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História A Batalha dos 2 Mundos - Capítulo 16


Escrita por: JE_Rodrigues

Capítulo 16 - Capítulo 12 LEMBRANÇAS PARTE 4 A ÚLTIMA TARDE. (RASCUNHO


Após “observar” o novo Sunwish e seus companheiros fugirem do Leste através de um corredor natural de rochas, Vaniel rabiscou um dragão em seu caderno ao lado do texto que acabara de escrever, mas percebeu que não era muito bom em desenhar e dificilmente aquilo poderia ser reconhecido como um dragão, quanto mais a garota desforme desenhada montada na criatura se parecia com uma garota.

-Esse também é uma cópia imperfeita!

Disse ele e devolveu o caderno para uma caixa empoeirada tirada da enorme pilha ao lado de seu sofá-cama justamente para este fim, depois arrastou-a para debaixo da cama a escondendo.

Quando escrevia, Vaniel mergulhava em seu próprio mundo de fantasia era como se pudesse enxergar aquilo que escrevia com uma clareza em sua mente e não era para menos, afinal ele houvera sonhado com tudo aquilo nos raros momentos de sono, claro que as coisas não eram tão detalhadas, esses pequenos acertos precisaram serem feitos depois, o que em nada prejudicou a loucura de seus sonhos. Na madrugada daquela noite não foi diferente, Vaniel tentou fugir da realidade do dia anterior se dedicando ao texto e, sem perceber, o dia já havia raiado quando ocultou seu universo debaixo do que chamava de cama. A luz do dia revelou também uma pessoa apressada entrando em seu “quarto” com passos pesados, a figura se aproximou e bateu com força maior que a dos passos anteriores, os pés no chão bem em frente a Vaniel, e disse:

-“Mais ondi é que cê tava até tarde da noite”?

-“Fazenu u quê na rua, possu sabê”?

O tom que usava ao falar era bastante ríspido, demonstrando muito mais raiva e “implicância” do que preocupação com o bem-estar ou mesmo a conduta do filho (adotivo):

-Não fiquei até tarde na rua, cheguei bem antes das onze horas, saí de meu trabalho as nove como de costume e passei no Dojo para pegar o final do treino, apenas isso.

Respondeu Vaniel com cansaço na voz, pois ser um adulto que cumpre seus deveres e chega no mesmo horário em casa todos dias e mesmo assim tem de dar explicações, é uma rotina bem cansativa não acha?

Sua resposta habitual de nada adiantou e a imagem do rapaz aparentemente escondendo algo embaixo de sua cama, fez com que sua mãe (tia) tivesse… ou melhor: criasse para si mesma uma impressão totalmente errada da situação, e como faria qualquer “boa mãe”, ela tentou averiguar de que se tratava para que pudesse impedir aquilo:

-“Isso é o qui cê diz, cê pudia ‘tá’ fazenu qualqué otra coiza, tá até iscondenu coizas debaxu da cama”!!!

Em seguida Myrianda caminhou com seus passos pesados novamente em direção a cama do rapaz e se inclinou como se fosse apanhar um objeto no chão, obviamente tinha intenção de apanhar a caixa embaixo da “cama” guardada ali instantes atrás, isso causou uma profunda frustração e irritação no rapaz, não somente pela atitude que sua mãe sempre tinha para com ele, mas também imaginou em um segundo, baseado em toda a experiência recente que havia tido com sua família, que haveria uma reação de desaprovação, provocação e destruição por parte de todos quando lessem “o conteúdo hediondo de seu livro”. Vaniel saltou imediatamente da cama se colocando entre Myriandra e seu objetivo, de modo que a mesma teve de recuar um passo desajeitado e inesperado, o rapaz olhou tão fixamente para ela e com tanta intensidade que ela poderia jurar que a agudez de seu olhar havia projetado uma única onda vermelha no ar em sua direção; é claro que ela nada não entendeu o que foi que ocorreu e também não adiantaria explicar o que foi aquele possível “golpe iminente” que momentaneamente lhe roubara as forças e ameaçou lançá-la ao chão. Vaniel se recordou imediatamente que nossos desejos podem se manifestar em realidade, como aprendera antes e deixou de alimentar a raiva, até mesmo pensou em se desculpar, afinal de contas houvera tido uma atitude hostil para com a própria mãe, mas não pôde falar devido aos longos minutos que se passaram enquanto ouvia os discursos morais de “conduta noturna” e de transparencia do que fazia que eram declamados com tanta “propriedade” por Myriandra, neles haviam muitas regras, tais como “o quê” poderia, e “o quê” não poderia fazer, e “com quem” fazer… sim, por mais abominável que possa ter sido, sua “mãe” lhe deu tal “aula”!

Ao término do discurso não é necessário dizer que a fúria do garoto era muitas vezes maior do que aquela de que conseguiu se acalmar antes, mas, mesmo assim, ele se conteve e não disse ou fez o que pensava. Se a situação se estendesse muito, ameaça se tornar uma grande briga da parte de Vaniel, mas felizmente à oportuna voz da mãe de Lilian, a vizinha do lado, gritando o nome de Myriandra de forma esganiçada já dentro da casa da mesma interrompeu o discurso, e a mãe imediatamente ignorou completamente o filho, saindo tão rápido quanto seus passos imensos e barulhentos poderiam carregá-la.

Ela (a mãe de Vaniel) e a mãe de Lilian eram amigas, assim como a própria Lilian e Vaniel eram antes, frequentavam a casa uma da outra, e além das manhãs, também nos fins de semana as duas passavam as noites assistindo filmes até o amanhecer, esse costume já existia desde a época em que ainda haviam locadoras de VHS, mas o curioso é que as duas mães nunca permitiram que seus filhos participassem das sessões de filmes… O gênero preferido pelas companheiras era sem dúvida, os filmes de terror, sobretudo aqueles que abordavam temas sobrenaturais, tais como de possessões demoníacas ou aparições de espíritos; não é raro que algumas pessoas tenham lá suas histórias estranhas ao redor disto e foi a seguinte história que Vaniel e Lilian relataram a Batata anos atrás:

-Minha mãe (tia) junto da de Lilian nunca abriram mão da sessão de cinema em minha casa nem mesmo quando estavam recebendo visitas, e foi isso que aconteceu ontem a noite…

_Sim, estavamos com alguns parentes em casa até alguns minutos atrás.

Disse Lilian, depois Vaniel continuou:

-É claro que eles preferiram ir dormir do que ir assistir os filmes de minha mãe e da de Lilian, exceto por uma garotinha bem pequena, ainda com uma chupeta na boca que as acompanhou…

_Minha sobrinha.

-Sim, mas ela logo adormeceu dentro de um dos buracos daquele sofá listrado da minha casa e acho que tinha um sono bem pesado, pois eu mesmo não consegui dormir com o volume alto do filme…

_Tampouco eu, la da minha casa estava ouvindo os gritos da protagonista.

-E terminou pouco depois das três da manha, então a mãe de Lilian foi logo pegando a sobrinha para levá-la para dormir o resto da noite em sua casa, mas assim que passou seus braços por baixo do corpo da criança ela acordou como se não tivesse mais sono algum, encarou minha mãe por uns instantes enquanto as duas a observavam, e se assustaram quando a criança começou a gritar desesperada e a empurrar as duas pra longe dela.

_O barulho foi tanto que todos que estavam posando la em casa vieram para ver o que acontecia e quando minha tia a pegou no colo e perguntou o que estava acontecendo, a garotinha começou a apontar para a mãe de Vaniel e dizer:

_“O bicho, mamãe!”

_“O bicho, mamãe!”

_“O bicho, mamãe!”

-Até hoje de manha a menininha, a qualquer sinal de aproximação de uma das duas tentava fugir delas, custasse o que custasse…

_E por causa disso, eles acabaram de ir embora!

Vaniel jamais se esqueceu disso e por medo, passou a ter um certo cuidado com o que fazia, mas sob outro ponto de vista era um cuidado irrelevante, pois se existem dez coisas que podem te ameaçar, excluir uma delas e substituir por qualquer uma das outras nove não é uma mudança de verdade. Certamente que Vaniel relatou a história nos treinos de Karatê, anos mais tarde e alguns dias antes de sua “morte”, pois ele pensava que aquele era um bom lugar para se obter conhecimentos sobre tais coisas, principalmente devido à presença do Sensei, que para Vaniel, sabia mais do que ele; depois dos dois terem discutido sobre a natureza demoníaca presente em boa parte dos filmes, Patrício finalmente se aborreceu e perguntou enquanto se preparava para executar um alongamento:

-Mas se filmes fossem realmente demoníacos, eles (os demônios) não ganhariam no final da história?

Então Sensei respondeu enquanto trocava a perna a qual alongava-se:

-Não exatamente: a história do que quer que seja em si, pouco importa, o que realmente importa é a “atmosfera” que ele gera e que acaba facilitando a ação destes espíritos malignos.

Mas depois de pensar por um instante, ele acrescentou:

-Agora pense bem: se no desenrolar da história “eles” vencessem no final, os filmes não seriam “aceitos” pois há toda uma questão moral e de público envolvida, mas, mesmo assim, o propósito já foi atingido, que é agir como um “ponto de contato”.

_Não acha que aparição deste tipo de espíritos ou de demônios nos filmes, não seja uma mera questão de roteiro?

Disse Patrício:

-Quero dizer: precisa-se de um “mal” a ser derrotado certo?

-E demônios ou espíritos assim não seriam só a representação máxima deste mal?

-Então isso que Snow está chamando de demônios ou de “mensagens ocultas”, não são nada além de um roteiro de um filme que por coincidência aborda tal tema!

Sensei fez outra pausa em seu exercício e disse:

-Coincidência seria se encontrássemos esse tipo de coisa “em um lugar ou em outro”; ou também se os acusadores não fossem silenciados a todo momento ainda deixando seus escandesceres cada vez mais em evidência e “imunes”… mas estamos muito “devagarentos” aqui, vamos continuar a conversa se necessário, ao mesmo tempo em que desenvolvemos o treino com mais intensidade!

Após terminarem uma seção bem puxada de exercícios os três se dirigiram até o saco de pancadas vermelho e parcialmente rasgado devido aos meses de sucessivos golpes que estava pendurado precariamente num dos cantos do Dojo, era um exercício muito comum na verdade, um deles seguraria o saco de pancadas fixo para que o parceiro pudesse golpeá-lo usando socos e chutes, depois de alguns golpes dever-se-ia alternar entre atacante, observador(es) e aquele que mantêm fixo o alvo. Patrício tomou a frente e se posicionou firmemente para atacar com alguns chutes bastante visíveis, Sensei se ofereceu para fixar o alvo, enquanto Vaniel observava a cena; segundos antes de desferir seu golpe, um Cubi Mawashi, como que em uma provocação, Patrício questionou:

-Se vocês não gostam de suas televisões por que não as jogam fora?

-Seria o fim de seu… “ponto de contato”…?

_Você está cem por cento certo!

Respondeu Sensei e com isso Patrício se desconcertou e se atrapalhou na execução do golpe, se desequilibrou e quase caiu. Vaniel conteve um risinho, e seu professor pareceu impassível quando falou:

-Não passam mesmo de meras distrações e não merecem a importância que a maioria das pessoas dão a elas, não são nenhuma razão de viver!

Após se recuperar, o próximo golpe de Patrício foi desferido com maior violência, e o observando, Vaniel falou para si em pensamento:

-Durante muito tempo após o ocorrido na “sessão de cinema” de minha mãe, em que a sobrinha de Lilian viu algum demônio sobre aquelas duas mulheres, vagas e perturbadoras impressões passaram a me assombrar, é como se algo tivesse se mudado para minha casa!

-Muitas vezes posso sentir o caminha e a presença de um número maior de pessoas do que aquele que realmente mora naquela casa, mas nada se compara a aquela noite…

E Vaniel recordou do momento em que “isso” atingiu o ápice para ele, foi quando, através da porta do quarto de sua tia (mãe adotiva) que encontrava-se entre aberta e parcialmente iluminada por uma fraca luz, algo chamou sua atenção: havia “alguém ou alguma coisa” ali, de pé, ao lado da cama de Myriandra, se podia sentir que um “ser” a observava com interesse, e mais do que isso, também era possível perceber sua satisfação direcionada a ela. Vaniel congelou no lugar ao perceber que mesmo que não pudesse ver com os olhos, podia “sentir” qual era a aparência da criatura, algo que permaneceu oculto em sua mente e jamais ele tentou descrevê-la, pois apenas pensar nisto, trazia uma densidade maligna ao ar!

De início, o jovem que se levantou para ir ao banheiro não aceitou aquela presença que vislumbrou através do corredor como um fato, acreditou que provavelmente era um devaneio causado pelo sono, mas a sensação de incomodo e desespero se tornou cada vez mais insuportável a cada passo que dava em direção ao seu destino, até o ponto de que o sono fosse varrido para muito distante e apenas o acender de uma luz pôde lhe trazer algum alívio.

Noite após noite, a sensação de ser observado se dirigia cada vez mais a ele, talvez tivessem sido desencadeadas naquele dia aliado ao súbito interesse do rapaz pelas “coisas espirituais”, mas o que houve a seguir foi ainda mais extraordinário, pois vendo que não haviam outros membros da “família” ao seu redor, Vaniel se ajoelhou ao chão e orou; seu sono não foi perturbado na ocasião, mas um sonho, se é que se pode chamar aquilo simplesmente de sonho, o alcançou e lhe revelou uma silhueta escura que se aproximou de seu “quarto”, estava visivelmente procurando por alguma coisa, ou alguém, mas parecia não mais enxergá-lo então esta tomou o caminho do corredor para os outros quartos. Com tais “observações” de caráter perturbador1, Vaniel pôde ver que, assim como na crença popular “eles” realmente não precisão se preocupar com barreiras físicas como paredes ou portas, porém, tendem a caminhar exatamente por onde se deve caminhar, ou seja, assim como nós eles tendem a passar pelas mesmas portas, corredores e etc. Será que o tal “alinhamento de energias” disseminado pelo Feng Shui não se trataria na verdade de proporcionar uma passagem, ou mesmo dificultá-la, para estes mesmos espíritos?


 

Da manhã conturbada com sua mãe, ao trabalho cansativo na escola, até as divagações sobre espíritos malignos durante o treino, Vaniel chegou a noite em casa só para encontrar outra sessão de cinema da mãe, a qual ele não teve escolha a não ser se refugiar em seu próprio mundo fictício mais uma vez, ele apenas pôde finalmente cochilar por algumas horas com a costumeira ausência dos moradores da casa durante a manhã, mas seu sono conturbado também não durou muito pois precisava se dirigir a seu trabalho na escola outra vez, ao menos naquela tarde haveriam alguns momentos de felicidade pois antes de seguir para os deveres, Vaniel e Amanda almoçariam juntos.

Passava das onze quando se pôs a caminho do dia mais estranho que teria em sua vida, o dia em que uma sombra mais escura que a da noite encobriria o Sol e o levaria à morte, mas não sem antes ser interrompido pelo senhor que morava ao lado de sua casa para que pudesse ouvir as mais absurdas acusações, seria estranho que a raiva não o tivesse consumido, ainda mais considerando os péssimos dias que estava tendo ultimamente, Vaniel com certeza teria explodido ali mesmo, se algo muito estranho não houvesse chamado sua atenção:

-Mas… por que a luz do Sol parece mais fria nesta manhã do que o normal?

-Já passa das onze e a luz que sinto me parece muito mais com a da Lua…

Se o Sol provem-nos luz, calor e vida, de sua parte, a Lua demostra frio, tristeza e morte!

Deixando seu acusador para trás, Vaniel praticou o mesmo caminhar enraivecido que sua mãe costumava usar pelas ruas estranhamente vazias, mas logo se distraiu dele quando notou que o ângulo da luz emitida pelo astro sobre seus ombros se tornava mais e mais errada, a cada passo que dava sua sombra se alongava e expandia; olhou novamente para o relógio, este estava certo, onze e quarenta e cinco:

-M-mas como… as sombras deveriam estar “no formato de um círculo logo abaixo dos meus pés”…

Apesar disso, o Sol continuava bem no alto do céu como ele mesmo verificou tantas vezes. Ainda mais desconcertante foi quando ele percebeu que tudo o que se contrava uns poucos centímetros acima de sua cabeça, agora estava perfeitamente iluminado pela luz, enquanto que tudo abaixo do mesmo ponto se encontrava imerso numa sombra, era como se o Sol estivesse escondido no horizonte, atrás de um grande muro que projetava sua sombra sobre Vaniel, deixando que a luz atingisse apenas o topo das casas, árvores e postes; como isso era possível?

O que quer fosse aquilo, se mantinha apenas ao redor de Vaniel e ele se observava estarrecido o fenômeno, mas nem uma sombra sobrenatural se colocaria entre o rapaz e sua companheira e quando se lembrou de que tinha um compromisso, depois de ter perdido vários minutos em contemplação do que estava acontecendo, apertou o passo imediatamente se esquecendo da sombra a sua volta.

Vaniel avistou Amanda a poucos metros da lanchonete em que se encontrariam, e também lhe pareceu estranho que ela fosse a única pessoa que via na rua em qualquer direção que olhasse, isso o fez recordar do estranho fenômeno de alguns momentos atrás e que ainda o acompanhava, tanto que nem mesmo a cumprimentou com o carinho devido e perguntou com impaciência:

-Amanda, olhe só pra isso, está vendo como o Sol está estranho hoje?

-Olhe para essa sombra fria ao nosso redor, o que está acontecendo?

A garota morena olhou para cima e ao redor procurando pela tal sombra, mas em seguida fez cara de que não estava entendendo nada e perguntou:

— Do que está falando?

— Está tão quente como deveria estar ao meio dia, não há árvore alguma aqui, nem sombra ao nosso redor!

_Não esta vendo esta sombra debaixo de nossos pés?

Disse Vaniel e apontou para o chão:

-Não está vendo que nem mesmo há pessoas na r…

Então todo o calor do Sol retornou a ele instantaneamente e se interrompeu de continuar a falar, olhou mais uma vez ao redor e viu a luz amarela tocar tudo quanto podia, até mesmo o rosto de Amanda se iluminou e brilhou para o rapaz, viu também que haviam sim várias pessoas na rua, em todas as direções, crianças brincando atrás das grades de uma casa do outro lado da rua, anguns jovens sentadas nas mesas na calçada ao seu lado comendo e mais algumas caminhando pela mesma rua que estavam; a sombra que se abatera sobre ele momentos atrás não podia ter sido real, quem sabe fosse algum tipo de stress causado pelo discurso que ouvira ao acordar, seguido das acusações antes de encontrar a namorada, que de tanta raiva, até mesmo, seus sentidos foram confundidos.

Sem lhe dar mais tempo para ponderar sobre o significado do fenômeno, ou da alucinação que vira, assim como houvera feito instantes atrás, Amanda também se apressou em falar, mas o que ela disse foram aquelas palavras que rapaz nenhum deseja ouvir de sua garota:

-Precisamos dar um tempo!

E elas ecoaram em sua mente:

-Precisamos… dar um tempo …um tempo …tempo …!


 

Como um contador de histórias que interrompe sua narrativa para tomar um como d’água antes de continuar, a memória que estive assistindo, a fim de, descobrir novamente meus últimos dias entre os vivos, cessou, em seu lugar estava a visão de uma água cristalina e um brilho difuso por entre a janela do quarto de espera. Até ela havia me abandonado quando mais precisei, será que as palavras ditas por minha mãe no discurso daquela manhã e que ecoaram nesse instante em voz audível realmente estavam certas?

-“Cê vai fica sozinhu assim, já tem essi cabelu de véio, ainda fica sainu escondido pra fazê num sei o quê”!

Em seguida veio a vós de Lilian:

-Eu ouvi pelos escombros do drag… pelos buracos do muro que costumávamos conversar, ouvi seu primo falando a aquele amigo dele para levar a turma, na saída do seu treino. Disse para ele te “enciná a lutá de verdade”!

E o que disse Amanda se repetiu no ar outra vez:

-Precisamos dar um tempo… precisamos… dar um tempo …um tempo …tempo …!

É certo que nada disso fez sentido algum para mim, pois depois da lembrança do rompimento de Amanda, sequer o fato de estar numa sala de espera após a “morte” passava pela minha cabeça, eu apenas me perguntava por que as mulheres têm sempre que usar este “argumento” de “dar um tempo”?

Tão súbito como minhas lembranças cessaram, novamente elas retornaram como um filme, ao qual assisti arrebatado…


 

Após dizer o que precisava, a moça foi logo se virando e se afastando, Vaniel porém, a agarrou pelo ombro, e talvez o tenha feito com mais força do que deveria, pois Amanda fez uma expressão de incomodo por um instante, então o rapaz perguntou:

— M-mas como assim?

— Dar um tempo?

— O que é que tenho feito de errado com você?

Sem olhar em seus olhos, Amanda se desvencilhou da mão de Vaniel e falou quase chorando:

— Você só pensa em treinar aquela coisa idiota…

As próximas palavras da garota saíram num sussurro tão baixo que ninguém além dela mesma podê ouvir:

— E o pior… tem passado a noite na rua… com ela…

_ Do que está falando?

_ Aquele treino tem me trazido benefícios de tantas forma que…

Mas Amanda não queria ouvir, ela apenas gritou:

— Não entende Vaniel?

— Existe muito mais na vida do que perder seu tempo isso, pense no último ano que passamos se essa coisa, não foi ótimo?

– Por que teve que voltar pra “isso”, está pensando que vai salvar o mundo com seu Karatê?

— “Isso” não é um deus, não o meu e não dever ser o seu, assim como não sou mais sua noiva!

E ao terminar de dizer, simplesmente saiu correndo e chorando.

— Era esta a sombra que estava a minha volta?

— A sombra do abandono?

— Se eu lhe contasse sobre o tudo o que o treino tem me ensinado e feito por mim…

Mas o rapaz se deteve pensativo, em seguida pronunciou coisas terríveis se lembrando que a garota jamais houvera demonstrado interesse no assunto, nunca aceitou a um de seus convites para assisti-lo em seus exames, porém, também se lembrou de tê-la ignorado algumas vezes em favor de seu treino:

— Será mesmo que o coloquei acima dela?

Ao longe ainda se podia ver Amanda se afastando, o pensamento de ir atrás dela passou pela cabeça do rapaz, ele poderia se desculpar, procurar mudar e quem sabe ela tenha até ouvido tais pensamentos, pois deteve seus passos, o que durou apenas um segundo pois uma súbita onda de raiva voltou a mente de Snow quando este pensou que qualquer tipo de coisa que se torne o alvo de nossa total atenção, se torna também uma parte de nós e a isso (alguns de nós) dedicamos nossas vidas inteiras o que quer dizer que as Artes Marciais eram parte de Vaniel, uma parte que Amanda aparentemente odiava… acho que cada pessoa tem a necessidade de ter algo com o qual possa se sentir (na falta de palavra melhor) “superior aos outros”, algo que alimente o nosso ego e que seja uma forma de autovalorização, a fim de, combater a desvalorização que nossos semelhantes nos direcionam, portanto, é um ato extremamente abjeto repudiar, ou ainda, não reconhecer aquilo que literalmente faz parte de uma pessoa, e diante disso fica a dúvida: Será que Amanda teria uma atitude diferente se soubesse que o fim mundo seria adiado justamente pelo punho de Vaniel?

Será que se culparia se percebesse que foi uma das pessoas que contribuíram para ele negligenciasse o treino e por isso é que acabou preso numa sala de espera após sua suposta morte?

Depois deste efêmero segundo de intermináveis divagações, ambos retomaram seus passos na direção oposta um do outro, ao completar aquela meia volta enfurecida na direção oposta à da garota que havia lhe dado um fora, Vaniel se espantou e até se desequilibrou com a visão de seu amigo Batata que já estava demasiadamente próximo dele, Augusto até esticava sua mão para tocar o ombro de Vaneil quando este se virou tão velozmente que quase se trombaram na porta da lanchonete:

— Hei cara cuidado com essa velocidade toda, não estamos no Dojo agora não!

Ambos se cumprimentaram, então Batata perguntou:

— Você já almoçou?

— Eu estava justamente vindo aqui para comer alguma coisa, se não tiver nada pra fazer agora vamos almoçar, eu pago!

— N-Não precisa — respondeu Vaniel — não estou com fome…

Mas antes que ele terminasse de falar Augusto já havia entrado no estabelecimento e estava fazendo sinal para que Vaniel o seguisse. O mesmo foi logo se sentando no balcão e pedido um refrigerante para ambos e sem opção, assim como qualquer pessoa comum que simplesmente atenta para o princípio da reciprocidade, ou seja, tem o desejo de retribuir o que lhe é oferecido não importando o quão sem importância seja o “presente”, Vaniel se sentou e o acompanhou, o que, na verdade, fez bem ao rapaz, pois os dois tiveram uma boa conversa que o fez esquecer dos problemas, relembraram a infância, a época em que jogavam videogame e brincavam de RPG a sua maneira. Mas depois Augusto pareceu aborrecido e disse:

—Sabe cara, é difícil ver tantos games legais sendo lançados por todos os lados e não ter onde jogá-los, fico assistindo os trailers mas acabo ficando apenas na vontade.

Vaniel então se lembrou daquele velho computador de seu amigo em que jogaram tantas vezes, quase sempre após terem acabado de sair de um campeonato de videogame em sua própria casa, em seguida lembrou o amigo de ambos, ao passo que este lhe respondeu de forma exaltada:

— Você não entende, não quero jogar os mesmos jogos antigos de sempre, quero jogar os novos, se tiver que ver outra daquelas velharias na minha frente — e Batata gesticulou freneticamente com as mãos — juro que me mato, tenho péssimas recordações de tudo isso!

Vaniel não respondeu, mas pensou que Batata era quem não havia intendido o sentido dos antigos campeonatos de videogame: a data em que foram lançados ou seus gráficos, fossem eles bem texturizados ou totalmente “quadrados”, de nada importavam no fim das contas, o verdadeiro valor de tudo aqui era jogar COM OS AMIGOS, se divertir com eles, fosse no videogame ou mesmo no RPG, — a muito tempo nós três eramos inseparáveis — pensou ele, mas sem perceber foram se distanciando e isso era verdadeira triste, principalmente para ele, pois não havia mais ninguém a apoiá-lo ou distraí-lo nos momentos difíceis, contudo, seu amigo já havia mudado de assunto e o questionou quanto ao seu relacionamento com Amanda, ao passo que Vaniel respondeu:

— Amanda e eu estávamos até de casamento marcado, para daqui a seis meses, mas…

Ao ouvir as palavras Batata se ergueu repentinamente antes do fim da frase de seu amigo, estendeu a mão para Vaniel que apenas correspondeu o gesto por um genuíno e incompreensível reflexo e fez um grande estardalhaço ao dizer:

— Meus parabéns cara, você merece, você merece muito, você e ela merecem — o rapaz sacudia freneticamente a mão do amigo enquanto continuava dizendo — mas se este é um momento tão feliz assim, por que está fazendo essa cara de palhaço triste?

— Já está sentindo saudade de sua família que terá que abandonar?

— Sua mãe, com certeza, vai chorar muito quando sair de casa, sempre deu pra ver que vocês todos são muito unidos, todos se apoiam e se ajudam em sua casa!

Mas numa explosão de raiva, Vaniel se exaltou:

— Nenhum deles sentirão falta de mim, pelo contrário, sempre fizeram tudo que estava ao seu alcance para tentar me atingir, para tentar me diminuir e se pudesse, até me destruir!

Augusto então soltou a mão do amigo e retrucou num tom que foi inicialmente áspero, mas que se abrandou conforme falava:

— Vaniel, você até que tem um bom coração, se preocupa com os outros e até hoje sempre o havia visto medindo suas palavras para que não magoe ninguém. Me lembro de quando treinávamos juntos, desde o incidente em que me acertou sem querer, ocorreu que em todas as nossas lutas seguintes você deixou de aproveitar certas chances de me atingir por medo de voltar me machucar, e fazia o mesmo com qualquer outro companheiro de treino; mas as vezes você projeta nos outros, sua própria culpa e acaba falando como um completo idiota!

— Mas o que está dizendo Batata, como assim EU projeto nos outros?

— É verdade — respondeu o amigo — devido a nunca dizer as coisas… coisas más… que pensa, você acaba projetando-as nos outros, de modo a parecer pra si mesmo, que elas não ligam para seus sentimentos, entende?

— Sempre fui muito bom em analisar as pessoas.

E Batata riu auto com suas próprias palavras, satisfeito por ter entendido plenamente os sentimentos e as motivações do amigo, em contrapartida Vaniel perdeu completamente à vontade de tentar se explicar após o que ouviu e se sentiu tão sozinho como jamais havia se sentido, não importando o qual cheia estava lanchonete, ele estava sozinho e pensou em silêncio:

— As pessoas são mesmo, terríveis, Batata tem me assistido de perto a anos e o que enxerga parece que são apenas gatinhos e arco-íris!

Em seguida, num ato de simples maldade, disse:

— Se é tão bom assim em analisar as pessoas, por que continua pensando que Lilian lhe dará atenção algum dia?

— Não, você já sabe não sabe?

— Foi por isso que inventou aquele apelido maldoso quando ela o rejeitou!

— NÃO SABE ANALISAR NINGUÉM — gritou Vaniel — VOCÊ NÃO SABE ABSOLUTAMENTE NADA DE MIM OU DE TUDO O QUE TENHO PASSADO, É SÓ UM PIADISTA SEM NINGUÉM PARA TE ESCUTAR!!!

E todos ao redor se inclinaram na direção do rapaz com a súbita explosão, mas este não tinha acabado o que tinha para dizer:

— Você não vive minha vida, não sabe o que se passa naquela casa, acho que nem se lembra mais do tratamento que meu primo dava a todos nós. Eu pensava que fosse apenas minha família, mas agora vejo que TODAS as pessoas são tão más como se poderia ser!

Augusto então gesticulou para que Vaniel se sentasse e se acalmasse, então falou:

— Mas acho que ele mudou, nunca mais o vimos te maltratando ou a nenhum de nós como naquela época, nem eu nem Lilian (que á propósito: nunca me disse sim, mas que também nunca me disse um não) vimos absolutamente nada de mal em seu comportamento depois daquela incidente, ele não seria capaz de levantar um dedo contra você agora.

Vaniel teria sido o primeiro a se levantar e ir embora naquele estabelecimento se não fosse por duas garotas que estavam sentadas numa mesa as costas dos rapazes, no que uma delas se levantou bruscamente dizendo e encarando os amigos:

— Todas as pessoas são boas, eu sou boa, é você que é o mau agradecido, aposto que sua família tem lhe dado um teto e uma cama para dormir, e mesmo assim, tem coragem de ficar ai reclamando e gritando para todos ouvirem.

Dessa vez não houve mais raiva a ser inflamada dentro do rapaz, mas apenas uma imensa tristeza em ter de ouvir tudo o que já tinha ouvido naquele dia, até mesmo, seus olhos se encheram de brilho e umidade enquanto ouvia a lição de moral da garota que havia se tornado em uma lista de xingamentos que dama alguma deveria pronunciar, ele olhou para seu amigo e este estava calado olhando para outra direção, mas logo desistiu de esperar algum apoio considerando as palavras que havia dito momentos antes. E depois que a garota terminou de proferir seus inúmeros palavrões, Vaniel falou:

— Agradeço por ter me feito perceber o quão ridículo foi gritando deste jeito aqui dentro.

O que parece que a deixou furiosa, acho que todos perceberam que se a garota tivesse uma arma em mãos a teria usado imediatamente, mas sua amiga a agarrou pelos ombros dizendo:

— Vamos embora, pessoas boas como eu e você, nunca conseguem ofender profundamente pessoas ruins como ele, deixe-o para lá.

— Puxa — exclamou Batata — se este é o exemplo de uma boa pessoa, ou seja, alguém que têm o desejo de ofender a outra por simples retalhação, acho que devo ser o Hitler…

Em seguida se voltou finalmente a Vaniel e disse:

— Não ligue para elas, há pessoas que não entendem o que temos passado nem se fossem nossos melhores amigos, tenho certeza de que tanto ela como você estão completamente errados, todos a sua volta te amam e querem o seu bem meu amigo, afinal como poderia dentro de uma família os membros não amarem uns aos outros?

No fim estamos todos sozinhos nesse mundo e ninguém vai nos entender plenamente, assim como jamais entenderemos plenamente a outrem.

Naquele dia Vaniel não chegou no seu trabalho como era o objetivo ao sair de casa, e como poderia depois de tantos acontecimentos absurdos?

Depois de se despedir de Batata na lanchonete e de caminhar sem rumo por alguns minutos, seus passos o levaram à aquela velha conhecida praça, bem em frente ao Dojo, local onde coisas estranhas também já acontecera, as quais ele recordou sentado num banco sob a sombra das árvores, soprava uma agradável brisa que aliviava em muito o calor e o fazia também esquecer de seu péssimo dia, além do mais, já havia se tornado um hábito do rapaz sentar-se ali e cochilar por alguns minutos:

— Isso até parecesse coisa de velho — disse ele rindo sozinho.

Felizmente, Vaniel logo adormeceu assim que começou a remoer tudo o que aconteceu mais cedo, parece que os acontecimentos tiraram-lhe as forças, seus familiares, seu acusador, sua ex-namorada e por fim, seu ex-amigo, simplesmente sumiram quando o sono o arrebatou, mas não foi apenas o sono que pairou sobre o rapaz: enquanto dormia a sombra retornou a ele, mais escura que uma noite sem luar ou estrelas, e se dizem que o mal atrai o mal devia ser justamente tal sombra a responsável por trazer novamente aquelas pessoas ruins para o seu redor. Vaniel sentiu enquanto despertava de um terrível pesadelo para uma realidade ainda mais surreal, muito mais do que apenas seis indivíduos malignos que se aproximavam, mas uma multidão de seres sombrios e apavorantes que se colocavam de pés um ao lado do outro, formando um longo corredor por onde um garoto que não fazia parte deste mundo caminhou e vinha trazendo algo invisível em suas mãos, que em seguida explodiu em luz e esta era quente como o fogo, aquela luz trouxe consigo a visão do rapaz a figura de uma magnífica espada nas mãos daquele sujeito estranho sua frente, a lâmina da arma era prateada, brilhante e reta, olhar para ela trazia uma sensação ao mesmo tempo cálida e terrível; o cabo dourado como ouro refletia como um espelho as oito pessoas a sua volta.

Apenas depois de muito a admirá-la é que Vaniel se voltou para a mão que segurava a bela espada, esta estava coberta por uma veste metálica escura que protegia todo o corpo do visitante e ao mesmo tempo tentava se esconder sob uma grossa jaqueta preta, mas a veste jazia estava aberta expondo todo o metal que refletia fortemente o brilho da lâmina.

— Q-quem… quem é v-você? — questionou Vaniel.

O estranho passou as mãos sobre os cabelos que reluziam dourados deixando uma sombra negra abaixo de sua mão e disse com voz suave:

— Deveras, me entristece saber que tens escrito sobre mim e meu mundo por tantas noites em claro, porém não tens me conhecido quando me pus de pé diante de ti, ao que parece, o dom e a inteligência acabam por não recair sobre o mesmo indivíduo.

— O que foi?

— Te encontras tão atordoado que sequer consegue mais falar?

— Certamente pela grande disparidade entre a visão que tiveste e como sou na realidade, entretanto meu nome deve ser o suficiente para te despertar: sou aquele que recebeu o título de Starwish!

Aquilo o atingiu como um violento golpe, e seu impacto o fez se recordar num instante sobre tudo o que já havia escrito sobre O Reino de Cristal, sobre as aventuras de um garoto de cabelos loiros, abandonado a própria sorte num vilarejo afastado no meio da floresta e de como o destino o levou a uma poderosa espada, o instrumento de sua vingança, a ferramente que mergulhou todo um mundo na tribulação:

— C-como se já não bastasse o dia que tive — o rapaz sorria enquanto balbuciava — agora sou desafiado por um… por um ser sobrenatural brandindo uma espada mágica?

— De forma alguma poderia ser real, não, ainda estou sonhando sentado no mesmo lugar em que adormeci momentos atrás!

Fosse qual fosse a explicação, ali estava Starwish, de pé bem na sua frente, saído direto das páginas de seu livro e pronto para tomar-lhe a vida, da mesma maneira como um rapaz chamado Sól o havia advertido.

Starwish ergueu a brilhante espada ameaçadoramente em direção a Vaniel e começou a caminhar, o ato fez com que a tenção e o temor crescessem em seu coração, mas por mais que tentasse, não conseguia se mover, sob o peso das trevas que sobrepujavam até o Sol de sua visão, era simplesmente impossível para o rapaz se levantar e sair correndo para longe de seu agressor, então Starwish falou:

— Parece que o teu dia não foi dos melhores, não é verdade?

— Acredite, sei muito bem pelo que passou, entretanto, tenho de confessar que foi muito divertido mover todos ao teu redor a te atormentarem em vez ser eu mesmo aquele que é perseguido, é uma pena que as boas coisas tenham que ter final, e este é o teu!

— M-mas c-como assim — gaguejou Vaniel — como assim foi você que os fez… me atormentarem?

Starwish sorriu malignamente e abaixou sua espada:

— Pode se dizer que tenho sido aquele que dita o que as sobras sussurrarão nos ouvidos de cada pessoa a tua volta desde que nasceste, para que continuasse despreparado para este dia, o dia em que eu viria ao teu mundo!

O sorriso de Starwish se tornou ainda maior e mais estranho, Vaniel se sentiu em frente a um mostro que arrancaria a carne de seus ossos a qualquer momento, tanto que era impossível olhar em seus olhos diretamente se não para o reflexo do sorriso do estranho na lâmina da espada:

— Devo parabenizá-lo e agradecê-lo por dar ouvidos a tua família, ignorar completamente tuas crenças e dons com tamanha maestria além de teu treino, sem isto eu não poderia descer até aqui…

Mas subitamente, o sorriso maligno de Starwish se tingiu de tristeza e medo, a força que atava Vaniel diminuiu drasticamente até o ponto em que suas pernas recobraram a vida e ele caiu ao chão violentamente devido ao esforço que fazia para se movimentar e nesse momento, até se tornou possível olhar diretamente no rosto de Starwish e observar sua tristeza, ou seja, um completo oposto de alguns segundos atrás, e Starwish falou:

— Tenho sido o motivo de teu infortúnio, não só o teu, como também do meu Mundo — Starwish apertou a mão que segurava o cabo da espada — e tudo isto porque alimentei a cobiça por esta lâmina!

— Vaniel, não sou porém, o único culpada, pois tua negligencia foi o que permitiu que eu fosse trazido para este outro Mundo, o mesmo que aconteceu antes, acontecerá aqui também se eu não for detido… sim, ainda há esperança, lembra-te pois, que isto não será a morte, senão uma mera troca, portanto existe a possibilidade de sermos devolvidos a nossos respectivos mundos, por um curto período de tempo nossa ligação perdurará…

Mas Starwish se calou e estremeceu, abaixou a cabeça por um segundo e quase soutou sua arma, enquanto Vaniel tentava se afastar rastejando para longe, mas as amarras das trevas vieram novamente e o prenderam, deixando apenas sua voz livre para gritar:

— STARWISH VOCÊ NÃO É REAL; NÃO É REAL, FUI EU QUE TE CRIEI, NADA DISSO È REAL, NÃO PODE SER REAL!!!

— Ainda estou sentando naquele banco da praça dormindo, é só um pesadelo, tudo isso é só um pesadelo de que tenho que acordar…

O sorriso maligno de antes reapareceu e fez com que os gritos de Vaniel se exaurissem instantaneamente, até mesmo sua consciência seria consumida pelo peso se não fosse a vontade de Starwish, a vontade de que sua vítima visse o golpe derradeiro e tivesse a certeza de quem e de como foi morto:

— É chegada a hora de trocarmos nossos lugares!

Starwish então posicionou sua espada firmemente, de modo que em um único movimento o coração de Vaniel seria perfurado com violência, fixou sua base e tencionou todos os músculos do corpo preparando-se para executar o golpe. Como uma presa Vaniel tentou fechar os olhos, mas nem isso conseguiu, algo não permitia que ele se desviasse de seu destino, então ele o encarou com todo o seu ser, se focando no temor e no ódio que havia encontrado por sequer ser capaz de virar o rosto para longe de seu assassino, então ele viu: cortando pela escuridão haviam ondas vermelhas como as de um lago em movimento, que lhe chegavam não de Starwish, mas de sua espada, tais ondas se propagavam desde a extremidade da lâmina até seu coração, mas não houve tempo para sequer pensar que poderia prever o ataque e quem sabe fugir dele, quando a dor e o sangue surgiram em seu peito…


 

Mesmo que fosse uma mera lembrança que me era mostrada, a dor do ferimento vazou e me atingiu novamente na sala de espera atirando-o de joelhos ao chão e arrebatando as imagens:

— M-mas… p-pelo menos agora sei… agora sei que não estou morto…


Notas Finais


1 Há de se questionar sobre a “sensação de trevas” que os precede, se nos fosse possível observá-los com “olhos mortais” veríamos toda a profanação que desprende na forma de “sujeira” e degradação no ambiente ao redor.


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