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História A base de mentiras - Capítulo 532



Notas do Autor


Olá galeraaaa! Como vão?!

A partir de amanhã terei aulas online de francês :')

Boa leitura!

Capítulo 532 - O outro lado da história - Parte três


Fanfic / Fanfiction A base de mentiras - Capítulo 532 - O outro lado da história - Parte três

Ash

Após me recompor, começo a avaliar as coisas que tem aqui dentro, procurando por alguma coisa que possa me ser útil. Procuro entre os materiais de limpeza, encontro alguns de borrifar, até que é uma boa ideia levar um desses comigo e, se algo der errado, eu posso espirrar isso nos olhos dos outros. É, é uma boa ideia, então já separo um desses pra levar comigo. 

Encontro vassouras, o cabo delas é bom pra bater nos outros, mas é grande demais pra eu sair andando por aí com uma delas sem ser visto. Mesmo que seja bom pra bater, é melhor eu não levar uma vassoura, ela iria inclusive me fazer andar mais devagar. Continuo procurando por outras coisas, mas não encontro nenhuma outra coisa útil por aqui, então vou ir só com o líquido de limpeza borrifante. 

Volto para a porta e presto novamente atenção em sons do lado de fora, não escuto nada, o que significa que eu tenho que ir agora. Tranquilizo-me uma última vez para garantir que vai dar tudo certo, nada pode dar errado porque senão eu vou ser uma pessoa morta. É por isso que eu estou fugindo daqui, dessas pessoas, dessa cidade, eu estou com medo deles me matarem. 

A verdade é que eu não queria ter que fugir, eu gostava muito da base e eu era feliz lá. Queria poder voltar pra lá, queria que nada tivesse acontecido. Aquela base foi o lugar mais legal em que eu já estivesse, eu pretendia ficar lá por muito tempo porque eu tinha certeza que lá dentro eles nunca iriam me encontrar, mas agora eu nem posso mais voltar. 


Flashback on:

Acordo sobressaltado quando escuto a porta abrir, imediatamente sento-me de olhos abertos, dando de cara com a Hinan. Respiro fundo e relaxo um pouco, é só uma garotinha inofensiva menor que eu, tão pequena que eu acho que poderia imobilizá-la se ela tentasse fazer algo contra mim. Esfrego meus olhos, afastando o resto de sonolência que ainda não havia ido embora só com o susto que ela acabou de me dar. 

- Por que você nunca bate na porta antes de entrar? – Pergunto, eu já pedi várias vezes para a Hinan bater antes de sair entrando, principalmente se eu estiver dormindo. 

- Amigos não precisam bater na porta um do outro, nós só entramos. – Ela retruca, às vezes eu invejo como as coisas parecem ser tão fáceis e simples para a minha amiga. Ela é exatamente a pessoa que eu estou fingindo ser, uma criança maltratada pelos pais que foi posta para fora de casa, acho que eu até gostaria de realmente ser como ela. 

- Fecha a porta e senta naquele cantinho. – Peço, apontando pro cantinho de sempre onde eu até deixo um travesseiro pra ela sentar ou se ajoelhar. A Hinan passa engatinhando por mim, fecha a porta e depois vai até o canto livre onde se senta. Pego um pacote de salgadinhos e abro, eu estou com fome depois de ter ficado horas sem comer. – Quer salgadinho?

- Quero. – Ela responde, inclinando-se pra frente e metendo a mão dentro do pacote, pegando um monte de salgadinhos de uma vez só. – Você só vai comer isso? Não quer ir jantar no refeitório? 

- Mais tarde eu vou, até lá eu mato um pouco da fome com salgadinho. – Explico, ainda está muito cedo pra ir ao refeitório, ele ainda deve estar meio cheio. Por isso eu guardo salgadinhos aqui, eu sempre como um pouquinho deles antes de ir jantar, é como se fosse o meu café da manhã. – Como foi o seu dia? 

- Hoje eu falei com as meninas populares da minha turma! – A Hinan conta de forma orgulhosa, eu não entendo esse negócio de garotas e garotos populares, mas fico feliz pela Hinan ter feito algo que ela queria fazer. 

- E sobre o que vocês conversaram? 

- Eu falei boa tarde pra elas e elas deram boa tarde pra mim. – Ela diz e eu espero que a Hinan conte sobre o resto da conversa, mas ela não fala mais nada, é aí que eu entendo que essa foi toda a conversa que ela teve com as meninas populares. Tento segurar minha súbita vontade de rir, mas acho que falho devido ao olhar que a Hinan me lança. – Pode ter sido pouca coisa, mas esse é só o começo, logo logo eu estarei ocupando o lugar delas e serei a garota mais popular desta base! 

- Boa sorte com esse seu plano. – Afirmo, torcendo o pacotinho de salgado e o guardando de novo, ainda sobrou um restinho que eu posso comer outro dia. Aqui não é muito grande, não dá pra ficar em pé e o espaço pros lados também é meio pequeno, por isso eu dou de cara com o meu carrinho quando vou guardar o pacote. Não sei como pude me esquecer, eu estava muito animado pra mostrar pra Hinan, na verdade eu ainda quero mostrar. – Hinan, olha o que eu ganhei. 

- Um carrinho? – Ela indaga e eu balanço positivamente minha cabeça, esticando meu braço com o brinquedo na direção dela para que a Hinan possa ver. – Que legal, podemos brincar com o seu carrinho novo hoje. 

- Sim. – Concordo, essa era a minha ideia quando mostrei meu brinquedo pra Hinan, eu estava animado pra poder brincar de carrinho com ela. – Me espera lá fora que eu vou trocar de roupa pra irmos brincar. 

- Tá, não demora. – Ela manda, engatinhando até a porta e quase atropelando minhas pernas devido ao espaço pequeno, mas a Hinan consegue sair sem causar nenhum incidente. Assim que ela fecha a portinha, enfio minha mão debaixo do travesseiro e pego as duas cartelas de comprimidos que já estão acabando. Pego um de cada e engulo, vou ter que economizar ainda mais nas drogas e também pensar numa nova forma de roubá-los. 

Volto a esconder as drogas debaixo do travesseiro e saio de debaixo do cobertor, pegando a roupa que eu separei para colocar quando a Hinan viesse me chamar. O espaço pequeno daqui dificulta um pouco trocar de roupa, mas, com esforço e jeito, consigo tirar o pijama e colocar a blusa com a calça. Pego o carrinho de novo e vou engatinhando até a porta, saindo de cima da minha cama improvisada. Chego à porta e a empurro, abrindo a passagem para que eu possa sair. 

Levanto e me coloco de pé, trato de primeiramente esticar e alongar meu corpo depois de todas as horas que eu passei dormindo encolhido e meio torto. Pelo menos eu dormi bem, muito bem, e agora me sinto cheio de energia para aproveitar a noite. Seguro meu carrinho com só uma mão e uso a outra para pegar a mão da Hinan, em seguida saio correndo com ela pelos corredores em busca do melhor lugar para brincarmos. Eu já conheço esse lugar com a palma da minha mão, fiz questão de passar minhas noites rodando por todos os cantos possíveis daqui, levei mais ou menos uma semana pra conseguir andar e decorar todos os caminhos. Graças a isso, eu já sei onde ficam meus lugares favoritos. 

Paro de andar quando chegamos a um corredor que fica vazio nesse horário, ele é escondido e não se trata de um corredor movimentado que liga áreas importantes, na verdade a única função dele é a de observar o mundo exterior. Paro ao lado da enorme janela que cobre a parede, mostrando nada mais nada menos que o oceano, a escuridão do oceano. Além deu gostar desse lugar por ele ser vazio e quieto, eu adoroessa parte da base pela vista incrível dessa enorme janela.

 Às vezes esse lugar, mesmo sendo enorme, me sufoca porque eu não consigo ver o sol. Antigamente eu fazia isso todo dia, eu sempre via o sol nascer pela janela grande do meu quarto, essa era a única coisa que me dava à sensação de estar vivo. Mesmo que agora eu esteja no mundo real, eu ainda sentia falta de observar o mundo por uma janela, eu sentia falta de ver o céu escuro ganhando cor e de ver os vários altos prédios que formam uma cidade. Aí eu acabei encontrando esse corredor com uma das únicas janelas dessa base inteira e mesmo o cenário sendo muito diferente do que eu costumava observar, ainda é uma imagem do mundo fora dessas paredes. Eu não consigo ver o nascer do sol por essa janela, mas eu posso ver uma quantidade de água muito maior do que eu pensava que pudesse existir e também vários animais incríveis, é como observar um novo mundo e isso faz com que eu me sinta longe, mas muito longe da minha antiga vida. 

Aperto o interruptor do lado da enorme janela e luzes muito fortes iluminam o lado de fora, tornando visível todos os animais e todas as plantas do oceano. Ajoelho-me logo ao lado da janela e coloco meu carrinho no chão, enquanto a Hinan se senta longe de mim, mas na minha frente. Miro na direção dela e empurro o carrinho com força, fazendo as rodinhas dele girarem e ele andar até a Hinan que o pega e joga de volta pra mim. É divertido, eu poderia ficar brincando de carrinho e conversando com a Hinan por horas, pena que dormimos em períodos diferentes.

Pego o carrinho e não o empurro de volta para ela ao vê-la bocejando, ela está claramente lutando contra o sono para manter os olhos abertos, isso significa que por hoje já chega. As crianças daqui dormem de noite até parte da manhã, a Hinan é uma dessas crianças, mas eu durmo de manhã até o final da tarde. Então eu e ela nunca conseguimos brincar por muito tempo porque ela fica cansada muito rápido de noite e vai dormir logo depois deu acordar, mas eu gosto mesmo assim, afinal a Hinan é a primeira criança que já brincou comigo e eu gosto de brincar com ela mesmo que seja por pouco tempo. 

- Você tá com sono, né? – Pergunto, ela tenta negar, mas eu não acredito nela. – Vamos, eu vou com você até o seu quarto. 

Levanto do chão antes que ela negasse de novo, enquanto espero ela se levantar eu vou até o interruptor e desligo as luzes do lado de fora, eu não vou voltar pra cá depois que a Hinan for dormir. Vamos andando devagar pelos corredores em direção à área dos quartos das crianças sem família, alguns poucos adultos passam por nós e falam que a gente deveria estar dormindo, eu escuto isso toda noite várias e várias vezes. 

- Até amanhã? – A Hinan interroga quando chegamos na porta do quarto dela, se eu não me engano ela só divide o quarto com mais uma menina. 

- Até amanhã de manhã. 

- Você vai pra escola amanhã? – Ela pergunta e eu não sei como responder, eu sempre fico na duvida sobre esse assunto. Todo dia eu mando a Hinan ir me acordar quando ela estiver indo pra escola, eu peço pra ela fazer isso pra ver se eu decido algum dia ir, mas eu sempre acabo decidindo voltar a dormir. Eu tenho vontade de aprender a ler e a escrever, na escola se aprende esse tipo de coisa, mas as aulas são bem na hora que eu tô dormindo. Sem falar que a Hinan me contou que eu não sou da turma dela porque eu sou mais velho, na verdade eu sou de uma turma especial com crianças de várias idades diferentes, crianças que eu não conheço. 

- Eu vou pensar nisso quando você me acordar... – Digo sem muita confiança, imaginando que vou acabar fazendo o mesmo de sempre. Ela só balança os ombros diante da minha resposta e ia entrar no seu quarto, mas lembro de uma coisa. – Hinan... Sabe as suas canetinhas coloridas? Você pode deixar eu ficar com elas só essa noite? 

- Eu as levo pra escola. Você vai me devolver amanhã antes deu ir pra escola? 

- Sim, eu te devolvo quando você me acordar amanhã antes de ir pra escola. – Respondo, então a Hinan entra no quarto dela e volta com a caixinha de canetas coloridas. Pego e sorrio pra ela, vou tomar muito cuidado com as canetas dela. – Boa noite Hinan.

- Boa noite Ash. – Ela diz e entra de vez no quarto, fechando a porta e provavelmente indo dormir. Agora é a hora deu ir jantar, já não deve ter mais muita gente no refeitório, porém antes eu vou tomar banho. E, pra tomar banho, eu tenho que ir ao meu quarto porque o banheiro fica dentro do quarto. 

Ando bem devagar na direção do meu quarto, já sabendo exatamente o que vai acontecer, mas eu tenho que tomar banho e não conheço nenhum outro lugar que eu possa fazer isso. Seguro a caixa de canetinhas e o carrinho só com uma mão para abrir a porta do meu quarto com a outra, abro bem devagar a porta para não fazer barulho e também abro bem pouco, só o suficiente para eu espiar lá dentro. Está escuro, não tem nenhuma luz acessa, eles já devem estar dormindo.

Tiro meus chinelos antes de entrar no quarto e os largo do lado de fora mesmo, não vou correr o risco de entrar de chinelo no quarto e fazer algum barulho antes de conseguir chegar ao banheiro. Abro um pouco mais a porta, criando um espaço grande o suficiente para que eu passe, portanto entro de vez no quarto que também é meu. Trato de fechar rápido, mas silenciosamente, a porta para que a luz vinda de fora não os acordasse. Sigo em direção ao banheiro no mais absoluto silêncio, tomando cuidado com cada passo que dou, por sorte esse chão não faz nenhum barulho quando se pisa nele.

Chego ao banheiro com sucesso, sem acordar nenhum dos três meninos que dormem nos dois beliches do quarto. Também tomo cuidado ao fechar a porta do banheiro, fecho-a sem fazer nenhum barulho e em seguida tranco-a. Relaxo e coloco meu novo brinquedo com as canetinhas da Hinan em cima da tampa da privada, vou deixar eles ali até eu terminar de tomar banho e depois vou guardar eles no meu esconderijo. 

Abro o armário debaixo da pia e pego uma toalha, penduro-a no box do chuveiro e tiro minha roupa toda. Entro no box e hesito na hora de abrir o chuveiro, o barulho vai acordá-los, não importa se eu abrir muito ou pouco o chuveiro. Então, como não faz diferença, abro muito o chuveiro pra cair mais água e eu conseguir terminar o banho mais rápido, sem falar que eu gosto de tomar banho com muita água. Entro de uma vez debaixo da ducha de água, minimizando o barulho, mas ele ainda existe. Não demora muito pra eu ouvir batidas furiosas na porta, logo sendo acompanhadas por gritos também furiosos. 

- PORRA ASH! DE NOVO COM ESSA MERDA DE TOMAR BANHO TARDE?! ESSE MALDITO CHUVEIRO FAZ UM BARULHO DO CÃO! – Ele grita, não sei qual deles é, ainda não consegui decorar a voz de cada um mesmo eles gritando comigo toda noite. – DESLIGA ESSA PORCARIA E DEIXA A GENTE DORMIR! NÃO ME IGNORA ASH! FALA ALGUMA COISA! EU JURO QUE ARROMBO ESSA PORTA SE VOCÊ CONTINUAR SE FAZENDO DE SURDO-MUDO! 

Continuo debaixo da água com a esperança dela diminuir um pouco do barulho que ele está provocando com seus gritos e batidas na porta, mas não é forte o suficiente pra realmente derrubar a porta. Mas, como eles fazem isso toda noite, tenho medo disso estar desgastando a porta e, um dia, ela acabar caindo de verdade. Foi por isso que eu roubei e escondi uma faca em um buraco na parede que fica atrás do espelho, essa faca é a minha garantia de que poderei me defender no pior dos cenários. 

- VAI PRO INFERNO GAROTO! VOCÊ NÃO É O ÚNICO DONO DESTE QUARTO! EU VOU FAZER QUEIXA DE VOCÊ PRA DIREÇÃO! – Ele avisa e eu tô torcendo pra ele realmente ir fazer queixa, vai ver assim me mudem de quarto e eu nunca mais precise ficar em um mesmo quarto que eles. 

Continuo tomando meu banho até que termino e desligo rapidamente o chuveiro, os gritos pararam um pouco antes disso já que ele deve ter se cansado. Pego minha toalha e começo a me enxugar, não tenho pressa para terminar de me enxugar, pelo contrário, quero demorar o máximo possível aqui pra dar tempo deles terem voltado a dormir ou pelo menos não estarem tão irritados comigo. Penduro a toalha molhada quando termino de me secar e visto a mesma roupa de antes, em seguida chego o espelho para o lado e confiro que a faca ainda está lá. 

Pego meu carrinho e a caixa de lápis da Hinan, preparando-me para destrancar a porta e sair do banheiro, mas primeiro trato de tentar escutar algo do lado de fora. Não escuto nada, não sei se é um bom ou mal sinal, mas sei que não posso ficar eternamente trancado nesse banheiro. Por isso destranco-a de uma vez, mas não abro com a mesma rapidez, na verdade eu abro bem devagar para ver se nenhum deles vai pular em cima de mim porque, se tentarem, eu posso recuar e pegar a faca. Decido sair quando vejo que não tem ninguém me esperando do outro lado, mas mal dou três passos pra fora do banheiro e vejo todos eles acordados, dois ainda nas camas e um deles encostado numa parede. Normalmente eu apressaria o passo para fora deste quarto, mas hoje eu preciso pegar uma coisa antes de sair.

Começo a procurar pela minha mochila da escola, eu ganhei uma cheia de material escolar quando cheguei aqui e eu deixei ela em algum lugar por aqui. Eu encontro minha mochila pendurada na cama de um deles, pelo visto eles roubaram minha mochila quando eu não estava aqui. Bem, não me importo tanta assim com a mochila, mas sim com as coisas que estavam dentro dela. 

- Você pegou minha mochila. – Afirmo, olhando pro garoto que está deitado na cama onde minha mochila está pendurada, logo deve ter sido ele que roubou minhas coisas. – O que você fez com o meu caderno? 

- Peguei para mim, você não vai para a escola mesmo, não precisava dele. – Ele rebate, é verdade que eu nunca vou à escola e que também nunca usei aquele caderno, mas hoje eu queria usar. Foi por isso que eu pedi as canetinhas coloridas da Hinan, eu as queria pra desenhar e eu ia desenhar no meu caderno da escola. 

- Eu quero o meu caderno. – Faço-me de forte, eu já estive com pessoas muito piores do que eles, então eu não devia estar com medo. Eu decidi que eu ia desenhar hoje, pra isso eu preciso de papel e o único lugar que tem papel é o caderno. 

- Vai ficar querendo.

- Tudo bem. – Digo diante da negação dele, porque acabei de me lembrar que eu não preciso desenhar necessariamente em papel. Vou até o armário grande no canto do quarto, onde ficam guardadas as roupas de todos nós. Procuro entre as roupas deles e encontro uma blusa branca pequena, como ele é o menor dos três e também o mais novo deles eu imagino que essa blusa seja dele, por isso pego-a. – Vou decorar sua blusa com lindas flores coloridas. 

- Você vai fazer o que?! – Ele exclama, quase gritando, pulando de cima da sua cama para o chão. Recuo alguns passos quando ele se aproxima, porém continuo segurando sua blusa, seguro com força. 

- Se controla, não bate nele porque senão depois vai dar merda pra cima da gente. – O que tá encostado na parede fala, desencostando dela e indo até a porta do quarto. – Não queremos machucar esse seu rostinho bonito Ash, então saiba que a porta do corredor é a serventia do quarto e você já pode dar o fora por ela antes que mudemos de ideia. 

Ele abre a porta e fica segurando-a aberta, enquanto o único garoto que ainda está na cama fica rindo da cena. Demoro um pouco para ir até a porta, a primeira frase que ele disse para mim trouxe de volta algumas memórias desagradáveis porque era muito comum eu ouvir que não queriam machucar meu rostinho bonito, exatamente o que ele acabou de falar. Atravesso o quarto quase correndo quando volto pro presente e, assim que passo pela porta, ele a bate com força atrás de mim. Fico feliz por estar aqui fora e eles lá dentro, eles são a única parte ruim dessa base. 

Agora, depois de já ter passado por essa parte horrível da minha noite, posso ir enfim jantar e matar de vez a minha fome, mas antes vou passar no me esconderijo secreto para guardar o carrinho, as canetinhas da Hinan e a blusa do garoto. Eu realmente pretendo desenhar na blusa, eu quero desenhar e eu só tenho a blusa branca dele, então é claro que eu vou usar.

Chego na portinha e abro ela, em seguida me ajoelho e engatinho lá pra dentro, mas não entrou por inteiro. Coloco o carrinho de volta no cantinho dele, guardo a caixinha de canetas coloridas da Hinan no lugar que ela tinha sentado antes, em cima da almofada, e jogo de qualquer jeito a blusa dele na minha cama improvisada. Guardado todas as coisas, engatinho de ré e saio do meu esconderijo, fechando a porta dele e me levantando para ir pro refeitório.

Confiro se ele está mesmo vazio antes de entrar, por sorte está, então eu entro e pego um dos vários pratos empilhados. Vou até o balcão onde tem várias comidas diferentes, quase pulo de alegria quando vejo que tem yakisoba. Eu adoro, adoro, adoro, adoro yakisoba, é a melhor comida que eu já comi e eu posso comer muito sem passar mal. Pego o pegador e começo a colocar yakisoba no meu prato, não tem muito já que todo mundo já deve ter comido, então coloco logo tudo no meu prato.

Na hora de sentar pra comer, procuro por uma mesa vazia porque mesmo que o refeitório não esteja cheio, ainda tem alguns adultos comendo por aqui. Mas não é difícil encontrar uma mesa vazias, tem várias e eu sento na primeira que encontro. Pego meus hashis e ataco o yakisoba, ele não tá muito quente, mas também não tá frio, mas yakisoba é ótimo de qualquer jeito e esse tá maravilhoso como todos os outros que eu já comi aqui. No início minha fome é tão grande que só me concentro no prato de yakisoba, porém depois deu já ter comido um pouco começo a analisar as pessoas ao meu redor.

Como eu já tinha reparado, praticamente só tem adultos aqui, tirando eu e uma garota que parece ter a minha idade em outra mesa sozinha. Ela não tá comendo nada e também não tá sentada numa das cadeiras da mesa, ela tá sentada numa cadeira diferente que tem rodas como se fosse um carrinho. É estranho, não só a cadeira, ela não estar comendo é a coisa mais estranha já que aqui é um lugar que as pessoas vem pra comer.

- Cupcakes recém-saídos do forno só pra você minha borboletinha. - Um garoto mais velho que eu sai de dentro da cozinha equilibrando uma bandeja cheia de alguma comida colorida, eu nunca tinha visto uma comida rosa e roxa. Ele se senta na mesa da garota sozinha e coloca a bandeja com a comida colorida na mesa, entre eles dois. - Espera um pouco, eu já volto, esqueci de pegar uma bebida pra você.

O garoto volta pra dentro da cozinha, então ela não está sozinha e ele deve ser irmão mais velho dela, ela é uma das crianças com família. Volto a focar no meu yakisoba que já está no final, pouco depois já não resta nem mais um fio no meu prato. Acabou tão rápido, mas minha fome também acabou, se bem que se tivesse mais yakisoba eu até comia mais.

- Garoto loirinho. - Levanta meu rosto quando escuto isso, afinal eu sou o único garoto aqui e também sou loirinho. Meu olhar acaba encontrando com o da menina que eu tava observando antes, foi ela que me chamou. - Quer um cupcake? Meu pai fez muitos cupcakes.

Acho que ela tá falando das várias comidas rosa e roxa na bandeja, talvez eu esteja curioso para saber qual é o gosto desses tais cupcakes, por isso levanto da cadeira e vou até a mesa dela. A menina pega um dos cupcakes e estende na minha direção, eu pego e começo a analisar essa comida. Ela é redonda e grossa, ela afunda quando eu aperto, então também é fofa e macia. Esse cupcake é realmente rosa e roxo como eu tinha visto de longe, na verdade ele é mais roxo do que rosa, a única parte rosa é um desenho de borboleta que tem nele.

- Morde. - Falo, devolvendo o cupcake pra ela que fica me olhando com uma cara estranha. - Eu só vou comer se você morder antes.

- Tá... - Ela pega o cupcake e morde, uma mordida pequena, mas tá valendo. Pego a comida colorida de volta e fico parado um pouco perto dela, pra ter certeza que ela engoliu e que nada aconteceu. Como tudo parece certo, aí sim eu provo essa comida nova.

- É doce. - Comento, não pensei que fosse ser doce. Geralmente eu não gosto de comidas boas, mas esse é diferente, é bom. - É gostoso.

- Né? Meu pai faz os melhores cupcakes do mundo! - Ela exclama, mas não concordo nem discordo dela, afinal nunca comi nenhum outro cupcake.

Afasto-me da mesa dela quando vejo que o garoto, pelo visto pai dela, está voltando. Levo o cupcake comigo, claro, eu vou comer ele até o final, mas enquanto ando de volta pro meu esconderijo. Acho que agora eu vou desenhar ou brincar sozinho com meu carrinho novo ou quem sabe eu volte pra janela grande e fique vendo os peixinhos nadando. Eu posso escolher o que fazer, eu posso fazer o que quiser, o que eu quero fazer, eu adoro esse lugar.


Flashback off:


Sacudo minha cabeça e paro de pensar, tem horas que pensar demais não é bom e essa é uma dessas horas. Eu não posso mesmo nunca mais voltar pra lá, então não faz sentido eu ficar pensando em como minha vida era e como poderia ter sido se jamais tivessem tido a ideia de tirar todas as crianças da base e mandar pra outro lugar. Eu poderia estar dormindo agora, mas eu estou aqui, tendo que fugir das pessoas que um dia quiseram cuidar de mim.

CONTINUA... 


Notas Finais


A palavra de hoje é "Mesebave"
Bisous !


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