História A difícil arte de seu eu, Newt - Capítulo 1


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Categorias The Maze Runner
Personagens Aris, Ava Paige, Ben, Brenda, Gally, George, Harriet, Newt, Stephen, Teresa, Thomas
Tags Adolescência, Amizade, Descobertas, Drama, Mentiras, Newtmas, Romance, Segredos, Yaoi
Visualizações 168
Palavras 1.972
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Famí­lia, Ficção Adolescente, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Até onde me lembro, foi com seis anos de idade que eu comecei a enxergar os outros meninos de uma maneira diferente, sentindo-me atraído por eles, mesmo sem entender o que estava acontecendo comigo, o que "eu era"...

Infelizmente as crianças são educadas para pensar que a homossexualidade é errada e que existem apenas homens e mulheres heterossexuais e tudo que for contrário a isso é anormal.

Quem dera as nossas vidas pudessem ser vistas e vividas sob o olhar lúdico e ingênuo de uma criança...

Capítulo 1 - Eu, Newt


Fanfic / Fanfiction A difícil arte de seu eu, Newt - Capítulo 1 - Eu, Newt

 

Seja você mesmo, porque os outros já existem.

Oscar Wilde

 

 

Sou Newt. Na verdade Newton Saldanha e tenho 17 anos.

Minha família...

O que os doces são para um diabético e a água é para o fogo, minha mãe e meu pai são um para o outro. Nunca encontrei qualquer sinal de compatibilidade entre eles.

Meu pai, doutor Stephen Saldanha, é um célebre cardiologista, dono de uma rede de clínicas especializadas na área em que atua, e cuja reputação incontestável inspira referências não só no Rio de Janeiro, mas também em quase todo território nacional.

Seu comportamento ponderado e sem extravagâncias, somados à sua eterna disponibilidade, o tornou, aos olhos de todos os outros, um exemplar genuíno de ser humano no que diz respeito ao próximo...

Bem, se esse próximo fizer parte do seu seio familiar, não irá receber muita (ou quase nenhuma) atenção de sua parte.

Ter uma agenda profissional tão apertada como a sua, que o faz chegar a casa quando todos estão deitados, e sair antes que se levantem, não deve ser algo simples de se lidar. Mas a vida é feita de escolhas, não é mesmo, e segundo Caio Fernandes Abreu: quando você dá um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás.

Em contrapartida, minha mãe, Ava Albuquerque de Araújo Saldanha, herdeira de um dos maiores produtores de papel e celulose do país e também de um império no ramo hoteleiro, é tida como uma das mais extrovertidas e irreverentes socialites cariocas, colecionando amigos influentes, sapatos com saltos altíssimos, e, claro, bolsas, muitas bolsas. Desde a pomposa, elegante e sofisticada Lady Dior a uma Chanel 2.55.

Ah, e como toda diva que se preze, ela também não abre mão de ter o melhor cabeleireiro do Rio de Janeiro ao seu dispor (e isso a qualquer hora do dia ou da noite).

Evidente que seu nome figura na lista dos eventos mais badalados, assim como ela também escolhe a dedo os semideuses que terão o privilégio de colocar os pés nas animadas e luxuosas recepções e festas que promove para em média 200 convidados. 

Até aí, tudo bem. Que mal há em se ter uma mãe celebridade, que todos praticamente veneram? Porém o espelho tem duas faces e as camadas que separam madame Albuquerque de Araújo Saldanha da senhora Ava são muitas, e quem, de fora de nossa família, conseguir ultrapassá-las, encontrará uma mulher de personalidade forte, altiva, de características excêntricas, constantemente levantando a voz a fim de se fazer ouvir e dona de um humor que oscila do ligeiramente doce ao extremo amargo.

Se tivéssemos em um jogo aonde fosse necessário o adversário destacar alguns pontos relevantes da personalidade de cada um dos meus genitores, ele não pestanejaria em responder: doutor Stephen, taciturno, um ser humano com dificuldade de demonstrar emoção ou carinho de maneira natural; já dona Ava seria apontada como a antítese da condescendência, a mestre Yoda da arte da manipulação, a porta estandarte do hedonismo.

A propósito, tenho duas irmãs mais velhas, pois Deus teve misericórdia da minha alma não permitindo que eu fosse filho único desse peculiar casal. Com toda certeza eu não iria saber lidar com essa questão e já teria fugido para Tailândia ou qualquer outro fim de mundo parecido.

Teresa, que irá se casar no sábado, é a primogênita e sem sombra de dúvidas a pessoa mais sensata, racional e comedida dentro desse apartamento de “apenas” 700 metros quadrados na Barra da Tijuca, enquanto Harriet, além de potencializar radicalmente todos os complexos e traumas por ser a filha do meio, não passa de uma reprodução perfeita, praticamente esculpida em carrara, "da obra de arte" que é a nossa mãe, com todas as suas neuras, desequilíbrios e um humor extremamente bipolar.

Elas são a prova viva do quão diferente podem ser duas filhas criadas pelos mesmos pais (ou babás), vivendo na mesma casa e tendo recebido a mesma educação. 

*   *   *

Por me identificar com atividades intelectuais consideradas inadequadas para a minha idade, em detrimento a outras (atividades) mais populares, acabo recebendo dessa sociedade sedenta por tachar pessoas, o rótulo de nerd, cuja essência pejorativa me reduz a um ser humano solitário, com dificuldades de integração social e que “carrega o fardo” de uma inteligência não convencional. 

O que ninguém sabe, na verdade, é que essa reserva ou esse suposto isolamento que insisto em cultivar, são meros mecanismos de defesa de um jovem gay que não tem coragem de se assumir diante de um Estado social que insiste em padronizar a sexualidade humana, enxergando os homossexuais como minorias, transformando-os em uma espécie de escória da sociedade, resistindo em vê-los como indivíduos que pensam, atuam, trabalham e consomem. Um cidadão como outro qualquer.

 

Estou cursando o último ano do ensino médio no CGAM, Colégio Germano Augusto Magalhães, uma das instituições particulares mais bem conceituadas, tradicionais e elitistas do Rio de Janeiro, que a partir da metade da década dos anos 2000 teve suas atividades transferidas para a então emergente Barra da Tijuca, deixando para trás o démodé bairro onde se localiza a tão afamada Princesinha do Mar.

Há sessenta anos, ele, o CGAM, sustenta honrosamente o orgulho de sempre formar excelentes alunos com uma respeitável base intelectual e cultural, inclusive alguns homens e mulheres que se tornaram figuras públicas fizeram parte do seu corpo discente. 

Até mesmo um ex-presidente de nosso amado país pisou no solo sagrado deste Olimpo do ensino, onde pais, emergentes e sofisticados, continuam assinando suas folhas de cheque, repassando integralmente (e sem culpa) a responsabilidade pela educação de seus preciosos tesouros.

É possível que eu esteja parecendo um daqueles adolescentes que fazem a linha “sou da extrema esquerda”, mergulhados num mar de bizarrice intelectual a fim de justificar sua pretensa rebeldia, não possuindo qualquer ideologia definível, política ou religiosa, assemelhando-se no final das contas a um folclórico arrogante sem noção, entretanto sei muito bem como gira (e não finjo ignorar) o mundo fora das paredes do condomínio podre de chique em que vivo com minha família, ou o universo quase surreal que existe dentro das selvas de pedras que são os shoppings que pululam pela Barra da Tijuca.

Um mundo onde é oferecido o retrato de uma vida perfeita e maravilhosa, cujo passe livre é concedido levando em conta o que carregamos (ou nossos pais) em nossas carteiras, incentivando-nos a valorizar mais e mais os bens materiais e os atributos físicos e nos brindando com uma enxurrada de informações sem gerenciamento do que é bom ou ruim.

A principal moeda de troca? Intolerância, mau-humor e principalmente a incapacidade de ajudar o próximo se não tiver um retorno à altura.

Tudo isso somado ao fato de ter sido criado com privilégios que a maioria das pessoas nem sequer sonham, vem me deixando imerso num oceano de contradições, mas já decidi, vou cursar medicina para quando puder praticá-la ter a oportunidade de ajudar os menos favorecidos, apesar do meu pai, sabendo dessa minha pretensão, já ter feito planos mirabolantes para que eu assuma a mesma carreira que a sua, assim como a rede de clínicas que leva o seu nome.

PS.: segundo dona Ava, desde que eu conserve os dois os pés no chão e tenha o mínimo de bom senso em manter um trabalho digno para me sustentar, sem subjugar, é claro, a tradição do sobrenome de nossa família, não haverá problema algum em fazer, ocasionalmente, as vezes de Eva Perón cuidando de alguns descamisados.

Enquanto esse dia não chega, vou fazendo a minha parte da melhor maneira possível, me esforçando em ser um bom filho, não dando motivos para que meus pais se preocupem comigo além do necessário, principalmente no que diz respeito à minha vida escolar, onde sou um aluno extremamente aplicado, dedicando-me às matérias do meu currículo com esmero e quase sempre sendo destaque em atividades dentro de sala de aula, mesmo sem almejar tal relevância.

Fisicamente não me considero um príncipe encantado. Minha estatura mediana e meu biótipo magro nunca me abandonaram, e talvez pelo fato de também usar óculos (atualmente de armadura preta e grossa) acabo reproduzindo para as pessoas ao meu redor uma estrutura beirando a fragilidade.

Nunca me importei com isso, apesar de por algum tempo no colégio ter sido alvo de provocações de rapazes idiotas que acreditam, estupidamente, que força e superioridade se demonstram constrangendo alguém que não se encaixa dentro de seu limitado universo Neandertal.

Minha reação de completa indiferença e desprezo deve ter causado um estado de torpor e frustração absurdo em cada um deles, pois me deixaram em paz...

Minha vida só seria um verdadeiro inferno se descobrissem ou desconfiassem da minha orientação sexual. Sei do que são capazes quando encontram uma vítima perfeita para exacerbar toda estupidez e intolerância, montados em sua prepotência homofóbica.

Muita das vezes me pergunto o que os leva a agir dessa maneira, ou aos seus iguais espalhados pelo mundo, que se arvoram no direito de agredir física, psicológica e moralmente o seu semelhante.

O sexo é um sentimento variável, imprevisível, inesperado, espontâneo, sendo assim, cada um age de uma forma e cada pessoa nasce com determinada tendência.

A homossexualidade não é um monopólio do ser humano. Ela também existe entre mais de 200 espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos, então por que no jogo da vida somente as cartas que nos incentiva a crescer e amadurecer seguindo (muita das vezes sem compreender) os rígidos padrões que nos despreparam para aceitar o “diferente”, são distribuídas?

Por que nos forçamos a acreditar que basta modificar as Leis para que tudo esteja resolvido e assim as formas preconceituosas de desrespeito aos direitos humanos e à cidadania desaparecerão como que por encanto?

Simples: enquanto as regras forem pré-determinadas por uma sociedade heteronormativa, enquanto essa cultura patriarcal não for modificada, é obvio que nada de diferente a tudo isso vai acontecer, até mesmo porque há pessoas que assimilam essas regras sem nenhum problema, particularmente os homens (sexo masculino) que sentem atração pelos seus iguais...

Eles se blindam como verdadeiros camaleões, afinal, precisam permanecer no jogo a qualquer custo, e recorrem, quase sempre, a um relacionamento de fachada, vivendo uma vida dupla sob a superfície de um casamento feliz enquanto se convencem de que são héteros pelo fato de não ter identificação nenhuma com o estereótipo gay afeminado.

Enfim, verdade cada um possui a sua, razão também, como bem disse Jorge Amado em “Tieta do Agreste”, mas do alto dos meus 17 anos, mesmo sabendo que muitas experiências ainda me aguardam pela frente, posso afirmar de que não serei um PhD em hipocrisia ou tampouco vou manter uma união por conta da expectativa de amigos e parentes... 

Em comum com todos esses homens terei apenas um “armário” para me esconder, já que me fecharei em copas a fim de evitar explicações eternas e desnecessárias sobre minha identidade sexual, criando, no frigir dos ovos, namoradas ou relacionamentos fictícios.

Minha válvula de escape? Meu refúgio? As salas de bate papo virtuais.

Não serei o primeiro e estarei longe de ser o último ser humano a buscar eternamente nas redes sociais, enquanto mergulhado em uma angústia recorrente e conflitante, como ondas debruçadas na praia em um frenesi de dor, o parceiro ideal, perfeito e infalível para no final da noite frustrar-se por não conseguir suprir suas expectativas (inatingíveis) de uma história de conto de fadas. 

Talvez não venha a ser uma vida perfeita, mas alguns preferem estar sozinhos por sentir-se mais seguros do que estar rodeado de pessoas que possam feri-lo... 

Bem, pelo menos era isso que eu havia decidido há quase um ano, esse era o meu PLANO PERFEITO, mas o universo resolveu conspirar contra mim, jogando minhas convicções ao léu, fazendo-as ruir como castelos construídos na areia quando me fez descobrir que eu estava apaixonado por ninguém menos que Thomas, o meu melhor amigo.

 



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