História A Culpa é das Estrelas - Adaptação Paulicia - Capítulo 5


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Categorias A Culpa É Das Estrelas, Carrossel
Personagens Alícia Gusman, Paulo Guerra
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Palavras 1.857
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Adolescente, Hentai, Literatura Feminina, Poesias, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 5 - Capítulo Cinco


O pai e a mãe dele o chamavam de Guerra. Estavam preparando enchiladas na cozinha (escrita em letras gordinhas num vidro jateado perto da pia estava a frase Família é para sempre). A mãe colocava frango nas tortillas, que o pai enrolava e botava num pirex. Eles não pareceram muito surpresos com a minha chegada, o que fazia sentido: o fato de o Paulo me fazer sentir especial não queria necessariamente dizer que eu era especial. Talvez ele levasse uma garota nova todas as noites para ver um filme e se aproveitar dela. 

— Esta é Alicia Gusman — ele disse, me apresentando formalmente. 

— Só Alicia — falei. 

— Como vai, Alicia? — o pai perguntou. Ele era alto, quase tão alto quanto o Guerra, e magro de um jeito que pais mais velhos normalmente não são. 

— Tudo bem — respondi. 

— Como foi lá no Grupo de Apoio do Jorge? 

— Foi inacreditável — disse o Guerra. 

— Você é um tremendo desmancha-prazeres — a mãe disse. — Alicia, você gosta de lá? 

Fiquei em silêncio por um segundo, tentando decidir se minha resposta deveria ser calculada para agradar ao Paulo ou aos pais dele. 

— A maioria das pessoas é bem legal — falei, por fim. 

— Foi exatamente o que achamos das famílias no Memorial quando estávamos no meio do tratamento do Guerra — o pai dele disse. — Todo mundo era muito gentil. Forte, também. Nos dias mais sombrios, o Senhor coloca as melhores pessoas na sua vida. 

— Rápido, cadê a almofada e a linha, porque isso precisa virar um Encorajamento — o Paulo disse, e o pai pareceu ficar um pouco chateado, mas aí ele passou o braço comprido em volta do pescoço do homem e falou: — Só estou brincando, pai. Eu gosto desses malditos Encorajamentos. De verdade. Só não posso admitir isso porque sou adolescente. — O pai dele revirou os olhos. 

— Você vai ficar para o jantar? — a mãe me perguntou. Ela era baixa, morena e tinha as feições de uma ratinha. 

— Acho que sim — respondi. — Tenho de estar em casa às dez. Ah, só tem uma coisa… Eu não como carne… 

— Não tem problema. Vamos vegetarianizar algumas delas — ela disse. 

— Os animais são fofos demais? — o Guerra perguntou. 

— Quero diminuir a quantidade de mortes pelas quais sou responsável — falei. 

O Guerra abriu a boca para fazer um comentário mas pensou duas vezes e continuou calado. 

A mãe dele preencheu o silêncio. 

— Pois eu acho isso uma coisa maravilhosa. 

Eles conversaram um pouco comigo, me contando que as enchiladas eram as Famosas e Impossíveis de Não Experimentar Enchiladas Guerra, e que o toque de recolher do Guerra também era às dez, e que eles desconfiavam totalmente de qualquer um que estabelecesse um toque de recolher diferente de dez, comentando o fato de eu estar estudando — "ela é universitária", o Paulo exclamou —, de o clima estar absolutamente magnífico para março, e de como na primavera tudo era renovado, e em nenhum momento fizeram qualquer pergunta sobre o oxigênio ou sobre meu diagnóstico, o que era ao mesmo tempo estranho e maravilhoso, e aí o Paulo disse: 

— A Alicia e eu vamos assistir ao V de Vingança para que ela possa ver a doppelgänger cinematográfica dela, a Natalie Portman do século vinte e um. 

— A sala de estar é toda de vocês — o pai dele disse, todo alegrinho. 

— Na verdade, acho que vamos ver o filme lá no porão. 

O pai dele riu. 

— Boa tentativa. Sala de estar. 

— Mas eu quero mostrar o porão para a Alicia Gusman — o Paulo disse. 

— Só Alicia — falei. 

— Então mostre o porão para a Só Alicia — o pai dele disse. — E depois volte aqui para cima e assista ao seu filme na sala de estar. 

O Paulo bufou, se equilibrou na perna e girou o quadril, jogando a prótese para a frente. 

— Tá bem — resmungou. 

Desci as escadas acarpetadas atrás dele até chegarmos a um enorme quarto-porão. No nível dos meus olhos, uma prateleira lotada de memorabilia de basquete se estendia pelas paredes de todo o cômodo: dezenas de troféus com homenzinhos de plástico dourado no meio de saltos com arremesso, driblando ou voando em enterradas em cestas invisíveis. Também havia várias bolas e tênis autografados. 

— Eu jogava basquete — ele explicou. 

— Você devia ser muito bom. 

— Não era de todo ruim, mas esses tênis e essas bolas são Privilégios do Câncer. — Ele andou até a TV, onde uma pilha enorme de DVDs e videogames estava arrumada num formato que lembrava uma pirâmide. Dobrou o corpo na linha da cintura e puxou de lá o V de Vingança. — Eu era, tipo, o protótipo do jogador de basquete estudantil de Indiana — ele disse. — Estava todo empenhado em ressuscitar a arte esquecida do arremesso de meia distância. Mas, um dia, enquanto praticava arremessos livres da cabeça do garrafão na quadra do ginásio da North Central, pegando as bolas de um carrinho, de repente me perguntei por que estava jogando um objeto esférico através de outro, toroidal. Parecia ser, de todas, a coisa mais idiota do mundo. Aí comecei a pensar nas crianças pequenas que tentam encaixar blocos cilíndricos em círculos vazados e em como tentam isso várias vezes durante meses até descobrirem como se faz, e em como o basquete era basicamente uma versão só um pouquinho mais aeróbica desse mesmo exercício. Bem, de qualquer forma, por um tempão segui encestando os lances livres. Acertei oito bolas seguidas, meu recorde absoluto, mas, enquanto continuava, me sentia cada vez mais como uma criança de dois anos. E aí, por algum motivo que não sei qual, comecei a pensar em atletas que praticam corridas com obstáculos. Está tudo bem? 

Eu tinha me sentado na beira da cama desarrumada dele. Não queria me insinuar, nem nada; é que me canso um pouco toda vez que fico muito tempo de pé. Já tinha ficado em pé na sala de estar, depois desci a escada, e aí fiquei de pé de novo, o que era demais para mim, e não queria desmaiar. Eu era tipo uma donzela vitoriana, no quesito “desmaios à toa”. 

— Tudo bem — falei. — Só estou prestando atenção em você. Atletas que praticam corridas de obstáculos? 

— Pois é. Não sei por quê. Comecei a pensar neles correndo naquelas pistas de atletismo, saltando aqueles objetos totalmente arbitrários colocados no meio do caminho. E aí me perguntei se esses corredores já teriam pensado em algo como: Essa corrida seria mais rápida se nós simplesmente nos livrássemos dos obstáculos. 

— E isso foi antes do diagnóstico? — perguntei. 

— É, bem, tem isso também. — Ele deu um sorrisinho. — Por coincidência, o dia dos lances livres carregados de existencialismo foi meu último como bípede. Só tive um fim de semana entre o agendamento da amputação e o “dia D”. Meu vislumbre particular do momento pelo qual o Isaac está passando agora. 

Balancei a cabeça, concordando. Eu gostava do Paulo Guerra. Gostava muito mesmo dele. Gostava de como a história dele terminava falando de outra pessoa. Gostava da voz dele. Gostava do fato de ele ter feito lances livres carregados de existencialismo. Gostava de ele ser professor titular no Departamento de Sorrisos Ligeiramente Tortos com duas cátedras no Departamento da Voz Que Me Deixa à Flor da Pele. E gostava de ele ter um apelido. Sempre gostei de pessoas com apelidos ou sobrenomes porque você pode escolher como chamá-las: Guerra ou Paulo? Eu era sempre só Alicia, uma Alicia univalente. 

— Você tem irmãos? — perguntei. 

— Hein? — ele murmurou, parecendo um pouco distraído. 

— Aquilo que você disse sobre ver crianças brincando. 

— Ah, não. Eu tenho sobrinhos, das minhas meias-irmãs. Mas elas são mais velhas. Elas têm… PAI, QUANTOS ANOS A MARCELINA E A LOLA TÊM? 

— Vinte e oito! 

— Elas têm vinte e oito anos. Moram em Chicago. As duas são casadas com advogados muito importantes. Ou banqueiros. Não lembro direito. E você, tem irmãos? 

Fiz que não com a cabeça. 

— E aí? Qual é a sua história? — ele perguntou, sentando do meu lado, a uma distância segura. 

— Já contei minha história para você. Fui diagnosticada quando… 

— Não, não a história do seu câncer. A sua história. Seus interesses, passatempos, paixões, fetiches etc. 

— Humm — murmurei. 

— Não vá me dizer que você é uma daquelas pessoas que encarnam a doença. Conheço tanta gente assim… Dá até pena. Tipo, o câncer é um negócio em franco crescimento, certo? O negócio de tomar-as-pessoas-de-assalto. Mas é claro que você não deixou que ele saísse vencedor assim tão cedo. 

Passou pela minha cabeça a ideia de que talvez eu tivesse deixado, sim. Demorei a decidir como me vender para o Paulo Guerra, que interesses selecionar, mas no silêncio que se seguiu só consegui pensar que eu não era muito interessante. 

— Não tenho nada de extraordinário. 

— Eu me recuso a acreditar nisso. Pense em alguma coisa de que você goste. A primeira coisa que vier à cabeça. 

— Humm. Ler? 

— O que você gosta de ler? 

— Tudo. De, tipo, romances hediondos a ficção pretensiosa, poesia. De tudo um pouco. 

— Você também escreve poesia? 

— Não. Eu não escrevo. 

Taí! — O Paulo falou quase gritando. — Alicia Gusman, você é a única adolescente nos Estados Unidos que prefere ler poesia a escrever poesia. Só isso já diz muito sobre a sua pessoa. Você lê um monte de livros maneiros com M maiúsculo, não lê? 

— Acho que sim. 

— Qual é o seu livro favorito? 

— Humm — murmurei. 

Meu livro favorito era, de longe, Uma aflição imperial, mas eu não gostava de falar dele. Às vezes, um livro enche você de um estranho fervor religioso, e você se convence de que esse mundo despedaçado só vai se tornar inteiro de novo a menos que, e até que, todos os seres humanos o leiam. E aí tem livros como Uma aflição imperial, do qual você não consegue falar — livros tão especiais e raros e seus que fazer propaganda da sua adoração por eles parece traição. 

Não era nem pelo fato de o livro ser bom nem nada; era só porque o autor, Peter Van Houten, parecia me entender dos modos mais estranhos e improváveis. Uma aflição imperial era o meu livro, do mesmo jeito que meu corpo era meu corpo e meus pensamentos eram meus pensamentos. 

Mesmo assim, falei dele para o Paulo. 

— Meu livro favorito é, provavelmente, Uma aflição imperial — eu disse. 

— Tem zumbis? — ele perguntou. 

— Não — respondi. 

Stormtroopers? 

Balancei a cabeça negativamente. 

— Não é esse tipo de livro. 

Ele sorriu. 

— Vou ler esse livro horrível com um título sem graça que não contém stormtroopers — ele prometeu, e imediatamente senti que não deveria ter lhe contado. O Paulo se virou para uma pilha de livros na parte de baixo da mesa de cabeceira. Pegou um deles e uma caneta. Enquanto escrevia algo na primeira página, falou: — Tudo o que peço em troca é que você leia esta adaptação brilhante e memorável do meu videogame favorito. — Ele me estendeu o exemplar, cujo título era O preço do alvorecer. Ri e peguei-o. Nossos dedos meio que se embaralharam no processo e no fim ele acabou segurando minha mão. — Fria — ele disse, o dedo apertando meu pulso pálido. 

— Mais desoxigenada que fria — falei. 

— Adoro quando você usa termos médicos comigo — ele disse, se levantando e me puxando junto.

E não soltou minha mão até chegarmos à escada. 

 

 

 



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