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História A felicidade que eu não tive sozinho - Capítulo 1


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Notas do Autor


e mais uma vez eu sendo a viciada em slice of life hehehe boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único


— Hyukjae? — uma voz distante me chamou. 

Pertencia a uma mulher que se aparecia para mim. Minha visão pouco nítida conseguia vê-la no formato de um borrão. Seu batom vermelho se destacou, assim como a expressão de poucos amigos.

— Hyukjae! — ela chamou outra vez, agora gritando. 

O borrão desapareceu da minha frente. Levantei a cabeça de súbito e então a vi com muita clareza. Só então percebi que estava cochilando e havia acabado de levar um baita susto. Senti as maçãs do meu rosto se esquentarem com todos aqueles olhinhos voltados para mim de repente. A mesa da reunião estava completa, todos os professores presentes, isso era o primeiro requisito. O segundo era que prestassem atenção, de preferência com os olhos abertos.

— Me desculpa. — disse um pouco desnorteado. 

Dei uma olhadela para o caderno que trazia comigo. Algumas anotações sobre plano de aulas, assuntos abordados de acordo com a orientação do Estado, desempenho dos estudantes… rotina.

A mulher que me encarava mudou sua expressão para preocupada.

— Não é a primeira vez que isso acontece, Hyukjae. Está tendo problemas com o sono?

Na verdade eu estava. Pensei em explicar minha situação, mas então percebi que os demais professores me encaravam ansiosos, provavelmente para que eu não dissesse nada e a reunião acabasse mais cedo.

— Não! — acabei respondendo. — Uma noite mal dormida, só isso.

Devo ter sido convincente, porque o assunto morreu ali e a reunião deu continuidade. Apresentei o programa de aulas que havia formulado para o novo semestre e em uma hora todos estávamos abandonando o prédio do colégio público de segundo grau do governo do Estado. Eu saía sempre do mesmo jeito: pegava as escadarias (geralmente vazias, porque todos preferiam o elevador) e seguia sozinho para fora do colégio. Os demais professores e eu nunca tínhamos feito amizade, e não havia sido por falta de tentativa. Nas primeiras semanas de trabalho costumava sempre me integrar com facilidade, mas naquela cidade as coisas não ocorriam tão organicamente como eu gostaria. Nas demais instituições em que havia prestado serviço, na última cidade em que havia morado, a rotina estava muito perto de ser perfeita. Escolas bem equipadas, salários satisfatórios, professores amigáveis e vizinhos silenciosos. Eu era tão feliz que acordar no meio da madrugada não era tão ruim, e o trem saturado das sete da manhã tinha sua beleza. 

Me sentia péssimo por tê-la deixado, a antiga cidade. Mas no momento em que decidi abandoná-la não tive como olhar para trás e repensar. Apenas ajeitei as malas e fui embora. Minha cabeça não abria espaço para o bom emprego, o bom apartamento e nem para os amigos. Simplesmente tudo o que havia de mais maravilhoso foi destruído por um único acontecimento que fez com que eu quisesse, mais do que tudo, fugir daquele lugar.

Agora minhas lembranças estavam pelo Facebook através de alguns amigos remanescentes, compartilhando nossas saudades. Eu raramente pedia notícias da cidade e eles pareciam entender o recado, porque nunca diziam nada sobre ela sem o meu consentimento. Minha vida continuou e na maior parte do tempo eu conseguia levar.

As escadarias do colégio eram muitas e eu sempre chegava ao térreo exausto. Abri a porta da saída ofegante e me deparei com o mundo de verdade que por muitas vezes eu esquecia quando passava manhã e tarde trancafiado no trabalho. O barulho estava bem alto devido ao fim do horário comercial e a ansiedade para chegar em casa. Eu dependia do transporte público e não tinha pressa, até mesmo porque se fosse direto para o trem minha vida seria imensamente miserável. E na verdade foi, pelo menos nos primeiros meses que passei na nova cidade. O apartamento estava uma bagunça, o trabalho desestimulante e minha cabeça sempre pairava como se quisesse cair e mergulhar na terra para ficar lá. Eu não conseguia pensar muito bem sobre como me sentia, mas sabia que não estava bem. Até hoje acredito que dei sorte, pois minha melhora veio em uma tarde qualquer, quando depois do serviço adentrei uma cafeteria na mesma avenida do colégio. Estava com uma baita fome e não iria aguentar até chegar em casa. Bebi umas três ou quatro xícaras de café e pedi pela primeira vez um pedaço de torta de abóbora. Me apaixonei instantaneamente, e todos os meses passei a reservar alguns trocados para a cafeteria. Comecei frequentando uma vez na semana para algumas vezes na semana para então frequentá-la todos os dias. Conhecia meus companheiros de café no balcão, assim como os funcionários. Eram meus novos amigos.

Senti uma energia boa perpassar pelo meu corpo quando entrei na cafeteria. Minhas juntas tensas se relaxaram quando sentei no banquinho de frente para o balcão. Um dos atendentes me viu e sorriu.

— Hyukjae! Pensei que não viesse hoje!

Ele limpava uma caneca com um pano de prato. Parecia estar cansado. Os olhos faziam esforço para se manterem devidamente abertos e uma bolsa escura os rodeava.

— Tivemos reunião no colégio. Acredita que eu dormi?

Ele riu. 

— Mentira.

— Verdade. A diretora teve que me acordar. Estava dormindo tão bem que acabei sonhando. Quando ela apareceu no sonho sem mais nem menos fiquei assustado, mas depois tudo fez sentido.

— E sonhou com o quê?

— Com o meu café! — disse divertido. — Ela apareceu do meu lado, como se estivesse sentada nesse banco. — apontei para o banco ao meu lado. 

— Deve ter sido horrível. Se eu visse meu chefe até em sonho com certeza ficaria bem infeliz.

Dei risada. Eu conhecia o chefe de Lee Donghae, e realmente ninguém ia querer sonhar com ele. Era um velho alto, largo e robusto com no máximo dois fios de cabelo na cabeça e sobrancelhas que compensavam a calvície. Era um homem muito feio e com cara de poucos amigos. Vira e mexe nós falávamos sobre nossos chefes, quando nossos dias eram estragados por eles.

— Ele está por aqui hoje? — perguntei.

— Não. Teve que sair. Estou só eu e mais um ajudante. Ainda bem que a loja está vazia. Vai querer o quê?

Ele perguntou como se não soubesse meu pedido de cor, e eu dei uma olhada no cardápio, como se não soubesse exatamente o que eu queria.

— Acho que… — comecei brincando.

Ele sorriu enquanto me encarava.

— Uma xícara de café quente — continuei. — e um pedaço de torta de abóbora.

— Café com leite? 

— Credo! — exclamei rindo.

Ele foi preparar o café. A mágica era feita há poucos metros do balcão, onde nós podíamos ver muito bem cada passo. O café era preparado tradicionalmente, sem cafeteiras que deixam a bebida com gosto de plástico. Donghae olhava para o funil como se fosse a coisa mais importante do mundo. Achei graça quando percebi que conhecia aquele olhar.

Donghae e eu nos conhecemos assim que entrei na loja pela primeira vez. Ele estava prestes a terminar o turno, mas eu pedi um café e ele, cordial como sempre, não conseguiu negar. Acabamos descobrindo que passamos parte da vida na mesma cidade e havíamos frequentado o mesmo colégio de segundo grau. Ele me contou que fazia o tipo de rapaz quieto mas que inconscientemente chama a atenção de todos. Eu conseguia vê-lo sendo daquele jeito, fazia sentido. Contei a ele que eu fazia o tipo que parece ser uma coisa, mas não é. Ele não entendeu e eu tive de explicar.

Desde então os fins de tarde eram repletos de Donghae e sua incrível capacidade de ser sempre extraordinário, por mais que não quisesse. Apenas alguém acima do patamar humano seria capaz de me fazer sorrir naquela época. Eu nunca tinha dito nada a ele, mas pensava com frequência sobre isso.

Eu estava mexendo no celular quando ele se aproximou outra vez.

— Hyukjae, você vai odiar isso.

Fiz uma careta.

— Vou odiar o quê?

— A torta…

Eu o olhava apreensivo.

— Não tem mais. — ele concluiu. — Já saiu o último pedaço. Eu devia ter percebido, desculpa.

Um buraco se abriu no meu estômago. Olhei para as prateleiras e conformei por mim mesmo que a torta de abóbora não estava lá. Estava perplexo. Estive comendo um pedaço todos os dias por meses. Fazia parte de uma rotina sagrada que se saísse do controle me causaria danos. 

Respirei fundo.

— O café está pronto? — perguntei.

— Hum? Sim, vou buscar.

Ele voltou com a xícara e um olhar estranho. Eu beberiquei metade do café em silêncio, mas consciente de que ele me observava de longe. Não soube dizer se ele estava apreensivo ou simplesmente curioso. Donghae e eu comentamos sobre a cidade em que moramos e o colégio que frequentamos, mas nossas conversas nunca iam para o campo pessoal. Eu não sabia como chegar nisso e tinha certeza de que ele não tocava no assunto para não causar uma má impressão. Ele era um rapaz cauteloso com as palavras e gostava de ser gentil.

Quando terminei (deixando a xícara pela metade) abandonei a cafeteria, me despedindo de Donghae com um sorrisinho amarelo. Ele fez o mesmo, ainda com a apreensão estampada no rosto.

Do lado de fora da loja o mundo escurecia e esfriava. Comecei minha jornada de volta para casa. Não era chato, eu gostava de andar e naquele horário o trem já não estava tão cheio. Mas mesmo assim eu continuava incompleto. Sempre comia a torta, todos os dias desde que era novo naquela cidade. Logo transformei minha inconformidade em raiva daquele que comprou o bendito último pedaço, mas durou pouco. Não demorou muito para que a questão se tornasse sobre mim. Primeiro pensei que poderia ter chegado mais cedo na loja, o que não dependia de mim, mas se não tivesse cochilado talvez a reunião estivesse terminada mais cedo e então poderia tranquilamente seguir meu ritual. Comeria a torta e o dia seguiria sendo bom.

Foi neste momento que senti um enorme aperto no peito.

— Hyukjae! — ouvi uma voz ofegante me chamando à distância.

Percebi que já havia caminhado um bocado e estava perto da estação.

— Hyukjae! — chamou outra vez.

Donghae se aproximava a passos largos e rápidos, como se estivesse prestes a correr. Fiquei confuso ao vê-lo, e acho que deixei resplandecer muito bem.

— Oi. — ele disse quando finalmente me alcançou. — Você saiu simplesmente, um pouco esquisito… então eu fui na cozinha checar o armário e encontrei todos os ingredientes.

Eu permanecia confuso.

— Ingredientes?

— Isso, da sua torta. Eu estou preparando a massa. Se quiser voltar agora… fica pronta em uns quarenta minutos.

Ele me encarava um pouco orgulhoso de si mesmo. Eu não sabia o que dizer, mas ainda sentia forte aperto no peito e pressão na cabeça.

— Donghae… — comecei sem saber aonde estava indo. — eu estava pensando agora. É só uma torta.

— Sim, mas você gosta muito.

A cidade se tranquilizava na noite enquanto nós conversávamos.

— É… mas é uma torta. Você não acha que é um pouco patético ficar chateado por causa de um pedaço de torta?

— Não cabe a mim dizer isso. — ele disse convicto.

Lee Donghae me olhava do mesmo jeito que olhava o funil enquanto preparava o café.

— Como assim? — perguntei depois de alguns instantes em silêncio.

— Eu não sei nem por que você gosta tanto daquela torta, Hyukjae.

Acabei rindo.

— Sabe que eu também não sei? — suspirei. — É ridículo. Me apeguei demais a um pedaço de comida.

— É um pedaço de comida muito gostoso. — ele disse tentando me animar. — Você vem?

Era quase impossível dizer não a Donghae. Um vento súbito nos pegou de surpresa e fez seu cabelo esvoaçar de um jeito que seria poético se eu não estivesse tão cansado. Os olhos semicerrados dele, que tentavam se proteger do vento, olhavam ainda para mim. Ele queria muito que eu voltasse para a cafeteria. Eu também queria…

— Estou exausto. — acabei dizendo. — Foi um dia terrível… me desculpa.

Ele sorriu enquanto ajeitava o cabelo depois que o vento passou.

— Tudo bem, se cuida. Te vejo amanhã?

— O que você acha? — perguntei sorrindo enquanto me afastava em direção à estação.

Por um instante quis dizer "o que você quer?" mas seria ousado demais para mim.


***


No dia seguinte, quando encerrei a última aula antes do intervalo, adentrei a sala de repouso dos professores e tive uma surpresa quando me aproximei do meu armário. Uma sacola de papel grande jazia de frente para ele. Dei uma espiadela desconfiada e então tirei o conteúdo. Já soube do que se tratava quando senti o cheiro doce da abóbora. A torta, embrulhada em papel, estava morna. Deduzi que Donghae a havia tirado do forno há pouquíssimo tempo. 

Não pensei duas vezes antes de colocá-la de volta na sacola e carregá-la enquanto seguia meu caminho pela escadaria do colégio para então rumar à cafeteria.


Donghae me viu entrando e olhou para mim do mesmo jeito que olhava para o funil que preparava o café.


Notas Finais


ninguém é feliz sozinho ♡


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