História A Culpa é das Estrelas - Adaptação Paulicia - Capítulo 4


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Categorias A Culpa É Das Estrelas, Carrossel
Personagens Alícia Gusman, Paulo Guerra
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Palavras 1.198
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Adolescente, Hentai, Literatura Feminina, Poesias, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Capítulo Quatro


CAPÍTULO DOIS

 

Paulo Guerra dirigia muito mal. Tanto na freada quanto na arrancada, dava sempre um TRANCO enorme. Eu voava de encontro ao cinto de segurança da caminhonete Toyota toda vez que ele freava, e meu pescoço chicoteava para trás quando o pé ia para o acelerador. Eu deveria estar nervosa — sentada no carro de um estranho, indo para a casa dele, perfeitamente ciente do fato de que meus pulmões de araque iriam dificultar quaisquer esforços para evitar avanços indesejados —, mas ele dirigia tão mal que eu não conseguia pensar em outra coisa. 

Tínhamos percorrido quase uns dois quilômetros em silêncio, ouvindo só os barulhos do carro, quando o Paulo disse: 

— Fui reprovado três vezes no teste de direção. 

— Não diga. 

Ele riu e balançou a cabeça. 

— É que eu não consigo sentir nada com a boa e velha prótese aqui, e não me acostumo a dirigir com o pé esquerdo. Meus médicos disseram que a maioria dos amputados consegue dirigir sem problemas, mas… bem. Não é o meu caso. Aí eu cheguei para o meu quarto teste de direção e ele rolou mais ou menos como agora. — Quase um quilômetro à frente o sinal ficou vermelho. O Paulo pisou fundo no freio, me atirando num abraço triangular com o cinto de segurança. — Foi mal. Juro por Deus que estou tentando fazer tudo devagar. Mas, aí, no fim do teste, eu estava certo de que tinha sido reprovado de novo, e o instrutor disse: “Seu jeito de dirigir é incômodo, mas não é arriscado, tecnicamente falando”. 

— Não sei se concordo com ele — falei. — Acho que foi mais um caso de “privilégio do câncer”. 

Os “privilégios do câncer” são pequenas coisas que as crianças com a doença recebem e as saudáveis, não: bolas de basquete autografadas por ídolos do esporte, perdão pelo atraso na entrega do dever de casa, carteiras de motorista não merecidas etc. 

— É — ele disse. 

O sinal ficou verde. Segurei firme no banco. O Paulo meteu o pé no acelerador. 

— Você sabe que existem controles manuais para pessoas que não podem dirigir usando os pedais? — perguntei. 

— Sei — ele respondeu. — Quem sabe algum dia? 

E suspirou de um jeito que me fez pensar se ele achava que esse algum dia ia chegar. Eu sabia que o osteossarcoma tinha uma probabilidade de cura muito grande, mas, mesmo assim… 

Existem várias maneiras de estabelecer a expectativa de vida aproximada de alguém sem perguntar isso diretamente. Eu fui pela mais tradicional. 

— Então, você estuda? 

Normalmente seus pais tiram você da escola quando já estão esperando que bata as botas. 

— Estudo — ele respondeu. — Na North Central. Mas estou atrasado um ano, dei uma parada no segundo. E você? 

Pensei em mentir. Afinal de contas, ninguém se interessa por um cadáver ambulante. Mas acabei dizendo a verdade. 

— Não. Meus pais me tiraram da escola há três anos. 

— Três anos? — ele perguntou, boquiaberto. 

Contei ao Paulo a versão resumida do meu milagre: diagnosticada com câncer de tireoide em estágio IV aos treze anos. (Não contei que o diagnóstico veio três meses depois da minha primeira menstruação. Tipo: Parabéns! Você já é uma mulher. Agora morra.) E, foi o que nos disseram, era incurável. 

Passei por uma cirurgia chamada dissecação radical do pescoço, tão desagradável quanto o nome. Depois, radioterapia. Aí tentaram quimioterapia para os tumores no pulmão, que diminuíram num primeiro momento, mas cresceram de novo. Nessa época eu já tinha quatorze anos. Meus pulmões começaram a se encher de líquido. Basicamente, eu parecia uma morta-viva — as mãos e os pés inchados como balões, a pele rachada, os lábios sempre roxos. Existe um remédio que faz você não ficar totalmente apavorado pelo fato de não conseguir respirar, e eu tinha uma grande quantidade dele fluindo dentro de mim por um cateter central inserido perifericamente — PICC, para os íntimos — e mais de uma dezena de outros medicamentos. Mesmo assim, a sensação de afogamento é meio desagradável, principalmente quando dura vários meses. Por fim, acabei na UTI com pneumonia, e minha mãe se ajoelhou ao lado do meu leito e perguntou: "Você está pronta, querida?" Eu respondi que estava, e meu pai ficava repetindo que me amava com aquela voz embargada de sempre, e eu dizia que o amava também, e todo mundo de mãos dadas, eu sem conseguir respirar, meus pulmões funcionando no desespero, sem fôlego, me forçando a me ajeitar para tentar achar uma posição que permitisse que ar entrasse, eu constrangida pelo desespero dos meus pulmões, passada por eles não desistirem, simplesmente, e me lembro da minha mãe dizendo que estava tudo bem, que eu estava bem, que eu ficaria bem, e do meu pai fazendo um esforço tão grande para não chorar que, quando caía no choro, o que acontecia com frequência, parecia um terremoto. E me lembro de não querer ficar acordada. 

Todo mundo achou que aquele fosse meu fim, mas minha médica do câncer, Margarida, conseguiu drenar um pouco do líquido dos pulmões e, logo depois, os antibióticos que eu tomava para tratar a pneumonia começaram a fazer efeito. 

Acordei e logo entrei num daqueles testes clínicos com remédios experimentais que são famosos na República da Cancervânia por não funcionarem. A droga se chamava Falanxifor, uma tal de molécula projetada para grudar nas células cancerosas e diminuir a velocidade de multiplicação delas. Não funcionava em mais ou menos 70% das pessoas. Mas funcionou em mim. Os tumores reduziram de tamanho. 

E continuaram reduzidos. Viva o Falanxifor! Nos últimos dezoito meses minhas metástases quase não aumentaram, deixando para mim pulmões que são péssimos, mas que poderiam, a princípio, continuar funcionando indefinidamente no sacrifício com o auxílio da chuvinha de oxigênio e de doses diárias de Falanxifor. 

Devo confessar que a história de milagre do meu câncer só resultou em um pequeno ganho de tempo. (Eu só não sabia ainda quão pequeno.) Mas, enquanto contava tudo ao Paulo Guerra, pintei o quadro mais otimista possível, ressaltando a miraculosidade do milagre. 

— Então você precisa voltar a estudar — ele disse. 

— Na verdade, não dá — expliquei —, porque já peguei meu certificado de conclusão do ensino médio. Por isso tenho assistido às aulas no MCC. — Que é a faculdade comunitária da cidade.  

— Uma universitária — ele disse, balançando a cabeça. — Isso explica a aura de sofisticação. 

Ele abriu um sorriso afetado. Dei um empurrão no seu braço, de brincadeira. E pude sentir o músculo logo abaixo da pele, todo contraído e incrível. 

Fizemos uma curva cantando pneu e entramos em um loteamento com muro emboçado de dois metros e meio de altura. A casa dele era a primeira à esquerda. Estilo colonial, dois andares. Paramos, com um tranco, na entrada de carros. 

Fui atrás dele até dentro da casa. Uma placa de madeira, no hall, tinha gravadas com letras cursivas as palavras O lar é onde fica o coração, e acabou que a casa toda era enfeitada com dizeres desse tipo. Amigos de verdade são difíceis de encontrar e impossíveis de esquecer, afirmava uma ilustração acima do cabideiro. O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis, prometia uma almofada bordada na sala de estar cheia de móveis antigos. O Paulo me pegou lendo. 

— Meus pais chamam isso de Encorajamentos — explicou. — Estão espalhados por toda parte. 

 

 

 


Notas Finais


Ai meu core!


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