História A confusão do meu coração - Capítulo 40


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Escola, Lesbicas, Orientadora, Professora
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Palavras 4.700
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Orange, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Estupro, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Eu deveria escrever uma fanfic só de desculpas que dou pelos meus atrasos. De verdade, eu não sei o que tô fazendo com a minha vida. Me perdoem e não desistam de mim, por favoooooor!

Capítulo 40 - Reviravoltas na partida


O céu do fim da tarde estava meio róseo. Sinal de que provavelmente choveria de noite e que essa chuva seria excelente para eu me enfiar debaixo do cobertor e assistir algum filme na televisão do quarto. Claro que antes eu teria uma breve discussão com a Malu para escolher o filme e acabaríamos por concordar em assistir nenhum. Quase sempre era assim. Mas isso não era ruim, a gente ficava sentada uma perto da outra falando sobre o dia e outros assuntos.

Jennifer não conversou muito comigo pela metade no caminho, ela parecia muito tranquila e com os pensamentos distantes. Só que toda a sua calmaria me assustava, algo em mim me dizia que ela não deveria ser assim e que a minha presença fazia alguma diferença.

Dobramos a rua seguinte e demos de cara com a praça. Encontramos também duas garotas ao longe que eu não demorei em reconhecer. As duas de cabelos castanho — uma tinha o cabelo mais claro —, a mais velha tinha pele cor de chocolate e acompanhava uma menina centímetros mais baixa com olhos que reluziam com o escurecer daquele dia.

— Ué, aquelas não são Camila e Maria Luísa? — perguntou Jennifer transformando em palavras meus pensamentos.

— Sim, inconfundíveis — afirmei apressando o passo para alcançá-las. Vinham cada uma com uma conduzindo uma bicicleta, mas sem estar sobre ela. Conversavam empolgadas e eu queria muito saber qual era o assunto que as deixava tão entretidas.

Maria Luísa me enxergou primeiro, cutucou Camila que mirou a mim e a Jennifer. Dei um aceno e finalmente nos aproximamos.

— Ora, ora, se não é uma surpresa — eu disse. — Agora estão combinando passeios e nem me chamam?

— Nem a mim! — Jennifer protestou.

— Ah, nem vem reclamar — Malu girou o pedal da minha bicicleta com um dos pés —, você também estava com companhia. — Indicou Jennifer. — Eu não queria ficar sozinha então convidei a Camila para dar uma volta de bicicleta e, como sempre, peguei a sua.

— Parece que todo mundo nessa cidade sabe andar de bicicleta, menos eu! — reclamei.

— Um dia você chega lá.

— Ah, que breve conversa maravilhosa, mas eu realmente preciso ir pra casa — Jennifer nos cortou.

— Verdade, nós estudamos muito hoje, você deve descansar —falei mostrando solidariedade. Jennifer me abraçou e em seguida Maria Luísa.

— A gente tem o mesmo caminho — disse a Camila. — Podemos ir juntas?

— Claro, por que não? — Camila concordou já avançando com a bicicleta. — Tchau pra vocês, nos vemos amanhã na escola.

Maria e eu acenamos. Jennifer seguiu caminho com a Camila.

— Bem, como sempre, sobramos nós duas — eu falei.

— Isso sempre é ótimo. Vai, sobe aí. — Como de costume, Malu era a motorista e eu a garota desastrada que precisa receber carona. Contudo, nem iria reclamar, às vezes minha preguiça me fazia topar qualquer coisa que me poupasse de fazer esforço físico.

Chegamos em casa e eu fiz questão de preparar a janta, o que não deu muito trabalho já que minha prima Giovanna havia deixado quase tudo pronto na geladeira. Luísa me avisou que Gio tinha saído no começo da tarde e provavelmente retornaria tarde da noite. Não sei se foi só impressão, mas minha amiga ficou um pouco estranha ao mencionar o nome da minha prima. Loucura minha, só pode.

Jantamos e durante esse processo um silêncio perturbador se fez por um bom tempo. Maria Luísa só falou quando eu incitei a fala, fora isso, não iniciou nenhuma conversa por vontade própria. Eu percebia certa melancolia no seu rosto, como se estivesse em um conflito mental angustiante; e, por mais que eu quisesse questionar sobre, não sabia se Malu aceitaria bem minhas perguntas. Bem, cada um a seu tempo.

Já no nosso quarto, vendo pela janela a chuva cair, sentada na minha cama observando as gotas baterem com violência no meu rosto — sim, eu estava com a janela aberta porque sou dessas, não daquelas —, senti Maria Luísa se aproximar de mim e me abraçar. Ela se sentou ao meu lado e ficou calada por alguns segundos.

— Fecha isso, tu podes pegar um resfriado com essa chuva — advertiu.

— Eu não ligo — respondi.

— Mas eu sim. — Luísa se levantou e fechou a janela. — Você deveria ter um hobby mais interessante, ver a chuva e pegar vento frio é um pouco arriscado.

— Ah, nossa, que radical eu sou — ironizei. — Super rebelde correndo perigo de vida. — Terminei com um sorriso.

— Raquel, você é louca.

— Sim, eu sei, por isso que ainda estou viva. A loucura tem dessas com a gente, nos faz acreditar que vale a pena insistir na vida e acreditar que bons momentos virão. Faz a gente enxergar o mundo com um filtro diferente, algo até mais colorido. Apesar de tudo, eu me sinto assim.

— A clínica psiquiátrica é aqui perto. — Riu. — Mas fico muito feliz por saber que você se sente assim, mas motivada a viver.

— A morte me odeia.

— E eu odiaria te perder pra ela.

— Caramba, Malu, você é uma poeta.

— No es porque el dolor envuelve mi corazón que voy a sentir que todo lo que siento es vano. El simple hecho de verte sonreír ya es el motivo más grande para no renunciar.

— Deveria se dedicar a isso — sugeri. — Entendi pouca coisa, mas achei lindo.

— Eu disse: não é porque a dor envolve meu coração que eu vá sentir que tudo o que eu sinto é vão. O simples fato de te ver sorrir já é o maior motivo para não desistir.

— De sua autoria?

— Sim, mas não é grande coisa.

— Pra mim é.

Me levantei da cama e liguei a televisão.

— Não — Malu simplesmente disse.

— Não o quê?

— Isso quase nunca dá certo, a gente nunca chega a um consenso sobre o que assistir. Vamos pular essa parte e conversar um pouco.

Desliguei a televisão.

— Tudo bem, então.

Luísa foi para a sua cama e reservou um espaço para mim.

— Ah, tenho que te falar uma coisa — começou. — Meus pais me ligaram nessa tarde quando eu estava no curso de espanhol.

— E aí?

— Foi bom. Não deu pra matar tanto a saudade, mas pelo menos eu sei que eles estão bem e eles sabem que eu também estou legal. — Se calou e me encarou. Eu não disse nada porque sabia que Maria Luísa prosseguiria. — Sabe, Quel, muita coisa mudou na minha vida desde quando eu me mudei pra cá. E eu estou feliz. Feliz por estar do teu lado, por estar estudando o que eu sempre quis e por ter amigas muito legais. Sem contar que ganhei uma família muito atenciosa.

Eu não entendia muito bem por que a conversa já estava iniciando nesse rumo, geralmente Luísa não gostava de se abrir, mesmo que fosse comigo, ela gostava de bancar a forte e isso não a fazia bem muitas vezes. Nos poucos momentos em que eu a escutava falar de si mesma me sentia muito útil, como se meu papel de amiga estivesse se desenvolvendo bem, finalmente.

— Muita coisa mudou também pra mim depois que eu vim morar aqui e me alegra muito saber que você faz parte dessa mudança — declarei. — Eu fico muito feliz por você estar bem, não poderia desejar outra coisa, afinal, você ainda é minha melhor amiga, a mais importante.

— A mais importante... — refletiu. — Isso significa muita coisa?

— Muito mais do que você imagina.

Outra vez o silêncio se fez. Isso não deveria ser tão constante como estava sendo nas últimas horas. O que estava acontecendo? Eu precisava saber.

Antes que eu pudesse finalmente perguntar, Maria Luísa entrelaçou sua mão na minha e fixou o olhar no horizonte. Como sempre seu contato em mim me deixou um pouco nervosa. Gostava dela, muito, mas minha mente confusa não me respondia que tipo de gostar era esse. Não podia negar o intenso desejo que sentia por ela, que adorava sentir seus lábios no meus, mas... que tipo de amor era esse? A via como minha futura namorada? Que tipo de aproximação nossa eu mais prezava?

Novamente minhas perguntas se perdiam na minha cabeça e nada se explicava.

— Você está confusa, certo? — arrisquei uma pergunta.

Maria Luísa se ateve a menear a cabeça.

— Eu também — fui sincera. — Eu te amo, mas...

— Sempre o “mas”. Tudo bem, Raquel, não precisa me dar desculpas, eu já sei de tudo, eu sou sua melhor amiga e isso é o que mais importa. Nas últimas semanas eu andei me perguntando se os seus motivos eram os mesmos que os meus. Afinal, o que eu deveria esperar de você? — Me olhou de volta.

— Eu também não posso responder.

— Empatadas, então?

— Quase sempre.

Ela riu. A gente sempre discutia nossa relação e ficava claro que ambas éramos inseguras para garantir algo. E eu, impulsiva e movida pelas emoções do momento, sempre buscava tocá-la e provocá-la como podia. Maria às vezes cedia e eu perdia o autocontrole por um tempo, era sempre assim. Só não sabia até quando permaneceria com esses joguinhos. Terminaríamos ou na cama ou com a nossa amizade muito abalada. Eu preferia a primeira opção.

Apertei levemente sua mão e me inclinei para beijá-la. O beijo teria se efetuado se a porta do meu quarto não tivesse sido aberta bem na hora em que meu nariz tocou o que Malu.

— Boa noite, primas, cheguei mais cedo. — Era Giovanna e sua voz foi sumindo conforme seus olhos percebiam o que estávamos prestes a fazer.

— Oi, Gio — cumprimentei me afastando rapidamente.

— Boa noite — disse Maria um pouco indiferente.

— Bem, eu não quero ficar aqui atrapalhando vocês, amanhã de manhã eu tenho uma surpresa pra contar. — Apesar de mencionar a palavra surpresa, Giovanna não parecia muito animada de verdade. — Vão descansar.

Saiu logo.

Eu lancei um olhar para Malu e ela me sussurrou um “boa noite” antes de se enrolar no lençol e virar para o outro lado. Ué, será que ela ficou constrangida com o quase flagra? Ou havia outra razão que eu desconhecia para seu desinteresse em prosseguir com o que havíamos começado?

Meu Deus, só tinha gente louca e estranha nessa casa.

— Boa noite, né — falei e fui para a minha cama.

Nessa noite, dormi cedo.

♀♀

Finalmente quarta-feira. Nossa, falando assim até parece que eu estava muito apreensiva para o meio da semana. Até poderia estar se isso não significasse o início dos jogos escolares. Logo no primeiro dia, futebol. E a vontade de jogar, onde fica?

Entretanto, apesar de toda a falta de habilidade e disposição, sabia que estava dando meu melhor e até que meu time conseguiu boas pontuações nas partidas iniciais. Como já era de se esperar, Maria Luísa e Jennifer se destacaram e fizeram a maioria dos gols. A Camila parecia bem empolgada mesmo não sendo tão boa com a bola e havia marcado um gol na última partida. Só eu que sempre atrasava o andamento do time.

Acertava uns passos, fazia uma marcação até boa, mas chegar no ataque... aí já era outra história. A Jennifer me confortou no intervalo dizendo que cada jogador tinha uma habilidade específica e eu era boa em jogar “atrás”. Não discuti, a jogadora 10/10 era ela.

Na quinta também jogamos. Perdemos uma partida, empatamos uma e ganhamos a última. Se nosso time tivesse se desclassificado, a partir da quinta estaríamos livres, mas acabamos sendo classificadas para a final por conta da pontuação na tabela que foi favorável. Eu não entendia nada disso, então só fingi que estava entendendo.

Pra falar a verdade, quando a sexta chegou, durante a preleção da nossa final, eu estava até mais empolgada e determinada. Seria a melhor zagueira daquele campeonato e deixaria minhas amigas e a professora Renata orgulhosas. Essas meninas estavam se dedicando muito comigo, não podia simplesmente decepcioná-las com meu egoísmo.

— Temos chance — Malu, nossa capitã, afirmou quando estávamos no vestiário. — A gente vem treinando há semanas, somos boas com a bola e o outro time estará jogando de igual pra igual.

— Bem... não exatamente — teve que discordar Camila. — O time B do terceiro ano tem um gol de vantagem no marcador.

— Ah, pelo menos você entendeu o porquê disso — eu disse. — Porque eu não faço a menor ideia do motivo da gente entrar em campo já em desvantagem.

— Pontos da tabela — Karen, nossa quinta integrante do time, do segundo ano assim como a Jennifer, explicou como se isso já bastasse. Eu me calei pra não ficar bancando a ignorante por mais tempo.

— Prontas para entrar em campo? — Professora Renata entrou no vestiário para sinalizar que já estava na hora de encarar a quadra mais uma vez.

Minhas amigas assentiram e eu verifiquei meu uniforme no espelho mais próximo. Quem me visse até poderia dizer que eu era uma atleta de muitas qualidades.

— Ei, gata, você tá linda. Agora vamos. — Maria me puxou pela mão para fora.

Uma coisa muito legal nos jogos escolares era que quem gostava estava jogando e não tinha tempo de ir torcer pelos outros times já que também estava em partida e, quem não gostava — lê-se também os alunos do ensino fundamental que não tinham a obrigação de participar para garantir pontos de avaliação — ocupava as arquibancadas e, por mais irônico que pareça, gritavam e berravam em êxtase a cada movimento como se fosse uma partida do Brasil na copa do mundo.

Não tinha nenhum cartaz levantado com o meu nome ou com alguma frase de incentivo do tipo “TIME TERCEIRO ANO A! A DE ARRASA!”, mas eu gostava de ver as crianças reunidas em fileiras horizontais aplaudindo as jogadoras amadoras a cada lance.

Com o apito inicial do jogo desviei a atenção da plateia e foquei na bola. Quando se joga na zaga você torce pra não precisar se concentrar tanto na defesa e somente ajudar o meio de campo a ir pra frente, isso significa que o outro time não está atacando muito. Mas eu não tinha muita sorte mesmo, era cada bolada e ataque que eu recebia que sentia vontade de fechar os olhos, colocar as mãos no rosto e gritar como uma garotinha patética. Porém eu engolia meu temor e encarava de frente as adversárias.

O intervalo veio depois dos primeiros dez minutos. No placar, zero a zero.

— Isso não pode continuar assim — advertiu a Luísa, ofegante depois de correr tanto. — O empate é negativo para nós. Acredito que estamos indo bem, só falta um pouco mais de ousadia no ataque pra finalizarmos com confiança. Certo, Jen?

Jennifer balançou a cabeça com seriedade. Ela estava focada e era nossa artilheira.

— Tenho que pedir desculpas por não estar indo muito bem — Camila se lamentou.

— Nada disso. — Jennifer tocou seu ombro. — Você e a Raquel são exemplos de superação. Há duas semanas mal conseguiam tocar na bola. O fato de estarmos na final já mostra o quão eficiente nós somos.

— Não esquentem, vou segurar a barra toda lá atrás — nossa goleira Karen disse e encerramos a conversa.

Bebemos água e eu ainda consegui me sentar por um minuto. Logo o apito soou e eu me vi perto do círculo central da quadra. Da arquibancada podia escutar os gritos constantes e animados. A torcida ansiava por gols, independente de quem fosse, a partida precisava ser mais emocionante.

Já com a bola rolando, vi Jennifer e Camila numa troca de passes, o outro time roubou a bola, atacou, mas eu e Karen estávamos lá atrás para impedir o gol. Maria Luísa recebia mais na frente, mas falhava ao alcançar a meta. Pelos nove minutos seguidos eu suei tanto a camisa que estava pensando seriamente em fazer algum teste profissional para a seleção.

O último minuto de jogo começou. O time adversário estava tranquilo, afinal, esse empate de zero a zero lhe garantiria a vitória do campeonato de futebol. E tudo o que meu time precisava era de um gol para vencermos. Um gol. Difícil, porém não impossível.

Num ataque que recebi, recuperei a bola para o meu time e vi uma outra garota correr na velocidade da luz bem na minha direção. Com a ousadia que tinha em mim dei um chutão para a frente. A outra deu um esbarrão em mim e, como em câmera lenta, pude ver a Jennifer receber meu passe de maneira desajeitada lá na frente, porém logo se recuperou do susto e contra-atacou. A adrenalina passou um pouco e eu percebi que estava sentindo dor e caída no chão. Esperei por algum apito marcando a falta, mas nada. Tentei levantar, mas não consegui. Karen ainda veio até mim e perguntou se estava tudo bem. Menti e disse para ela não se preocupar, afinal, a partida estava acabando e eu pressentia o gol que a Jen estava para marcar.

Respirei devagar e tentei não focar no meu pé esquerdo que doía. O pior era que eu nem havia visto a face da menina que me deu uma entrada violenta. Estava quase berrando para aquela partida acabar assim que a Jennifer abrisse o marcador e assim me notassem no chão para me levarem à enfermaria.

Maria Luísa corria, Camila também. Jennifer com a bola. Avançou. Driblou. Correu. Ficou cara a cara com a goleira do outro time. Se preparou para chutar. Ela marcaria, com certeza. Só que...

Ela olhou para trás e me viu. Provavelmente eu estava fazendo uma cara de dor que provocou espanto na minha amiga. Durou menos de um segundo, mas para mim, foi como um minuto inteiro. Jennifer abriu a boca, olhou para o árbitro da partida e me apontou o dedo. O homem fez sinal para ela prosseguir, afinal, o jogo estava no fim, que mal faria me deixar caída por mais uns segundos? Jennifer não concluiu seu chute para frente, o fez para o lado direito com violência e a bola estrondou na parede indicando lateral para o time adversário. Os alunos da arquibancada se calaram com o grito de gol entalado na garganta.

Jennifer correu como um foguete até mim.

— Você tá bem, Raquel? — perguntou apressada ao se ajoelhar ao meu lado.

— Tô. — Gemi. O árbitro apitou indicando o final da partida. Perdemos com o empate, garantimos somente o segundo lugar. — Por que não fez o gol?

— Eu...

—Ei, vocês duas, tudo ok? —Maria Luísa se aproximou.

— O que aconteceu, Jennifer? — Karen perguntou.

— Eu não consegui marcar o gol quando vi a Raquel machucada — Jennifer se desculpou. — Perdão, meninas, foi mal. Preferi jogar a bola pra lateral e socorrer ela.

Mesmo com o barulho do outro time comemorando a vitória, para mim, o silêncio falou mais alto. Malu, Camila, Karen e Jennifer não falaram nada e ficaram com o semblante fechado. A professora Renata veio até mim e rapidamente me encaminhou para a enfermaria.

Cansada da partida, bebi água e fiquei deitada encarando meu pé descalço sob uma bolsa de gelo. Ainda doía, mas sabia que não seria permanente. Foi somente uma contusão normal da partida.

Fiquei sozinha por uns quinze minutos e preocupada com a Jennifer. A compreendia no seu ato, ela só estava querendo ajudar, mesmo deixando de ser minha inimiga recentemente, ela já mostrava ser uma boa pessoa e não queria que as meninas ficassem com raiva dela por ter desistido do gol por minha causa.

Camila, Malu e Jennifer apareceram para me ver já no final dos jogos.

— Sei que a culpa é minha — Jen se apressou em dizer logo quando entrou. — Desculpa por não termos ganhado.

—Acha mesmo que a gente tá preocupada com isso? — Maria Luísa perguntou. — Eu no seu lugar teria feito a mesma coisa, acudido a Raquel. Não marcar aquele gol não te mostrou uma jogadora incompetente, mas sim uma amiga de verdade.

— Isso aí, não fica encabulada com coisa que não tem nada a ver — Camila disse. — Ninguém tá chateada contigo.

Jennifer sorriu fraco e segurou minha mão. Me encheram de perguntas sobre eu estar bem ou com muita dor. Eu disse que me sentia legal, só precisaria passar o dia inteiro sentada com uma compressa de gelo que no outro dia estaria 100% de novo.

Como Giovanna estaria em casa pela manhã, Malu ligou para ela vir me buscar, precisaria de mais alguém pra me “carregar”. Giovanna chegou de táxi. Me despedi das minhas amigas e fui embora com minha prima e a Luísa.

— Espero que vocês duas não tenham esquecido do que eu avisei no começo da semana — Gio nos lembrou.

Há poucos dias minha prima, durante o café da manhã, falou que na universidade da cidade ocorreria uma palestra vocacional para os alunos do terceiro ano de todas as escolas da cidade e dos interiores próximos. Minha tia Elizabeth e a Gio acharam que essa era uma oportunidade muito boa para eu e a Maria Luísa decidirmos com consciênca o que cursar no ano seguinte e, se já soubéssemos, como era o caso da Malu, teríamos o momento para tirar dúvidas e saber melhor do que se trata cada graduação.

Maria e eu topamos imediatamente e essa programação seria já nessa noite. Depois do almoço a Giovanna voltaria para a universidade e minha tia a encontraria lá de noite. Eu e minha amiga viajaríamos sozinhas pela primeira vez juntas e as encontraríamos na universidade para assistir à palestra.

— Vamos chegar no horário — garanti.

Chegamos em casa e logo nos preparamos para o almoço. Não sabia ainda o motivo do clima meio tenso entre a Giovanna e a Maria Luísa. Se havia acontecido algo, nenhuma das duas havia me contado. Talvez poderia ser pelo que a Gio quase viu naquela noite em que Malu e eu quase nos beijamos. Não era primeira vez que ela nos flagrava, foi no dia que a Maria confessou gostar de mim. Só que isso explicaria somente o constrangimento momentâneo e não a situação que estava ali. Se Gio estivesse com algum problema ela já teria vindo falar comigo não é mesmo?

Talvez eu perguntasse algo para a Malu mais tarde, mas nem isso seria possível, ela logo se arrumou para ir ao seu curso de espanhol. Eu fiquei sozinha durante a tarde assistindo séries, lendo um livro e, principalmente, atualizando minha caixa de mensagens várias vezes como se isso fosse capaz de fazer brotar uma mensagem da Elisa.

Olha só, outra vez pensando nela. Não deveria, afinal, já fazia tempos que a mais velha não me dava sinal de vida e eu ainda estava toda enrolada com a Maria Luísa. Sei lá o que estava acontecendo com a minha vida amorosa.

A noite caiu e eu já conseguia me levantar com mais facilidade depois de horas colocando gelo no pé. Maria Luísa chegou e disse para eu me arrumar logo pois já iríamos jantar e sair. Eu tomei meu banho e coloquei uma roupa bem agradável para mim: calça jeans escuro, camisa azul de mangas curtas estampada com — adivinhe — uma imagem do pica-pau comendo pipoca quentinha na manteiga. Calcei meu tênis branco na sala e esperei Malu, ela logo desceu já arrumada. Sua calça era azul escuro e sua camisa era mais formal, com mangas compridas, preta, e botões na frente. Ela estava muito bonita.

— Raquel — disse meu nome ao descer as escadas e encarar meu visual. — Nós vamos assistir à uma palestra na universidade e você se veste como se fosse se matricular no ensino fundamental? — Riu. — Adorei a camisa, você é uma fofa.

Descongelamos nossos pratos de comida e o esquentamos no micro-ondas. Jantamos conversando sobre os jogos que acabaram nessa manhã e como foi bem legal participar. Mencionamos também o quanto Jennifer estava realmente mudada e como foi bem intencionada ao deixar de mão o gol da vitória para vir ao meu socorro.

Estávamos tão entretidas conversando que percebemos tarde demais a chuva densa que estava caindo lá fora. Podíamos escutar trovões e isso indicava que a água não cessaria sua queda sobre a cidade tão cedo.

— Desse jeito não vamos conseguir sair daqui — Malu falou olhando pela janela.

— Vamos esperar a chuva passar — disse.

— E se ela não passar?

— A culpa não é nossa.

— A sua prima e sua tia não ficarão chateadas?

— Claro que não, como disse, não foi nossa culpa.

Maria Luísa bufou e se sentou no sofá ligando a televisão e deixando-a no volume zero.

— O que é isso? — perguntei.

— O quê?

— Essa maluquice de ver TV no mudo?

— Ah, eu não sei. Meditação peculiar.

— Meditação peculiar? Maria Luísa, você é uma garota estranha.

— Eu sei. — Sorriu.

Me sentei ao seu lado e tomei o controle remoto da sua mão.

— Vamos assistir ao canal dos desenhos. Você gosta de qual?

— Tanto faz, sei que vamos ver o que você escolher.

— Tá me chamando de dominadora?

— Não falei nada.

— Hum...

Deixei no canal que passava animes, nesse instante, Naruto e assisti calada. Podia sentir a frustração da Maria, a essa hora já deveríamos estar fora de casa, pegando estrada para a cidade. Só que, com o temporal, não tinha como.

Meia hora se passou e nos convencemos de que não daria mesmo para sair naquela noite. Tratei de ligar para a minha tia e a Gio atendeu. A informei da nossa situação e ela disse que na cidade a chuva estava do mesmo jeito e seria mais prudente que Luísa e eu ficássemos em casa mesmo, elas retornariam para casa pela manhã. Desliguei e disse para Malu que teríamos de ficar sozinhas, não dava mesmo para sair.

Maria Luísa teve que aceitar, eu também estava chateada.

— Vamos assistir um filme — sugeri. — Você pode escolher qual.

— Ah, se é só isso que temos pra noite, tudo bem. — Se levantou e ligou o aparelho de DVD, escolheu um filme da prateleira e colocou na televisão.

— Qual é esse? — perguntei.

— O grande truque. Conhece?

— Não.

— Nem eu. Peguei aleatoriamente. Agora faça silêncio que eu quero ver se minha intuição foi boa.

Me calei depois de desligar as luzes. O silêncio se fez, o que se podia ouvir somente era os sons do filme e a chuva do lado de fora. Começou a fazer frio, Maria Luísa colocou os pés no sofá e se aninhou a mim. A abracei de lado e assim ficamos nas primeiras meia hora do filme.

Eu estava achando interessante, a história era de um ilusionista que tinha um truque que todos queriam desvendar o segredo, mas nunca conseguiam. Era um tipo de filme puzzel onde a narrativa não era linear, meio complicado, porém divertido.

Maria Luísa não comentava nada, o que era um pouco estranho já que ela adorava dar palpites sobre todas as tramas dos filmes que víamos juntas. Ela poderia estar com sono, talvez, ou somente bastante entretida.

Minha atenção ora se dispersava para a chuva, ora para a respiração da menina ao meu lado no meu pescoço. Logo me vi presa ao ritmo do ar quente que fazia cócegas em mim. Malu estava tão serena que a olhei por um instante a fim de certificar se ainda estava acordada ou se havia caído no sono. Seus olhos verdes estavam abertos, se cruzaram com o meu e ela sorriu tranquilamente me apertando levemente no abraço.

Meu coração instável bateu mais rápido. Ela estava muito perto de mim, estávamos sozinhas. Socorro.

Ficou claro para mim que Luísa queria me incitar quando seus lábios tocaram meu ombro e me beijaram. Beijou meu pescoço e meu rosto. Suas mãos se encaixaram nas minhas e as senti quentes, o que me confortou naquela noite fria.

— Raquel — ela sussurrou com a boca grudada no meu ouvido. — Eu amo você.

Apertei suas mãos como se isso fosse capaz de controlar em mim o desejo que subiu. Virei meu rosto para si e a observei. No escuro seus olhos quase se confundiam com uma pedra preciosa. A puxei pela cintura para mais perto de mim. Não precisei ter a iniciativa, Maria Luísa me beijou com vontade a ponto de me deixar assustada. Geralmente eu tomava a frente e a dominava. Nessa noite estava sendo diferente, Malu devorou meus lábios com tanto desejo que as pontas dos meus dedos tremeram contra a palma das suas mãos.

Me vi encarando uma prova muito difícil com somente duas alternativas: a primeira era que eu poderia deixar aquele beijo na minha lembrança como mais um entre nós ou transformá-lo num ato muito maior, muito mais significativo e comprometedor. E, enquanto minha mente buscava a razão para responder àquela questão, minhas emoções cediam facilmente aos carinhos da minha melhor amiga.


Notas Finais


Pra você que tá pensando no que quer fazer da vida, pense muito bem antes de seguir a carreira de escritor. Pensa numa ocupação que dá dor de cabeça... meu Deus, teria sido mais fácil cursar medicina.
Eu particularmente não gostei desse capítulo. Se ele estivesse inserido num livro, estaria ótimo, mas não bom para postar num site onde cada capítulo é postado com um espaço de tempo superior a um dia. Só que não dá pra fazer um plot twist do caramba a cada três mil palavras escritas o que com certeza prende bastante o leitor, eu tô acostumada com o estilo livro mesmo, que tu escreves mais de 100k de palavras e 300 páginas pra publicar. Só que esse capítulo e o anterior tiveram de ser assim mesmo, uma espécie de conector, ponte para o próximo que vou escrever. Acho que vocês já receberam emoções demais pra uma história só, se aliviem um pouco.
Bem, sobre eu ter ficado mais de uma semana sem postar, primeiro: trabalho da faculdade que eu terminei em menos de 48 horas, mas passei duas semanas em crise existencial pelo resultado. Segundo: NaNoWriMo. Não vou nem explicar o que é isso senão vou sentar e chorar outra vez. Resumindo, nesse mês de novembro eu tô com uma história recém-nascida para desenvolver e mais capítulos dessa fanfic pra escrever. E, agora que eu voltei a postar, podem esperar uma sessão com capítulos diários sim porque em novembro eu não vejo mais nada além de palavras no notebook.
Tchau.
Quero morrer como sempre.


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