1. Spirit Fanfics >
  2. A culpa é das fanfics! >
  3. A culpa é, de fato, das fanfics?

História A culpa é das fanfics! - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Era para eu ter postado essa história há uns dias atrás mas com curso e trabalho que não foram cancelados, fiquei sem tempo pra fazer isso.

Antes de mais nada, aviso que a fic tem somente três capítulos que já foram escritos, ou seja, não vou correr o risco de atrasar nada wisahkakahia

A personagem foge dos padrões que eu costumo ver em histórias aleatórias por aí e é minha primeira vez escrevendo algo assim, portanto, espero que esteja do agrado de quem ler. Outra coisa importante é a seguinte: eu fiquei meio insegura em algum momento de hoje, porque esse plot me veio do nada, eu nem sei mais como. Mas considero ele clichê, logo, fiquei meio insegura sobre postar algo assim, do tipo que todo mundo tá acostumado a ler, às vezes soando meio previsível, sabe?

A capa e banner foram feitos pela Lumiere e eu to apaixonada😗

Enfim, acho que isso é tudo.
Boa leitura! ♥

Capítulo 1 - A culpa é, de fato, das fanfics?


Fanfic / Fanfiction A culpa é das fanfics! - Capítulo 1 - A culpa é, de fato, das fanfics?

Com vinte e dois anos de idade, eu não me considero o tipo de garota que precisa urgentemente de um namorado apenas porque estou ficando "velha e solteira" — como minhas amigas do curso de inglês seguem dizendo rotineiramente, durante todo o dia, a toda hora e a todo minuto desde que as conheci. Sério. Eu não me surpreenderia com quantas vezes já fui tida como a "solteirona" da rodinha de amigos de meu curso. 

Sempre as mesmas piadas bobas, sempre os mesmos apelidos baratos e sem graça. Sempre as mesmas gracinhas e eu nem ao menos me importo com isso.

Sei que eu já passei da adolescência faz muito tempo — fase de nossas vidas onde nós, jovens, regularmente encontramo-nos com hormônios à flor da pele e a curiosidade da descoberta gritando em nosso interior; uma explosão nada sensata de estrógeno, progesterona e muita, muita testosterona —, mas "namorar" é uma coisa que, honestamente, nunca me fez a menor falta.

Não é que eu nunca tenha namorado durante esse período. Lógico que não. Acontece que meus relacionamentos amorosos terminam antes mesmo de começar e sim, eu nunca me preocupei demais com isso. Nunca.

Quando digo isso em voz alta, as pessoas tendem a me olhar como se eu fosse um ser de outro mundo, alienígena. Mas isso, para mim, não tem absolutamente nada a ver.

Enquanto minhas amigas preocupavam-se com que cor de esmalte deveriam pintar as unhas das mãos e mandavam bilhetes — é espantoso acreditar que ninguém mais utiliza as boas e velhas cartas, sério — para os seus crush's do colegial, eu simplesmente preferia curtir meu tempo livre estudando, ou fazendo coisas que me interessavam muito mais do que paquerar meus colegas de sala.

Sabe, minha juventude inteira foi resumida a assistir seriados do Disney Channel e aqueles desenhos aleatórios no Cartoon Network, maratonar videoclipes da Demi Lovato, Selena Gomez e Bruno Mars — eu era muito fã desses três, talvez mais do que qualquer outro cantor na época da MTV. Ah, e é claro que eu não poderia esquecer das novelas teen estrangeiras transmitidas mundialmente pela Nickelodeon, como Isa TKM, a melhor obra estrangeira que já vi na época, de verdade. Tambem adorava — e continuo adorando — maravilhosas histórias ficcionais criadas de forma gratuita por todos os tipos de fãs de cantores, séries de televisão, bandas, animes e tudo o que se pode imaginar, as quais são popularmente conhecidas como Fanfictions.

Amo ocupar meu tempo lendo e escrevendo minhas próprias histórias em sites e aplicativos online. E tudo sempre esteve perfeitamente bem para mim, no que dizia respeito a ocupar as "horas vagas" com coisas mais proveitosas do que me preocupar se já estava na hora de namorar sério ou coisa assim.

Nesse momento, enquanto estou deitada sobre o colchão de minha cama, Jeon Jungkook entra em meu quarto usando calça jeans rasgada, coturnos e aquela camiseta azul turquesa, larga, que deixa as tatuagens em seus braços fortes à mostra. Meus olhos logo fazem um scanner por sua silhueta atlética e atraente. Os músculos da clavícula. O queixo bem desenhado. O piercing industrial e no smile, que sempre surge de um jeito radiante quando ele sorri — deixando-me um pouco constrangida com o meu tímido piercing no daith. O cabelo castanho escuro que quase toca as maçãs de seu rosto, emoldurando suas feições com perfeição.

Uma mecha da franja de suas madeixas recai ao lado esquerdo de sua face, exibindo um contraste etéreo com suas roupas descoladas e, mesmo com os fios cobrindo parte de seus olhos, decifro o olhar de Jungkook sobre mim; carregados de melancolia, me observando com cara de poucos amigos.

Não preciso pensar muito para saber o que ele pensa, principalmente quando suas íris alternam entre o celular em minhas mãos e meus olhos fitando-o na mesma intensidade.

— Você está fazendo aquilo de novo?

Jungkook cruza os braços em frente ao peito. Seus músculos e veias do antebraço tornam-se mais protuberantes e eu mantenho-me calada por um segundo.

Por aquilo, Jungkook quer dizer que estou com os olhos vidrados na tela do smartphone e a atenção unicamente focada para o capítulo de uma fanfic aleatória que esqueci que estava lendo quando minha visão recaiu sobre sua silhueta bonita. Jungkook e seus muitos efeitos sobre mim. Isso nem é uma novidade.

— Não tinha nada melhor para fazer enquanto esperava você sair do banheiro — respondo, observando meu "amigo" desencostar-se da soleira da porta do banheiro e, então, caminhar até a cama, local onde estou deitada, meu cabelo esparramado como uma cascada marrom e ondulada sobre o travesseiro.

— Você não tira os olhos desse negócio nem por um segundo.

Observo Jungkook bagunçar os próprios cabelos castanhos por pura diversão. Dou início a um questionamento interno sobre se ele realmente faz isso porque gosta, ou porque sabe que esse simples ato me deixa absorta, exaltando a mim mesma todos os detalhes que o compõe dos pés à cabeça.

Prefiro acreditar que não absolutamente nada a ver com a segunda opção — para o meu próprio bem.

Mas espera. Por quê eu disse isso?

— Você está parecendo a minha mãe, falando desse jeito — devolvo sua resposta anterior completamente vidrada no percurso que seus dedos fazem em seus fios castanhos. De repente, sem que me dê conta, desejo que munhas estivessem sentindo a maciez de suas madeixas...

— Você não acha que é isso uma perda de tempo, Evinha?

Jungkook joga uma piscadela em minha direção e um sorrisinho debochado delineia seus lábios bonitos em poucos segundos.

Ah! Maldito apelido que eu detesto com todas as minhas forças físicas e mentais. Odeio, para falar a verdade. Mas é exatamente por isso que Jeon faz seu uso.

Meu nome é Evaluna, afinal. Mas ele sabe o quanto ser chamada por "Evinha" me irrita, e faz de propósito, é claro.

Se não fosse assim, não seria Jeon Jungkook.

— E você não acha que isso não é da sua conta?

Ergo minhas sobrancelhas ao mesmo tempo em que bloqueio a tela de meu celular, colocando o aparelho no espaço lateral próximo ao meu corpo e Jungkook ri. Em seguida, caminha até a cama, jogando-se de ladinho no espaço vazio perto de mim.

— Não — diz ele. — Só acho que você tá irritada demais comigo aqui. Quer que eu te relaxe?

Ele me fita com aquele olhar que diz muitas coisas ao mesmo tempo, ambíguas ou não. Inclusive, sei exatamente o que "relaxar" quer dizer em seu vocabulário. Quando se tem alguém como Jungkook ao seu lado, frases como a citada acima são super fáceis de entender.

— Estou bem assim. Você é quem precisa relaxar. — Dou de ombros. — Essas provas de fim de semestre na faculdade não te deixam, sei lá, estressado?

— Não. Você sabe que eu não sou o tipo que se estressa facilmente. — Jungkook sorri ladino, realçando a pintinha marrom abaixo de seu lábio inferior. Eu tento não surtar com a visão resplandecente que seu ato me transpassa. Como ele consegue ultrapassar as barreiras do extraordinário humano sem qualquer dificuldade?! — Pelo menos, não quando tô com você.

Em um movimento não calculado e talvez até mesmo involuntário, eu acabo elevando minha mão esquerda em direção ao rosto de Jungkook. Meus dedos tamborilam em sua bochecha direita. As pontas de minhas unhas resvalam a região, sentindo a maciez de sua pele, textura cuja é algo que sempre me deixa em meio a um constante frenesi, nervosa e ansiosa.

Ansiosa para tocar-lhe muito mais. Mais do que apenas as laterais de sua face. Muito mais do que já fiz até então...

— Sempre soube que era capaz de hipnotizar você — diz Jungkook, mas sua voz é quase um sussurro no quarto silencioso.

Ele pisca outra vez e sorri ladino para mim, de um jeito que causa formigações em todo o meu corpo. Quer dizer, não sei explicar ao certo se são formigações. Mas também não consigo pensar em uma palavra convincente o suficiente para expressar o que sinto.

E, droga! Quando isso começa a acontecer, é difícil tentar fazer parar.

— Você se acha demais, né? — Essa é uma pergunta retórica, porque eu e Jeon sabemos que sim.

Ele é convencido em todos os sentidos. Mas não do jeito ruim, felizmente. Afinal, eu não me daria bem com um amigo "metido".

— Não. — Outro sorriso debochado adorna sua face e minha pele incendeia quando Jungkook estende a destra para tocar o meu rosto na mesma intensidade em que eu lhe toco. — Talvez só quando tô perto de você.

Reviro os olhos. Depois esboço um sorriso irônico. Mas que carrega um pouco de sinceridade lá no fundo.

— Não precisa disso. — Torço o nariz em um movimento de "tanto faz". — Gosto de você assim: espontaneamente chato, bobão e muito, muito convencido.

Jungkook não diz nada durante algum tempo. Ele apenas respira fundo, desvia o olhar do meu e, alguns segundos depois, volta a fitar-me com um meio sorriso estampado em seus lábios muito timidamente, quase contido. Introvertido. Suas orbes sondam-me carregadas de ternura e transpassam-me a sensação de ser única, especial e insubstituível neste instante, de estarmos envoltos em um círculo onde as preocupações do mundo externo são incapazes de penetrar. Esse simples ato me faz sentir que sou tudo para ele.

Isso é suficiente para me fazer sorrir também, rubores tomando conta de minhas maçãs do rosto enquanto meu coração acelera diante do silêncio taciturno que se apodera do quarto quando percebo que ainda tocamos nossas faces, porém fitando os lábios um do outro.

Eu não sei se devo beijá-lo, ou simplesmente deixar isso para outro momento. Mas a verdade é que a idéia de fazer isso não soa nada inconveniente.

Jungkook, então, como se estivesse infiltrado em minha mente, "quebra" esse silêncio não hostil ou desconfortável, dizendo:

— Se continuar olhando para a minha boca desse jeito, eu vou ter que te beijar...

Engulo em seco quando ele desvia os olhos de meus lábios e fita minhas íris. Crispo os lábios, retirando minha mão de seu rosto, fitando-o com seriedade.

— E o que está te impedindo?

Minha voz é calma por fora. Mas por dentro meu coração martela minhas costelas.

Jeon arqueia as sobrancelhas. Maldição! Ele é tão perfeito em tudo o que faz. Até mesmo o seu estúpido franzir de sobrancelhas é perfeito.

— Se eu te beijar agora, posso perder o controle e não vou conseguir parar.

Pronto. Essa frase tão simplista desencadeia uma série de sensações chamuscantes em meu cerne. Sinto como se houvessem inúmeras crisalidas dentro de meu estômago, as quais agoram se desfazem e transformam-se em borboletas que voam dentro de mim. Como aconteceu há muito tempo atrás, na noite em que Jungkook dormiu em minha casa depois de sairmos juntos de uma festa na casa de Hoseok e, consequentemente, na noite em que nos relacionamos — sexualmente falando — pela primeira vez.

Eu tinha dezoito anos na época, e ele, vinte. Naquela noite, havíamos solicitado um carro no aplicativo de mobilidade instalado no celular de Seokjin e viemos direto para a minha casa — porque lembro de o meu telefone estar sem bateria e de Jungkook ter esquecido o próprio padrão de desbloqueio de seu aparelho.

Seu próprio aparelho!

Quem é que esquece o seu próprio padrão de desbloqueio? Eu não sei. Jungkook, bêbado, talvez.

Ambos estávamos meio embriagados mesmo depois de sair do chuveiro — separados, lógico. Tínhamos hormônios à flor da pele, sentimentos confusos misturando-se na velocidade da luz e, sem pensar direito, nos beijamos aqui nesse mesmo quarto, nessa mesma cama, sobre este mesmo colchão.

Eu sei que cometemos o erro de nos deixar levar pelo tesão. Mas alguma coisa aconteceu depois daquela noite. Só não sei dizer ao certo o quê.

Nós éramos melhores amigos desde o fundamental II e fizemos sexo. Mas sei lá. Nós não nos afastamos ou ficamos estranhos um com o outro. Havia momentos em que o desejo falava mais alto e não podíamos dizer não. Não podíamos negar. Simplesmente era impossível parar.

Depois daquele dia, era óbvio afirmar que nada havia mudado entre nós, porque eu nem ao menos considerava a possibilidade de acabar me apaixonando mesmo por Jungkook — ele continua sendo um homem atraente aos meus olhos, ainda que sejamos amigos e apenas isso. Entretanto, não se isso continua acontecendo. Afinal, os anos passaram.

Vejo o mundo com os olhos de uma mulher adulta, madura; não uma virgem de dezoito anos que definitivamente não quer ir para a faculdade — sabe, o fato de eu não querer ir a uma universidade não significa que eu não quero fazer nada da minha vida. Eu quero, e muito. Mas não me sinto pronta para encarar esse campo de concentração do qual Jungkook e alguns amigos nossos tanto reclamam.

Eu sei, fiz e senti coisas que jamais imaginei que faria. Mas, honestamente, não me arrependo de nenhuma delas. Acho que todas as coisas que fazemos sempre têm um motivo exato para serem feitas, assim como uma razão para acontecer, ainda que você não saiba do que se trata à princípio — minhas aulas de filosofia do ensino médio foram mais úteis do que eu imaginava. Para mim, é muito mais viável me arrepender de algo que fiz, do que lamentar coisas que eu podia ter feito. Mas que, por qualquer motivo banal do mundo, não fiz.

O mundo não é o universo de Doctor Who — certo, bem que eu queria que fosse. Você não pode usar uma nave tipo o TARDIS para voltar no tempo e consertar o passado ou antecipar o futuro, viajando no espaço-tempo. O que foi feito, foi feito. E o que passou, já não volta mais.

Não é assim que dizem por aí?

Eu sei que a possibilidade de me arrepender pelo que fiz naquela noite, com Jungkook, no futuro, pode acontecer. Mas não penso muito sobre isso, porque sei que nossa amizade é mais forte do qualquer outra coisa. Sei que Jungkook jamais me deixará para trás por conta de uma estranheza qualquer que possa acontecer entre nós ou brigas, por exemplo. Gosto de pensar que tenho ao meu lado o melhor amigo do mundo. E sei que no fundo, Jeon também pensa o mesmo.

— Eu sei que você quer me beijar, bobona.

Jungkook volta a sussurrar, seus lábios oscilando entre sorrisos ladinos e palavras de duplo sentido que estão quase acabando com o resquício de sanidade que ainda me resta.

Jungkook me olha como se dissesse: "eu sei o que esta pensando. Posso ler seus pensamentos". Mas não. Eu não lhe digo nada.

O filho da mãe prende o lábio inferior entre os dentes, fazendo isso de propósito porque sabe o quanto esse ato simplista me revira de cabeça para baixo como em uma montanha russa.

Foco minha atenção nisso, mesmo sabendo que olhar sua boca de lábios estreitos e deliciosos é uma rota sem escapatória, porque Jeon Jungkook é tão etéreo que eu, sempre que o vejo, sinto uma intensa e gritante vontade de arremessar um tijolo contra seu rosto bonito apenas para me certificar que isso não adiantará em nada. Jeon é perfeito e ponto final. Mesmo fazendo careta, com o rosto e corpo inteiramente costurados, continuará sendo espetacular. E isso me irrita. Me irrita porque sei que essa maldita beleza etérea me atrai e eu não posso fazer nada. Apenas admirar calada.

Nunca pensei que teria esse tipo de sentimento por ele, antes. Encontro-me confusa, franzindo o cenho a cada dois segundos enquanto tento dizer a mim mesma que isso é apenas passageiro, que não tem nada de mais.

— Me beija, então. Quero ver se você pode ler meus pensamentos.

Sorrio após dizer isso, e não preciso esperar muito para ter seus lábios nos meus em um selar carinhoso, reconfortante. Ele se move de um jeito calmo que me leva do céu ao inferno em poucos segundos. Minhas mãos voltam a acaricar sua face, acomodando-se na pele quente de sua nuca e eu estremeço ao sentir sua canhota circundando minha cintura.

O beijo é inócuo à princípio. Mas se torna intenso e necessitado à medida em que o toque de Jungkook começa a percorrer trajetos libidinosos, apertando a pele de minha cintura com possessão, descendo até a minha bunda e, de repente, em um movimento rápido demais, vira-me na cama de modo que meu corpo passe a ficar por cima do seu, sem ao menos cessar o beijo.

Afundo meus joelhos no colchão de modo que não venha a depositar todo o meu peso sobre Jungkook — de bem que isso nem seria um grande problema para ele. Em seguida, sua língua envolve a minha e suspiros escapam de nossos lábios à medida em que suas mãos grandes descem novamente ao meu quadril, apertando minhas nádegas com um pouco mais de intensidade. Nossos íntimos tocam-se devido a posição de nossos quadris e posso sentir, nesse momento, o quão hirto Jungkook está.

Sua mão é quente, e transfere ondas de calor instantâneo em minha epiderme gelada devido ao ar condicionado, ao passo em que movimenta meu quadril levemente contra o seu, suspirando em meu lábio. Não é difícil Jungkook me deixar excitada, e com certeza acontece o mesmo com ele. Sei que seria fácil demias transar com ele, agora. E eu realmente teria feito isso. Mas não consigo.

Por algum motivo, uma sensação estranha revira meu estômago de dentro para fora, como se eu estivesse no alto de uma montanha russa. Me sinto angustiada, e isso acaba dissipando toda a minha libido. O tesão corre pelos ares e eu desfaço o beijo rapidamente, sabendo que não posso mais continuar. E nem sei o exato porquê.

Engulo em seco após sair de cima de Jungkook. Recebo um olhar totalmente confuso de sua parte, evitando fitar os lábios avermelhados e o cabelo bagunçado por mim há segundos atrás.

Sou uma constante maré de confusão ambulante.

— O que foi? — Jeon franze o cenho. — Eu te machuquei?

Minha respiração está ofegante conforme afundo meu quadril sobre a cama, sentando-me alguns centímetros seguros mais longe de Jungkook, por motivos que talvez eu não saiba dizer do que se trata. A sensação de angústia ainda me consome de dentro para fora, revirando tudo ao meu redor.

Fecho os olhos, apertando as pálpebras com força moderada.

O que diabos está acontecendo comigo?

— Não... Eu só fiquei meio zonza. Acho que é por causa do meu óculos. Não usei o dia todo. Você sabe que eu fico com dor de cabeça, caso passe muito tempo sem usá-lo.

Minto na cara de pau, é claro. Mas faço isso tão mal que Jungkook não acredita, é óbvio, constatando a forma desconfiada com a qual me olha. Mas ainda assim parece concordar apenas por não querer contestar nada.

Contente por isso — uma vez que eu nem ao menos saberia como explicar—, permaneço em silêncio por alguns instantes. Jungkook continua a fitar-me com as linhas de sua fronte franzidas, criando rugas sutis na região. Sua expressão de seriedade é digna de ser congelada no tempo, a fim de que qualquer artista no mundo inteiro possa expressá-la em uma tela em branco, adornando-a com suas pinturas, no tempo que for preciso.

— Você é estranha.

Ouço-o sibilar com os olhos ainda fixos em mim. Gostaria de poder apontar o que raios me deixa tão angustiada com relação a ele. É um maldito sentimento de retrocesso e estranheza que me faz ponderar seriamente sobre o que está aconteceu comigo, afinal de contas.

— Você que é estranho — digo, minha voz ecoando como um sussurro.

Evito olhar em sua direção, agora, por medo que Jungkook possa saber o não tão lógico motivo pelo qual eu parei de beijá-lo. Sim. Desde que nos conhecemos, Jeon tem esse dom reconfortante de saber decifrar meus sentimentos e conflitos internos antes mesmo que eu o faça.

— Eu? — O maior solta uma gargalhada curta. — Não sou eu que vivo me iludindo com os personagens ficcionais dessas coisas que você lê no celular.

— Isso não é ser estranho, Jungkook — esbravejo, de repente batendo meus punhos sobre o colchão macio. — Não aja como se eu fosse a única pessoa do mundo a fazer isso, tá legal? É melhor do que sofrer por alguém real, que eu sei que não posso ter.

Depois que finalizo minhas palavras, é que paro para pensar na proporção do que acabo de dizer. Jungkook estreita os olhos amendoados e seu rosto confuso possui uma expressão engraçada, porém não para mim, nesse instante. Agora, sinto que ele parece estar cogitando a possibilidade  de ligar para um manicômio e pedir para que os médicos venham me buscar.

Jungkook deve me achar louca. A rainha de todas elas, para falar a verdade.

— Você acha mesmo que vai casar com um personagem de fanfic, Evaluna? — Jeon une as sobrancelhas. — É sério?

Quem ele pensa que sou? Uma desvairada de primeira? Tudo bem que eu tenho um carinho excessivo por personagens ficcionais das histórias que leio no celular. Mas, fala sério, eu não seria tão ridícula assim.

— Não — respondo, mexendo nos caracóis de meus cabelos para retirá-los de minha face. — Mas não é esse o ponto.

— É por esse tipo de comportamento que você não consegue um namorado, Evinha.

Lanço-lhe um olhar mortal quando o mesmo realça esse apelido em sua voz de forma proposital. Penso na possibilidade de seu pescoço e bater sua cabeça na parede ou quem sabe arrastá-la no asfalto da rua. Mas desisto de fazer isso no segundo seguinte, porque causar danos ao seu lindo rosto seria um grande desperdício. E eu jamais ousaria machucá-lo de qualquer modo.

— Lá vem você de novo com essa história absurda. — Reviro os olhos. — Eu não namoro porque não quero. Estou muito bem do jeito que estou.

Jungkook murmura alguma coisa baixa demais para que eu não possa ouvir. Parece estranho dizer isso, nas ele sempre expressa a mesma irritante justificativa pela qual eu nunca namorei sério em vinte e dois anos de vida: segundo o senhor Jeon-sabe-tudo-kook, a culpa é das fanfics que leio.

Eu sei que deve parecer muito estranho. Mas é coisa do próprio Jungkook. Ele sempre verbaliza essa mesma desculpa para justificar o motivo pelo qual eu ainda estou solteira. É loucura. Nem mesmo eu estou acostumada a lidar com isso.

— Aham. Sei.

Sua voz ressoa em tom de deboche. No entanto, eu respiro fundo e não remoo nenhuma de suas palavrinhas ousadas e sarcásticas. Jungkook acha que sou irritada demais. E eu quero que ele tenha essa visão de mim por toda a vida — embora não seja mentira o fato de eu ser mesmo uma esquentadinho de carteirinha.

— Você não cansa, né?

— Não. — Ele sorri. — Mas relaxa, gatinha. Se você não conseguir um namorado até os cinquenta, eu me caso com você e juntos adotamos uma criança. Talvez duas ou quem sabe cinco. O que acha?

Não sei o que ele quer dizer com isso. Se é mais uma de suas brincadeiras ou qualquer outra coisa parecida. Mas também não perco tanto tempo me questionando a respeito do sentido por trás de suas palavras. Na verdade, a única coisa que faço é sorrir, enquanto observo o quão lindo Jungkook é da cabeça aos pés. Seus lábios estreitos, a pintinha marrom que realça todas as vezes em que ele sorri. Seus olhos cor de amêndoa. Os cabelos castanhos e macios. As tatuagens em seus braços fortes. A cicatriz quase imperceptível em sua bochecha esquerda. Cada mínimo detalhe que o compõe é simplesmente a definição de perfeição ao vivo e a cores. No entanto, não é exatamente por isso que eu gosto tanto dele.

Jungkook me faz um bem danado. Ele é tão importante quanto qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido até então, e não apenas por fazer uma reviravolta em minha vida desde que o conheci — antes uma triste, mas agora engraçada, história envolvendo uma estrangeira desorientada com o fuso horário local e que mal sabia falar oi em coreano, e o próprio coreano que tentava entender o motivo pelo qual uma turista havia dado a volta ao mundo e se mudado para Seul, do outro lado do planeta, sem saber o básico do idioma nativo — mas por não se importar com o tom da minha pele morena que se destaca entre as demais, ou com o fato de meu cabelo ser encaracolado ao invés do típico "liso chapado" que as outras garotas de minha idade costumam usar. Ele também não liga que eu não seja magra o suficiente para ser considerada "símbolo de beleza" por aqui. Na verdade, Jungkook me disse uma vez que medidas são apenas números. E números em formato de medidas não dizem absolutamente nada sobre o caráter de uma garota. Somente ele consegue me trazer a sensação de estar em casa, como se estar ao seu lado fosse realmente o meu lar, sabe? 

Com Jungkook eu sinto que posso ser eu mesma, sem ter que moldar minha personalidade para atrair o menos de atenção possível. Jeon faz eu me sentir uma garota única, especial. E não uma completa deslocada que recebe muitos olhares tortos apenas por não se "encaixar" nos padrões de beleza estabelecidos por uma sociedade julgativa e mesquinha.

Com apenas um único olhar de sua parte, o sentimento de rejeição desaparece. Eu me sinto livre, não preciso me preocupar em ser julgada.

É como se minha estadia aqui tivesse ganhado um significado totalmente diferente, depois de conhecê-lo. Agora, eu gosto de pensar que sou única, ao invés de fora dos padrões de beleza coreanos. Felizmente, eu diria. Porque a última coisa que quero é ser só mais uma no meio de tanta gente preconceituosa. Jungkook gosta de mim como eu sou e pelo que sou. Isso já basta.

— Acho que você está sendo equivocado — respondo depois de algum tempo. Mal percebo quando estou deitada na cama novamente. O sentimento de angústia dentro de mim já se dissipou, mas mesmo assim eu não consigo continuar com o que estávamos fazendo antes de ter essa conversa. — É claro que eu vou me casar um dia. Não agora, claro. Mas no futuro, talvez, sim.

— Mas se não casar, saiba que a culpa é dessas coisas que você passa o dia todo lendo.

Solto um lento bocejo proposital apenas para que meu amigo entenda o quanto falar sobre esse assunto é cansativo, desconexo e fora de órbita.  Não entendo os motivos que o faz pensar assim. Eu me considero uma pessoa tão normal.

— São fanfics, Jungkook. E essa coisa de culpa não tem a menor lógica. Você é super estranho com isso. Não te dou bola porque sei que faz isso para me irritar.

— Claro que tem lógica. Você é quem não consegue ver isso.

Jungkook me observa revirar os olhos, exibindo sua típica expressão de deboche que irrita ao mesmo tempo em que me fascina. Em seguida, sem tirar os olhos de mim, é minha vez de observá-lo intensificar o contato visual entre nós. Isso acontece porque Jungkook coloca os braços atrás da cabeça, lançando-me seu sorrisinho secreto novamente ao passo em que, com as orbes ainda fixas nas minhas, Jeon se mexe em minha cama, deixando suas pernas propositalmente abertas porque sabe que o volume hirto e nítido em sua calça atrai minha atenção. Eu sei que à princípio isso pode parecer errado e meio descarado de minha parte, mas, sejamos sinceros. Quem em seu juízo perfeito não olharia naquela região, ainda mais com ele mesmo fazendo questão de mostrar sua rigidez sem o menor pingo de vergonha? Quem evitaria olhar? Quem seria capaz de fazer isso?

Acho que a resposta mais coerente é ninguém.

Meneio a cabeça e quando fito seus olhos outra vez, percebo que estou prendendo a respiração somente quando meu peito começa a latejar. Engulo em seco e afasto qualquer pensamento nefasto ou libidinoso que insistia me permear minha mente.

— Mas o que isso tem a ver? — pergunto.

Eu já deveria estar de saco cheio dessa história. Mas convenço a mim mesma de que Jungkook inventa essas piadinhas só porque gosta de me tirar do sério — uma vez ele escondeu o carregador de meu celular para que eu parasse de "ler" e desse atenção a ele. Lembro de ter ficado puta da vida, além de que fiquei quase três dias sem falar consigo.

Foi estranho no começo. Mas depois sua presença começou afazer falta e não é segredo para ninguém o quanto gosto de Jungkook. Gosto muito, aliás.

— Tem a ver que você fica se iludindo com esses personagens masculinos ficcionalmente perfeitos e imagina como seria se eles existissem de verdade, o que não é verdade — Jungkook enfatiza suas palavras e isso acaba fazendo parecer que eu sou a mais deprimente das idiotas. Não me surpreenderia se um dia abrissem um fã clube sobre isso em minha homenagem. — Por isso acaba esquecendo o mundo real como realmente é. Você precisa conhcer pessoas. Gente de verdade. Se relacionar com pessoas de verdade.

Franzo o cenho automaticamente, perguntando a mim mesma onde Jungkook quer chegar. Às vezes ele fala como se fosse de outro mundo, vindo de um universo paralelo que jamais se cruzará com o real. Repito suas palavras internamente e chego a conclusão de que o que ele está dizendo não faz o menor sentido.

Quer dizer, não mesmo. Implicar comigo por eu gostar de imaginar como seria minha vida ao lado de personagens perfetinhos das histórias que leio online? Tudo bem que eles não são reais, mas não tem problema algum em deixar minha imaginação me transportar para outro universo onde haja apenas eu e os personagens favoritos de minhas fanfics, não é?

Quando vejo os olhos de Jungkook tão brilhantes, amendoados e reluzentes, focados em minha direção, tento respirar fundo e rebater suas investidas do mesmo modo irônico com o qual ele o faz. Atiro um travesseiro em sua direção. Jungkook desvia, sorrindo, e o coloca abaixo de sua cabeça para que a mesma possa ficar um pouco mais "alta".

— Mas eu já me relaciono com pessoas de verdade, bobão. Tenho meus pais, a Allyssa, minhas amigas. Você.

— Eu não tô falando desse tipo de relação — brada ele, mordendo os lábios por alguns instantes.

— Então qual seria?

Sua expressão facial se torna séria e Jeon não me olha como antes. Seus olhos fitam o teto de meu quarto e eu começo a pensar se falei algo ridículo ou ofensivo. De repente, a atmosfera se torna tensa e pesada, como se ambos tivéssemos acabado de ter uma briga feia de amigos e nenhum dos dois quer dar o braço a torcer para pedir desculpas.

Jungkook e eu já discutimos algumas vezes por besteiras. Mas sempre fizemos as pazes no mesmo minuto. Agora, mesmo que não tenhamos brigado ou alguma coisa assim, eu não sei explicar porquê sinto essa estranheza entre nós. Tudo escurece e clareia ao mesmo tempo dentro de mim. E eu permaneço calada pelos segundos — talvez minutos, pois quando estamos juntos, o tempo simplesmente parece correr em lentidão — restantes, esperando uma resposta. Mas ela acaba se tornando despedida quando Jungkook levanta de minha cama, arruma os fios de cabelos desgrenhados e desamarrota a camiseta com a ponta de seus dedos, dizendo:

— Outro dia a gente conversa sobre isso. Eu preciso ir. Tenho coisas para resolver. Boa noite, Evaluna.

Jungkook, então, apenas deposita um beijo rápido no topo de minha cabeça,  sua respiração morna de repente colide muito rapidamente em meus cabelos. Em seguida, ele sai de meu quarto fechando a porta um ato silencioso, deixando-me completamente sozinha e confusa no cômodo taciturno. 



Notas Finais


Que ansiedade monstruosa, pelo amor de god😽♥

Se você gostou, deixe um comentário para me deixar mais feliz ainda. Obrigada ♥♥♥♥


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...