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História "A Dona Do Vale" - Capítulo 60


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Notas do Autor


Olá pessoal!!

Primeiro lugar quero pedir perdão pela longa espera. Muitas coisas aconteceram, inclusive o desânimo. Mas voltamos.

Espero que gostem desse capítulo e comentem muito. Voltaremos a att.

Bjks e força nessa quarentena!
@Dbiancshk & @fada___

Capítulo 60 - "5 Dias" - Parte II


Fanfic / Fanfiction "A Dona Do Vale" - Capítulo 60 - "5 Dias" - Parte II

- Mas... – Aurélio manobrou com uma mão pois a outra estava levantada em riste para Julieta. – Quando faz isso só me dá, mas certeza que eu tomei a decisão certa em afastá-lo. – Aurélio freou o carro na estrada e a encarou.

- Você está errada. 

- E se eu estiver o que isso muda? – Aurélio piscou. – Estamos num empasse Aurélio independente do... que temos ou tivemos.

- Não trate isso como um enfado ou passado. – Disse magoado.

- Você não me é um enfado. Não é com você que estou enfadada, não ande por esse caminho. – Julieta avisou. – Não me olhe como se fosse uma decisão acertada.

- Acertada não, mas fria, com certeza. Me diga qual é o seu problema em dividir as coisas?!

- Eu dividi muito e você tem consciência disso. Se não tivesse você não teria agido como o invasor que tem sido e eu não teria permitido, e já tivemos essa conversa. – Disse ríspida. – Eu lhe dei o direito de estar; e eu estou começando a andar em círculos com você, e estou certa em achar que você tem feito isso de propósito.

- Por que o seu conformismo está me matando! – Aurélio se exaltou. E Julieta encarou a estrada vazia. – E o pior, é que se você superar você não vai voltar. Você vai pra longe, me deixar algumas boas palavras e sumir, por que você é uma covarde. – Julieta riu e encarou Aurélio.

- E se eu não superar? Essa possibilidade passou pela sua cabeça? Por que eu nunca vi alguém superar o único fato certo que temos. – Aurélio passou as mãos pelo cabelo, negando com a cabeça. – É lindo o seu otimismo, o seu romantismo, mas alguém dessa relação tem que ser realista. Entenda de uma vez!

- Então suma logo de uma vez! – Disse Aurélio ligando o carro e seguindo em frente. – Suma...

O silêncio se instalou no trajeto até o hospital. Nada além do barulho do carro batendo na estrada de terra seca. O ondulado verde das pequenas montanhas dançava de acordo com a melodia da velocidade. Dentro do carro somente o ar condicionado se manifestava. O sol já estava levantado naquela manhã de começo ácido.

Não demorou muito a chegada ao destino. Julieta e Aurélio desceram do carro em direção a recepção do Hospital. Logo que a recepcionista conferiu a documentação de Julieta e o pedido de exame a encaminhou para a sala de espera do laboratório, acompanhada por Aurélio. O local não estava cheio havia apenas duas pessoas na frente da rainha do café, ela apenas se sentou e aguardou.

Aurélio parecia incomodado já arrependido das palavras que trocaram no carro, depois do início daquela manhã; onde Julieta estava completamente vulnerável a qualquer movimento seu, a qualquer toque e agora ela estava lá séria, e o ignorando completamente. Ele pigarreou e se inclinou para a frente, a final a culpa era dele.

- Eu, quero re... – Começou Aurélio. Mas Julieta o interrompeu.

- Não retire. – Aurélio a encarou enquanto ela olhava pra frente. – A culpa é minha. Eu lhe devo desculpas. Me perdoe. – Ela o encarou, e ele retribuiu, antes que ela voltasse ao estágio inicial.

O primeiro nome foi chamado, o segundo algum tempo depois; Quando Julieta finalmente foi chamada ela seguiu sozinha até completar seus exames, em torno de 2h Aurélio permaneceu ali esperando, não sabendo como lidar com as últimas palavras da mulher. Já havia se acostumado ao trato objetivo de Julieta, mas suas palavras naquele momento deixaram algo a mais, algo que Aurélio não sabia identificar, apenas esperar o ataque da onça. Julieta saiu do ciclo vicioso e ele não sabia se era algo positivo naquele momento.

Ele não disse pra ela sumir a sério... “ou disse?”. 

O fato é que pensar que perderia Julieta para uma possível morte lhe causava calafrios a noite, uma indignação profunda, principalmente após ouvir as palavras da amada a Suzana na noite que passou. Ele queria ouvir dela, no momento certo, não em um encerramento de drama, regado a lágrimas e sem ter como lutar pela mulher amava, sem ter oportunidade e retê-la. No final o problema de Aurélio não era mais o encerramento que Julieta propunha, mas a possibilidade de nunca a ver, a ter de novo.

Para piorar, ele não se lembrava dessa agonia com relação a Helena. Ele se lembrava da tristeza da preocupação, mas não se lembrava do desespero, da aflição de não mais ter ao alcance. Não se lembrava de procurar meios para permanecer... talvez por que ela já fosse sua mulher.... Julieta não era sua mulher. Mas era a mulher que amava, mas que tinha a liberdade fugir, mesmo ele sabendo que ela lhe pertencia; se é que alguém pode pertencer a alguém.

- Eu já lhe pedi desculpas, por que essa cara de terror? – Aurélio encarou uma Julieta colocando o casaco de volta no corpo, e puxando as mangas ao cotovelo enquanto o encarava. 

- Já? – Julieta riu, e foi quando ele percebeu que não tinha saído da mesma posição desde o momento em que ela havia saído.

- Aurélio, eu fiquei duas horas corridas lá dentro e você acha pouco? O que aconteceu? – perguntou preocupada.

- Nada. Eu fiquei... – Ele se levantou. – Preso em pensamentos. 

- Entendo. – Ela começou a sair do local entregando alguns papéis para serem colocados na pasta que ela havia trago com seus pedidos de exame.

- Quando sai os resultados? – perguntou Aurélio a conduzindo para fora do hospital.

- Quinta vai estar disponível, mas me disseram para eu não me preocupar, como a consulta é na sexta vai cair no sistema do doutor Rômulo para o parecer dele. – Disse enquanto era seguida por Aurélio, que dava passagem aos outros pacientes que entravam.

- Perfeito. Por isso essas etiquetas com códigos e senhas? – Julieta fez que sim, o vendo fechar a pasta quando alcançaram a saída.

- Bom, para onde vamos? Ainda é cedo. – Perguntou tranquilamente.

- Vamos comer alguma coisa, você está em jejum por muito tempo. – Ela concordou, e ambos entraram no carro e seguiram para a antiga casa de chá.

O local não estava nem cheio, nem vazio, afinal era comum as pessoas que trabalhavam no centro tomarem café antes das repartições públicas do vale abrirem, isso incluía o prefeito e Dona Ágata, dona do local.

Quando Aurélio e Julieta chegaram, a atenção do local passou aos dois que apenas cumprimentaram os conhecidos com um aceno rápido, e se dirigiram a mesa vazia mais próxima, onde foram prontamente atendidos.

- Já sabe o que deseja? – Perguntou Aurélio vendo Julieta observar o Menu.

- Já, acho que vou tomar um copo de suco de laranja com acerola e um pedaço desse bolo de fubá com calda de goiabada. – Disse fechando o Menu e o encarando.

Aurélio acenou com a mão para o garçom e o rapaz veio em sua direção.

- Por favor, duas fatias de bolo de fubá com cobertura de goiabada e uma jarra pequena de suco de laranja com acerola, por favor.

- Sim, senhor. – O garçom recolheu os menus e seguiu para fazer o pedido.

- E então como foram os exames? – Perguntou Aurélio encarando Julieta.

- Foram cansativos, como todo exame. Doutor Rômulo pediu uma boa bateria. Começamos pelo sangue, dois tubos de sangue. Praticamente um novo check-up. – O garçom chegou com os pedidos e se retirou. – E você? – Aurélio a encarou enquanto colocava o guardanapo no colo e a interrogou com o olhar. – Quando eu cheguei você parecia petrificado. Alguma coisa aconteceu? Eu sei que você tem compromissos importantes hoje. – Disse antes de tomar seu suco.

- Não. Nada com relação a isso. Só me enrolei em pensamentos. – Disse simplesmente.

- Hum. Do que se trata a inspeção de hoje? – Perguntou Julieta desviando o percurso.

- A empresa é uma empresa familiar. Não temos muitos investidores, apenas pequenos acionistas, então todo o ano temos uma vistoria e uma fiscalização sanitária. Ali todo mundo tem uma noção de como mantemos a qualidade do corte, os tipos de corte. Numa cultura extensiva, é necessário. A demanda é muito grande já que o foco é a zona alimentícia.

- De fato, cada selo de qualidade é praticamente uma maratona. – Comentou se preparando para um bom pedaço do bolo.

- Gosto de pensar que é uma burocracia necessária. E como a uma demanda gigante, exportamos... – gesticulou fazendo referência ao volume de trabalho. – Por que?

- Nada. Eu tenho investimento em gado. Minha mãe sempre diversificou nossas ações, eu tenho investimentos em empresas de segmentos diversos, mas nunca me interessei mais do que o necessário.

- Diversificar é importante para quando vierem as crises, o sustento de um garante a sobrevivência do outro. – Disse limpando a boca.

- Você também tem outros investimentos, acredito. – Afirmou antes de voltar sua atenção para o bolo.

- Tenho. Tenho o café, e algo com Marketing; fora investimentos na bolsa. O que tem me garantido uma vida boa; Além da herança que herdei da minha mãe. – Disse enquanto pegava outra rodada do suco e servindo a Julieta, que aceitou.

- Quase nunca te vejo falar dela. Como ela era? – Perguntou.

- Minha mãe? Uma boa mulher, era muito agitada, falante e extremamente compreensiva, sempre fazia questão de saber os dois lados da história, um coração enorme; ela estudou agronomia, ajudou na fazenda de papai por muitos anos até a sua morte. Sua paixão era o Jardim dos fundos, onde cuidava das suas flores. Meu pai ainda conserva o jardim, é bem bonito. – Disse brincando com alguns farelos do bolo.

- Me desculpa não queria te deixar triste. – Disse terminando seu suco e colocando os talheres em cima do prato vazio.

- Não, não se preocupe. É que quando Helena morreu, minha mãe se tornou a referência de mulher que Emma tinha. Elas ficaram bem próximas então no ano seguinte minha mãe faleceu.

- Sinto muito. Sei como é difícil ser uma menina sem referência, imagina criar uma. Perdoe-me.

Aurélio se comoveu pela sensibilidade que Julieta demonstrou, e sorriu.

- Está dizendo muito isso hoje. Está se adiantando por alguma coisa? – Disse colocando o último pedaço de bolo na boca.

- Aurélio... – Ele riu.

- Estou virando o jogo. Não se preocupe, é que agora que você perguntou, eu percebi que sinto falta dela... Em momentos como esse ela saberia como agir.

- Mães sempre sabem o que dizer. – Aurélio concordou.

Após concluírem o café, Aurélio pagou a conta e ambos voltaram para o carro, numa atmosfera muito diferente daquela de mais cedo. Julieta observava o trajeto, ela nunca cansava da paisagem do vale, e intimamente se soubesse teria se mudado para a fazenda a mais tempo. Mas naquele momento ela não podia fazer muita coisa.

- No que está pensando? – Perguntou Aurélio enquanto dirigia.

- Em nada de forma específica, só pensando que se eu soubesse teria me mudado para a fazenda a mais tempo. Teria evitado alguns problemas na minha vida. – Disse observando os casarões que ainda estavam de pé.

- Não acha o vale parado demais? Você é da cidade mais movimentada do país. – Disse manobrando o carro pelas curvas pálidas anunciando o calor do dia.

- São Paulo é uma cidade variada, fez mais sentido no auge da minha juventude, com meu irmão meus amigos..., mas nunca foi algo que me fosse prioridade, eu sempre gostei do meu trabalho. De certo, acho que era o que me ligava a minha mãe, mas depois do tempo eu descobri que era o que eu amava, então passava mais tempo aprendendo sobre café e como fazer café do que curtindo as baladas da vida. Algo que deixava Suzana muito irritada! – Aurélio riu.

- Eu imagino, ela gosta da agitação.

- Ela gosta da batalha.

- Eu acho muito bonita a amizade vocês. A lealdade. – Disse a olhando e ela sorriu.

- São anos juntas. Eu faria qualquer coisa por ela. – Disse sincera.

- Suzana tem sorte. – Enfatizou provocador.

- Ela sabe. – Disse determinada.

Aurélio recuou e se concentrou na estrada. O caminho ao chegarem nas terras Cavalcante, e direção a fazenda em si, era um caminho de terra batida, arborizado de mais ou menos 2 km até a sede da fazenda. Julieta conhecia o caminho, mas prestou pouca atenção nele nas raras vezes que passou por ali. Geralmente usava a entrada do casarão por que suas discussões eram exclusivas ao velho Barão. Agora com tempo, observou como o caminho era bonito, principalmente quando afinal o pasto se erguia no horizonte e os trabalhadores em ritmo, conduzindo o gado. Ao centro um prédio médio de dois andares, se encontrava o escritório de Aurélio. Todo em cimento queimado, com caminho de pedras, tendo nos fundos ao lado algumas baias para cavalos, e alguns caminhões de porte médio e pequeno.

Aurélio estacionou o carro e a convidou a descer. Julieta pode ver o caminho de pedras bem assentadas, em contraste com o verde. Do lado de fora podia ver as janelas do segundo andar, estreitas, porém alcançando o teto a base do chão. 

O rei do gado a conduziu pela porta de vidro, enquanto era cumprimentado pelos que estavam no hall do prédio. Julieta pode ver a curiosidade que provocou. Aurélio acenou para o segurança e conduziu Julieta pelas escadas de corrimão preto e degraus de madeira escura. Antes de chegarem ao topo uma jovem senhora de cabelos castanhos vinha ao encontro do casal, levando um pequeno susto ao ver a rainha do café.

- Bom dia, Aur... – A assistente de Aurélio deu um pequeno “ou” ao ver Julieta Bittencourt na sua frente. – Bom dia senhora Bittencourt, no que posso ajuda-la? – Perguntou carregando uma pasta, na qual se agarrou.

- Bom dia. Não se preocupe comigo, eu só vim observar. – Julieta respondeu simpática. Enquanto Aurélio retirava a pasta de sua Assistente a tirando do transe.

- Ah, eu...

- Ela só veio observar Fernanda... – Disse conduzindo Julieta pela escada até o corredor principal. – Do que se trata essa documentação?

- Do lado direito estão os papéis que os acionistas devem assinar confirmando que estiveram presentes durante a vistoria e apresentação da fazenda. No lado esquerdo, os apontamentos que você tem que responder, as dúvidas prévias que eles fizeram. – Disse a frente do casal, que chamou a atenção de quem os observava. Julieta só observava e acenava educadamente. – A vistoria da vigilância sanitária ocorreu essa manhã, e tivemos um relatório muito positivo. – Disse abrindo a porta do escritório de Aurélio, que parecia satisfeito. – E antes que me pergunte sim, eu já enviei a cópia para os advogados de todos. – Disse fechando a porta enquanto Aurélio conduzia Julieta até uma poltrona confortável e se dirigia até sua mesa.

- Excelente. – Disse ligando o computador e se sentando. – Que horas eles chegam aqui.

- Já estão no hotel desde ontem à tarde. Bernardo vai trazê-los na van da empresa... – Disse olhando o relógio. – Acredito que as 13h30 eles estejam aqui.

- Ótimo, ainda tenho 1hora, ainda são meio-dia. – Disse meneando a cabeça, já que teria a meia-hora restante seria para se deslocar para o lugar de produção. - Minha roupa?

- Está no seu banheiro privado. – Aurélio assentiu. Fernanda então se virou para Julieta que só observava. – Dona Julieta precisa de alguma coisa?

- Não, obrigada. – Respondeu educadamente.

- Ah... – Disse Aurélio chamando a atenção de ambas. – Fernanda divida suas atribuições de hoje com alguém, eu preciso que você faça companhia a senhora Bittencourt, enquanto eu estiver fazendo sala. 

- Eu? – Fernanda olhou para Aurélio, que disse sim.

- Aurélio. – Chamou Julieta. – Sua funcionária parece estar ocupada, e eu não preciso de babá. – Avisou Julieta.

- Nã-não me entenda mal senhora Bittencourt. – Disse Fernanda rapidamente. – Será um prazer lhe fazer companhia. Meu susto é por que eu não sabia que viria tão cedo, para mim a senhora estaria estudando algum investimento, então só estaria aqui na hora marcada. Mas tenha certeza que será uma honra acompanha-la. – Disse sincera.

- Então, - Começou Aurélio – sugiro que troque a saia por uma calça e o salto por uma bota. – Finalizou.

- De certo. Com licença. – Disse Fernanda dando um olhar ameaçador a Aurélio e saindo da sala. Ele riu, e Julieta o encarou.

- Não entendi. – Disse Julieta apontando para a porta.

- Ciúmes senhora Bittencourt? – Disse Aurélio, saindo de detrás da mesa e apoiando-se nela de frente para Julieta.

- Não, não vamos por essa rota. – Disse Julieta sincera. - É que vocês fluíram entre o formal e o informal de maneira muito tênue. Eu não entendi. – Aurélio balançou a cabeça em afirmação.

- Ela é minha prima. Por isso alguns questionamentos fora do padrão. Mas ela é muito eficiente e confiável. – Julieta fez que entendia. – Espantada por não existir só a minha pessoa de Cavalcante no vale? – Disse debochado.

- Não, é natural. – Disse Julieta incomodada. – Por parte de mãe acredito. – Aurélio confirmou.

- Ela estava ansiosa em lhe ver. – Disse rolando os olhos de forma divertida.

- É deu pra perceber. – Disse apoiando a cabeça na mão como uma criança aguardando uma bela história. – Deixa eu adivinhar, por causa da rixa de família?

- Não a recrimine. Meus funcionários também estão agitados. – Disse acenando pelas paredes de vidro para os funcionários que olhavam, e abaixaram suas cabeças assim que viram o chefe. – Julieta riu.

- Isso também é outra coisa interessante. Por que ter uma parede de vidro? Não acaba com a privacidade? – Perguntou.

- Se fosse completamente eu concordaria, mas não tanto. Essa ideia foi do meu pai, foi ele que criou esse espaço. Facilita para estar perto do pasto, do transporte e até do casarão. Além de manter os funcionários disciplinados e o chefe também.

- É faz sentido. – Disse Julieta se levantando indo em direção a janela que dava vista para o pasto. – Ninguém se distraí com a vista? É linda.

- Às vezes acontece. Ao entardecer fica muito bonito aqui. – Disse a contemplando.

- As manhãs devem ser mais bonitas. – Disse reflexiva. Enquanto Aurélio se levantava e se posicionava ao seu lado com os braços cruzados.

- Nunca vi o amanhecer daqui. Se quiser podemos desfrutar disso juntos... – Julieta não o encarou, nem ele a ela. – Depois de tudo. – Ele a encarou, enquanto ela prendia algum fôlego. Em outros tempos teria sido ela a fazer a proposta, mas aqueles não eram tempos normais.

- Te aconselho a ir se trocar, a hora já está avançada. – Aurélio riu sem graça, e se dirigiu para a parede de livros atrás da mesa e empurrou para o lado uma das estantes revelando a porta falsa. Ao se virar deu um aceno a Julieta e entrou de vez.

Julieta se sentiu à vontade para observar o escritório sério de Aurélio. Como sempre a mistura no moderno com o rústico estava presente, em couro preto e madeira. Reavaliou sua chegada até ali, e surpreendeu com o fato dele saber muito mais sobre ela, do que ela sobre ele. Nunca o havia perguntado sobre sua mãe, não sabia que Aurélio tinha outros parentes e que trabalhavam com ele; que ele era tão severo ao trabalho quanto ela; não sabia de seus negócios,  ou dos sofrimentos para criar Emma. Não se deu conta do que ele também sentia falta, do que ele precisava. Só oferecera consolo a ele uma única vez, enquanto ele a todo tempo estava ao seu redor.

Julieta suspirou. Ela era péssima quando se tratava de Aurélio, e sentia que nunca o recompensaria por tudo o que ele a tinha oferecido, enquanto ela só usufruía literalmente do que desejava dele.

Ela se sentou, e decidiu esperar, algo a ajudaria. 

Fernanda chegou ao escritório com a roupa modificada e cumprimentou Julieta ao encará-la, sentada tomando um café que a haviam oferecido.

- O senhor Cavalcante ainda não está pronto? – Perguntou ela olhando de Julieta para o relógio, recebendo um “não” pelo movimento da cabeça.

- Seu primo ainda não se arrumou. – Disse Julieta, chamando a atenção de Fernanda, que riu constrangida.

- O tom de informalidade suponho. – Disse. E Julieta riu. – Me desculpe, sei que a senhora é rigorosa, espero não prejudicar....

- De forma alguma. Eu não estou aqui por negócios, pelos menos não que tratam de gado. – Disse. 

- Pelo café acredito. – Disse Fernanda. – Aurélio me contou que vocês trabalham juntos com café. – Julieta fez que sim. – Deve ser um trabalho diferente. Uma planta ao invés de um animal.

- Tão árduo quanto. A diferença é que eu não tenho que lidar com o temperamento de determinados animais. Pelo menos não mais já que Aurélio resolveu o... Problema da cerca. – O café desceu amargo pela lembrança do motivo do concerto.

- É. Eu fiquei sabendo. – Disse Fernanda, dando início a um silêncio constrangedor, que foi rapidamente cortado por Julieta.

- Os funcionários parecem curiosos. Não sabiam que a minha vista traria tanto alvoroço. – Disse mantendo a conversa amistosa.

- São as histórias do Vale. Nunca imaginaríamos que uma Bittencourt teria negócios ou até mesmo estaria na empresa de um Cavalcante. Sem falar que sabemos das brigas entre a senhora e o senhor Afrânio.

- Imaginei. – Disse enrubescendo. – O Barão consegue ser muito intransigente quando quer.

- De fato tio Afrânio era o maior divulgador das rixas.

Aurélio saiu do banheiro de barba aparada, roupa trocada e cabelos ainda molhados. A camisa de manga azul marinho, acompanhada da camiseta branca por baixo e a calça jeans ajustada, acompanhado de suas botas pretas apareceu perfumado prendendo o relógio ao pulso.

- Desculpe a demora. Precisei aparar a barba. – Disse pegando a pasta que havia sido entregue por Fernanda. E reparando nas duas xícaras de café que estavam ao lado de Julieta. – Você tomou café? Duas vezes? – Disse preocupado.

- Ah, sim. Agradeça as suas funcionárias da copa por mim. – Respondeu Julieta com tranquilidade. – O café estava maravilhoso.

Aurélio olhou para Julieta incrédulo. E Fernanda estranhou, a relação que ambos demonstravam ter algo além de lendas e negócios.

Porém não houve tempo. Os três entraram no carro e seguiram para o local de encontro no campo. Diferente do que acontecia com o café, a inspeção começava em campo aberto, e em seguida eram levados aos locais de reunião do gado.

Exatamente as 13h30, Bernardo chegava com os convidados de Aurélio. Após as apresentações serem feitas Aurélio começou.

Julieta ficou afastada com Fernanda observando o trabalho de Aurélio. Era calmo, objetivo e focado (mesmo que, naquele momento estivesse dividido entre preocupações); era outro. Não parecia o Aurélio despreocupado, apaixonado e intenso. Agora parecia um homem de negócios focando em mostrar seu trabalho, e convencer seu público de que estavam fazendo a coisa certa.

- Admirada? – Perguntou Fernanda tirando Julieta do seu transe.

- Não posso dizer que não. Mas também não posso dizer que sim. – Disse seguindo o pequeno grupo, conversando com Fernanda.

- Sei como é. É difícil no começo separar o profissional Aurélio do amigo ou do garoto que ficava puxando seu cabelo.

- É. – Assentiu. – Parece bem a cara dele. Implicante...

- E prepotente. – Riu Fernanda observando Julieta enquanto falavam.

- É na verdade, eu só estou estranhando. – Fernanda questionou com olhar. – Geralmente sou eu atrás da mesa, e ele do lado oposto. Queria que ele fosse desse jeito em algumas das nossas negociações...

- Reparei que ele não é desse jeito com a senhora. E que não está totalmente concentrado em seus convidados. – Julieta confirmou, observando que Aurélio se preocupava em tê-la as vistas.

- Aurélio é um sócio fiel, quase um cão de guarda. – Ela observou que o gado estava enfileirado e um veterinário mostra como era feita a análise de saúde dos animais. – Por que você não me leva para conhecer as outras dependências? Assim vou poder dar privacidade ao seu primo, para que ele faça seu trabalho. – Fernanda assentiu, e as duas sairão pela porta lateral, sob as vistas de Aurélio que naquele momento nada podia fazer.

- Aonde a senhora quer ir? – Perguntou Fernanda.

- A qualquer lugar, a tudo se for possível. Confesso que nunca entendi bem a divisão de produção de gado de Aurélio. – Disse indo pelos outros setores fechados, com Fernanda.

- A senhora diz isso porque viu gado solto e gado “preso”, não é? – Julieta fez que sim.

 – Essa aqui é a fazenda principal dos Cavalcante, então aqui se testa todo o tipo de produção que vai ser feito em outras fazendas. A família do Barão tem terras além das do Vale; Além do frigorífico próprio. – Disse Fernanda conduzindo Julieta ao espaço de veterinária.

- Aqui na fazenda praticamos a chamada pecuária semi-intensiva. Ela não tem protocolo próprio como a Extensiva e Intensiva; não ficamos tão preso ao manejo, mas também não excluímos a tecnologia, em complementação alimentar e mineral.

- Entendi, optaram pelo meio termo, aplicando as vantagens e segurança de ambas. – Disse Julieta observando o espaço limpo e cuidadoso da veterinária.

- Sim. Mas nas outras fazendas optamos sempre por um único modelo, para facilitar o trabalho. – Disse Fernanda. – Aqui é onde tratamos os animais doentes e cuidamos na nutrição dos animais, e onde realizamos os exames.

Julieta observou o espaço pelo vidro do corredor. Não era um grande espaço, mas demonstrava alguma autonomia da fazenda em resolver problemas com relação a saúde dos animais.

Depois dessa seção elas andaram por uma parte do pasto aberto, e se em algum momento ela duvidou do trabalho exaustivo do império do primeiro Aurélio, hoje ela já não tinha dúvidas. Os diários estavam certos o segundo Barão de Ouro verde, tinha gasto todo o seu último folego para recuperar a fortuna da família e, era fato havia conseguido.

- O segundo Barão deu uma bela volta por cima, não? – Julieta a encarou.

- Eu estava pensando nisso. – Disse observando o campo e os boiadeiros cercando o gado.

- Gostaria de ver a seção de procriação? – Perguntou Fernanda e Julieta assentiu.

- Adoraria.

Deram alguns passos e chegaram a um lugar de confinamento aonde se encontravam as vacas e seus bezerros em baias. Os animais permaneciam perto de suas mães enquanto alguns funcionários inspecionavam outros em um chão cheio de palha e feno. Julieta observou entre as baias, enquanto seus batiam em um recém nascido lutando para se colocar de pé.

- Esse nasceu quando? – Disse se dirigindo a um funcionário. 

- Há poucas horas senhora? – disse o funcionário ao Vê-la.

Julieta se aproximou da separação da baia e observou o esforço. A vaca o ajudava com o focinho e suas patas tremiam, porém o bicho não desistia. A cafeicultora sorriu.

- É um milagre, não é? – Perguntou Fernanda ao se aproximar.

- Sim. – Julieta respondeu, se sentindo cansada. 

- A senhora está bem? – Fernanda se virou completamente para Julieta que sorriu.

- Só muito cansada. Estou na rua desde cedo. – Fernanda fez que entendia e se virou para o funcionário ao qual Julieta havia feito a pergunta.

- Vitório, me faça um favor. Quando o Senhor Aurélio chegar aqui, avise-o que eu e dona Julieta retornamos ao escritório...

- Não há necessidade. – Disse Julieta. – É até melhor me sentir assim, quando bater na cama dormirei direto. – Tentou contornar.

- Desculpe discordar. Mas acho que a levar ao escritório será melhor, a organização da fazenda é bem extensa; pelo menos irmos ao refeitório do prédio.

- Excelente, uma água me fará bem. – Disse se rendendo.

As duas retornaram para o prédio e se dirigiram ao refeitório do prédio, que, naquele horário estava vazio. O lugar era limpo e confortável, ao fundo podia-se ver o restaurante para os funcionários e de entrada o café da empresa. As duas se sentaram ali e tomaram sua água em uma conversa amena, enquanto a mente de Julieta trabalhava.

O passeio pela fazenda Cavalcante foi mais relaxante do que o previsto. Seria irônico dizer que uma inspeção a pé não havia se cansado levando em consideração a organização e a extensão da fazenda e do número de animais. Porém para Julieta foi um momento para conhecer mais o homem que tinha ao seu lado. E para o azar de Aurélio, confirmar seus desejos; e o que veio a seguir, também não colaborou.

Aurélio como o previsto terminou sua supervisão com os investidores em 2 horas. Concluiu e os direcionou ao berçário, e de lá seguiriam para o escritório onde teria uma breve recepção. 

- Senhores esse é o berçário, aqui acontece a fecundação e o parto das vacas. Nossos touros fecundam cerca de 5 vacas durante o período de cio das fêmeas e logo as trazemos para cá, a fim de saber se a relação gerou frutos. – Disse andando pelos corredores das baias de vacas com seus bezerros. – Nossos touros são premiados com certificado de qualidade. Isso faz com que o sucesso da empresa seja o nosso cuidado com a qualidade do que oferecemos desde o nascimento ao abatimento do animal. – Aurélio se virou completamente para o grupo quando chegou ao final do corredor. – Senhores aqui termina nossa vistoria, espero que senhores estejam satisfeitos sobre aonde seus recursos foram investidos. Como dono dessa marca, sou imensamente grato pela confiança dos senhores. Muito obrigado mais uma vez. – todos aplaudiram as últimas palavras e Aurélio, que pediu a atenção de todos. – Bernardo está nos aguardando, retornaremos ao centro de atividades, lá teremos uma breve recepção antes de retornarem ao hotel.

Todos concordaram e seguiram para fora, em direção a van que os aguardava. Porém antes que Aurélio perguntasse algo Vitório já estava ao seu lado.

- Boa tarde senhor Aurélio. – O pecuarista o respondeu simpático. – Dona Fernanda pediu para avisá-lo que ela e dona Julieta retornaram ao escritório. – Aurélio se virou totalmente para Vitório.

- Ela disse por que aconteceu alguma coisa? – Perguntou preocupado.

- Parece que a senhora Bittencourt não estava se sentindo bem. – Aurélio soltou o ar entre o culpado e o preocupado.

- Obrigado Vitório. De qualquer forma já estou indo para lá. – Você sabe me dizer se tem alguma caminhonete da empresa disponível por aqui?

- Sim, senhor tem uma, a que eu usei para trazer a ração. Ela esta vazia – Disse o funcionário entregando a chave. – Esta na lateral.

- Ótimo. Faça-me mais um favor, sim? – O funcionário assentiu e Aurélio entregou as chaves do seu carro. – Vá a entrada pegue o meu carro e leve até o escritório. Na recepção eu vou deixar essa chave e você entrega a minha tudo bem? – O funcionário concordou e Aurélio saiu.

Aurélio tratou de verificar se todos estavam acomodados e correu para pegar a caminhonete da empresa, enquanto dirigia, tratou de ligar para o casarão e pedir a governanta que cuidasse do almoço que logo ele estaria em casa.

Não demorou muito e ele e o grupo chegaram à sede. Julieta e Fernanda ainda estavam conversando na cafeteria quando Aurélio chegou após encaminhar seu grupo a sala de reuniões com a orientação de uma das assistentes do escritório, e claro, deixar as chaves do carro na recepção.

- Ah, Aurélio. – Disse Fernanda se levantando, vendo o patrão apressado. – Foi tudo bem?

- Sim, foi. – Disse chegando perto das duas. – Como sempre as mesmas perguntas. Mas tudo correu como prevíamos. E aqui o que houve? – Disse encarando Julieta.

- Eu só me senti cansada. – Fernanda encarou os dois. – Fernanda achou melhor nós seguirmos para cá; e eu concordei. – respondeu Julieta calma.

- Tem certeza? Nada demais? – Perguntou preocupado e Julieta garantiu que não.

- Aurélio, estamos na rua desde cedo, é normal que eu me sinta cansada. – O pecuarista olhou para Fernanda que apenas anuiu. E se conformou. – Vá atender seus convidados.

- Não há necessidade eles sabiam que eu tinha outro compromisso nessa data. Fernanda está liberada cuide dos acionistas, deixe que eles se alimentem bem e certifique-se que retornarão em segurança para o hotel. Eu cuidarei da senhora Bittencourt a partir de agora. 

- OK, qualquer coisa eu lhe mando mensagem. – Disse atendendo ao pedido do primo e chefe, mas antes se despedindo de Julieta. – Senhora Bittencourt foi um prazer conhecê-la pessoalmente. Espero vê-la em breve, sem essa rotina de trabalho. – Julieta se levantou e apertou a mão da moça que a acompanhara naquela tarde.

- O prazer foi todo meu desculpe. Aurélio está bem assistido. – As duas mulheres sorriram e Fernanda seguiu para o escritório. – Você é inacreditável.

- Eu sei. – Disse a chamando para irem. – É um dos meus dons. Ser inacreditável. – Disse Aurélio, entendendo que era uma crítica e não um elogio.

Os dois entraram no carro de Aurélio que já o aguardava e seguiram a estrada.

- Para onde nós vamos? – Perguntou Julieta.

- Vamos para o casarão. Nós ainda não almoçamos e você precisa comer.

Aurélio e Julieta refizeram o caminho até alcançarem a Casa Cavalcante, onde o almoço já os aguardava.

Os dois se sentaram e logo começaram a refeição.

- Então? – Chamou a atenção Aurélio. – Para onde você e Fernanda foram que fugiram as minhas vistas? – Disse colocando um pedaço do peixe assado na boca.

- Pedi para Fernanda me mostrar a fazenda. – Disse após usar o guardanapo. – Você parecia desconcentrado com a minha presença.

- O que a faz pensar isso? – Disse Aurélio sabendo a verdade.

- Você não estava concentrado, se certificava a cada minuto que eu estava por perto e não se concentrou nos seus investidores. Você sabe muito bem que em situa...

- Que em situações assim o meu foco deve estar onde está o dinheiro. – Julieta assentiu. – Eu também aprendi essa lição. Faço negócios a mais tempo que você. Havia algo mais importante. – Terminou indo em direção ao seu copo de suco de goiaba.

- Mas importante pra você, sim. Mas você está lidando com o patrimônio da sua família e a herança da sua filha.

- Eu não sou incompetente. – Tentou manter a calma.

- Não. Sem dúvidas você não é. Você aumentou o patrimônio do seu pai em praticamente 30%. Você produz em três modalidades diferentes; você transformou o produto do seu pai em marca independente. – Aurélio a encarou. – Você criou uma filha sozinho enquanto fazia isso tudo. Não Aurélio você não é incompetente; e qualquer um que disser que você o é, não sabe o significado dessa palavra.

- Por que toda vez que você me faz um discurso desses, eu sinto que vem alguma coisa? – Disse. – Acho melhor terminarmos de comer, não quero ter uma indigestão. 

Julieta apenas acatou. 

Mas seria a última vez. 


Notas Finais


Vou nem comentar...


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