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História A Batalha dos 2 Mundos - Capítulo 17


Escrita por: JE_Rodrigues

Capítulo 17 - Capítulo 13 AS ESTRELAS A MINHA VOLTA. (RASCUNHO)


As visões/lembranças cessaram finalmente, livre delas, contemplei outra vez a semelhança entre o lugar em que me encontrava e o quarto de que fui expulso a alguns anos, seria exatamente assim que se pareceria, caso fosse tão limpo e organizado. Desde que acordei no lugar, havia uma paz ali, algo que me mantinha são, provavelmente esta seja uma das características que só um destes lugares de espera após a morte possuem, mas, estranhamente ou felizmente, minha paz acabou perturbada a partir do momento em que as visões me mostraram que eu ainda estava vivo, minha disposição retornou, assim como o pânico, então busquei uma maneira de sair dali, mas não a encontrei.

Apensar do medo, depois que as lembranças cessaram tudo começou a me parecer mais racional e menos sobrenatural, acho que esse é um mal que aflige todos nós, pensar que o mundo é puramente natural mesmo após termos uma experiência realmente sobrenatural, tal qual a minha própria, e literalmente no minuto seguinte, já estamos buscando explicações lógicas e formulando toda uma “teoria natural” para explicar o que acabamos de viver. Mais uma vez olhei pela janela buscando uma resposta, mas como explicar a visão de água por todos os lados, como se a casa estivesse submersa?

Havia também um brilho difuso ao longe, mas, “não seria racional tentar sair pela janela inundado” – e quanto a porta? – pensei comigo mesmo. Sim, mesmo que não conseguisse sair daquele quarto de espera, quem sabe houvesse também toda uma casa atrás da porta. Muito embora um segundo cômodo fosse visível através da fresta, e que também a porta não estivesse trancada, simplesmente não importava a força com que a tentasse abrir, fosse puxando ou empurrado, ela não se movia um único milímetro, se quer a maçaneta girava, estava rígida, imóvel, como se o tempo houvesse parado; até tentei golpeá-la com socos e chutes…

– Essa coisa não se move, n-não, espere… acho que a movi um pouco com esse último golpe…

Não houve tempo para comemorar, pois a água começou a entrar e a encher o local, seu nível subia tão rapidamente que tive a certeza de que agora morreria de verdade, mas por um segundo me esqueci de tal temor quando percebi que aquela água era estranha, parecia densa e pesada de tal maneira que me prendia no lugar, era como uma espécie de xarope grudento onde não produziam-se ondas em sua superfície, tampouco havia sensação de frio, aquilo era mesmo, água?

No esforço de me mover para qualquer direção, debati-me como pude, até que a “água” atingiu a altura da cintura, quanto mais ela subia, mais me prendia, e na tentativa de nadar, mergulhei a mão direita no líquido e contribuindo para que o temor aumentasse, não pude mais tirá-la. A sensação era como a de ser segurado por alguém, exatamente como já havia sentido antes, porém, desta vez “aquilo” me segurava com ainda mais firmeza. Busquei em vão soltar a mão invisível que mesmo tanteando ao redor do braço, não podia ser encontrada; com toda minha atenção focada nisso, o fato da água subir todo o tempo desapareceu e sem perceber, o local se preencheu quase completamente, me deixando com a única opção de respirar fundo e segurar o ar o quanto pudesse; de olhos fechados sob o peso da “água”, não pude fazer mais nada senão aguardar o momento em que não seria mais capaz de prender a respiração e me afogaria finalmente, mas… isso não aconteceu!

Fique entre aterrorizado e intrigado, e sequer saberia dizer qual destes dois adjetivos faria mais jus a minha situação, experimentei abrir os olhos e sair do escuro; mas ao fazê-lo, tive de rapidamente cobrir com a mão livre minha boca e o nariz ao mesmo tempo, para não deixar o ar precioso escapar com a expressão submersa de surpresa que estampou meu rosto. Me vi vagando num vasto oceano azul e cristalino, este não era aterrorizante e nem frio, antes era tão lindo e calmo como o céu, e talvez fosse este mesmo (o céu) que houvera se derramada das alturas para dentro de um grande abismo e formado aquele mar cálido, ou quem sabe, tivera sido eu a subir até as alturas e mergulhado no Oceano Celeste. Por ser tão claro e suave, a visão se estendia para muito mais longe do que o normal, ainda que não existisse nada para se ver em direção alguma; não havia mais Quarto de Espera, nem direção ou noção de tempo, e assim, vaguei sem noção de nada além de meus próprios pensamentos que alternavam entre ideias do que fosse esta “passagem” e de como eu sobreviveria “à ela”:

– Será que este é “o oceano do reino da morte?

– Estou condenado a esperar aqui até que venha o último dia?


 

Apocalipse 20:13 - “O mar entregou os mortos que jaziam nele, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e um por um foi julgado, de acordo com o que tinha feito.” (King James Atualizada 1999)


 

– E se eu soltar um pouco de ar? – pensei – assim posso observar para que lado as bolhas irão e assim descobrir qual é a parte de cima!

Depois que decidi isso, ainda passei um bom tempo tentando encontrar a coragem para fazê-lo, até que finalmente o cansaço surgiu em resposta a minha hesitação e se tornou impossível prender a respiração; abri a boca e dispersei o folego, mas, nada aconteceu, nem bolhas e nem afogamento – Estou mesmo vivo, ou minhas lembranças estão me enganando de novo? – me questionei.

– Deve ser apenas um sonho ruim… um sonho muito, muito longo e muito ruim, tenho certeza de que continuo sentando no banco de uma praça…

Então, subitamente, ouvi uma voz dizendo:

– Lembre-se… que isto não será a morte…

As estranhas palavras ditas por Starwish, em minha mente, ecoaram pela água claramente, quase audíveis e me fizeram recuperar minha calma, como se fossem um tipo de feitiço que se põe em alguém para que se esqueça do medo, apesar de ainda haver um pânico crescente dentro mim, mas este não era completo, não levava a impaciência ou ao sofrimento, tudo estava acontecendo como um sonho em que os sentimentos não claros o bastante para serem levados a sério, tão surreal como se poderia esperar, ainda mais se tratando de minha mente é claro e incrivelmente detalhado em certos aspectos, como na textura e brilho do éter1 a minha volta, mas também muito vago em outros aspectos, como na total ausência de outra coisa que não fosse o azul celestial ou o medo que eu deveria sentir. Olhei em todas as direções procurando pelo que quer que fosse, pelo que pareceram horas e, pouco a pouco, o brilho do azul se tornou mais opaco, como se escurecesse, começando de baixo (em relação a mim) para cima. Fixei os olhos no tom de azul mais escuro que estava vindo do fundo, na mesma direção dos meus pés e vi que haviam trevas ali, imaginei se tratar do fundo do oceano, escuro e profundo e como a escuridão crescia e subia até mim, imaginei estar realmente afundando no oceano:

– É realmente o fundo do oceano, mas como vim parar nele?

– Fui atirado ao mar por aquele garoto?

– Como posso ter viajado por ar através de centenas de quilômetros e caído no oceano sem perceber?

– Isso tudo só pode ser um sonho, não há outra explicação!

Hipnotizado eu continuei observando a escuridão lá embaixo, por tanto tempo que até tive a impressão que ela se movia, então as trevas diminuíram vagamente quando uma bola de luz muito fria, trêmula e branca surgiu ao longe, se movendo em arco, como se seguisse uma “órbita”. A “bola rochosa” circulou apressadamente sobre a escuridão abaixo e desapareceu:

– Aquilo que passou lá no fundo era… a Lua?

Depois de um tempo o escuro começou a diminuir e dar lugar a muita luz, e esta, ficava cada vez mais forte, até que, seguindo uma órbita parecida, mais uma bola de luz tremulou por trás da grande quantidade de aguá surgiu, mas esta infinitamente mais poderosa e a medida que se aproximava (em relação ao meu ponto de observação) tornava a visão impossível, seu brilho era tão forte que não se podia olhar diretamente, o dia havia chegado nas profundezas?

– Mas isso não faz nenhum sentido, por acaso esse que vem agora é o Sol?

– Estou afundando de cabeça para baixo no oceano e o que vejo abaixo de meus pé é a superfície!

Lutei para que pudesse alterar minha posição e enfim nadar na direção do Sol lá em cima, mas era impossível e pela primeira vez desde que acordei no quarto de espera, senti um imenso cansaço, tanto que tenho certeza de que desmaiei, permanecendo talvez pelo equivalente a um dia inteiro. Ao despertar procurei insistentemente pela luz, mas vi que a escuridão estava abaixo de mim, ou seja, na superfície, e parecia se mover mais uma vez, então resolvi esperar pela visão da Lua novamente, mas embora tenha a procurado em todas as direções, não a encontrei, provavelmente já tivesse passado pelo ponto em que podia ser vista.

A escuridão da noite acima do mar subitamente me arrebatou, e se tornava maior e mais densa, até que atingiu seu ápice num grande ponto de “verdadeiras trevas”, tal qual jamais havia presenciado, uma escuridão perfeita, que até aparentava poder ser “arruinada pela vida”, talvez fosse o centro da noite, com certeza, era um Sol Negro!

De pouco em pouco ele se moveu, até o do ponto em que estaria perfeitamente acima de mim, e sobrepujou toda a escuridão natural que estava ao meu redor, lembrava-me a presença de Starwish antes de minha “quase morte” ou seja lá o que tenha ocorrido, com a diferença de que era muitas vezes mais aterrorizante do que ele. Tal ponto de trevas também seguia uma órbita definida acima do mar e quando estava exatamente sobre mim, sua opressão pesou-me como uma terrível montanha, me levando a inconsciência durante muitas horas. Até que, finalmente, um tênue brilho perturbou minhas pálpebras e me despertou para o pesadelo uma vez mais, era a luz do Sol, seu perfeito oposto que me trazia de volta a vida, meus olhos vacilaram diante do brilho e com muita dificuldade assisti a grande estrela branca e luminosa descrever sua órbita debaixo de meus pés; a essa altura já estava, no mínimo, conformado, então decidi não mais me exaurir em tentativas de mudar minha direção, pois isso de nada adiantaria, agora eu apenas contemplaria a situação sobrenatural a minha volta, e assisti o brilho se afastar tremulamente enquanto avançava acima das águas, e o que mais me chamou a atenção agora, era que talvez devido a refração que havia, a direção dos raios não faziam sentido algum com a posição em que a bola de luz se encontrava. O astro luminoso veio e se foi, então tudo começou a escurecer no céu abaixo de meus pés outra vez, porém, essa noite não foi completa, era mais como a hora do crepúsculo, em que dia e noite lutam pelo controle. Depois de observar o fenômeno mais um pouco, ergui a cabeça na direção contrária, ou seja, para o fundo do oceano então me admirei com a visão, pois avistei incontáveis pontos brilhantes, parecia até uma pequena cidade submersa; os brilhos cintilavam em azul, branco ou tons de vermelho:

– Aquilo, são estrelas, abaixo do Mar?

– Mas não pode ser, deve ser algum tipo de cidade escondida no fundo do oceano, e, estou certo de que é para lá que estou sendo levado!

E o riso voltou a mim por um segundo quando falei:

– Será que encontrarei algum tipo de “povo sereia” lá?

Mas o tempo de minha aproximação até a tal cidade estava sendo ainda mais longo que os dias anteriores, em que passei observando o que havia abaixo de meus pés; as pequenas luzes la no fundo realmente pareciam ficar mais próximas a cada dia, e o dia e a noite alternaram mais três ou quatro vezes antes que a luz dos pontos brilhantes finalmente sobrepujassem o aparecimento do Sol.

Mergulhei num novo ciclo, a escuridão da noite não mais me alcançava e tudo era repleto de luz, cálida, agradável e tranquila, mas a medida que me aproximava dela, também se tornava insuportável, como se milhares de Sóis explodissem sobre mim.

Após mais um dia, me pareceu que atravessei por um tipo de porta de luz e outra mudança incrível se produziu, pois eu as alcancei, e quando finalmente me vi, estava entre as luzes, neste ponto haviam “estrelas” tanto acima quanto abaixo de mim, eram milhões, talvez bilhões delas em todas as direções, pareciam estar à distância de poucos quilômetros umas das outras e o brilho insuportável de antes não estava mais presente, parecia que estavam “apagadas”, então pude ver que cada uma daquelas estrelas ao meu redor se pareciam com cristais imensos, de todas as cores possíveis e impossíveis. Por quantos dias estive afundando entre aquelas pedras preciosas e as admirando eu não sei dizer, o que sei é que enquanto estive ali outra grande luz surgiu, vinda de um ponto ainda mais alto, ou mais fundo, do que o dos cristais, era uma luz ainda mais intensa que o Sol que conheci, ou que o brilho anterior dos grandes cristais, tão branca quanto quente, havia um outro Sol no fundo do oceano ainda maior do que aquele que ilumina nosso Mundo. Se tornou impossível olhar em sua direção conforme se aproximava, mas antes de ter de esconder meus olhos do brilho intenso, pude perceber que os cristais a minha volta subitamente ganhavam um brilho equivalente, conforme o aquele Sol passava acima de minha cabeça, mas aqueles cristais pelos quais eu mesmo já havia superado, ou seja, que estavam abaixo de mim, ainda me pareciam apagados, então, na realidade, eles não emitiam luz própria, mas eram pedras preciosas encrustadas no Mar Celeste por onde a luz de um Sol Eterno escapava. Como num imenso dia que me pareceu três vezes maior que o normal, o Sol Eterno percorreu vagarosamente sua órbita e se afastou até sumir, mas não houve escuridão ali como antes havia abaixo de meus pés, e mais três dias se passaram antes que finalmente retornasse, vindo do outro lado, mas parecia ainda mais próximo de minha posição, obviamente estive afundando todo este tempo e me aproximei mais dele:

– Só espero que minha viagem não termine no momento em que finalmente chegarei ao meu destino, pois se continuar assim posso cair sobre esta bola de luz incandescente!

Foi o que temi conforme chegava mais perto e era cegado pelo brilho, mas eu não precisaria me preocupar com meu encontro com o Sol Eterno por mais tempo, pois a luz e calor eram tão fortes que fui nocauteado de novo, a dessa vez com ainda mais força do que a escuridão me fizera desmaiar, e dessa forma, o que quer que acontecesse não faria diferença alguma.

Depois de outra eternidade inconsciente, despertei, e dessa vez não com uma luz que me incomodava, nem com qualquer outra coisa inconcebível para uma mente acordada, o que havia agora era o frio, uma sensação de se estar ensopado e subitamente o ar me faltou nos pulmões enquanto a dor de um peso enorme se apossou de todo meu corpo, toda a paz de antes me foi roubada restando o desespero e a dor; meu folego recém-descoberto também gerou inúmeras bolhas que subiram acima de minha cabeça tornando a visão tão trêmula quanto aterradora, se se pudesse ouvir os sons contidos naquelas bolhas, o que ouviriam era:

– S-socorro… não… alguém me ajude, vou morrer!?

Mas não morri, pois uma mão se estendeu para dentro d’água, me segurou com uma firmeza familiar e tão desconfortável que senti que poderia quebrar meus ossos se apertasse um pouco mais e imediatamente fui puxado até a superfície, em seguida atirado para dentro de alguma espécie de barco de madeira negra e porosa; ali tossi toda água que havia engolido e busquei pela pessoa que salvara, mas tudo se tornou um borrão e quando dei por mim, já havia sido posto na margem deitado de costas sobre a grama verde. Com vagar me sentei e olhei ao redor, a minha frente estava um lago cristalino tão imenso que até parecia um oceano, era a única fonte de água a vista, sendo, com certeza, de onde fui tirado. Segui com os olhos as muitas árvores nas margens que continuavam até tão longe que apenas se se podiam ver vagas sombras no ponto mais distante, contornado e fechando o lago; eram da mesma madeira negra do pequeno barco, estas provavelmente eram sua matéria-prima e pareciam ser tão velhas quanto a idade que dizem ter a Terra, altas, com troncos negros e folhas tão verdes como jamais vi; combinavam com o tamanho do lago, como se tudo se encaixasse perfeitamente, sem dúvida era o lugar de onde vinham aqueles estranhos que me procuraram quando ainda estava vivo.

Ainda mais alto que as Árvores Gigantes, era uma montanha bem ao longe, na direção oposta a minha e que brilhava como um extenso cristal branco e límpido, era tão semelhante as estrelas que vi dentro do éter, que provavelmente eram feitos do mesmo material, além disso, o pico desta montanha se perdia de vista e tocava o céu.

– Este céu, tão azul que vejo, é da mesma cor do oceano que atravessei… sim… aquilo lá em cia deve ser um mar e aqueles cristais dentro dele provavelmente são fragmentos do cume desta montanha que foram despedaçados pelas ondas… depois de ter atravessado pelo mar, devo ter caído de lá de cima até este lago… de onde fui tirado!

Uma risada se fez presente, em seguida alguém que estava na mesma direção do pico brilhante disse:

– Vós que vem do mundo lá de baixo sois muito engraçados, deixam-se levar por sua imaginação e a tomam como verdade, não caíste do céu até aqui, o firmamento que enxerga em teu mundo inferior é apenas uma parte de nossas águas, as mesmas das quais te resgatei!

Num esforço para dar atenção à aquela pessoa, desci o olhar seguindo a silhueta da montanha e indo na direção da voz, percebi também, ao fazê-lo, que este era um horário de penumbra semelhante ao que experimentei dentro do lago… do céu… ou o que for; finalmente meus olhos chegaram ao rapaz que havia me salvado momentos atrás, e vejam que surpresa, era o mesmo homem que me ofereceu auxilio na praça em frente ao Dojo, também o mesmo que havia me dito aquelas palavras tão estranhas:

– Responda-me uma coisa se for possível para ti garoto:

– Acreditais mesmo que vivem em grandes círculos que rodopiam incansavelmente um a volta do outro num vão desprovido de quaisquer outros elementos?

– A muito que tenho me questionado, como é possível que a maioria de vocês acredite nisso!?

– Como se poderia transitar entre tais distâncias incompreensíveis de um mundo se movimentando e se afastando a outro?

– Sequer vossos descendentes veriam o brilho das Joias do Firmamento na mesma posição dos antepassados, como podeis explicar que elas estejam no mesmo lugar a milênios?

– Então isso aqui não pode ser outro planeta – me questionei – será que é o purgatório?

– Não sejais ridículo garoto – disse ele – questiona-me logo quanto aos nove céus2!

Diante da imponência daquele diante de mim, me calei, a mim parecia que até um simples olhar seria o suficiente para atrair seu ataque, estar na presença dele era quase tão estarrecedor quanto a de Starwish e mais ainda porque agora eu era o forasteiro ali. Como naquele dia, o jovem trajava uma armadura que brilhava fracamente, semelhante à de um cavaleiro medieval de nosso mundo, composta por inúmeras placas de metal presas uma a outra, o que tornava a veste muito maleável pois ele se abaixou diante de mim, apanhou um remo tosco e atirou-o ao barco como se não usasse uma pesada roupa de metal, esta parecia se moldar perfeitamente ao corpo e se preencher de sombras conforme se movimentava; o mais importante agora é que esta armadura não estava mais escondida embaixo de uma grossa jaqueta comum, mas sim visível em toda sua imponência. E como se Sun já soubesse qual seria a pergunta que viria a seguir, ele se antecipou dizendo ao mesmo tempo que chutava o barco em direção ao centro do lago:

– Não, tu não está morto, pelo menos, não de verdade, porém, foste vítima de um tipo de… pense que se poderia considerar como um “ritual” de troca entre nossos mundos, e se me permite fazer minhas as mesmas palavras dizem em tua Terra: eu o avisei!

– Lhe adiverti claramente quanto a Starwish, lhe disse que iria atrás de ti e que deverias te preparar para um confronto, parece que ignoraste meu aviso e não te preparaste para o confronto.

– Starwish! – exclamei – sim… foi ele quem me matou!

– Mas espere, como pode ser isso?

– Ele era um simples personagem de meu livro, como pôde ter aparecido em minha frente, o que foi aquele sonho em que mergulhei num oceano profundo?

– E que lugar é este?

– Me responda Sun, o que está acontecendo?

– Estas mais barulhento do que antes – disse Sun – e por favor, chame-me de modo adequado, chame-me de Sunwish, pois este é o meu título aqui, no “Mundo Acima das Estrelas da Terra”.

– Acredito que já deves conhecer a resposta, tu conheces muito sobre este lugar e a tragédia que sofremos!

Sunwish então se negou a dar mais explicações enquanto ainda estivéssemos naquele lugar, parecia observar a floresta a nossa volta com apreensão, em seguida me convidou a acompanhá-lo, então o segui, afinal o que mais eu poderia fazer num mundo estranho?

Mas foi com dificuldade que o acompanhei, pois caminhava rapidamente, como se fugisse de algo, caminhamos por uma trilha em meio a floresta por cerca de dez minutos em total silêncio, não haviam pássaros ou quaisquer outros tipos de animais ali, os únicos sons que se ouviam vinham de nossos passos ou do vento soprando pelas copas das árvores e a medida que caminhávamos dessa forma minha impaciência se tornava cada vez mais visível até que, adivinhando meus pensamentos, meu guia disse:

– Exceto por alguns predadores que passam fome, realmente não há mais nada de relevante aqui, é por isso que estamos nos afastando do lago, onde estes vem para beber água durante a penumbra; este caminho nos levará para fora desta floresta, até uma cidade onde fica minha casa.

Depois de falar, Sunwish permaneceu caminhando em silêncio por mais algum tempo, até que parou de repente, estendeu uma das mãos a minha frente e disse:

– Deste ponto em diante o solo está coberto de cristais, tenha cuidado, eles são escorregadios e afiados!

Havia uma linha visível que dividia o solo da floresta ao qual havíamos percorrido e que era coberto de folhas e pó para um novo trecho onde não se via a terra alguma ou folhas, apenas um tipo de piso imensurável e tortuoso feito de cristais, parecia que haviam sido “derramados” no chão e se solidificado fazendo perfeitamente um contorno por entre as árvores. Haviam blocos menores que formavam uma grande placa de muitas cores: azul, branco, roxo ou vermelho; bem como grandes fragmentos jogados por cima de vários tamanhos, semelhante a um solo pedregoso. Sobre o novo terreno a caminhada foi ainda maior que a anterior, a única diferença que houve foi a mudança do som de nossos passos que agora soavam como pancadas no vidro. No fim do caminho havia uma segunda divisão, mas, desta vez, em relação a toda a floresta, pois se podia sair dela para uma rua pavimentada de uma grande cidade com apenas um passo, então Sunwish me disse:

– Esta é Cosmos, em sua maior parte é uma cidade militar, fora fundada a partir da “Aldeia Montanha da Queda”, porém o lugar exato da pequena vila se perdeu, apenas sabemos que ficava aos pés da montanha que contemplaste antes.

Andarmos por algumas quadras em direção ao centro da cidade e vi que as casas não possuíam muros, nem grades nas janelas e em alguns caos nem mesmo portas, se podia ver a mobília dentro delas e em seu interior eram como se esperaria, exceto também, pela maioria dos moveis serem de cor negra e exatamente iguais aos da casa anterior, mas aquilo que mais chamava atenção naquele lugar era que absolutamente tudo neste mundo (inclusive as pessoas) eram um pouco maiores do que suas contrapartes de nossa Terra.

– Acho que agora entendo como se sentiu um Hobbit quando saiu de Bolsão, mas em meu caso, vejo que cheguei a Valinor…

Se ouviu um suspiro como que de alguém quem é contrariado e Sunwish disse:

– Por favor, não cite em minha presença estes livros religiosos de teu mundo garoto!

Mas naquele momento não dei atenção a advertência, pois estava arrebatado pela visão da cidade, tanto que comentei:

– S-sua cidade me causa uma nostalgia, me parece um lugar tão familiar e ao mesmo tempo diferente.

– Compreendo o que dizes – disse Sunwish – teu mundo também inspirava-me um sentimento semelhante, apesar de me parecer muito mais com uma terra de pessoas pequenas… já escreveste sobre meu mundo certo?

– Sim e acho que é por isso que as coisas me parecem ainda mais estranhas – Respondi.

– O que disseste sobre nós em teu livro garoto?

Naquele lugar não só os objetos físicos ou nossos sentidos (tal qual os percebi durante minha estada na Sala de Espera) eram mais “abrangentes”, como também a memória era muito mais vivida, de modo que até me espantei por conseguir me lembrar e recitar palavra por palavra do que houvera escrito anos atrás:

– Não seria um local estranho a nós, em aspectos, como, por exemplo, a arquitetura que se parecia com qualquer grande cidade, cheia de grandes prédios comerciais, pequenas lojas e barraquinhas nas ruas repletas de pessoas, entretanto não se poderia encontrar postes ou fios elétricos passando em parte alguma; o que também não significa que não houvesse eletricidade, pois usava-se um sistema de transmissão de energia através das correntes de ar, fornecida por pequenas torres de aproximadamente três metros de altura chamadas de, Wardenclyffe. Havia cerca de duas ou três torres por bairro, e cada uma delas comportava dois aparelhos de cerca de trinta centímetros de diâmetro com uma pequena antena cada, mas tudo isto era apenas precaução quanto a possíveis falhas ou ataques, pois um único aparelho deste era suficiente para abastecer quase toda a cidade.

– Impressiona-me tua descrição, fala como se realmente já tiveste posto os olhos em nossas cidades!

Sunwish não disse mais nada depois disso, apenas continuamos a caminhar até que a visão de outro ponto da cidade me lembrou mais um trecho de meu antigo livro:

“…o grupo porém continuou a caminhar tentando despistar as sombras que os seguiam de perto, até que seus passos os levaram até uma rua muito larga, bem de frente a um prédio branco que já havia sido visto pelo grupo desde antes de entrarem na cidade, era o maior que havia por ali, visível a quilômetros, um perfeito oposto à conhecida e temida Torre Negra no deserto.”

– A Torre Branca! – exclamei, mas Sunwish riu-se e falou:

– Realmente este prédio se assemelha muito a ela, de fato foi construído a sua semelhança, porém, este é apenas um prédio militar “comum” que serve a um propósito muito menos sinistro.

– Haverá um tempo certo para que possas visitá-lo depois!

A imagem da torre continuou a atrair minha visão como um inseto é atraído pela luz, conforme nos aproximávamos ela aumentava de tamanho, até ter claramente dobrado, há algo de estranho com a visão neste mundo; mas quando nos aproximamos perto o bastante, como que, para avistar a entrada, viramos numa rua menor a esquerda, na direção quase oposta à da torre. Muitos e muitos passos depois, o pavimento da rua se tornou mais liso e de cor mais azulada do que negra, aparentemente havíamos entrando em um bairro mais nobre ou qualquer coisa desse tipo, pois as casas se tornaram também mais bonitas, com belos jardins em suas entradas em vez de muros, estes eram basicamente compostos de plantas muito pequenas porém esquisitas, pareciam apenas um emaranhado de ramos rudes cheios de espinhos e flores vermelhas, senti também um cheiro doce no ar, provavelmente ele era exalado pelas flores que adornavam as casas.

Finalmente chegamos ao nosso objetivo, a casa de Sunwish, e curiosamente esta era ligeiramente menor que as tantas que já haviam passado, embora possuísse o mesmo padrão de cor do resto da quadra, semelhante as folhas das Árvores Negras e com seu característico telhado alto e reto. As janelas eram grandes e não possuíam grades e nem vidros, eram apenas como um grande rombo na parede vagamente circular na parte superior, também não havia porta, apenas uma grande entrada com aproximadamente três metros de altura e o mesmo acabamento circular na parte de cima, então Sunwish me convidou a entrar; do lado de dentro havia uma mesa rústica de madeira negra, provavelmente tudo ali vinha das árvores da floresta e os objetos ou moveis eram confeccionados sem alteração de sua cor original, sobre um piso claro, aparentemente do mesmo cristal que cobria o chão na floresta; Sunwish fez um sinal para que nos sentássemos a grande mesa, que pareceu incrivelmente vazia apenas com duas pessoas, pois acho que teria capacidade para cerca de vinte ou mais pessoas; toda esta sala da entrada era enorme e haviam alguns armários negros no lado oposto a mesa, aos quais, observei em silêncio atentamente; mas, quebrando o silêncio que reinava, meu anfitrião assim falou:

– Não sei o que pensas sobre a situação, porém, permita-me começar dizendo onde estamos: este não é o mundo dos mortos nem nada semelhante, na verdade, estamos no mesmo plano físico de tua Terra, só que em um estado “mais elevado”. Não foste realmente assassinado por Starwish, apenas tiveram teus lugares trocados…

– Espere – o interrompi – não estou entendendo, mas então o que realmente aconteceu comigo?

– Como assim Starwish me mandou para cá?

– E por quê?

– Por favor Vaniel – disse ele – escute primeiro tudo o que posso dizer-lhe por enquanto primeiro, e só quando lhe disser que é seguro, faça tuas perguntas, nesta hora lhe responderei tudo o que quiser.

Assenti com a cabeça, ele prosseguiu:

– Este Mundo encontra-se selado a cerca de quinhentos de teus anos terrestres, não consigo lhe dizer com certeza, pois devido a falta de importância que as datas têm agora, perdemos a conta.

– Meu mundo está praticamente morto, existem aqui poucos habitantes, cerca de uma centena, e é precisamente por isto que Starwish esteve buscando uma forma de fugir para um mundo mais vivo.

– Encontrá-lo é na realidade, por demais fácil para qualquer um dos portadores, podemos ver daqui o que há nos mundos mais baixos sem dificuldade, também vimos como tens sonhado e tido visões do que se passa aqui em cima, é como se te tornasse num tipo de farol para nós.

– Foi assim que ele te encontrou e executou uma troca de teus lugares entre os dois mundos, escapando dessa forma a nossa prisão.

Mesmo levando em conta tudo o que havia passado desde que “morri”, acho até que aceitei tudo aquilo bem demais, mas afinal, aquela ela a explicação as minhas dúvidas, como não lhe dar ouvidos?

– Vaniel, escreveste num livro desde tua infância e um de teus personagens chamava-se Starwish certo?

Concordei.:

– Para escreveres teu livro, baseou-te primeiramente em sonhos que sempre tiveste, depois preencheu as lacunas da história com tuas próprias ideias, porém, na realidade, tudo aquilo com o que pensaste ter sonhado, ou criado depois por conta própria, não eram meros frutos de tua mente, e sim uma espécie de captação, ou seja, eram visões de acontecimentos reais passados aqui mesmo há algumas centenas ou milhares de teus anos.

– N-não, espere – retruquei – n-não… não tem como ser isso… o Starwish com quem sonhei era uma pessoa diferente daquele que me atacou, era uma criança não um tipo de “guerreiro dimensional”, até a cor de seus cabelos eram diferentes, meu personagem chamado Starwish era até mesmo loiro!

– Provavelmente tuas visões não eram suficientemente claras em todo os detalhes garoto, assim como são todos os sonhos, então tua mente preencheu estes por menores com informações sobre ti mesmo!

Sunwish concedeu-me então um tempo, para que pudesse refletir sobre o que havia ouvido, mas a pausa foi logo quebrada por sons de passos que ecoavam como algo de metal atingindo violentamente uma superfície de vidro, os passos vinham dos aposentos do interior da casa, e também ecoavam levemente, como se o som houvesse vindo a mim depois de ter percorrido um longo corredor. Dos passos surgiram duas garotas, ambas eram extremamente bonitas, mas, assim como Sunwish, também aparentavam ser mais altas que as pessoas comuns da Terra, então ele apontou rudemente para a que estava mais a frente e disse:

– Esta que jamais se despe de seus trajes de guerra é Aquila3…

Das duas garotas, Aquila era a mais alta, ainda que a diferença fosse pequena, tinha pele morena e cabelos tão vermelhos como sangue dos homens, quase vivos que caiam e dançavam com movimentos próprios sobre uma tiara dourada com uma pedra verde, seus olhos me pareceram muito escuros devido ao reflexo de seu traje, ela também usava batom vermelho do mesmo tom que seus cabelos, a delicadeza de seu rosto (diferentemente da roupa que usava) provavelmente era uma tentativa de disfarçar os traços sombrios que seu rosto possuía, aquele rosto, por debaixo dos adornos me parecia com alguém que está sempre tramando algo mal. A garota trajava uma armadura da mesma cor da de Sunwish, um sinal claro de que pertenciam ao mesmo exército, porém a dela era um pouco diferente, mais rústica e “visível”, como uma armadura realmente medieval de nosso mundo, visivelmente antiga e muito mais pesada, a armadura escondia completamente os contornos de seu corpo e talvez por ser tão “rústica” é que tinha a aparência de ser mais resistente do que a anterior, a de Sunwish, na cintura da garota estava uma grande e brilhante espada reta. De repente, sua expressão seria inicial se transformou num leve sorriso quando se dirigiu a mim:

– É um prazer finalmente poder conhecê-lo Vaniel, Suwish nos falou de você, mas não pensei que fosse um garoto de tão boa aparência, apenas do que tem sofrido.

– “Ahh, ham, hum…” – gaguejei como uma criança, até que finalmente consegui responder – s-sim… olá, prazer em conhecê-la Aquila.

Aquila riu de mim quando me atrapalhei com as palavras, o que me deixou ainda mais sem jeito e, por isso, apenas quando a segunda garota retornou trazendo uma bandeja brilhante e duas xícaras enormes é que percebi que havia saído da sala; ela colocou uma a minha frente e outra entregou nas mãos do dono da casa que disse:

– E esta loura e tão prestativa é Nightwish.

A segunda garota não me dirigiu palavra nem olhar algum, apenas saiu de novo da sala, mas simplesmente não pude deixar de contemplar sua figura; tinha cabelos tão loiros que pareciam quase brancos, estavam amarrados para trás porém deixando uma franja que cobria até próximo de seus olhos azuis, ao contrário das outras duas pessoas da sala, Nightwish usava um vestido vermelho que se moldava perfeitamente ao corpo e se perdia da vista a divisão entre a roupa e seu corpo. Provavelmente meu amigo Batata, diante da visão de uma mulher tão linda quanto aquela e ouso dizer, a mais linda que já vi em minha vida, a teria chamado pelo nome de alguma deusa, tal qual ele gostava de apelidar as pessoas. Depois de alguns momentos, Sunwish me disse chamando minha atenção para a xícara a minha frente e desviando-a de onde a garota loira desapareceu:

– Este é um chá bastante raro hoje em dia, feito com uma flor chamada “Sangue dos Dragões”, beba, lhe ajudará a dormir esta noite.

Relutei em fazê-lo no início pois tinha um cheiro muito forte, lembrando o cheiro de carne fresca e a cor vermelha do sangue, mas quando finalmente tomei um gole, vi que não era tão ruim assim, apesar de ser extremamente doce. Enquanto me ocupava de meu chá olhei mais uma vez para o corredor por onde desapareceu a linda garota, mas num esforço de disfarçar o ato, olhei em direção a janela oposta e vi que a fraca luz de um entardecer ainda era visível mesmo que já houvesse se passado muito tempo desde que o notei as margens do lago, diante disso perguntei:

– A noite ainda não chegou completamente, então não é muito cedo para dormir?

– Na verdade já anoiteceu – respondeu-me Sunwish – aqui as noites são desta forma mesmo, não escurece completamente, a luz apenas se esvaí um pouco, como se fosse um fim de tarde, tal qual de te lembrares já que escreveste sobre isto!

– Sim, me lembro, embora tenha achado que eu mesmo havia criado tudo o que escrevia, chamei este lugar de a Terra do Sol Eterno, devido a falta da noite e o brilho eterno do Sol…

– Mas como poderei simplesmente me deitar para dormir na casa de um estranho, em um mundo estranho que sequer possuí noite sem pelo menos fazer mais algumas perguntas?

Levantando uma das mãos para me silenciar, ele disse:

– Como já lhe disse antes, haverá um tempo apropriado para isto, já sabes mais do que aquilo que poderia lhe ser dito com segurança e o fiz justamente para isto, para tranquilizar o teu espírito, só o que resta agora alguns detalhes menores a serem ditos, por hora, peço que faça como eu disse, descanse e quando for seguro, responderemos todas as tuas perguntas. Aquila lhe levará até o quarto!

Sunwish então se levantou rapidamente e seguiu na mesma direção em que a bela garota loira havia ido momentos atrás, deixando-me na presença de Aquila, que se dirigiu a mim dizendo:

– Sei que ainda está muito confuso com tudo o que aconteceu Vaniel, e quem não estaria em sua situação?

– Mas tenha certeza de que pode confiar em Sunwish e em mim, pois, como ele mesmo disse, foi pensando no quão estranha é tua situação que ele te disse tanto sobre nosso mundo.

– Não deve ainda conhecer todas as respostas e também não pode ver muito deste lugar antes da hora certa, seria perigoso!

– Não entendo – eu disse – por que todo este segredo?

– Qual seria este perigo pelo qual não devo conhecer nada ainda?

– Tenha paciência garoto – falou Aquila – você fez uma longa viagem e o melhor pode fazer agora é descansar, acredite, é para seu próprio bem que peço que não se perca em pensamentos sobre nosso mundo ainda!

Aquila de repente olhou em direção ao corredor que conduzia aos aposentos internos, aparentemente buscando sinais da presença dos outros dois moradores, então vendo que nenhum deles estava a vista, ela se aproximou e sussurrou:

– Este mundo encontra-se em um período de Tribulação, ou seja, estamos vivendo nossos momentos finais e tudo o que acontece agora é como um teste para os poucos vivos que precisam permanecer unicamente por si mesmos, sem interferência externa, mas, na verdade, este não é o problema, mas sim o que Starwish fez!

– É simplesmente impossível, exceto para Deus, entrar ou sair de um mundo que entra nesta condição. Ainda assim Starwish conseguiu trocar seus lugares entre os mundos, ainda não está claro para mim como ele o fez, quem lhe falará sobre isso será o portador Sunwish, mas o que sei é que nossos mundos exigem um tipo de, digamos assim: um “período de aceitação”; então, antes que qualquer coisa possa ser feita, devemos primeiro eliminar a possibilidade de uma rejeição, é por isto que precisa permanecer quieto, por um tempo. Não pense demais em nosso mundo para que não o influencie a agir ao seu redor, acreditamos que Starwish esteja fazendo o mesmo na Terra até as coisas se estabilizarem.

– E o que acontece se eu não fizer o que está me dizendo Aquila?

A ruiva fez uma expressão muito seria, depois sorriu mas seu rosto parecia muito mais desejar com satisfação minha morte do que me responder qualquer pergunta:

– Não há garantias que esta troca realmente dará certo, nem para você, nem para Starwish e o pior que pode esperar é ser “literalmente tragado pelo próprio ar”!

Acho que nem mesmo naquele momento de possível afogamento, eu havia me desesperado tanto e foi aos gritos que disse:

– ENTÃO POR QUE NÃO ME AJUDAM A VOLTAR AGORA MESMO?

– EU PRECISO VOLTAR, DESTROQUEM NOSSOS LUGARES AGORA MESMO…

Mas o gesto que Aquila fez para que me acalmasse foi tão ameaçador que me arrebatou para uma “tranquilidade forçada” imediatamente, e em seguida ela disse:

– Não grite garoto, não vê que os outros já foram dormir!?

– Acho que você não presto atenção ao que eu e Sunwish dissemos: não cause nenhuma perturbação com seus pensamentos ou ações a este plano, pelo menos, por algum tempo.

– Lembra-se do momento em que viu seu assassino cara a cara?

– Toda aquela encenação foi, na verdade, uma forma de driblar seus pensamentos e como eles influenciam as leis determinadas para toda a existência, para que teus próprios desejos o fizessem querer escapar de seu mundo, fique ciente de que você ainda não tem a força necessária para fazer algo semelhante, nenhum de nós aqui tem e a mera intenção de repetir tudo poderia trazer uma punição a altura!

Palavras jogadas ao sabor do vento, pois nada seria capaz de me fazer esquecer que eu corria o riso de ser consumido pelo mundo a minha volta, mas ao ver a expressão terrível e bela no rosto de Aquila e devo dizer: mais terrível do que bela, é que resolvi seguir o conselho. Então a garota me guiou por um comprido corredor de paredes brancas e piso brilhante de cristal vermelho, e aqui havia uma diferença com o resto da casa, pois ao contrário do lado de fora, em que não haviam portas, estas existiam no interior da casa, provavelmente destinadas a dar privacidade aos moradores e não a segurança. Andamos até chegar a última porta do corredor, Aquila a abriu e cedeu passagem, depois me desejou um bom descanso e já estava quase a fechando por completo quando me lembrei de perguntar:

– Por favor, Aquila, quanto tempo duram as noites aqui?

Ela pensou por um segundo, talvez convertendo tudo em um número que eu entenderia:

– Algo próximo a setenta das horas de seu mundo.

Novamente seu olhar me parecia bastante sádico enquanto fechava a porta, e pude ver antes que a fechasse, a silhueta da outra garota loira de pé, atrás de Aquila, ela também me encarava com uma expressão que apenas parecia menos agressiva quando comparada à de Aquila, então a porta se fechou e pude ouvir os passos das duas se afastando.

– Acho que devo ao menos agradecer por este ser um quarto de verdade e não uma grande piscina!

Na parede havia outro buraco a se passar por janela, por onde eu poderia até sair se quisesse, havia uma pequena mesa abaixo da janela e ao lado da cama, uma cadeira com forro vermelho mas esta era muito desconfortável de se sentar, o contrário do que parecia e cama, que era enorme mesmo para as pessoas tão grandes que viviam ali; já que universo poderia se livrar de mim a qualquer momento e que a cama me parecia muito bem-vinda, devido ao recém-descoberto cansaço, resolvi ver o quão confortável esta era de verdade e dormir um pouco, pena que mesmo deitado, passei mais de uma hora olhando para a penumbra através da janela, aliás, desde o início eu já sabia que não conseguiria dormir, tampouco afastar de meus pensamentos a natureza do universo…


Notas Finais


1ÉTER – Em visões cosmológicas ultrapassadas, o éter seria o meio, ao qual preencheria o que se considera hoje como espaço sideral. Teorias da conspiração sustentam que grandes mentes como Eistein e Nicola Tesla sempre souberam da existência do éter, que teria sido provado em 1913 por Sagnac; a teoria da Matéria Escura, neste sentido, seria um substituto a este “elemento”, pois observou-se que os movimentos das galáxias não condizia com o peso que supostamente possuíam, postulou-se então a teoria de que deveria haver mais matéria ali do que aquela que estava visível, chamou-se tal matéria de “Matéria Escura”. Segundo a conspiração Einstein teria dito que sem a presença do éter, toda a teoria da relatividade não se sustentaria, por este motivo teria se proposto um substituto a ele.

2Em A DIVINA COMÉDIA, de DANTE ALIGHIERI, publicado em 1472, o Paraíso fora dividido em nove esferas, sendo cada uma governada por um planeta, de acordo com a ordem da visão cosmológica da época: na primeira, a Lua; na segunda, Mércurio; Vênus na terceira; depois o Sol; Marte; Júpiter; Saturno; na oitava esfera ficam as estrelas do firmamento; e na nona o Primum Mobile, que seria algo como uma última “camada” do universo físico, o conceito foi originalmente introduzido por Ptolomeu.

Neemias 9:6 - “Tu, só tu, és Senhor; tu fizeste o céu e o céu dos céus, juntamente com todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela existe, os mares e tudo quanto neles já, e tu os conservas a todos, e o exército do céu te adora.” (Versão Almeida Revista e Atualizada)

3AQUILA – Águia. Constelação visível no equador celeste, sendo sua estrela mais brilhante chamada de Altair.


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