História A difícil arte de seu eu, Newt - Capítulo 4


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Categorias The Maze Runner
Personagens Aris, Ava Paige, Ben, Brenda, Gally, George, Harriet, Newt, Stephen, Teresa, Thomas
Tags Adolescência, Amizade, Descobertas, Drama, Mentiras, Newtmas, Romance, Segredos, Yaoi
Visualizações 34
Palavras 1.951
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Famí­lia, Ficção Adolescente, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Se meu apartamento falasse...


Fanfic / Fanfiction A difícil arte de seu eu, Newt - Capítulo 4 - Se meu apartamento falasse...

 

A família é como varíola: a gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida.

Jean-Paul Sartre

 

Ostentando um semblante carrancudo, atravesso a área de passeio feita com pedra miracema, ladeada por um jardim composto de azaleia, bruxinho e grama esmeralda, cuja extensão de 1.200 metros segue da entrada principal do condomínio até a entrada do hall social do bloco aonde fica o apartamento dos meus pais.

Antes de cruzar a porta automática, também de vidro temperado com fundo verde, no mesmo padrão do portão e muro do condomínio, estaco a alguns centímetros de distância para olhar na direção do bloco onde o Thomas mora, já considerando a hipótese de subir até o apartamento dos seus padrinhos e cara a cara lhe perguntar os motivos que o levaram a me ignorar o dia todo, desde a sala de aula, onde nem parecia que estávamos sentados lado a lado, até o seu súbito desaparecimento no intervalo e depois na hora da saída.

Enquanto respondo com um sorriso forçado aos cumprimentos de alguns dos moradores que passam por mim, busco reunir forças para seguir adiante na minha intenção, por mais idiota e patética que possa parecer, afinal, nem Zeus escapou do ridículo do amor, então porque eu, um mero mortal, deveria me preocupar com isso?

Talvez esteja na hora do Thomas saber o quão incomodado eu fico por ser tratado de maneira completamente hostil quando ele está com uma nova namorada...

Arrumo a alça da mochila sobre o ombro direito e então olho para baixo, na direção da fila de bruxinhos e azaleias próxima aos meus pés.

De certa forma eu sou o responsável por sempre ser colocado de lado, pois venho me contentando com as migalhas que Thomas me oferece...

Levanto os olhos de pronto e volto a mirar, cheio de determinação, a entrada do bloco onde ele mora.

Merda. Eu nunca me senti assim, beirando a loucura por causa de ciúmes. Eu não tenho mais quatorze, quinze anos...

Uma comichão de ansiedade e desespero me invade de maneira tal que é impossível continuar resistindo. Respiro fundo e dou o primeiro passo adiante.

Chega de sofrer por algo que “não é real”. Preciso saber se tudo isso está somente dentro da minha cabeça ou não. Mas e se eu for rejeitado? Vou revelar minha orientação sexual em vão e pior ainda, vou perder para sempre a amizade do Thomas.

Dou meia volta, passo pela porta automática de entrada do hall social do meu bloco e depois de atravessá-lo a passos largos, alcanço o elevador e milagrosamente, sem ninguém como companhia, chego até o décimo andar, onde moro.

Sinto minha cabeça latejar. Parece que estão montando toda aparelhagem para um show de rock and roll do qual, com toda certeza, eu não serei convidado. 

Saio do elevador e inicio o trajeto rumo ao meu apartamento sem muita pressa.

Sob uma iluminação com sensor de presença, percorro o extenso corredor até chegar à frente da imponente porta com madeira de demolição que demarca a entrada do lar doce lar onde vivo com minha família.

Despretensiosamente eu a encaro e em seguida estaciono meus olhos sobre o número “1010”, gravado em relevo sobre sua superfície, até tomar coragem para retirar a chave que está num dos bolsos laterais da minha mochila e abri-la.

Antes mesmo de colocar o primeiro pé no hall de entrada, meus ouvidos são invadidos pelos brados de dona Ava.

Necessito de um protetor auditivo e também de um ansiolítico forte, desses que derrubaria um elefante, para ver se consigo chegar até ao meu quarto com todas as minhas faculdades mentais intactas.

Graças a Deus e ao arquiteto que projetou e idealizou esse edifício, colocando um bom isolamento acústico em cada unidade, ninguém mais, além de cada um dos integrantes da minha família, é obrigado a ouvir aos espetáculos dessa diva histriônica. 

Há muito já deixei de me importar com isso. Dessa vez, assim como em todas as outras, é provável que ela esteja discutindo com alguém. Aliás, dificilmente dona Ava não discute com alguém.

Deixo os ombros caírem e atravesso o hall surpreendentemente me dando ao trabalho de deduzir quem poderá ser a vítima da vez.

Logo que chego à entrada da sala de estar, me deparo com minha irmã, Teresa, estatelada sobre o sofá e exibindo um semblante de “sofrência”, daqueles dignos de alguém que voltou de uma guerra duramente travada com um inimigo intergaláctico; ao seu lado, espalhados pelo chão, um verdadeiro estoque de pacotes e bolsas das mais diversas e famosas grifes existentes no mercado, de Dolce e Gabbana, passando por Lanvin a Christian Dior...

Na outra extremidade da sala, agarrada ao celular, gesticulando e disparando palavras na velocidade da luz, dona Ava Albuquerque de Araújo Saldanha.

Circundo o sofá forrado de um tom de marfim forte até alcançar a poltrona borgone salmão que fica disposta à sua frente, onde me sento, inspirando e expirando, enérgico, ao mesmo tempo em que retiro a mochila das costas e a coloco no chão.

- O que houve por aqui? - indago Teresa, esforçando-me para me fazer ouvir ao posso em que corro os olhos sobre os efeitos da bomba atômica que explodiu no centro dessa sala de estar.

Sem se levantar, ela apenas move a cabeça na minha direção e antes mesmo que comece sua narrativa, eu me aproximo a fim de não perder nenhum detalhe, levantando da poltrona e caindo de joelhos ao seu lado.

Resumo da ópera: nossa mãe a havia arrastado por horas sem fim num entra e sai de lojas, gastando dinheiro com itens luxuosos e até mesmo supérfluos, além de fazê-la cumprimentar, conversar e posar para selfies com diversas pessoas como se fosse uma celebridade.

Até o dia de hoje Teresa não havia movido um dedo sequer em prol da organização da festa de seu casamento que acontecerá no sábado, daqui a cinco dias; uma postura inadmissível e incompreensível para dona Ava, afinal, a filha de uma socialite tão influente não deveria agir com tanta despretensão, ainda mais diante de um evento tão colossal como esse, onde usar a própria figura como instrumento de divulgação é mais que oportuno.  

Teresa sempre teve uma visão bastante peculiar sobre o universo que gira em torno de um cerimonial de casamento. Para ela, tudo não passa de uma realização propositadamente ostensiva e burocrática de um mero capricho transformado em um panorama caótico e dispendioso que se prolonga por meses nas vidas das pessoas envolvidas, culminando em uma reunião constrangedora entre parentes que já não se veem há tempos…

Há seis meses, no almoço convenientemente coordenado para que o seu noivo Aris a pedisse em casamento, ela ousou reforçar essa sua opinião...

Não preciso dizer o quão infeliz, inapropriada e estranha foi a sua manifestação diante dos parentes e amigos que lá estavam…

A maioria já conhecia esse seu ponto de vista, mas talvez estivessem esperançosos de que ela mudasse de opinião quando assumisse, enfim, o papel da protagonista do destemido evento, caindo em si e reconhecendo a importância dessa tradição...

Ledo engano!

Com um discurso ainda mais inflamado, minha irmã se mostrou resistente, mas não por muito tempo, já que dona Ava resolveu intervir, irritada, transformando Teresa em um Davi diante de um Golias arrebatador, jogando por terra todos os seus sólidos argumentos, enfatizando o quão pueris, simplórios, limitados e pseudovanguardistas eles eram.

Dona Ava sempre soube enfraquecer qualquer um com sua força motriz.

Para Teresa, por fim, não restou muita coisa além do título de transgressora e menina mimada.

Até hoje não me convenci da sua súbita resignação, encarando tudo de maneira bem divertida, quase surreal, desistindo de se rebelar e fazer prevalecer sua opinião…

Segundo ela mesma vive reafirmando: não adianta desperdiçar energia sabendo que vai morrer na praia…

É irremediável a posição que mãe e filha ocupam nesse taciturno campo de batalha. Alguém definitivamente precisa ceder e pelo jeito minha irmã chegou ao limite de sua resistência. Acho que a entendo. Tentar argumentar com dona Ava é o mesmo que dar nó em pingo d’água.

 PS.: a pobre alma do outro lado da linha é Patrícia Bismark, a wedding planner mais requisitada do Brasil e que aceitou o desafio de planejar o casamento de Teresa ao lado de dona Ava. Acredito que se ela conseguir sair viva dessa odisseia vai precisar de um bom otorrinolaringologista e um excelente psiquiatra.

Prometo, mesmo diante de todas as adversidades gritantes à minha frente, que vou levar meu plano adiante e me permitir relaxar.

Respiro fundo todo o ar que a Atmosfera me consente inalar e ignoro a bomba atômica que explodiu na sala dessa residência, e inicio o trajeto para o meu quarto, com a certeza de que vou encontrar uma relativa normalidade dentro do meu universo particular, mas eis que surge, abrindo num rompante a porta do apartamento, minha querida e desequilibrada irmãzinha Harriet, que, para variar, está possessa, batendo em tudo que encontra pela frente.

Teresa dá um salto do sofá e vai ao seu encontro.

Não sei qual a razão, motivo, causa ou o porquê de ela ainda tentar dialogar com Harriet quando a vê chegar neste estado. Eu já desisti a muito tempo dessa luta.

Não vou queimar neurônios tentando entender as crises infantis e doentias de ciúmes que essa mulher de 24 anos tem pelo noivo. Algo que chega a beirar a patologia...

Dito e feito! Dessa vez a enxurrada dramática veio acompanhada de um creme de la creme.

Luciano, seu infeliz noivo, teria quase atropelado uma vagabunda, e ela, Harriet, no seu mundo de Alice, está apostando todas as fichas que a tal ordinária se jogou na frente do carro dele, pro-po-si-ta-da-men-te, por não ter conseguido resistir ao ver um Corolla Sedan 2.0, de R$ 80.000,00, com um jovem e lindo endocrinologista na direção.

Seguindo a lógica de raciocínio absurda e completamente desvairada de minha irmã, essa moça, a tal vagabunda, que certamente deve ter um nome próprio e família, trabalha em uma concessionária de automóveis, onde é a bambambã em relação ao produto que vende, além de possuir uma visão privilegiadíssima, sem falar no dom da vidência ou da adivinhação.

Jesus Cristo, se essa tal moça fez tudo isso usando os seus "superpoderes", morreu na praia, coitadinha. Em pleno século XXI tentar arranjar um namorado com esse método kamikaze...

Meu Deus, Harriet, é muita neura para uma pessoa só. Santo Freud nos salve!

Teresa, um ser de luz, mesmo depois de ter ouvido toda essa sandice, digna de um dramalhão mexicano, ainda continua tentando colocar panos quentes nessa perturbação de espírito.

- Você diz isso porque está praticamente casada, segura. Daqui a poucos dias vai finalmente fisgar o Aris, não é? Não vai ter muito com o que se preocupar... Mas aliança no dedo não significa segurança total, querida. Saiba que essa mulherada ai fora não respeita ninguém...

É o agradecimento que Teresa recebe de Harriet.

Cada vez mais me convenço de que vivo em um ambiente insalubre, e hoje, definitivamente, não estou nem um pouco disposto a bater palma para maluco dançar.

Graças aos céus consigo persuadir Teresa a fazer o mesmo e então, depois que resgato minha mochila do chão, saímos da sala, cada um tomando a direção do seu quarto.

Dona Ava que segure o rojão, afinal, quem pariu Mateus que o embale!

 

Enfim, só. Meu quarto. Meu mundo. Meu tudo.

Fecho a porta atrás de mim sem demora e jogo a mochila sobre a cama e corro para frente do meu note, que não demora a se conectar.

Logo busco o cardápio das salas de bate-papo, mas não encontro DESESPERADOS nem algo parecido e então recorro ao velho e bom time da amizade LGBT.

 



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