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História A Canção de Morgana - Capítulo 11


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Capítulo 11 - A Segunda Voz do Vento



There's another world inside of me that you may never see
There's secrets in this life that I can't hide
Somewhere in this darkness there's a light that I can't find
Maybe it's too far away, or maybe I'm just blind
Maybe I'm just blind


(Há outro mundo dentro de mim que talvez você jamais veja,
Há segredos nesta vida que eu não posso esconder
Em algum lugar dessa escuridão há uma luz que eu não posso encontrar
Talvez esteja muito longe, talvez eu só esteja cega
Talvez eu só esteja cega)

(When I’m Gone -  3 Doors Down)

Cedo na manhã seguinte, Harry e Rony se encontraram com Hermione no salão comunal, antes do café da manhã. Ela tentou persuadir Harry a lhe contar os detalhes dos eventos do Ministério, mas tanto ele quanto Rony concordaram que era a vez de Hermione desembuchar a respeito do seu sumiço durante o verão.

— Oh, não é nada muito emocionante — ela disse, tentando soar bem casual mas não sendo capaz de impedir um estremecimento em sua voz — Meus pais me proibiram de voltar para Hogwarts e quando eu tentei argumentar o absurdo da coisa, eles acharam que era uma boa ideia saírmos do país.

— Seus pais o quê? — A voz de Rony soou aguda — Por que eles fariam isso quando você já veio nos últimos cinco anos?

— A guerra, é claro. Eles perceberam que havia uma coisa estranha após o fim do ano passado e foram fuçar nas minhas coisas, então eles acharam o meu exemplar do Profeta Diário sobre a batalha no Departamento de Mistérios em junho — explicou a garota em voz baixa, enquanto fazia um sinal para que tomassem o rumo do Salão Principal, mas se deteve ao lembrar de alguma coisa. — Nós devemos esperar Johanne?

 

— Não — Harry respondeu rápido demais. Ele viu pelo canto dos olhos que Rony fez uma careta — Digo, ela já deve ter ido, estamos bem atrasados. Hermione, você ia dizendo…

— Eu ia dizendo — ela pigarreou, depois de lançar um longo e investigativo olhar para Harry, suas sobrancelhas franzidas — Que eu precisei explicar o que estava acontecendo em nosso mundo para eles e é claro que eles não gostaram de como soou.

— Mas daí a te proibir de vir para Hogwarts! — Rony ainda estava inconformado — Eles não podem achar que você está mais segura em casa, quer dizer, eles são trouxas, o que eles podem fazer contra Você-Sabe-Quem ou algum comensal?

— Sutil, Ron — ela estreitou os lábios. — Mas sim, daí a mudança de país. Nada do que eu disse os convenceu de que não era uma boa ideia nos mudarmos para a França, onde a minha avó materna mora, e me matricular numa escola trouxa. A coisa toda foi bem exagerada, eles largaram os empregos e tudo. Harry? Você está muito quieto.

 

O garoto, que viera silencioso por todo o caminho até ali, deu de ombros.

— Eu acho que os seus pais estão certos em querer proteger você.

— Mas ela está segura aqui, nós estamos seguros, nós temos Dumbledore! — Rony brigou, como se precisasse vencer aquela discussão para impedir Hermione de voltar imediatamente para casa assim que o café da manhã terminasse. Os ombros da garota despencaram um pouco.

— Eu sei que eles estão certos, mas eles não entendem a coisa toda — ela deu um olhar significativo para Harry, e ele soube que ela se referia à Profecia e ao seu novo status de Escolhido. — Então eu parei de brigar e fingi que estava ok com a mudança. Até deixei eles me matricularem na bendita escola trouxa, em francês. Mas para fazer eles acreditarem que eu estava convencida eu não podia ficar trocando cartas com vocês, não é? Era parte do acordo que eu “cortasse meus laços” com o mundo mágico até a situação melhorar.  

— Você devia ter nos pedido ajuda — Harry repreendeu no momento em que eles atingiam o Salão Principal, bem na hora que o correio coruja estava entrando. O barulho dos pios e asas abafou suas próximas palavras — Nós teríamos ido resgatar você, como o Rony foi atrás de mim no segundo ano!

— Eu sabia que você diria algo assim — ela sorriu grata, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça em negativa — Mas eu seria louca de colocar vocês em perigo indo atrás de mim. Além do mais, quando eu finalmente consegui sair de casa, eu tive ajuda para voltar à Londres.

— Que ajuda? — Rony alterou a voz para ser ouvido através da balbúrdia das aves.  

— Ora Rony, você e Harry não são os únicos amigos que eu tenho nessa vida. Eu na verdade fiz uma ou outra nova amizade nas férias.

 

Harry nem precisou olhar para saber que as orelhas de Rony estavam ficando vermelhas.

— Quem sabe um dia eu apresento vocês? Agora vamos comer, estou morta de fome. Ah, parece que McGonagall está distribuindo os horários!

Ela se adiantou até a diretora da casa, que tentava transpor a bagunça que as corujas faziam para chegar até os alunos do sexto ano distribuídos pela mesa. Tão logo estava fora de alcance, Rony virou para Harry com uma cara suspeita.

— História estranha essa, não?

— Eu não sei, Rony, acho que qualquer família trouxa ficaria alarmada se descobrisse que a filha fugiu da escola para combater arte das trevas e quase morreu no processo. Uma boa família, quero dizer — ele deu de ombros, pensando em Petúnia e Válter Dursley e em como eles não poderiam se importar menos — Talvez fosse mais seguro para Hermione ter ficado na França, se você pensar racionalmente…

— Mas nós temos Dumbledore! O que os trouxa têm? Sistemas de alarde cachorros!

Rony tinha descoberto nas férias, através do pai, que alguns trouxas usavam sistema de alarme e cães para fazerem a segurança de suas casas. Ambos tinham achado tão engraçada a ideia de se proteger usando cães de guarda que Harry não se dera ao trabalho de lembrá-los que ainda existia a polícia e o porte de arma. Além do mais, é claro que nenhuma dessas opções era de alguma serventia contra a arte das trevas.

— E esses “amigos” que ajudaram ela? Ela nunca teve “amigos” antes! Eu não posso ver como eles podem ser confiáveis, esses novos amigos!

Harry achou graça, deslizando para o banco num lugar ao lado de Lilá. Rony ainda estava resmungando quando ocupou o lugar ao lado dele e não ouviu o bom dia que a garota direcionou para ele.

 

— Seus horários, Weasley, Potter — McGonagall estendeu pergaminhos para eles por cima da cabeça de dois segundanistas que tinham acabado de se dar conta de que Harry Potter estava sentado logo ao lado e agora estavam meio em choque — Potter, apareça no meu escritório depois do café.

— Algum problema, professora? — Ele deu uma olhada rápida em sua semana. Tinha Defesa Contra as Artes das Trevas e Feitiços na segunda, História da Magia e Transfiguração terça e quinta, Defesa Contra as Artes das Trevas quarta-feira e Herbologia na sexta. Havia um monte de horários vagos no cronograma, muito mais do que ele já tivera em outros anos.

— Alguns — ela disse com economia, ajudando a aumentar a curiosidade de Harry.

— Uau, nós temos um monte de tempo livre! — Rony notou também, abrindo o primeiro sorriso do dia, que logo foi tolhido pela professora:

— Não é tempo livre, Sr. Weasley, é tempo para estudar, e acredite, o senhor vai precisar de cada minuto se quiser esses cinco NIEMs que está postulando!

Ela não ficou por perto para ver Rony rolar os olhos, ao mesmo tempo em que puxava uma bandeja cheia de bolinhos de canela para perto de si. Hermione, tão compenetrada em analisar seu pergaminho que ainda não tinha se sentado, olhou para os horários por cima do ombro deles.

— Ah, não, não me digam que nenhum dos dois está pegando Trato das Criaturas Mágicas!

— Você está? — Harry estranhou, mas entendeu ao ver o olhar de culpa no rosto dela. A matéria fora penosa o bastante nos últimos anos para que eles não cogitassem incluí-la em seu currículo agora que já não era obrigatória.

— Hagrid vai ficar devastado — ela murmurou, dando uma olhada para a mesa dos professores, onde o meio gigante tomava café de um prato que também poderia ser classificado como uma pequena bacia. Ao perceber que o trio olhava na direção dele, Hagrid deu um tchauzinho feliz. Harry retribuiu com um sorriso amarelo, desviando o olhar em seguida para que sua expressão culpada não ficasse muito evidente. Tendo virado o rosto, ele pegou o exato momento em que Johanne entrava no salão. Reparou que ela parou no portal parecendo ligeiramente atordoada.

— Você acha que ela se perdeu vindo pra cá? — Hermione perguntou com preocupação e Harry percebeu que eles olhavam para o mesmo lugar. — Nossa, devíamos ter esperado.

— Não é a primeira vez dela em Hogwarts, Hermione — ele resmungou, mas no fundo estava se sentindo um pouco culpado também. Não ter esperado significava que ela precisara achar seu caminho até o Salão Principal às cegas.

 

— Está tudo bem? Até ontem eu tive a impressão de que vocês se davam bem, mas desde que ela foi selecionada…

— Não é nada, Hermione — ele cortou a amiga, desviando o rosto intencionalmente para se servir de suco de beterraba. Hermione mordeu a língua, procurando o olhar de Rony, mas ele estava distraído oferecendo os bolinhos de canela para uma Lilá Brown extremamente animada.

Anne hesitou antes de tomar um assento na mesa da Grifinória, entre os poucos lugares vagos que tinham sobrado perto da porta. Evitou de propósito olhar na direção de Harry pelo resto do café, mas a verdade é que seu cereal parecia especialmente amargo aquela manhã.

— BD —

Após um momento de deliberação, congelando entre as chicotadas de vento que varriam o topo da colina, Bervely decidiu que não ia entrar em Blackburn Hall pela porta dos fundos. Primeiro, porque ela não ia se sujeitar a tamanha humilhação e segundo, não fazia a menor ideia de onde ficava. Também não podia aparatar lá dentro; feitiços anti-aparatação em casas de puro-sangue tendiam a ser impiedosos com invasores. A casa parecia degradada, isso era verdade, mas se ainda restava um elfo dos velhos tempos lá dentro, haveria feitiços e ela não queria arriscar ser estrunchada em terreno inimigo.

Lhe restava a porta da frente. Mão enfiada no bolso do casaco, os dedos em torno da varinha, ela atravessou o jardim frontal queimado de sol com a cabeça baixa para proteger os olhos do vento que vinha do leste. A mansão vermelha queimada de sete torres sempre funcionara como um gigantesco aerofone — mesmo agora, enquanto se aproximava, Bervely conseguia ouvir os assobios produzidos pela passagem das correntes de ar pela estrutura da construção, um assobio baixo e grave, a segunda voz do vento.

Seu primeiro passo sobre o pórtico de madeira rangeu alto. Tudo em Blackburn Hall parecia ressecado, abandonado e estéril; Bervely teve quase certeza que o palpite de Theo estava errado, ninguém poderia estar habitando aquela casa. Mas então, no passado, o lugar jamais fora mais acolhedor, não que se lembrasse. Sempre oco…

Bervely bateu na porta e ela cedeu, deslizando uns três centímetros para dentro. Não tomou aquilo como um bom sinal.

Seu instinto lhe disse para recuar; não havia bom prognóstico possível em invadir uma casa de puro-sangues sem permissão, não importa o quão inofensiva ela parecesse.

Mas essa é tecnicamente sua casa também, uma parte lógica de sua consciência lhe lembrou. Se Bellatrix e Rodolphos nunca tivessem sido presos, era ali que ela teria passado todos os seu verões. Talvez ainda fosse onde ela passava os verões, numa versão alternativa e perturbadora da realidade. Ela voltaria do Instituto Flamel para as férias e sua família estaria lhe esperando; Bellatrix num avental florido, assando um trouxa para o jantar, Rodolphus tomando um copo do seu próprio uísque de fogo no parloir e lendo o Profeta Vespertino… ela balançou a cabeça, afastando o pensamento macabro antes que ele tomasse uma forma grande demais. Antes que ela começasse a pensar em quem ela seria se tivesse continuado naquele lugar. As coisas que faria… as pessoas que ela nunca teria conhecido.

 

Tirando a varinha do bolso, fez um feitiço em torno dos seus pés para que seus passos não fizessem o assoalho ranger. O interior da mansão continuava tão grandioso, opressor e minuciosamente decorado como se lembrava; os tons escuros e veludosos dominavam a decoração, a escadaria central vertebrava o hall de entrada. Atrás dela, para a esquerda, ficava a sala de estar envidraçada com as largas poltronas de couro negro, o bar e uma lareira magnânima que ocupava quase a parede inteira. Há dezesseis anos, naquela sala, Bellatrix lhe dera o livro ancestral da família Black de presente de aniversário e conversara com ela sobre estrelas. E bem ali onde estava parada, na frente da escada, a mesma Bellatrix tentara lhe esmagar com o massivo candelabro pendurado sobre a sua cabeça, após ela fazer amizade com um cão negro no Beco Diagonal.

— Merda — Bervely xingou, usando a mão que não estava segurando a varinha para coçar o olho que estava pinicando (por causa da poeira, certamente) — Hominus Revelium! 

O feitiço para revelar presença humana não lhe deu qualquer retorno, mas é claro que existiam jeitos de despistá-lo. Bruxos competentes poderiam fazê-lo; não Charlotte, que não era uma bruxa, e muito menos competente.

Suspirando, Bervely começou a subir as escadas para o segundo andar, onde ficavam os quartos. A cada degrau que ela escalava, alguma coisa em seu peito ia se apertando. Não esperava que após tanto tempo as lembranças estivessem vívidas em sua memória; uma versão bem menor dela subindo e descendo aqueles degraus uma centena  de vezes, em mil brincadeiras de imaginação para dar conta do tédio de ser a única criança naquela casa fechada por meses e meses, antes de a primavera chegar e Charlotte aparecer.

Você não tem que ter medo dos elfos”, a pequena Bervely de cinco anos explicou à garota nova um dia, quando ela se escondeu tão logo uma das criaturas veio fazer a limpeza do quarto. “Não tinha elfos de onde você veio? Quem limpava a sua casa?”

“Meus pais”, disse a menina num fio de voz.

“E onde eles estão agora?”

“Mortos”, ela revelou com um tremor.
 

Elfos, pensou Bervely, empurrando as lembranças para o fundo com o mesmo afinco com que elas brotavam na superfície. Os elfos da mansão teriam ficado, não importava o quanto tempo a casa estivesse abandonada. Era sua missão de vida cuidar da propriedade até seus mestres ou os herdeiros retornarem para reivindicá-la. Infelizmente não lembrava seus nomes, mas era curioso que não tivessem aparecido para lhe receber tão logo ultrapassara os limites da propriedade. E deixar a porta aberta, isso era estranho.

Seu antigo quarto, por outro lado, continuava o mesmo em cada detalhe, ao não ser pelo fato de que tudo parecia bem menor agora, mais estreito, mais baixo. A cama de quatro postes, a qual ela só conseguia alcançar escalando sua mala, agora não parecia mais tão inatingível. A preciosa penteadeira incrustada de pedras estava ali, tão empoeirada que o espelho não refletia coisa alguma; no guarda roupas de mogno real, a última gaveta do lado esquerdo ainda estava empenada. A segunda casa da Sra. Calliway, que após uma longa e feliz vida de aranha de estimação, tinha morrido de velhice no ano passado.

Bervely realizou o feitiço novamente, que lhe informou que não havia nenhum humano naquele andar além dela. Mas ainda havia aquela estranha sensação de que estava sendo observada (a sensação nunca lhe fora incomum, se tratando daquela casa. Mas então, no passado havia a Rosa)… Ela inspecionou os quartos principais, a sala de estar, a biblioteca (“Quero que pegue um livro pra mim, Charlie.”), passou direto pela dispensa do castigo sem olhar…

E ouviu uma risada no andar de cima. Uma risadinha feliz de quem tinha acabado de saber alguma coisa engraçada, corriqueira e nem um pouco preocupante.

Bervely apertou os dentes, fechou os dedos firmemente em torno da varinha e subiu mais um lance de escadas.

— BD —

— Eu não estou feliz, Potter. Nem um pouco feliz.

Não era a primeira vez que McGonagall repetia aquela exata frase nos últimos cinco minutos. Harry estava começando a achar que a professora não tinha um objetivo definido em mente quando lhe chamara ao seu escritório.

— É claro que eu fiz uma promessa para você no ano passado e eu pretendo cumpri-la, então nós vamos achar um jeito juntos. O que você acha, Potter… Potter, você está me ouvindo?

— Desculpe, professora — Harry levantou rápido o rosto do horário de aulas que ele tinha acabado de capturar em sua mochila e estava repassando — Acho que tem um erro em meu horário, aqui diz que eu vou ter Adivinhação Avançada nas sextas à noite, mas eu tenho bastante certeza que não me inscrevi nessa matéria.

Não depois do pesadelo que adivinhação tinha sido nos últimos anos com Sibila Trelawney, Harry pensou, mas teve o traquejo de não dizer em voz alta. A diretora fez um aceno de pouca importância com sua mão.

— Esqueça isso um momento, Potter. Poções é o seu problema. Vamos focar no problema. 

— Não, professora, tudo bem — Harry suspirou, cansado — Sei que nada no mundo vai fazer Snape me aceitar na turma de NIEMs dele com um “Excede Expectativas”. E olha, pra ser sincero eu nem…

— Você precisa de um NIEMs em Poções para seguir a carreira de auror, Potter! — lembrou-lhe acidamente Minerva, como se houvesse alguma possibilidade de Harry ter esquecido. Ele tinha passado por um momento de inconformidade após receber seus NOMs nas férias, mas acabara aceitando o fato. Havia aquela grande chance de ele nem sobreviver para seguir a carreira de auror, se a profecia estivesse correta… — Infelizmente eu tenho tentado chamar o professor Snape à razão e não venho obtendo sucesso.

Harry deixou escapar uma risada zombeteira pelo seu nariz.

— Boa sorte com isso, professora.

McGonagall lhe lançou outro daqueles olhares de derreter liga de aço, depois assumiu uma postura mais prática.

— Se Snape não quer colaborar, nós vamos tentar outros meios. Há sempre a possibilidade de você fazer o curso avançado de poções via correio-coruja que é oferecido pelo Ministério. 

Harry fez uma careta, lembrando do curso feiticeiro-expresso de Filch. A professora não perdeu a expressão dele, ao que seus lábios se estreitaram em reiteração.

— Suponho que seja pedir demais, dada sua carga atual de trabalho e sua costumeira carga extra de afazeres do ano escolar, não é? — disse em retórica, fazendo Harry reprimir um sorriso — Eu vou arranjar alguém para tutorar você, Potter. Com a ajuda correta você pode perseguir os seus estudos sozinho e ter uma chance de conseguir esse NIEM. Talvez a Sra. Granger esteja disposta a assumir a tarefa? Seria algo adicional aos oito NIEMs que ela está perseguindo e à monitoria, mas estou certa de que pode ser arranjado com um pouco de organização…

— Professora, realmente — Harry a interrompeu assim que o vislumbre dele e Hermione trancados numa sala por longas horas em dias de sábado fazendo poções, com a amiga batendo a concha em sua cabeça toda vez que ele fosse obtuso em seguir as instruções, lhe causou um calafrio — Não quero incomodar Hermione com isso, se a senhora não se importa. Quero dizer, seria ótimo se houvesse um jeito de eu conseguir meu NIEM em Poções, mas se não tem como…

— Você não está ajudando, Potter — a bruxa reclamou, bufando que nem um gato impaciente — Vá para a sua primeira aula, ande. Só fique sabendo que eu vou encontrar um jeito de cumprir minha promessa, você vai ser auror se é o que você quer, Potter, não importa se eu tenha que lhe ensinar Poções pessoalmente para isso.

Harry esperava que ela não tivesse falando sério sobre a última parte, mas agradeceu mesmo assim. Seguiu para a primeira aula da segunda feira, que infelizmente era Defesa Contra as Artes das Trevas com Snape. Seu pressentimento sobre o desenrolar daquele novo arranjo não podia ser mais pessimista.

Do outro lado do castelo, Anne não estava tendo maior sorte. Sua primeira aula do dia fora tranquila o bastante – História da Magia com Binns, que consistira em sentar por quarenta e cinco minutos e ouvir sobre a guerra de gigantes – mas no segundo horário ela tinha Poções e o seu estômago estava dando voltas de nervosismo. Da última vez que estivera em Hogwarts, Snape lhe expulsara de suas aulas porque, segundo ele, ela era incapaz de seguir com a disciplina sem enxergar. Mas naquela manhã ao lhe entregar o horário, McGonagall informou que ela tinha sido readmitida na matéria para que pudesse cumprir o seu currículo obrigatório. Aparentemente o fato de que sua irmã agora era quase uma Alquimista graduada e que Anne vivera os últimos dois anos em uma escola de Alquimia devia significar que o conhecimento e as habilidades que ela precisava para transpor sua deficiência visual tinham sido absorvidos por osmose.

Ela conseguiu chegar às masmorras sem se perder, usando como guia a voz de um grupo de colegas de casa que sabia estarem indo na mesma direção; naturalmente, o fato de Harry Potter não estar por perto significava que estava cega de novo. E é melhor você se acostumar, ralhou consigo mesma, lembrando-se da discussão com o garoto na noite anterior e se aborrecendo.

— …então eu enrolo as antenas em torno do broto de feijão e consigo ouvir eles ronronando — ela pescou a voz de Luna em algum ponto à sua esquerda. A notícia de que continuava dividindo Poções com a Corvinal era consoladora, pelo menos poderia manter a sua dupla de antigamente.

— Oi, Luna. Técnicas para caçar Dipidinhos? — perguntou, se aproximando de onde achava que a garota estava, usando o feitiço-obstáculo para não trombar com ninguém no caminho. O cheiro doce e apimentado da amiga alcançou seu nariz, provando que seu palpite espacial estava certo.

— Se você quer colocar dessa maneira — respondeu Luna com inesperada frieza. Quem quer que estivesse com ela se virou para cumprimentar Anne:

— Oi, Anne, seja bem vinda de volta! A Luna aqui estava explicando que a razão para a minha câmera fotográfica não estar funcionando é que pode estar infestada de Dipidinhos. Como você está se virando? Grifinória agora, hum! Será que eles me deixam trocar para a Lufa-Lufa ano que vem? Sempre quis experimentar como seria.

— Uh, oi — ela respondeu um pouco perdida — Quem…?

— Ah, desculpa, me esqueci! É o Colin Creevey, se lembra?

— Ah, oi, Colin! — ela sorriu envergonhada, ligando a voz à um rosto. Colin fora seu colega no Clube de Voo no primeiro ano e eles tinham sido algo como amigos durante o segundo. O garoto até lhe emprestara sua câmera fotográfica uma vez, para que ela tirasse a primeira foto da sua família completa.

Naquela hora as portas da masmorra se escancararam, deixando passar Snape que como sempre parecia carregar o pior dos humores.

— Calados — ele ribombou, ventando seu caminho para a frente da sala.

— Posso me sentar com vocês? — Anne murmurou no volume mais baixo, tateando para encontrar uma cadeira vazia. Ela só ouviu a voz de Colin responder um “claro”; a falta de resposta de Luna a inquietou.

— Luna, você se importa?

— Eu me importo com um monte de coisas, mas essa não é uma delas.

— Sente logo, Snape está começando a olhar feio pra cá — Colin implorou, lhe ajudando a puxar a cadeira.

Anne precisou esperar a aula terminar, porque Snape estava especialmente insuportável naquele dia. Ele tirou quinze pontos de um grifinório que teve uma crise de espirros; depois disso o resto da sala preferiu terminar a Poção da Paz — uma receita complexa e demorada cheia de passos e particularidades irritantes— falando só o estritamente necessário. Por que ela era “um perigo com os ingredientes” (tal qual o professor Snape justificara como razão para lhe expulsar da última vez), Anne ficou responsável pelas instruções e pela tarefa enfadonha de mexer a poção quando tudo já estava cozinhando no caldeirão.

Quando o sinal tocou, Colin se prontificou a entregar uma amostra da tentativa de Poção da Paz deles para Snape, deixando Anne e Luna sozinha à mesa. A corvinal imediatamente começou a arrumar seu material, o que Anne notou por causa do barulho do livro sendo empurrado em sua mochila de sinos.

— Luna, espera — se adiantou, virando-se na direção dela — Será que você pode me dizer qual é “o monte de coisas” com que você se importa”?

— Eu posso, mas você não vai gostar de ouvir.

— Vá em frente.

Luna voltou a sentar. Anne conseguia sentir um certo ar de aborrecimento emanando dela.

— Eu pensei que você tinha voltado para sermos amigas de novo — ela explicou, em sua voz flutuante característica — Mas você ao invés disso mudou de casa. Eu imagino que você tenha seus motivos, mas isso me deixou chateada.

— Eu não mudei de casa porque eu quis! Por que todo mundo parece achar que eu decidi marcar um quadradinho para a Grifinória? O chapéu me pôs lá! — Apesar de seu tom resignado, Luna não lhe contrapôs com nada a não ser silêncio. Interpretar silêncios era especialmente difícil quando se era cega — Luna?

— Sua aura está toda bagunçada.

Anne apertou os olhos atrás dos óculos, sua frustração crescendo.

— O que nós conversamos sobre falar das auras dos outros, da primeira vez que nos conhecemos?

— Que eu não devo ficar reparando na aura dos outros — recitou ela, amuada — Mas a sua está mesmo bagunçada.

— E ela por acaso está vermelha e dourada? — Anne provocou, erguendo uma sobrancelha. Mais um pouco de silêncio, depois a voz incerta de Luna na sua frente.

— Não…

— Então pronto. Quando a minha aura ficar vermelha e dourada, ai você pode ficar zangada comigo. Em qualquer outra situação você fica do meu lado e me apoia, especialmente se a minha aura estiver bagunçada!

Ela sentiu que Luna estava sorrindo.

— Tudo bem — a garota cedeu — Só porque você está fazendo muito sentido agora e eu gosto dos seus argumentos.

— Eu sempre faço muito sentido.

— Black, Lovegood, por acaso a minha sala virou a área de bate papo do quinto ano e eu não fui informado? — a voz de Snape trovejou lá na frente da masmorra. Anne ganiu.

— Não me diga que todo mundo foi embora e somos as últimas aqui — gemeu baixinho para Luna.   

— Tá bom, se você não quer, eu não digo — respondeu a amiga com invejável serenidade.

— BD –

O solário era o lugar que Bervely nunca ia quando habitara aquela casa; estava fora dos limites. Ela sabia da sua existência, no entanto. Sabia que Bellatrix costumava passar as manhãs de domingo ali em cima, tomando o sol que era filtrado através das janelas, lendo livros de magia negra. Bervely a espiara mais de uma vez pelas frestas da porta, que diferente das demais da mansão, era feita de finas e intrincadas ripas de madeira castanho-clara, trançadas como o fundo de uma cesta.

Para chegar no solário ela precisava subir uma escada em espiral que estava caindo aos pedaços, mas Bervely tinha certeza que a risada viera daquela direção. Era engraçado como, chegado o momento, estava estranhamente calma sobre o que encontraria lá em cima. Discordando do seu estado de espírito, os espinhos da rosa em seu braço lhe beliscaram, mas ela não deu atenção, afastando a sensação para longe.

Se a escada estava destruída, não podia dizer o mesmo do patamar em que acabara de entrar, após atravessar a porta de treliça aberta. O solário de Blackburn Hall - uma ampla sala circular no topo da torre central, cujo teto era feito de vidro e sustentado por braços de metal retorcido, não possuía sequer um grão da poeira abundante que revestia o resto da casa. Os vitrais tinham sido limpos, de forma que a luz difusa da manhã filtrava através deles sem impedimento, emprestando uma iluminação de contos de fada ao espaço. O lugar não tinha nenhuma mobília. Diferente do resto da casa, o chão era revestido de um mármore encantado para refletir o teto, dando a impressão de que que havia um céu mais escuro e embaçado abaixo do piso. No meio desse impressionante cômodo, posicionada contra a luz, Charlotte Summers era feita de sombra.

— Muitas memórias não é? — ela se pronunciou, sua voz cristalina e ligeiramente bem humorada — Minha nossa, essa casa. Eu sei como se sente. Da primeira vez que pisei aqui depois de tudo… uau. Tantos arrepios.

Tendo usado aquela voz por um bom tempo há alguns anos, enquanto disfarçada de Charlotte, Bervely experimentou um conflitante sentimento que misturava familiaridade e repulsa ao mesmo tempo. Era como ouvir uma versão de sua própria voz sendo falada por outra garganta, o que ela sabia não fazer o menor sentido.

Se aproximou do centro do solário, perto o bastante para conseguir distinguir os traços do rosto de Charlotte. Da última vez que a vira, a garota estava usando o corpo de um elfo, e antes disso, Charlotte tinha vinte anos e atraíra seu primo para um plano fatal. Era odiável como ela parecia… exatamente a mesma. Mais velha, é claro, mas ainda com o rosto de uma protagonista de livro infantil, os grandes olhos azuis tomando o rosto que, de outra forma, seria absolutamente ordinário.

— Você tem que ser muito corajosa para pisar aqui. Ou estúpida — Bervely comentou, a investigando com uma atenção engolfante. Charlotte não parecia portar uma varinha, não naquele vestido vitoriano dramático que ela só podia ter roubado do guarda-roupa de uma das ancestrais Lestrange. O seu único acessório era o mesmo colar cor de carne com pingente rubi que usara em seu corpo de elfo; o colar de maior mau gosto que Bervely já vira, era importante ressaltar. Não ajudava o fato de que o pingente do tamanho de um punho de criança parecia pulsar como um órgão, pousado na altura do coração dela. 

— Por quê? — Charlotte perguntou, desentendida — Essa é a minha casa, Bervely. Por direito de herança.

— Abortos não tem direito de herança — retrucou, embora não tivesse certeza que fosse verdade. Ela estava ali afinal, não estava?

Ao invés de parecer ofendida, que era o que acontecia no passado quando Bervely lembrava a Charlotte que ela não tinha magia, o que surgiu em seu rosto foi um sorriso tranquilo, quase nostálgico.

— Nós retornamos aos modos do passado tão facilmente! E eu pensando que a primeira pergunta que você faria é “como diabos eu estou viva”, já que você me deixou para queimar da última vez.

Bervely apertou seus lábios, tentando descobrir que jogo era aquele, mas sentindo que estava falhando em entender as motivações de Summers, ou porque ela parecia tão tranquila para alguém que quase fora mesmo queimada quando tiveram um encontro parecido. Por que ela não estava preocupada ou com medo do que Bervely podia fazer? Por que ela parecia tão confiante? 

— Se você estiver se perguntando, não tem jeito de queimar essa casa — Charlotte avisou, adivinhando seus pensamentos – Blackburn é, ironicamente, construída em madeira mágica completamente não inflamável.

— Há outros jeitos de destruir uma casa — respondeu Bervely a esmo. Charlotte sorriu mais uma vez — cada sorriso novo era mais irritante do que o último, afinal qual era a graça? 

— Que tal um chá? — disse ela, num adejo educado — Não é porque tivemos os nossos atritos no passado que devemos esquecer os bons modos.

— Summers, você pode pegar esse chá e enfiar na sua–

— Ikia! — Charlotte chamou, sem dar atenção para Bervely. Um elfo magro e pequeno estalou no meio do solário, o qual Bervely recordava vagamente de estar ao redor quando ela era pequena — Você se importa de servir chá para mim e a Srta. Black? Ah, e também vamos precisar da mesa.

A elfa estalou o dedo, fazendo surgir uma mesinha redonda de metal para duas pessoas entre elas. Com mais um estalo, duas xícaras de chá provenientes da prataria Lestrange surgiram fumegando sobre o tampo. No momento seguinte a elfa desaparatou de vista.

— Ainda se fiando na magia de seres inferiores, eu vejo — Bervely comentou zombeteira. Charlotte lhe deu um olhar beligerante e tomou um lugar, sentando-se com as costas muito retas. Ela indicou a outra cadeira para Bervely, suspirando quando reconheceu sua resistência.

— Vamos lá, Bevy, não há razão para não sermos civilizadas aqui.

— Eu posso pensar em várias razões. Me perdoe se não estou interessada em me sentar para o chá com uma assassina. Ou com a cúmplice de alguém que queria me usar como marionete particular.

— Você é sempre tão apegada ao passado! Você também tentou me matar, Bervely, de fato você quase conseguiu, e você não está me vendo guardar mágoas, está? Por tudo que eu sei, nós estamos quites. Agora, sente e vamos conversar como duas pessoas civilizadas, você aprendeu isso em algum momento, eu sei porque eu estava lá quando isso aconteceu.

Bervely fez uma careta de repulsa, mas acabou se sentando. Só porque parecia muito estranho ela ali de pé segurando a varinha quando Charlotte bebericava seu chá tranquilamente, o dedo mindinho levantado.

— Eu não vou beber nada que você me oferecer, que isso fique bem claro — avisou num rosnado.

— Como quiser. Agora, a que devo o prazer da sua visita? Não vou mentir que achei que você apareceria uma hora ou outra em Blackburn Hall, mas achei que fosse para procurar a sua mãe, o que claramente não é o caso. Ou é? — ela inclinou o rosto, curiosa — Você achou que encontraria Bellatrix aqui?

— Por quê, ela esteve aqui? — Bervely devolveu incisiva. Charlotte recuou, enigma em seu rosto.

— Ela tentou, mas os feitiços de família impedem que intrusos entrem sem a minha permissão.

— Como você fez a casa responder a você? Ela também é uma Lestrange! Tem tanto direito de entrar aqui quanto você tem!

Charlotte deu de ombros, despreocupada com os detalhes.

— Não pergunte a mim, eu não entendo como funcionam esses feitiços de família. Afinal como você diz, eu não passo de um aborto, não é? Vai ver meu tio deixou a casa para mim no testamento…

— Rodolphus não está morto — Bervely lhe lembrou, mas viu Charlotte dar de ombros.

— Prisão perpétua. Mesma coisa. 

Nada daquilo fazia muito sentido. Como Charlotte pudera reclamar sua herança, se Bervely jamais fora autorizada a tocar na sua? Mas então, havia uma explicação para tudo aquilo, uma que ela não gostava de admitir, mas que explicaria porque Charlotte estaria conseguindo dar nós em leis mágicas impossíveis…

— É ele, não é? Ele está de volta à ativa, controlando você de novo. Usando seu corpo, talvez? Ele não o fez da última vez, mas imagino que o desespero seja um bom catalisador para descer até esse nível.

— “Ele”? — Charlotte repetiu, ligeiramente chateada — Você quer dizer Thor? Você o destruiu, Bervely. Você e seu pai destruíram tudo que ele construiu, vocês colocaram fogo em tudo, vocês dizimaram… o coração dele. Thor é uma sombra arrasada no fundo de uma cela em Azkaban, muito além da reparação.

— Eu não acredito em você — rebateu Bervely, suas narinas inflando — Isso é exatamente o que você diria se ele quisesse me fazer acreditar que é inofensivo, para então me pegar com guarda baixa. Eu não sou idiota, Charlotte.

— Não, você não é — ela disse tristemente — Mas está um pouco paranóica. Eu entendo. Se eu tivesse assassinado treze pessoas numa noite só, eu também não conseguiria encontrar meu travesseiro em paz à noite.

A boca de Bervely se abriu involuntariamente com o choque da acusação. Charlotte  não notou, ou fez que não, enquanto pousava a sua xícara no pires.

— Como é? — ela perguntou, no fundo sabendo que não devia dar corda à provocação, mas o que que é que ela estava dizendo?

— Aquelas pessoas que você explodiu aquela noite, querida. Elas eram inocentes, você sabe? Elas tinham famílias, vidas, objetivos, pijamas preferidos, bichos de estimação…  

— Elas eram marionetes! Não havia salvação para elas, você sabe disso!

— Assim você diz — Charlotte suspirou, assentindo como se tivesse pena da outra. Chamou o elfo de novo e pediu para que ele completasse a sua xícara, agradecendo com doçura.

Bervely evitou olhar para ela, sentindo o topo da garganta queimar. Pigarreou, afastando a onda de pensamentos que estavam ameaçando nublar sua clareza.

— Você tentou sequestrar Harry Potter no verão. Como explica isso, se não o fez a mando do Olho de Hórus?

Charlotte inclinou ligeiramente a cabeça, pensativa, os olhos brilhando como dois topázios bem polidos.

— Não faço ideia do que está falando. Sequestrar… eu? 

— Não tente negar, eu sei que foi você. Com uma arma trouxa, usando o codinome Wendy? E a descrição bate com a sua aparência! Você atirou na barriga de Bellatrix Lestrange quando ela tentou impedir você de levar Potter! Ela chamou você de bastarda, que é exatamente como ela chamava você quando morávamos nessa casa!

— Você parece incrivelmente bem informada dos detalhes do crime — Charlotte pontuou, impressionada — Ao que me parece, você poderia ser a pessoa em questão muito mais do que eu, que mal tenho qualquer conhecimento íntimo da rotina de Potter…

— NÃO JOGUE COMIGO, SUMMERS! — Bervely exclamou, perdendo a paciência e batendo as suas mãos sobre o tampo de vidro na mesa. As xícaras dançaram estridentes, derramando o chá intocado de Bervely no pires. Charlotte recuou com o susto, colocando uma mão sobre o coração, a expressão de choque estampando seu rosto de boneca.

— Minha nossa! Por que você está querendo me incriminar com essa história? É porque o seu amiguinho está do lado de fora ouvindo a conversa? Você está querendo colocar a atenção dele em mim para salvar a sua pele, está, Bevy?

— Meu… quem? — Bervely olhou para trás alarmada, mas não havia ninguém à porta.

Charlotte se levantou com calma, passando as palmas abertas na saia do vestido até que ficasse bem reta. Só então ela respondeu, usando um tom encoberto de quem sabia de uma informação privilegiada, mas não queria contar vantagem:

— Você foi seguida, querida, desde que entrou aqui. Os elfos me informaram, é claro. Eu não sabia porque um auror teria seguido você, mas agora que tentou me incriminar, as coisas estão ficando mais claras. — Charlotte alteou a voz, projetando-a para a entrada — Se o senhor puder dar um passo para dentro, eu ficaria agradecida.

Bervely se voltou de novo para a porta a ponto de ver alguém surgir sob o portal, alguém que ela inclusive vira há pouco tempo em seu uniforme completo de Quarter no quintal da casa de sua tia. Com a exceção de que a expressão no rosto de Theodor estava rígida e desconfiada, e ele trazia a varinha em riste na direção das duas.

— Theo! — Bervely deu um passo para trás, pegando sua varinha em cima da mesa por reflexo. — Eu juro que não é o que–

— Melhor soltar a varinha, Bervely — ele advertiu, a seriedade da função engrossando sua voz e provocando uma vibração nervosa nela — Você não quer dar a impressão de que está resistindo à um auror, quer?

Bervely olhou de relance para Charlotte; ela erguera as mãos acima da cabeça e trazia no rosto a tranquilidade de quem não tinha nada a temer. Sentindo o oposto disso, Bervely abaixou a própria varinha até o tampo da mesa e a largou lá, sua mão tremendo.

— BD —

— Foi genial, Harry! — disse Rony às gargalhadas, quando já estavam bem longe da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, a caminho do intervalo.

— Você realmente não devia ter dito aquilo — comentou Hermione, franzindo a testa para Harry — Por que disse?

— Ele tentou me lançar um feitiço, caso não tenha reparado! — irritou-se Harry, que não estava arrependido de ter sido insubordinado com Snape, muito embora isso tivesse acabado de lhe custar uma semana de detenção — Me enchi disso nas aulas de Oclumência! Por que ele não usa um porquinho da índia pra variar? Afinal, que é que Dumbledore está querendo para deixar o Snape ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas? Você ouviu bem o que ele disse? Ele adora essas artes! Todo aquele papo de instávelindestrutível

— Bem — contestou Hermione —, achei que ele lembrava um pouco você falando.

— Eu?

— É, quando estava nos contando como era enfrentar Voldemort. Você disse que não era uma questão de decorar um monte de feitiços, disse que era apenas você, o seu cérebro e a sua coragem… bem, não era isso que Snape estava dizendo? Que a arte se resumia em ter bravura e agilidade mental?

Harry se sentiu tão desarmado ante a amiga que achava que suas palavras mereciam ser memorizadas como as do livro padrão de feitiço que não achou com o que protestar.¹

— Harry! Ei, Harry!

Harry olhou para os lados; Juca Sloper, um dos batedores da equipe de quadribol da Grifinória do ano anterior, vinha correndo em sua direção com um pergaminho na mão.

— Para você — ofegou Sloper. — Escute, soube que é o novo capitão. Quando vai fazer os testes?

Harry não tinha pensado nisso, com tudo que estava acontecendo. O aviso de que ele era o novo capitão do time viera em uma nota junto com a nota dos NOMs, e fora sinceramente a melhor notícia que recebera naquele envelope. No entanto, ele achava que Sloper tinha muita sorte se voltasse à equipe.

— Ainda não tenho certeza. Aviso você.

— Ah, certo. Eu tinha esperança que fosse esse fim de semana…

Mas Harry tinha parado de escutar; acabara de reconhecer a caligrafia fina e inclinada no pergaminho. Deixou Sloper no meio da frase e se afastou depressa com Rony e Hermione, desenrolando o pergaminho enquanto andava.

Caro Harry, 

Gostaria de conversar com você no meu escritório hoje. Por favor, venha me visitar às oito da noite. Também há alguém que eu quero lhe apresentar. Espero que esteja apreciando o seu primeiro dia de escola. 

Atenciosamente, 

Alvo Dumbledore

Ps: Gosto de Acidinhas 

— Ele gosta de Acidinhas? — estranhou Rony, que leu o bilhete por cima do ombro do amigo, perplexo.

— É a senha para passar pela gárgula na porta da sala dele — respondeu Harry em voz baixa.

Os três passaram o intervalo especulando o que Dumbledore queria conversar com Harry e quem era que ele queria lhe apresentar.

— Talvez seja algo a respeito da profecia do Ministério?— Hermione arriscou, falando baixo para que Lilá, Parvati e Simas conversando ali perto não lhe ouvissem. — As coisas ficaram meio em aberto depois que ela quebrou sem ninguém ouvir, não foi? Mas com certeza devem ter outros jeitos de saber o que dizia...

— É, talvez — disse Harry, sem graça, olhando para o outro lado. Até agora ele não tinha achado uma oportunidade boa o bastante para falar com os amigos que ele já sabia o que a profecia dizia, e que tipo de presságio ela trazia para a sua vida. Não achava que havia um momento bom o suficiente para contar aos amigos que iria virar assassino ou ser assassinado no futuro.

— Mas quem será que ele quer lhe apresentar? Será que é algum auror da guarda de Hogwarts? Talvez Harry vá ganhar seu guarda costas particular a partir de agora — Rony sugeriu pensativo, beirando a empolgação, mas a ideia não agradou Harry nem um pouco.

— É melhor a gente começar a fazer os deveres de casa de Snape — interpelou Hermione, puxando livros e cadernos da mochila e os espalhando pela mesa, mas parando ao ver os olhares nos rostos de Harry e Rony. — O quê? Harry pode contar a gente o que Dumbledore queria quando ele voltar! Nós somos sexto ano agora, não tem porque ficar especulando quando podemos estar estudando!

— Uau, que baita frase motivadora, você podia estampar isso numa camiseta, Hermione — Rony zombou, a careta de protesto ainda em seu rosto.

— Sim eu poderia, e talvez se eu obrigasse você a usá-la todos os dias eu não precisaria repetir a mesma coisa o ano inteiro e o mundo seria um lugar mais feliz de se viver, mas pra que sonhar?

— Sim! Não tem porque ficar sonhando quando podemos estar estudando!

Hermione o ignorou solenemente, mas Harry não conseguiu segurar um acesso de riso.

— BD —

Oito horas em ponto, Harry disse Acidinhas para a gárgula de pedra e teve a entrada concedida torre acima até a porta com a aldrava de latão que dava acesso ao escritório de Dumbledore. Harry bateu, sem saber direito o que esperar daquela reunião.

— Entre — ouviu-se a voz do diretor lá de dentro.

— Boa noite, senhor — Harry cumprimentou, entrando no escritório.

— Ah, boa noite, Harry. Sente-se — disse Dumbledore, sorrindo. — Espero que o seu primeiro dia na escola tenha sido prazeroso.

— Foi, obrigado, senhor.

— Deve ter andado muito ocupado, já recebeu uma detenção!

— Ãa… — começou Harry sem jeito, mas Dumbledore não parecia muito severo.

— Espero que eu não tenha atrapalhado nenhum plano seu hoje à noite, chamando-o assim em cima da hora para me ver.

— Não, não senhor, eu não tinha nenhum — Harry mentiu, porque na verdade ele deixara Hermione e Rony começando a redação de Feitiços no Salão Comunal, e ele sentia que sem esse apoio moral a tarefa se arrastaria quando finalmente se sentasse para fazer sozinho.

— Então, Harry. Você provavelmente está se perguntando o que eu tenho para dizer a você que não podia esperar até o segundo dia de aula, e na verdade são um par de coisas, mas antes, há alguém que gostaria de apresentar a você, se não se importa.

Harry olhou ao redor do escritório circular, que parecia o mesmo de sempre; os delicados instrumentos de prata sobre mesinhas de perna fina soltavam fumaça e zumbiam; os antigos diretores e diretoras cochilavam nos quadros; e a magnífica fênix do diretor, Fawkes, no poleiro atrás da porta, observava Harry com vivo interesse. O que não havia no escritório era um terceira pessoa; por um momento, Harry achou que seria apresentado a um dos quadros, mas nenhum deles parecia particularmente interessado em sua pessoa.

Enquanto investigava, Dumbledore se levantou e andou até o armário onde ele guardava a sua penseira e uma centena de vidrinhos compridos com tampas em formato de lágrima. Harry reparou que a água dentro da bacia de pedra estava girando num redemoinho tempestuoso, logo antes do diretor se inclinar sobre ela e dar uma batidinha na lateral de pedra.

— Ele já chegou, Hilde querida, não vamos deixar Harry esperando.

Dumbledore se afastou. Meio minuto depois, uma mulher inteira brotou de dentro da bacia, pisando com graciosidade no chão de pedra polida e jogando por cima do ombro um cabelo muito longo e ondulado, cuja cor variava entre castanho acaju e grisalho. Harry a reconheceu, era ela que estava sentada ao lado do diretor no jantar de seleção na noite anterior, a que Rony achara erroneamente que era a nova professora de DCAT.

Ela era ainda mais impressionante de perto; Harry teve uma estranha sensação de que devia prestar reverência, algo como umas cócegas na parte de trás dos seus joelhos. Embora não houvesse nada especial em suas roupas e nenhuma jóia em seu corpo, era como se ela fosse parte da realeza. Certamente se portava como tal; sua postura era invejável, ele jamais vira alguém com uma coluna tão reta.

— Harry Potter — a mulher sorriu, acentuando o que quer que fosse que havia de familiar em seu rosto. Ela estendeu a mão e Harry, mas ficou se perguntando se não seria apropriado beijar o torso da mão dela. — Que prazer finalmente conhecê-lo.

Ao invés de apertar e sacudir sua mão, ela a envolveu com as suas duas mãos por alguns segundos. Harry sentiu uma vibração viva de magia estalar em seus dedos, mas foi embora tão rápido quanto veio no minuto em que ela o soltou.

Harry estava tentando lembrar de onde a conhecia — porque ele a conhecia, ou devia conhecer, ao menos essa era a impressão geral. Ela sabia seu nome e seus olhos amarelos de coruja das torres não deixavam passar nenhum detalhe dele. Antes mesmo que se apresentasse, o garoto teve a sensação de que ela já sabia tudo a seu respeito.

— Hildegard — se apresentou a bruxa, a voz suave como se cantar fosse algo recorrente em sua rotina. — Se você está com a sensação de que já me viu em algum lugar, pode ter sido em seu livro de História da Magia. De toda forma não terá sido uma foto muito lisonjeira.

Ela ainda estava bem ocupada em olhar cada parte do rosto de Harry. O garoto sentiu que sua cicatriz era de particular interesse, mas não do jeito que as outras pessoas costumavam encarar; se tratava mais de um interesse científico do que especulativo.

— É um prazer conhecê-la — Harry se lembrou de ser educado, evitando perguntar porque a teria visto em seu livro de história. A situação era toda bem estranha.

— Eu estava tão ansiosa para finalmente vê-lo, Harry Potter. Você tem sido um tema recorrente em minha casa, nos últimos meses.

— Sua… desculpe, senhora, na sua casa?

— Avalon — ela disse com um sorriso de prazer evidente.

— Hildegard é a Senhora do Lago da Ilha de Avalon, Harry — Dumbledore explicou, sentindo que se Harry ficasse mais confuso, era capaz de pedaços do seu cérebro começarem a se desprender em pedaços pelas orelhas — Ela está em visita à Hogwarts e demonstrou interesse em conhecê-lo, espero que não se incomode.

— Desculpe, senhor, eu não me incomodo, mas… eu pensei que Avalon era uma lenda — admitiu Harry um pouco constrangido. Tanto Dumbledore quanto Hildegard sorriram com entendimento, o que fez Harry perceber porque a achara familiar; eles tinham sorrisos idênticos.

— Você está certo, Avalon é uma lenda. As melhores coisas são, não é mesmo? — a bruxa piscou. Harry não fazia ideia se ela estava falando sério ou se divertindo às custas da ingenuidade dele. — Harry, a razão pela qual pedi para vê-lo é porque tenho uma confissão a fazer. Uma confissão, um pedido de desculpas e, se você me permitir a indulgência, eu também terei um pedido. Devo acrescentar que Alvo não está em completo acordo com pelo menos uma dessas coisas, mas ele foi gentil o bastante para lhe conceder o direito de ser consultado, o que é mais do que consigo na maioria das vezes.

— Ok — Harry assentiu, um pouco nervoso. Ele olhou para o diretor, tentando entender do que aquilo tudo se tratava, mas a expressão de Dumbledore era serena.. Era a cara que o diretor fazia quando não queria que adivinhassem o que ele estava pensando de verdade.

— Ótimo — Hildegard juntou as mãos, feliz. Tudo que ela fazia e dizia dava a impressão a Harry que estava envolto em música. Harry queria se lembrar o que ser “Senhora do Lago de Avalon” significava, mas suas aulas de história da magia do segundo ano eram um borrão difuso misturando-se com antigas lendas arturianas trouxas que ouvira na escola primária. Ele fez uma nota mental para perguntar a Hermione assim que a encontrasse. — Sente-se, Harry, se não se importa.

Ele obedeceu, ocupando a cadeira em frente à mesa de Dumbledore. O diretor levantou-se, dando o lugar para a bruxa, que deslizou para a cadeira como se fosse sua de direito, embora o movimento fosse desprovido de arrogância.

— A primeira coisa, como eu lhe disse, é um pedido de desculpas. Vai parecer estranho no princípio, mas me dê um tempo para explicar e tudo fará sentido — ela fez uma pausa, olhando, lendo a expressão no rosto de Harry, que a essa altura devia ser dois terços curiosidade e um terço preocupação. O sorriso fácil de Hildegard tinha sumido do seu rosto. — Eu temo dizer que foi por culpa minha, meu garoto, que no dia do seu aniversário Tom mudou de ideia de última hora e decidiu que não mais estava interessado em sequestrá-lo.

(Continua…)
 


 


Notas Finais


¹A fala de Hermione e outras dessa cena foram retiradas de Enigma do Principe, capitulo 9.

Eu gostaria muito de saber o que vocês estão achando dos rumos de Canção de Morgana e quais os seus palpites para os mistérios que estão surgindo!


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