História A Cinco Passos de Você - Jortini - Capítulo 1


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Categorias A cinco passos de você
Tags Jortini
Visualizações 21
Palavras 1.146
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Capítulo 1


Martina

Passos meus dedos pelo contorno do desenho da minha irmã, pulmões feitos a partir de um mar de flores. Pétalas florescem de cada extremidade em uma explosão de rosa-claro, branco e um azul mesclado, mas, de alguma forma, cada uma tem uma singularidade, uma vibração que indica que florescerá para sempre. Algumas nem florescem ainda, mas consigo sentir a promessa de vida pulsando dentro de cada um dos pequenos botões, esperando para se desdobrar sob o peso do meu dedo. Essas são as minhas favoritas.

Eu me pergunto, com bastante frequência, como deve ser ter pulmões tão saudáveis. Tão vivos. Respiro fundo, sentindo o ar entrando e saindo do meu corpo com dificuldade.

Ao percorrer a última pétala da última flor, minha mão desce pelo desenho, meus dedos traçando o céu estrelado e cada  pontinho de luz que Alba fez na tentativa de capturar o infinito. Eu tusso, afastando a mão, me inclino para pegar a foto de nós duas na cabeceira da cama. Sorrisos idênticos aparecem por trás dos grossos cachecóis de lã, as luzes de Natal do parque no fim da rua cintilando sobre nossas cabeças como as estrelas do desenho.

Havia algo mágico lá. O brilho sutil das lâmpadas dos postes, a neve agarrada aos galhos das árvores, a quietude e o silêncio de todo o cenário. Nós quase congelamos para tirar aquela foto ano passado, mas era a nossa tradição. Alba e eu, enfrentando o frio para ver as luzes de Natal juntas. 

Essa foto sempre me faz lembrar daquela sensação. A sensação de embarcar numa aventura com a minha irmã, só nós duas, o mundo se expandido à nossa frente como um livro aberto.

Pego uma tachinha e penduro a foto ao lado do desenho antes de me sentar na cama e pegar meu bloquinho e lápis da mesa de cabeceira. Meus olhos percorrem a longa lista de tarefas que fiz para mim mesma hoje de manhã, começando com: 1: planejar uma lista de tarefas - o que já risquei com satisfação -, e terminando com 22: contemplar a vida após a morte.

É possível que o número 22 seja um pouco ambicioso para uma tarde de sexta-feira, mas pelo menos agora posso riscar o 17: decorar as paredes. Passei a manhã inteira tentando deixar esse quarto vazio com a minha cara, e agora, olhando ao redor, observo as paredes cheias de desenhos que Alba me deu ao longo dos anos - pontos de cor e vida pulando de paredes brancas insossas -, cada um deles fruto de uma ida diferente ao hospital: eu com o soro intravenoso no braço, a bolsa cheia de borboletas de diferentes formatos, cores e tamanhos; eu com uma cânula de oxigênio no nariz, um tubo se retorcendo para formar o sinal do infinito; eu com um nebulizador, o vapor formando uma auréola nebulosa. E há também o mais delicado: um tornado de estrelas que ela desenhou na primeira vez que vim pra cá.

Não é tão sofisticado quanto seus trabalhos posteriores, mas, por algum motivo, isso me fez gostar ainda mais dele.

E logo abaixo de toda essa vida está... o meu amontoado de aparelhos médicos, bem ao lado de uma daquelas típicas poltronas verdes de hospital, feita de um couro sintético horrível, marca resgistrada de todos os quartos do St. Grace. Olho com receio para a bolsa de soro vazia, ciente de que a primeira das muitas rodadas de antibióticos do próximo mês está a exatamente uma hora e nove minutos de distância. Sorte a minha.

 É aqui -  uma voz exclama do lado de fora do meu quarto. Levanto a cabeça para olhar quando a porta se abre lentamente e dois rostos familiares aparecem na fresta. Nos últimos dez anos, Candelaria e Lodovica já me visitaram aqui um milhão  de vezes, e, ainda assim, nunca conseguem fazer o percurso da recepção até meu quarto sem pararem para pedir informações para todas as pessoas do prédio.

- Quarto errado - digo, sorrindo ao ver o alívio no rosto das duas. 

Lodovica ri, abrindo a porta por completo.

- Poderia ser mesmo. Esse lugar ainda é um maldito labirinto.

- Vocês estão animadas? - pergunto, ficando de pé em um salto para abraçá-las.

Candelaria se afasta para me olhar com um biquinho, seu cabelo castanho-escuro acompanhando sua expressão cabisbaixa.

- Segunda viagem seguida sem você. 

É verdade. Essa não é a primeira vez que a fibrose cística me fez perder uma excursão, férias ensolaradas ou um evento escolar. Em mais ou menos setenta por cento do tempo, levo uma vida bem normal. Vou para a escola, saio com Candelaria e Lodovica e trabalho no meu aplicativo. Só faço tudo isso com uma baixa capacidade pulmonar. Mas nos outros trinta por cento, a fibrose cística controla a minha vida. O que significa que, quando preciso voltar ao hospital para uma revisão, perco coisas como uma excursão para um museu de arte ou, como agora, a nossa viagem de formatura para Cabo San Lucas.

Essa revisão em particular tem a ver com o fato de que eu preciso de doses cavalares de antibióticos para finalmente me livrar de uma dor de garganta e febre que não passam nunca.

Isso e o fato de que minha capacidade pulmonar está despencando. 

Lodovica se joga na cama, soltando um suspiro dramático ao se deitar.

- São só duas semanas. Tem certeza que você não pode ir? É nossa viagem de formatura, Martina! 

- Certeza absoluta - digo com firmeza, e elas veem que estou falando sério. Somos amigas desde o Ensino Fundamental, e elas sabem a essa altura que, quando se trata de planos, minha FC é quem dá a palavra final.

Não é que eu não queira ir. É só, literalmente, uma questão de vida ou morte. Não posso viajar para Cabo San Lucas - ou para qualquer outro lugar, na verdade - e correr o risco de não voltar viva. Não posso fazer isso com meus pais. Não agora.

- Mas você foi a chefe do comitê de planejamento esse ano! Não dá pra pedir pra eles remarcarem? Não queremos que você fique presa aqui - Candelaria diz, apontando o quarto de hospital ao seu redor, que decorei com tanto cuidado.

Faço que não com a cabeça. 

- Mas ainda temos as férias do meio do ano! E eu nunca perdi um "fim de semana das BFFs" das férias desde a oitava série, quando peguei aquela gripe - digo com um sorriso esperançoso, olhando de Candelaria para Lodovica. Nenhuma retribui meu sorriso, no entanto, e preferem continuar me encarando como se eu tivesse assassinado seus bichinhos de estimação.

Percebo que as duas estão segurando as sacolas com roupas de praia que pedi para trazerem, então agarro as de Candelaria em uma tentativa desesperada de mudar de assunto.

- Uuuh, biquínis! Temos que escolher os melhores - digo.




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