História A filha das águas - Capítulo 3


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Palavras 857
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas do Autor


Boa noite!

Gostaria de agradecer quem está lendo, devo acrescentar que os comentários serão respondidos hoje mesmo.

Na capa está a imagem do Coronel Aureliano Buendía, quem leu o livro já conhece bem esse personagem de caráter duvidoso.

Capítulo 3 - Um bom comandante


Fanfic / Fanfiction A filha das águas - Capítulo 3 - Um bom comandante

Ela foi despertada por uma gritaria confusa fora de sua oca, que revirou e amassou seus miolos numa única massa pastosa. A consciência a absorveu rapidamente quando notou que esses sons se assemelhavam com os barulhos de um conflito humano, e estupidamente ela os perseguiu. Mal saíra e logo se deparava com uma cena que nunca desapareceria de sua memória. Homens brancos corriam como demônios contra os homens de sua tribo, portando longos metais que cintilavam à luz da fogueira e feriam gravemente os poucos índios que ainda estavam vivos. Por todo lado se ouviam estampidos agudos que a tonteavam.

Piscou os olhos assombrada e paralisada ao perceber os inúmeros corpos que jaziam imóveis no chão e que alguns homens montavam as índias que tentavam lutar desesperadamente contra eles.

— Jandira, pegue o arco! — O grito de seu pai se misturou com os gritos de dor e de batalha.

Ela encarou pateticamente o arco que estava próximo de seus pés, uma onda paralisante apossou todos os seus nervos e a lembrança das palavras de Neci a atormentaram no segundo mais importuno de sua vida. Tentou se livrar desses pensamentos e agarrar o arco e as flechas, porém um grito dilacerante indicou que já era tarde demais para qualquer tentativa. Desesperada, observou o sangue fluir do peito esfaqueado de Itagiba que a encarava sem piscar, talvez esperando que ela fizesse ao menos alguma tentativa de salvá-lo.

Acreditava que passara por um período de inconsciência e choque, pois, quando se deu conta um homem segurava sem nenhuma gentileza os seus braços e gritava escandalosamente, chamando os outros que estavam ocupados em possuir à força as mulheres ou mostrando uma pepita dourada e fazendo perguntas que ela sabia que os poucos índios sobreviventes jamais conseguiriam compreender.

— Coronel, encontrei mais uma! — Gritou com um ar vitorioso, agarrando com violência os cabelos negros da moça.

— Traga-a para cá! — Respondeu uma voz grossa do interior de uma das ocas.

Foi arrastada e arremessada ferozmente ao chão poeirento. Encheu-se de bravura e fitou o rosto do homem que a analisava de modo frio e indolente. Ele tinha um bigode negro de pontas engomadas e quando falou novamente sua voz parecia o barulho de um trovão, vestia uma calça negra que estava suja de lama e sangue seco assim como a sua camisa de mangas que estava ensopada de imundície. Um arrepio correu pelo corpo de Jandira ao sentir seu corpo ser levantado e exposto aos seus olhos gélidos, interiormente sentia-se tão aborrecida com sua nudez que sentiu o desejo de correr e desaparecer da presença desses estranhos. O coronel se aproximou como um gato perverso que brinca com a sua presa antes de devorá-la, tão próximo que sentiu sua respiração tocar a sua face. O outro que a segurava a lembrava um porco do mato com tufos de pelos saindo das orelhas proeminentes e do nariz achatado e uma barriga arredondada escapando de sua larga camisa.

— Ela tem olhos deslumbrantes, nunca vi ninguém que possuísse tal anormalidade e que fosse tão bela. — Falou, tocando com os dedos calejados os lábios carnudos da garota. — Ela não é para o seu bico, Matias. Amarre-a e deixe-a aqui.

O gordo amarrou em seus pulsos uma corda grossa e a ameaçou num tom baixo para que apenas ela o escutasse:

— Quando o meu chefe se entediar de você a estarei esperando ansiosamente para dar um trato, indiazinha safada.

Jandira teve vontade de vomitar todo o conteúdo que se embrulhava no seu estômago, enquanto se afastava o mais rápido para o canto mais longe de Aureliano que observava atentamente a mesma pedrinha dourada, após um tempo, voltou o olhar em direção a mulher que evitava afrontá-lo. Sacou de seu bolso uma garrafinha contendo um líquido amadeirado, andando até ela e estendendo o frasquinho para que ela o pegasse.

— Beba. — Esperou pacientemente por uma resposta, logo que atinou que não teria bebeu em uma virada só toda a bebida. — Perdoe-me, acabei esquecendo que não fala a minha língua, não que isso adiantasse já que dei a ordem que acarretou a morte da sua família e de seus amigos, é totalmente compreensível.

A índia ergueu o rosto, estava apavorada demais para reagir ou tentar uma fuga. E ainda ouvia os gritos e as risadas que dominavam o centro de sua antiga tribo. Um gritinho amedrontado escapou de sua boca quando teve a certeza que escutara a voz de Iaci suplicar por misericórdia, esse ato não passou despercebido pelo homem que saiu da cabana para espiar o que estava ocorrendo.

— Ah, é isso que a assusta? — Tamborilou os dedos na palha da oca. —Bom, não posso impedir os meus homens de se divertirem. Tem que concordar que eles merecem pelos feitos corajosos e por enfrentarem selvagens que ameaçam o futuro dos homens civilizados. Afinal, é o dever de um bom comandante recompensar os seus soldados.

Encolheu-se, abraçando protetoramente as pernas arranhadas e machucadas, uma lágrima solitária correu pela sua bochecha e o que seu coração atordoado parecia estar condenado à incerteza do futuro e de sua própria identidade. Duvidava que dormiria enquanto estivesse perto desses monstros que lhe arrancaram tudo que mais apreciava.


Notas Finais


× Bandeirante
1) Indivíduo que no Brasil colonial tomou parte em bandeira ('expedição').
2) O que abre caminho; desbravador, precursor.


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