História A Assessora - Capítulo 12


Escrita por:

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Categorias Naruto
Personagens Hinata Hyuuga, Ino Yamanaka, Karin, Naruto Uzumaki, Sakura Haruno, Sasori, Sasuke Uchiha, Temari, TenTen Mitsashi, Tsunade Senju
Tags Casamento, Drama, Hinanaru, Naruhina, Romance, Sakusaso, Sasosaku
Visualizações 71
Palavras 7.394
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Aqui estou eu com um capítulo imenso.

Perdoem qualquer erro de digitação.

Boa leitura, espero que gostem!

Capítulo 12 - A inveja é um mal necessário


 

Capítulo 12 — A inveja é um mal necessário 

Os sete dias de uma semana se passaram dolorosamente, e nada de Sasori. Nada de casamentos ou empresas, nada de setor de RH. Pela primeira vez desde que me formei em psicologia, estou sentindo falta de trabalhar num departamento de Recursos Humanos. À medida que me custava uma forte carga emocional esquecer de algo que simplesmente balançou minha vida, eu também aprendia coisas positivas. Coisas como: sou independente e não preciso de homem nenhum ao meu lado. Coisas como: falo a verdade, acredite quem quiser. 

Coisas como: é sempre possível superar um amor. Coisas que levam tempo, mas se convertem em sucesso. 

Aquele era, também, o meu oitavo dia dormindo no desconfortável sofá da sala, com um Sasuke de cozinheira e um Naruto exercendo o papel de bajulador oficial. A propósito, agora ele era o meu chefe. Nos últimos dias, preparei um número de pizzas maior do que o que já cheguei a comer delas durante toda a vida. Foi terrível, e aparentemente Sasuke estava convencendo o pai de Karin a me contratar para trabalhar em qualquer setor de sua empresa — até mesmo fazendo cafezinhos, caso ele não me ache qualificada o suficiente. 

Interrompendo o repetitivo percurso que a colher lotada de sorvete de flocos fazia à minha boca, o Uchiha me puxou para fora do sofá. Deixei o pote de lado e fiz uma careta colérica, repreendendo-o. No entanto, ele não me deu sequer atenção; fui arrastada para o quarto feito um saco de batatas e, da mesma forma, atirada na cama. Sasuke abriu meu guarda roupas e Naruto, as janelas.

— O que diabos estão fazendo? — indaguei, enfurecendo-me. 

— Já chega — o moreno afirmou, categórico. — Você está se autodestruindo naquela sala e com aquele pote de sorvete. Já deve estar pesando cem quilos de tantas calorias ingeridas em uma semana, Sakura. 

— Eu estou bem — menti, me levantando, afinal, era o que eu vinha fazendo há algum tempo. Ele me parou com as palmas das mãos. — É sério, quero voltar para a sala. 

— Mas não vai — Naruto negou, fechando a porta do quarto. — Nós vamos sair. Iremos ao parque, depois podemos jantar em algum restaurante chique, o que acha? 

Franzi o cenho. Ele era louco ou o quê? 

— Não tenho dinheiro para esbanjar com esse tipo de coisa fútil. 

— Primeiro, não é fútil, é necessário. Segundo, ficará tudo por minha conta, afinal, você é a minha funcionária. 

Pisquei algumas vezes e Sasuke sorriu ladino. 

— Posso ser o seu funcionário também? Garanto que sei bater uma boa massa. 

— Eu sei que você bate uma — Naruto o olhou de forma maliciosa e eu revirei os olhos até sentir as sobrancelhas forçarem. 

— Poupem-me. 

[...] 

Não vesti nada sofisticado: qualquer camiseta de algodão, uma calça jeans desbotada e um All Star. Não era lá algo digno do vestuário de uma mulher adulta e, sim, do de uma adolescente rebelde beirando os catorze anos. Entretanto, era definitivamente a roupa perfeita para passar uma tarde inteira dando voltas de montanha-russa, comendo algodão-doce e alimentando os patos do Lago dos Patos. 

Por algum motivo, a ideia de voltar no tempo com meus dois melhores amigos de infância me parecia interessante.

No entanto, a ideia era boa, a prática, nem tanto. Logo na entrada, arranjamos problemas: Sasuke ficou furioso com o homem que não queria deixá-lo pagar meia pelo ingresso porque sua carteirinha da faculdade — obviamente — já estava vencida. Ele tirou argumentos desconhecidos de qualquer submundo ocultado em sua mente caótica e conseguiu pagar a bendita meia. Agora, havíamos acabado de descobrir que novos brinquedos aquáticos tinham sido introduzidos ao parque nos últimos anos e, para isso, era viável alugar um armário e comprar roupas de banho.

O Uchiha não queria pagar, entretanto. 

— São vinte e cinco dólares, Sasuke — Naruto enfatizou, bufando alto. — E já somos os próximos. 

— Isso é um absurdo — murmurou, revoltado. — Se eles tivessem me avisado antes, eu não traria meu celular e nem meus óculos de sol. Além disso, como vamos fazer com as roupas?

— Não precisamos ir nos tobogãs — pontuei. 

— O quê? É claro que precisamos! Eu fiz um escarcéu para pagar meia e ainda tive que gastar mais vinte e cinco reais nessa porcaria de armário, o que me totalizou cinquenta pilas. — Sua expressão facial era de puro e absoluto arrependimento. Chegava a ser cômico ver Sasuke sendo tão pão duro, até porque, quando estávamos na frente de Karin, cinquenta dólares se transformava em um centavo. — Você acha mesmo que vou pagar esse preço para não aproveitar todos os brinquedos dessa merda de parque? Está de brincadeira, não está? 

— E lá vamos nós — cantarolei no instante em que Naruto surgiu com as três chaves em mãos e um sorriso largo estampado nos lábios. Olhei para Sasuke, que mantinha sua cara de velório costumeira. — Temos que comprar roupas de banho, então. 

Ele abriu a boca para protestar, mas notou que, dessa vez, não haviam demais alternativas. Entramos na lojinha temática de um dos tobogãs mais "assustadores" do parque, algum chamado Shark Tank. 

— Saca só essa camiseta de piranhas! — Me virei para o Uchiha que, todo feliz, apontava uma blusa de mergulho com estampa de piranhas. — Prove isso. 

— Eu não, é muito feia. 

— É irada — Naruto surgiu atrás. — É, Sakura, prove. 

— Eu não vou comprar. 

— Não pedimos para você comprar. — Ele empurrou o cabide contra o meu corpo. — Vamos, o provador está logo ali. 

Depois de algum tempo cogitando aquela ideia, suspirei pesadamente e me encaminhei em direção ao provador. Tirei minha blusa, depois, o sutiã. Abaixei as calças e já vesti o biquíni que eu havia escolhido. Vesti a maldita blusa e observei minha imagem no espelho com cautela. Girei os calcanhares minimamente e estufei o peito. Era impressão minha ou eles estavam maiores? De qualquer forma, aquela blusa cuja estampa era um completo desastre tinha caído perfeitamente bem no meu corpo. 

E uma vantagem considerável: não era necessário passar protetor solar no tronco. 

— Achei, no mínimo, gostosa pra caralho — Sasuke anunciou, erguendo o polegar positivamente. Naruto analisou com maior meticulosidade e sorriu. — Vai dizer que não gostou? Olha, assim não precisamos gastar com protetor solar FPS 800. 

Revirei os olhos. 

— Nunca pensei que uma blusa com estampa de piranha fosse cair tão bem para alguém como você — Naruto pontuou por fim, sacando a carteira do bolso da bermuda. — Talvez seja porque são duas coisas de combinam bastante, quem sabe? 

— Eu não vou levar essa merda — praguejei, prendendo a risada. 

— Poxa, ficou realmente bom — Sasuke insistiu. — Está super temático. Talvez isso te dê coragem para enfrentar o brinquedo mais assustador do parque. 

— É, está decidido — disse o loiro, sorrindo como um idiota. — Eu pago. Vamos experimentar as outras peças, Sasuke. 

No fim, saímos da lojinha com sorrisos bobos no rosto e expressões típicas da infância. Na verdade, estávamos exatamente como há quinze anos atrás. E era felicidade genuína. Pela primeira vez, desde que saí do flat de Sasori, aquela sensação de conforto preenchia cada canto do meu corpo. Meu espírito estava encontrando paz outra vez, e ninguém conseguiria tirar isso de mim. 

Como já havia mencionado e, se não o fiz, digo agora, meu biquíni era rosa. Não simplesmente rosa. Era O Rosa. Aquele do tipo que ofusca até mesmo a visão de uma velhinha à distância de trinta metros. Os calções de banho de Sasuke e Naruto eram, respectivamente, azul e laranja, correspondentes com as cores favoritas de ambos. 

Nesse momento, estávamos andando rumo ao escorregador em formato de U, onde escolhíamos um parceiro para dividir a boia e rezar para que nenhum dos dois fosse arremessado da mesma. 

— Se ficar muito pesado, pode virar — o instrutor dizia, fazendo com que eu me agarrasse ao braço de Naruto. — Se ficar leve demais, o perigo é ainda maior. — Naquele momento, pulei para o lado do Uchiha. — O peso ideal é de cento e sessenta quilos, no máximo. O peso mínimo é noventa. 

— Quanto você pesa? — perguntei para Sasuke. 

— Oitenta. 

— Gordo — o loiro murmurou. 

— Oitenta quilos de pura massa muscular, bonitão — se gabou, trincando o abdômen. — Coisa que você não tem, não é, seu frangote? 

— Certo, eu vou com você — decidi, segurando o outro lado da borda. — Naruto, escolhe alguém aí na fila. Você é magro, então pode ser... Shion? 

O Uzumaki quase se engasgou com a própria saliva. Seus olhos azuis se direcionaram para mim, o cenho franzido. 

— Por que você mencionou ela aleatoriamente? 

— Não foi aleatoriamente, meu parceiro — Sasuke apontou o dedo para uma garota de cabelos claros e silhueta relativamente fina, coberta por uma saída de praia. Quando a mesma se virou, concluímos que tratava-se mesmo de Shion; e que seus peitos estavam ainda maiores. — Caralho. Certeza que ela colocou silicone. 

— Tá porra. 

— Parem de ficar babando nos peitos da menina, seus idiotas!

— Ela fica putinha porque é completamente reta — Sasuke sussurrou para o outro, mas fez toda a questão que eu o escutasse. Cocei a garganta, incomodada, olhando-o reprovativamente. — Brincadeirinha. 

— É muito feio cuspir no prato que você já comeu, Sasuke — Naruto advertiu, fingindo indignação. — Eu não te ensinei bons modos? 

— Eu deveria ter passado fome — alfinetou, contendo sorrisos com o babaca loiro.

 Respirei fundo, mas contar até dez não foi o suficiente. 

— Shion! — Ergui meu braço na direção da garota, que me encarou ligeiramente avoada. — Há quanto tempo, amiga!

Ela acenou com a mão e olhou para Naruto, depois sorriu com um certo deboche e voltou a conversar com seus amigos. 

— Nossa, cuzona — sussurrou o moreno. — Naruto, eu vou com você nessa porra. A Sakura vai sozinha. 

— Você me zoou primeiro — rebati, bufando. — E ela nem deve ter visto o Naruto. 

Olhamos para o Uzumaki, que parecia mais querer se jogar da escada do que do escorregador. As bochechas alvas estavam vermelhas e os olhos azuis alternavam entre inúmeros pontos incansavelmente. Me esforcei para prender a risada naquele momento. 

No fim, acabei indo com a mulher gordinha que estava atrás de nós enquanto os dois bonitões foram juntos, colados um no outro feito garotinhas assustadas. No fim, agradeci por termos nos organizado daquela forma porque pude assistir o show de gritos finos que fizeram. De qualquer forma, após enfrentar duas montanhas-russas, quatro tobogãs — inclusive o famoso Shark Tank — e mais alguns brinquedos nos quais pedacinhos da minha alma foram deixados, conversávamos deliberadamente em uma das lanchonetes espalhadas pelo parque. 

Naruto saboreava um belo Hot Dog Completo ao passo que eu e Sasuke nos contentávamos com churros refertos de doce de leire e granulado, além, é claro, do super açúcar cristalizado. Estava uma delícia, e eu definitivamente queria mais um quatro daquele para viagem. Depois de ficar encarando a bandeja do Uzumaki por alguns segundos, tornei a fitar, de longe, a colossal roda-gigante. 

Era o único brinquedo que não havíamos conseguido aproveitar, justamente porque a fila estava enorme. 

— Eu realmente queria ir na roda-gigante. 

— Ainda temos tempo — pontuou o loiro. — Se corrermos... 

— Eu ainda quero comer uma pizza — Sasuke queixou-se. — Além do mais, estou com um total de zero por cento de paciência para ficar esperando filas. 

Abocanhei o último pedaço do churros e meu corpo instintivamente se soergueu na cadeira. Olhei para a roda-gigante determinada. Suas cores vibravam fervorosamente, piscando sem parar, formando desenhos lindos. Deveria ser uma vista muito bonita, afinal. Logo atrás dela, havia o Lago dos Patos. Não era muito grande, mas continha belos chafarizes que, ao anoitecer, lançavam suas águas sob luzes coloridas. 

— Sakura? 

— Vou na roda-gigante. Fiquem aí, eu volto rápido. 

— Merda, quer que eu vá junto? — questionou Naruto, já abaixando seu lanche. Segurei seu ombro desnudo, impedindo-o. — Tome cuidado, então. 

Corri em disparada até o brinquedo, rezando profundamente para que a fila não estivesse tão enorme quando comparada à das quatro horas da tarde. Para o meu alívio, as cabines cabiam quatro pessoas e eu era a primeira e única da fila. Sorri de orelha a orelha quando o casal saiu, dando lugar a mim. O homem abriu a portinha e deu algumas instruções óbvias, no entanto, quando foi fechá-la, mais um casal surgiu na espera. 

— Vou deixá-los entrar também — contou, dando passagem aos dois. — Não coloquem os braços para fora, nem objetos como celulares, câmeras fotográficas, entre outros. Também recomendo que não se levantem durante o passeio.

Ele havia repetido tudo, mas a única coisa na qual consegui prestar atenção foi a expressão de Shion ao se sentar no banco da frente. Ela me encarava dos pés à cabeça, estava um pouco envergonhada, eu diria. Seu namorado era três vezes mais alto do que ela, com os cabelos escuros e olhos esverdeados. Não era tão bonito, não mais que Naruto. 

— Certo, divirtam-se. 

Quando o brinquedo começou seu movimento usual, eu fixei os olhos na janelinha, observando o show de luzes coloridas abaixo. Hora outra, acabava por desviar o olhar na direção dos dois ali, que pareciam estar num momento de conexão sem igual. As alianças de compromisso de ambos eram extravagantes; as mãos roçavam-se, assim como seus joelhos. Era um belo casal, e eu não podia negar isso. 

— Obrigada por hoje, eu realmente amei — Shion sussurrou, mas consegui ouvi-la. Sua voz era branda, mansa, quase aveludada; sustentava um sorriso quase imperceptível nos lábios, ainda que não estivesse olhando diretamente para o homem. — Eu te amo. 

Escutar aquelas palavras foi como receber um soco na boca do estômago. Meus olhos instintivamente tremularam e eu os oscilei entre a janela e o chão, na outra ponta da cabine. Um belo nó se formava na minha garganta, assim como algo dentro do meu estômago estava se revirando. Tratava-se um sentimento esquisito. 

Agora, mais do que nunca, eu queria sair daquela maldita roda e ir para casa. Me arrependi veemente de ter deixando Naruto e Sasuke me arrastarem para um parque de diversões. 

— Você está bem? — A voz feminina ainda estava calma, mas trazia um pouco de preocupação e era exclusivamente direcionada a mim. 

Quando ela perguntou, percebi que minhas bochechas estavam molhadas. Dois traços, um de cada lado do rosto. Foram apenas duas lágrimas que escorreram, mas foram o suficiente para que Shion percebesse. 

— Sim, me desculpe — falei, um pouco sem graça. Limpei com a borda da camiseta e sorri amarelo. — É o cansaço, estou com sono. 

— Fazia tempo que não nos encontrávamos, não é? 

Olhei para a garota, ligeiramente confusa. No entanto, ao constatar a genuinidade de seu sorriso, a chama da discórdia pareceu se apagar. Ela estava sendo gentil, não havia nenhuma parcela de ironia em sua fala, embora eu ainda não entendesse o porquê. Nós sempre brigávamos e, desde a última vez que aconteceu, eu não me lembrava de termos feito as pazes. 

— É mesmo. 

— Como você está? Está trabalhando? 

Minha mãe sempre me ensinou que mentir era algo feio e errado, mas, nesse caso, eu simplesmente não consegui dizer que estava desempregada. Ou, melhor, que estava fazendo pizzas para o Naruto. Nos formamos no mesmo curso, e ela provavelmente trabalhava em alguma grande empresa porque, embora não fosse lá muito inteligente, sempre se esforçou muito mais do que eu. Havia uma monstruosa diferença entre nós: Shion amava psicologia, e eu só fiz esse curso porque não tinha outra coisa em mente. 

— Estou trabalhando na Akasuna Company — inventei sem pensar. 

Seus olhos cresceram e brilharam. Comecei a sentir um clima reverso se instalando. 

— Que bom para você — disse, um pouco ríspida. — E o seu pai? Ele está melhor? 

Pisquei algumas vezes. Nos encaramos diretamente por efêmeros segundos; como ela se lembrava do meu pai? 

Nos tempos universitários, Shion ouviu eu e Ino discutindo algo sobre meu pai ter Alzheimer e aquilo pareceu atingi-la feito um balde d'água. Por um semestre inteiro, ela perguntou sobre como a doença estava se manifestando. No começo, encarei seu gesto como pura gentileza, mas depois se tornou algo massivo e irritante. 

— Não temos uma relação muito boa — revelei. — Ele não se lembra de mim. 

A memória do meu pai começou a falhar por volta dos quarenta e tantos anos. Pequenas coisas, coisas a que costumamos não dar atenção. Ele esquecia onde tinha colocado as chaves ou guardava objetos em lugares nada convencionais, como o celular na geladeira e um prato no guarda-roupas. Perdia o fio da meada no meio das frases e se esforçava exageradamente para encontrar a palavra certa para, no fim, trocá-la por algum sinônimo. Não demorou muito tempo até ele esquecer completamente seu propósito naquela família. E um dos piores dias da minha vida foi quando ele me olhou profundamente, tão confuso, e perguntou: "quem é você?". E eu nunca cheguei a, de fato, respondê-lo. 

Alzheimer é hereditário. Apesar de ver o que o futuro me reserva, eu ainda espero que não aconteça comigo porque não quero ter que viver em uma casa com conhecidos desconhecidos e seguir a regras que não fazem sentido algum. Não quero sofrer a pressão de ter que lembrar, não quero causar em alguém a mesma dor que ele me causou.

— Poxa, eu sinto muito. 

— Imagine. 

— Vão querer mais uma volta? — A portinha foi aberta de supetão e eu percebi que já nos encontrávamos sobre terra firme. Imediatamente saltei para fora da cabine e apertei o passo na direção da lanchonete sem nem mesmo olhar para trás. — Você dois ficam, né? 

Ao passo que fui me aproximando do lugar onde estávamos, notei Sasuke vidrado no celular e Naruto observando atentamente as estrelas que já ameaçavam brilhar na vasta imensidão negra que se estendia acima de nossas cabeças. Parei na frente dos dois e recolhi as regatas que descansavam sobre o encosto de uma das cadeiras de plastico, jogando-as para seus respectivos donos. 

— Vamos embora — supliquei. 

— Aconteceu algo? — Naruto se alarmou. 

— Não. Eu só estou cansada, de verdade. 

— Foi tão radical assim? — Sasuke se levantou com um sorriso debochado no rosto. — Digo, não tem uma o que se esperar de uma roda gigante. 

Revirei os olhos e levei as duas bandejas sujas até o balcão da lanchonete. A caixa nos observou com os olhos quase pregando; usava um boné verde que parecida aqueles das atendentes mal encaradas do Subway, um avental beje sujo e, por baixo, uma camiseta preta simples. O sorriso de antes havia desaparecido por completo de sua expressão. 

Sasuke me jogou as chaves dos armários e eu fui buscar nossas coisas enquanto os dois palermas davam mais uma olhada na lojinha. Quando voltei, me deparei com a cena do Uchiha idiota em meio às plantas sendo fotografado pelo Uzumaki ainda mais idiota.  

— Que merda é essa? — explodi, apontando para a boia de girafa que rodeava o corpo do moreno. 

— Uma boia de girafa, ora — respondeu como se fosse óbvio. — Comprei para a Karin. Ela vai adorar, não vai? 

Ele estava animado, e Naruto parecia concordar plenamente com aquela atitude. 

— É claro. Só quero ver como fará para enfiar essa coisa no carro. 

[...] 

— Eu não acredito nisso — murmurei, respirando fundo, eu ver Sasuke, com a ajuda de Naruto, amarrando a maldita boia no capô do veículo. — Abra a merda do carro, eu vou entrar, não quero me submeter a isso. Anda logo, Naruto Uzumaki!

No instante em que ouvi o barulho da porta sendo destravada, me enfiei lá dentro, fechando os olhos ao me deitar no banco de trás. Fiquei fitando teto acinzentado, exatamente daquela cor de televisão em estática, por algum tempo. Os garotos logo entraram para quebrar o remanso. Sasuke colocou seu CD de indie, rock e indie-rock, tive vontade de me atirar para fora do carro em movimento. Pisquei os olhos freneticamente com aquele zumbido atormentando meus ouvidos. 

— Chore menos, Sakura — alfinetou, me olhando pelo retrovisor. 

— Essas merdas que você ouve têm uma falta de estrutura narcisista, eu prefiro ouvir alguém quebrando pratos. 

Enquanto mantínhamos aquela discussão que obviamente não nos levaria a lugar algum, Naruto manobrou o carro na direção do Drive-Thru de um McDonald's. Observei o letreiro colorido e suculento que apresentava as promoções do dia. No entanto, minha fome havia se esvaído no exato momento em que tive o desprazer de presenciar a cena romântica entre Shion e seu namorado-sem-nome. 

— Vou querer dois BicMacs — Sasuke pediu para a caixa eletrônica. — Dois combos. 

— O do dia, por favor. — Naruto tirou metade do corpo para fora e Sasuke conteve a risada. — Sakura, o que você vai querer? 

— Nada, obrigada. 

Os dois me olharam confusos e o Uchiha fez menção para que o amigo avançasse para o caixa físico, apontando para o outro carro que estava atrás de nós. Naruto o fez, mas continuou me encarando de soslaio, esperando que eu pedisse para voltarmos. 

— Realmente não vai querer nada? Nós fizemos muitas coisas hoje, você deve estar com fome — indagou o loiro, preocupado, enquanto roubava uma batatinha de Sasuke e saía do estabelecimento. — Se quiser, eu dou a volta. 

— Não precisa, obrigada. 

— Ela deve estar pensando naquele idiota de novo — o Uchiha deduziu, balançando a cabeça em reprovação. — Por Deus, você estava tão apaixonada assim? 

Para desejar estar no lugar de Shion com ele, sim, eu estava. E apenar consegui me dar conta disso quando ouvi aquelas coisas cruéis. Talvez eu fosse masoquista, de certa forma. Não respondi Sasuke, o que contribuiu para fazê-lo emanar uma aura mau humorada durante todo o percurso. 

Naruto estacionou na frente da tabacaria e desceu do carro juntamente com o amigo, que curiosamente carregou as sacolas do McDonald's consigo. Eu fui a última a deixar a preguiça de lado e sair de lá, encarando o mundo real e a fumaça branca que mais se assemelhava à neblina, mas que provinha da quantidade monstruosa de narguilé servido ali dentro. Senti a gritante diferença de temperatura e ouvi as risadas incessantes dos bêbados que já se arrastavam pela calçada. De repente, Kakuzu surgiu bem na nossa frente, os braços musculosos cruzados. 

— As belas moças estão me devendo duzentos dólares cada uma. Ou me pagam hoje, ou me pagam agora. 

— Estou sem dinheiro, Ka — Sasuke sorriu ladino. — O Naruto tem cartão de crédito. 

O olhar sanguinário do homem pairou sobre o loiro, que sorriu amarelo e provavelmente xingou Sasuke mentalmente. 

— Posso te pagar em pizzas? 

— Quatrocentos dólares em pizzas? — debochou, erguendo as sobrancelhas. — É mais fácil você me dar a pizzaria. 

Naruto ponderou, ele tinha razão. De repente, uma luz pareceu acender sobre a cabeça dele, os olhos azuis vibraram. 

— Te dou pizza de graça por um mês. 

Zabuza apareceu, interessado. 

— Dois meses — insistiu. 

— Um mês e meio. — Naruto franziu o cenho. 

— Quatro meses — Sasuke propôs e o loiro quase sofreu um aneurisma. 

— Fechado — Kakuzu estendeu a mão na direção do Uchiha, que sorriu de orelha a orelha. — Boa noite. 

Quando pisamos no primeiro degrau da escada, Naruto começou a protestar. 

— Quatro meses?! Você quer me falir, seu filho de uma puta? 

— Fala sério, Naruto, use o cérebro. — Entramos em casa e Sasuke deixou as sacolas com os lanches sobre a mesa de jantar. — Quando chegar na terceira semana, eles já estarão enjoados de pizza. Quem aguenta comer pizza durante quatro meses? 

— Bem, eu trabalho com elas há seis anos — ele argumentou, dando de ombros. — De qualquer forma, eu quero que me pague seus duzentos dólares. 

— Eu não tenho esse dinheiro. 

— Sua namorada é rica, peça para ela. 

— Peça você. Não são primos? 

— Vou aproveitar e foder ela na sua cama também. 

— Talvez ela te dê um HRV. 

— Será que podem calar a merda da boca? — pedi, tirando os sapatos. Minhas pálpebras pulavam incessantemente e eu tive vontade de enfiar aquelas duas sacolas dentro da boca de cada um. — Vocês discutem o dia inteiro, não podem ficar juntos.

Quando Naruto abriu a boca para despejar sua onda de retrucamentos, foi interrompido pelo toque estridente de seu celular. Em busca de mais silêncio, ele caminhou para a cozinha, deixando eu e Sasuke ali. O moreno se jogou ao meu lado no sofá e colocou as mãos na barriga, fitando o teto junto comigo. 

— Você vai esquecê-lo — afirmou. 

— O quê? — Virei a cabeça em sua direção, mas ele se limitou a fechar os olhos.

— Sasori. Você vai esquecê-lo, eu tenho certeza. 

— Eu não sei por que ele fez isso. 

— Por insegurança, medo. — Juntei as sobrancelhas e ele respirou fundo, abrindo os olhos novamente e direcionando-os para mim. — Às vezes, ter uma garota tão incrível e tão linda pode ser bom e assustador ao mesmo tempo. Se ele não perceber o que está deixando para trás, tenho certeza de que vai se arrepender. 

— A Hinata é linda — rebati, e uma porção de lágrimas se formou nos cantos do meus olhos. Senti Sasuke se aproximar, me envolvendo com os braços e apoiando o queixo no topo da minha cabeça. — Ele a tem. 

— Você é muito mais linda, Sakura. Tanto por fora quanto por dentro. 

— Acho que eu não tive tempo suficiente para mostrar isso a ele. 

Ouvi uma risada curta e nasalada vinda dele. 

— Pode apostar que teve. No primeiro dia em que eu te vi, já consegui perceber o quão brilhante você era. 

— Você só está tentando me animar. — Revirei os olhos. 

Sasuke não me respondeu absolutamente nada, e nós permanecemos naquela posição até Naruto voltar. 

— Eu estou atrapalhando alguma coisa? 

— É claro que não — Sasuke negou, se levantando imediatamente. Percebi suas bochechas ligeiramente coradas enquanto Naruto murmurava algumas provocações idiotas. — Bom, Haruno, vai precisar de algum de nós para te fazer companhia? Por favor, escolha o Naruto porque as minhas costas já estão pedindo arrego. É a quarta noite consecutiva que durmo nesse sofá. 

— Pensei que gostasse dele — alfinetei, sorrindo de canto. — De qualquer forma, acho que posso ficar sozinha. 

— Tem certeza? — O as sobrancelhas loiras se juntaram, apreensivas. Assenti com a cabeça. — Se precisar de qualquer coisa, não hesite em ligar. 

Levei-os até a porta e fui surpreendida com beijos na testa. Um pouco sem reação, encarei as costas dos garotos até que chegassem no andar debaixo. Quando fui fechar, Sasuke se virou uma última vez. 

— Deixei um BigMac com você, faça o favor de comê-lo. 

— Não precisava! — berrei. — Eu disse que não estava com fome. 

Ele sorriu de canto. 

— Repita isso daqui duas horas. 

Revirei os olhos e tranquei a porta, virando-me na direção da embalagem sobre a mesa de jantar. Balancei a cabeça para os lábios, sem conseguir conter um sorriso bobo. Eles eram tudo o que eu precisava. 

[...] 

Coloquei a roupa de dormir e me espreguicei entre os lençóis, inalando aquele típico cheiro de chuva que sempre trazia tantas lembranças. Me ajoelhei sobre o colchão e apoiei os cotovelos no parapeito da janela, fitando a rua abaixo. Não estava mais chovendo tão forte, o céu limitava-se a prover uma garoa fina e inaudível, mas que era suficiente para converter um cenário monocromático e melancólico. Estendi o braço mais a fundo e senti as gotas geladas respigarem na ponta dos meus dedos. 

A lua não era cheia e nem muito brilhante, apenas trazia o minimo de luz que pudesse a escuridão da noite. Estava ventando um pouco porque as folhas das árvores balançavam. No final da minha rua, um dos postes de iluminação estava queimado há mais de dois meses. Destacando-se na penumbra, entre a passagem de luz da janela e o breu dentro do quarto, a tela do meu celular se acendeu.

Cogitei nem mesmo ver a mensagem recebida porque era bastante provável que fosse um telemarketing de venda, mas quando o visor brilhou outra vez, me estiquei para pegá-lo. Era Sasori, o que particularmente fez minha frequência cardíaca explodir. A mensagem era fria e cortante, bem como ele esteve comigo há uma semana atrás. 

Vc consegue me encontrar na empresa agr? 

Olhei para o horário no canto superior do meu celular e franzi o cenho, incrédula. 

É uma da manhã, qual é o seu problema? 

Ele demorou alguns segundos para me responder. 

Consegue ou não? 

Aquilo me tirou do sério, senti o coração na garganta, pedindo para ser cuspido para fora. Como de costume, algum lado da minha pálpebra começou a pular. 

Não consigo. 

Mandar aquela mensagem havia sido doloroso, mas algo dentro de mim afirmava que, a longo prazo, fora o melhor a se fazer. Fechei os olhos depois de alguns longos minutos sem resposta e, com o coração apertado, tentei dormir. No entanto, ao ouvir a primeira vibração, a vontade colossal de abrir a mensagem superou todas as forças que iam contra esse ato. Infelizmente, fazer papel de trouxa já estava dentro do meu sangue. 

Se vc não vir, eu vou te buscar.

Grunhi ao ler. Quem ele pensava que era? Algum chefe meu? 

Estou indo dormir, não vai rolar. 

Eu não precisava olhar para a cara dele para saber que, nesse momento, sua expressão facial resumia-se em puro tédio e uma parcela de ódio. 

Blz. Tô passando aí, seu saco de vacilo. 

Respirei fundo e fechei os olhos. 

Eu vou te encontrar na empresa, me dê meia hora. 

Desci da cama e me arrastei para o guarda-roupa, vestindo a primeira coisa que me aparecesse, o que me rendeu num vestido branco até o meio das canelas e sandálias da mesma cor. Limitei-me a pentear os cabelos e, vendo o quão bagunçados, optei por prendê-los com grampos. Peguei minha bolsa e chamei um Uber; eu faria Sasori me pagar depois. 

— Boa noite, senhorita — disse o gentil motorista ao estacionar o veículo na frente do enorme prédio. 

Agradeci sem prestar muita atenção, e foi só quando o homem deu partida que eu pude encarar o silêncio e o desguarnecimento daquela rua. Olhei para os lados e não constatei uma alma sequer. O prédio estava trancado e eu xinguei Sasori de todas as palavras imagináveis. Além de ser folgado, não dava a minima importância para a minha segurança. 

Então meus pelos do corpo inteiro se enrijeceram no instante em que ouvi o estalo alto e cortante de uma porta batendo; tratava-se da porta de um veículo. Girei os calcanhares na direção do barulho e lá estava ele, contornando o Porsche branco com os cabelos bagunçados e um meio sorriso de canto estampado nos lábios. Senti o suor frio escorrendo pelas palmas das minha mãos, provocando cócegas. 

— Vamos entrar? 

Eu estava com um pouco de sono; fiz que sim com a cabeça e comprimi os lábios para evitar um bocejo. Quando ele passou ao meu lado, inalei o seu perfume amadeirado e viciante, apertando o passo para segui-lo. Sasori discou alguns números em algum aplicativo do celular para desfazer os alarmes da empresa, então abriu a porta e me deu passagem. 

Havia uma coleção de borboletas no meu estômago, o que se intensificou consideravelmente quando ele parou ao meu lado, à espera do elevador. 

— O que você quer comigo? — perguntei, sem aguentar o silêncio. — Depois de tu...

— Falar umas verdades que não estão me deixando dormir — afirmou, me calando imediatamente, ao passo que entrava no mecanismo sem me olhar. — Eu odeio muito só conseguir ficar pensando em uma coisa vinte e quatro horas por dia. 

Ele apertou o botão que correspondia ao último andar. 

— Pode começar, então. 

— Ainda estou pensando. 

— Se me chamou aqui a essa hora, já devia estar com o seu texto decorado. 

Ele riu nasalado e meus pelos do braço vibraram. 

— Desculpe, não sou muito bom com esse tipo de coisa. 

— Como não? — alfinetei, cruzando os braços. — Você dá palestras pelo mundo inteiro e vem me dizer que não é bom com palavras? 

— É. Digamos que eu esteja fora da zona de segurança — sorriu cinicamente, dando um passo à frente, e eu precisei de algum tempo para me mover e sair do elevador que já havia parado no andar. — Você já foi na sala de reuniões? 

— Acho que não. 

— Certo, vamos para lá, então. Quero te mostrar uma coisa. 

Segui ele em meio há diversas portas, até que Sasori abriu a última do corredor, fazendo a gentileza de me deixar entrar antes. 

Era uma sala grande, com uma mesa oval e certamente de madeira maciça no centro, envolta por muitas cadeiras. Não tratava-se de algo propriamente luxuoso, talvez até simples demais em comparação com o resto da empresa. No entanto, havia algo de diferente que trazia toda a exclusividade para aquele ambiente: uma parede inteiramente de vidro que nos permitia enxergar o banho de luzes coloridas que era a grande Chicago. 

Me aproximei daquela imensa janela e senti um frio na barriga não só por estar a tantos metros do solo, mas também por ter a honra de ver, pela primeira vez, toda a cidade. Os carros eram como vaga-lumes durante a noite, se movendo depressa e prendendo a atenção de quem os olhasse; os prédios menores e as casas se assemelhavam às estrelas, grandes e fixas. Toquei o vidro com a ponta dos dedos e prendi a respiração. 

— É bonito, não é? — Sua voz baixa e mansa acariciou meus ouvidos com ternura, mas não consegui desviar os olhos em sua direção. Senti que ele também estava observando o mesmo ponto que eu. — Eu sempre venho para cá quando preciso me acalmar. 

— E funciona? 

— Acho que não consigo mais perceber se funciona mesmo. 

Havia quentura em sua aproximação; ele parou ao meu lado e eu finalmente tomei coragem para encará-lo. 

— Por que me chamou aqui? 

— Porque eu te devo desculpas. 

— Desculpas? — repeti, confusa. — Pelo quê? 

— Por ter dito todas aquelas coisas, eu fui um puta covarde e você não merecia. 

— Você estava certo, Sasori — afirmei, me afastando um pouco. — Afinal, somos de mundos muito diferentes. 

— Não, eu não estava nem um pouco certo. Eu... 

— Nós só tínhamos sexo — pontuei simplória, sentindo o coração apertar. Talvez fosse o mais sensato a se fazer, eu não queria ser pisada outra vez. — Não precisa se explicar, como você mesmo disse. 

Sasori ficou em silêncio e voltou seu olhar para a janela outra vez; fiz o mesmo, sem ter coragem suficiente para sair dali. Segundos se passaram, talvez até mesmo um minuto inteiro. 

— Não era só sexo... — Sua voz soou tão apreensiva e baixa, como se ele estivesse hesitante. — Desde o começo... Digo, talvez no começo... Não era, definitivamente. 

— O que você está tentando dizer? — Me virei para ele. 

— Para mim, não era só sexo — despejou. — Não dificulte as coisas, não é possível que você pense que era só sexo. 

Suspirei pesadamente, cruzando os braços sobre os peitos e dando um passo a frente. Ergui a cabeça, buscando uma certa determinação. 

— E por que eu não pensaria? Depois de tudo o que você disse para mim... Não acha que está sendo um pouco hipócrita? 

— Sakura, eu não disse tudo aquilo para te deixar mal — começou, de cabeça baixa. — Acredite, a última coisa que eu queria era te deixar mal.

— Então, por quê? 

— Porque o meu pai é um inseto de merda e armou tudo aquilo.

Novamente, ele dizia algo que mais se assemelhava com um belo soco no meu estômago. Pisquei algumas vezes, confusa. 

— Espera, ele pretendia me colocar na cadeia? 

— Não. — Suas bochechas começaram a adquirir cor. — Não era para eu estar te contando isso. Na verdade, não era para estarmos aqui, mas sou egoísta pra caralho. — Franzi o cenho, confusa, e ele respirou fundo antes de prosseguir. — Sakura, eu já fiz muita merda na vida, e uma delas foi ter aceitado me casar com Hinata. No entanto, eu não consigo me arrepender porque foi por isso que conheci você e, embora eu tenha tentado negar isso até Gaara quase socar a minha cara, me apaixonei. 

Senti o coração subir para a garganta outra vez. Ouvi-lo dizer aquilo era como cair de joelhos no asfalto quente de estrada, porque eu sabia que não terminaria em boa coisa. Sua expressão não era boa, tampouco fazia esforço para parecer convincente. 

— Sasori... 

Eu não tinha certeza do que responder. 

Mas ele me interrompeu: 

— Rasa ficou sabendo sobre a gente, tanto é que colocou seus homens na nossa cola. — Seus olhos se fecharam por instantes, Sasori se lamentava. Um riso sem humor escapou por seus lábios. — A culpa foi minha, porque eu sabia que isso viria acontecer uma hora ou outra, era só questão de tempo. 

— Eu ainda não estou entendendo... Por que o seu pai tem haver com isso? 

— O assalto foi armação dele para me fazer perceber o quão egoísta eu estava sendo. A intenção nunca foi prendê-la, mas Rasa sabia muito bem que colocar você em perigo mexeria os pauzinhos na minha cabeça. — Ele engoliu a seco e recostou o corpo no vidro. — Eu desafiei ele, e aquele foi só o começo. Aqueles caras estavam atrás de você, Sakura, e eu não seria tão filho da puta para pensar no que eu sentia e ignoraria o fato de que você estava correndo perigo. — Ele suspirou, eu realmente não sabia o que dizer. — Desculpe, eu só não queria que me achasse um merda qualquer, Haruno. Eu não estava apenas brincando de sexo sem compromisso com você.

Abri a boca, sem ter muita noção do que dizer a ele. Mas acho que foi pelo fato de seus olhos não estarem sobre mim ou porque ele parecia tão vulnerável e submerso em seu próprio mundo de pensamentos que eu somente consegui abraçá-lo. Na verdade, senti que era o mais sensato a se fazer. Sasori não me correspondeu de primeira, mas eu o apertei ainda mais, incentivando-o toma controle de si mesmo outra vez. 

Afundei o rosto em seu peito e inalei o perfume que estava me fazendo falta há uma semana. Ele apoiou o queixo no topo da minha cabeça e nós perdemos a noção do tempo naquela posição. 

— Não fique tão quieta... — A sua voz saiu rouca e embargada, baixinha. — Fale alguma coisa, Haruno, silêncio não é a melhor resposta, vá por mim.

— Quando é o casamento? 

Sua respiração falhou. 

— Daqui três dias. 

— E como você está? 

— Já não deixei claro o bastante? — Ele se afastou de mim, um pouco alterado, me olhando nos olhos. — Por que eu não conheci você antes? 

— E qual seria a diferença? 

— Eu jamais aceitaria aquela merda de proposta, é óbvio. 

— Pense no dinheiro que vai surgir na sua conta bancária — tentei suavizar o clima porque meus olhos estavam ardendo e eu não queria chorar. 

— Estou cagando para o dinheiro — rebateu. — Pela primeira vez, eu estou realmente disposto a lutar por algo que não seja dinheiro. Então, por favor, não diga essas coisas. — Sasori respirou fundo e segurou meu rosto com delicadeza, encostando nossas testas. — Sakura...

— Nós não vamos mais nos ver depois disso, não é mesmo? — interrompi-o, já sentindo as bochechas molhadas. — Digo, você vai estar casado e eu... bem, eu vou seguir a minha vida. Não é verdade? 

O Akasuna abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada porque sabia que eu estava dizendo exatamente o que viria a acontecer. Passei alguns segundos ainda abraçada a ele, mas então criei coragem para me afastar. Limpei as lágrimas e forcei um sorriso. 

— Você vai se casar com uma mulher bonita e vai aprender a amá-la com o tempo — comecei, dando alguns passos para trás. — E eu provavelmente vou seguir a minha vida e tentar arranjar algum emprego fora da pizzaria do Naruto. — Sasori sorriu junto comigo e, ao fazê-lo, vi uma lágrima fina trajar seu próprio curso na bochecha dele. — Obrigada por me chamar até aqui e dizer tudo isso, e principalmente por se importar. O que nós tivemos foi intenso e eu não vou esquecer. Você não deveria desistir de tudo o que construiu até agora, até porque eu me sentiria culpada se o fizesse.  

Havia um imenso nó na minha garganta e ele franziu o cenho. 

— O que está falando? — questionou, limpando a lágrima e me deixando confusa. — Olhe só para você, me fazendo chorar... — Riu consigo mesmo e tornou a recuperar a distância que eu havia aumentado. — Sakura, o que você sente por mim? 

Permaneci em silêncio por algum tempo, então me veio à tona os momento nos quais admiti meus sentimentos internamente. Me recordei de horas antes, especificamente no quanto eu gostaria de ter ocupado o lugar de Shion naquela roda-gigante. 

— Eu te amo. — Ele sorriu e eu me esforcei para fazer o mesmo. — Aonde está tentando chegar?  

— Aqui. — Senti seus braços agarrando meus pulsos e, sem aviso prévio, me puxando para si. Fechei os olhos quando ele me beijou, e os abri novamente para encará-lo se afastando. — Você acha que dá conta de não me ver nunca mais? Ou de não sentir isso que você sentiu agora nunca mais? 

Puxei todo o ar pela boca e pisquei diversas vezes, vendo seu sorriso aumentar. 

— Para ser sincera, eu acho que não. 

— Então porque está dificultando as coisas? Deixe-me resolver isso tudo. 

— Eu não quero que você desista dos seus sonhos. 

Sasori riu sem humor. 

— Sonhos? — repetiu em tom de sarcasmo. — Acha que assumir essa empresa é meu sonho? Sakura, o meu sonho é me ver livre de toda essa merda e poder fazer o que eu quero — revelou, balançando a cabeça levemente. — E você conseguiu me fazer acordar e perceber que dinheiro não significa porra nenhuma quando não há felicidade. 

— Então... o que quer fazer? 

— Eu não faço a mínima ideia — deu de ombros e ergueu as sobrancelhas. — Reconstruir a minha vida, talvez? Do jeito que eu quero, sem ninguém para me dar ordens. 

— E o seu pai? O que ele vai pensar? 

— Não faço ideia, mas ele provavelmente vai tirar as minhas ações e entregá-las ao Gaara. Bem, não seria um mau negócio, eu dou total aval para o meu primo administrar essa coisa toda porque ele realmente gosta disso. — Sasori fez careta, um pouco pensativo. — Então... E quanto a nós, Sakura... Cara, eu amo você desde a primeira vez em que a vi, mas confesso que foi difícil admitir isso e precisei sofrer um pouco para perceber. 

Aquilo me abalou um pouco e fez minha frequência cardíaca triplicar. O Akasuna parecia ter sido abduzido porque, de repente, ele havia criado coragem suficiente para dizer tudo o que estava entalado dentro de si, destruindo aquela imagem fechada que antes aparentava ter. 

— E se o seu pai tentar algo pior? 

— Ele não vai, mas com uma pequena condição — começou, suspirando pesadamente. — Aí entra a proposta que eu estava cogitando te fazer quando te mandei mensagem. 

— E qual seria? 

— Eu vou morar na França — e, nesse momento, eu quase tive um aneurisma. — Tenho cidadania lá, e Rasa definitivamente não iria tão longe por puro capricho, portanto é o único jeito de eu seguir a minha vida sem ser interrompido. E, com certeza, é o único jeito de te ter ao meu lado da forma menos complicada. 

— E se não der certo...? Digo, se... — comecei, um pouco hesitante, e ele sorriu. 

— Se não darmos certo? — continuou, tirando as palavras da minha boca. — Sakura, eu estou jogando dados com o universo, tampouco tenho certeza de alguma coisa. Mas, se nós não darmos certo, você ainda terá uma casa aqui, além dos seus amigos. Não se preocupe com o dinheiro porque, mesmo saindo dessa empresa, eu ainda tenho o suficiente para fazer qualquer coisa. 

— Eu... preciso pensar — concluí, por fim. — Preciso consultar Sasuke, Naruto... 

— Está certo, mas lembre-se de que você tem menos de três dias — advertiu. — E, bom, o que você estará perdendo? 

— Eu não sei, Sasori, mas isso foi muito de repente — confessei, um pouco desesperada. — Eu nunca nem viajei para fora de Illinois, como pode me propor algo assim? 

— Não estou tendo outra saída, porra. 

Sasori tinha razão, mas aquela era uma sugestão definitivamente impossível de ser respondida de uma hora para outra. Pensar em largar minha vida em Illinois, mais especificamente o calor de Chicago chegava a ser como uma espécie de chachoalhão bruto que dizia "acorde". E eu também não podia simplesmente chegar com essa notícia para Sasuke e Naruto, era estritamente necessário ouvir a opinião deles sobre o assunto. 

—  Desculpe, eu realmente não posso te responder isso agora, certo? — decidi, após pensar durante algum tempo. — Mas vou pensar, eu prometo. 

— Para ser sincero, já esperava que você diria isso — comentou, suspirando. — Mas, sem problemas, você só não é impulsiva como eu. 

Sorri para ele, que retribuiu da mesma forma e intensidade. De repente, Sasori se sentou no chão e me puxou para fazer o mesmo. Percebi que em seu relógio de pulso já marcava três da manhã. Então deitei a cabeça sobre o ombro firme e largo, sentindo-o me envolver com um dos braços. 

Assisti à Chicago até não ter mais forças para mantes os olhos abertos. Antes de escorregar pelo corpo de Sasori e deitar em seu colo, pude ouvi-lo perguntar a si mesmo:

— Por que eu não conheci você antes? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Notas Finais


Uma das poucas vezes que eu não posto um capítulo de madrugada. rs.

Espero que tenham gostado,
um beijinho!


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