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História A feiticeira e a loba - Capítulo 2


Escrita por: Alex-Mills

Capítulo 2 - Forasteira


No dia seguinte, Ilis trouxe mais frutas frescas, e Emeril as comeu como se não tivesse ingerido nada nos últimos dias. Tagarelou sobre os sonhos que teve durante a noite, encheu a loba de perguntas, que fez o possível para responder.

—Eu tenho que voltar, meu pai deve estar vasculhando a mata inteira, e eu não quero que ele descubra esse lugar.

Ilis assentiu, concordando, levantando-se do chão. Seguiu a garota até aos arredores das casas da aldeia, não ousando ir além para não ser vista pelos moradores.

—Então... Se eu te chamar, você vem?

A loba assentiu, seu focinho tocando a mão de Emeril, que sorriu aliviada, abraçando o pescoço de Ilis com força.

—Eu não te arranjei problemas por causa do lobo ontem, não é?

Ela negou, em resposta, oferecendo uma lambida na bochecha dela.

—Você é líder deles, afinal. Claro que não seria problema, você manda e desmanda em todos.

Ilis voltou a negar, deixando a garota confusa.

—Você não é líder? Mas você é tão mandona. Eu duvido que tenha alguém mandando em você.

“De fato, não tem”, assentiu, pensando no assunto. “Há tanto que ela não sabe.”

—Eu quero saber mais sobre isso. Arranje uma forma de falar comigo, ou vou te transformar em humana por cinco minutos só para que me responda claramente.

Ilis quis duvidar de que ela fosse capaz disso, mas sabia que estaria enganada. Emeril subiu pela árvore que levava a sua casa, e só então a loba foi embora.

—Emeril!

Julian a abraçou tão logo a viu entrar em casa, afastando-se somente para procurar por ferimentos em seu corpo, onde somente encontrou folhas e terra em suas roupas.

—Antes que comece a brigar comigo enquanto faz perguntas, quero dizer que perdi a hora ontem à noite, e resolvi dormir fora. Não aconteceu nada, estou bem.

—Pela alma de sua mãe, Emeril! Você me deixou preocupado. A aldeia toda procurou por você ontem.

—Desculpa. Mas eu estava cansada demais para voltar aqui. Além dos animais que rondam aqui a noite. Não quis arriscar.

—Você está mesmo bem?

—Sim, papa. Estou viva, com todos os pedaços.

—Não faça mais isso, eu achei que tivesse...

Ele suspirou, mas não terminou a frase. Arrumou o cabelo escuro para trás, a pele negra brilhando com o suor na testa.

—Eu não iria embora desse jeito, papa. Só queria um tempo sozinha.

Emeril pegou a mão grossa do pai, tocando a aliança que ele ainda usava durante todos os anos desde que sua mãe tinha falecido, e olhou para seus olhos castanhos, iguais aos seus, encontrando a preocupação que gritava dentro deles.

—Desculpa por ter ido embora daquele jeito. Mas você precisa parar de me obrigar a fazer esses treinos. Eu não gosto.

—E se eles nos encontrarem aqui, Emeril?

—Há vários feitiços para me defender. Eu posso defender você também, e criar uma distração para fugirmos.

Julian assentiu, fechando os olhos por um instante. Quando voltou a olhar para a filha, segurou uma mecha do cabelo castanho que ela tinha jogado sobre o ombro com algumas tranças. Pensou no quanto ela era parecida com Liora, sua mulher, o rosto longo e os traços suaves da juventude, o corpo forte e firme.

—Sua mãe era tão teimosa quanto você. — Ele falou, segurando seu queixo e o erguendo. — Eu a conheci quando tinha sua idade. Éramos jovens, bons amigos, e ela ainda estava com um outro cara.

—De nossa raça?

—Sim, ele também era mago, como vocês.

—E aposto que a família de minha mãe apoiava esse namoro.

—Eles apoiariam o romance dela com qualquer mago.

—Não com um humano.

—Não com um humano. — Concordou, um sorriso triste brotando em seus lábios.

—E o que você fez para conquistá-la?

—Não foi fácil. Fomos amigos por muito tempo. Mas teve uma noite. Eu estava de férias com minha família nas montanhas, explorando, como sempre, quando encontramos com um mago, transformado em dragão, aparentemente lutando ou treinando, eu não sei. Claro, uma criatura daquele tamanho, quase nos matou, mas Liora apareceu, ela me salvou. Eles tinham o costume de treinar nas montanhas, longe de todos, não nos ouviram chegar. Meus pais morreram naquele dia, e acho que isso acendeu a noção de nossas diferenças, para nós dois.

—E como isso aproximou vocês?

—Nesse dia, ela me notou. De alguma forma, enquanto eu estava de luto, eu chamei sua atenção. Mais tarde eu descobri que foi porque ela finalmente descobriu que sua espécie representava perigo para a minha, e finalmente saiu da bolha que sua família tinha criado.

—Que bolha?

—Os magos sempre dominaram todas as outras espécies, sua mãe cresceu nisso, como todas as gerações que vieram antes dela, então era comum. Talvez, vendo a morte da minha família, tenha notado que os magos não eram completamente bons em relação às outras espécies. Então nos aproximamos depois daquele dia, e o resto você já sabe.

—Sim. A família dela descobriu tudo e enviou elfos para matar você.

—Nunca descobriram que ela ficou grávida. — Emeril sorriu, suas mãos se prendendo na cintura, sentindo-se orgulhosa.

—Mas foi porque fugimos. Desde o princípio. Não foi nada fácil manter a fuga com uma criança, Emeril. Por isso você só lembra de sua mãe lutando. Fizemos isso para proteger você.

—Eu sei, mas já faz cinco anos que ela morreu. Já tenho 16 anos, posso decidir alguma coisa.

—Você tem razão. Acho que está na hora de eu te dar seu último livro.

—Livro? Que livro? Eu já li todos os livros que trouxemos.

—Todos? Não. Tem um que eu estava guardando. Foi sua mãe quem escreveu.

O rosto de Emeril se acendeu, curiosa e animada com a ideia. Julian sorriu, gesticulando para que ela o seguisse, e a levou para o seu quarto. Afastou o pé da cama quando se certificou de fechar a janela, e mostrou à filha o pedaço de madeira removível no chão, na largura de um passo. Ajoelhado, pegou com cuidado o pacote grosso de papel marrom que embrulhava o livro, enquanto Emeril aguardava em expectativa, ajoelhada ao seu lado.

—Na sua espécie, você só se torna adulta depois de passar por um teste de feitiços, que só ocorre depois dos 22 anos. Mas você também é humana, então estou te nomeando adulta. Ao menos, o suficiente para saber a responsabilidade do que vai aprender aqui.

Julian entregou o pacote, e Emeril logo o abriu, seus olhos se enchendo de lágrimas ao reconhecer a grafia da mãe na capa dura.

—Feitiços Secretos da Família Arin. — Leu em voz alta, sentindo a voz anasalada. — Ela escreveu todos os feitiços da família dela?

—Todos que ela sabia, sim. Então você vai encontrar coisas muito mais poderosas do que existe nos outros livros de feitiços comuns. Saiba usá-los, Emeril. Sua mãe temia que não estivesse com você para ensiná-los. Mas dada a nossa situação, eu prefiro que esteja preparada para uma luta com feitiços do que desprotegida completamente.

Finalmente, ela o abraçou, deixando as lagrimas escorrerem para o tecido de sua camisa, soluçando. A simples recordação de sua mãe, e o fato de ela ter preparado algo valioso para ela, fez lembrar toda a dor que sentia na ferida que perdê-la causou. Sequer precisou falar, aquele livro seria tratado como a última parte que restava de ligação com sua mãe.

Emeril começou a estudar o livro naquele mesmo dia, sequer parando durante as refeições, desgrudando das páginas somente quando adormeceu. Parou no dia seguinte, decidida a colocar algumas coisas em prática, mas tão logo abriu a porta de sua casa, encontrou Henri atravessando a ponte em sua direção. Sorriu ao vê-lo, abraçando-o quando parou a sua frente. Ele tentou beijá-la logo em seguida, mas ela desviou, olhando sobre o ombro para ter certeza que seu pai não tinha visto.

—Enlouqueceu? Se ele vê...

—Ele já sabe, Em. — Ele sorriu, segurando o rosto dela e acariciando. — Eu contei ontem, enquanto procurávamos por você.

—E ele aceitou?

—Ele disse que estaria de olho, mas não proibiu nada. Então... Já pode me convidar para o almoço no final da semana.

—Ele não me disse nada disso. — Seu cenho franziu, olhando para a casa outra vez. — Você tem certeza?

—Absoluta. Rezei a noite inteira para os espíritos da floresta para que você voltasse em segurança.

—Eu estou bem. Apenas dormi fora.

—Só? Estava com alguém?

Emeril riu da pergunta, empurrando-o pelo ombro, caminhou em direção a passagem por dentro da árvore e se preparou para descer.

—Você perdeu a festa que dei ontem à noite. Tinha vários garotos.

Henri fingiu-se ofendido, mas acabou rindo, seguindo-a pela escada e então para o chão. Ele segurou sua mão, caminhando ao seu lado, sem rumo.

—Por que não me procurou ontem, Em? — Questionou calmamente. — Todos procuramos por você.

—Eu sei. Desculpa. Eu queria resolver as coisas com o meu pai primeiro, e depois fiquei estudando.

—Bem, podemos ficar juntos hoje.

Emeril assentiu, suspirando pela ideia de adiar seus treinos com o novo livro. Henri a levou para perto da margem da floresta, a parte onde o terreno era mais seco e os animais maiores. Escalaram uma árvore, podendo ver melhor os animais selvagens em suas vidas.

—Eu estava pensando... — Falou, olhando por um momento a garota. — Vamos passar nossas vidas morando aqui, na floresta? Para sempre?

—Eu acho que não. Ao menos, eu pretendo partir quando estiver pronta para sobreviver sozinha.

—Sozinha? — Estranhou, encarando-a.

—Não me leve a mal, Henri, mas eu prefiro pensar que minhas habilidades são suficientes para sobreviver, sem precisar de ninguém.

—Você não precisa fazer isso sozinha. Podemos trabalhar juntos.

—Eu sei, meu bem. Mas não quero ser dependente de ninguém. — Ela sorriu, oferecendo um beijo em seus lábios para assegurá-lo. — Podemos fazer isso juntos, mas não vou esperar que você me salve se algo acontecer.

—Ah, é? Por acaso andou treinando como arremessar um livro? Porquê da última vez que lutamos, você perdeu feio.

—Muito engraçado. Garanto que iria te surpreender.

—Aposto que não. Mostre que estou enganado.

Ele avançou, mas somente fez cócegas em suas costelas, esperando que ela se desviasse. Emeril apoiou as costas na madeira, segurando os pulsos do namorado, fazendo força, em meio aos risos, para fazê-lo parar.

—Olha só, tempo recorde. — Ele a provocou. — Está ficando melhor nisso.

—Bem, agora estou pensando em outra coisa.

Emeril envolveu suas pernas na cintura do rapaz, suas mãos acariciando os fios curtos de seu cabelo raspado, um sorriso malicioso brincando em seus lábios.

—Quer fazer isso aqui?

—Por que não?

—Achei que fosse querer que nossa primeira vez fosse diferente.

—Vai me dizer que isso aqui não seria diferente? — Ela riu, distribuindo beijos pelo seu maxilar. — Ou vai me dizer que você é virgem?

—Você não? — Surpreendeu-se.

—Ah, você não achou que eu não tive outros namorados antes de você, achou?

—Eu nunca te vi com outros garotos.

—Ninguém nos vê juntos, certo?

—Estou chocado. Sempre achei...

—Henri, você não precisa se preocupar. — Seus olhos se deslocaram para os dele, sua mão acariciando seu rosto. — Será perfeito. Apenas relaxe.

—Tem certeza?

—Não tenho nenhuma dúvida. Você tem?

Em resposta, ele a beijou, de forma intensa, ainda que sentisse hesitação pelas últimas informações. Emeril não hesitou em guiá-lo pelo caminho que queria, ensinando onde devia tocar e como, também descobrindo como agradá-lo. Conseguiu ditar o ritmo, durando o tempo necessário até ambos estarem eufóricos. Emeril sorriu para o rapaz, aproveitando a visão uma vez mais antes de colocar suas roupas e vê-lo fazer o mesmo.

—Fui bem? — Henri perguntou, passando a camisa sobre a cabeça.

—Você gostou?

—Claro que sim.

—Então relaxe, foi ótimo.

Emeril abraçou seu pescoço, acariciando seus cabelos, admirando seus olhos verdes, realizados e felizes, e beijou seus lábios.

—Eu te amo, Em.

Ela apenas continuou a beijá-lo, temendo o que sairia se sua boca estivesse livre. “Não estrague o momento”, disse a si mesma, tentando focar seus pensamentos naquele instante.

Nos próximos dias, Emeril conseguiu praticar com seu novo livro, Henri havia ido na caçada por suprimentos com sua família, deixando sua rotina mais livre e sua consciência mais leve. Suas práticas encontravam liberdade na pequena clareira que Ilis tinha marcado seu nome, pensava que ali, mesmo que perdesse o controle, não seria vista por ninguém.

Certo dia, a loba apareceu, estranhando ao encontrar Emeril sentada no mato de olhos fechados, as pernas cruzadas e os dedos entrelaçados num formato não estranho aos seus olhos, completamente concentrada. Olhou ao redor, mas não havia ninguém perto, encontrou apenas o livro que ela estudava, logo ao seu lado, aberto numa página com vários símbolos sinalizando passos a serem seguidos, e na seguinte uma figura.

“Ela não pode ser capaz disso”, pensou, vendo flores nascerem na ilustração. Aproveitando a concentração dela, Ilis leu uma segunda vez o passo a passo que estava escrito, também entendendo a utilidade do que ela estava tentando fazer. Não eram plantas comuns, logo percebeu. Ela poderia criar frutas comuns, mas também florescer num único dia ervas raras, o que também lhe dava a habilidade de curar ramos mortos.

Esperou, sentando ao seu lado, perguntando-se há quanto tempo ela estava reunindo a energia necessária para esse feitiço. Alguns minutos passaram sem nada acontecer, até Emeril mover as mãos. Enquanto um braço fez meio círculo até se estender ao céu, os dedos imitando o formato de uma lua crescente, a outra mão pressionou no chão, uma luz verde ligando ambas mãos numa única linha reta. Quando abriu os olhos, eles brilhavam verdes, o chão tremeu abaixo dos seus dedos, e conforme os ergueu, Ilis surpreendeu-se ao ver uma dúzia de ervas brotarem e crescerem como se estivessem somente escondidas debaixo da terra. As ervas continuaram a crescer até atingirem a altura da outra mão erguida, ambas se prendendo enquanto Emeril respirava fundo, dissipando a luz sem pressa. Seus olhos demoraram mais para voltar ao normal, mas ela sorriu quando encontrou Ilis ali, parada ao seu lado.

—Estava pensando em você, nem precisei te chamar.

Ela estava cansada, a loba percebeu, ainda assim, ofereceu uma lambida em sua bochecha como cumprimento, antes de gesticular para as ervas.

—Bem, você podia ter me atacado se eu tivesse representado perigo, então vou julgar que não te assustei com o feitiço.

Ilis revirou os olhos para isso, “como se ela fosse capaz”, pensou, voltando a indicar as ervas.

—Estou aprendendo ainda, mas essas já podem ser utilizadas para poções. — Indicou o livro ao seu lado, sorrindo ao tocar a página. — Minha mãe escreveu para mim. Deixou bem explicado, então sei para o que servem. Não são venenosas. Agora posso criar poções de fortalecimento.

Ilis inclinou a cabeça, duvidosa, assimilando as informações. Emeril apenas sorriu, tocando sua cabeça e acariciando.

—Foi o último presente que minha mãe me deu, não está completo, o último feitiço não está inteiro, mas há coisas maravilhosas aqui. Estou feliz que esteja comigo. Não posso compartilhar isso com ninguém, e meu pai não fica tão impressionado porque continua achando que eu devia me esforçar mais na luta física, mas ao menos você não me condenou ainda.

Ilis balançou a cabeça, sem saber como responder àquilo, então aproximou o rosto da garota, baixando a cabeça, seus olhos grudados aos dela. Emeril também se aproximou, sem entender, então a loba encostou sua cabeça na testa dela, querendo que ela encontrasse as melhores respostas dentro de si naquele momento. A garota sorriu, deslizando os dedos pelo seu rosto numa caricia, admirando seus olhos alaranjados tão perto.

—Obrigada Ilis. Seu apoio é muito importante para mim.

A loba se afastou, virando o corpo de lado e mostrando as folhas dobradas como pergaminhos, presas por uma fita enrolada no seu corpo. Emeril pegou as três folhas, abrindo a primeira, esperando encontrar os mesmos símbolos que a loba escreveu na árvore, mas era o mesmo idioma que falava.

—Você escreveu para mim?

A loba assentiu, gesticulando para que ela lesse enquanto voltava a se sentar. Emeril leu baixo, dando espaço para que a felina a corrigisse se estivesse errada.

—Sou um lobo. Não sou alfa, mas já participei de várias alcateias no decorrer dos anos. A maioria foi extinta ou escolheram viver longe. Eu já escolhi ambos os caminhos. — Ela pausou e olhou para a loba, encabulada. — Como você tem uma grafia tão bonita com essas garras, Ilis?

A loba revirou os olhos, contornando seu corpo e virando o livro, usando a pata com cuidado para folheá-lo.

—Quanta educação, criatura. — Balançou a cabeça. — Vê se não suja as páginas. Ainda não decorei os feitiços.

Ilis a ignorou, continuando a análise nas páginas, tentando decifrar que tipo de criatura Emeril era.

—O lobo que te atacou era um solitário. Não deve respeito a ninguém, consegui afastá-lo, mas com a proximidade da lua cheia, é provável que ele volte a te procurar, porque percebeu que você é diferente. — Mais uma vez ela pausou, buscando explicação com a loba. — Eu nunca soube de luta entre nossas espécies. O que ele ganha me matando? Se não responde a um alfa, não há a alguém para se mostrar.

“Se fosse simples assim”, pensou, olhando a garota, “sequer sabemos as nossas reais espécies, e sem isso não posso afirmar as diferenças entre nossas raças.” Somente gesticulou para que continuasse lendo.

—Não sou alfa, mas estou a um passo de ser. — Seus olhos estreitaram para a informação nova. — Possuo em minha genética resquícios para isso, e por isso, faço parte de uma alcateia, e divido a liderança com outro lobo. Futuramente, iremos lutar para assumir o posto de alfa. Até lá, eu não posso matar o lobo que atacou você, porque teria que reportar ao resto da alcateia a sua existência.

Emeril entendeu o raciocínio sem que a loba tivesse escrito na carta. Se soubessem de sua existência, iriam atacá-la também, querendo provar seu valor aos seus líderes, e provavelmente, o próprio lobo que competia a liderança com Ilis faria o mesmo para ganhar o respeito dos outros para assumir a liderança. Olhou para Ilis, mordendo o lábio inferior. “Ela mesma podia fazer isso, para se tornar alfa”, definiu, tentando entender, “mas ela me protegeu desde do começo.”

Pegou o segundo pergaminho, usando o corpo de Ilis de apoio enquanto voltava a ler. “Quanta educação”, ela quis dizer, mas continuou sua leitura do livro.

—Eu sei que um dia vai descobrir o que eu sou de verdade, assim como descobrirei o que você é, mas enquanto isso, você tem minha lealdade e minha proteção. — Para isso, Emeril sorriu, contente. — Enquanto há lua no céu, eu posso ouvir seu chamado, mas quando a lua está fraca, eu fico surda. Espere. — Seu cenho franziu, puxando o focinho da loba para que a olhasse. — Você fica surda de verdade?

Ilis assentiu, para a perplexidade da garota. “Como ela sobrevive sem escutar na floresta?”

—Você não pode ficar sozinha nesses dias que a lua está escura.

A loba fez um gesto negativo, querendo dizer que não ficava sozinha, mas esperou que a garota raciocinasse.

—Acontece com todos os lobos?

Ela assentiu dessa vez.

—Então você fica junto com o seu grupo?

“Ela não é estúpida como os humanos”, pensou contente, e assentiu.

—Bom saber. Se ficasse sozinha, eu iria ficar com você.

Ilis balançou a cabeça, descrente, mas Emeril somente voltou à sua leitura, pegando o terceiro pergaminho.

—Você pode ir à caverna quando precisar, mas não é todo dia que volto para lá, mas você sabe como me achar se precisar. Claro que sei. — Sorriu consigo mesma. — Espero que encontre o caminho que tem procurado. Bem, e agora são várias perguntas. Que esperta você é Ilis Mae. Mas é bom. Assim não sou a única a fazer interrogatórios. Primeira pergunta... — Ela leu em silêncio a lista de perguntas, querendo se preparar, mas o rabo da loba tampou a folha, prevendo suas intenções. — Okay! É justo.

“Não me preparei para suas perguntas”, pensou, acusando-a com o olhar.

—Quanto tempo faz que moro na aldeia. Faz 6 ou 5 anos, desde que minha mãe morreu. Levamos meses para chegar aqui. Segunda pergunta... Seu pai é seu pai? Que pergunta estranha, Ilis. Sim, até onde sei, ele é. Terceira... Seus pais são como você? Não, eu sou uma bastarda de ambas as raças. — Deu de ombros, acostumada com a ideia. — Estou descobrindo o que posso fazer, e como. — Indicou o livro. — Quarta... Ah, seus sentidos de lobo não falam minha idade? Tenho 16. Aliás, vai me dizer a sua idade? Você não parece um lobo ancestral.

Ilis revirou os olhos para isso, indicando o fim do verso com seu rabo.

—Escreva perguntas complexas no verso das folhas. Ah, Ilis, até parece que vou te devolver as folhas. Vou guardar, é claro. Grafia de lobos é raro.

Ela riu da expressão que recebeu da felina, deixando claro que era brincadeira. Deslizou uma mão pela folha do livro, dessa vez nenhuma luz acendendo quando uma folha em branco apareceu, avulsa, seu único trabalho sendo rasgar um pedaço na vertical, transformando em uma caneta com tinta. Usou as próprias pernas de apoio enquanto escrevia a pergunta.

—Ok, agora, quinta. Você vai ficar aqui para sempre? Claro que não. Meu namorado perguntou isso antes de partir para a excursão. Mas só vou partir quando tiver certeza de que aprendi tudo que podia aqui.

Ilis a encarou com uma expressão enigmática, e demorou até que entendesse, revendo o que tinha dito em busca de algum erro.

—Ah, sim. Tenho um namorado na aldeia, estamos juntos faz... Dois meses? Não lembro ao certo. Aqui isso não tem muita importância.

Ilis quis poder rir, mas Emeril descobriu sua expressão de desdém, as sobrancelhas erguidas para enfatizar isso. Sentiu-se ofendida com sua acusação sem sequer ter ouvido uma palavra.

—É claro que me importo, sua idiota. — Falou grosseiramente, mas Ilis não se afetou, achando graça da perturbação fácil dela. — Ele é bom comigo. Eu gosto dele.

“Jovens, são sempre imaturos”, pensou, fingindo voltar sua atenção ao livro, mas Emeril o fechou, dobrando-o várias vezes como uma folha de papel, até que coubesse na palma da sua mão.  A loba balançou a cabeça, apenas observando, uma suave luz azul sendo vista quando a garota pressionou o livro na pele exposta do ombro, fazendo-o desaparecer.

—Ficaria surpresa com a quantidade de livros que guardei quando começamos a viagem. — Falou, ainda que se sentisse sem a calma anterior. — Enfim, as perguntas. — Voltou a pegar as folhas, virando-se na direção da loba para responder dessa vez. — Sexta. Alguém está atrás de você? Sim, provavelmente. Por isso ficar num só lugar não daria certo para mim enquanto desconfiarem de minha existência. Sétima. Você quer... Ah, Ilis, eu não posso... Eu não quero te colocar problemas nas costas. Você já está sendo tão boa comigo, quando não está fazendo insinuações.

A loba assentiu, compreensiva, porque também não queria trazer seus problemas para ela. Pousou a cabeça na perna cruzada dela, recebendo caricias entre as suas orelhas, conseguindo amenizar o clima anterior.

—Oitava. O que é a marca nas suas costas? Que feio, Ilis, encarando uma mulher pelas costas enquanto ela se lava. Espero que tenha parado na imagem.

Ilis se moveu, levantando, ouvindo passos humanos próximos de onde estavam.

—Ei, não precisa ficar com vergonha. Eu não culpo você, sei que sou atraente.

Ilis se virou e usou a pata para derrubá-la no chão, olhando na direção de onde ouvia o movimento. “Está vindo para cá”, constatou, pensando no que deveria fazer. “Talvez seja perigoso deixar a garota sozinha.”

—Não me leve a mal, mas não vou acasalar com um lobo assim. São muitos pelos.

Emeril riu, as mãos pressionadas nas laterais da loba, que estava acima de si. Ilis suspirou, prendeu os dentes na alça da camisa da garota, e a arrastou para dentro da mata, dando tempo somente de ela segurar as folhas. Ficaram na borda da clareira, ocultadas pelas árvores, e a loba gesticulou para que olhasse. Sem entender, Emeril se levantou, escondendo-se atrás de uma árvore, esperando por qualquer movimento. Ficou um longo instante escutando somente os sons da mata, até que viu uma mulher sair pelas árvores e adentrar a clareira em que estavam.

A mulher parou poucos passos à frente, olhando ao redor, a expressão cansada. Tinha uma mochila grande nas costas, suas roupas estavam sujas de barro seco e algumas folhas estavam penduradas bambas em seus trajes. Os cabelos loiros estavam presos num coque frouxo, e era visível sinais de ferimentos em seus braços e pernas.

—Ela não é da aldeia. — Emeril constatou, a voz não passando de um sussurro.

Emeril estranhou a pele branca como leite dela, definindo que não era de nenhum lugar próximo também.

—Eu vou falar com ela. Parece perdida.

Ela tentou avançar, mas Ilis puxou sua camisa pela barra, impedindo que fosse. A garota a olhou, procurando explicações.

—Qual o problema? Eu sei me defender.

Ilis balançou a cabeça, não querendo que ela se arriscasse, mas ela não enxergou a preocupação no rosto da loba.

—Se algo acontecer, ela desaparece. É simples. Observe.

Emeril avançou, saindo das árvores, assustando a mulher assim que a viu. Parou a alguns passos de distância, mas somente porque estava surpresa com a altura dela. As pessoas no povoado não costumavam passar de quinze centímetros depois de um metro e meio, e ela teve certeza que a mulher tinha pelo menos vinte a mais.

—Ah, sabia que tinha escutado uma voz aqui perto. — Falou, abrindo um sorriso aliviado. — Achei que estivesse ficando maluca.

—Talvez, quem sabe? Os espíritos na floresta gostam de testar seus viajantes. — Falou devagar, os olhos observando curiosos os trajes da mulher.

—E você é um espirito?

—Quem é você?

—Você é direta, isso é bom. Sou Selen. E você?

—De onde você veio?

—Você faz as perguntas que não responderia se estivesse no meu lugar.

—Então o que está fazendo aqui?

—Procurando um lugar pacifico para treinar.

—Treinar o que?

Selen sorriu, apontando para as ervas no chão, mas Emeril não demonstrou reação, e somente permaneceu estoica.

—O que? Veio aprender como fazer plantação? Sinto em informar, mas aqui será um péssimo lugar.

—Então você mora aqui. A existência da vila é verdade.

—E se for? Acha que vai morar lá sem prestar um mínimo de esclarecimento de como veio parar aqui?

—Você gosta de fazer perguntas. — Selen suspirou, massageando a ponte do nariz. — Eu não vou revelar minha vida para uma garota. Então se preciso responder as perguntas de alguém para poder morar aqui, eu encontrarei essa pessoa sozinha. Não preciso da sua ajuda.

—Faça um bom trabalho em achar a vila, assim sendo. Espero que encontre um lobo pelo caminho.

—Lobos? Nessa região? Devia ter arranjado algo melhor para tentar me intimidar.

—Você vai ver. Logo vai escurecer, de qualquer forma. Então, adeus.

Selen revirou os olhos, e seguiu caminho para além da clareira, e só quando Ilis teve certeza de que estava longe, saiu detrás das árvores e encontrou com Emeril, fazendo um gesto negativo para ela, que somente subiu e desceu os ombros.

—Se ela não for um elfo, é suspeita.

“Elfo?”, a pergunta ficou explicita na expressão da loba.

—Elfos são grandes assim. Parecem humanos. Ela reconheceu minhas ervas.

“Magos e bruxas também são”, pensou, mas achou melhor não dizer nada.

—Se elfos já estão chegando aqui, então talvez eu tenha que ir embora.

Ilis voltou a negar com a cabeça, querendo que a garota mantivesse a calma. Farejou o ar, encontrando o cheiro da mulher, e seguiu uns passos, fazendo Emeril entender sua ideia.

—Segui-la? É uma boa ideia. Eu vou com você.

Ilis negou, avançando na floresta antes que ela protestasse.


Notas Finais


Não sei quem jogou Resident Evil, mas "forasteiro" me lembra o personagem que vendia itens e sempre dizia Forasteiro para o Leon kkkkk


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