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História A Eremita - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Carta 0 - O Louco


Fanfic / Fanfiction A Eremita - Capítulo 1 - Carta 0 - O Louco

 

A chuva atormentava novamente a pequena e opaca cidade de Lake com sua augusta fúria. As pessoas permaneciam todas recolhidas dentro de suas casas, debaixo de seus lençóis com os travesseiros até os ouvidos, os barulhos dos raios faziam com que as janelas tremessem violentamente gritando aos berros. Adentro da ruidosa cidade entre todas as casas, no final da rua 7, o apartamento parecia ruir a qualquer instante. As cortinas brancas balançavam freneticamente pela janela aberta, os pingos da chuva começavam a cobrir rudemente o carpete cor de carmim que acalentava todo o corredor. Mas nada para se preocupar, apenas fechar a janela e tudo estaria resolvido.

O homem caminhou até as escadas, o hotel estava completamente silencioso como se ali o barulho da chuva ainda não houvesse chegado. O papel de parede amarelado manchado com as luzes dos postes. refletiam uma pequena sombra no chão. O homem não havia notado onde estava pisando, a cena era macabra demais para tirar os olhos ou puxar o ar dos pulmões. Os raios enfim chegaram até o ambiente, a porta do apartamento estava pincelada de um rubro vivo de sangue, a mulher estirada ao chão sem a cabeça olhava em suplicadas a senhora pálida como a lua parada ao lado da janela. As cortinas não paravam de balançar, a chuva não parava de entrar e os gritos começavam a ecoar silenciosamente.

Do lado de fora, a garota caminhava lentamente como se quisesse estender o tempo o máximo possível, não era sua primeira tentativa ou sua primeira vez andando na chuva e ela não ficaria doente, não se preocupem. Porque ela não se preocupava, na verdade ninguém se preocupava. Infelizmente o destino chegou rápido demais e o letreiro em neon do hotel reluzia a quilômetros de distância, numa tentativa bem tola, devo dizer, de chamar a atenção porque ninguém sequer cogitava entrar ali há anos. Mas não ela. A porta estava aberta como sempre, a campainha deixada em cima do balcão refletia perfeitamente a imagem dela, não estamos falando de um hotel mal assombrado onde há teias de aranhas em cada quina ou drogados largados na calçada. Aquele lugar era como um palácio por dentro.

As portas do primeiro andar estavam todas trancadas e escuras, mas o corredor como sempre estava com as luzes acesas. O número 9 era seu apartamento, os móveis ainda estavam no mesmo lugar, os mesmos lençóis desarrumados em cima da cama e as mesmas comidas vencidas dentro dos armários. Entretanto estava tarde demais pra arrumar e ela estava demasiada cansada, não tirou nem mesmo as botas quando se deitou e fechou os olhos, o sono custaria a vir ela sabia, mas precisava dormir e tentar esquecer.

O despertador tocou em algum canto da cama, o sol ainda não havia nascido e custou alguns minutos para ela se enfezar com o som do maldito e finalmente abrir os olhos para procurar e desligar o relógio. A água morna do chuveiro parecia alivia-la, os cabelos antes sujos de lama agora estavam devidamente lavados, mas sua perna apresentava um enorme roxo na panturrilha, tarde demais pra esconder e cedo demais para mancar. Antes fosse só a perna que gritavam no tom purpura, as olheiras em seu rosto pálido não se pareciam em nada com alguém que saiu de férias. Tarde demais para esconder, cedo demais para trabalhar. Do outro lado a cortina da banheira permanecia fechada, a cabeça dela estava borbulhando, era melhor ir agora.

O cheiro de café sendo passado preencheu todo o corredor da recepção chegando até a porta dela, a cozinha ficava ao lado da porta de entrada, e uma mesa estava posta como se oferecesse um banquete a realeza britânica. A Sra. Leawoold era a proprietária do hotel Marseille, uma dama de meia idade que se vestia tão impecavelmente quanto cuidava do hotel, sem filhos ou parentes por perto, a Sra. Leawoold havia esperanças demais. E a esperança, diferente de seus traços gentis, vai correndo, corrói sem delicadeza caros leitores e te deixa sem nada, nem mesmo a alma. As mãos ao coração foi sua primeira reação ao ver a imagem da menina parada na porta da cozinha, cabelos pretos presos e a roupa escura indicavam que estava de saída ao trabalho, mas ela pouco se impressionou havia escutado as portas se abrindo a noite e tinha esperanças que fosse ela.

- Mas você está realmente querendo me colocar a sete palmos desse chão!

A voz reverberou dentro dela, ela sentiu seu peito arder e a garganta fechar por um segundo. Alex sorriu para a senhora e caminhou em sua direção a passos curtos e lentos, naquela tentativa de fazer o tempo estender mais uma vez.

- Bom dia senhora Leawoold, desculpa ter chegado sem avisar.

- Bom graças a Deus que pelo menos chegou - o rosto retorcido de raiva se desfazia tão rápido quanto se fez - espero que tenha - A senhora analisou a menina de cima a baixo e Alex poderia jurar que ela via o roxo em sua panturrilha por debaixo da calça - se divertido!

- Foi - ela sorriu levemente - interessante.

- Sente-se eu estou passando um café quentinho.

- A senhora parece de bom humor hoje.

Os pães estavam todos enfileirados e colocados em bandejas de brunch, havia manteiga e geleia e frutas todas colocadas em lugares propositalmente pensados. Além disso ao lado de seu prato haviam mais dois postos a mesa, não estariam ali sem motivo.

- Três pratos a mesa? - Ela olhou para a Sra. Leawoold que trazia uma garrafa de café nas mãos - Está esperando alguma visita? Um familiar?

- Não é visita, é um inquilino!

Seu rosto parecia ter se iluminado, até os mais incrédulos se impressionariam com tal imagem. Apesar de ser uma dama muito gentil, a senhora Leawoold nunca sorria e seu passatempo era limpar o hotel, quase como uma obsessão. Ela nunca perguntou a Alex sobre seu passado ou fez qualquer pergunta que ultrapassasse os limites de inquilino e proprietário, talvez ela conseguisse ver na garota o que Alex via nela.

- Como?

A situação mesmo assim a deixou desconfortável, faziam seis anos que ela morava ali e por todo esse tempo foram sempre as duas, estava acostumada a estar ''sozinha''.

- Você acredita? A campainha tocou e sai para atender achando que era você e para minha surpresa não era, quase não soube o que dizer.

 

                                                                                     * * *

 

Aquilo caminhou junto com a garota até a delegacia, a sensação de desconforto, como se a gola de sua blusa estivesse apertando seu pescoço. O prédio da delegacia estava calado como sempre, havia um sentimento mórbido em torno ora fosse pelos corvos que pareciam nunca ir embora ou pela neblina que a floresta trazia soturnamente. A porta estava fechada, o vidro refletia uma imagem angustiante de si mesma, era preciso estufar o peito. Assim que abriu a porta o mural de desaparecidos logo em frente lembrava ela de que voltara para casa, a foto de Hiley Lincon ainda estava pregada e a senhora Lincon parecia não ter saído do sofá que ficava no hall a dias. Fechou a porta com o maior cuidado para não acorda-lá, olhou mais uma vez para o quadro e sentiu aquilo de novo. Abriu mais uma porta adiante e agora estava na sala da polícia. Haviam ao todo cinco policiais e dois detetives, além do xerife que, apesar da sua sala ser lá no fundo encontrou a garota tão rápido quanto outros.

- Soube que voltou.

A voz de James soou antes que ela pudesse dar o primeiro passo até a sala do xerife. O garoto estava diferente, alto e com braços fortes, a cicatriz em seu rosto estava tão fina que quase passava despercebida.

- Chegou cedo - foi bem breve, mas ela levantou bem pouquinho o canto dos lábios.

- É eu vim de carona - ele sorriu, e nó passou.

- Carona? - ela indagou com deboche - Agora o Ethan te dá carona?

- Na verdade, eu vim com o Andrew.

Esse estava sentado do outro lado da sala, a encarando como se esperasse o momento certo para correr, ela só não sabia dizer para que lado. Ela foi cumprimentada pelo resto da equipe com um bom dia, na sala o xerife a porta acabara de ser aberta alertando que ela deveria entrar. A sala parecia que um grande tsunami alagou e bagunçou tudo que havia ali, uma goteira caia exatamente em cima de onde a cadeira do xerife estava e ele aparentava quase explodir toda vez que os pingos chegavam ao chão. Além disso sua barba por fazer, camisa mal abotoada e a xícara de café que continha mais que cafeína gritavam que algo estava prestes a ruir.

- Fico feliz que tenha mudado de ideia, mas - ele caminhou até a porta e a fechou - preciso que prometa que não fará isso novamente, eu sei que você e o Andrew se desentenderam e eu entendo seus motivos para se afastar - ele deu um longo suspiro e a olhou bem nos olhos - preciso de você Alex, mas só se estiver aqui por inteiro.

- Eu sinto muito por decepciona-lo e eu estou aqui, por inteiro - Ela não estava mentindo.

- Ótimo, bom, é. - ele correu os olhos por toda a sala, mas parou na porta, ela suspirou discretamente - Já fazem 45 dias que Hiley Lincon desapareceu, ainda não tivemos nenhuma nova pista ou informação que nos levasse a crer que ela estaria morta ou ao menos viva, porém -loooooooongo suspiro - não podemos perder as esperanças, precisamos olhar novamente para o caso com novos olhos e nos atentarmos a um possível sequestro. Por isso quero que você e James voltem ao bar Hill e retomem as investigações.

- Sim senhor e - ela levantou e abriu a porta - a quanto tempo ela está ali?

- Ela nunca saiu daqui.

A garota estava exatamente parada na sua porta como esteve a um mês atrás. Hiley Lincon, uma adolescente de 17 anos desaparecida, vista pela última vez a 45 dias perto da rodovia 8 que ligam a cidade de Lake as duas outras cidades vizinhas. As buscas começaram as 21 horas do dia 17 de agosto, horário da denúncia efetuada pela mãe, Marry Anne Lincon, o pai, Jonathan Lincon, desapareceu quando ela tinha 9 anos e não há nenhum registro sobre ele desse ano em seguinte. Foram cogitados fuga, suicídio ou assassinato como causa, mas nada além de um par de tênis foi achado perto da floresta onde ela desapareceu. Não haviam sinais de pegadas na floresta ou marcas de pneu na estrada, sem evidencias a única pista que se tem é a filmagem feita no bar Hill as 19:48 onde ela é vista pela última vez pelas câmeras do bar, que não ajudam muito pela péssima qualidade. Olhar para a foto da garota no quadro na sua sala era como olhar para o nada, nada de evidencias, nada de pistas, nenhum corpo no rio Eva, nada, absolutamente nada. 

Presa novamente no mesmo labirinto, ela colocou o vídeo do bar mais uma vez no computador. A imagem era péssima, mas Hiley usava um vestido claro que dava para ser percebido bem, haviam quatro motos na rua, alguns bêbados escorados na parede, mas nenhum deles pareciam se importar com a menina. Alex já havia identificado cada um deles, não é muito difícil descobrir quem são essas pessoas e nem pedir que falem, ainda mais sendo ela. Apesar de todos o depoimentos e antecedentes recolhidos nenhum deles foram suspeitos, isso era o que menos fazia sentido, era a peça que não encaixava, por que eles não fizeram nada? Por que? Houve duas batidas antes da porta ser aberta.

- De volta ao caso Hiley? - ela assentiu - eles não mexeram em nada na sua sala.

Ela nem havia percebido isso, estava tão focada que não percebeu que até mesmo seu computador estava exatamente na mesma posição quando o deixou.

- Olhando mais uma vez, juntando o que temos de peça por enquanto.

- Sabe, eu estive pensando em voltarmos ao bar, mais uma vez.

- Aquele velho nojento vai nos receber a facadas.

- E, é por isso que você vai na frente bem armada e com cara de má.

 

                                                                                   * * *

 

O bar Hill ficava a 30km da delegacia, afastado da cidade era mais visitado pelos viajantes da rodovia 8 que paravam ali pra dormir, brigar ou beber. A floresta cobria quase todo o perímetro, a quase 100km ao norte era localizado a cidade vizinha, Sierra, e ao sul, Alon. O estabelecimento era quase um grande banheiro químico podre, o fedor, a madeira desgastada, mofada e coberta pelo lodo indicava a umidade do nevoeiro sempre presente nessa parte da cidade. O letreiro pelo menos funcionava. Do lado de dentro era tão pior quanto o lado de fora, o balcão estava sujo de cascas de castanhas de anos e anos, o piso coberto de lama pela chuva do dia anterior e algumas das mesas estavam reviradas no chão como se o dono nunca tivesse tentado as colocar de pé. Peter, o proprietário do bar parecia ter se acomodado, não havia muita coisa que o distinguisse dos clientes jogados no chão.

- Peter Hill.

Homem cis, 55 anos, cabelos grisalhos, um olho castanho e o outro azul causado pelo início de uma cegueira, viúvo a 15 anos de Janice Hill e dono do bar a 30 anos.

- Detetive Leawoold, a quanto tempo, já estava me acostumando a ter paz no meu bar. O que veio fazer aqui? Revirar meu bar de novo?

Sua voz estava mais carregada do que antes, era como se uma grande bola de pelos estivesse entalada na garganta, parece que alguém andou fumando e bebendo a mais. Ela ergueu as sobrancelhas. James, no entanto, parecia estar prestes a vomitar não era sua primeira vez ali, não mesmo, mas o cheiro parecia piorar com o tempo.

- Vou olhar lá fora - ele disse aos tropeços saindo pela porta.

- Soube que os negócios deram uma acalmada – Alex andava pelo bar olhando atentamente ao que via. Garrafas quebradas no chão, homens deitados nos seus próprios vômitos.

- Graças a você e essa menina maldita, eu já disse que não matei a garota você quem me colocou nessa situação sua vadiazinha!

- Quanta gentileza.

A ironia lhe escapava aos lábios como veneno, o homem faltava a estrangulava com os olhos, mas não pense que ela o devolvia com menor intensidade. Existe uma coisa sobre as pessoas sem alma, é que não importa quão fundo você olhe a escuridão do vazio vai sempre atormentar mais.

- Alex – James gritava ofegante da porta – preciso que veja uma coisa!

A cena de longe não era tão diferente da encontrada dentro do bar, lama e mais lama, garrafas de cervejas quebradas e inteiras jogadas no chão, nada diferente. Porém James corria até a beirada de um barranco onde apontava para um buraco, um deslizamento causado pela chuva. Seus olhos se arregalaram, havia uma mão pendurada para fora da terra, o peito dela gelou, talvez fosse ela, talvez fosse Hiley. James desceu até lá embaixo, mas assim que seus olhos entenderam o que estava vendo todos os pelos do seu corpo se enrijeceram. O homem estava perfeitamente sentado com uma perna em cima da outra, os braços também estavam cruzados e as roupas mesmas manchadas pela lama se assemelhavam muito a roupa de bobo da corte e ele maquiavelicamente sorria. Assim que Alex desceu até cena se arrepiou, a boca dele em algum momento até pareceu se mover.

- Você viu isso?

- Que merda Alex, que porra é essa?

- Tem alguma coisa dentro da boca dele, olha.

- Ele tá vivo? Acha que tá vivo.

Ela tirou do bolso da jaqueta uma pinça e uma mão de luva, andou devagar até o homem e abriu com cuidado a boca dele. Larvas estavam se mexendo como se tivessem acabado de tacar uma pedra em uma comeia. James estava prestes a vomitar nos próprios pés.

- Acho que tem mais alguma coisa, tá grudado na língua dele.

Ela puxou algo com a pinça, era um tipo de papel retangular e comprido se parecia com uma carta de baralho erudita ou algo do tipo, havia em um lado dois grandes sóis um em cada extremidade e uma lua minguante no meio, do outro lado havia a figura de um homem, cabelos brancos, vestes coloridas como do bobo da corte caminhando para a beira de um precipício. O louco. James e Alex se entreolharam. Tarde demais para não entrar, cedo demais para desistir. 

 


Notas Finais


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