1. Spirit Fanfics >
  2. A Coelha e o Falcão >
  3. O ritual de acasalamento

História A Coelha e o Falcão - Capítulo 2


Escrita por: NaniSenpai

Notas do Autor


Yo, Minna!
Trago mais um capítulo para vocês! Como devem imaginar, as coisas vão esquentar um pouquinho, não do jeito que imagino que esperam, mas acho que vão gostar do que vem aí: Sasukezinho emburrado e carrancudo e Sakura toda diva e poderosa!
Aaaaaaaa e agora tem playlist! Está nas notas finais, deem play lá se puderem para lerem ouvindo. Vai ser mais legal, garanto!
Boa leitura!*~
Obs.: O que estiver entre aspas, em negrito e itálico e centralizado serão mensagens de texto.

Capítulo 2 - O ritual de acasalamento


Fanfic / Fanfiction A Coelha e o Falcão - Capítulo 2 - O ritual de acasalamento

Os coelhos têm uma forma especial de conquistar o parceiro: se macho, eles criam um ninho da forma mais ostensiva que puderem para transmitir seu empenho e dedicação; se fêmea, elas exibem todas as suas habilidades sempre que encontram uma oportunidade.

Já os falcões possuem duas táticas que são utilizadas em conjunto: dedicar-se a observar o parceiro com afinco para demonstrar seu interesse e mostrar tudo o que pode ser capaz de fazer por ele, desde o quanto é apto para enfrentar qualquer que seja o obstáculo para tê-lo até o quão protetor pode ser para mantê-lo em segurança.

[…]

A coelha sentiu uma onda de arrepio diante daquele olhar obscuro e malicioso em sua direção. Na confusão do excesso de álcool no corpo, levou algum tempo para perceber que lembrava vagamente de ter visto aquele rosto antes, só não sabia de onde.

Aquele homem lhe fitava sem nem piscar e lhe oferecia um sorriso de canto cheio de más intenções. De resto, a expressão facial não lhe passava mais nada, era impassível, enigmático, perigoso

Deus do céu, ela estava hiperventilando e nada tinha acontecido ainda.

Ainda!, aquele olhar advertia como se soubesse o que se passava em sua mente.

Os gritos que romperam o silêncio repentino desde a frase do homem foram ensurdecedores, mas havia uma voz específica – e escandalosa, desafinada e irritante – que o ouvido competitivo do falcão não captou e isso o fez olhar para baixo, diretamente na direção pela qual veio, avistando os quatro idiotas gritando e pulando em comemoração por ter sido ele a estar lá, inclusive o idiota 1, embora parecesse um pouco chateado por ter tido sua vez cretinamente roubada, no entanto, não foi isso que teve sua atenção, foi o cara ao lado dele: a raposa estava claramente perturbada. Expressava com nitidez a fusão equilibrada de raiva e frustração e isso tirou dele um sorriso de canto arrogante.

Como se sentir perdedor da aposta da vez vendo aquele semblante fracassado?

Finalmente os ventos estavam a seu favor.

— Está bem… — a leoa se pronunciou tendo a voz amplificada no microfone e assim obteve a atenção do falcão, que a olhou de imediato — então… você será o felizardo! — tirando os idiotas e que berraram animados, o restante se focou em vaiá-lo e hostilizá-lo por roubar a chance de todos, mas ele não se importou, nem mesmo desviou o olhar direcionado a coelha encolhida com bochechas rubras — Aprovado, garotas? — as outras duas assentiram fervorosamente gritando “Sim!” e a coelha despertou daquele transe inicial, lançando um olhar furioso para a leoa que piscou com apenas um olho em sua direção — Tragam nossa coelhinha para cá, então!

A arara-azul e a raposa-vermelha, cada uma de um lado da coelha, a empurram para o centro do palco pelos ombros, deixando-a de frente para o falcão, que tinha as duas mãos dentro dos bolsos de sua calça escura com uma postura confiante e descolada, ainda mantendo o sorriso de canto que lhe deixava com um ar charmoso.

A leoa, com a mão desocupada, puxou o antebraço do falcão sutilmente, incentivando-o a se aproximar mais da vítima e se virar para o público, em seguida fez o mesmo com a coelha. Quando satisfeita, se voltou ao público:

— Já sabem o esquema, certo? No shot ou no corpo? — “No corpo” seria unânime se não fosse o berro contrariado da raposa exigindo “No shot” numa tentativa frustrada de minimizar o dano para seu ego e cobiça, o que quase tirou do falcão uma risada. A leoa ergueu uma das sobrancelhas em malícia — Vamos escolher onde! — virando-se para olhar o corpo da coelha que em reflexo colocou as mãos a frente para esconder como pudesse seus atributos, a mulher sorriu e lançou um olhar para a de vermelho e de azul que entenderam o que queria, ambas pegando uma mão cada uma, deixando a paisagem livre. Aproximando-se a de dourado colocou o rosto na altura da barriga da coelha e apontou para o lugar virando o rosto para o público — Devo esclarecer que o tecido daqui é renda. Não esqueçam deste detalhe, certo? — a concordância foi geral. Ela virou o rosto para o falcão — Quer dizer algo aos seus aliados, falcão?

Umedecendo o lábio inferior, se curvou um pouco para frente com o intuito de aproximar a boca do microfone estendido:

— Sejam generosos comigo.

A voz grave com leve rouquidão causou uma baderna entre as mulheres que gritavam enlouquecidas e ele sorriu de canto por isso, mesmo ciente de que se estivesse inteiramente sóbrio se irritaria por aquela comoção exagerada. O fato era que… ele queria exalar sensualidade para atrair e seduzir aquela coelha. Queria que ela tremesse ao ouvir a voz dele, que se arrepiasse diante do olhar dele e que se visse perdida naquela redoma erótica que ele estava tentando colocá-la para quando tocá-la, com a boca e com a língua, levá-la ao delírio, principalmente por ser uma oportunidade única – que faria de tudo para transformar em outra oportunidade um pouco mais… íntima e privada.

Oh… — a leoa se abanou, lançando um olhar esperto rápido à coelha que engoliu a seco — apoio do público feminino você, com certeza, tem, coração. — brincou, recebendo “Sim!” femininos — E quanto ao público masculino, tenho um pedido a lhes fazer: — o silêncio foi geral — sejam generosos com minha amada amiga coelhinha… ela merece o melhor prêmio de todos!

E foi a vez da baderna masculina. Gritos de apoio e assobios explodiram e quando o público se acalmou, a raposa-vermelha recebeu o microfone da leoa, que cruzou os braços e focou o olhar na coelha para ver de camarote aquela cena.

— Bom, considerando o que foi dito, vamos finalmente escolher onde!

A de vermelho recebeu gritos animados antes mesmo de se posicionar ao lado desocupado da coelha, que timidamente se encolheu. Nem parecia a devassa de momentos antes que corrompeu a imagem pura de sua fantasia.

Agachando-se sem encostar os joelhos no chão, apontou para os pés nos saltos brancos. Houve poucos gritos de “Aí!”.

Subiu para os joelhos, escondidos pela meia arrastão branca. Menos ainda.

Chegou nas coxas, marcadas pela renda no fim da meia arrastão também branca. Metade do salão fez baderna.

Mal tinha chegado na barriga pouco escondida pela renda transparente e a baderna tomou força. Aquilo era uma prova e tanto da preferência.

Mas aí subiu para o monte dos seios escondidos por um belo decote e a confusão foi geral, porque a baderna anterior parecia ser feita por todo o público naquele instante.

Mesmo assim, a raposa-vermelha continuou subindo, chegando ao pescoço nu. A baderna anterior não tinha parado e mesmo ali continuava com animação.

Numa brincadeira interna, a de vermelho olhou para a arara-azul e a leoa recebendo um incentivo para prosseguir e subiu na altura da boca, fazendo a coelha arfar em desespero quando além de gritos de “Aí!” repetitivos e assobios desvairados, também veio o estrondo de batidas de pés no chão com força.

A vibração balançava o palco improvisado e não havia dúvidas de que o público queria muito mais do que uma única rodada de body shot.

Sorrindo maliciosa, a de vermelho entrou na brincadeira do público.

— Parece que estão indecisos, hein! Como resolvemos isso, garotas? — virou-se para as amigas durante a indagação mal intencionada.

A leoa foi a primeira a se aproximar, pegando o microfone — Acho que não temos escolha… só podemos pedir para que o falcão atenda as nossas preces.

Que blasfêmia, sonsa pervertida!, era o que o olhar da coelha transmitia ao encarar indignada aquela leoa desgraçada.

O falcão em questão deixou-se repuxar o canto dos lábios novamente, pensando no quanto o destino gostava de brincar consigo. Quem o via ali recebendo “preces” de profanar aquela pele alva em lugares estratégicos e perfeitos para seu plano, não diria que o início do seu dia foi um inferno e que o decorrer dele até aquele momento conseguiu ser ainda pior.

Mas, se para estar ali prestes a fazer o que desejou fervorosamente desde que reparou naquela coelha precisasse perder mais uma vez uma aposta estúpida e um contrato milionário para seu maior e único rival, ele perderia sem dúvidas.

— Se a coelhinha permitir… — disse lentamente quando o microfone foi colocado em frente a sua boca. Umedeceu o lábio inferior e sorriu de canto mirando aqueles grandes olhos claros — considerem as preces atendidas.

Gritos histéricos femininos, graves masculinos e assobios eram capazes de ensurdecer de tão altos. A atmosfera do local era totalmente erótica. Aquele flerte descarado estava deixando todos na expectativa, até mesmo as três amigas vibraram entusiasmadas.

A coelha em questão estava estática, com o rosto inteiramente rubro e desacreditada de protagonizar aquele disparate. Desviou o olhar dos olhos escuros que não a deixavam por nenhum instante e mirou as três sonsas que assentiram repetidas vezes em incentivo. A raposa-vermelha sibilou um “…continue sendo irresponsável.”. A leoa um “Aproveite!” e a arara-azul um “Coragem, amiga!”.

Fechando os olhos fortemente, respirou fundo para acalmar o coração que batia frenético e desgovernado contra o peito. Aquilo era definitivamente uma loucura sem tamanho. O tipo de coisa que jamais em sua vida faria: deixar um estranho tocar seu corpo de forma tão íntima com direito a espectadores.

Levou as duas mãos ao rosto e as escorregou até que somente os olhos ficassem à mostra quando os abriu. Tinha que esconder a vermelhidão certa das bochechas porque saiu de casa prometendo a si mesma deixar-se levar por uma noite e cumpriria! Se chegou até ali, poderia ir um pouco mais longe, certo?

Assentiu duas vezes e deixou as mãos desabarem ao lado do corpo mordendo o lábio inferior de nervosismo.

A gritaria foi geral, até mesmo as amigas comemoraram em um abraço coletivo com direito a pulinhos.

Colocar aquilo em prática, no entanto, se tornou uma tarefa difícil, não por falta de colaboração, mas porque as expectativas eram absurdamente altas e todos estavam eufóricos.

Tão logo a comemoração acabou e a leoa e a raposa-vermelha começaram a organizar a logística, o público fez tudo o que foi pedido: se sentaram novamente e ficaram em silêncio, para que o DJ conseguisse criar um clima estratégico com músicas selecionadas especialmente para esquentar as coisas.

A coelha foi orientada a se deitar e o falcão rapidamente se colocou ao seu lado, estendendo sua mão num convite para deixá-lo ajudá-la e mesmo que em seu interior ouvisse a racionalidade gritar para desistir e sair correndo, lhe estendeu a mão com timidez e se deixou ser guiada.

Puxando-a com lentidão e controle, o falcão enlaçou a cintura fina com o braço esquerdo, ainda mantendo a mão dela sobre a sua direita. Os rostos estavam próximos demais, a ponto de as duas respirações pesadas e superficiais se misturarem. Ele tinha o rosto abaixado, pois era bons centímetros mais alto e ela tinha o rosto erguido. Os olhos escuros e claros presos curiosamente um no outro. Os narizes roçaram e os dois pares de olhos desviaram-se para os lábios. Os dele finos e bem desenhados, os dela mais cheios e delicados.

O falcão engoliu a seco hipnotizado, a coelha mordeu o canto do lábio inferior tentada.

Os olhos escuros subiram para os olhos claros, sendo prontamente correspondido.

Num movimento friamente calculado, curvou o tronco feminino para trás com o próprio, obrigando-a a ceder ao braço forte que a mantinha equilibrada.

Ela levou a outra mão à nuca dele, segurando-se firme sem machucá-lo e ele continuou a curvando até que tivesse que se ajoelhar para pousá-la no chão. Quando a deitou inteiramente, deu um último aperto no corpo curvalíneo, antes de retirar cuidadosamente o braço. Arrastou a mão pelas costas sentindo a textura diferente – parecia ser um cordão entrelaçado – até a lateral da cintura e deixou um aperto intenso ali, percebendo o quão perfeito era o encaixe de sua grande mão naquela área sinuosa.

A coelha tirou a mão da dele, apenas para tirar uma mecha do cabelo negro mediano da frente dos olhos escuros incrivelmente profundos. A máscara no topo de sua cabeça falhou como uma tiara improvisada em prender todos os fios e ela não poderia achar mais charmoso o resultado.

Sorrindo de canto, o falcão abaixou o rosto até a própria boca alcançar a orelha de sua vítima, sussurrando-lhe grave e rouco:

— Considere isso um pedido de desculpas.

A coelha franziu as sobrancelhas róseas e virou o rosto um pouco para o lado procurando o dele. Quando o falcão se afastou para olhá-la, numa distância mínima, sorriu de canto vendo-a expressar confusão pelos olhos claros e só naquele instante conseguiu ver que cor eles carregavam: verde. Um verde forte e brilhante que os faziam parecer duas verdadeiras pedras esmeraldas polidas.

Então a lembrança bagunçada pelo álcool veio à coelha como um tiro certeiro: o cara emburrado do sofá.

— É você… — balbuciou, incerta, vendo-o assentir calmamente, ainda mantenho o pequeno sorriso fechado.

— Vou te compensar pela grosseria de mais cedo.

As bochechas dela voltaram a adquirir a coloração rubra pelo embaraço de ouvir aquela frase ambígua.

— N-Não foi nada… não precisa…

Oh, eu preciso sim. — ele roçou o nariz no dela num movimento inconsciente, mergulhando naquelas águas verdes com olhos semicerrados — Não sabe o quanto eu preciso.

Ela arfou sob a hipnose daquela voz grave e rouca.

Os olhos dele caíram para os lábios dela e quando resolveu ceder à vontade absurda de prová-los ouviu um pigarro atrás de si, que o trouxe para a realidade: eles não estavam sozinhos e nem em um ambiente privado, estavam na droga de um palco com um público silencioso demais para ser lembrado quando estava perdido na própria redoma erótica que criou.

Definitivamente a caça virou o caçador e o tiro saiu pela culatra.

Endireitou-se ainda ajoelhado e olhou para trás, vendo a de vermelho com um largo sorriso lhe encarar:

— Kanpai? — perguntou no microfone, estendendo uma garrafa que pegou prontamente.

Tirou a tampa com a boca olhando para sua vítima e soprou-a para o lado, sem tirar os olhos dela. Ergueu a garrafa, olhando para o público e focou numa figura particular: a raposa raivosa com cenho franzido e bico infantil contrariado.

— Kanpai. — brindou no microfone que foi lhe estendido, encarando o melhor amigo e maior rival mordido de frustração.

Esperou o microfone ser afastado e trocou a garrafa de mão, para a esquerda. Com a direita, ergueu a coxa para dobrá-la, posicionando-a na dobra de trás do joelho e a deixando lá com uma carícia sugestiva. Procurou o rosto da coelha com um sorriso de canto perverso, apenas para ter certeza de que ela estava certa de que ele poderia fazer aquilo.

Percebendo a espera por sua autorização, a mulher sorriu de canto também e assentiu mordendo o canto do lábio inferior em expectativa.

Satisfeito, o falcão virou o rosto para o outro lado, focando o olhar naquela perna maravilhosa conforme derramava do alto o líquido na altura da coxa protegida pela meia arrastão. Deixou a bebida cair sobre a parte coberta e também a parte nua e não hesitou em se curvar para frente para tocá-la com a língua.

A primeira lambida foi sobre a meia. Ele conseguiu sentir perfeitamente a pele, depois um fio, depois a pele de novo e o fio e no meio disso o sabor alcoólico. Repetiu o ato, lambendo com lentidão para apreciar o máximo possível da sensação da pele aquecida e arrepiada em contato com sua língua.

Ao fundo ouviu gritos histéricos femininos e a música com batidas lentas e sensuais, mas não se concentrou em nada além da mulher em suas mãos.

Largou a garrafa ao lado e pousou a mão sobre o interno da coxa, um pouco abaixo de onde lambia e consequentemente perto da virilha. Conforme lambia, deixava sugestivas carícias com os polegares de ambas as mãos.

Desceu as lambidas para a pele nua. De olhos fechados venerou com a língua o sabor da pele macia misturado à bebida que ainda escorria por onde não havia alcançado.

A coelha tinha consciência da pele arrepiada e teve que se apoiar nos cotovelos para não perder aquela cena maravilhosa: um belo homem lambendo sua coxa como um gatinho lambia uma tigela de leite.

E o que era para ser adorável, foi profanado por pura perversão. Era sensual, envolvente, quente.

Engoliu a seco quando ele alterou o ângulo do rosto, virando-o o quanto pôde em sua direção, abrindo os olhos e a encarando enquanto continuava passando a língua lentamente por sua pele exposta expressando satisfação pelo olhar que transbordava luxúria.

Aquilo era intensamente excitante.

Ele deu uma última lambida longa e se endireitou pegando a garrafa, mas sem desviar o olhar dela.

Os gritos e assobios vieram, mas o falcão não se dispersou, derramou do alto a bebida na altura da barriga definida e olhou naquela direção, observando o líquido se empoçar no umbigo fundo mal escondido pela renda transparente da fantasia.

Pegou-se sorrindo em expectativa. Fazer aquilo seria interessante.

Deixou a garrafa de lado e segurou a cintura fina com ambas as mãos, curvando-se para frente. Primeiro foi direto à poça no umbigo, sugando o líquido. Não satisfeito, tentou transpassar o tecido com a língua, deixando um rastro de saliva naquele meio beijo molhado. O tecido atrapalhava, mas vez ou outra, quando forçava a língua, conseguia encostá-la na pele e toda vez que isso acontecia, sentia a barriga ora enrijecer, ora contrair.

Olhou para cima, vendo-a observá-lo com grandes olhos curiosos, mordendo o nó do dedo indicador com um ar inocente.

E ele estava corrompendo aquela inocência.

Oh, por ela iria para o inferno com prazer por cometer aquele pecado.

Ergueu levemente a cintura forçando a língua contra o umbigo mais uma vez, vendo o pequeno corpo em suas mãos estremecer e ela arquear as costas ao mesmo tempo que fechava os olhos e jogava a cabeça para trás. Continuou fazendo aquilo consciente de que lhe dava prazer e a assistiu desistir de se manter sobre os cotovelos para voltar a apoiar as costas no chão.

Deixou o umbigo e deu uma lambida molhada atrás da outra por toda a barriga lisa e definida, infelizmente sobre a renda.

Não sabia nada daquela mulher, mas tinha certeza que praticava exercícios, porque tinha o corpo inteiramente definido.

Sentiu-a se contorcer quando mordeu de leve a lateral na altura da cintura. Ousou mais um pouco e chupou a área de leve, sem deixar marca. O resultado foi outro estremecer. Repetiu o ato até não ter uma gota de álcool disponível.

Endireitou-se lambendo o lábio inferior ouvindo gritos e assobios outra vez, entretanto sua atenção continuava naquele pecado em forma humana que lentamente abria os olhos e procurava os seus.

Perguntava-se se ela estava ciente de que o prendia cada vez mais em seus encantos só com aquele olhar.

Com o semblante tenso de desejo, o falcão se curvou sobre ela, encaixando o braço sob ela e espalmando a mão próximo da nuca, puxando-a para si e, consequentemente, sentando-a. Ele sentia as pernas dela sobre a própria direita e o bumbum roçando a pelve dele, assim como os seios protegidos pelo decote contra o peito dele.

As bocas estavam a dois dedos de distância mais uma vez.

Aquilo poderia facilmente ser considerado uma tortura.

A coelha arfou com o movimento abrupto e por reflexo segurou o braço forte que a mantinha naquela posição e levou a outra mão na nuca dele, deixando o polegar acariciar o maxilar viril. Observou o rosto aristocrático, a expressão estóica e, acima de tudo, o olhar que contrariava qualquer impassividade e explicitava todo o desejo que sentia.

Que homem mais…

O falcão virou o rosto para o lado, pegou a garrafa e derramou sobre o colo feminino ao afastar-se o mínimo possível. Viu fascinado o líquido escorrer pela pele arrepiada até o vale dos seios. Instintivamente lambeu o lábio inferior.

A garrafa foi deixada de lado e a mão que a segurava pousou na cintura fina, não demorando para cair de boca naquele monte macio e atrativo.

Ela arfou forte sentindo-o sugar a pele junto do líquido entre os seios. Um calor irradiou daquela área por todo o corpo, causando um espasmo involuntário no baixo-ventre.

Jogou a cabeça para trás e enfiou os dedos entre os fios médios, puxando-os de leve quando a língua dele invadiu a fenda dando lambidas lentas e longas.

O prazer que estava sentindo era surreal, talvez pela tensão sexual estar alta.

As mãos dele apertaram a nuca longa e a cintura. Outro arfar escapou pelos lábios femininos.

O falcão sentiu uma fisgada no próprio sexo em resposta a reação dela e por instinto procurou contato, friccionando-se no bumbum dela. Ela não o repeliu, muito pelo contrário, rebolou como pôde para senti-lo ainda mais, tirando um grunhido grave dele.

A boca e a língua não pararam por nenhum instante, sempre lambendo, mordendo de leve, chupando sem deixar marcas, beijava aquele vale como se beijasse a boca dela e aquele desejo se tornava cada vez mais irrefreável.

Duvidava muito que lhe restaria alguma sanidade ou bom senso até o fim daquela “brincadeira”.

Com a respiração irregular e pesada pelo enorme sacrifício de tentar se manter são, afastou-se da pele deixando um último beijo molhado na parte descoberta do vale direito do seio.

A coelha abaixou o rosto para olhá-lo nos olhos ao mesmo passo que ele ergueu minimamente o dele. Ela tinha as bochechas adoravelmente rubras e um pequeno sorriso tímido e ele o cabelo negro bagunçado entre os dedos femininos e a máscara no topo da cabeça quase escorregando para trás.

O homem austero desceu os olhos para o pescoço nu fino e longo. Era possível ver a pulsação acelerada tamborilando em sua lateral.

Engoliu a seco, sentindo-se ansioso por estar perto do lugar que mais desejava “brincar”. Subiu o olhar para a boca levemente entreaberta e depois para os olhos claros.

Insinuando um sorriso, pegou a garrafa e ergueu. A essa altura, sua concentração era tanta na mulher aos seus cuidados que nada mais lhe importava; nem os gritos, nem os assobios, nem os olhares concentrados neles, nem o fato de fazer aquilo em público, nem mesmo o frio na barriga que jamais sentiu nem fazendo coisas mais explícitas entre quatro paredes.

Com a mão que ainda estava na nuca, empurrou gentilmente com os dedos o pescoço para o lado direito, tombando a cabeça para ter livre acesso ao lado esquerdo, onde derramou o líquido.

Rapidamente se aproximou colocando a língua para fora e lambeu lentamente da clavícula magra até o lóbulo da pequena orelha, sentindo-a estremecer e ouvindo claramente o arfar dela.

O corpo dela o correspondia muito bem. Não demorou a sentir os próprios cabelos serem levemente puxados e a cabeça empurrada para frente no incentivo de continuar, o que não protestou.

Voltou a lambê-la com luxúria, sentindo fisgadas em seu próprio sexo, provando que estava excitado tanto quanto estava concentrado em excitá-la. Guiado pela necessidade de senti-la ainda mais, mesclou as lambidas com beijos molhados abaixo da orelha e arrastou a boca para a curva entre o pescoço e o ombro e, por fim, ao fim do ombro, sentindo o cheiro instigante e suave dela. Refez o caminho de volta e só deixou a mão esquerda da nuca dela para pegar a garrafa da outra mão, deixando uma última lambida longa daquele lado.

Com a mão desocupada, alcançou a nuca para continuar dando-a apoio para se manter sentada e tombou um pouco o próprio tronco para se focar no outro lado do pescoço dela, derramando o líquido para fazer o mesmo ritual ali.

Lambidas longas e lentas, beijos molhados, chupões na medida certa entre prazer e discrição, tendo como resposta leve puxões nos cabelos e arfares sôfregos.

Ele estava longe de estar satisfeito, não queria apenas arfares, queria gemidos, queria ouvir seu nome saindo daqueles lábios convidativos como uma súplica;

Queria mais do que cobri-la com sua boca e língua;

Queria mais do corpo dela do que tinha acesso ali;

Queria mais das sensações que ela o proporcionava apenas por correspondê-lo;

Queria tê-la. Nua, entregue e inteira.

Lambeu o lóbulo da orelha, deixando uma mordida sutil no local e finalizando num puxão com os dentes.

Arrastou o rosto roçando no rosto dela até que os narizes se encontrassem. Subiu o olhar embriagado de luxúria ao dela, encontrando aquelas jóias esmeraldas tão embriagadas quanto. As pálpebras semicerradas lhe davam um vislumbre do desejo e o olhar determinado e ferino só reafirmava isso.

A coelha engoliu a seco diante daquele olhar obscuro e inclinou um pouco o rosto para o lado, roçando os lábios nos dele. Sentiu a respiração pesada dele contra a própria e um calafrio percorrer a espinha em expectativa.

Os dois estavam quase entregues. Quase cedendo ao desejo insano. Quase se beijando…

Mas a onda de gritos e assobios recomeçou extravagante, tirando-os daquela hipnose mútua.

Um pigarro forçado foi ouvido amplificado pelo microfone e os dois desviaram o olhar para cima, ao lado deles.

A raposa-vermelha sorriu largo com malícia encarando a coelha atordoada com bochechas rubras e o falcão desnorteado com o cenho franzido.

— Acho que o prêmio já foi devidamente entregue, não? — a malícia no sorriso transpassou facilmente o tom de voz na frase sugestiva e isso não passou despercebido pelo falcão, que subitamente ficou aborrecido por ser interrompido quando estava muito perto de conseguir o prêmio maior.

Prêmio que deveria ser dela, mas que ele estava preparado para tirar proveito sem remorso.

Inferno.

A contragosto se afastou da coelha que ainda estava entre seus braços e se levantou, ajudando-a a levantar em seguida. Os olhos escuros visualizaram por inteiro a figura constrangida a sua frente. Os locais em que derramou a bebida deixavam a fantasia branca ainda mais transparente, principalmente em locais inapropriados como uma parte do decote, a barriga inteira e no limite inferior do collant.

Estreitou os olhos com uma constatação nada agradável: exposta demais para os abutres que ainda gritavam alucinados ao fundo.

Jamais a deixaria à mercê do desejo alheio.

Instintivamente começou a desabotoar botão por botão da camisa social de mangas longas que usava e quando aberta, tirou-a sem hesitação, cobrindo-a como se fosse o mais valioso protetor que pudesse disponibilizar.

Sob os gritos histéricos femininos, a coelha abriu a boca e arregalou os olhos em descrença sentindo o tecido da camisa roçar os ombros. Ainda o assistiu fechar o máximo possível a abertura que ficou na frente com o semblante sério e cenho franzido. Buscou os olhos escuros e quando ele também a encarou encontrou intensidade, desejo controlado e uma promessa implícita de continuarem o que quer que tivessem começado depois.

— Bom… — a de vermelho disse arrastado, obtendo a atenção de todos — agora que temos nossa coelhinha recompensada, vamos para a despedida porque nós também merecemos uma recompensa e a nossa será beber até não aguentarmos mais! — gritos ecoaram e ela sorriu satisfeita, chamando com a mão desocupada as outras garotas e o convidado — Despeçam-se, gente!

A leoa tomou a frente com um grande sorriso — Amei nosso joguinho, queridinhos! Vocês são um público maravilhoso! Beijinhos! — distribuiu beijos por todos os lados ao som da histeria do público.

Colocando o microfone em frente da boca da arara-azul ao seu lado, observou-a ruborizar suavemente antes de se pronunciar:

— Obrigada pela gentileza de nos proporcionar tanto divertimento, pessoal!

Mais gritos.

Quando foi a vez da coelha, a raposa-vermelha se pôs ao seu lado com um sorriso matreiro:

— O que tem a nos dizer, querida?

Entranhando, a mulher franziu o cenho róseo e em seguida sentiu as bochechas arderem quando entendeu a ambiguidade da frase. Respirou fundo para acalmar o coração e forçou um sorriso encarando aquela outra sonsa pervertida com sua melhor cara lavada, mesmo sabendo que o rosto deveria estar vermelho:

— Obrigada por cuidarem bem de mim.

— Cuidarem muito bem de você, não é mesmo? O falcãozinho que o diga!

A coelha engasgou com o disparate, o falcão puxou o canto dos lábios e o público riu e gritou.

— E quanto a você, querido? O que tem a dizer? — estendeu o microfone para ele sorrindo.

O falcão curvou-se um pouco para frente para aproximar a boca do aparelho:

— Obrigado por terem sido generosos comigo. — foi ovacionado e quando a raposa-vermelha pretendia tirar o microfone, lembrou-se de que restava uma última coisa que ainda tinha pendente fazer pela aposta que perdeu, então aproveitou a oportunidade para o fazer em grande estilo — Posso dizer mais uma coisa? — a mulher surpreendida assentiu e posicionou melhor o microfone à frente da boca dele, permitindo-o se endireitar — Eu perdi, admito. — começou, mirando a raposa que expressou uma careta abismada engraçada — Parabéns pelo contrato, Naruto… mas devo avisar que vou desapontá-lo, porque eu realmente não me sinto um perdedor hoje. — no meio da justificativa mirou a coelha esboçando um sorriso de canto, recebendo como recompensa um sorriso tímido e bochechas rubras.

A gritaria que se sucedeu foi ensurdecedor, porque estava explícito o motivo, por isso todos encaravam a coelha que não sabia como lidar com tanta atenção.

Para o público, o que assistiram era melhor do que as novelas: a mocinha que era uma perfeita mistura entre o puro e pervertido ganhando a atenção do cara sexy introspectivo e carrancudo. Depois de tudo, era impossível não criar expectativas de ver como aquele romance casual se desenvolveria. Terminariam o que começaram no palco em um lugar mais reservado depois? Como seria no dia seguinte? Voltariam a se encontrar para se conhecerem melhor? Ficariam juntos como um casal de verdade? Ou aquela experiência se resumiria em uma noite de sexo casual?

Para os interessados em cada um individualmente, torciam para que não houvesse uma continuação para aquele projeto de casal, por isso grupos femininos e masculinos seguiram para a lateral do palco por onde a coelha e o falcão se dirigia para descer juntos das outras três depois de se despedirem mais uma vez, dando por encerrado o show espontâneo.

A coelha sentia a tensão sexual elevada entre ela e o falcão que andava calmamente atrás de si com as duas mãos dentro dos bolsos da calça. Ele parecia despreocupado, a face nula de expressão, mas o olhar… sentia o olhar dele sobre si. Experimentou olhá-lo de esguelha quando alcançou a ponta lateral do palco e ele parou ao seu lado e confirmou o que achava: ele realmente a olhava e de maneira ainda mais intensa do que imaginou.

— Coelhinha! Coelhinha, aqui! Eu te ajudo! — um grito masculino roubou sua atenção e os olhos verdes encontraram um cara com as mãos estendidas ao alto para ajudá-la a descer, já que não havia nenhuma escada para facilitar.

— Não, aqui! Eu que te ajudo! — outro cara gritou, fazendo-a olhá-lo também.

E então mais mãos se ergueram em sua direção, deixando-a confusa sobre o que fazer.

— Pelo visto não te falta príncipes para salvá-la, donzela. — a leoa debochou com um risinho e aceitou a ajuda de um dos caras que também lhe ofereceram uma “mão”.

— Não demore para escolher um, está bem? Temos que ir para o bar logo. — comentou despreocupada a raposa-vermelha, lhe dando uma cotovelada amistosa antes de descer aceitando a ajuda de alguém também.

A coelha suspirou e levou um susto quando recebeu um beijo na bochecha da arara-azul, sobressaltando-se.

— Sei que não está acostumada com isso, mas se deixe aproveitar hoje. Você vai ver como coisas incríveis podem acontecer quando você se permite.

Assentiu para a amiga, realmente considerando aquelas palavras. Era uma mulher tão centrada, tão responsável, que mesmo quando teve sucesso em suas primeiras conquistas não se permitiu sair da linha uma única vez. Suas prioridades eram outras: ser a melhor nos estudos para obter o melhor trabalho, o melhor de uma vida estável e dentro de sua zona de conforto onde nada sairia do controle.

Ela conseguiu vencer a primeira etapa. Se formou como a melhor da turma e obteve a única vaga de cirurgiã traumatologista que foi aberta no melhor hospital da região nos últimos dez anos, depois de concorrer com centenas de candidatos e realizar as mais difíceis etapas do processo seletivo. A vida estável e dentro de sua zona de conforto viria como consequência a partir dali, não havia com o que se preocupar. Por isso prometeu a si mesma e às amigas que se permitira viver o que nunca viveu até ali e que impediria sua obsessão por controle de assumir as rédeas daquele dia.

Expressando um sorriso sincero com o rumo satisfatório de suas conclusões, estendeu a mão para aceitar a ajuda sem realmente selecionar de quem ela viria. Não havia nada demais naquilo, era só por um momento despretensioso.

Antes que sua pequena mão alcançasse a de um cara que sorriu em expectativa por ver seu aceite, alguém passou em sua frente, fazendo-a recuar a mão por reflexo. Observou o falcão descer do palco com um salto friamente calculado a frente do cara que pretendia ajudá-la, forçando-o a se afastar para não ser atropelado rudemente.

Observando atentamente a cena que se desenrolou entre a coelha e as amigas, o falcão achou interessante o que foi dito, mas logo se alarmou quando viu que sua vítima estava realmente cogitando seguir os conselhos recebidos, aceitando a ajuda de um qualquer quando ele estava bem ali, ao lado dela, oferecendo o mesmo. Por um segundo perguntou-se se estava sendo sutil demais, visto que ela nem o considerou como uma opção – mesmo que fosse para algo banal como aceitar ajuda para descer do palco –, mas logou tomou a atitude que a situação exigia: se colocou a frente dela e novamente se mostrou ser uma opção para fazer o que ela quisesse.

Ele estendeu as mãos para ela, ouvindo o cara atrás de si xingá-lo de coisas que ele não se importou o suficiente para prestar a atenção.

Surpreendida, a coelha olhou para suas mãos, estendendo a pequena em um aceite, que ele não demorou a capturar e puxar com cuidado para aproximá-la mais até que suas duas mãos alcançassem a cintura fina.

Ela arfou sentindo as mãos dele apertando-a e puxando-a para si. Colocou as duas mãos nos ombros largos tensos quando foi levantada e engoliu a seco quando os dois corpos estavam colados a tal ponto que, conforme escorregava para baixo ainda sob o aperto das mãos dele, os rostos se aproximaram ficando a centímetros de distância mais uma vez.

E lá estava as expectativas e os desejos borbulhando sob a pele como lava de um vulcão em erupção.

— O-Obrigada… — balbuciou atordoada com aquela aura sedutora que emanava dele.

Ele puxou o canto dos lábios observando as bochechas tingirem-se gradualmente de um rubro gracioso e os olhos verdes brilhantes desviarem-se para o lado numa tentativa de fugir do olhar dele. Aquela tiara com grandes orelhas brancas, os cabelos róseos, a expressão constrangida e o olhar tímido a deixavam tão adorável que ele sentiu algo diferente do que estava acostumado, tão diferente que não sabia identificar o que era. Era mais sutil do que atração física. Mais envolvedora do que apenas tesão e mais puro do que qualquer coisa remotamente parecido ao que sentia momentos antes.

“Fofa.” seria o adjetivo que usaria para descrevê-la, mas não ousaria proferir aquilo, principalmente por nunca ter atribuído aquela palavra a nenhuma outra pessoa antes, aliás, a coisa nenhuma.

— Não por isso. — respondeu depois de instantes apenas a admirando — Acho melhor vestir direito, senão não vai conseguir se mover. — aconselhou, apontando com a cabeça para a camisa sobre os ombros.

Percebendo só naquele instante que ainda estava com a camisa dele, tirou-a e lhe estendeu.

— Ah, não precisa se preocupar. Obrigada pelo empréstimo, mas pode pegar.

Ele negou com a cabeça e só pegou a peça para vesti-la direito no pequeno corpo, esperando-a passar os braços pelas mangas pacientemente e quando estava devidamente vestida, observou com satisfação o quão sexy ela ficava com a camisa dele e que aquela meia arrastão 7/8 com renda davam um charme a mais.

Engolindo a seco, o falcão começou a dobrar as mangas grandes demais para os braços curtos, afinal, ele era bem maior que ela.

— E então? Como estou? — ela gracejou, dando uma voltinha quando terminou de dobrar as mangas até os cotovelos dela. Aquele movimento passou em câmera lenta diante dos olhos escuros, aquelas pernas maravilhosas… roubou toda a atenção dele por um instante — Aceitável?

Ergueu o olhar para o semblante curioso — Adorável.

Dando uma risadinha, ela se aproximou e ficou nas pontas dos pés para obter a altura que o salto não conseguiu para alcançar a bochecha do falcão, deixando um beijo demorado, mas sem qualquer malícia.

Certamente se fosse em outra situação e em outro local não seria tão ousada, mas depois de tudo o que fizeram, o que era um beijo na bochecha em agradecimento?

— Obrigada. Quando for embora, me procure para pegá-la de volta.

Quando fez menção de se afastar, ele a segurou pela cintura, mantendo-a perto.

— Posso procurá-la, mas não pela camisa. — sussurrou no ouvido dela, sentindo-a estremecer.

Permitiu-se sorrir por um momento ao sentir a mão dela arrastar pelo braço esquerdo e pousar em sua nuca, adentrando os dedos em seus cabelos escuros.

— Hum… — suspirou, fazendo uma sugestiva carícia entre aqueles fios macios — então por quê?

Um sorriso malicioso delineou os próprios lábios e ele se afastou para olhá-la nos olhos.

E não era preciso dizer nada para que ela soubesse a resposta. Aquele sorriso e olhar obscuro respondiam tudo.

Engolindo a seco, ela assentiu num acordo implícito de se verem mais tarde e quando estava prestes a combinar um horário, o falcão grunhiu fechando os olhos com força ao ouvir um “Bastardo!” ser berrado atrás de si, não demorando para vir também um puxão pelo pescoço que o obrigou a soltar a coelha para não desequilibrá-la ou machucá-la com o movimento brusco do imbecil do amigo que o virou para ele.

— Seu arrogante filho da puta! — o berro continuou e o falcão empurrou a raposa para se livrar daquela intimidade inexistente que o outro insistia em ter — Eu fechei o contrato milionário que ‘tava no seu colo! Tem que se sentir perdedor sim, desgraçado!

Bufou irritado e apenas deu de ombros realmente desinteressado em qualquer que fosse aquela ladainha. Olhou para trás procurando a coelha, mas a viu cercada pelas amigas e por homens que a bajulavam.

— ‘Tá procurando o quê, Sasuke? Olha ‘pra mim enquanto falo com você, bastardo de merda!

— Não enche, idiota. — resmungou, mas virou-se para o dito cujo que abriu aquela boca e não fechou mais, reclamando coisas que ele fazia questão de ignorar.

Revirou os olhos depois de cinco minutos fingindo prestar a atenção e virou a cabeça para trás para ver o que a coelha estava fazendo, vendo-a conversar com as pessoas ao seu redor esbanjando um sorriso encantador. Ela começou a se afastar com as amigas, despedindo-se dos demais e percebeu que estavam indo na direção do bar do outro lado do salão. Então se lembrou que as amigas dela estavam animadas para beber e decidiu deixá-la se divertir antes de se aproximar novamente.

— Ei, — ouviu alguém chamá-lo e virou o rosto para o outro lado, vendo um homem extremamente pálido com um sorriso falso lhe fitando — sou Sai, o dono da festa, e vi que emprestou sua camisa para a coelhinha… tem outra camisa disponível ou quer uma emprestada?

Franziu o cenho olhando para o próprio peito nu, só se lembrando daquele pequeno detalhe naquele momento.

— Ah, então você é o dono da festa? Sou Uzumaki Naruto, prazer. — a raposa estendeu a mão em um cumprimento formal sendo correspondido — Festa irada, hein, a melhor que já fui até agora!

— Obrigado. — o homem o mediu com curiosidade — Devo concluir que é um penetra?

Os quatro idiotas que chegaram em algum momento riram absurdamente ao ver a raposa constrangida coçando a cabeça.

— Bem, não é bem assim… a amiga da minha prima foi convidada e-… — suando ele tentou se explicar, no entanto suspirou aliviado quando o anfitrião acenou para que parasse.

— Tudo bem, eu realmente não me importo. — respondeu polido e olhou para o falcão, que assistia a cena quieto — E então? Tem outra camisa ou quer uma emprestada?

Amaldiçoou sua impulsividade e se sentiu um estúpido por não ter pensado no que fazer depois de emprestar a única camisa que tinha. Se tivesse vindo de carro, certamente teria uma troca emergencial no banco de trás, mas logo naquela noite deixou-se ser arrastado para um táxi com mais cinco caras idiotas já que pretendiam beber até perder a consciência. Era o fim da picada.

E então um flash com a imagem da coelha com a roupa transparente em lugares inapropriados por causa do jogo pervertido que ele fez substituiu qualquer coisa que sentia por orgulho de si mesmo por tê-la emprestado a camisa.

Foda-se se ele não tinha outra, ao menos ela estava protegida dos abutres.

Assentiu para si mesmo satisfeito com o ato heroico.

— Vem, eu te empresto. — o anfitrião, fantasiado de caçador, chamou, esperando-o se mover para seguir o caminho, o que logo o fez aproveitando para agradecer também — Não precisa agradecer. Digamos que estou agradecendo pela gentileza que fez pela coelhinha.

Franzindo o cenho, o falcão continuou o seguindo e depois de muitos esbarrões e paradas forçadas para cumprimentos entre o anfitrião e os convidados e de se livrar de mulheres que o agarravam sem sua autorização, chegaram na lateral do ambiente onde tinha uma escada de acesso para o segundo andar.

Ali o movimento era nulo e o som estava significativamente mais baixo, permitindo uma conversa civilizada. E mais uma vez, se deixou ser levado pela impulsividade:

— A coelhinha… você a conhece? — fechou os olhos constrangido assim que proferiu a pergunta que estava engasgada desde a segunda vez que o ouviu falar dela.

Não era de seu feitio ser curioso, menos ainda de demonstrar essa curiosidade nas raras vezes em que o era, mas foi inevitável. Se tinha um concorrente em potencial, tinha que sondá-lo e conhecê-lo para saber o quanto de dor de cabeça teria para eliminá-lo.

Ouviu um riso contido e abriu os olhos.

O caçador olhou para trás por um instante, sem cessar os passos:

— Não do jeito que você está imaginando. — respondeu com humor e um sorriso fechado — Ela é amiga da minha caça, então tenho obrigação de cuidar dela e ser agradecido a quem o fizer em meu lugar.

Assentiu, engolindo com dificuldade a saliva e o constrangimento de julgar erroneamente a situação. Desviou o olhar para a parede, umedecendo os lábios para criar coragem de desfazer a tensão pelo mal entendido.

— Sua caça… qual delas é?

O homem virou o corredor e entrou em outro, parando em frente a terceira porta antes de abri-la.

— A leoa. — sorriu diferentemente desta vez, algo mais sincero — Mas como já deve ter percebido, ela é uma caça bastante… trabalhosa.

Assentiu, lembrando-se dela aos beijos com a raposa-vermelha e depois flertando com todos os caras que a estavam rondando.

Entrou no cômodo depois do caçador, percebendo se tratar de um quarto espaçoso e muito bem organizado de tons escuros com poucos móveis.

— Boa sorte.

— Desejo o mesmo para você. — estendeu duas camisas em sua direção, como se analisasse os tamanhos delas comparados ao tronco dele — Seu porte é mais robusto, mas acredito que servirá. — entregou a camisa azul-marinho e pegou, vestindo-a enquanto o via fechar o armário e olhar algo no celular — Você tem um desafio e tanto agora. Depois daquele show, a coelhinha virou objeto de desejo de quase todos os meus convidados.

Sorriu com escárnio e se concentrou em abotoar os botões para dissipar a raiva prévia pela concorrência.

Ele não passou por tudo aquilo para perder para outro.

Perder de novo para outro. Não naquele dia.

Era um Uchiha, afinal. Uma perda por década era suficiente.

Tão logo ficou pronto, desceram e se separaram no caminho. O caçador foi chamado por um grupo de artistas que tinha acabado de chegar e ele, bem, ele passava os olhos afiados pelo salão em busca daquelas orelhas brancas de coelho e cabelos de coloração peculiar, encontrando-a sentada num banquinho alto apoiando o cotovelo no balcão do bar. As amigas estavam a sua volta e os abutres também.

Bufou, se dirigindo ao bar, mas a uma distância considerável para não ser visto. No meio do caminho encontrou os quatro idiotas e a raposa conversando algo animado à beira do balcão e se aproximou.

— Vejam se não é o stripper da casa! — revirou os olhos para o comentário da raposa — O Sai te pagou bem pela rapidinha?

— Cale-se, idiota. — resmungou, acenando para o barman e pedindo uma cerveja.

— Ei, Sasuke… como foi cair de boca naquela coelhinha safada? — o idiota 2 perguntou com a sobrancelha arqueada sugestivamente e isso só o fez revirar os olhos.

O idiota 4 riu — Não diga que vai guardar segredo! Fala aí, cara! A pele dela é macia? É cheirosa? Eu gamo numa ‘mina cheirosa.

O falcão riu irônico, sentindo uma veia pulsar na testa e o veneno escorrer pelo canto da boca.

— Como se um cachorro como você tivesse alguma chance de sequer se aproximar de uma mulher como ela. — passou os olhos rapidamente pela calça jeans, camisa cinza, máscara da fuça de alguma raça de cachorro e tiara com orelhas de cachorro — Eu diria que sim, ela é muito cheirosa, mas acho que saber disso te deixará ainda mais frustrado, huh?

Não era daquele dia o estresse que rolava entre os dois. O idiota 4 era o típico cara grotesco que adorava expor as mulheres com quem ficava e fazer comentários machistas que sempre o irritou. Sempre foi neutro, mas já estava na hora de destilar um pouco daquela irritação acumulada.

— Calma aí, Kiba. — a raposa o segurou quando ameaçou voar para cima dele.

— Você é insuportável, cara! Eu vou tirar essa sua arrogância na porrada!

Deu de ombros — Claro, tente.

— Cale a boca você também, Sasuke! Mas que porra! — a raposa teve que segurar o cachorro mais uma vez. Nisso, os outros três idiotas já estavam gargalhando, o que deixou o nervosinho ainda mais estressado — Sério, Kiba, chega! Eu não sou babá de ninguém pra ficar protegendo!

— Protegendo o senhor arrogante ali, só se for.

— Protegendo você, idiota! — retrucou irritado e o falcão riu irônico mais uma vez — Esse bastardo é bom de briga, vai por mim, você não vai querer irritá-lo.

Se perguntando o porquê de a raposa não seguir o próprio conselho em vez de testar a paciência dele sempre que tinha a oportunidade, pegou a cerveja que foi servida tomando um generoso gole.

A conversa masculina começou e este foi o momento em que se desligou do que tinha ao redor, focando o olhar na coelha há alguma distância rindo e conversando animada com os demais. Bebeu mais um gole e enfiou a outra mão no bolso da calça, percebendo o quão grande ficou sua camisa naquele corpo miúdo, parecia mais um vestido – isso lhe tirou um sorriso de canto inconsciente –, subiu o olhar quando percebeu se demorar nas pernas roliças e chegou na cintura fina escondida pelo tecido solto. Tombou um pouco a cabeça para o lado apreciando a visão e subiu um pouco mais, chegando nos fios compridos, quase no meio das costas.

Bebeu mais um gole, lembrando-se de que teve aquele corpo em suas mãos. E não demorou a lembrar-se também das pequenas mãos em seu cabelo e braço, apertando-o e puxando-o para si com uma urgência que o instigou mais. Então, a lembrança lhe remeteu a outros detalhes: da respiração irregular contra seu ouvido, dos arfares e de como quis, mais do que nunca, descobrir como seria um gemido dela.

Optou por pedir uma bebida mais forte para se distrair daquelas lembranças antes que sentisse um volume inapropriado entre as pernas. Se recusava a passar por esse constrangimento mais uma vez.

Há alguns metros dali, a coelha sorria para algo que um dos caras que se aproximaram assim que ela e as amigas chegaram disse. Não prestava realmente a atenção, não conseguia, não quando o calor das mãos do falcão ainda estavam frescas na memória. Ainda era possível sentir perfeitamente todos os lugares que ele a tocou, com as mãos e com a língua. Sentiu as bochechas esquentando e se desviou daqueles pensamentos agarrando-se ao presente.

Levantou o olhar deparando-se com outro cara lhe encarando fixamente. As bochechas que já estavam aquecidas passaram a queimar, irradiando o calor por todo o rosto.

— Desculpe, disse alguma coisa? — perguntou com um sorriso constrangido, xingando-se mentalmente por não prestar a atenção no que acontecia à sua volta.

— Não, ainda não, — ele riu, estendendo a mão — sou Kanashiro Isao. — plantou um beijo entre os nós dos dedos femininos quando ela estendeu a mão — E você?

Ela engoliu a seco diante do tom galanteador e pigarrou com desconcerto — C-Coelha. Coelha é suficiente por hoje.

— Oh, está mesmo imersa na temática, não? — brincou ele, segurando a mão dela com um carinho forçado que a fez recuar a mão falhando em se soltar, pois apertou-a para que não escapasse — Então me chame de lince. — ele deu um passo para frente, encurralando-a contra o balcão com um sorriso que falhou em ser sedutor — Sabia que linces comem coelhinhas indefesas?

Ela puxou a mão com brusquidão da dele e desceu do banco para ganhar algum distanciamento, indignada com a ambiguidade utilizada.

— Na verdade, linces se alimentam de lebres e não coelhinhas, — corrigiu-o agradecendo por ter um sobrinho que a obrigava a assistir com ele Animal Planet sempre que a via — e se não se importa, vou ao banheiro.

Distanciou-se dali assim que avisou as amigas e praticamente correu para o andar superior, onde a leoa disse que ficava um banheiro privativo que estaria limpinho – informação que nem imaginava como ela tinha conseguido e evitava pensar sobre.

A todo instante olhava para trás com receio de ser seguida por aquele abusado fora da caixinha, afinal, não estava pronta para ser tão irresponsável assim para dar trela para aquele tipo.

Quando estava dando graças aos céus por enxergar a escada, sentiu alguém segurar seu pulso, não com força, nem com brusquidão, mas o contato inesperado e a sensação de ter sido perseguida pelo abusado fora da caixinha a fez puxar o braço com violência e se virar com sua melhor expressão ameaçadora.

— Eu não sou uma porcaria de lebre pra ser comida! — esbravejou, levando a mão na boca assim que viu que não era um lince e sim um falcão com a expressão confusa a encarando que estava ali — D-Desculpe, eu… e-eu não quis-…

— … “para ser comida”? — ele arqueou a sobrancelha e arfou um riso gutural — Que história é essa?

Passando a mão no rosto em desconcerto, desviou o olhar para um grupo gargalhando e falando alto antes de mirá-lo.

— Uma péssima cantada de muito mal gosto… — riu sem graça — Desculpe, eu achei-… bom, você sabe.

— Sim, que fosse ele. Por isso estava fugindo? — ela assentiu envergonhada — Você estava até pálida.

— É porque a situação estava assustadora. — brincou e tirou uma mecha do cabelo róseo do rosto num gesto delicado aos olhos do falcão — Bom… eu preciso — apontou para a escada atrás de si com o polegar — ir ao banheiro então…

Ele assentiu — Vou ficar aqui e garantir que nenhum cara vai te perseguir até lá.

— Não precisa, pode voltar para lá. — acenou em despedida e subiu alguns degraus. Estranhou não ver a figura alta passar por si para se retirar, por isso olhou para trás, vendo-o observá-la com as duas mãos nos bolsos da calça — Não vai… voltar pra festa?

Ele negou, mas não fez a mínima menção de justificar, mesmo que ela tenha esperado.

— Está bem… bom, já volto então. — se apressou a subir e sair dali.

Mesmo tendo feito tudo o que precisava – xixi, banho improvisado de papel higiênico úmido de água e depois seco e claro, desembaraçar e pentear aquilo que deveria ser seu cabelo – mas que mais parecia concentração de ninhos de passarinho –, a coelha não conseguia sair. Com o olhar perdido no próprio reflexo do grande espelho sobre a luxuosa pia de mármore, mordia o lábio inferior com nervosismo.

Estava ciente de que concordou por livre e espontânea vontade encontrar o falcão mais tarde, mas estava sóbria o bastante para a velha racionalidade alertá-la de que aquilo seria um erro; de que não era mulher de se entregar para um estranho, de ter certas intimidades ou, até mesmo em caso extremo, de fazer sexo casual.

Não era virgem há bons anos, mas tinha princípios, como seguir a regra dos três encontros ou ao menos de se entregar a alguém que conheça pelo menos o caráter; se era um homem ou um moleque.

E no caso, a relação prematura não se enquadrava em nenhuma daquelas alternativas.

Deus do céu, começou a hiperventilar e dessa vez foi por ansiedade que já entrou em ação.

Hipoteticamente, se cedesse e o encontrasse, ficariam – óbvio – e, com toda a certeza, a coisa esquentaria – tudo bem, mais óbvio ainda, já que em cima de um palco tendo um público espectador aquilo aconteceu facilmente – e aí, o que aconteceria? Ele pediria para irem para um lugar mais reservado? Ou ela que deveria pedir? E para onde iriam? Motel?

Sentiu as bochechas aquecerem violentamente e se olhou no reflexo. Estava com as bochechas rubras, o rosto chamando mais a atenção do que o incomum cabelo róseo.

Praguejou percebendo que nunca tinha ido para um motel na vida. Geralmente em seus relacionamentos anteriores era levada para hospedarias, apartamentos dos seus parceiros ou para o próprio apartamento, mas não estava tão louca ao ponto de levar um estranho para seu apartamento, principalmente porque pretendia nunca mais vê-lo na vida depois de-…

O pensamento foi interrompido com uma forte mordida no interior da bochecha. O sabor metálico a alertou que exagerou na intensidade usada, mas isso não tomou sua atenção por muito tempo.

— Calma… hoje você é a coelha e não Haruno Sakura. Chega de paranoia! — disse para si mesma dando tapinhas nas próprias bochechas como forma de incentivo. Soltou um muxoxo inconformado ao sentir o coração acelerado — Você é patética, Sakura. Já passou por esse processo duas vezes hoje, por que sempre volta atrás?

Escondeu o rosto com as duas mãos e se sentou na privada com a tampa fechada. As pernas se entregaram ao tique nervoso e já sentia o pânico à espreita.

Inspirou o ar com força ao abaixar as mãos e abrir os olhos determinada.

A coelha bebeu irresponsavelmente, também dançou mesmo não sabendo dançar, fez body shot nos seios de uma das melhores amigas e permitiu que um estranho fizesse em várias partes comprometedoras do seu corpo. Qual o problema de continuar aquela loucura? Já tinha feito muitas coisas que a farão se arrepender no dia seguinte, por que não fazer mais algumas?

Levantou-se num rompante corajoso e voltou para frente do espelho, mirando os olhos esverdeados com determinação:

— Eu consigo, Shannaro!

Movendo a cabeça freneticamente positivamente, impulsionou-se a abrir aquela porta e a sair com toda a sensualidade que possuía – o que não era muito, em sua humilde opinião –, mas no primeiro passo porta afora trombou em alguma coisa que a fez perder o rebolado.

Mãos fortes a seguraram para que não caísse e ela teve que soprar o cabelo para fora do rosto e ajeitar a tiara que escorregou para ver quem era o responsável pela destruição da sua baixa autoestima.

Ah, qual é? Ela estava desfilando como uma verdadeira diva! Quem foi que acabou com seu grande momento?!

— Você está bem? — o falcão perguntou com o semblante verdadeiramente preocupado e ela assentiu sem conseguir dizer nada, chocada de – pela milésima vez – estar nos braços dele. O sorriso de canto discreto que ele esboçou foi tão charmoso que a mente dela ficou em branco — Parece que hoje estamos conectados.

“… estamos conectados.” repetiu-se em sua mente por um longo tempo.

Ela engoliu a seco e desviou do olhar dele, abaixando a cabeça para ver-se presa entre os braços fortes. Sentindo um reboliço no estômago, apressou-se a se endireitar e se afastar consciente de que, não só as bochechas, mas o rosto inteiro estaria vermelho como um pimentão.

— D-Desculpe-…

— “Desculpe”? Pelo quê? — questionou, achando adorável vê-la desconcertada.

— Por esbarrar em você e… — ela o encarou diretamente — o-obrigada por-… você sabe…

Ele quis rir percebendo uma mania dela: quando estava nervosa, jogava um “você sabe…”, como se aquilo encurtasse uma explicação complexa demais, mas não o fez para não deixá-la ainda mais constrangida, apenas assentiu.

— Você está bem? — confusa, ela assentiu, ele parecia genuinamente preocupado mais uma vez — Você estava pálida e demorou a voltar então tive que vir ver se estava tudo bem.

— Ah… — arqueou as sobrancelhas em compreensão — eu só estava-… — parou abruptamente antes de vocalizar “me convencendo a ser irresponsável de novo” — a fantasia, ela dá trabalho.

O falcão admirou mais uma vez o tom rubro das bochechas, percebendo que ela ficava envergonhada com frequência e mais uma vez a palavra “Fofa” ecoou em sua mente. Sem perceber, esboçou um pequeno sorriso de canto.

— V-vamos voltar? — ela indagou, já andando pelo corredor para incitá-lo a fazer o mesmo.

Aquilo estava ficando constrangedor em níveis irreparáveis.

Ele a seguiu ainda sorrindo e enfiou as duas mãos nos bolsos da calça para se impedir de ceder ao desejo de tocá-la. Quando chegaram na escada, a ultrapassou e ficou a frente para protegê-la durante o percurso dos possíveis esbarrões e qualquer coisa do gênero, recebendo em troca um sorriso agradecido.

Quando perto da roda de amigos em que ela estava antes de sair, virou-se para ela:

— Está entregue. — disse um pouco mais alto, pois o DJ resolveu aumentar o som novamente.

— Obrigada. Foi muito gentil.

Assentindo, o falcão puxou o canto dos lábios — Estarei logo ali se precisar de algo… — apontou na direção que sabia que o grupo com quem chegou ainda estaria — como, por exemplo, tirar caras com “péssimas cantadas de muito mal gosto” de perto de você.

Ela deu uma risadinha — Vou me lembrar disso.

Ele assentiu satisfeito e se retirou.

A coelha ainda ficou algum tempo olhando ele se perder na multidão, antes de se aproximar das amigas, garantindo ficar longe do abusado fora da caixinha que estava do outro lado da rodinha.

— Aquele era o falcão? — a leoa perguntou maliciosamente, vendo-a assentir — E por que deixou ele ir embora? — deu de ombros, sem saber o que responder, pois nem lhe passou pela cabeça pedi-lo para ficar — Ah, pelo amor… gente, alguém sacode essa garota pra ver se ela acorda?!

— O que foi? — a arara-azul perguntou.

— A Sakura chegou com o falcão e o deixou ir embora!

A raposa-vermelha revirou os olhos — Por que não o convidou ‘pra ficar com a gente?

Deu de ombros novamente, sentindo-se uma estúpida por não tê-lo convidado.

O falcão caminhava por entre as pessoas percebendo que o humor melhorou significativamente comparado a como estava quando chegou, mas assim que alcançou o grupo de idiotas sentiu a irritação vir à tona.

— Olha aí ele… — a raposa o puxou pelo pescoço com um sorriso sagaz — marcando território, Sasuke?

Grunhiu e o empurrou para se livrar daquele contato físico desagradável. Era ultrajante como o amigo nunca parava com aquela mania de invadir o espaço dele.

— Claro que estava marcando território, só faltou mijar em torno da garota. — o idiota 2 comentou rindo.

O idiota 3 também riu — Bem que podia nos apresentar para as amigas dela.

O falcão revirou os olhos. Se recusava a dar trela para aqueles dementes.

Alguns minutos se passaram enquanto ele se concentrava na cerveja que pediu ao mesmo passo que os outros conversavam sobre jogos de basquete e mulheres.

— Ei, falcãozinho! — quis revirar os olhos, mas se impediu quando reconheceu aquela voz: era a raposa-vermelha. Olhou naquela direção, vendo a de vermelho se aproximar acenando freneticamente — Então é aqui que se escondeu! — de repente, sentiu-a se agarrar em seu braço e mais do que revirar os olhos, quis rosnar para que o largasse, mas, mais uma vez, se conteve, não por ela, mas por ela ser amiga da coelha e isso significar trazer um recado ou lhe dar alguma dica — Não ligue para a falta de tato da minha amiga coelhinha… ela não está acostumada com essa atmosfera festeira! — assentiu, franzindo o cenho para ver se ela compreendia que não estava nenhum pouco confortável com aquela invasão de espaço — O que acha de se juntar a nós? A coelhinha vai amar sua presença!

Arqueou uma sobrancelha — Ela sabe que veio aqui me chamar?

Rindo sem graça, ajeitou os óculos de grau vermelho que escorregaram — Não exatamente, mas é porque ela está meio ocupada agora. — o falcão continuou em silêncio aguardando a explicação — Ela está neste exato momento massacrando seis caras no jogo do 15.

— Ei, eu conheço esse jogo. É aquele para os bons de memória? — o idiota 3 se intrometeu, recebendo um sorriso arreganhado da mulher.

— Esse mesmo! ‘Tá a fim de ir assistir também? — ela passou os olhos pelo resto da rodinha — Se quiserem, podem vir junto! Quanto mais melhor!

Não sabia como, mas dez minutos depois o falcão, a raposa e os quatro idiotas se juntaram à roda em torno da coelha, que concentrada demais no jogo não percebeu a aproximação de tantas pessoas ao redor.

— Ei, Sasuke… — a raposa berrou em seu ouvido, fazendo-o desviar a atenção da mulher para ele — eu ‘tô afim daquela ‘mina ali. — apontou com a cabeça para a arara-azul do outro lado da roda observando a amiga — Até dancei com ela mais cedo, mas depois nos separamos e ela fez aquele show lá… ‘tô pensando em chegar nela agora.

— E está esperando o quê? — questionou emburrado — Dá o fora daqui logo.

— Sabia que ia me apoiar. Valeu, cara! — recebeu tapas no ombro e revirou os olhos, vendo-o se afastar.

Voltou a assistir ao jogo.

— Cacete! De novo! — um dos seis caras esbravejou, virando um shot de alguma bebida transparente.

— Vocês sabem o que fazer. — a coelha sorriu matreira encarando os outros cinco — Um perde, todos bebem.

O falcão deu alguns passos para o lado, se aproximando do idiota 3.

— Como funciona? — perguntou e o dito cujo o respondeu, embora estivesse com os olhos presos nos caras xingando-se, mas bebendo seus shots.

— Bom, ela ganhou a última rodada, então ela começa. Do 1 ao 15, ela escolhe um número para substituir por uma palavra aleatória que dificulte a memorização e depois faz a contagem o substituindo. Exemplo: ela escolhe o 2 e substitui por “paz”. Então ficaria: 1, paz, 3, 4… até o 15. Aí é a vez da próxima pessoa da roda: a pessoa escolhe o 4 e substitui por “caixa”. Então ficaria: 1, paz, 3, caixa… até o 15. E assim sucessivamente.

Ele franziu o cenho, observando cinco shots cheios em frente a coelha e cinco shots vazios em frente a cada um dos caras.

— Ela ganhou todas até agora? — perguntou abismado.

— É o que parece. — sorrindo, o idiota 3 continuou: — Vai começar outra rodada.

— Ok! Essa é a última, queridinhos… já está ficando entediante ver vocês perderem.

Um dos caras cuspiu no chão e inflou o peito fuzilando a leoa — Isso é sorte! Como eu disse: mulheres são conhecidas por serem belas e não por serem inteligentes ou habilidosas.

A coelha riu alto, claramente debochando, o que o deixou mais irritado:

— Certo, certo… então vamos jogar mais uma rodada para ver se terei sorte pela sexta vez seguida. — ela sorriu e cruzou os braços — E olha que nem estou usando um vocabulário mais complexo para não dificultar ainda mais para vocês.

Outro dos caras se irritou — Você está sóbria! É claro que está em vantagem aqui.

— Ei, essa é sua desculpa para a vergonha que está passando? — a raposa-vermelha bravejou — Vocês estavam tão sóbrios quanto ela nas rodadas anteriores!

— Tudo bem, vamos igualar as coisas, aliás, vou até dar duas vantagens para vocês. — a coelha discursou e em seguida bebeu dose por dose até todos os shots a sua frente estarem vazios — Tomei a mesma quantidade de álcool que vocês, então vamos ver qual será a desculpa. E aí vem a segunda vantagem: podem começar.

O cara 1 não perdeu tempo:

— 3 – eflúvio. 1, 2, eflúvio, 4, 5…

A coelha o emendou:

— 7 – filaucioso. 1, 2, eflúvio, 4, 5, 6, filaucioso, 8…

O cara 2 a seguiu:

— 5 – idiossincrasia. 1, 2, eflúvio, 4, idiossincrasia, 6, filaucioso, 8…

A coelha não perdeu tempo mais uma vez:

— 1 – opróbrio. Opróbrio, 2, eflúvio, 4, idiossincrasia, 6, filaucioso, 8…

O falcão franziu o cenho e voltou a questionar ao idiota 3:

— Não era para ser o outro cara? Para seguir a ordem da roda?

— Parece que são os caras contra ela, então não. — o idiota 3 suspirou admirado — Ela está bem encrencada, mas nem titubeia.

Voltou a prestar a atenção no jogo, percebendo que os caras começaram a responder com maior lentidão e dificuldade. Seis rodadas depois, um dos idiotas se atrapalhou e acabou confundindo a ordem das palavras substitutas, dando a vitória à coelha que graciosamente esticou o braço direito para o lado, pousou a mão esquerda no peito e se curvou numa mesura teatral, sendo prontamente ovacionada.

— Parece que além de bela, posso me considerar “sortuda”, certo? — ela perguntou para os seis que a xingavam logo que a multidão se acalmou. Àquela altura, todos ao redor tinham a atenção presa neles.

— Se você se acha tão inteligente, vamos jogar algo que demande inteligência, então.

— Tudo bem. Vão em frente, escolham. — virou-se para o balcão e chamou o barman, pedindo uma garrafa de água.

A arara-azul interrompeu a conversa com a raposa e se aproximou da coelha — Acho melhor não… você já bebeu demais.

A mulher sorriu com doçura pela preocupação e segurou a mão inquieta da amiga — Não se preocupe… estou me cuidando, ok? E outra, eu não vou perder. Me recuso a cogitar que esses seis são mais inteligentes do que eu. Você não? — a de azul suspirou — É a honra das mulheres que está em jogo. Temos que ser duronas ou não sobreviveremos!

A leoa e a raposa-vermelha estavam em uma discussão calorosa com o seis e, de repente, o anfitrião caçador se aproximou da roda:

— Eu tenho uma sugestão. — disse mais alto depois de acenar para o DJ abaixar o volume do som, ganhando a atenção de todos — Não há jogo que exige mais estratégia e inteligência do que o shogi. Tenho tudo aqui em casa, posso pedir para trazerem se quiserem.

A coelha bebeu da bebida que lhe foi entregue e olhou para os seis que se entreolharam, como se dialogassem por telepatia.

— Vai ser perfeito. Sabe jogar, coelhinha? — um dos caras perguntou com um sorriso maldoso.

— Sei me virar. — ela respondeu dando de ombros com um olhar inocente e um pequeno sorriso ingênuo.

Aquela resposta e expressão… o falcão sabia que ia “dar ruim” para os caras.

Será que eles não viram o quanto aquela coelha enganava? Não era inocente, tampouco ingênua. Era perversa, esperta e tinhosa. Uma verdadeira caixinha de surpresas.

Enquanto todos ajeitavam as coisas para a tão esperada partida de shogi, os seis caras discutiam entre si o que pareciam ser estratégias de jogo e a coelhinha bebia e ria de algo que as amigas lhe diziam. Mais uma prova de que o falcão estava certo: para quem só “sabia se virar”, ela estava calma e despreocupada demais.

A raposa deixou o grupo das meninas e voltou para o próprio grupo, berrando o quanto estava animado para o que estava por vir. Ele sabia de algo, mas o falcão se recusou a perguntar o quê.

Quando alguns funcionários se aproximaram com uma mesa de madeira e duas cadeiras, posicionando-as uma de cada lado da mesa, os oponentes se cumprimentaram formalmente antes de assumir seus lugares: a coelha de costas para o balcão e de frente para todos e o cara no lado oposto.

O falcão deixou o grupo para se aproximar da mesa, posicionando-se atrás do oponente da coelha. Tinha uma boa vista do tabuleiro, então seria possível acompanhar as jogadas de perto e, mais importante, ter uma vista perfeita da mulher com sorriso doce e olhar afiado.

O anfitrião explicou as regras e deu início a partida, permitindo a vantagem ao cara a pedido da coelha.

Cinco jogadas dela foram o suficiente para o cara hesitar ao fazer própria jogada. Ele analisou por um bom tempo o tabuleiro e só depois tomou alguma atitude.

Nesse meio tempo, ela levantou o olhar do oponente e o encontrou, pareceu surpresa por um instante por vê-lo ali e sorriu calorosamente antes de voltar a ficar séria e encarar o oponente mais uma vez.

Mais três jogadas dela resultaram no rosto suado e dedos trêmulos dele. Ela o encurralou com oito jogadas e só um imbecil não entenderia que ela sabia muito mais do que se virar no shogi.

O falcão só tirava os olhos dela para ver qual seria a jogada feita e logo voltava a observá-la minuciosamente. Poucas coisas prendiam a atenção dele na vida: os pais interagindo como um casal – coisa que pouco presenciava pelo pai ser extremamente introspectivo e tradicional –, o irmão lhe contando qualquer bobagem – porque tinha algo na áurea dele que ganhava toda a sua atenção –, gatos fazendo qualquer coisa – era indiferente a humanos, mas os gatos tinham todo o seu apreço – e, por último, mulheres, mas não qualquer uma, tinha que atender alguns requisitos como não ter a voz fina; não ser superficial e, se for, ser do tipo calada, porque ele odiava mulheres fúteis e tagarelas – era uma combinação pavorosa –; não irritá-lo com DR’s; não exigir nada dele e, acima de tudo, não ser grudenta. Tinha arrepios lembrando de todos os relacionamentos fracassados que vivenciou e em como ele se estressou a tal ponto que faziam cerca de três anos que não se relacionava fixamente com ninguém, só cedia ao sexo casual para o próprio bem.

Mas, ali, assistindo aquela coelha jogar com plenitude, graça e gestos delicados, se via totalmente preso. A forma como ela esboçava um discreto sorriso de canto cada vez que o cara jogava, como se ele estivesse fazendo exatamente o que ela queria, ou como ela cruzava o braço esquerdo abaixo dos seios, apoiando o cotovelo direito nele e o queixo no dedo indicador dobrado ao analisar o jogo, ou mesmo como movimentava suas peças levantando-as com os dedos indicador e médio em vez de arrastá-los pelo tabuleiro, pousando a peça com cuidado, como se fosse feito de vidro… aquele todo era fascinante.

Mulheres bonitas lhe excitava, mas percebeu que uma mulher inteligente o excitava ainda mais.

E aquela coelha pertencia aos dois grupos, era uma combinação de arrasar a sanidade dele.

Ela moveu uma peça e cruzou os braços encarando seu oponente com um sorriso fechado arrogante e olhar desafiador:

— Pode pedir ajuda aos seus amigos, se quiser. — gracejou, tirando do homem um rosnado e um aceno para se aproximarem.

Não havia o que ser feito, era uma perda inevitável. A coelha o encurralou por todos os lados e garantiu que não tivesse escapatória.

O burburinho ganhava força conforme os minutos passavam e os caras discutiam entre si com cada vez mais agressividade, talvez por perceberem que naquele ponto a perda era certa.

Ela aguardou pacientemente por mais vinte e sete minutos, quando um dos caras se curvou para um comprimento formal de desistência.

O público explodiu em gritos e assobios ovacionando a coelha invencível.

O anfitrião, no entanto, se aproximou da mulher que apenas sorria e se curvava para a plateia agradecendo e lhe cochichou algo que a fez sorrir largamente, assentindo em seguida.

— Temos nossa Rainha do shogi! — ele disse alto para que todos pudessem ouvir e ergueu a mão dela — Algo a dizer?

— Sim. O machismo não tem mais espaço na sociedade hoje em dia e espero que vocês tenham entendido que uma mulher tem muito mais atributos do que a beleza. Agora podem se desculpar com as minhas amigas. — ela puxou a arara-azul, a leoa e a raposa-vermelha para perto e ficou olhando para o seis.

— Isso é patético! — um dos caras explodiu e saiu dali empurrando todos que estavam em seu caminho.

Os outros cinco não demoraram a segui-lo sem dizer nada, mesmo sendo vaiados.

— Péssimos perdedores, hein! — a leoa gritou e recebeu concordâncias. Virou para a coelha e a abraçou — Viva a nossa coelhinha!

Outra onda de gritos e a comemoração se arrastou por um bom tempo.

O falcão estava visivelmente frustrado. A coelha estava inalcançável, havia gente para todos os lados a bajulando e puxando conversa como se ela fosse uma celebridade e ele admitia que ela realmente o era: uma mulher linda, extremamente sensual sem ser vulgar e forçada, divertida naturalmente, delicada e meiga de um jeito encantador, corajosa e valente e, mais importante, extraordinariamente inteligente. Era um combo realmente raro de se encontrar, principalmente porque era tudo na medida certa.

Sorveu a bebida que um dos idiotas lhe entregou, constatando ser um destilado forte e reprimiu um praguejo, só não sabia se era pelo sabor amargo ou por não encontrar uma brecha para se aproximar daquela mulher.

Se ajeitou no banquinho, virando-se para ficar de frente para o balcão. Era menos deprimente não ver que estava perdendo… e de novo.

A raposa engatou uma conversa arrastada com a arara-azul logo que ela se separou das amigas e naquele momento estava aos beijos com ela;

O idiota 3 estava disputando com o caçador anfitrião a atenção da leoa;

O idiota 2 flertando descaradamente com a raposa-vermelha;

O idiota 1 conversava animadamente com um grupo de três mulheres;

E até o idiota 4 tentava a sorte com uma mulher fantasiada de cachorra.

Qual era o problema do universo naquele dia? O que era aquela perseguição com ele?

Grunhiu, bebendo outro gole e passou os próximos minutos amaldiçoando aquela onda de má sorte que achava que tinha passado quando foi aceito como felizardo daquele body shot.

— Que ilusão. — riu com escárnio e virou o restante da bebida.

— É alucinógeno?

Ele engasgou ao ouvir aquela voz e começou a tossir freneticamente, vendo de esguelha a coelha se aproximar com o semblante sério.

Quando foi que ela escapou daquela gente toda e se espreitou ali?

— Tussa cinco vezes com força. — ela orientou depois de tirar o copo da mão dele e colocar sobre o balcão e bateu as cinco vezes que ele tossiu no meio das costas dele com a palma aberta num movimento rápido. Aquilo funcionou, não tossia mais, embora forçasse pigarros para limpar a garganta arranhada — Muito bem… se sente melhor? — assentiu, massageando o pescoço — Desculpe, eu não quis surpreendê-lo assim.

Ele sorriria para confortá-la da culpa que parecia sentir, mas não havia a mínima chance de sorrir quando se sentia tão patético por aquela cena humilhante.

Pigarreou mais uma vez, para garantir estabilidade nas cordas vocais:

— Tudo bem, estou bem. — garantiu e a viu assentir com as sobrancelhas franzidas e olhar culpado — Sério, estou bem mesmo. E não foi culpa sua. — a viu assentir novamente e desviar o olhar para as pessoas em torno deles. Ele se sentia um idiota por deixá-la daquele jeito, então optou por mudar o rumo das coisas: — O que perguntou quando chegou?

Ela franziu ainda mais o cenho e o olhou como se desculpasse mais uma vez ao respondê-lo.

— Se era alucinógeno… sua bebida. — então foi a vez dele franzir o cenho, não entendendo — Você disse “Que ilusão.”. — ela arqueou as sobrancelhas brevemente — Ai meu Deus… eu quase te matei e você nem entendeu a piada.

Ele não entendeu mesmo, mas sorriu discretamente ao vê-la corar e xingar a si mesma esquecendo que não estava sozinha.

— Aquela partida de shogi… você foi genial. — disse repentinamente, sabendo que não poderia perder a oportunidade de elogiá-la pelo brilhantismo. Inteligência era algo que realmente tinha seu fascínio — Onde aprendeu a jogar?

Olhando-o surpresa, pareceu se recuperar rapidamente presenteando-o com um sorriso doce.

— Meu irmão mais velho… é um jogador profissional. — o orgulho era sólido em sua voz e o sorriso contemplativo — E é uma coisa meio que de família, então ele se responsabilizou em me guiar nesse caminho.

Arqueando a sobrancelha em surpresa, perguntou:

— Você é jogadora profissional?

Ela negou com afinco — Oh, não… sem chance, isso não é para mim. — enrolou uma mecha de seu cabelo róseo no dedo indicador, sorrindo de um jeito que ele julgou triste ao encarar um ponto qualquer no chão — Eu gosto mais de… agir. Digamos que sou a ovelha negra da família.

Mesmo que ela estivesse rindo, o falcão sentia que não era uma risada alegre como as demais, parecia mais… um modo de fugir da tristeza que parecia sentir ao alegar aquilo e ele ficou incomodado, mesmo não a conhecendo direito. Queria saber o motivo daquilo ser triste para ela. Queria saber consolá-la. Queria saber o que fazer para tirá-la daquela redoma depressiva.

— Só um instante, por favor. — pediu repentinamente e virou-se para o balcão — Ei, Aburame-san! Me arranja alguma coisa comestível? Meu estômago está me matando depois de tudo que ingeri hoje!

— Claro. Espere um pouco, vou na cozinha para ver se encontro algo.

— Obrigada! — gritou, vendo-o sair de sua vista.

— Ei, coelhinha… aquilo foi incrível. — um cara apareceu, sorrindo para a mulher — O modo como venceu todos aqueles jogos me deixou impressionado.

— Ah, obrigada… não foi nada demais. — sorriu e o falcão revirou os olhos com impaciência.

Quando conseguiria ficar sozinho com ela por mais de cinco minutos sem ninguém interrompê-los? Ele nem foi capaz de dizer nada para amenizar a tristeza dela!

Nunca se sentiu tão impotente e frustrado por ser como era.

Deixou a autodepreciação de lado quando percebeu que o cara a estava deixando desconfortável com cantadas vulgares. Se aproximou ficando ao lado dela com a melhor cara de poucos amigos que tinha para ver se o inconveniente se tocava e parava de enchê-la, mas não pareceu suficiente, pois o cara continuava a discursar de que ela deveria tirar aquela camisa, pois estava privando o mundo de ver o “corpinho lindo” dela.

Ele revirou os olhos, mas logo teve a atenção voltada para a coelha que se inclinou um pouco na direção dele, virando o rosto e cobrindo parcialmente a boca com uma mão:

— Acho que preciso de uma mãozinha aqui… sabe? Sobre “tirar caras com péssimas cantadas de muito mal gosto de perto de mim”.

Ele sorriu achando graça da careta que ela fez, antes de abaixar a mão rapidamente e olhar para o cara com a melhor cara de paisagem que já viu quando parou de falar subitamente.

— Ah, obrigada. Você é muito… excêntrico.

— Obrigado e você é uma gracinha.

Dava para sentir a irritação dela de onde o falcão estava e ele quis rir do sorriso forçado que ela deu para o outro. Se perguntou se era melhor se intrometer naquele momento ou aguardar ela descontar um pouco a raiva.

— Gracinha de “corpinho lindo”, certo? — a coelha perguntou com falsa paciência.

— Sim, sim… e também a coelhinha mais sexy que já vi na vida. Que tal-…

Aquela era a brecha para o falcão interferir, o cara já estava indo longe demais.

— O cara que foi atrás de algo para você comer está demorando, não acha? Vamos atrás dele. — pousou a mão na base da coluna dela, olhando para o otário que estava com a boca aberta de tão incrédulo pela interrupção — Nos dê licença.

Nem deu tempo para protestos, tirou-a de lá e em certo ponto liderou a caminhada para a direção que viu o barman ir, pegando a mão dela no processo.

A coelha intercalava o olhar entre as costas largas e a grande mão segurando a própria firmemente enquanto andavam.

Seu estômago embrulhou e ela não sabia dizer se era pelo excesso de álcool ingerido ou por nervosismo. Tudo bem que foi ela que tomou a iniciativa de procurá-lo depois da partida de shogi, mas agiu por impulso. Por todo o tempo sentiu o olhar dele sobre si e, de repente, não sentia mais e isso a fez procurá-lo, afinal, que tipo de irresponsável ela seria se deixasse um homem como aquele escapar por medo das consequências?

Não tinha muita experiência com sexo casual, mas levando em conta todas as experiências das amigas, julgava que aquelas preliminares tinham se estendido demais. Lembrava vagamente de comentarem que o processo era o seguinte: flerte descarado, uns beijinhos, um “no motel, na sua casa ou na minha?” e o “finalmente”. Por que ela não conseguiu sair do flerte descarado ainda? Aliás, eles nem estavam flertando tão descaradamente assim.

Franziu o cenho pensando por outro ângulo: será que o falcão era tão inexperiente em sexo casual quanto ela?

Rapidamente descartou o pensamento, óbvio que não. O homem era lindo, poderia ter a mulher que quisesse, aparentemente estava solteiro – visto que flertou com ela depois de fazer body shot nela – e parecia ser do tipo que não perdia tempo.

Então talvez fosse a inexperiência dela dificultando as coisas?

Repassou em mente se alguma vez deu a entender que não estava inclinada àquilo, mas não encontrou. Bem, a não ser quando não o chamou para ficar depois que ele a acompanhou até o grupo quando voltou do banheiro.

Isso foi o suficiente para a paranoia ganhar voz em sua mente nublada pelos shots de tequila que tomou no jogo do 15 para igualar a situação com os oponentes.

Será possível que ele entendeu a falta do convite para ficar como uma rejeição?

Ele passou todo o tempo que jogou a observando, isso era uma clara demonstração de interesse, certo?

Mordeu o lábio inferior imaginando o tamanho do arrependimento que sentiria no dia seguinte se não trocasse pelo menos uns beijos com ele.

— Ei, conseguiu achar alguma coisa para ela comer? — o falcão perguntou e só então ela levantou a cabeça e viu o barman na frente dele.

— Só achei essas entradas. — o Aburame estendeu uma bandeja desculpando-se pelo olhar com um sorriso constrangido e o falcão o pegou com a mão livre, segurando para sua acompanhante — Desculpe, mas o buffet finalizou o serviço há algum tempo.

— Tudo bem. Muito obrigada, Aburame-san.

Ele assentiu e se despediu voltando para seu posto no balcão.

— Quer voltar para onde estávamos para você poder se sentar? — o falcão perguntou, virando-se para olhá-la, mas não soltou a pequena mão.

— Nem pensar… vai que aquele cara esteja lá ainda? — ela riu, vendo-o assentir. Puxou a mão que estava unida à dele com sutileza e se serviu, mastigando com hesitação quando sentiu um sabor que a assustou quando reconheceu. Pegou um guardanapo de papel que estava sobre a bandeja e cobriu a boca, tomando cuidado para não mastigar mais — Isso por acaso é raiz forte?

Ele franziu o cenho e experimentou um.

— Sim. Por quê?

Ela cuspiu na hora, pegando outro guardanapo de papel para enrolar aquele veneno junto de sua saliva. Pegou outro guardanapo e limpou a boca, procurando um lixo próximo. Foi até lá e voltou fitando a expressão confusa do falcão.

— Sou alérgica a raiz forte. Ainda bem que não estou embriagada o bastante para não reconhecer o sabor.

— Engoliu alguma coisa? Precisa de remédio?

— Não… assim que mastiguei e identifiquei o sabor evitei engolir. — suspirou, olhando para os lados e pensando no que fazer para resolver aquele problema.

Ela concordou em ser irresponsável, mas isso não significava que judiaria do seu corpo com efeitos colaterais de excesso de álcool e estômago vazio, até porque, que tipo de médica ela era para não evitar aquilo?

— Podemos sair daqui e comer alguma coisa. Deve haver algum lugar aberto a essa hora. — ele sugeriu, arriscando-se.

O falcão já considerava a aposta muito bem paga e só continuava naquela festa por causa dela, então não hesitaria em ir embora se ela concordasse.

Ela o olhou sem conseguir disfarçar a surpresa.

Oh… — respondeu imediatamente — não precisa ir comigo. Fique e aproveite a festa.

— Não continuo aqui por causa da festa. — ela engatou a respiração e não demorou para sentir as bochechas aquecerem. Era desconcertante ele ser tão direto. O falcão sorriu de canto satisfeito por vê-la assentir e novamente pegou a mão dela, entrelaçando os dedos — Quer avisar suas amigas?

— Sim, também preciso pegar minha bolsa.

— Tudo bem. Vamos lá.

Logo estavam em movimento, voltando para a roda de amigos. No caminho, entregou a bandeja com as entradas restantes para um grupo qualquer e quando perto do destino, a coelha se separou dele avisando que já voltaria e ele aproveitou para procurar o amigo com os olhos para avisá-lo que partiria também. Como não o encontrou, pegou o celular e mandou uma mensagem.

Estou indo.

E, por incrível que pudesse parecer, a resposta não demorou a vir:

Mas já? Fala sério, Sasuke!

Curte aí, mano!

Revirou os olhos.

A aposta está paga e tenho mais o que fazer.

 

Descolou uma mina, não é, garanhão?

Quem é? A coelhinha?

 

Não é da sua conta. Flw.

O falcão ignorou as duas notificações de mensagens do perdedor e abriu o aplicativo para pedir um táxi, intercalando a atenção com a busca rápida por algum restaurante aberto naquela hora.

Esperou pacientemente pela coelha e teve que conter o sorriso que queria se formar a qualquer custo ao sentir novamente a mesma coisa que sentiu quando admitiu para todos daquela festa que perdeu para o amigo: que estava longe de se sentir um perdedor, principalmente por estar prestes a sair de lá acompanhado pela mulher mais incrível da festa.


Notas Finais


Playlist: https://www.youtube.com/playlist?list=PLD4t2CPEK9Ke5QGnFAXpgE0AgimEg1AYn

Aqui vai mais uma vez curiosidades dos personagens e algumas traduções:

Nesses três primeiros capítulos será frequente o uso dos substantivos: felizardo e vítima. Se refere ao nome que se dá aos jogadores de body shot. Felizardo para quem faz e vítima para quem recebe.
O realizador da festa – já sabíamos do capítulo passado que era o Sai e agora sabemos que a fantasia dele era de caçador, o que é bem autoexplicativo: sim, foi proposital porque na cabeça dele ele usaria aquela festa para caçar a leoa!
Coelha – Sakura.
Leoa – Ino.
Arara-azul – Hinata.
Raposa-vermelha – Karin.
Falcão – Sasuke.
Raposa – Naruto.
Idiota 1 – Lee.
Idiota 2 – Suigetsu.
Idiota 3 – Shikamaru.
Idiota 4 – Kiba.
Barman/Aburame/Aburame-san – Shino.
Os seis caras que jogaram Shogi contra a Sakura e o Jogo dos 15 eram figurantes quaisquer, por isso nem me dei o trabalho de detalhar muito.
Jogo dos 15 – é um jogo alcoólico e acho que deu pra entender como funciona pela explicação do Shikamaru, certo? É um jogo muito louco e tende a ficar ainda mais no decorrer das rodadas porque o povo fica muito bêbado conforme perdem kkkkk
Ah, um detalhe muito importante: logo depois de a Sakura aceitar jogar outro jogo depois do jogo dos 15, Hinata se mostra preocupada com ela e diz que já bebeu demais, por isso não achava uma boa ideia ela aceitar, então Sakura afirma que está bem e está se cuidando E ISSO É MUITO IMPORTANTE, porque não é uma mentira. Lição de vida: se vai para um rolê com a intenção de encher a cara mesmo, esteja ciente das consequências. Não é legal perder a cabeça a ponto de fazer merda e vomitar até as tripas, por isso sejam precavidas(os) como a Sakura. No início do capítulo ela já bebe bastante e logo depois no jogo dos 15 mais um pouco, mas ela tomou cuidados nesse intervalo, sendo estes: não misturar destilados com fermentados, se hidratar muito bebendo água ou água de coco, sempre que puder comer alguma coisa salgada para manter a pressão estabilizada e algo doce para manter a glicose no sangue, isso adia um pouco a sensação de embriaguez mesmo que continue bebendo. Como médica, Sakura tomou todos esses cuidados, por isso mesmo bebendo cinco shots seguidos de tequila (coisa que não é nem de longe acostumada) ela não ficou bêbada a ponto de fazer merda (afirmo isso baseada em fatos reais kkk).
Shogi – é muito próximo do xadrez ocidental, mas é uma versão oriental muito mais complexa. Desde muito tempo os militares de altas patentes tinham como teste uma partida de Shogi, porque é um jogo inteiramente estratégico e que demanda inteligência em seu auge. (Isso é um pequeno spoiler). Kkkk
Entradas – referem-se aos canapés. Mesmo no Japão é muito comum festas de luxo adotarem o menu ocidental, ou seja, disponibilizar entrada, prato principal e sobremesa, principalmente artistas porque não se limitam apenas à cultura do país residente.

E, mais importante, sigam o exemplo dos nossos personagens e SE BEBER, NÃO DIRIJA! Usem táxi ou uber! (outra curiosidade: existe uber no Japão, galera! Se forem para lá, já sabem! Só não esqueçam de um detalhe: uber lá é sinônimo de carro de luxo, então é bem mais caro do que o táxi comum).
Ahhh e mais uma coisa: não se esqueçam que mesmo na atualidade o Japão mantém o machismo à risca, por isso mostro tantos personagens machistas aqui. Não vou generalizar, não são todas as famílias que seguem esse regimento, mas a grande maioria sim. Devem estar se perguntando o porquê de eu falar disso, não é? Bom… é um pequeno spoiler! Guardem essa informação para um futuro não muito distante! Kkkkk

É isso! Espero que tenham gostado e ficado ansiosos para ver o próximo, afinal, se esse foi o ritual de acasalamento, o que vem depois? Kkkkkkkk
Coitooooooo!!! Amém, senhor!

PRÓXIMO CAPÍTULO: O acasalamento.
DATA DE POSTAGEM: 09/06/2021 – Quarta-feira.

Até a próxima!*~


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...