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História A dama de branco - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Olá leitorxs 💙

Alguns avisos sobre essa estória:

*A fic gira em torno de assuntos bem sensíveis, então é bom avisar desde agora (violência contra a mulher, assassinato)

*Eu meti o Rie no meio dessa confusão porque tá difícil escrever esses dias sobre alguém que não seja do OnlyOneOf, mas ele não é o personagem principal, infelizmente ;-;

*Essa estória é levemente baseada no filme 'O último capítulo' - levemente, porque toda vez que eu me baseio em algo, sempre sai totalmente diferente kkkkkk

Mas enfim, espero que gostem 💖

Boa leitura!!!

Capítulo 1 - Capítulo - I


Fanfic / Fanfiction A dama de branco - Capítulo 1 - Capítulo - I



"Eu sou aquela que você não pode ver

Sou aquela que você não pode ouvir

Sou aquela que está escondida no canto de suas lágrimas"






Outubro de 1986



Lisa entrelaçou os dedos postos sobre o tecido justo de sua saia. Estava nervosa e o silêncio que rondava a pequena sala não estava ajudando ela a se manter calma. Os olhos esverdeados vagando entre os quadros pendurados nas paredes e nas figuras das duas mulheres sentadas de frente para si, com seu currículo nas mãos, lendo o papel como se ele fosse um pedaço de carne e elas, duas leoas famintas.


- Aqui diz que a senhora tem um filho - disse uma das mulheres, sentada na poltrona do lado esquerdo.

Lisa engoliu em seco.

- Quantos anos tem a criança?

- Cinco - Lisa respondeu. O olhar firme na remetente da pergunta.

As duas mulheres se entreolharam por um curto instante e depois olharam para Lisa.

- E o pai da criança?

- Morreu - era mentira, mas Lisa julgou que essa resposta encerraria aquela pauta - quando minha filha nasceu.

- Nossos pêsames - a mulher da poltrona à direita, disse.

- Mas e a escola da criança? Não há escolas por perto naquela região.

- Eu posso ensiná-la em casa.

- A senhora tem ciência de que esse emprego exige uma dedicação de quase 24 horas por dia, não tem? - Lisa anuiu com a cabeça para a mulher - Não acha que uma criança pode acabar lhe distraindo das obrigações?

Lisa negou com firmeza.

- Minha filha é uma criança introspectiva, ela não gosta de barulho ou de lugares cheios. Acredito que esse trabalho é perfeito para nós duas, porque eu posso trabalhar enquanto ela pode ler ou brincar em silêncio.

As duas mulheres se entreolharam outra vez.

- Olhe, Lisa, eu realmente gostei do seu currículo, você é jovem e formada e tem disposição para se mudar para o interior, mas eu preciso ser sincera com você, a paciente requer muita atenção e os cuidados com a casa também precisam ser redobrados, não acredito que você dará conta de tudo ao mesmo tempo que cuida de sua filha.

Um aperto no peito fez Lisa arfar. Ela precisava daquele emprego, tinha acabado de ser demitida do hospital onde trabalhava desde que se formou, por falta de verba no lugar. O anúncio com aquela vaga no jornal não atraiu Lisa de imediato, pois os requisitos da vaga exigiam que ela e a filha se mudassem para outra casa, no interior da cidade, contudo, depois de se candidatar a todas as vagas de emprego que viu pela frente e não conseguir ser aceita em nenhuma, completando quase um mês sem receber salário e pagando as contas com as economias, o desespero falou mais alto e Lisa se viu anotando o número do telefone no anúncio do jornal e agendando uma entrevista.


- Nós três nos daremos super bem - Lisa disse convicta.

As duas mulheres sorriram.

- Então arrume as malas, Lisa, nós passaremos para buscá-las amanhã pela manhã.

Com um sorriso largo, e sem o peso que parecia esmagar-lhe o peito, Lisa apertou a mão das duas mulheres e saiu da sala.




O sol das 10hrs00 banhava as ruas, inundando as calçadas com seu calor morno, típico da primavera.

Lisa empurrou a porta e ouviu o sino preso à madeira tocar, anunciando sua chegada. Avistou Annabeth sentada em cima do balcão de madeira da livraria, segurando um livro nas mãos e balançando os pés suspensos do chão. Lisa foi até ela e depositou um beijo no topo de sua cabeça. A menina sorriu e a olhou rapidamente e logo voltou a atenção ao livro.

- Você já chegou? - Roberta vinha dos fundos da loja, com uma caixa de papelão nas mãos - Como foi lá?

Lisa sorriu para a amiga, que tratou de pousar a caixa no chão e correr para abraçá-la.

- Você conseguiu! - Roberta pulava com Lisa nos braços.

Mas o sorriso de Roberta se esmoreceu rapidamente. Disse:

- Isso significa que vocês duas vão se mudar em breve, não é?

Lisa ajudou a amiga a carregar a caixa pesada até uma das estantes da livraria.

- Vamos viajar amanhã.

- Como? Por que tão de repente?

- Estão precisando que eu vá amanhã, pois a outra enfermeira que está lá irá embora amanhã também - Lisa viu o semblante triste no rosto da morena -. Sabe que eu preciso disso, não sabe?!

- Sei, e é só por isso que te deixei se candidatar a essa vaga.

Lisa deu outro abraço na amiga, agradecendo por todo o cuidado que sempre tivera para com ela e a filha.

- Eu vou fechar a loja e ir ajudar vocês com a mudança.





Annabeth segurava um pirulito na mão destra enquanto jogava as pelúcias dentro de uma caixa com a mão desocupada. Pegou apenas as que considerou imprescindíveis para a viagem e foi ajudar a mãe a arrumar as roupas que iriam levar.

Na sala, Roberta empacotava alguns livros que Lisa disse querer levar.

- Eles te deram mais alguma informação sobre a paciente? - Indagou Roberta, passando a fita adesiva na caixa.

- Não muitos, só que ela era escritora - Lisa vinha do quarto, arrastando uma caixa pelo piso com o pé.

- Nossa! Será que é famosa?

- Não sei.

- Imagina se você está indo tomar conta da Adélia Prado e não sabe disso - Roberta sorriu animada.

Lisa deu risada da animação de Roberta, mas tratou de voltar ao que fazia e foi terminar de guardar as roupas.


∆∆∆



Se despediu de Roberta na porta de casa, às 05hrs30 da manhã. Annabeth ainda dormia, então repousou a menina no banco de trás e foi no banco da frente, ao lado de uma das mulheres que realizou a entrevista de emprego.

O carro seguiu pela autoestrada, atravessando as curvas das colinas e passando quase duas horas em meio ao verde que rodeava a paisagem na beira da estrada.

Fazia frio.

- Vocês irão gostar da casa, é velha, mas bem cuidada e o jardim é muito bonito - dizia a mulher ao volante.

Lisa a observou. Seu nome era Alice Sanchez, e ela aparentava ter entre trinta e sete ou trinta e oito anos; tinha os olhos amendoados e as íris castanhas e os cabelos crespos tingidos de loiro mel, e seu perfume cheirava a café.

- Sua mãe costuma passear pelo jardim? - Lisa perguntou.


- Não, a Sra. Haruno é mãe de Yumi, minha esposa, e não, ela não sai da casa… tem dias que ela sequer sai do quarto.

- Ah! - Lisa exclamou.

Yumi Haruno era a outra mulher na sala, que olhou para Lisa durante toda a entrevista, analisando-a da cabeça aos pés.


O carro parou frente ao muro de uma casa.

- Chegamos - Alice disse.

Antes de tirar as caixas e a única mala de roupas que trouxe do porta malas, Lisa varreu os olhos ao redor, notando que não havia outras casas por perto, somente árvores e mais árvores e a estrada de terra logo à frente.

- É bem afastado, não é? - Alice desceu do carro - Mas não se preocupe, a vila fica a meia hora de distância e o telefone sempre funciona.

Lisa assentiu, com um sorriso fraco nos lábios. Não conseguiu esconder, estava preocupada, não por ela, mas pela filha.

Pegou Annabeth no colo, sem querer acordá-la, mas a menina abriu os olhos e a olhou.

- Nós chegamos, mamãe? - Sussurrou com voz de sono.

- Chegamos, olhe! - Lisa disse em tom animado.

Annabeth olhou em volta da mãe, viu as árvores e as flores que cresciam nos pés do muro de pedras acinzentadas que rodeava a casa. Sorriu, ela amava flores, mas não as via com tanta frequência na cidade.

- Vamos entrar - Alice disse.

Elas passaram pelo portão de ferro e adentraram no jardim da frente. Não era muito grande, mas também não era pequeno, e por ser primavera todas as flores nos canteiros e nos arbustos estavam desabrochando, colorindo o verde que se espalhava até a varanda da casa, e perfumando o ar.

Subiram na varanda, onde Alice tirou os sapatos e os colocou no canto da porta. Lisa fez o mesmo com os dela e o da filha. Alice girou a maçaneta e abriu a porta da frente.

- Elas devem estar lá em cima - Alice disse e foi para o cômodo ao lado da sala.

Lisa não sabia se devia seguir a mulher, então apenas esperou na sala, colocando a filha no chão. Ela analisou o cômodo, bem organizado e iluminado pelas enormes janelas de madeira e vidro. Havia uma estante de livros em uma das paredes, um sofá de aparência antiga, mas bem cuidada, uma mesa de centro, duas poltronas e uma televisão velha sobre uma mesinha de mogno no canto, de frente para o sofá.

- Você prefere chá ou café? - Alice surgiu na porta, que agora Lisa tinha certeza que levava à cozinha.

- Café, por favor!

- Certo, e a pequena?

- Um copo de leite está bom.

Alice sorriu e sumiu outra vez pela porta.

Lisa ouviu ruídos vindos do andar de cima, por entre o forro de madeira no teto da sala. Ela se moveu pela sala e viu o corredor ao lado que dava acesso às escadas para o andar superior. Ouviu o ranger de um dos degraus e se virou rapidamente para o outro lado. Uma mulher desceu as escadas, trajando um terninho azul escuro, com os cabelos pretos amarrados para trás e as mãos alisando a barra da saia.

- Deve ser a nova enfermeira. - A mulher disse, fazendo Lisa se virar em sua direção - Muito prazer!

- Me chamo Lisa, muito prazer! - Lisa apertou a mão da mulher, com um sorriso cordial em seus lábios finos.

- Matilda - a mulher retribuiu o sorriso -. A Sra. Haruno já acordou e está esperando lá em cima.

Lisa se sentiu nervosa.

Não era a primeira vez que tomava conta de um idoso, pois era especialista em geriatria, contudo, era a primeira vez que sua vida inteira dependia de permanecer ou não com uma vaga de emprego, e isso realçava seu nervosismo e insegurança.

Suas mãos começaram a tremer.

Olhou para a filha, sentada no sofá, movendo os pés que não chegavam a tocar o chão, olhando de volta para a mãe.

- Eu já volto filha - Lisa disse e acompanhou a mulher pela escada.

O corredor no andar de cima era tão iluminado quanto a sala, com várias janelas e molduras de quadros espalhados pelas paredes, ele ligava os quartos, os dois banheiros e a sacada. A mulher entrou no quarto do lado direito do corredor, Lisa foi logo atrás.

Diferente dos outros cômodos, o quarto estava escuro, banhado pela pouca luz que adentrava pelas frestas da cortina na janela. O quarto era grande, com uma cama de solteiro próxima à janela, uma penteadeira ao lado da cama, um armário na parede de frente para a porta e uma estante de madeira, com as prateleiras repletas de livros. Lisa avistou a senhora sentada na penteadeira, alisando os fios esbranquiçados enquanto se olhava no espelho.

- Bom dia! - Lisa sorriu - É um prazer conhecê-la, sra. Haruno!

A mulher, vestida com um casaco rosa por cima da camisola azul, não se virou na direção de Lisa, continuou a se olhar no espelho e a pentear os cabelos.

- Ela parou de falar faz pouco tempo - Matilda, ao lado de Lisa, disse -, agora ela malmente resmunga quando quer ir ao banheiro ou beber água.

Lisa balançou a cabeça. Já tinha lidado com situações parecidas.

- Ela já tomou o café da manhã e os remédios. Venha, irei mostrá-la o restante da casa.

Antes de sair do quarto, Lisa disse:

- Eu já volto para vê-la, sra. Haruno.


Haviam três quartos no corredor, dois com camas de solteiro e um com cama de casal; um armário onde ficavam guardados objetos de decoração antigos, no final do corredor, que ficava com a porta trancada; dois banheiros, um com banheira e o outro apenas com o chuveiro. No andar de baixo ficava a sala, a cozinha e a lavanderia, e a porta da cozinha levava ao quintal, que era menor que a área da frente. Havia dois pés de árvore nos fundos, próximos ao muro, que era mais alto no quintal.

Matilda entregou as listas com os horários e os nomes dos medicamentos que a sra. Haruno tomava, assim como a lista com os horários que as atividades e os afazeres da casa deveriam ser realizados. Informou sobre como funcionava a despensa, o fogão e a água quente das torneiras e dos chuveiros, e alertou Lisa sobre se lembrar de sempre fechar as portas e janelas ao entardecer, pois os mosquitos apareciam àquele horário e eram bastante incômodos.

Lisa absorveu tudo, com o máximo de atenção. Anotou mentalmente os macetes para ligar e desligar alguns interruptores que estavam dando defeito, e sobre a máquina de lavar que era antiga e engenhosa. No final das explicações, sua cabeça pulsava, fervilhando os neurônios que trabalhavam feito loucos para memorizar todos os detalhes.



Na sala, Alice e Annabeth tomavam café, a mais velha com uma xícara de chá de jasmim e a menina com um copo de leite e um biscoito preso entre os dentes.

- O café já deve ter esfriando - Alice disse, fazendo menção para que as duas se sentassem no sofá ou na poltrona -. Você a conheceu?

- Sim - Lisa se serviu de uma xícara de café.

- Você já sabe sobre os horários dos remédios e das refeições?

Lisa balançou a cabeça, afirmativamente.

- Eu só tenho uma dúvida - Lisa olhou para Alice e depois para Matilda, sentada na poltrona ao lado -, é sobre as escadas, não é perigoso para a sra. Haruno?

- Ela quase não sai do quarto e quando sai, só vai à sacada e volta. As refeições são feitas nos aposentados dela também, como a sra. Miranda deve ter dito. Mas ela ainda está em boa forma, conseguiria subir e descer os degraus numa boa, caso quisesse, o problema é sua mente, ela não é a mesma faz muito tempo e a cada dia, aparenta ficar mais e mais distante da sanidade. O diagnóstico médico está na ficha que recebeu, conseguirá mais detalhes nele.

Lisa anuiu e olhou para a pilha de papéis que deixou sobre a mesa de centro.

- A filha dela virá mais tarde? - Lisa bebericou o café, estava doce de mais para o seu gosto.

- Não, Yumi está ocupada com o trabalho e ela também não vem muito aqui… - Alice suspirou -, ela e a mãe nunca tiveram uma boa relação, entende?! A sra. Haruno passou a vida escrevendo livros e esqueceu da própria filha, mas não se preocupe, todos os detalhes importantes estão nas fichas e a sra. Miranda pode responder às suas dúvidas.

Lisa balançou a cabeça outra vez.


Logo deu meio-dia.


O almoço foi preparado pela mais velha, com o auxílio de Lisa. Alice e Annabeth continuaram na sala, volta e meia Lisa ouvia a voz da menina, conversando com Alice.

Sra. Haruno permaneceu no quarto, em silêncio. Lisa subiu cinco vezes as escadas para ver como ela estava e para saber se não precisava ir ao banheiro.

Matilda foi quem deu o almoço para a senhora em seu quarto. Lisa, Alice e Annabeth comeram na cozinha.

Às 15hr00, Alice e Matilda foram embora, avisando que o número do telefone para ligar caso alguma urgência surgisse estava no bloco de papel na mesinha do corredor entre a cozinha e a sala, aos pés do telefone, que ficava preso à parede.


Lisa e a filha arrumaram as roupas no armário em um dos quartos do corredor, elas iriam dormir juntas até que Annabeth se sentisse confortável para se mudar para o quarto ao lado. Tiraram as pelúcias e os livros das caixas e já não havia mais nada para arrumar.

Quando a tardezinha chegou, trazendo um frio incomum para aquela época do ano, Lisa fechou todas as portas e janelas e colocou uma chaleira no fogo. Acendeu as luzes de todos os cômodos, menos a da lavanderia e a dos dois quartos do andar de cima, e enquanto Annabeth lia deitada no sofá, ela subiu as escadas para ver como sua paciente estava.

Deitada em sua cama, coberta dos pés até a altura dos ombros e de olhos fechados, Lisa espreitou pela porta, avistando a senhora no escuro. Ela entrou, tocou a testa da mais velha e verificou o pulso. Os remédios que tomava a deixava sonolenta.


O jantar deveria ser servido às 19hrs00, e Lisa se desdobrou para conseguir esse feito, enquanto dava banho na filha e verificava o frango no forno para não queimar. Deixou a menina comendo sozinha na cozinha e subiu com a bandeja do jantar e os remédios da sra. Haruno.

Acendeu a luz do quarto e levou um susto ao ver que a senhora não estava na cama, correu os olhos pelo cômodo e suspirou aliviada ao vê-la de pé, parada de frente para a estante de livros.

- Eu trouxe seu jantar - Lisa colocou a bandeja em cima da penteadeira e foi para perto da senhora, que vagava os olhos pelos livros -, vamos comer?

- Você gosta de ler? - A voz fraca e trêmula da senhora fez Lisa se assustar.

- Sim, sim - disse, recuperando o ritmo dos batimentos cardíacos -, gosto muito.

- Eu escrevi todos estes livros - ela prosseguiu -, mas este é o meu predileto - puxou um livro da estante e o levou na direção de Lisa.

O livro era médio, com a capa dura e de cor branca, não havia ilustrações na capa, somente o título e as informações sobre a autora no fundo. Lisa o segurou nas mãos, silabando o nome do livro: "A dama de branco".

- Leia, você irá gostar… todos gostaram, menos do final, eles me disseram que eu fui muito cruel, mas o que eu poderia fazer, mentir?

Lisa a ouviu com atenção, seu falatório eram reminiscências de suas lembranças de outrora, e isso deveria acontecer com frequência no estágio em que se encontrava. Os diagnósticos nas fichas que passou a tarde lendo, diziam que a mulher, além da esquizofrenia que sofria desde os trinta anos de idade, agora se encontrava com Alzheimer, em sua fase primária.

Lisa a guiou de volta à cama e, pacientemente, lhe deu a comida e os remédios.

Quando desceu, Annabeth já tinha terminado de comer e levado o prato para a pia, mas continuava sentada na mesa.

- Quer assistir televisão? - Lisa afagou os cabelos rebeldes da filha, que mesmo amarrados, teimavam em saltar pelas laterais e na testa da menina.

Annabeth negou, movendo a cabeça.

- Está com sono?

- Sim - respondeu.

- Vamos dormir então.

Levou a filha para escovar os dentes e a ajudou a vestir o pijama. Acomodou-a entre os cobertores e os ursinhos espalhados pela cama e lhe deu um beijo na testa.

- Está tudo bem se eu não me deitar agora? - Lisa perguntou, mas Annabeth estava sonolenta de mais para conseguir responder, ela apenas se virou e abraçou um dos ursos de pano e já estava dormindo.

Lisa sorriu. Deixou a luz do abajur ligada e a porta encostada, saiu e foi ver como sra. Haruno estava. Ela também parecia dormir.

Lisa voltou à cozinha e então se deu conta que não havia tomado banho e jantado e que seus ombros doíam insuportavelmente.

Foi tomar banho e depois comer.


Pensou em ir para a cama, mas achou melhor passar aquela noite em claro, queria ter certeza de que nenhuma das duas, sua filha e sua paciente, iriam levantar no meio da noite e descer as escadas. Então virou algumas xícaras de café na boca e viu televisão até o horário das programações terminarem e a única transmissão ser as faixas de cores na vertical, tomando toda a tela do aparelho. Desligou a televisão e foi apagar as luzes da casa.

Lisa já era acostumada com o silêncio, nasceu em uma família pequena e não teve irmãos, e quando a filha nasceu pouca coisa mudou, pois Annabeth sempre fora silenciosa. Mas o silêncio daquela casa era diferente, fazia Lisa torcer para que o dia nascesse o mais rápido possível, para que ela pudesse cantar em voz alta ou ouvir a filha conversando sozinha pelos cantos.

Encheu novamente a xícara e foi se sentar na sala. A única luz que iluminava aquela parte da casa vinha do corredor. Ela pegou o livro que deixou na mesinha e o folheou, pronta para começar a ler.

- "A dama de branco" - sussurrou.



Eu que vaguei por essa terra, com o ar que ainda me preenchia os pulmões.

Eu que amei como quem não precisa do amanhã.

Eu, que ingênua, fui traída, morta e esquecida, eu...

Eu, que atormentarei os teus sonhos pelo resto de tua vida.

Eu, a dama de branco, sob as flores que no jardim nascem, entre a terra e a solidão e entre o silêncio de cada entardecer 

[...]


Lisa ouviu um estalo na varanda, fechou o livro e se levantou do sofá em alerta, varrendo os olhos pela vidraça das janelas. O estalo se repetiu e Lisa não soube se fora mesmo um barulho ou seu coração pulsando alto em seus ouvidos.

Se aproximou de uma das janelas e tentou olhar para o lado de fora, mas um reflexo no vidro a fez virar abruptamente e olhar na direção do corredor, onde, por um momento, pode ver alguém passar pela porta, mas não pôde assimilar quem ou quê era.

Correu e subiu as escadas, a respiração ofegante.

No quarto, Annabeth dormia na mesma posição em que se deitou. Lisa soltou o ar dos pulmões aliviada, foi para o outro quarto, onde pôde ver sra. Haruno deitada, coberta até os ombros.

Lisa soltou outro suspiro.

O estresse da mudança e da nova rotina poderia fazê-la enlouquecer com rapidez, ao ponto de já estar vendo coisas onde não haviam, no entanto, não fora o estresse que a fez ver o vulto que atravessou a porta entre o corredor e a sala, muito menos as xícaras de café.


Voltou para a sala e foi continuar a leitura.



Notas Finais


A frase entre aspas no início do capítulo é o trecho de uma música, que vai aparecer em todos os capítulos:

Pomme - Anxiété 💙 (essa música fala sobre ansiedade/transtorno de ansiedade, mas quando eu vi a tradução pela primeira vez, só consegui imaginar um fantasma sussurrando ela °o°)


Obrigada por ler e até o próximo 😘


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