras vezes não deixavam nada além de uns poucos vergões avermelhados. Eu acordava pela manhã com um péssimo humor e umas marquinhas. Mas podia dizer que eram do travesseiro.

Um dia, a coisa saiu do controle. Acordei no outro dia com o braço todo roxo. Como ia esconder aquilo?

"Pra que blusa de frio?", me perguntaram. Só porque eu vestia um moletom, apesar do calor.

"Estou com frio", eu disse. Eu não disse, "Por baixo desse pano, estão as marcas que deixei ontem à noite. Bati tão forte que a maldade subiu à superfície em pequenas bolinhas vermelhas, ameaçando se tornar um hematoma".

 

Eu me tornei uma bagunça. Acorda às três, pula a janela, se esconde na escada sob a luz branca de emergência, estala, estala, estala. Um coro mais alto que grilos, mais alto que gritos. Um banho longo demais, o barulho do chuveiro sempre mais alto que o elástico batendo. Estala, estala, estala. Outra vez. E corre, se esconde, pega a blusa, cruza os braços. É gelo, é água quente, é agua corrente, é pesquisa na internet, me ajudem, não sei como disfarçar os roxos do meu braço, me ajudem me ajudemmeajudem.

Ninguém nunca ajudou. É burra, é estúpida, é idiota. Se vai cometer suicídio, comete logo. Nem se cortar sabe, só sabe pegar um elástico e estalar no braço, vez após vez, dia após dia, e olha a maldade e o sangue na superfície, um vergão que nunca some, uma dor que nunca vai embora. Pra que essa blusa, pra que esse elástico? Pare de ser tão estranha, tão idiota, tão inútil. É claro que faz essas coisas, não trabalha, não faz nada o dia inteiro, só come e dorme, é uma vagabunda.

 

Não como.

Não durmo.

 

Trabalho sobre a pele, faço um quadro manchado e feio na tela em branco do antebraço, logo acima da tatuagem que diz, "memento mori". Fiz com quatorze anos. Acho que nessa época, todo mundo já sabia que tinha algum problema comigo. Era o que todos diziam. Diziam que eu ia "dar trabalho" a meus pais.

O que isso significa?

Significa que a filha mais velha, a que não dá trabalho, tatuou a palavra "fé" no braço, tão bonita palavra, tão bonita filha.

Eu não queria nada bonito. Queria algo real. Que se dane o carpe diem. Eu perpetuei na pele um brusco "memento mori". "Lembre-se de que vai morrer".

"O que significa sua tatuagem?".

"Pra que uma tatuagem dessas, em outra língua?". 

"Por que escreveu lembre-se de que vai morrer no braço? Credo, que coisa feia".

Que coisa feia você tentar me humilhar por isso.

O corpo é meu. Escrevo nele as marcas da minha dor, logo acima da tatuagem que diariamente me lembra que um dia, a vida acaba. Às vezes, quando o dia está bom, me sinto mal em saber que vou morrer. E às vezes...

Às vezes, o elástico grita mais alto.

 

Uma vez li que a arte da autodestruição é a mais perigosa de todas, porque é a mais fácil de se aprimorar.

Realmente. Me tornei uma profissional. O jeito certo de estalar, o lugar certo, a hora certa, o elástico certo. Consigo fazer o vergão subir, e então abaixá-lo sem maiores danos. Ninguém vê, ninguém sabe. Um crime perfeito.

A arte da autodestruição é a mais perigosa. Mas não porque é a mais fácil de aprimorar. É porque é a mais viciante.

Todos encontram um vício, afinal de contas. Todos encontram um jeito de morrer aos poucos, sua dose diária de tortura. Uma dose de bebida, doze doses todos os dias. Um cigarro, dois maços por dia. Uma seringa, dez agulhadas. Uma pílula, uma cartela garganta abaixo. Cheira, bebe, fuma, aperta, fecha, entope, esvazia. Embriagados pela dor, cada qual procura a morte de algum jeito. Você segura a arma com o cano contra a cabeça, ser perceber que a bala vem as poucos se entrenhando entre os tecidos podres até chegar ao coração. Coração duro e frio esse, que não tem dó de deixar a família para trás, como você pôde não pensar em ninguém, como pôde ser tão egocêntrico?

Como você pôde? Como pôde olhar para mim e não me enxergar?

 

Estou tão cansada.

 

Todos encontram um vício. Todos encontram um jeito de morrer aos poucos. Você causa sua própria morte, decidindo todos os dias quanto tempo ainda vai ter. 

Embriagados pela dor, cada qual procura a morte de algum jeito. Só porque não bebo, não fumo, não corto, não engulo aquele maldito comprimido, não significa que não me encontro todos os dias com aquela criança dançarina, prometendo a cada passo um tipo diferente de sono eterno.

Há muito jeitos de cometer suicídio, você não acha? Matar a matéria depois que a alma já se foi, dar razão aos vícios e à tortura.

Eu te digo qual é meu vício.

Meu vício é a fome, a sensação pura do vazio, o fogo que queima as entranhas, a tontura, a ondamuitolouca. Dez horas, doze horas, vinte horas, vinte e quatro, trinta e seis. Mais de trinta e seis horas sem comer, e seu corpo começa a ingerir seus músculos.

E daí? E daí que o coração é um músculo. Coração duro e frio esse, sendo digerido pela própria casa onde vive.

Quarenta horas, quarenta e oito, tontura boa, tontura fria. Que sensação engraçada. Escuro. Desmaiou, ela desmaiou, alguém ajuda. Acorda, acorda, acorda. 

Não deixe que eles saibam. 

Cinquenta horas, cinquenta e seis, sessenta. Quero ser pura, quero ser limpa. Nunca come, ela nunca come, vadia louca, nunca come.

Meu vício é aquele que ninguém entende. Come, come, come, ignore a fome, coma até explodir. Um banho, uma música alta ligada no chuveiro, uma cadeira contra a porta. De pé, curvada, dedos na garganta. A queimação, a tosse, os olhos vermelhos, a cabeça estourando. Jogue tudo fora, não deixe dentro de você. Comi demais e vomitei, mas eu nunca comia.

Um dia, eu comi. Os dedos conhecem o fundo da boca, a boca da traqueia, se esticam feito cordas até o estômago. 

O estômago que não entende. Está cheio, está vazio. Três dias sem comer, e então três mil calorias ingeridas de uma vez só. Dedos na garganta, tudo é jogado fora. Mastiga e cospe antes de engolir. Seis litros de água, zero calorias.

Meu vício é a arte da autodestruição, quando a maldade goteja dos olhos e o elástico estala na pele um milhão de vezes apenas para sentir a dor que mereço, uma punição justa. É só um elástico de dinheiro, não dói nadinha. Dói um pouco, está deixando marcas roxas. Uma vez, duas, dez, não dói nadinha. Dói quando estalo duzentas vezes no braço para me torturar. A arte da autodestruição, fácil de aprimorar, difícil de largar. Um vício na dor ardente daquele elástico amarelinho estourando feito fogos de artifício no ano novo. Porque no ano novo, enquanto você assistia as luzes explodirem no céu, eu assistia as lágrimas explodirem nos olhos. Estala, estala, estala. Um pacto de sangue, uma promessa de ano novo, um juramento inocente, "eu prometo fazer tudo o que quiser esse ano".

Eu nunca quis tudo isso.

 

Mas vai lá. Diz que é estranho. Diz que é exagero, que é drama, mais uma adolescente cheia de hormônios, quer confete.

Não quero nada disso. Não quero sua atenção torta e crítica, que quer me condenar. Porque talvez eu seja mais uma adolescente babaca fazendo drama, se é esse o rótulo que serve para mim, tanto faz. Talvez meu vício não seja diferente do resto. Porque um dia, eu prometi ao demônio no meu ombro que o seguiria para sempre. Foi um erro. O veneno realmente vicia.

Você só percebe quão viciado está quando tenta parar. Passa fome, vomita, estala o elástico na pele. Fome, vazio, dedos, garganta, elástico, estala, estala, estala. Uma linda obra de arte. A arte da autodestruição. Não, não é arte. Não é romântico, não é bonito. Não é engraçado, não é divertido. É uma doença, mas que merda, é um vício. Não consigo parar.

Para pintar um quadro de tortura e dor, nunca precisei de objetos afiados. A lâmina arde quando passa, e deixa suas cicatrizes. Mas ninguém vê o que aquele elástico fez, já sumiu, é só história.

Veja nos meus olhos.

Eu nunca precisei de objetos afiados para ceifar minha própria alma. Não preciso ver o sangue para sentir essa dor. Eu não precisei ver as cicatrizes brutas que o elástico não pode fazer.

Eu só precisei descobrir que me odeio.



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