1. Spirit Fanfics >
  2. A Cura >
  3. Revés

História A Cura - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, pessoal!
Cá estamos com mais um capítulo

Gostaria de agradecer àqueles que favoritaram e comentaram. O feedback de vocês é muito importante para que eu saiba como adaptar a escrita da melhor maneira possível, por isso, por favor não deixem de comentar

Vamos às notas:
1. Aqui vamos ter vários termos de vôlei, pois vamos tratar de partidas de verdade. Caso tenham alguma dúvida, podem me perguntar. Mas acredito que não seja nada que o anime não tenha mencionado.
2. Nós temos uma playlist para a fic (yay!). As músicas refletem mais a situação dos capítulos posteriores, mas podem ouvir se quiserem. open.spotify.com/playlist/1OBx2aEpCNZsC6Nbxt9NDr?si=kfSNhZYrRc231pfSrFdZXQ
Nos capítulos apropriados vou indicar algumas músicas, mas por ora não temos nada em específico.

Por hoje é só! Espero que gostem do capítulo e boa leitura :)

Capítulo 2 - Revés


Bokuto Koutarou não esperava que o dia 19 de Julho fosse se tornar uma cicatriz tão profunda em seu âmago, entretanto, a fatídica data marcou-o cruelmente, como ferro quente na pele de um gado inocente.

 

“Bro, estou tão animado pra essas partidas começarem!” Bokuto disse para o central da Fukurodani enquanto alongava e relaxava seus ombros e braços.

O capitão não era capaz de ocultar seu entusiasmo com o torneio que se iniciava. Seus pés não permaneciam por dez segundos no chão antes de serem novamente levantados, seu tagarelar tornava-se ainda mais insistente, não deixando com que o silêncio perpetuasse e seus membros superiores sempre em constante movimento, para cima, para baixo e para os lados; incorporando em sua rotina todos os possíveis e imagináveis ângulos de aquecimento. O único órgão de Bokuto que permanecia em foco eram seus olhos áureos, fixos na quadra e na dinâmica dos jogadores ao seu redor como uma ave de rapina a estudar seu próximo alvo de caça. Apesar do aspecto descontraído de Bokuto, sua dedicação à partida era indubitável, capaz de alterar seu humor compenetrado em meros segundos, para logo depois arrancar ainda mais suspiros com seu ofuscante sorriso.

“Cara, os saques deles são fortes,” comentou Kuroo, impressionado com tamanha habilidade e potência do time adversário. “Pobre Yakkun.”

“Oi, Kuroo-kun.” O líbero da Fukurodani chamou sua atenção de forma não muito amigável. 

O tom de voz de Yaku Morisuke, o líbero da Fukurodani, não passou despercebido por Kuroo, que sentiu um calafrio perpetuar-se em seu corpo na chegada do líbero.

“Eu ouvi você insinuar que sou fraco?” Apesar da nítida diferença de tamanho entre os jogadores, Yaku encarou Kuroo como se tivesse seus próprios 180 centímetros de altura. “Saiba que eu vou receber esses saques com tudo que tenho para que possamos conquistar essa vitória!” Orgulhoso e confiante em seu talento, o líbero acertou o próprio punho cerrado contra seu peito.

“Yaku-chan certamente me dá medo com toda essa explosão raivosa.” Oikawa, que estava por perto observando a cena, comentou silenciosamente para si mesmo, aflito de que o líbero pudesse escutá-lo.

Os jogadores de ambos os times endireitaram-se em duas fileiras distintas em cada lado da quadra a fim de cumprimentarem-se e assim anunciarem o início da partida. Um coro masculino pôde ser ouvido, e antes de assumirem suas posições em quadra, seus respectivos técnicos chamaram seus times para uma última conversa.

“Vamos levar esse treinamento a sério. Aceitem essas partidas como uma chance de colocar em prática novas jogadas e aperfeiçoarem não só aquelas já conhecidas, mas também o entrosamento de vocês como um todo.” Kiyoko disse em voz alta, enquadrando subitamente cada um dos jogadores em sua visão, a fim de dar-lhes a atenção necessária. Sua expressão suavizou logo em seguida, seus braços não mais tão tensos ao redor do torso. “Cada um de vocês possui habilidades, mas juntos são capazes de torná-las excepcionais. Lembrem-se disso e vamos lá ensinar como se joga uma partida de voleibol,” terminou o discurso com um discreto sorriso, ajeitando o par de óculos sobre seu nariz.

Encorajados pelas palavras de Kiyoko, o time da Fukurodani exalou um último grito em conjunto e cada um assumiu sua respectiva posição. 

Olhos na bola e concentração em quadra. E assim se deu início o treinamento da Primavera

Ubugawa forçava todos os saques sem um mínimo de esforço, como se todos os jogadores estivessem mais do que acostumados a estapear a bola em todo instante.

Yaku recebeu a bola com excelência, mandando-a para cima devido ao grande impacto.

“Desculpa! Essa subiu demais!” Disse o líbero, nem se importando com a vermelhidão que tomava conta de seus antebraços.

“Não se preocupe, Yaku-chan, eu cuido dessa aqui.” Oikawa o acalmou e posicionou-se exatamente no fim da trajetória da bola, escaneando seus pontas e decidindo quem teria a maior chance de pontuar contra um bloqueio duplo que começava a se estruturar do outro lado da rede.

“Aqui! Passa pra mim, Oikawa! Pra mim!” Bokuto balançava os braços incessantemente, tentando ao máximo chamar a atenção do levantador.

“Aí vai, Bo-chan.” Os pés de Oikawa deixaram o chão por míseros centímetros antes de guiar a bola com suas hábeis mãos, sabendo que seu capitão possuía uma paixão pelas jogadas no ar e mais afastadas da rede. “Marca esse ponto, Ace.

O levantador sabia, assim como o restante do time, como atear seu próprio capitão em chamas.

Sedento pela bola como um cão atrás de um osso lançado a distância, Bokuto pulou sem perder de vista de seu objetivo. Seus olhos instantaneamente detectaram a falha no bloqueio à frente, um espaço livre entre a lateral do corpo do jogador e o início da curvatura de seu braço; uma paralela perfeita.

Bokuto tracionou seu ombro para trás, sorrindo quase que maniacamente. Ele sabia que iria cravar aquela bola na quadra adversária.

A jogada em si durou cerca de milisegundos. A velocidade adquirida pela bola fora demasiada, tornando quase impossível a tarefa de acompanhá-la e deixando explícito tamanha força utilizada pelo capitão no momento do impacto. 

Antes que Bokuto pudesse retornar ao chão, o árbitro já havia erguido seu braço na direção da quadra da Fukurodani, sinalizando a marcação definitiva do ponto.

O Ace cerrou os olhos e ambas as mãos, aproximando-as de seu tronco em um gesto de comemoração.

“Isso!” Bokuto exclamou. “Essa foi incrível, Oikawa!” Estendeu um dos braços na direção do levantador com o polegar erguido, agradecendo-o de certa forma.

“Como você é sujo, Oikawa” Kuroo comentou, mas ao contrário da implicância de sua escolha de palavras, seu tom beirava a brincadeira.

“Eu?” O levantador se manteve estóico, fingindo-se de desentendido. “Como posso dizer…” pausou momentaneamente antes de sua expressão moldar-se em escuridão. “Se eu sei extrair o melhor dos meus queridos colegas, por que não fazê-lo?”

“Hey, hey, Kuroo! Você viu essa jogada?” O capitão perguntou com seu sorriso orgulhoso.

“Foi incrível, Bo. Você foi ótimo.” Não conseguindo conter-se, o central abraçou o capitão pelos ombros e desarrumou alguns fios de cabelo meio prateados, arrependendo-se logo em seguida ao sentir sua mão repleta de gel capilar.

“Agora quem é que está jogando sujo, não é mesmo?” Oikawa comentou sarcasticamente.

“Ubugawa está trapaceando? Sério mesmo?” O olhar alarmado de Bokuto pairava alternadamente entre Oikawa e Kuroo.

“Não, não. Não é disso que estamos falando. É só que…” O central interrompeu sua fala e suspirou, pois sabia que seria inútil tentar explicar algo tão abstrato ao seu capitão. Além de tudo, a possibilidade da história gerar um mal entendimento e causar um alvoroço desnecessário era gigantesca. Por sorte, Bokuto atirou-se na direção da interpretação menos óbvia, mas que mais fazia sentido a ele.

“Já entendi! Eu jogo tão bem que vocês acham que estou fazendo jogadas por baixo dos panos, não é?” Bokuto gargalhou pausadamente. “Vocês são engraçados.”

Kuroo trocou olhares com Oikawa, que simplesmente deu de ombros e ignorou o restante das perspectivas presunçosas de Bokuto.

Fukurodani não ofereceu oportunidades para o time de Ubugawa mostrar ao que veio. A compenetração de todos os jogadores tornava a tarefa do time adversário ainda mais difícil. Por mais que aquela fosse uma partida aberta e descontraída, não era essa a maneira de pensar de Fukurodani. Seus movimentos eram concisos e calculados, com somente pequenos erros ainda a serem trabalhados. O entrosamento dos jogadores fazia com que os espectadores vibrassem, completamente tomados pela emoção e energia advinda daqueles que demonstravam seu melhor na quadra poliesportiva. Com essa mesma disposição, Fukurodani ganhou o primeiro set por 25-14.

“Kenma, você viu como ele voou lá pro alto e bam, cortou a bola com todas as forças! Depois ele se recompôs e zum, saiu correndo de novo explorando o bloqueio e tudo mais! E aquela que ele enganou todo o time para no final só largar a bola na quadra de Ubugawa!” Na arquibancada, Hinata Shouyou era quem mais se empolgava com as jogadas bem executadas de Bokuto. Seus olhos enchiam-se de admiração pelo Ace e seu corpo expressava as emoções conforme se fazia necessário libertar todos aqueles sentimentos ebulindo dentro do pequeno central. 

“Você se quer prestou atenção na partida, Kenma?” Hinata colocou-se entre o videogame e Kenma, forçando-o a olhar para ele. 

Kenma Kozume, o levantador de Nekoma, suspirou. “O jogo não acabou ainda, Hinata-kun,” ao ver que Hinata continuaria ali o observando se não respondesse sua pergunta, Kenma continuou. “E sim, Bokuto-kun é um jogador excelente. Não é a toa que está atualmente entre os cinco melhores jogadores dos colégios no Japão.” 

Satisfeito, Hinata jogou-se contra a fria arquibancada, grunhindo desafinadamente. “Eu sei, ele é incrível!” O jogador da Karasuno se recompôs rapidamente. “Ei, Kenma. Você acha que um dia eu vou ser tão bom quanto ele?” 

Kenma assentiu discretamente, poupando-se de utilizar palavras.

Antes que Hinata pudesse celebrar o quase elogio, Kageyama estourou sua bolha de entusiasmo. 

“Obviamente você ainda tem que trabalhar muito pra chegar no nível daquele cara, mas pelo menos a personalidade já é bem semelhante.” De braços cruzados, o levantador da Karasuno murmurou. 

“O que você quis dizer com isso, Bakageyama!?” Hinata levantou-se, pronto para pular em cima de Kageyama se assim desejasse sua raiva.

“Exatamente o que eu disse, idiota. Se não entendeu é melhor limpar esses seus ouvidos ou se olhar no espelho.” O comentário só serviu para deixar Hinata ainda mais irritado, que deixou-se levar pela emoção e aproximou-se de Kageyama para atormentá-lo.

Nitidamente incomodado com o estardalhaço logo ao seu lado, Kenma suspirou novamente e voltou a dedicar sua atenção e tempo ao seu jogo.

“Vai começar o segundo set,” anunciou o levantador da Nekoma.

De alguma forma, Kageyama fez com que Hinata retornasse ao seu lugar, ajeitando seu próprio cabelo e dando um único tapa atrás da cabeça do central. “Vê se presta atenção no jogo, daqui a pouco seremos nós no lugar da Ubugawa.” 

Hinata condensou todos os seus sentimentos em um único gesto ao mostrar sua língua de maneira infantil para o companheiro de equipe. “Não pense que vou assistir só porque você falou. Estou fazendo isso por querer ganhar deles.” 

O segundo set não foi muito diferente do primeiro. O ritmo imposto pela Fukurodani se manteve íntegro até o encerramento oficial da partida. Apesar da dificuldade na recepção, Yaku excedeu as expectativas e teve uma atuação digna de uma partida oficial, demonstrando o resultado de seus árduos treinamentos com reflexos apurados e decisões impulsivas, porém audaciosas. Kuroo também recebeu destaque e estimo daqueles que o assistiam. Apesar do bloqueio ser um dos pontos fortes de Ubugawa, junto ao saque, Kuroo demonstrou destreza ao desviar as jogadas adversárias e impedir com que a bola atingisse o chão. 

Depois de marcar o ponto da vitória e ter cumprimentado os jogadores adversários, o time da Fukurodani dispersava-se ligeiramente, tentando recuperar parte da energia gasta para a próxima partida contra Karasuno.

“Parabéns,” Kiyoko ovacionou seus jogadores, aproveitando enquanto Ubugawa terminava sua derrotada volta de peixinho pela quadra para dizer algumas palavras. “Vocês todos fizeram uma ótima partida e se esforçaram bastante. Mas não vamos perder esse ânimo, temos 10 minutos até que o time da Karasuno esteja em quadra.” A técnica pegou sua prancheta e direcionou-se até cada jogador, apontando alguns de seus erros e também cumprimentando-os pelas jogadas bem executadas.

“Bro, eu realmente quero jogar contra aquele baixinho.” Bokuto, que agora estava inteiramente arremessado ao piso frio, fitou o melhor amigo com uma expressão fervorosa. 

“Eu ouvi falar que eles estão treinando pra valer e têm várias jogadas novas interessantes.” Kuroo esguichou água de sua garrafa para o interior de sua boca e limpou o suor acumulado em seu rosto com a camiseta.

“Legal! Agora eu realmente quero jogar contra eles.” Foi como se Kuroo tivesse acabado de encharcar de gasolina um fogaréu.

“É só uma partida treino, vê se não exagera, Bo.” Kuroo deu um tapa amigável nas costas do capitão e levantou-se ao ouvir seu nome ser chamado por Kiyoko.

“Não se preocupe, Bro! Eu consigo dar conta!” Bokuto reanimou-se, respirou fundo e desencostou as costas do chão, sentindo falta da sensação do piso frio de encontro a sua pele abrasadora. Yosh’!” Enquadrou o próprio rosto com ambas as mãos, tapeando suas bochechas de leve antes de sentir-se energizado novamente. Era como se Bokuto não fosse fisicamente capaz de desligar-se, mantendo-se sempre atento; um turbilhão de diferentes sensações e sentimentos percorrendo por sua mente e corpo a todo instante.

Karasuno entrou na quadra ligeiramente intimidados pela presença dos jogadores da Fukurodani, mas ao mesmo tempo confiantes, não permitindo com que o medo ultrapasse a vontade de vencer e de estar no topo. Tudo o que o time da Karasuno desejava era superar o passado assombrado pela Seijoh e erguer-se novamente, atribuindo para si o símbolo de regeneração ostentado pelo corvo na mitologia antiga.

“Tobio-chan, eu espero que você tenha aprendido alguma coisa nesse tempo que passou desaparecido.” A rotação de ambos os times fez com que Kageyama e Oikawa se encontrassem na rede, já trocando farpas através de um simples contato visual.

“Acho que você vai ter que ver pra aprender, Tooru.” Retrucou o levantador da Karasuno, compartilhando do mesmo sentimento internalizado de ódio e também de extrema competitividade. 

O impasse entre Oikawa e Kageyama estabeleceu-se tempos atrás, através da inveja de ambos, por mais que não admitissem. Oikawa sentia-se ameaçado pelas habilidades que o levantador mais jovem apresentava a cada partida; seu potencial era inegável e incomparável e Oikawa temia pelo dia em que seu posto de rei fosse tomado pelo levantador mais novo. No entanto, Kageyama carecia de versatilidade e experiência, atributos os quais Oikawa esbanjava e não importava-se em esconder, muito pelo contrário, o levantador da Fukurodani tinha plena consciência de que era um jogador excelente, e  fazia questão de que todos soubessem também. E era exatamente isso que fazia o sangue de Kageyama ferver.

Bokuto tomou sua posição na ponta oposta de Oikawa após ter vencido o cara ou coroa e ter optado por deixar com que Karasuno iniciasse os saques.

“Faça esse time rodar pra eu te ver jogar, Chibi-kun!” O capitão gritou, acenando com as mãos na direção de Hinata.

“Você consegue, Asahi-san!” O líbero, Nishinoya Yuu, encorajou seu Ace, Asahi Azumane, que quicava a bola na frente de seus pés, aguardando ansiosamente pelo apito do árbitro. 

Apesar das lições aprendidas por Tsukishima ao treinar com o time da Fukurodani, estar frente a frente com seu Ace era deveras intimidador. A energia que sobressaia pelos poros da pele de Bokuto o fazia praticamente cintilar. Tsukishima jamais havia enfrentado um jogador de patamar tão nitidamente elevado, quase injustamente desbalanceado. O desafio subentendido na possibilidade de parar um ataque daquele nível dava motivava Tsukishima a estar ali e encarar a proposta com um sorriso sagaz.

Mas mesmo estando ciente das prováveis jogadas, mesmo sendo capaz de ler alguns dos olhares de Oikawa e decifrar as intenções de Bokuto, o primeiro ponto foi para a Fukurodani. 

No início, Karasuno parecia desestruturada e totalmente fora da sincronia que esperava-se de um time de vôlei. Era claro que para eles este treinamento de primavera estava sendo utilizado com o propósito original, sem carregar nos ombros o peso de uma partida oficial. Os saques, embora fortes, não possuíam um alvo definido; os levantamentos eram imprecisos, assim como as jogadas ensaiadas e as cortadas, quando tinham a fortuna de acertá-las. Ainda assim, os jogadores da Karasuno não se davam por vencidos, como se cada erro os incentivasse a lutar ainda mais pelos pontos necessários para alcançar Fukurodani no placar, que já era de 10-4.

Entretanto, quando Hinata estava em campo, todo o time da Fukurodani percebia a mudança de ritmo. O central fazia com que as engrenagens se encaixassem melhor pela sua mera presença. Ele por si só era capaz de levantar o time da Karasuno e oferecer ao conjunto um espírito de luta ainda maior.

A partida mudou completamente no instante em que Bokuto presenciou o poder do aprimorado ataque rápido da Karasuno.

O curto rally teve um começo normal, no qual Fukurodani fez um saque forçado e a bola foi recebida com facilidade por Nishinoya. Porém, a movimentação precoce de Hinata indicou que algo naquela jogada seria diferente das demais já feitas pelo time. Antes que a bola pudesse encostar nos dedos de Kageyama, o pequeno central pôs-se a correr a toda velocidade, pulando antes mesmo do toque do levantador. A trajetória da bola não seguiu a parábola conhecida por todos, como se Hinata soubesse previamente o local no qual a bola congelar-se-ia no ar. Ela permaneceu estática, mas ainda em rotação, desafiando as próprias leis da física. O central, agindo agora como ponta, acertou a bola em cheio, cravando-a no chão da quadra da Fukurodani. 

O que mais impressionou o time da Fukurodani não foi o levantamento de Kageyama ou a habilidade de Hinata em correr contra o tempo, mas sim os míseros segundos nos quais a jogada foi realizada.

“Uau! Isso foi incrível, Chibi-kun!” Bokuto, ainda desacreditado com o ponto marcado, elogiou o adversário.

“Você realmente achou!?” O capitão concordou com a cabeça. “Eu corri lá do fundo e depois a bola do Kageyama parou exatamente na minha frente, do jeito que a gente treinou. Isso foi demais!” Hinata pulava de alegria com os olhos até marejados de emoção.

“Oikawa, podemos fazer essa jogada também? Por favor?” Bokuto caminhou até seu lavantador, puxando a manga de sua camiseta e torcendo os lábios em um bico, tal qual uma criança pedindo um favor aos pais.

A resposta de Oikawa se deu na forma de um tapa na mão de Bokuto. “Pare de brincar, Bokuto-chan. Nós ainda temos um jogo pra ganhar, se lembra?” Sua feição era compreensiva e pacífica, mas todos sabiam que internamente Oikawa desejava nada mais do que usar a cabeça de Bokuto como sua bola de vôlei pessoal.

“Está bem, está bem,” Bokuto repetiu o mantra ao adequar-se em sua posição novamente, desolado por não ter sua requisição atendida.

Infelizmente, Karasuno não teve tempo de testar um próximo ataque, pois o time da Fukurodani apressou-se em tomar as rédeas da partida mais uma vez.

O placar indicava quase o fim do primeiro set, 22-12. Karasuno tinha um desempenho ainda pior do que Ubugawa, refletindo a quantidade de erros e incoerências que tomaram conta da partida desde o apito inicial. No entanto, era claro que o time detinha um potencial em ascensão; os corvos estavam lentamente mostrando suas asas e preparando-se para levantar voo.

Yamaguchi Tadashi nunca se destacou como jogador de vôlei, suas habilidades não eram comparáveis a nenhum dos demais colegas de time. Os ataques eram previsíveis, as defesas medíocres e os saques fracos, sem paixão nem vontade. Porém, Yamaguchi foi o único capaz de desestabilizar o time da Fukurodani através de seu saque viagem.

O garoto já era considerado o melhor da partida com uma sequência de dois pontos seguidos. As sardas ao redor das maçãs de seu rosto coloriam-se com o fundo avermelhado, oriundo tanto do nervosismo quanto da excitação de Yamaguchi. 

Foi então que o terceiro saque entrou novamente e desestruturou Fukurodani de maneira estrondosa, com consequências as quais perpetuariam-se por vários meses que viriam a seguir.

A recepção assustada de Yaku inclinou a bola em um ângulo diferenciado, fazendo-a ir na direção das arquibancadas laterais ao invés do recebimento perfeito que a impulsionaria para cima. Oikawa correu para buscá-la como pôde, pois sabia que não poderiam desperdiçar um ataque sequer. Além disso, o levantador tinha plena consciência de que seu capitão estava ficando um tanto quanto irritado com os pontos da Karasuno. E acredite, nenhum jogador gostaria de lidar com as drásticas mudanças de humor de Bokuto.

A trajetória da bola continuou difusa, flutuando com demasiada velocidade por conta de tamanha força contida no toque do levantador em uma tentativa de consertá-la. Mesmo assim, Bokuto aceitou o desafio e colocou-se responsável por fazer a pequena esfera cair na quadra adversária.

“Bokuto, você não vai conseguir cortar essa, só devolva pra eles!” Yaku o alertou, observando o desastre se desenrolar diante de seus olhos.

Apesar de estar com a visão em foco, Bokuto foi pego de surpresa pela maneira estranha com que a bola atravessava a quadra. Seu corpo contorceu-se enquanto um dos pés ainda permanecia ao chão antes de dar o impulso necessário para o pulo. Todos os seus membros esticaram-se ao máximo e. quase milagrosamente, Bokuto conseguiu a maestria de tocar sua mão na bola e fazê-la cruzar a rede. Desequilibrado, o corpo de Bokuto ia de encontro ao chão, no entanto, seus pés ainda tentaram um último contato com o chão a fim de atenuar o impacto.

Foi então que Bokuto sentiu uma das piores sensações de toda sua vida, como se tivessem corroído seu tecido muscular e ossos com ácido e separado cada uma das partes bruscamente. O capitão surpreendeu-se por um instante, ouvindo um alto estalo de seu joelho, e em seguida sua expressão só era capaz de demonstrar sinais de dor. Suas mãos instintivamente deslizaram até o local no qual o incômodo se intensificava a cada segundo decorrido.

O jogo havia sido paralisado e Kuroo o primeiro a correr na direção do capitão totalmente imóvel ao chão.

“Bokuto, você está bem?” O central repousou uma das mãos no ombro do capitão, sua expressão repleta da mais sincera preocupação.

“Eu…” Bokuto respirou ofegante, forçando os lábios a formarem um sorriso fraco, falacioso. “Estou bem, ótimo até! Por que interromperam a partida?” Fingiu desentendimento.

“Você está machucado, Bokuto-san.” Oikawa atestou sem ceticismo.

“Machucado? Não, eu estou bem.” O capitão desmentiu a afirmação do levantador, porém em sua voz trêmula não haviam traços de confiança algum.

“Então se levante.” Com os braços cruzados e uma expressão irritada, Oikawa praticamente ordenou.

“Tá,” Bokuto apoiou ambas as mãos no chão para apoiar-se e dobrou a perna esquerda, aquela que não latejava como uma enxaqueca agressiva. 

Ao tentar impulsionar sua pretendida ação com o pé direito, Bokuto sentiu uma aguda dor invadir cada centímetro de seu joelho direito, forçando-o a cair de encontro ao piso frio novamente.

Kiyoko assistia a cena à distância, e assim que o Ace caiu ao tentar endireitar-se, sabia que uma intervenção era de extrema necessidade. 

“Alguém chame uma ambulância, por favor. Precisamos levá-lo para um pronto-socorro o quanto antes.” Nunca os jogadores da Fukurodani ouviram um tom tão desesperador de sua técnica. “Qual o hospital mais próximo daqui?” Seus olhos silenciosamente suplicavam por respostas em seus jogadores.

“Kiyoko-chan,” Oikawa a tocou nos ombros. “Vamos levá-lo para o Iwaizumi, tudo bem? Vou ligar pra ele e avisar que estamos à caminho.” Tentou tranquilizá-la ao máximo, mas ao ver sua postura ainda tensa, decidiu continuar. “Não se preocupe, o Iwa-chan é o chefe da ortopedia, vai saber como cuidar do Bokuto-chan e deixá-lo novo em folha.” Oikawa sorriu ao perceber os ombros de Kiyoko relaxando no decorrer de sua fala.

“Obrigada, Oikawa-san,” agradeceu honestamente. Após soltar um fraquejado ar dos pulmões, virou-se para Kuroo.

“Consegue carregá-lo? A ambulância já deve estar vindo.” Kiyoko olhou o estado de Bokuto e não conseguiu deixar de sentir uma enorme pena pelo estado debilitado do capitão.

Bokuto deitou sua cabeça na perna de Kuroo depois de um tempo, simplesmente aceitando a derrota de seu corpo e tentando ao máximo evitar os pensamentos sobre a dor sentida pelo jogador de maneira tão intensa e profunda.

“Aposto que é só um músculo estirado. Você vai se recuperar rapidinho, Bo.” Comentou Kuroo, tentando convencer tanto Bokuto quanto ele mesmo de que a lesão seria passageira.

“É claro que vou! Você acha que vou deixar você brilhar nas eliminatórias e no torneio nacional sozinho?” Retrucou o capitão.

Quando a ambulância fez-se presente, Kuroo carregou Bokuto em suas costas até o veículo; o joelho direito do capitão notoriamente mais inchado e avermelhado em comparação com o esquerdo, agravando sua tarefa de tentar manter-se de pé. Ambos juntaram-se a Kiyoko, Oikawa e Yaku, aqueles que ansiavam por um diagnóstico de seu capitão. Os paramédicos fizeram diversas perguntas, tanto a Bokuto quando aos demais, e por fim decidiram por somente imobilizar a perna direita do Ace em busca de minimizar o incômodo sentido e impedir que o estrago fosse ainda pior.

“Eu já liguei para o Iwa-chan, ele vai estar nos esperando quando chegarmos.” Oikawa assegurou.

“Ei, Oikawa.” Bokuto chamou-lhe. “Eu espero que esse seu namorado seja bom, quero estar 100% disposto para o próximo jogo,” ele forçou uma curta risada.

O levantador bufou em resposta. “Se tem alguém que pode te consertar é o Iwa-chan. Ele é tão bom médico quanto eu como jogador.” As bochechas de Oikawa coraram discretamente ao proferir elogios ao namorado.

“Se isso for realmente verdade, tenho certeza que Bokuto estará em boas mãos,” afirmou Yaku, atribuindo para si a responsabilidade de manter as emoções alheias, e até mesmo a sua própria, sob controle.

Assim que a ambulância chegou ao hospital, um homem vestindo um jaleco branco de cabelo castanho-escuro e feição séria aguardava por eles.

“Iwa-chan!” Oikawa desceu do veículo antes dos demais, correndo na direção de Iwaizumi com os braços abertos.

No entanto, o médico impediu suas ações com uma simples mão em seu peito. “Agora não, Shittykawa. Me conte o que aconteceu enquanto vamos para dentro.”

Aqueles presentes descreveram a cena como puderam, complementando pedaços de informações faltantes nas histórias uns dos outros e auxiliando Iwaizumi a montar uma casuística o mais fidedigna possível. Mesmo com os relatos desesperados, o médico ainda não conseguia ser assertivo em relação ao diagnóstico de Bokuto, e logo o encaminhou para uma bateria de exames de imagem.

Na sala de espera, os quatro integrantes da Fukurodani aguardavam notícias sobre o estado atual de seu capitão. Oikawa andava de um lado para o outro, simplesmente atordoado pela própria ansiedade que o levava a corroer os cantos dos dedos e até suas próprias unhas. Yaku sentava ao lado de Kiyoko, distraindo-a da situação atual através de conversas mundanas, mas sempre atento às expressões da técnica. Kuroo encontrava-se de pé, ligeiramente mais afastado do restante de seus companheiros, fitando o movimento das pessoas e da natureza no ambiente externo ao hospital.

“Eu espero que ele esteja bem.” O central disse ao ver o reflexo da figura de Oikawa se aproximar. Kuroo suspirou, forçando a palma de suas mãos contra seus olhos. “Quem estou querendo enganar? É óbvio que ele não está bem, Bo nem conseguia colocar o pé no chão de tanta dor,” sua voz fraquejou, como se estivesse a beira de um colapso emocional.

“Todos nós sabemos que ele não está bem e que provavelmente isso vai tirá-lo das quadras por um tempo.” Oikawa vocalizou o que todos tinham medo de dizer. “A questão é que agora precisamos ajudá-lo a superar isso,” apertou um dos ombros de Kuroo, oferecendo um gesto de compreensão.

“Isso vai acabar com ele, Oikawa.” Kuroo encarou o rosto do levantador por um tempo, seu rosto nitidamente em sofrimento pelo amigo.

Oikawa entreabriu os lábios para responder ao central, mas ao ver seus olhos alarmarem-se e mudar de direção, virou-se para encarar o olhar sério de Iwaizumi.

O médico pigarreou desnecessariamente, pois todos os olhares voltaram-se para sua figura no instante em que apareceu. 

“Eu analisei os exames de Bokuto e ele rompeu o ligamento cruzado anterior junto de uma lesão no menisco, provavelmente pelo impacto quando caiu. Eu já o encaminhei para a sala de cirurgia para reconstituirmos os danos e prevenir que outros aconteçam.” Com ambas as sobrancelhas franzidas, Iwaizumi respirou fundo. “Eu temo que Bokuto não vai poder retornar às quadras por um tempo.”


Notas Finais


¹Yosh': "Legal"; "Lá vou eu" - no sentindo de incentivo próprio no caso do trecho
²Rally: conjunto de ações que ocorrem desde o apito do árbitro autorizando o saque até o momento em que a bola é considerada fora de jogo

Será que vai ficar tudo bem com a nossa corujinha?

Eu amo o Bokuto, ok? Mas tenho uma pequena tendência a fazer os personagens que eu amo sofrerem. No final fica tudo bem, juro!

O próximo capítulo é enorme, então preparem-se!
Espero que tenham gostado e até semana que vem


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...