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História A bela flor no vale do digno - Capítulo 9


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Notas do Autor


Esse capitulo é bem pesado, então se perceberem que não vão conseguir ler, parem e me perguntem nos comentários se tiver alguma dúvida.
Esse é o final da primeira parte dessa história que fecha o mistério da Rin.
Boa leitura ^.~

Capítulo 9 - As memórias de Kyoto - Parte 2 A troca


Fanfic / Fanfiction A bela flor no vale do digno - Capítulo 9 - As memórias de Kyoto - Parte 2 A troca

Quando voltamos para a entrada do templo, Inuyasha e Kagome estavam estáticos em frente a um casal. Eu podia ouvir os batimentos dos dois acelerados, mas não tinham reação alguma.

- Coral, Shinichi... - A Rin se aproximou deles. – Vocês se conhecem? - O casal negou. - Bom então esse é o Inuyasha. – Ela apontou para o meu meio- irmão e ele finalmente viu que estava agindo como um idiota.

- Isso e essa é minha esposa, Kagome! – Ele abraçou a garota e sorriram, pelo clima estranho eles devem ter ficado se encarando por muito tempo.

- Desculpe o constrangimento é que vocês lembram um casal de amigos antigo nosso e como não os vemos há muito tempo, ficamos impressionados. – Kagome tentava se explicar, mas estava muito envergonhada.

- Não se preocupe, obrigada por nós receber! – A moça era simpática mesmo pra ignorar a situação.

- O que vieram fazer aqui? Fê, conhecer o templo né? – O Inuyasha só sabe coçar aquela cabeça, deve ser pulga.

- Ah, sim, mas também cuidar da nossa Misaki. - Inuyasha e Kagome se entreolharam.

- É que minha esposa é agente dela!

- Bom pessoal, eu vou com o Sesshoumaru tá ok?

- Está tudo bem? – A agente olhava preocupada.

- Está sim, confia em mim! – ela sorriu e deu um abraço nos amigos. - E Kagome, é um prazer conhecê-la, o templo da sua família é maravilhoso!

- Muito obrigada! - As duas sorriram e a Rin veio até mim.

- Vamos então? - Ela afirmou e fomos para o meu carro.

Nós voltamos para a minha casa. A Rin pediu para irmos a um lugar reservado para conversar e achei o meu apartamento melhor que o hotel que ela estava hospedada. Nós chegamos e Jaken estava fazendo o almoço.

- Ah, o senhor sesshoumaru é tão bom, mas esse meu corpo é um inferno! Eu alcanço coisas altas, mas também nem é tão alto assim. Eu ainda posso comprar roupas da sessão infantil! Como é que pode??

O que aconteceu de ontem pra hoje que ele tá reclamando que é baixo demais? Ele quer aperfeiçoar as reclamações?

- Ah, Sesshoumaru- Sama, o senhor voltou... Oh, senhorita Misaki, é um prazer revê-la.

- Jaken, nos deixe a sós.

- Mas senhor...

- Agora Jaken e não nos incomode!

Ele voltou para a cozinha e levei a Rin para o meu quarto. Ela se sentou nos pés da cama e fiquei ao seu lado.

- Pode me abraçar? – Sua voz era suave e triste, eu me virei de frente para ela, passei meus braços por seu corpo miúdo e ela apoiou sua cabeça no meu ombro e começou a contar sua história.

 

Passado. Autor.

Aos 16 anos numa aula de pintura dois rapazes se destacavam, os professores ficaram impressionados por duas pessoas tão talentosas coexistindo no mesmo momento. O inicio da relação foi conturbada, um tentando superar o outro, mas com o passar do tempo, cada um seguiu uma expressão artística diferente e assim se tornando grandes amigos. Frequentaram a mesma faculdade de artes e cada um fez seus nomes com muito esforço e dedicação.

Em 1995 foi um ano decisivo na vida de um desses amigos, o mais arrogante e ambicioso se envolveu num acidente que matou aos seus pais, mas o que realmente o abalou foi o fato de suas mãos não poderem mais pintar. Ele se achava tão bom quanto um Portinari e realmente ele era comparado desta forma, as mãos delicadas que nunca trocaram um pneu ou lavaram uma louça foi um presente divino. Os traços graciosos nunca mais seriam vistos e apenas trêmulos riscos desajeitados saiam daquele corpo desolado. 

O motorista que causou a batida morreu imediatamente, pobre e sem parentes, não houve indenização. Uma cirurgia foi realizada alguns meses depois acidente, mas um dos riscos era que a situação piorasse e foi o que aconteceu. Agora ele era impedido de mover os dedos, sentia dores constantes. Sasaki Riki sabia do perigo e assinou um contrato de consentimento. Agora arrependido e tomando vários remédios, via parte da fortuna que seu trabalho rendeu escorrer pelo ralo do hospital.

Até que um grande amigo lhe estender a mão, a proposta: Um mês na Polônia para esquecer os problemas. Haveria um grande concerto que os pais flautistas do amigo participariam. Aquele mês, percebeu toda a sua ira se voltar ao amigo.

Viu Kin se apaixonar perdidamente por uma linda polaca dos olhos azuis. A mulher não era nada além de uma simples secretaria e não foi difícil prever que ela largaria tudo para viver o amor com seu amigo. Riki estava insatisfeito, sua dor constante o deixava irritado, ver seu amigo Kin amando lhe consumia de inveja.

No dia da apresentação do casal Ringai, que com certeza foi o mais belo concerto que o homem já viu, Riki conheceu a linda e incrivelmente talentosa pianista Ewa Kupiec. Ainda desconhecida na época a jovem de cabelos castanhos escuros e olhos azuis se apresentava pela primeira vez após vencer uma competição de Chopin. Na festa de comemoração todos estavam felizes, Riki se aproximou da bela Ewa, a encantando com a boa aparência, o carisma e seus trabalhos como pintor antes do acidente. Com a boa lábia que tinha, conseguiu uma incrível noite de sexo.

Quando retornaram ao Japão, Kin logo se casou, irritando aos pais pela escolha inconsequente e fora dos seus padrões. Em menos de um ano, uma garotinha de cabelos e olhos castanhos nasceu na família Ringai.

Alguns meses depois Sasaki Riki se mudou para a casa ao lado com uma criança dois meses mais velha de cabelos castanhos escuros e olhos azuis como a mãe.

Ringai Kin se tornou o patriarca da família e apesar dos seus pais não gostarem da esposa, eles a aceitaram melhor quando viu a criança tocar um violino pela primeira vez ainda com um ano e meio de idade e ficaram ainda mais contentes quando a filha do vizinho demonstrou grande aptidão para o piano. Uma amiga talentosa, para uma criança prodígio.

Misaki começou a ter aulas particulares de violino enquanto a pequena Rin a acompanhava com o piano. Com a ajuda do senhor Kin as garotinha tinham aulas juntas, pois sabia das dificuldades financeiras que o amigo passava.

O tempo passou e as garotas cresciam muito apegadas, nós primeiros anos, elas chegavam a vestir a mesma roupa e ter o mesmo corte de cabelo, tudo porque queriam estar sempre iguais.

- Rin-Chan, Rin-Chan... O que você quer ser quando crescer? – A menina com lacinhos no cabelo perguntava empolgada.

- Eu não vou ser eu mesma? – A outra com uma tiara azul como seus olhos respondia em duvida.

- Não é isso, olha, eu vou ser uma grande violinista, eu vou tocar no mundo todo, você vai ver!

- Então eu vou ser uma pianista e vou estar com você em cada apresentação seremos uma dupla!

- Isso, seremos as Rin!!

- As incríveis Rin!!

- As talentosíssimas Rin!! – As crianças gargalhavam a cada adjetivo pensado.

A risada delas ecoava como musica pelos cômodos da grande casa, os mais velhos orgulhosos riam pensando: “Porque não as incríveis Saki, ou algo assim?”, mas ninguém ousaria comentar, aos três anos demonstrando tanta alegria, as crianças planejavam um futuro inteiro juntas.

Enquanto o pai trabalhava, a pequena Rin passava o dia todo na casa dos Ringai. A menina amava cantar, tanto quanto amava o piano e cantava com Misaki dançando ao seu lado, as famílias as consideravam irmãs.

Quando a herdeira Ringai ia a Polônia visitar a avó materna, Rin ficava triste, trancada em casa e estudando enquanto o pai trabalhava e voltava cheirando forte para casa. Aos seis anos, não houve mais viagens à Polônia, a amada vó havia falecido de um ataque cardíaco, o que deixou a menina muito triste. A única que a consolava naquele momento de dor era sua melhor amiga.

As duas decidiram se dedicar nas aulas, treinavam dia e noite e superaram o luto assim. No ano seguinte haveria uma competição de violino, as duas ficaram extremamente empolgadas, a pequena Misaki estava dando o primeiro passo para seu grande futuro e Rin a apoiava como se ela mesma estivesse indo competir.

A mãe iria primeiro com a filha, elas precisavam confirmar a inscrição e participar das primeiras eliminatórias regionais que aconteceriam dois dias depois de chegar e na véspera da viagem, na casa de Rin elas faziam uma promessa.

- Você vai lá e vai arrasar, tem que dar tudo de si!

- Mas... E se eu não conseguir vencer? – Misaki tinha medo de decepcionar a amiga.

- Isso não vai acontecer você é a melhor, você é literalmente uma bela flor e está no vale do digno, o que significa que você é a única pessoa digna de todo o reconhecimento, você estudou e se esforçou muito, mas caso se distraia e acabe não errando, eu vou estar aqui pra você porque nós somos irmãs!

- Não, nós somos uma, nos completamos! Eu amo você Rin, é parte de mim. – Elas se abraçaram forte.

- Você me promete que não vai me abandonar?

- Jamais, estaremos juntas pra sempre, é o que sempre falamos, então é impossível nos separarmos.

- Eu tenho um presente pra você! - ela entregou um colar feito à mão. - esse é um colar que representa a nossa amizade, vamos estar juntas para sempre e vai também vai te dar sorte na apresentação! – Ela apontava para o enfeite do colar em forma de flor. – Olha, tem até um pedra azul pra você lembrar de mim.

Elas dormiram ali, no dia seguinte, Misaki acordou atrasada e correu para casa se arrumar, se despediu rapidamente e saiu ás pressas para o aeroporto.

Aquela manha Riki mostrou uma notícia no jornal a filha. A cidade vizinha estava tendo uma exposição de pianos antigos e ficariam só pelo final de semana. Então Rin se arrumou, levou uma mala com comida para passar o dia e foi até a estação de trem contente, seu pai tirou uma foto sua e voltou para casa.

No aeroporto, prestes a fazer o chequem, Misaki vasculhava a bolsa, retirando tudo e colocando a peça de cabeça para baixo no meio do saguão.

- Mamãe, eu não tô achando!!! – A garota tentava segurar as lágrimas.

- O que não está achando querida?? – A mãe falava com a calma que sempre transparecia.

- O meu presente... – Ela chacoalhava os pequenos pertences na tentativa de fazer o colar aparecer ali no meio como mágica.

- Como assim?

- O presente que a Rin me deu pra dar sorte!!!

- Ah querida, nós pedimos pro seu pai trazer quando for nos encontrar!!

- Não, eu não vou conseguir tocar, eu não vou passar pelas eliminatórias, eu não vou tocar! - ela chorava incessantemente.

A mãe angustiada cedeu aos desejos da filha, trocou as passagens para o dia seguinte e pegou o táxi de volta.

- Vai lá falar com a Rin, eu vou estar te esperando em casa! – Deu um beijo no topo da cabeça da criança e foi para casa.

A menina batia na porta da casa dos Sasaki e Riki a atendeu.

- Senhor Riki, a Rin está?

- Ela saiu pequena e você não deveria estar no avião?

- Sim, mas eu esqueci o presente da Rin, não podia tocar sem ele!

- Entendo, então vá procurar!

A menina entrou na casa que cheirava forte, uma garrafa de bebida e um copo cheio de um líquido amarelado estava sobre a mesa. O senhor Sasaki observava a garota entrar no quarto da filha, foi até a pia da cozinha e encarava um objeto em específico no meio da louça suja. Quando a garota voltou, foi até o pai da amiga.

- Obrigada senhor Riki, eu encontrei o colar. – Sorriu, fez uma reverência em respeito ao mais velho e se encaminhou a saída.

O homem a seguiu com um sorriso radiante e antes que ela abrisse a porta, segurou seu rosto tampando sua boca e cortando a jugular. Levou o corpo até o quarto da filha, lavou as mãos e trocou de roupa. Pegou a garrafa com o resto de Shochu, inseriu a camisa suja que usava pelo bocal e foi à casa dos vizinhos.

A festa alegre podia ser ouvida do lado de fora, entrou sem avisar por ser sempre bem vindo e escondeu a garrafa entre os sapatos. Ali na entrada, a mulher havia deixado às malas da viagem e sua bolsa.

Os amigos estavam no jardim dos fundos, festejavam animados em comemoração a primeira competição de Misaki.

- A minha filha está na sua casa? – A loira perguntava abraçando o homem.

- Sim, ela está conversando com Rin! Aposto que logo elas aparecem aqui logo. – O sorriso cínico enganava a todos.

- Que bom!!! Vamos para a cozinha, a comida está quase pronta!! – O senhor Kin falava já que era o cozinheiro da vez.

- Eu vou ao banheiro! Daqui a pouco me junto a vocês.

Enquanto todos passavam pela sala e iam para os fundos onde estava a cozinha, Riki foi para a área de serviço que se encontrava próximo da entrada retirando a garrafa do esconderijo. No pequeno cômodo, ele forçou a saída do aquecedor que agora vazava querosene, colocou fogo na camiseta e saiu rapidamente da residência com a bolsa da senhora Ringai e a mochila de flores que imaginou ser da criança. Segundos depois a explosão aconteceu.

A família Ringai ficou presa, a entrada foi tomada pelo fogo que se espalhou rapidamente pelas divisórias de papel e pelo tatame. Tentaram sair pela janela da cozinha, mas o oxigênio causou uma segunda explosão, desmaiando todos na casa com o impacto e por último o fogo chegou à passagem de gás causando a terceira e maior explosão que se espalhou pelas outras casas.

Os bombeiros chegaram rápido, mas foi difícil controlar o fogo, algumas casas mais distantes tiveram o telhado ou o jardim queimado, mas nada tão grave quanto à casa principal e as que faziam divisa.

Riki voltou meia hora mais tarde, chegou depois que os policiais já estavam no local afastando os vizinhos do fogo que não cessava.

- Minha filha, onde está a minha filha!! - ele gritava atônito, como se fosse mais uma vítima!

O teatro era tão bem feito que as lágrimas cair de dar dó, quem soubesse o que ele fez, diria que eram lágrimas de alívio por conseguir elaborar um plano tão bom em cima da hora!

Aquele dia, o homem afogava a raiva pelo sucesso do amigo e pela ascensão da menina Misaki, ela iria competir, ser famosa e ter seus sonhos realizados. Ele sentia inveja da vida do amigo e não conseguia ver o grande talento que a própria filha possuía, rejeitando qualquer coisa que não se parecesse com a herdeira Ringai.

Agora, ele finalmente conseguiria ter a vida Ringai, com os últimos pertences da menina, ele faria de tudo para se tornar o que não era.

Ao final do dia, Riki foi buscar a filha na cidade vizinha, falou do “acidente” e a levou a uma casa aos arredores de Kyoto. Rin estava preocupada com o tio Kin, mas aliviada em saber que a amiga estava no avião. O pai disse que eles ficariam longe por um tempo já que a família Ringai estava com dificuldades também e logo teriam que viajar a encontro da filha. Mas os dias passaram e o homem já não conseguia mais enganar a menina que queria ver a amiga.

Ele então contou que na realidade todos morreram e a Misaki tinha voltado para casa para procurar o colar que tinha esquecido. Ao ouvir aquilo, a culpa consumiu o coraçãozinho da Rin e ao ver o remorso nos olhos chorosos, o homem viu sua segunda oportunidade.

- Eu sei que está triste meu amor, mas você precisa superar. Lembra quando a avó da Misaki morreu e vocês tocaram juntas até curar?

- Sim... – Ela falava, aos soluços.

- Então, o que você acha de tentar tocar violino de novo? Assim você fica mais perto dela!

Daquele dia em diante a criança começou a tocar o pouco que sabia de violino todos os dias. Ela se esforçava, mas não era o que gostava. Apesar disso ela insistia, pois seu pai a instigava a ficar mais próxima da amiga.

Dois anos se passaram, o pai evitava que ela saísse de casa, ele mesmo lhe dava aulas e a fazia tocar. Cansada e conformada com a dolorosa partida de Misaki, ela pediu para voltar a tocar piano, o pai concordou. Ele arrumou as malas e eles se mudaram pela primeira vez.

A nova casa era menor, o pai tinha conseguido um trabalho como cuidador de uma fazenda de morangos. Quando chegaram, a garota estava contente, esperançosa em voltar a tocar o instrumento que amava, mas não foi isso que aconteceu.

- Eu quero que volte a tocar violino, eu permitirei que toque piano quando tocar perfeitamente uma peça completa no violino.

Rin insistiu, mas essas foram as palavras que seu pai se prestou a dizer. E para uma criança de nove anos irritada, sua forma de não tocar violino era escondendo no meio da plantação, mas seu pai achou e lhe devolveu. Brava, ela cortou as cordas do instrumento irritando profundamente o pai que comprou novas, mas dessa vez mostrou que não aceitaria as malcriações. Com as cordas arrebentadas, Rin levou sua primeira surra e chorou a noite toda arrependida.

Ela voltou a tocar, mas o corpo mole que fazia era cansativo e o pai não via progresso, então ele resolveu agir diferente. Se a criança não queria colaborar, ele a faria pela força. O homem convenceu o chefe que acreditava que estava ocorrendo roubos na plantação e que temia pela segurança da filha, então ele colocou grades nas janelas e as vedou, inseriu um cadeado novo no quarto da menina e a trancou. Se ela queria sair, deveria tocar.

Sem poder pagar por um professor e com a evolução da internet, ele a fez aprender mais com vídeos que encontrava. Ele sabia que a menina era boa e só em ouvir as notas, conseguia reproduzir nos ensaios, mas ela parou de evoluir, então um novo método era necessário e agora ela só comia quando acertava, só bebi quando tocava e se chorasse, não era permitido tomar banho ou utilizar o banheiro. Rin deveria tocar até suas mãos sangrarem e seus dedos não se moverem direito.

A primeira vez que ela acertou um concerto completo aos onze, foi a primeira vez que pode sentir o vento em seus cabelos desde que o pai a trancou.

Rin demorou, mas percebeu que o pai a treinava para ser como Misaki. Ela começou a sentir raiva da falecida amiga. Com doze anos, ela tentou fugir para visitar seu tumulo e gritar de frustração. Saiu sorrateira pela noite e foi até a estação de trem, logo após o acidente o pai deixou o cartão da funerária sob a mesa e sabia onde a amiga foi enterrada, mas ao chegar no local o que viu na lápide a assustou.

“Sasaki Rin, amada filha, amiga adorada, pianista excepcional.”

Ela entrou em transe, o pai a encontrou no terminal ferroviário de Kyoto e ao chegar em casa Riki bateu tanto no corpo da miúdo da menina que o único cuidado que tomava era para que não precisasse levá-la ao hospital. A noite, depois de beber a menina foi chorando tentado buscar respostas com o pai.

- Porque acham que eu morri? – Sua voz saia baixinho.

- Porque eu fiz acreditarem nisso! – A voz embargada pela bebida era clara, se fosse outro momento o homem provavelmente teria encontrado uma mentira.

- Porque quer que pensem que estou morta?

- Você é burra mesmo! Ainda não perceber que se você está morta e a Misaki viva, quem você acha que é agora?

Ouvir aquilo a deixou magoada e assustada, tinha medo de perguntar o que gritava em sua mente. E se sentindo humilhada, ela se fechou dentro de si e voltou em silencio para seu quarto.

Dois dias depois se mudaram de novo e nesse novo lugar o pai a puniria por ter fugido, agora ela dormiria no armário e aprenderia etiqueta. Precisava ser elegante e falar bem!

- Fale alto Rin, dicção, fale de forma clara e polida. Perceba o momento certo de se pronunciar e não diga nada além do necessário. Você precisa ser entendida sem se desgastar.

- Porque estamos fazendo isso papai?

- Porque eu estou mandando, agora faça!

Foi nesta casa que ela descobriu, por descuido do pai ou talvez não, os pertences de Misaki escondido com os documentos da amiga, certidão de nascimento, passaporte, carta de autorização. Junto havia fotos do pai com um homem, relatório policial e ficha de arcadas dentárias. O pai que carregava uma xicara de café estava atrás dela a via mexer em tudo atônita.

- Encontrou o que procurava?

- O que é isso papai? Você tem algo a ver com o acidente?

Ele não respondeu, apenas a olhava com um sorriso no rosto, se aproximou da menina que engatinhou assustada e quando bateu na parede, o pai derramou o líquido quente na lateral direita do tronco a queimando.

Agora ela precisava aprender sua nova história, iria respirar a mentira, ser a mentira e viver a mentira! Mas não antes de tentar fugir novamente, e dessa vez definitivamente, mas o pai sabia que isso poderia acontecer e a pegou antes mesmo que tentasse e se mudaram de novo.

Agora com 14 anos, Riki a algemava no guarda roupa para dormir, até que aprendeu a arrombar a fechaduras. Quando descobriu, começou a usar cordas, foi quando ela desistiu e se submeteu as torturas do pai e mesmo podendo se livrar do castigo, temia por deixar o pai mais irritado.

Aprendeu sobre sua nova vida: Tocar como um prodígio, comer sofisticadamente, andar graciosamente e falar apenas o necessário!

Seu pai dizia que quanto mais treinasse e mais cedo começasse, mais natural seria e ninguém desconfiaria. Com o passar dos anos seus sonhos foram varridos para de baixo do tapete que o pai colocou sobre ela. Frustrada pela Misaki tê-la abandonado, por ter ido antes e a deixado a mercê do destino.

Uma nova mudança, uma casa mais precária, o dinheiro estava acabando e ela podia perceber.Riki bebia mais a cada ano, parecia perder as forças e só vivia para torturar a menina e mantê-la presa, ela era como um rato de laboratório muito bem treinado e obediente.

Uma das últimas lições que o pai ensinou provavelmente foi a pior.

- EU NAO AGUENTO MAIS ISSO, EU ODEIO VOCÊ...

- Você me odeia? – O olhar pesado dava medo, ele seria capaz de qualquer coisa para coloca-la em seu lugar. – Não aguenta mais? Então porque você não sai daqui?

Riki apertava seu rosto, machucando seu maxilar. A adolescente de 16 anos chorava de dor e desespero, não devia ter irritado o homem.

- Porque não se defende? Você ainda é uma criancinha inocente? Não quer mais viver aqui? – Ele a encostou no chão e segurava sua cabeça com os pés, gritando e cuspindo em sua face.

- O que vai fazer se for embora? Vai sobrevive como? Vai procurar a mãe que te abandonou? Você não consegue, nunca conseguiria! É fraca! É burra! – Ele falava entre os dentes com ódio. - Levante-se! Você é fraca e medrosa, vacila demais e não tem concentração. Levante-se!

Os soluços eram tantos que a menina quase não conseguia respirar com tantas maldades sendo jogadas em sua cara.

Ele então chutou sua barriga e a deixou jogada no meio da sala. Ela ouviu a porta bater e ser trancada. Encolheu-se em posição fetal e ali ficou pelas próximas horas.

“Misaki, porque eu tenho que viver assim? O que eu te fiz? Isso é tortura? Eu te amei tanto e tenho que sofrer por sua causa? Porque eu não posso só morrer”

Quando criou um pouco de força foi ao banheiro, tomou um banho e resolveu dormir, mas seu pai voltou acompanhado. A acordou puxando seus cabelos e disse que aquela noite, ele não a protegeria mais do mal do mundo e não seria mais uma criança inocente.

Mesmo tendo acabado de se mudar, o homem juntou as coisas rapidamente e seguiram vigem. Os vizinhos chamaram a polícia com a quantidade de gritos que foi ouvido dentro daquelas paredes e quando alguém chegou para socorrê-la, eles já estavam longe.

“Por favor, Misaki, me de forças para me vingar, se for seu desejo eu farei de seu sonho realidade. Só te peço que me ajude a sair desse tormento. Eu faço qualquer coisa!”

- Agora seu nome é Misaki, espero que tenha aprendido alguma coisa, porque da próxima vez... – Ele fez uma pausa pensando se realmente falaria a próxima frase. - Eu espero que se lembre de que a Misaki não é minha filha.

Naquele momento ela jurou que faria as palavras do pai lei, prometeu a Misaki nunca mais culpa-la e que a criança inocente dentro de si havia morrido.

Aos dezenove anos o pai levava prostitutas a última casa que arranjou, não se importava que a filha visse e ouvisse.

Uma moça ia lá com frequência, quando o pai finalmente dormia, elas conversavam. A mulher que perdeu os pais muito cedo precisava alimentar o irmãozinho e trabalhava com o que podia.

- Como você está hoje pequena? – Ela me perguntava enquanto vestia sua roupa.

- Eu estou bem, ele está feliz por ser tão boa no violino, ele planeja me colocar em concursos em breve. – Rin falava sentada no armário.

- Ah garota, eu não sei como você aguenta, ele é um monstro.

- Mas você também está aqui!

- Eu tenho um irmão caçula pra cuidar! Não posso me dar ao luxo de escolher!

- E se você pudesse? – Ela falava num tom baixo para ter certeza que o velho não escutaria.

- O que quer dizer com isso? – A outra também sussurrava.

- E se você me ajudasse e eu ajudasse você?

- Não pretende fazer nenhuma loucura não é?

- Nada a não ser adiantar o inevitável.

Elas conversaram até perceber que o velho acordaria.

- Ah,Sango... Boa sorte, espero por você e o Miroku na próxima.

Elas se despediram e a semana passou.

Riki ia sempre ao mesmo clube e raramente escolhia outra moça, então só para ter certeza que ele não faria diferente dessa vez, o segurança ajudou.

- Como vai Riki-Sama?

- Vou bem garoto, como está lá dentro?

- Está bem, a Sangozinha tá nos seus melhores dias!! – Deu uma piscadela e o homem riu alto. – Mas eu não vou ficar amolando o senhor, aproveite a noite!

Ele entrou e procurou pela moça de sempre, ela dançava no palco principal e assim que o viu, foi em sua direção.

- Hoje é seu dia de sorte Riki-Sama. - ela sorria eroticamente, passando o dedo no peito do corpo magro e velho.

- Ah é? Por quê?

- Porque hoje eu vou te servir pessoalmente! E vai ser por conta da casa por ser um cliente tão especial!

O homem começou devagar, a mulher se insinuava enquanto o fazia beber cada vez mais. Ela sabia que ele sempre parava no sexto ou sétimo copo, então um pouco antes, ela colocou uma dose de boa noite cinderela e falou para irem para casa. Quando chegaram, Riki nem conseguia mais ficar em pé, o segurança apareceu em seguida e com a ajuda de Rin, desceram mais bebida garganta a baixo do homem. A cada gole que eles o faziam beber, um sentimento de vitória possuía o corpo de Rin.

Depois de duas garrafas e meia o homem parecia morto. Miroku o levantou e seguiu para um beco próximo a casa, o colocando caído numa valeta e com o restante da garrafa em mãos. Após alguns minutos e corpo começou a convulsionar, até que Riki morreu aquela noite afogado no próprio vômito.

Na casa, as mulheres faziam à limpa, retiravam tudo da geladeira, as roupas do armário e objetos pessoais que ligasse a presença de Rin na local. Deixou apenas o futon manchado com seu sangue e ali marcado como o último lugar que ela se rebaixou a alguém na vida.

No dia seguinte, Miroku pagou pela bebida que Riki bebeu para não ter uma comanda em seu nome e se demitiu levando Sango.

Rin foi até o detetive que o pai subornou para acabar com as provas do incêndio e o chantageou. Sasaki era um bosta, mas não era burro e tinha provas que incriminariam até o papa. Vendo aquilo o atual delegado não colocaria em risco sua carreira e cedeu.

Ela mandou que novas identidades fossem feitas em nome de Coral Verdelger e Shinichi Oomori.

Agora, eles não seriam mais encontrados se a polícia investigasse a morte de seu pai e Sango não se preocuparia com o cafetão a perseguindo. Dali em diante, Coral era sua agente e Shinichi seu noivo. Ela pegou os documentos da Misaki e utilizou o dinheiro da família Ringai para ter uma vida nova.

Agora, ela era Ringai Misaki, tinha aceitado seu fardo e respeitando o desejo da amiga de infância, tocaria pelo mundo afora e se tornaria a maior violinista que o Japão já viu. Com o dinheiro, eles voltaram para o centro de Kyoto, alugaram um pequeno apartamento e trocaram o pequeno Kohaku de colégio.  E assim, trabalharam dia e noite para fazer dos sonhos de Misaki realidade.

Se a pequena criança tomou seu lugar na morte, ela daria à nova Misaki seu desejo atendido. A promessa seria cumprida.

 

Presente.

Eu estava abalado, perturbado com o que ouvi. Não queria acreditar, mesmo sabendo que a humanidade era uma merda, não queria aceitar.

Eu a vi se desvencilhar de meus braços e parar de frente para mim. Com seus movimentos suaves, ela retirou a blusa de moletom cinza, a calça de algodão e a camiseta branca. Em frente à luz, pela primeira vez eu realmente a vi. As lindas curvas em retalhos, o belo corpo cicatrizado.

Nas costas, cortes finos das cordas do violino, na barriga uma mancha de queimadura, as pernas cortes de vidro das vezes que o pai a bateu. Em minha mente só conseguia pensar e ver nela os hematomas que o tempo curou de seu corpo, mas não da sua mente.

Me levantei e a abracei mais uma vez, forte para que ela sentisse o meu carinho e proteção.

- Minha perfeita Rin, nada de mal vai te acontecer novamente, eu te juro.

Eu só pude sentir minha camisa molhar, suas lágrimas tinham cheiro de lamento e não emitia som, ela não tinha mais voz para se expressar depois de tudo que me contou.


Notas Finais


A segunda parte da história começa a sair amanha mesmo ou mais tardar depois de amanha.
Se cuidem, bjs!


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