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História A Certain Scientific Story - Capítulo 1


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Notas do Autor


Leiam as notas finais.

Capítulo 1 - 31 de Março


PRÓLOGO

31 DE MARÇO

Parte 1

Nishimoto chutou um balde de plástico imundo e assustou um gato preto enquanto continuava correndo.

Era 31 de Março e a culpa daquele jovem estar correndo por sua vida estava nessa data. Como o primeiro trimestre de aulas começaria no dia seguinte, ele estava tão animado que comprou um mangá na livraria, apesar de olha para a capa e ver que as críticas não eram boas, ele entrou num restaurante de família para comer um bom lanche entre as refeições e na volta para casa ele esbarrou com um bando de delinquentes claramente embriagados incomodando uma garota do ensino fundamental.

E agora ele se encontrava correndo por sua vida.

Acontece que quando ele sem querer esbarrou numa lata de lixo, o barulho distraiu os delinquentes e a garota aproveitou a deixa para sair correndo, e agora eles queriam retribuição por terem tido sua diversão estragada.

- E eu achando que as férias iam acabar perfeitamente sem nenhuma merda acontecer!! – Nishimoto Masahiro gritou enquanto saía correndo do beco e entrava na rua iluminada pela lua.

Mesmo que a Cidade Acadêmica fosse tão grande quanto um terço de Tóquio, ele não podia ver nada além de casais, não importava para onde olhasse. Isso também certamente era por ser 31 de março, uma bela noite de primavera.

A cidade era equipada com turbinas eólicas de três pás aqui e ali por toda a cidade, os altos prédios possuíam luzes brilhantes em suas janelas e tudo estava banhado pela pálida luz da lua cheia. Nishimoto se amaldiçoou enquanto se esquivava de casais enquanto corria pela cidade por não poder aproveitar a noite com seus amigos.

Nishimoto Masahiro provavelmente poderia derrotar aqueles delinquentes numa luta, principalmente com o estado embriagado deles, mas ele queria resolver aquilo sem machucar ninguém, então ele estava apenas correndo para fazer eles se cansarem e desistirem.

O objetivo de Nishimoto era salvar o máximo de vidas o possível. Se ele pudesse despistá-los e fazê-los desistir sem brigar, seria uma vitória. Aliás, Nishimoto confiava em sua resistência para corridas de longa distância para isso, afinal, ele havia feito parte da Equipe de Atletismo em seu colégio anterior.

Enquanto Nishimoto entrava e saía das ruas e becos, aparentemente desajeitadamente correndo em pânico, ele viu um ou outro delinquente sair da perseguição. Ele sentiu uma pontada de orgulho no seu plano, pelo visto essa era a maneira perfeita de resolver a situação sem ferimentos. Mas ainda assim...

- D-Droga! Por que eu tenho que desperdiçar a minha juventude com essas coisas?! – O grito angustiado de Masahiro cortou o silêncio da noite naquele beco que ele havia acabado de entrar.

Para todo lugar que ele olhava, tudo que o jovem podia ver eram casais cheios de sonhos e felicidade. Incapaz de suportar isso, Nishimoto Masahiro sentia como se de alguma forma tivesse alcançado o fim de sua vida. A data só precisava mudar e seria o primeiro dia de aula e, no entanto, ele não tinha nem amor, nem comédia, para falar sobre; e isso fazia ele se sentir um grande perdedor.

- Ei!! Seu merdinha! Pare de fugir!! – Nishimoto ouviu alguém gritando atrás dele e se sentiu irritado por ser chamado de merdinha pela pessoa que ele estava tentando salvar.

- Ah, cala a boca! Vocês deveriam me agradecer por não dar meia volta e acabar com vocês!! – Nishimoto gritou de volta.

- Ha! Como se você conseguisse, tampinha! - Nishimoto sentiu uma veia saltar em sua testa e ele começou a desacelerar.

31 de março. Era por que no dia seguinte seria seu primeiro dia de aula num colégio novo que ele decidiu se divertir naquele dia. O mangá com avaliações duvidosas que ele havia comprado estava dentro de sua mochila. O lanche que ele havia comido havia sido um delicioso hambúrguer com tudo que ele tinha direito. A caminhada de volta para casa estava sendo prazerosa e aproveitável, apesar dos pesares.

Mas ele tinha que ter esbarrado com aqueles delinquentes... É claro que ele não estava arrependido de ter salvado aquela garota, mas ele se arrependia profundamente de ter se metido naquela roubada.

- Ei, chefe, o que a gente vai fazer com esse tampinha? – Perguntou um dos delinquentes para o aparente líder enquanto estalava os ossos de seus punhos.

Naquela cidade, o padrão habitual de um delinquente de beco ser o mais forte numa briga de rua não se sustentava. Os delinquentes que não conseguiam acompanhar o Currículo de Desenvolvimento de Poderes Esper eram os Nível 0, os impotentes.

- Que tal quebrar as pernas dele? – Sugeriu outro dos delinquentes, eles agora cercavam Nishimoto por todos os lados.

Os verdadeiramente fortes naquela cidade, os estudantes de primeira linha, eram Espers. Esse era o tipo de lugar que a Cidade Acadêmica era. No entanto, nem todos os 2,3 milhões de estudantes que viviam na Cidade Acadêmica deixaram de ser humanos e se tornaram algo como um protagonista de mangá. Pouco menos de 60% de toda a população era de Nível 0, totalmente inúteis que só conseguiriam dobrar uma colher após concentrar o cérebro ao ponto de explodir seus vasos sanguíneos. O desenvolvimento dos poderes Espers da Cidade Acadêmica utilizava muitas coisas como produtos farmacêuticos, neurociência e fisiologia cerebral. Era um empreendimento puramente científico.

- Você vai ficar aí sem fazer nada, tampinha? Vamos, diga alguma coisa! – O chefe daquele grupo disse ameaçadoramente. Mas Nishimoto se manteve em silêncio. – Você fez a gente perder o nosso brinquedo da noite, aquela mina era realmente gata, e você vai pagar por isso.

- Vocês me enojam. – A voz de Nishimoto possuía uma fúria controlada, e o volume de sua voz impôs uma presença incomum para o garoto.

Parte 2

Nishimoto Masahiro era apenas um garoto de 16 anos indo para o segundo ano do ensino médio, as únicas coisa que se destacavam nele eram sua altura, reduzida à um metro e meio graças à genética do seu pai, e sua cabeça totalmente raspada, por causa de uma aposta que ele perdeu na semana anterior. Mas naquela Cidade Acadêmica, com 2,3 milhões de habitantes, onde 80% são estudantes e 60% são Níveis 0, ele estava entre os 460 mil estudantes com uma habilidade. Um Nível 3.

- O que você disse, garoto?

- Vocês me enojam! – Com uma exclamação de raiva, Nishimoto abriu seus olhos e produziu uma bola de fogo na palma de sua mão direita. Aquilo pareceu ser o suficiente para assustar alguns dos delinquentes, por que muitos deles deram um ou dois passos para trás. – Não tem como vocês me derrotarem, ou melhor, vocês não podem me derrotar.

- Você subestima nossas habilidades. – Disse o chefe dos delinquentes apontando sua mão para um cano caído no chão e atraindo-o para ele.

Magnetismo?” Pensou Nishimoto olhando para ele. – Não tente.

Nishimoto Masahiro realmente não queria ter que entrar em conflito com eles, seria melhor se todos pudessem apenas dar as costas e irem embora e fingir que nada tivesse acontecido. Mas claramente isso não ia ser possível. Quando o chefe ergueu seu cano e correu na direção de Nishimoto, ele se preparou para se esquivar.

O cano errou a cabeça de Nishimoto por poucos centímetros, já que o jovem saltou para o lado para se esquivar, entretanto ele esqueceu o fato de que essa não era uma luta justa. Qualquer luta normal acima de três contra um poderia ser considerada uma surra.

Mas Nishimoto não estava disposto a levar uma surra, e aquela não era uma luta normal.

Quando o delinquente ao seu lado tentou agarrá-lo, Nishimoto encolheu seu corpo e deu uma cambalhota por baixo de suas pernas, antes de se erguer atrás dele, formar uma esfera de fogo na palma de sua mão e chocar ela contra as costas do delinquente.

A jaqueta de couro do delinquente começou a pegar fogo e ele saiu gritando pelo beco em pânico, tentando apagar o fogo, um dos delinquentes foi atrás dele para tentar ajudar. Agora cinco contra um tinha sido reduzido à três contra um.

- Seu anão maldito! – Um dos delinquentes avançou contra Nishimoto e tentou dar um gancho em seu queixo, mas o rapaz se esquivou para o lado a tempo de ver o punho do outro cara atingir a parede e causar uma rachadura. “Ele também tem uma habilidade?! Ok, isso tá ficando meio preocupante!” – Para de se mexer, seu merda!

- Que tal você tentar ser mais rápido da próxima, otário? – Nishimoto provocou o delinquente contra o seu próprio bom senso. “Mas que caralhos eu tô dizendo? Eu quero morrer?!

- Que tal você calar a porra da boca?! – Outro delinquente se juntou aos dois, tentando atingir Nishimoto com um chute. O rapaz estava preso entre o delinquente forte, a parede e uma lata de lixo, ele não teria uma saída convencional ali, então ele decidiu fazer o que lhe restava.

Nishimoto segurou a perna do delinquente com o seu braço esquerdo e apontou a palma da sua mão direita para o rosto do seu atacante. – O soco do seu colega ou minhas chamas, o que você acha que vai chegar primeiro, bonitão? – A essa altura do campeonato, ele já estava coberto na merda até o pescoço, provocar mais ou menos não iria fazer diferença.

O delinquente mais forte deu um passo para trás, receoso pela segurança do colega, enquanto o mesmo suava profundamente. Mas Nishimoto não previu uma variável naquele cenário.

‘CLANG’

Um cano de metal se chocou com força contra o seu antebraço, fazendo com que a sua mira descesse. – Porra! – Nishimoto xingou largando a perna do delinquente e dando uns passos para trás. Ele olhou para o chefe dos delinquentes, que estava com um sorriso confiante segurando seu cano de metal.

Nishimoto teve menos de um segundo para processar os próximos movimentos antes de tudo ser tarde demais. O chefe tentou acertar a cabeça de Nishimoto com o cano mais uma vez, Nishimoto instintivamente deu um passo para trás, apenas para receber um soco na lateral da cabeça, desferido pelo delinquente forte.

Nishimoto se apoiou na lata de lixo enquanto seu cérebro tentava assimilar a dor da pancada, mas ele não ia receber um momento de descanso. A lata de lixo começou a tremer sob seu corpo, e a sua tampa metálica saiu voando e acertou-o no rosto. Nishimoto caiu de costas no chão e começou a rastejar para trás, tentando ganhar distância dos três delinquentes que se aproximavam.

- Você não parece tão corajoso agora, carequinha. – O chefe falou girando o cano de metal em sua mão. – A gente vai te ensinar que você simplesmente não fode os planos da EQUAL e sai impune.

- Engraçado, eu achei que você não sabia uma palavra difícil como impune. – Nishimoto falou uma última vez colocando uma mão no rosto e sentindo uma dor enorme no nariz antes de sentir algo molhado em seu rosto, ele estava sangrando. “O filho da puta quebrou meu nariz?!

- Tem mais alguma coisa espertinha pra dizer antes da gente começar a diversão? – Perguntou um dos delinquentes restantes.

- Sim... – Nishimoto murmurou antes de começar a se levantar. – Hoje realmente não deve ser meu dia de sorte.

- Realmente, não é mesmo. – Nishimoto deixou um fraco sorriso aparecer em seu rosto. Os delinquentes estranharam aquilo.

Num movimento rápido, ele socou o vazio à sua frente. Superaquecendo o ar na sua frente e controlando a direção do seu movimento, Nishimoto lançou uma rajada de fogo na direção dos delinquentes, causando uma explosão e mandando um deles voando através do beco, atingindo o chão logo antes de alcançar a rua.

Parte 3

Do lado de fora do beco, dois rapazes conversavam tranquilamente. Um deles era alto para o padrão japonês e sua aparência era de um estrangeiro, mas ainda assim ele tinha feições típicas do país, o que entregava sua descendência; mesmo assim, seu cabelo loiro, pele clara e olhos vermelhos o destacavam da multidão ao seu redor. O outro, por outro lado, tinha cabelo negro e olhos cor de mel, sua pele era um tanto bronzeada e sua altura era tida como comum. A única semelhança dos dois era o físico bem definido.

Ambos estavam vestidos casualmente, um deles vestia uma camisa laranja com um kanji no peito e nas costas e calças jeans brancas, e o outro vestia uma jaqueta preta combinando com sua calça e uma camisa branca.

- Você tem certeza que ainda não jogou The Last of Us VR? – Perguntou o loiro.

- Sim, senpai, eu acho que eu lembraria se tivesse jogado. – Respondeu o moreno.

- Cara, você não sabe o que tá...

BOOM!!

Uma explosão vinda do beco atrás deles interrompeu a fala do mais velho. As pessoas nas proximidades começaram a correr em pânico de um lado para o outro e os dois se encararam por um momento.

Com um aceno rápido de cabeça, o loiro enfiou a mão num bolso interno da jaqueta e o mais novo colocou a mão no bolso de sua calça. Os dois tiraram uma braçadeira verde com um escudo branco do bolso e prenderam-nas em seus braços. – Tanashii, contate a Anti-Skill, diga que tem um incêndio acontecendo, pode haver um Esper envolvido!

- Certo, tenha cuidado, Nakahara-senpai! – Respondeu o moreno, Tanashii, tirando seu celular do bolso e digitando o número de chamada rápida.

Nakahara entrou no beco e saltou sobre o corpo do homem caído, ele tinha um cano de metal em sua mão e uma queimadura de segundo grau no peito. “Ok, quem foi o responsável por isso?” O loiro pensou, então sua atenção se voltou para as pessoas na sua frente. Dois rapazes, aparentemente delinquentes, estavam se levantando rapidamente para atacar um terceiro, que estava de joelhos no chão. – Ah, não vão não! – Ele fechou seus olhos por um segundo e uma aura roxa surgiu ao seu redor.

Nishimoto olhou confuso para a cena que se desenrolou na sua frente. Ele piscou e o loiro que havia entrado no beco já estava na sua frente, entre ele e os dois delinquentes. Nakahara girou no próprio eixo e deu um poderoso chute no lado da cabeça de um dos delinquentes, que foi ao chão instantaneamente, para não se levantar. O delinquente restante tentou atacar o loiro.

Nishimoto piscou mais uma vez, e de repente o delinquente caiu de joelhos no chão, com as mãos sobre a barriga, como se ele tivesse recebido um golpe, mas o loiro não havia se mexido. – Você está bem, garotinho? – A pergunta de Nakahara havia sido direcionada à Nishimoto, que olhou confuso para ele, antes de perceber o significado da pergunta.

- Ei! Eu não sou um garotinho! – O rapaz protestou erguendo um punho em fúria.

- Não? – Nakahara parecia realmente surpreso. – Huh, ok, Cosplay de Kuririn, o que... – A fala de Nakahara foi interrompida quando ele ouviu um movimento atrás dele, um dos delinquentes estava tentando se levantar para contra-atacar. Nakahara suspirou pesadamente e olhou para o delinquente com seriedade. – Para você que perturba a paz da Cidade Acadêmica eu prometo, por esse escudo, que levarei você à justiça.

- Q-quem é você afinal? – O delinquente perguntou, desistindo de se levantar e se contentando em ficar sentado no chão.

Nakahara apenas deu um sorriso de lado e apontou para a braçadeira verde adornada com linhas e um escudo branco. – Eu sou a Judgement.

- J-Judgement, é? – Nishimoto realmente não sabia o que fazer, como ele havia parado naquela situação mesmo? Ah, sim, 31 de março, a data era a culpada. A data era a culpada dele estar sendo confrontado pela Judgement naquele momento; a Judgement é uma organização composta por estudantes Espers que protegem a ordem e a paz na Cidade Acadêmica... Eles também ajudam a dar direções e encontrar objetos perdidos, é um trabalho realmente honrável, já que eles não são pagos para isso e suas notas não melhoram.

Ele sabia que ele não tinha feito nada de errado, mas o agente da Judgement na sua frente não sabia disso. Tudo que ele sabia era que Nishimoto havia aberto um buraco de queimadura no peito de um delinquente e que estava numa briga com outros dois. Como ele iria sair dessa enrascada?

- O que você tem a dizer em sua defesa antes que eu te prenda? – Perguntou o rapaz loiro tirando uma algema metálica de dentro de um bolso interno da jaqueta.

- O-olha, não é o que parece!! Eles que me atacaram primeiro! – Nishimoto respondeu em pânico, mas o que ele percebeu era que a pergunta não tinha sido direcionada à ele, e sim ao delinquente.

- Do que você tá falando, Kuririn-san? Você tá limpo, até onde eu sei, esses caras te atacaram e você revidou. – O membro da Judgement falou enquanto algemava os dois delinquentes perto dele. – Quando você fala desse jeito parece que você fez algo de errado... – Ao dizer isso, Nakahara olhou para Nishimoto, que desviou o olhar. – Tá, o que você fez?

- Bom... É uma história engraçada sabe? Hoje é 31 de março e amanhã começam as aulas e... – Nishimoto olhou nervosamente para o rapaz loiro, que agora havia cruzado os braços e o encarava com uma sobrancelha erguida.

- Você vai chegar ao ponto ou...

- N-não, calma, eu vou chegar lá! – Nishimoto socou-se internamente por estar enrolando tanto para dar a informação. – Olha, eles tavam tentando assaltar uma estudante do ensino fundamental... Eu acho que de Tokiwadai? Enfim, eles tavam tentando assaltar aquela garota, aí eu meio que atrapalhei o assalto e ela fugiu. – Nishimoto terminou sua explicação um tanto quanto satisfeito com sigo mesmo, talvez isso fosse o suficiente para convencer aquele protetor da paz.

- Ok, parece convincente pra mim. – Nakahara comentou olhando para o estrago feito pela confusão. – Eu adoraria te liberar, mas a Anti-Skill está chegando a qualquer momento e a gente precisa registrar seu depoimento sobre o que aconteceu aqui, e alguém precisa dar uma olhada nesse seu nariz, Kuririn-san.

- Certo. – Nishimoto disse se levantando e observando o jovem que algemava os delinquentes. – E para de me chamar de Kuririn, eu tenho um nome, ok?

- Tá, Não-Kuririn-san, qual o seu nome? – Nakahara perguntou enquanto tirava seu celular do bolso e digitava um número.

- Nishimoto Masahiro.

- Prazer, meu nome é Nakahara Amon. – O rapaz falou antes de voltar sua atenção para a ligação que havia sido atendida. – Alô? Tanashii? Você ainda tá aí fora do beco? Beleza, pode ir andando na frente, tá tudo sob controle aqui, eu vou só esperar a Anti-Skill chegar e encontro você no escritório pra a gente ir para o show, ok? Ok, até lá então. – Nakahara voltou sua atenção para Nishimoto, que o encarava com os olhos arregalados. – O que foi?

- Você é Nakahara Amon?! O Nível 5?! – Nishimoto perguntou incrédulo.

- Em carne e osso. – Respondeu o Esper.

- Caramba, hoje é o meu dia de sorte! – Exclamou o rapaz animado. – Não é todo dia que você encontra um dos Sete Níveis 5, principalmente o Número 2!

- Sabe, eu ainda vou pra a escola, muita gente me vê todos os dias e... – Nakahara começou a falar, mas então percebeu o olhar de Nishimoto. – É, tem razão, não é todo dia que alguém aleatório me conhece.

Parte 4

- Certo, Nishimoto-kun, nos conte tudo desde o começo. – Perguntou uma mulher alta de proporções glamorosas e longo cabelo amarrado num rabo de cavalo. Ela estava vestindo uma roupa em dois tons de azul com um colete a prova de balas com um emblema branco e azul no centro. Em sua cintura uma pistola estava presa, ao lado do seu corpo um rifle de assalto estava pendurado. Yomikawa Aiho era seu nome e, assim como a maioria dos membros da Anti-Skill, ela era uma professora.

Os membros da Anti-Skill eram todos adultos e trabalhadores da Cidade Acadêmica que usavam seu tempo livre para cumprir tarefas muito arriscadas para as crianças da Judgement, eles também eram os únicos com a permissão de portar um arma dentro dos muros da cidade. Eles não recebiam pagamento pelos seus serviços, mas recebiam presentes e tinham alguns privilégios que as outras pessoas não tinham.

- Bom... Sabe o Joseph’s? – Nishimoto perguntou olhando para a bela mulher que o olhava com um sorriso compreensivo. A mesma mulher havia acabado de fazer um curativo em seu nariz.

- O restaurante no Distrito 16? Sei, eu vou lá com certa frequência. – Respondeu Nakahara tomando notas.

- Começou num beco atrás do Joseph’s.

O silêncio era real. O membro da Judgement olhava para Nishimoto com uma expressão de descrença e curiosidade, enquanto a Anti-Skill o olhava de forma confusa. – Mas estamos no Distrito 7, garoto, deve ter metade de um distrito entre aqui e lá! – Ela perguntou.

- Por que vocês acham que eu tô tão suado? Eu corri de lá até aqui com esses idiotas na minha cola. – Nishimoto disse em tom de reclamação.

- De acordo com o que você disse, eles estavam tentando assaltar uma garota de Tokiwadai e você impediu eles sem querer? – Nakahara pediu confirmação ao jovem.

- Sim, então eles me perseguiram de lá até aqui, aí eu meio que fui pego e a confusão começou.

- Só tinham esses três ou tinham mais? – Yomikawa perguntou apontando para os três rapazes algemados que estavam sendo levados para dentro de um camburão por dois outros membros da Anti-Skill, um dos delinquentes estava com bandagens cobrindo o lugar da queimadura.

- Uh... Tinham uns dez caras, mas a maioria desistiu de correr atrás de mim. – Respondeu Nishimoto. – Ah, e dois deles saíram correndo quando a luta começou.

- Certo, certo... – Nakahara falou anotando mais algumas coisas na caderneta que ele segurava. – Mais alguma coisa que você acha que devemos saber?

Nishimoto pensou por uns momentos antes de se lembrar de algo que o chefe dos delinquentes havia dito. – Eles disseram algo sobre uma tal de EQUAL, eu acho que é uma gangue ou algo do tipo.

Os dois protetores da paz se entreolharam de maneira preocupada. – Certo, garoto, você pode ir para casa agora, nós vamos assumir daqui. – Falou a mulher se despedindo e indo em direção ao seus colegas de esquadrão.

- Nishimoto-san, eu gostaria de agradecer pelos seus serviços, graças à você a paz da Cidade Acadêmica pode ser mantida por mais um tempo. – Nakahara agradeceu apertando a mão do rapaz. – E como recompensa eu vou te dar um prêmio.

Isso pegou Nishimoto de surpresa, e o jovem deu um passo para trás. – Uh... N-não precisa, sério! – Nishimoto sacudiu as mãos na frente do corpo em negação, mas Nakahara retirou um papel de dentro do bolso interno da jaqueta e estendeu na direção de Nishimoto. – O que é isso?

- É uma entrada para o concerto da Cadence, começa em duas horas e eu vou trabalhar na segurança do lugar, então não vou poder assistir o concerto.

- Cara, mas eu não posso aceitar isso, deve ter sido caro! – Falou Nishimoto dando outro passo para trás.

- Nah, a equipe de produção dela deu um para cada membro da equipe de segurança, e eu sou amigo dela, então ganhei dois. Eu dei um para meu amigo, Matsuda, e não tenho nenhum uso para esse, vai ser um desperdício se você não aceitar, pra falar a verdade.

Nishimoto encarou aquele pedaço de papel por um momento. A verdade era que ele nem conhecia a artista, ele só sabia que ela era tipo uma Idol dentro da Cidade Acadêmica e que aparentemente ela fazia músicas boas, ele não saberia dizer, ele nunca havia escutado uma única música dela.

- Bom, se você tá dizendo... – Nishimoto disse estendendo a mão e pegando a entrada. – Olha, obrigado mesmo, se você não tivesse aparecido quando apareceu, eu acho que eu teria saído daquele beco com muito mais do que um nariz quebrado.

Parte 5

Um rapaz em certo beco suspirou ao olhar para as marcas de queimado no chão do lugar. Ele se vestia de preto e tinha uma máscara de pano cobrindo metade do seu rosto, a outra metade estava oculta pelas sombras. Ele olhou para o seu celular e viu a hora antes de suspirar novamente e começar a discar um número. - Ishita, mas que porra você acha que tá fazendo? – O homem oculto nas sombras perguntou através do telefone quando a ligação foi atendida do outro lado. – Mandando delinquentes de segunda atrás de garotinhas do ensino fundamental? Esse não é o jeito que a EQUAL lida com as coisas!

- Ah, chefe, qual é? Foi só um deslize, não vai acontecer outra vez. – Disse a voz do outro lado da linha, era um rapaz e ele soava bastante descontraído. ­– E no fim ninguém realmente se machucou, né?

- Ninguém se machucou?! Por causa da sua imprudência, três homens foram capturados pela Judgement e pela Anti-Skill, se eles abrirem a boca eles podem por em risco toda a nossa operação!

- Pode deixar que eu cuido disso, chefinho, afinal, nós somos do Lado Sombrio da Cidade Acadêmica, se livrar de provas faz parte do nosso trabalho.

- Assim eu espero, Ishita, se você deslizar mais uma vez, eu terei que encontrar um substituto para você.

Parte 6

Por que será que mesmo quando coisas boas acontecem comigo, coisas ruins acontecem logo em seguida?!” Aquela era a segunda vez naquela noite que Nishimoto era obrigado a correr através da Cidade Acadêmica. Nishimoto amaldiçoou sua falta de atenção quando saltou por cima de uma lata de lixo em um beco qualquer para cortar caminho.

Ele havia retornado para seu apartamento, que por pura coincidência ficava a duas quadras do local do seu incidente com os delinquentes da EQUAL, e havia decidido matar um pouco de tempo conversando com o seu peculiar colega de quarto Fujiwara Yujiro, e a perseguidora lunática dele, Masoku Yui. Quando ele chegou em seu apartamento ainda era 19h, e o show só iria começar às 21h30, então ele estava com uma folga para fazer o que quisesse nesse meio tempo.

Só que o grande plano de aproveitar o resto da noite como se nada tivesse acontecido tinha uma grande falha. Nishimoto não havia levado em conta o tempo de viagem até o local do show, e também não tinha levado em consideração o fato de que a maioria dos ônibus que passavam perto do seu dormitório suspendiam suas atividades às 20h.

E foi se despedindo apressadamente de seu colega de quarto, que tentava o seu melhor se livrar das investidas de sua stalker, que Nishimoto começou seu voo pelas ruas da Cidade Acadêmica em direção ao Distrito 15.

O destino do rapaz no Distrito 15 era o Big Colossus, o maior shopping do mundo, que possuía cinco andares e cobria 10km². Se alguém perguntasse para ele, Nishimoto diria que o tamanho daquele shopping era um exagero considerando que apenas com pessoas com bastante dinheiro poderiam comprar as coisas que ele vendia.

Entretanto o Big Colossus não era um shopping center comum, ele não vendia apenas roupas e acessórios para estudantes e moradores da Cidade Acadêmica, ele também vendia tecnologia de ponta desenvolvida pela Cidade Acadêmica para os parceiros de fora da cidade, de hardwares e peças de veículos à equipamentos militares de última geração.

E isso significava que Nishimoto nunca teve um único motivo para entrar naquele shopping, já que ele não possuía dinheiro para comprar seus produtos, e por isso que quando ele entrou pela primeira vez nele, faltando apenas 30 minutos para o inicio do show que ele deveria ver, ele não pode deixar de parar e olhar maravilhado para o local.

O saguão de entrada do Big Colossus era um pátio enorme com uma espécie de praça sintética no centro, com direito a chafariz, grama artificial, postes e tudo mais, realmente uma visão de tirar o fôlego. As lojas ao redor do pátio eram todas relacionadas à comida, com algumas lanchonetes simulando restaurantes de beira de calçada, assim como dentro daquele parque artificial haviam quiosques de lanches aqui e ali.

Mas é claro que, devido o horário, tudo estava fechado e o lugar estava quase sem vida. Mas o momento de apreciação de Nishimoto foi interrompido quando ele foi trazido de volta à realidade por um membro do que parecia ser a Anti-Skill sacudindo uma mão na frente do seu rosto. – Ei, garotinho, você tá me ouvindo?

- Hm? – Por um momento Nishimoto esqueceu o que estava fazendo. – Posso te ajudar?

- Garoto, já passa do toque de recolher e o shopping já vai fechar para o público, se você não der meia volta agora eu serei obrigado à acompanhar você até a saída. – Falou o homem vestindo um colete a prova de balas por cima de uma veste preta, Nishimoto não conseguia ver o seu rosto por que ele estava coberto por um capacete negro. Um rifle de assalto repousava ao seu lado, preso ao seu corpo por uma alça. Certamente não era a Anti-Skill, eles nunca carregariam um rifle da assalto daquele tamanho numa ronda de segurança em um shopping. – Além do mais, crianças não deveriam estar fora da cama à essa hora.

- A-ah, não, espera! Eu sou um adolescente, na verdade. – Nishimoto corrigiu o homem ao tirar sua identidade da sua carteira e entrega-la ao homem, ele já havia passado por essa situação vezes o suficiente para saber como proceder.

O agente pegou a identidade de Nishimoto, retirou um scanner de um de seus bolsos e leu o código de barras nele. Com um estalo de língua ele devolveu a identidade ao rapaz, que a guardou. – O que você tá fazendo aqui, rapaz? O shopping já vai fechar.

- Sim, eu imaginei que ele já estaria fechando, mas eu achava que iriam ter pessoas por aqui, já que vai acontecer um show daqui a pouco.

- Bom, falta pouco para o inicio do show, a maioria das pessoas já está lá em cima. – O agente comentou de forma relaxada. – Você tem a sua entrada aí? Por que se não tiver eu terei que escoltar você para a saída.

- A-ah, sim, a entrada, eu tenho ela aqui. – Nishimoto disse tirando um papel dourado de um dos bolsos internos da jaqueta cinzenta que ele estava vestindo.  O agente pegou a entrada na mão de Nishimoto e o examinou antes de devolver para ele.

- Certo, você sabe que o concerto dela vai acontecer do outro lado do Shopping, não é?

- Então é melhor eu ir andando logo, né? Eu só tenho... – O rapaz puxou a manga da sua jaqueta para olhar seu relógio digital e seu queixo caiu. – 20 minutos?!

- Você realmente ficou aí parado olhando para os lugares por muito tempo. – Comentou o agente. – Olha, são 4km daqui até o outro lado do Shopping, se você for muito bom de corrida você chega à tempo.

- Sério? Você tem certeza disso?

- Eu li num artigo online que um humano pode correr numa velocidade de 15km/h então eu tenho certeza.

Eu acho que esse cara tá de onda com a minha cara.” Nishimoto pensou, mas decidiu que valeria a pena o esforço, ou pelo menos ele esperava. Ele ainda poderia entrar se chegasse atrasado, mas se ele chegasse até as 21h30 ele encontraria os stands vendendo camisetas ainda abertos. – Certo, cara, valeu, eu vou dar o meu melhor. – O rapaz disse antes de se preparar para a corrida como um atleta profissional e disparar em alta velocidade para o seu destino.

- Delta-I, aqui é Bravo-IV. – O agente falou puxando seu rádio. – Tem um rapaz correndo na direção do Ponto-7, ele parece uma criança, é branco, careca e tá vestindo uma jaqueta cinza. Ele tem uma entrada VIP do show da Cliente, se ele for avistado, deixe-o passar. Câmbio.

- Entendido Bravo-IV, passarei à mensagem para os postos de guarda do Estádio Gibraltar. – A voz do outro lado do rádio soou. – Câmbio.

O agente cortou a frequência do seu rádio e voltou ao seu ponto. – Moleque sortudo, vai poder entrar no camarim da Cadence... – Murmurou o homem encostando-se a um pilar e voltando a vigiar à entrada. Entretanto, ele não percebeu que seu trabalho já havia falhado no momento em que ele parou para falar com Nishimoto.

Com o rapaz, sua corrida pelo shopping deserto continuava, e pela sua estimativa ele deveria estar pela metade do caminho. A cada curva que ele fazia, seu cérebro era atacado por uma incrível quantidade de detalhes.

Vitrines com roupas e assessórios importados de fora da Cidade Acadêmica e lojas com partes de computadores e videogames de última geração alternavam-se nas galerias de uma maneira que você nunca encontraria uma loja do mesmo modelo uma do lado da outra.

Mas a mente de Nishimoto estava focada em uma coisa totalmente diferente naquele momento. “Olha, não é como se eu realmente quisesse uma camiseta do show, mas eu tô ficando sem roupas novas pra usar e essa seria uma boa oportunidade...” Ele pensou enquanto fazia mais uma curva no caminho para ir em direção as escadas. “Pra falar a verdade, eu realmente quero uma camiseta do show, eu tava olhando os produtos no site dela e tem umas camisas bem estilosas à venda hoje... Quem sabe eu não consigo aquela-

‘THUD’

Ao se distrair demais em seus pensamentos, Nishimoto não prestou atenção no caminho à sua frente e acabou esbarrando com tudo em algo macio que também vinha correndo em sua direção.

- Ai! Quem foi o arrombado?! – Uma voz gritou em protesto na frente do rapaz. Nishimoto, que havia sido jogado para trás pelo impacto e caído de costas no chão, se levantou rapidamente e olhou para a figura que estava se levantando. Era uma garota.

- Uh, desculpa, eu... – Nishimoto começou a se desculpar, mas a garota lançou um olhar mortal para ele que claramente estava mandando ele se calar. O rapaz engoliu em seco. Uma bela garota de aparência assustadora estava o ameaçando com os olhos sem dizer uma única palavra.

Sim, uma bela garota de aparência assustadora. Seu rosto era belo, mas sua expressão era furiosa e ameaçadora. Sua pele tinha uma aparência macia, mas era cinzenta, quase como se estivesse sem vida. Seus olhos semicerrados emanavam um brilho vermelho sobrenatural. Seu cabelo liso, cortado na altura dos ombros, era negro como a noite. Seu físico era bastante atlético, mas ainda assim bastante feminino ao mesmo tempo.

Num resumo, Nishimoto estava dando o seu máximo para olhar para qualquer lugar que não fosse aquela garota que estava vestindo um collant negro com detalhes cinza. – Você vai continuar o seu caminho e fingir que nada aconteceu, entendeu carequinha? – Ela disse se levantando, e o rapaz só pode concordar com a cabeça. – Vai, sai da minha frente, toquinho de amarrar jegue.

Uma gota de suor apareceu no topo da cabeça de Nishimoto, de uma maneira quase retirada de um desenho, quando ele percebeu que, realmente, ela era mais alta que ele, quase uma cabeça mais alta para falar a verdade. “Espera, se ela é tão mais alta que eu quer dizer que aquela coisa macia que eu atingi eram os...” Ele corou profundamente enquanto se perdia em seus pensamentos.

- Vamos, sai! – A garota agarrou-o pela gola da camisa e o jogou na direção que ele estava correndo. Nishimoto se desequilibrou por um momento, mas assim que seus pés tocaram no chão ele voltou a correr, afinal, deviam faltar apenas 10 minutos para o inicio do show.

Mas que merda foi essa?” Nishimoto pensou consigo mesmo enquanto cruzava a porta da saída de emergência e começava a subir a escadaria até o topo do shopping. Aqueles foram os dez lances de escada mais longos da vida dele.

Correndo com tudo que ele podia Nishimoto finalmente chegou à cobertura do shopping completamente ensopado de suor, e a vista do lugar o fez perder o pouco fôlego que ele tinha. A cobertura do Big Colossus era algo realmente incrível, um conjunto habitacional chamado Argus que abrigava quase 30.000 pessoas, sendo a grande maioria delas trabalhadores do próprio shopping. Argus também era o único conjunto habitacional da Cidade Acadêmica composto 100% por adultos.

Aquele conjunto habitacional era basicamente um grande aglomerado de chalés enfileirados de maneira padronizada, e todos eles possuíam painéis solares nos telhados. Mas nada daquilo realmente importava agora, tudo que importava era o seu alvo, o estádio de futebol com capacidade para 2 milhões de pessoas que estava emitindo luzes para o céu. – Pelo visto eu cheguei a tempo.

Parte 7

Nishimoto não havia chegado a tempo e isso havia deixado ele muito infeliz. Ainda faltavam 5 minutos antes do Show começar, mas as camisetas já haviam esgotado.

Para todo lugar que ele olhava tudo que Nishimoto conseguia ver eram pessoas com camisas negras com um sol nascendo por trás de uma árvore de cerejeira, e ele estava muito infeliz por causa de seu atraso. Isso tinha que ser culpa do dia 31 de março.

Nishimoto checou seu relógio, ainda deviam faltar cerca de dez minutos até o inicio do show, e ele não tinha o que fazer do lado de fora, então ele simplesmente decidiu entrar no estádio e encontrar um bom lugar para assistir o show.

A fila estava obviamente pequena, afinal, o show já ia começar, e Nishimoto observou enquanto o segurança pegava as entradas azuis do show, rasgava uma parte e carimbava a outra, entregando-a de volta ao fã da vez. E foi ali que Nishimoto percebeu que havia algo de errado com a sua entrada.

Todas as entradas que ele havia visto até agora eram azuis, a dele era dourada. Por quê? “Será que o Nakahara-san me deu a entrada errada? Não, não pode ser isso, eu tenho certeza que eu li o nome da Cadence na entrada, então tem que ser essa, não é?” Sua preocupação começou a crescer à medida que ele ia se aproximando do portão.

- Ah, Nishimoto-san, você finalmente apareceu! – Uma voz disse à sua direita, e ele percebeu a presença de Nakahara Amon, que definitivamente não estava ali dois segundos atrás.

Diferentemente de horas atrás, quando eles haviam se encontrado pela última vez, Nakahara vestia um terno preto e usava óculos escuros, com um único fone de ouvido preso em um de seus ouvidos.

- Eu tava começando a achar que você ia desperdiçar meu presente. – Ele comentou com um sorriso ladino. – Ei, Someoka-san, esse é o cara que eu tava falando mais cedo, sabe? O que derrubou três membros da EQUAL. – O loiro se dirigiu ao segurança do portão de entrada, ele devia ser um ou dois anos mais velho que Nakahara, ele era bastante alto, musculoso e sua cabeça brilhava com sua careca reluzente. – Vocês dois deveriam ser amigos, por acaso raspam a cabeça no mesmo lugar? Não? Que pena, né? Seria uma ótima oportunidade para fazer amizades. Ei, Someoka-san, eu contei para você da vez que eu...

- Só o ignore, garoto, às vezes ele fica assim quando tá nervoso. – Falou o segurança com um sorriso simpático, Nishimoto entregou sua entrada para ele, que olhou surpreso para o rapaz antes de rasgar metade do papel e colocar dois carimbos ao invés de um. – O camarim da Senhorita Cadence fica...

- Ah, Someoka-san, deixa que eu levo ele até lá. – Interrompeu Nakahara pegando a entrada de Nishimoto e enfiando no bolso do rapaz careca antes de passar um braço por cima de seus ombros e conduzir ele pela entrada.

- Tá tudo bem, Nakahara-san?

- Tudo bem? Pfft! É claro que tá tudo bem! Por que não estaria? Está tudo ótimo! – O membro da Judgement falou claramente nervoso. – Eu não tô nervoso, por que eu estaria? Quero dizer, a Mesa de Diretores me contatou hoje mais cedo e eles querem que eu vá para a Rússia fazer uma apresentação na semana que vem, não tem nada demais nisso, tem? Não tem nada demais em pegar um avião para um país que fica logo aqui do lado, né?

- Nakahara-san, você tem medo de voar? – Nishimoto perguntou indo direto ao ponto, fazendo com que o loiro se encolhesse um pouco antes de se normalizar.

- Quem? Eu? Claro que não, eu só pego avião, se é que me entende. – Ele escapou da pergunta dando uma piscadinha marota para o rapaz, que olhou para ele como se Nakahara fosse estúpido.

- Não, eu não entendo.

- Ah, deixa pra lá, eu achei que você era um homem de cultura que nem eu.

- Mas do que você tá...

- E esse é o camarim da maravilhosa Hinode Harumi-chan, mais conhecida como Cadence. – Ele anunciou apontando com as duas mãos para uma porta de carvalho com uma estrela dourada no centro. Na estrela o nome “Cadence” estava entalhado. – Por que não apresentamos você à ela, hein?

- N-não, Nakahara-san, espera, eu não...

- N-não, Amon-kun, espera, eu não...

 Estranhamente, duas pessoas disseram isso ao mesmo tempo com o mesmo desespero na voz, uma das vozes pertencia à Nishimoto, mas a outra era uma voz feminina que vinha do outro lado da porta.

- Besteira! – Exclamou Nakahara com uma risada abrindo a porta com tudo.

Uma garota de pele clara e aparência macia, olhos azuis brilhantes e cabelo loiro comprido com mechas loiras, enrolada apenas em uma toalha rosa entrou no campo de Nishimoto, que sentiu seu nariz sangrar mais uma vez enquanto seu queixo rachava o chão. Nakahara foi atingido por uma escova de pentear cabelo bem no rosto e caiu de costas no chão enquanto a garota se apressou em bater a porta na cara de Nishimoto.

- Ei, Harumi-chan, você já ouviu falar em fechadura na porta? – Perguntou Nakahara de forma dolorosa enquanto ele se levantava.

- Cala a boca, seu idiota! – A resposta veio do outro lado da porta instantaneamente.

- Você quer um pedido formal de desculpas? Por que eu posso mandar um pra o seu e-mail. – Nakahara perguntou num tom provocativo, fazendo com que Nishimoto o encarasse como se ele estivesse louco, como ele tinha a coragem de provocar a garota mesmo depois de ter feito o que fez. A resposta de Nakahara foi apenas dar uma piscada de leve para o garoto. – A gente se conhece há um bom tempo.

- Mas...

A fala de Nishimoto foi cortada quando Nakahara ergueu um dedo na frente de seu rosto para que ele se cala-se, e elevou a outra mão ponto eletrônico em seu ouvido. – Nakahara na escuta. Como assim vocês encontraram um dos agentes desmaiado perto do Ponto-6? Marcas de queimado? Possível terrorista infiltrado? Fiquem onde estão, eu vou encontrar o Tanashii-san e vou direto para aí.

Nishimoto olhou para o loiro com curiosidade, por sua vez, o loiro olhou para Nishimoto com bastante seriedade. – Eu preciso que você faça um favor pra mim, pode ser, herói?

Parte 8

- B-bom... Aquilo foi... Eh... Uma coisa que... Uh... Aconteceu, né? – Nishimoto perguntou enquanto ele caminhava lado à lado com uma certa Idol bastante famosa dentro da Cidade Acadêmica.

- É, isso foi uma coisa que aconteceu, e a gente nunca vai falar sobre isso. – A garota disse ainda envergonhada.

Esse havia sido o pedido de Nakahara. Ele teve que sair correndo para resolver alguma emergência e pediu para Nishimoto escoltar a estrela daquela noite, Cadence, para o palco. Mesmo com todos os protestos do rapaz careca, o loiro apenas disse que ele poderia dar conta disso e saiu.

- Uh... Eu posso pelo menos me desculpar?

- Você não tem que se desculpar, não foi culpa sua. – A Idol disse, franzindo a testa. – Na verdade, você é tão vítima quanto eu nesse caso, o único culpado é o Amon-kun.

Nishimoto ficou em silêncio por uns segundos enquanto eles se aproximavam do lugar desejado. – Er... Bom... Boa sorte, eu acho? Q-quero dizer, não que você precise de sorte pra isso, mas... Bom... Você entendeu.

Cadence riu, uma risada verdadeira. – Obrigada, Nishimoto-san, espero que se divirta com o show. – Ela disse sinceramente quando sua equipe de segurança pessoa entrou no seu campo de visão na entrada da arena que havia sido convertida num palco. – Você pode continuar seguindo esse corredor e você vai encontrar o camarote VIP.

- Certo, bom show, Cadence-san.

Os dois se despediram enquanto Cadence era recebida por um homem pálido de cabelo e olhos roxos, vestindo roupas que, para Nishimoto, eram bastante escandalosas. Nishimoto continuou seu caminho apenas para chegar ao camarote VIP.

Realmente era uma sala confortável, com dois sofás de aparência confortável posicionados de frente para uma enorme janela com vista privilegiada para o palco. Em um dos cantos da sala havia um mini bar com direito à um robô cozinheiro. Nishimoto resolveu ser um pouco mais simples e comprou uma lata de refrigerante de uma máquina no corredor. Estranhamente a sala estaria vazia se não fosse por ele e uma pessoa que se encontrava sentada no sofá.

Ao se aproximar de um dos sofás, seu coração pulou uma batida ao reconhecer a pessoa que estava sentada nele. Uma garota de cabelos negros e olhos com um misterioso brilho vermelho, mas agora trajando um curto vestido negro decotado que ia apenas até metade de suas coxas e possuía detalhes em branco.

Ela percebeu sua presença na sala também e os dois se encararam em silêncio. – Eu te conheço? – Ela perguntou indiferentemente.

- Você vai continuar o seu caminho e fingir que nada aconteceu, entendeu carequinha?” As palavras daquela garota invadiram a sua mente, e alguma coisa em seu peito pareceu estalar.

Um certo desconforto tomou conta do seu corpo enquanto ele olhava confuso para a moça na sua frente. – Não. – Ele finalmente respondeu. – Não nos conhecemos. – Não era totalmente mentira, eles haviam se esbarrado a alguns minutos atrás, isso não tornava eles automaticamente conhecidos.

- Possível terrorista infiltrado?” Aquele trecho da conversa de Nakahara com a pessoa do outro lado do ponto fez com que Nishimoto começasse a suar enquanto ele se sentava no sofá.

Se você interferir, eu mato você, careca, você não é nenhum herói, você não é aquele cara. - Aquelas palavras podiam apenas ser ouvidas pelos dois, já que a sala estava vazia com exceção deles.

Parte daquela ameaça deixou Nishimoto intrigado, mas a outra o deixou completamente desesperado. Ele percebeu o movimento da moça ao seu lado, ela tirou uma caixinha de dentro de sua bolsa, e da caixinha ela tirou dois fones de ouvido e os colocou.

– Eu preciso que você faça um favor pra mim, pode ser, herói?” As últimas palavras de Nakahara para ele soaram na sua cabeça por alguns momentos.

Nishimoto tentou voltar a sua atenção para o show, Cadence havia começado a cantar sua primeira música, mas algo parecia errado. Com um sexto sentido, Nishimoto percebeu alguma coisa acontecendo lá fora, como se a temperatura do ar no palco tivesse subido de repente em um ponto específico.

Como se seu corpo tivesse reagido instintivamente à algo, Nishimoto se levantou e correu na direção do vidro, colocando as duas mãos sobre a superfície transparente.

E então ele percebeu.

- CADENCE!!

BOOM!!

No palco, Hinode Harumi foi pega na onda de impacto de explosão e arremessada a vários metros no ar, girando como uma boneca de pano antes de ser pega pelos braços fortes de alguém que ela conhecia bem. Nakahara Amon.

Amon havia retornado a tempo de sua investigação para ver que algo de errado estava para acontecer. Ele não tinha provas, mas tinha um pressentimento de que algo iria acontecer, e quando aquela explosão aconteceu, a poucos metros de sua amiga, tudo que ele pode fazer era ativar a sua habilidade.

Sendo envolto de uma aura roxa, aos olhos normais ele simplesmente desapareceu, mas para ele o mundo havia sido congelado. Amon correu com tudo que pode, tomou impulso e converteu seu próprio corpo em energia enquanto se movia através do espaço-tempo para surgir no ar, ao lado de Harumi.

O mundo foi descongelado e ele agarrou a cantora com seus braços, aterrissando em segurança no chão, onde os membros da equipe de segurança já haviam se reunido. – Tirem ela daqui, agora! – Ele gritou, colocando a cantora nos braços de um dos seguranças. Por pura sorte ela não havia se machucado.

Amon olhou ao redor, tentando encontrar o culpado pela explosão, mas seria inútil procurar daquela forma, então ele torceu para seu plano dar certo. – Vamos, seu arrombado, me acerte se você puder!

Mas o disparo nunca veio. A explosão nunca veio. Ao invés disso, tudo que aconteceu foi o público ao redor dele, nas arquibancadas, entrando em pânico e correndo de um lado para o outro. Amon suspirou e tirou seu telefone do bolso. Discando rapidamente ele levou o celular à sua orelha. – Aqui é o Nakahara, eu vou precisar da Anti-Skill no Big Colossus, houve um ataque terrorista, uma explosão. Os culpados não fizeram nenhum outro movimento, eu suspeito que eles tenham escapado entre a multidão.

Assim que Nakahara desligou o celular e começou a olhar ao redor para tentar descobrir o que fazer primeiro, ele viu algo incomum. Uma única folha de papel desceu flutuando do céu em sua direção.

A folha tocou o solo antes de Nakahara se abaixar e pegar ela. Em uma letra de forma bastante dura ele apenas conseguiu ler uma palavra.

“HELLFIRE”.

Parte 9

Com as duas mãos pressionadas contra o vidro, Nishimoto percebeu o ar se comprimindo e entrando em combustão ao lado da cantora.

- CADENCE!!

BOOM!!

Uma explosão aconteceu no palco, a poucos metros da cantora, que foi arremessada a alguns metros no ar. Nishimoto se apressou a fazer uma esfera de fogo em suas mãos e disparar as chamas contra o vidro, para quebrá-lo, mas algo o atingiu.

Uma pressão desconhecida para ele o atingiu nas costas, o empurrando contra o vidro e interrompendo sua bola de chamas.

Ele sentiu algo molhado e quente se espalhar pela sua camisa e sua pele.

*cough*

Sua boca se encheu de um liquido quente de gosto metálico enquanto ele sentiu seus joelhos falharem.

Ele colocou uma mão sobre o peito, logo do lado do coração e então olhou para a palma da sua mão enquanto sentia um formigamento insuportável percorrer todo o seu corpo a partir de um único ponto.

O que ele viu em sua mão direita foi sangue.

*cough*

Ele tossiu mais uma vez e o sangue jorrou pela sua boca, e então ele sentiu a dor. “O que eu vou fazer agora? Eu não posso morrer agora!

Era como ter sido furado por uma estaca, mas era pior. Era bem pior.

Ele olhou para trás e viu a jovem pálida. Ele viu a jovem pálida sorrindo de maneira macabra para ele. Sorrindo enquanto apontava uma pistola com um silenciador em sua direção. E foi ali que ele soube. “O que será que o Yujiro vai pensar sobre isso?

Nishimoto Masahiro tentou falar, mas sua boca se enchia cada vez mais de sangue, então tudo que ele pode fazer foi erguer uma mão na direção da mulher. “Droga... O que será que o meu irmão vai pensar sobre isso...?

 “Eu não quero morrer! Por favor, Deus, qualquer Deus! Não me deixe morrer!

O rapaz de 16 anos que apenas queria se divertir antes de começar seu ano letivo, o rapaz que estava tão animado com o inicio das aulas no dia seguinte, o rapaz que comprou um mangá na livraria, apesar de olhar para a capa e ver que as críticas não eram boas, o rapaz que entrou num restaurante de família para comer um bom lanche entre as refeições e o rapaz que na volta para casa impediu que um bando de delinquentes assaltassem uma garota do ensino fundamental.

Eu me pergunto como os meus pais irão reagir à isso...” E então a realidade o atingiu com bastante força enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto. Ele nunca iria descobrir a resposta dessa pergunta não é?

Aquele rapaz, Nishimoto Masahiro, sentiu sua vida lentamente se esvair, até que ele olhou para a moça nos olhos.

Os olhos negros e desesperados daquele rapaz encontraram os olhos da moça, que brilhavam vermelhos com certa malícia. Por um momento ele jurou ver um brilho de azul hesitante atrás dos olhos dela, mas provavelmente ele estava alucinando.

- P-por... F-f-favor... – Foi tudo que ele conseguiu murmurar.

- Eu avisei para você não interferir, careca. – Foi tudo que ele pode ouvir antes de ver a moça puxar o gatilho. – Você devia ter ficado em casa hoje.

E com um ‘bang’ mudo, tudo ficou preto e Nishimoto deixou de existir. Certamente aquilo era culpa do dia 31 de Março.


Notas Finais


Eu garanto a vocês que por essa vocês não esperavam não é? Bom, eu não vou entrar em detalhes, qualquer coisa, falem comigo pelo Discord.
Espero que tenham gostado, fiquem com o Lado Sombrio da Cidade Acadêmica e não usem drogas.

Server do Discord - https://discord.gg/YJPcT9K


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