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História A Cidade no Quintal - Capítulo 3


Escrita por: MrsNovak

Notas do Autor


Olá, pessoal 🤗

Estou de volta com mais um capítulo. Espero que gostem ✨

Capítulo 3 - Enquanto Você Dorme na Chuva


Os dedos de Naruto brincavam com a lata pendurada na janela. Ela produzia um ruído seco a cada vez que se chocava contra a parede, embalando seus pensamentos. Não havia ninguém do outro lado, mas a lata ainda estava ligada ao quarto da casa vizinha. Naruto refletia sobre até quando ela ficaria lá, se os novos moradores da casa, que eventualmente apareceriam, iriam notar a latinha pendurada na janela.

De repente, ele a colocou no ouvido, movido por uma vontade súbita. Só havia o silêncio, alto e constante. Só havia um dia que Sasuke tinha virado a esquina, na janela do carro preto, mas o silêncio de sua ausência já era ensurdecedor.

— Naruto? — Minato bateu com os nós dos dedos na porta aberta, fazendo o coração do garoto disparar. Rapidamente ele soltou a lata, fazendo-a se chocar contra a parede. Como se fosse a forma natural de seus lábios, o pai sorriu, entrando no quarto.

Ele se sentou na beirada da cama, tendo os movimentos acompanhados pelos atentos olhos azuis do filho. A primeira coisa que fez foi segurar a lata entre os dedos, analisando-a como Naruto fazia, tratando-a como um tesouro.

— Quando eu era criança, eu tive alguns bons amigos — começou, com os olhos ainda na lata — Nós tínhamos nossas próprias brincadeiras e manias, nosso próprio mundo e criações. Em uma época até aprendemos código morse para conversar sem que as pessoas soubessem o que falávamos. — Ele riu, com um olhar distante.

— O que houve com eles? — perguntou o menino.

— Algo como o que houve com você e Sasuke — respondeu, mas com um tom mais sério. Finalmente Minato olhava para o filho. — Não foi tão súbito, mas também foi uma separação.

Naruto continuou olhando para o pai, sem entender muito bem. O homem notava aquela confusão, a curiosidade que vagava pelos olhos do filho, pois era recorrente. Porém, assim como todas as outras vezes, não sabia como simplificar as ideias o bastante para que ele entendesse. Também não queria deixá-lo sem resposta alguma. Por isso, trouxe o menino para perto, abraçando-o.

— Sabe, Naruto, as pessoas vão e voltam. Quando temos um amigo na infância, não é fácil mantê-lo por toda a vida, por mais que você o ame, entende? — Sua voz era suave.

— Talvez. Por que eu não posso ser amigo do Sasuke para sempre?

— Não é que não possa… Só é difícil. Além das distâncias que podem acontecer, mudanças de casa ou cidade, também há as transformações em você. Talvez o Naruto do futuro não se dê bem com o Sasuke do futuro, porque vocês não serão mais os mesmos — disse Minato, calmamente. Ficaram em silêncio por um momento, em que os olhos de Naruto estavam baixos, observando os padrões de tons de laranja em seu pijama. O homem podia ver em seu rosto que o garoto pensava seriamente.

— Pai — falou, por fim — Eu vou ser amigo do Sasuke para sempre.

Minato sabia que Naruto tinha apenas dez anos, mas a determinação com que disse aquelas palavras ficou marcada em sua mente. O garoto não parecia ser uma criança quando fez aquela promessa. Talvez nem os adultos que Minato conhecia jamais tivessem dito algo com tanta certeza.

— Eu acredito em você — disse, com sinceridade. O rosto de Naruto se suavizou, aliviado. Tudo o que ele queria era alguém que acreditasse naquilo, assim como ele acreditava. Assim, tornava-se real — Bom, guarde bem essa promessa, Naruto.

— Não vou esquecer.

O homem apertou o filho contra si uma última vez, antes de beijar sua testa e se levantar da cama. Ele via o olhar de admiração do garoto para si, mas não sabia que Naruto também notava o olhar de admiração que o pai o lançava.

Quando as luzes foram apagadas, o menino imaginou onde Sasuke estaria. Pensou se também havia silêncio na nova casa e se ele havia encontrado novos amigos. Esperava que o amigo tivesse bons dias até que se reencontrassem.


***


Na manhã seguinte, Naruto levantou-se determinado. Era domingo, então os pais estavam em casa e sua mãe o deixava livre. Geralmente ele chamava Sasuke pela lata e os dois brincavam juntos, logo depois de o menino de cabelos negros passar pela tábua solta na cerca. Porém, não havia como chamá-lo pela lata.

Naruto atravessou o quintal ensolarado com um balde em mãos. Kushina e Minato não sabiam o que ele fazia, enquanto o observavam pela janela da cozinha, mas notavam sua animação. O ar determinado do garoto era palpável. Havia gravetos em seu balde e um soldadinho de metal em seu bolso esquerdo.

O garoto se ajoelhou próximo à cerejeira, como ele e Sasuke vinham fazendo há algum tempo. Ali, em meio às raízes, nascia uma cidadezinha. Alguns prédios eram feitos de pedra, outros tinham fundações de madeira e argila, as ruas eram desenhadas ortogonalmente, com cuidado. Sasuke tinha a pretensão de criar um hospital e uma escola, para atender aos cidadãos, mas Naruto priorizava o parque de diversões.

Ele passou o dia ali, parando só quando a mãe o chamava para comer ou quando ia ao banheiro. No fim, quando o sol se punha, o garoto contemplou a cidade, a cidade que era dele e de Sasuke. Do interior do bolso, puxou o soldado de brinquedo, observando-o entre os dedos, antes de colocá-lo no interior de uma das casinhas, protegido. Naruto protegeria o soldado e a cidade enquanto ele dormia na chuva.


***

7 anos depois


O rio ainda brilhava como se fosse feito de diamantes. Encostado na mureta da ponte, o adolescente loiro observava algumas crianças brincarem nas margens a metros abaixo. Contudo, ele não estava sozinho, pois uma garota de cabelos cor-de-rosa estava parada ao seu lado. Ambos haviam entrado em um silêncio momentâneo, reflexivo.

— Naruto, nós vamos ficar na mesma classe de novo! — exclamou, de repente, mostrando ao garoto a tela do celular, na qual havia uma lista das turmas. Seus olhos verdes haviam adquirido um brilho vivaz, porque realmente não queria se separar dele.

— Vou passar de ano! — disse, sorrindo aberto e abrindo os braços, com o intuito de receber um abraço. Porém, a garota estreitou os olhos.

— Se você não se esforçar, eu não vou mover um músculo para ajudar. Estou avisando — avisou ela, firme. Um bico se formou nos lábios do garoto loiro, mas ele sorriu logo em seguida.

— Tenho certeza de que vai me ajudar, Sakura — afirmou, apoiando o cotovelo em seu ombro. — Você sempre ajuda e eu valorizo isso. Não é para isso que servem os amigos?

— Se não se esforçar vai se arrepender de me ter como amiga — falou, completamente inflexível e com os braços cruzados sobre o peito. Quem via os seus olhos grandes e vivos, os cabelos de um rosa suave, as roupas delicadas e o sorriso calmo, não podia imaginar o quão forte era a personalidade de Sakura. Contudo, Naruto sabia bem como ela era.

— Vou me esforçar — prometeu o garoto. Todos os anos ele prometia, mas aquilo não significava que teria sucesso na empreitada. No fim, a menina acabou sorrindo, porque também sabia bem como ele era.

— A Ino também vai ficar na nossa sala, ainda bem! — vibrou a garota, ainda consultando a lista de turmas do último ano do colegial. Era o último dia de férias, então eles prometeram que se encontrariam para passá-lo juntos. Sobre o rio Kagayaku, esperavam o restante da "Gangue", como se auto nomearam.

— Eles estão vindo — Naruto viu, na extremidade leste da ponte, seus amigos se aproximarem.

Como gostava tanto de se lembrar, Naruto havia sido o "elo" da Gangue, a cola que os juntou e os mantinha unidos. Eram tão absolutamente diferentes um dos outros, que o garoto loiro não sabia bem como tinha conseguido aquele feito. Porém, naquele antro de diferenças, havia a cumplicidade, a noção de equipe, os sorrisos compartilhados.

Kiba vinha na frente, apressado. Naruto havia o conhecido depois de levar um soco do garoto. Eles não estavam brigando: havia sido apenas uma questão de estar no lugar errado e na hora errada. O garoto loiro já havia se envolvido em algumas pequenas brigas na escola, mas, mais que brigar, gostava de assisti-las. O problema foi que, naquela vez, Naruto havia se aproximado demais de onde dois garotos brigavam acaloradamente e um soco acertou o seu rosto. No fim, ganhou um hematoma, uma advertência de Sakura e um novo amigo arrependido.

Logo atrás do garoto agitado, Ino andava a passos largos, como uma modelo. Ela era amiga de infância de Sakura, mas as duas tinham ficado sem se falar por muito tempo depois de desentendimentos. Quando Naruto questionou a garota de cabelos rosa sobre que tipo de desentendimentos eram, ela havia percebido que não se lembrava mais. Eram brigas de infância, mas ambas tinham sido orgulhosas demais para tentar resolver o problema. Assim, o loiro atuou como um mediador entre elas, que notaram o quanto, na verdade, eram parecidas.

Ao lado da imponente garota loira, Hinata também caminhava rápido, mas aquilo não era o seu natural. A menina geralmente andava calmamente, sem querer chamar muita atenção, tentando ser invisível. Por algum tempo, Naruto pensou estar apaixonado por seu jeito educado e gentil, mas nunca tinha dito nada a ela. Hinata era tímida, ele tinha medo de estragar a amizade que tinham construído desde os primeiros dias de aula se dissesse algo e não tinha muita certeza sobre os seus sentimentos.

Atrás dos três, Shikamaru e Chouji andavam lentamente. O garoto de expressão sonolenta e entediada estava com as mãos nos bolsos, como costumava estar. Naruto tinha o conhecido no primário, quase na mesma época em que conheceu Sakura, e nutria um silencioso respeito por ele. Chouji, por sua vez, tinha de bondade e lealdade o que Shikamaru tinha de inteligência. Evitava brigas ao máximo, mas entrava sem pensar duas vezes se fosse por seus amigos.

— Hey! Naruto e Sakura! Pensei que não veria suas caras de pau até amanhã — disse Kiba, com um tom acusatório e brincalhão ao mesmo tempo. De forma expansiva, passou os braços pelos ombros de ambos ao mesmo tempo, fazendo Sakura sorrir sem graça e Naruto retribuir o abraço teatralmente.

— Nem parece que nos falamos por chamada de vídeo ontem — ironizou Naruto.

— É diferente, você sabe. Nada se iguala em poder reunir a Gangue de novo — disse Kiba, com um sorriso de canto e Naruto deu um High Five com o garoto. Ele o considerava o seu melhor amigo, mas nunca tinha verbalizado aquilo. Quando Kiba falou sobre a Gangue, Ino e Hinata já estavam próximas deles.

— Sakura! — Ino a abraçou com força e ambas riram. — Estamos na mesma classe! — A loira já sabia daquela informação, provavelmente tendo consultado a lista da turma assim que ficou disponível.

— Eu vi! Nossa, realmente fiquei aliviada por isso… Como vai, Hinata? — interrompeu sua fala para cumprimentar a garota de cabelos longos e negros, abraçando-a. Elas não eram muito próximas, mas Sakura gostava dela e também a considerava parte do grupo por Naruto.

— Eu estou bem. Como foram suas férias nos Estados Unidos? — perguntou Hinata. O rosto dela ainda ficava um pouco ruborizado quando falava com qualquer um deles, porque pensava se não estava falando algo errado. A garota ainda se perguntava se de fato a consideravam parte do grupo.

— Preciso contar para vocês com detalhes mais tarde — afirmou Sakura, animada.

— E você, Naruto? Como foi na França? — perguntou Kiba, fazendo um biquinho ao falar a palavra "França", para imitar os franceses.

— Eu só fui pra Okinawa visitar minha avó, seu palerma — tentou bagunçar os cabelos do amigo, mas ele só desviou.

Bonjour! — Kiba ficou repetindo a única palavra em francês que conhecia, provocando Naruto. Ino revirou os olhos e Sakura pressionou as têmporas.

— E aí, Naruto? — Ino cumprimentou o garoto com um soquinho e Hinata também se aproximou, hesitante.

— Oi, Naruto — disse, ainda a certa distância. Ele não a via há algum tempo, mas voltou a sentir aquela estranha sensação de vergonha, confusão e um rosto quente.

— Oi, Hinata — respondeu animadamente, mas não se aproximou. Tinha medo de invadir o espaço pessoal da garota, a qual ele não entendia os limites. Naruto não sabia lidar muito bem com pessoas tímidas.

— Vocês são mais lentos que a minha tia avó! — gritou Kiba, com a mão em formato de concha sobre a boca, falando com Shikamaru e Chouji.

— A tia avó do Kiba já teria chegado! — reforçou Naruto, gritando também. Shikamaru mostrou o dedo do meio, sem acelerar nem um pouco o passo.

O garoto de cabelos loiros observava os amigos com ternura. Ele tinha sua própria vida, todos eles tinham, mas Naruto sentia como se tudo fizesse sentido. Quando estava com eles, sentia-se invencível.


***

A "Gangue" tinha o seu lugar. Na chamada Rua das lojas de conveniência, atrás da rua da casa de Naruto, havia um antigo fliperama. As letras vermelhas e brilhantes, de leds, formavam a palavra "Ganbatte!", o qual supostamente era o nome do estabelecimento. Entretanto, todos o chamavam apenas de "O velho fliperama". De fato o lugar era antigo, passado de dono em dono, mas também cuidadosamente bem tratado. Os diversos donos já existentes foram modernizando o lugar, adicionando novos adereços para competir com o proprietário anterior. A Gangue obviamente adorava aquilo.

— Peçam pizza! — exclamou Chouji assim que entraram no lugar, o qual também era uma lanchonete. Um dos primeiros donos havia decidido que seria uma boa ideia unir comida e jogos e, aparentemente, nenhum dos outros posteriores o contradisse.

— Agora é a vez do Shikamaru ir pedir — afirmou Sakura, a qual sempre se lembrava da ordem de responsáveis por pedir pizza no fliperama. Se ela quisesse burlar a ordem, ninguém saberia.

— Tá, eu vou. — O garoto suspirou e lançou um olhar preguiçoso para a fila da lanchonete, nem tão grande, e para uma das mesas com cadeiras estofadas. Ele obviamente odiava o fato de ser sua vez, mas realmente ninguém gostava de ser o responsável por fazer o pedido.

— Querem ir ao Cinema 6D enquanto esperamos o Shikamaru? — perguntou Kiba, visivelmente inquieto.

— Cinema 6D? E tem isso aqui? — Naruto olhou ao redor, mas tinha muita luz, máquinas e mesas para distinguir algo de diferente naquela adição de coisas.

— É claro que o dono mudou enquanto você e Sakura estavam fora, meu caro amigo ingênuo — começou Ino, em um tom sarcástico. — Agora é uma mulher chamada Tsunade, mas que já ouvi as pessoas chamarem de "A Lendária Aproveitadora". Ela trouxe o Cinema 6D.

— Esse não parece um apelido legal… — comentou Hinata, com uma careta.

— Até agora eu não vi nada demais acontecer por aqui, pelo menos nada injusto e os preços não aumentaram. — Ino deu de ombros e Chouji concordou. Os dois, juntamente com Shikamaru, costumavam ir juntos ao velho fliperama mesmo quando a Gangue não estava toda reunida. Eles não tinham muito a ver uns com os outros, mas estranhamente se davam bem.

— Vamos logo ao Cinema 6D que está quase chegando a vez do Shikamaru! — Kiba definitivamente estava impaciente.

— Quantos anos você tem? Sete? — provocou Naruto, enquanto segurava os ombros do amigo e o empurrava para que começasse a andar, fosse onde fosse o tal cinema.

— Não, eu tenho seis e você, cinco! — afirmou, deixando claro que provavelmente Naruto estava certo.

As coisas sempre funcionavam na Gangue, porque eles tinham suas tradições, suas brincadeiras. Além disso, havia as relações implícitas entre os membros, em que alguns eram mais próximos e outros mais distantes, mas tentavam não se excluir. Naruto prometeu a si mesmo que não deixaria que eles se separassem, que ninguém iria embora, não dessa vez.

Conversaram suas conversas, contaram suas piadas, jogaram os seus jogos e comeram a sua pizza. Eles estavam em sintonia, apesar das claras diferenças de personalidade. Hinata tinha medo de incomodar, então Kiba a incomodava para que ela se sentisse parte do todo. Ino fazia observações ácidas e Sakura executava suas repreensões sutis, enquanto Naruto ria alto das caretas que a loira fazia após as reprimendas. Shikamaru reclamava que era trabalhoso ter que ir pra escola e estudar, mas Choji era assertivo ao dizer que a escola era dez vezes pior para si, que não tinha a inteligência do amigo.

No fim, sempre ficavam exaustos. Era bom estarem juntos e Naruto sentia-se bem todas as vezes. Ele e Kiba muitas vezes propunham desafios idiotas um para o outro, enquanto os outros assistiam. Falavam coisas absurdas para pessoas aleatórias, ou faziam coisas que seriam absurdamente vergonhosas para qualquer outro dos amigos. Contudo, eram corajosos e tolos o suficiente para fazerem.

Naquele último dia de férias antes do início do terceiro ano, Naruto foi desafiado a perguntar para o atendente da lanchonete se ele vendia carne de Homo sapiens. Era uma brincadeira que não teria muita repercussão, se aquela não fosse a milionésima vez que o homem era vítima de alguma daquelas brincadeiras vindas do loiro. Irritado, mandou que todos fossem embora.

Eles foram, mas foram rindo. Como já era tarde, iriam embora de qualquer maneira. Alguns membros da Gangue davam sorrisos silenciosos e outros falavam alto, riam alto. A rua das lojas de conveniência desaparecia para aquela bolha de sete pessoas, a qual atraía atenções para si, mas não permitia a entrada do exterior.

Ainda cegos no próprio mundo particular, caminharam pela rua de Naruto, o qual seria o primeiro a se despedir naquele dia. Os outros moravam do outro lado do rio Kagayaku, que era onde a escola também ficava. Não era tarde o bastante para que todos os vizinhos dormissem, mas sempre era hora para se incomodarem com as risadas altas.

— Naruto, tem um caminhão na porta da sua casa — Sakura comentou, de repente, sendo quem estava menos alheia ao mundo externo da bolha. O garoto loiro voltou à realidade por um momento, encarando fixamente o veículo grande parado a alguns metros.

Contunuaram a se aproximar e Naruto percebeu que era um caminhão de mudanças, por causa da logo em sua lateral. O seu coração apertou no mesmo instante: Alguém finalmente se mudaria para a casa vizinha a sua, a casa que estava vazia há sete anos. Naquele momento, ele notou que havia se esquecido, que o tempo sem ninguém se mudar para a casa vizinha o fez se acomodar. A linha do telefone de lata que conectava as casas tornava-se mais e mais tênue, assim como a memória do garoto.

A parte de trás do caminhão estava aberta e, em seu interior, podia-se ver alguns poucos móveis restantes, provavelmente porque já terminavam a descarga. Pareciam ser móveis novos e modernos, o que fez Naruto julgar que o novo vizinho ou vizinha era uma pessoa jovem. Nada de mais uma velhinha para se somar a todas as outras daquele lado do rio Kagayaku.

Enquanto aquele pensamento ainda rondava a sua cabeça, Naruto viu alguém sair de trás do caminhão, aparentemente distraído. Era um rapaz realmente jovem, carregando uma caixa, com os olhos baixos. Ele tinha a pele clara como se dificilmente tomasse sol, além de cabelos muito escuros, cortados de uma forma repicada pouco convencional.

O vento morno de fim de verão bagunçou os cabelos arrepiados do garoto loiro e ele pôde jurar que sentiu o cheiro da chuva. Era uma chuva longínqua, mas que parecia vívida em sua memória, como a tábua solta da cerca, as sonecas na cama elástica e os passeios de bicicleta. Naruto não via o rosto da pessoa que segurava as caixas, mas tinha certeza de quem era.

— Sasuke! — chamou e, instantaneamente, o garoto levantou a cabeça. Mesmo na penumbra Naruto notou o quanto seus olhos eram negros, mas também viu a frieza em seus traços. Aquela última parte era nova, irreconhecível.

Então, como se não tivesse ouvido, o garoto de cabelos pretos desviou os olhos e continuou o seu caminho com a caixa. Naruto estava estático, olhando para o ponto em que ele havia desaparecido. Questionava-se se aquele de fato era quem parecia ser, ou se era outra pessoa completamente diferente. Ele se parecia com Sasuke, mas algo havia mudado.

— Você conhece ele, Naruto? — Sakura perguntou, de repente, lembrando-lhe que não estava sozinho na rua de casa.

— Ele é um gato — comentou Ino, falando o que vinha à sua cabeça. Kiba resmungou qualquer coisa inaudível.

— Ele é o meu amigo de infância — respondeu Naruto, porque aquela era a verdade. Por mais que só se lembrasse dos vivos e brilhantes olhos pretos, que sorriam junto com os lábios e demonstravam a esperança que carregava no peito, aquela pessoa nova ainda era Sasuke. Sakura levantou as sobrancelhas, surpresa. Nunca tinha ouvido falar sobre algum amigo de infância.

— Aparentemente ele não te considera mais um amigo. — A frase tinha vindo de Shikamaru, que observava a cena atentamente. De alguma forma os olhos suspicazes do garoto inteligente e preguiçoso sempre viam por trás das coisas.

— Não seja tão rude, Shikamaru... — começou Hinata, a qual sempre se recusava a pensar o pior sobre as pessoas — Talvez ele só não tenha visto o Naruto, ou não o reconheceu. Vocês não se viam desde crianças?

— A última vez que eu o vi, eu tinha dez anos — respondeu o garoto, voltando-se para Hinata. Ela o observava com compaixão, mas ele não achava que merecia, visto que nunca contara sobre Sasuke para ninguém. A memória de sua existência quase havia desaparecido.

— Então deve ter sido isso — comentou Chouji, que também tinha um bom coração, como a Hyuuga. — Bom, acho que nós devemos ir, porque ainda não organizei nada para a aula de amanhã. — O garoto bocejou, sendo acompanhado por Shikamaru.

— Concordo plenamente com o Chouji — falou, enquanto bocejava.

Então, a Gangue se despediu de Naruto, alguns um pouco curiosos sobre Sasuke, outros indiferentes. Enquanto trocavam soquinhos e abraços, tudo o que passava pela mente do garoto loiro era o rosto indiferente do amigo de infância. Estava tudo bem em vê-los se afastar, quando ele sabia que os encontraria novamente no dia seguinte.

Quando entrou em casa, viu que os pais assistiam a um filme na TV. Minato já dormia e Kushina chorava, encostada em seu ombro. Ela levantou a cabeça quando viu o filho, enquanto secava as lágrimas. Apesar de ser rígida, a mulher ruiva também era sensível, característica essa que se esforçava em disfarçar.

— Matou a saudade da "Gangue"? — sussurrou ela, quando Naruto se aproximou. Com os pensamentos ainda meio distantes, o garoto apenas assentiu, com um sorriso. Kushina gesticulou para que ele se abaixasse e beijou o seu rosto. — Boa noite, meu filho.

— Boa noite, mãe — respondeu Naruto, antes de se afastar para ir para o quarto. Ele era próximo aos pais, mesmo após as broncas. A fase rebelde passava aos poucos e o garoto loiro identificava-se cada vez mais com a mãe, além de entender e aceitar os conselhos do pai. Com o tempo as coisas estavam se encaixando, rearranjando na mente daquele novo Naruto.

A primeira coisa que ele fez quando chegou ao quarto, foi olhar se a lata ainda estava pendurada na janela. Quando percebeu que estava intacta, mais questionamentos se apossaram de sua mente. Naruto esperava certezas e respostas, mas ainda não entendia o porquê de a lata estar ali. O fio ainda conectava uma casa à outra, um quarto ao outro.

O loiro ajoelhou-se na cama, na penumbra, e tocou a lata velha. Seus dedos contornaram o que restava do rótulo rasgado, com imagens de feijões. Lembrava-se vagamente do dia em que tiveram a ideia do telefone, Sasuke e ele. O amigo havia ficado realmente feliz com aquela ideia, tanto que passaram a primeira noite toda conversando e foram sonolentos para a escola no dia seguinte.

Enquanto os olhos azuis perdiam-se em velhas memórias, a luz do quarto de Sasuke se acendeu. A janela estava coberta por uma cortina, mas o coração de Naruto disparou de susto. Ele deitou na cama, com os olhos arregalados encarando o teto. Então, aparentemente Sasuke havia resolvido voltar a dormir no antigo quarto, sem tirar a lata da janela, entretanto.

A luz do quarto da casa vizinha iluminava o quarto de Naruto e ele observava a lata, a qual estava estática. Alguns segundos depois que a lâmpada do quarto de Sasuke se apagou, o garoto loiro viu a lata de feijões balançar ligeiramente. Poderia ser o vento, ou poderia ser que o seu amigo de infância também tocava o telefone com os mesmos sentimentos nostálgicos.

Naruto percebeu, então, que gostava mais de como a segunda opção soava. 


Notas Finais


Só queria dizer umas coisinhas ☺️
Essa história provavelmente vai ser bem longa e, em muitos capítulos, não vai acontecer nada de muito arrebatador. Às vezes serão dias comuns entre amigos. O meu objetivo é ser aconchegante, como estar deitada sob cobertas quentinhas em um dia frio. Quero que se sintam bem nesse pequeno mundo que criei para nós e se envolvam com os personagens que, aos poucos, serão mais aprofundados.
Eu escrevo de noite, geralmente, um pouco de cada vez, quando já estou cansada. É bom me sentir abraçada por essa história e por isso ela provavelmente vai ser longa, enquanto eu precisar que seja escrita.

Espero que também se sintam assim e que tenham um bom dia 🤗💙


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