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História A Fugitiva - Capítulo 4


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Notas do Autor


Era pra ter postado esse capítulo há uns bons dias atrás...
Mas eu vivo enrolando!

Enfim, boa leitura, meus queridos <3

Capítulo 4 - Capítulo 3. Farol dos Desolados


Fanfic / Fanfiction A Fugitiva - Capítulo 4 - Capítulo 3. Farol dos Desolados

 

 

 

 

O amor é quando começamos por nos enganar a nós próprios e acabamos por enganar a outra pessoa.

-Oscar Wilde

 

 

 

 

"—Ela não vai ficar mais do que uma noite, não é? — surpreendeu-se por ouvir a voz de Jennie. Sonolenta. 

—Claro que não! — foi sua resposta. 

E naquele momento realmente achou que estava certo. Que Jisoo não ficaria."

 

 

 

 

   Taehyung se manteve abraçado com uma garrafa de champanhe a noite inteira. Praticamente a noite inteira, na verdade. Até as três da manhã esperou que Jisoo voltasse. Aguardava o retorno da noiva ansiosamente, que ela estivesse arrependida a ponto de ajoelhar aos seus pés para lhe pedir perdão. Não era um cara ruim, mas gostaria de ver isso; de ter Jisoo desesperada para o ter de volta. 

   O Kim até ensaiou: à principio a rejeitaria, faria com que se sentisse tão mal a ponto de cair aos prantos, o que não demoraria nada. Depois do que fez com ele, do tanto que o humilhou, seria pouco. Jisoo merecia uma pequena punição, seria apenas um por cento do que ele mesmo sentiu. Após muito choro e alguns dias de gelo, a aceitaria de volta, porque não via outra opção. Taehyung ama Jisoo, não era algo que pudesse evitar. 

   Ficou se perguntando o que tinha feito de errado. O que de tão ruim fez para merecer ser abandonado diante de todos. As horas que se seguiram após Jisoo ter saído do Plaza foram sem dúvida as piores de sua vida. Ela simplesmente foi embora correndo, a viu saindo em disparada para a rua e mal teve reação. Podia ouvir Jin tentando o trazer de volta a vida, o sacudindo cada vez em intensidade maior mas não conseguia reconectar.

   Ela sequer olhou pra trás. 

   Lidou ainda com os olhares de dó dirigidos a si, odiando cada um deles. Havia muito burburinho ao redor, seus pais também diziam algo que ele nem se esforçou para compreender. Tudo parecia vazio e abafado, como se ele estivesse com os ouvidos tampados. As ultimas palavras que ouviu com clareza foram as desculpas esfarrapadas de Jisoo, quando ela lhe olhou uma última vez antes de ir. 

   Por um segundo precisou se acalmar, respirar fundo senão cairia no choro na frente de todos, o que estava completamente fora de cogitação. É Kim Taehyung, um dos jovens mais promissores no país e futuro dono de tudo que sua família construiu do zero, não um completo perdedor que demonstra fraquezas assim.

   Não podia abrir o berreiro com toda essa plateia o assistindo, pronta pra sentir mais pena ainda, no entanto sentia-se, sim, o maior de todos os perdedores. Tão fracassado a ponto de ser largado pela futura esposa sem que ela sequer se explicasse. E sem que conseguisse entender que pecado tinha cometido para que Jisoo fizesse isso consigo. 

   Focou em Seokjin ao seu lado, apertando seu ombro. Joy a sua frente, balançava a mão à centímetros do seu rosto, estalando os dedos. Ele até entendia, ficou encarando o nada completamente fora de órbita por muito mais tempo do que o aceitável. Aos poucos foi voltando ao normal. E ele não gostou nem um pouco de encarar a realidade.

   Tudo tinha dado errado. 

 —Taehyung, eu estou ficando realmente preocupado. — Jin lhe sacudiu novamente. Desta vez, tendo a atenção do amigo. — Finalmente! 

 —Ela fugiu. — com um fio de voz, Taehyung o respondeu. Soou mais baixo e lamentoso do que planejava. 

 —Eu sinto muito, Taetae. — Joy pronunciou. Segurou as mãos do Kim. — O que ela fez foi horrível! 

 —Jisoo com certeza vai voltar. — Jin lhe ajeitou o terno com uns tapinhas fracos. — Faça ela sofrer também. 

   As palavras do melhor amigo passearam por sua cabeça. "Jisoo com certeza vai voltar". Com isso em mente colaborou com quem tentava o ajudar. Concordou em sair da igreja com Joy e Seokjin, pela porta da frente. Jisoo tinha estragado tudo, ele não iria se acovardar assim, seria até pior se fugisse. Que todos fotografassem o que queriam. 

   Taehyung de fato odeia jornalistas e a mania que eles tem de registrar com afinco a tragédia alheia. Algumas coisas realmente tem de ser esquecidas. Já podia prever sua cara estampada em inúmeros posts em todas as redes sociais e blogueiras de fofoca comentando até o infinito sobre suas desgraças. Ia ser mais difícil ainda superar desse jeito, se toda vez que abrisse o Instagram visse sua cara de pão amanhecido saindo do Plaza não com uma esposa, mas sim escoltado pelos amigos.  

   Com a ideia de que ela voltaria rastejando, foi para seu apartamento no Theatre District, não tão longe de onde Jisoo mora com o pai e esperou. Esperou horas, muitas e muitas horas. Até a madrugada, em que já tinha virado uma garrafa de champanhe francês inteira, quando finalmente se deu conta que ela não voltaria. 

   Ele ignorou os pais tocando a campainha como loucos. Deixou Joy falando sozinha e também não atendeu Jin quando ele apareceu. Ficou deitado no chão da sala, em posição fetal, abraçado à garrafa. Amanhecia e Jisoo não veio, não voltou rastejando como em seus planos. Logo vieram as lágrimas, Taehyung não conseguiu e nem tentou segura-las. 

   Patético, era como se sentia. E arruinado. O sol batia na janela que tinha se esquecido de fechar no dia anterior, os raios chegando em suas pernas agora, porém continuou imóvel. Realmente era muito patético chorar abraçado ao champanhe que Jisoo insistiu que tivesse no casamento, só que foi o que continuou fazendo pelo que pareceram muitas horas. Também não se abalou quando batidas violentas soaram na porta. 

 —SE NÃO ABRIR VOU DERRUBAR A PORTA! — a voz de Seokjin soou alta como um trovão. 

   Taehyung nem ligou. Fungou e secou os olhos com a manga da blusa social branca, o smoking tinha sido jogado longe logo quando entrou em casa. Tentando normalizar a voz, pigarreou. Não queria que ninguém, nem mesmo Jin seu melhor amigo, soubesse que chorou por horas. Não parecia uma coisa que um futuro empresário de sucesso faria.  

 —Vai embora! — falou alto o suficiente pra que o amigo ouvisse. — Estou bem!

 —Não vou embora, abre a porta! — mais batidas furiosas. — Você quebrou tudo, é isso? Ficou furioso e destruiu o apartamento? 

 —Não! — mas pensando bem agora, ele achou que devia ter feito isso. 

 —Abre a porta! — Jin repetiu. — Não vou sair daqui e não vou te deixar em paz. 

 —Por favor, Taehyung. — outro timbre soou, totalmente diferente. A voz feminina e delicada de Rosé o despertou de vez. 

   Por um instante se sentiu honrado da garota ter vindo junto saber como ele estava. Por outro, não queria ver ela. Não sabia o porquê, mas preferia que Roseanne Park não estivesse junto caso ele abrisse a porta, talvez por não querer que ninguém contemple sua miséria, mas não era só isso. Simplesmente queria ficar sozinho e ninguém parecia disposto a respeitar suas vontades. 

 —Taehyung, estamos preocupados e nos importamos com você. — ela tentou novamente. — Não vim defender ela se é isso que está pensando. 

   Ah, é. Ai estava o outro motivo. Rosé é a melhor amiga de Jisoo, Taehyung não queria aguentar alguém advogando pela Sra. fujona. Se arrastando e ajeitando os cabelos na medida do possível, levantou indo em direção a entrada. Assim que a abriu, virou rapidamente pra que não percebessem seus olhos inchados e vermelhos. 

   Se jogou no sofá, sendo imitado pelo amigo e sua... namorada? Taehyung não tinha certeza se Jin e Rosé tinham assumido algo, viviam nessa enrolação. Jin olhou ao redor, pra conferir se ele não tinha mesmo detonado o apartamento todo e quando se voltou a Taehyung abriu um sorriso que devia ser sereno. 

 —Ela não voltou. — o noivo balançou a cabeça negativamente. 

 —Jisoo deve estar morrendo de vergonha, aposto que em alguns dias ela...

 —Não, Jin. Não pode ficar dando esse tipo de esperanças pra ele. — Rosé cortou o suposto namorado. Tocou carinhosamente o braço de Taehyung — Sinto muito, por tudo isso. Mesmo! Eu nunca imaginei que Jisoo fosse fazer isso. — Roseanne se acomodou melhor no sofá, vestia roupas diferentes das que usava ontem — Quer dizer, ela estava bem estranha enquanto se arrumava, mas todos acharam se tratar nervosismo. 

 —Eu achei que era nervosismo no altar. — ele suspirou. Afundou o rosto nas mãos e ficou assim por uns instantes, revivendo memórias ruins da tarde passada.  

   Taehyung ficou tentado em perguntar muitas coisas para Rosé, principalmente se tinha conversado com sua ex-noiva, se ela realmente não ia voltar. Todo o papo de "não pode dar esse tipo de esperança" denuncia que, não, elas não tinham se falado e caso tivessem, as noticias não seriam boas pra ele. Contudo não o fez, se manteve quieto.    

 —E agora? — Jin questionou, quebrando o silêncio que tinha sido instaurado. 

 —Não faço a menor ideia.                  

 

{...}

 

   Jisoo sentiu que tinha sido atropelada e agora estava morta. 

   Pior, tinha infartado. Sabia que quando morresse de fato, seria disso. O pai e todos os outros Kims de quem descende tem sérios problemas cardíacos, então sempre foi paranoica sobre o assunto. Seu tio Kwan faleceu pelo mesmo motivo em Seul, dirigia uma das filiais da empresa de eletrônicos de Chung-Hee e ficou tão estressado e entupido de gordura a ponto de seu coração sucumbir. 

   Droga, agora o mesmo tinha acontecido com ela! Jisoo infartou. 

   Essa lhe pareceu a única opção possível quando tentou abrir os olhos e tudo o que viu foi um clarão branco dolorido que pareceu a cegar. Os fechou rapidamente em seguida, assustada. Isso sem mencionar o cheiro horrível que parecia emanar ao seu redor. Deve ter caído de cara na calçada e foi parar no inferno, pelo menos seu corpo doía como se tivesse sido torturada, principalmente a cabeça. 

   Se esse fosse o caso, tinha merecido. É uma cretina sem coração, ao menos se sentia como uma. Do tipo que humilha as pessoas em público e destrói seus espíritos, como fez com o pobre Taehyung, que não merecia nada disso. Agora que está morta, tem toda a eternidade para se lamentar pelos seus erros. 

   Jisoo não faz o tipo religiosa, muito pelo contrário. Nunca teve paciência pra ir a igreja e qualquer outro evento em que alguém fique falando mais de dez minutos seguidos, contudo, já que tinha morrido só podia estar em um lugar péssimo ou a caminho de um, como o inferno das almas pecadoras. 

 —Olha, ela se mexeu! — disse alguém. Uma garota. — O olho dela fica tremelicando desse jeito estranho, que nem um gato. Sabe, quando gatos dormem e sonham ficam assim.  

   Um grande ponto de interrogação surgiu na mente de Jisoo. 

   Certo, ela sentiu uma grande vontade de abrir os olhos e descobrir quem estava falando. "Desde quando gatos sonham?" se perguntou. Costumava a ter um gatinha e se questionou se Whitney sonhava com alguma coisa. Tinha pelos brancos bem compridos que Jisoo gostava de escovar todos os dias e olhinhos muito azuis. Sentiu saudade de Whitney. 

   Que Deus tenha a pobre gatinha branca, morta por uma das empregadas ao ser jogada na máquina de lavar, confundida com um casaco branco felpudo da Burberry que Jisoo usava no inverno, era o auge da moda na época. Iria a demitir de qualquer jeito, um casaco desses não se lava assim de forma tão desleixada. A maquina de lavar o destruiria como fez com a coitada da gata.  

 —Será que não vai acordar nunca? — a mesma voz feminina ecoou. — Não quero essa desconhecida no meu sofá pra sempre. 

   "Ah, falta de educação. Ótimo. Tudo o que eu precisava" Jisoo pensou outra vez, mentalmente revoltada com a impolidez de quem falava. Bufou em sua própria cabeça, como se sentia observada, bufar de verdade a denunciaria. Mas, certo, ela ainda merecia. Talvez fosse o começo de suas punições infinitas.  

 —Não é desconhecida, já disse. — era outra pessoa. Um homem. Jisoo precisou calar suas divagações indignadas para prestar atenção, pois sabia que essa voz lhe era conhecida. — É a Jisoo!

   Namjoon! 

   Foi acometida por um flashback humilhante da noite passada, em que vomitava na rua sem classe alguma. Nos pés do coitado do Namjoon para ser mais exata. Mesmo que fingisse ainda estar adormecida, não conseguiu controlar a vergonha abrasadora que lhe subiu do pescoço até as maçãs do rosto. 

    Como estava visível sua vermelhidão, não tinha outra opção a não ser abrir os olhos mais uma vez. Sentiu uma pontada na cabeça, mas viu mais do que a luz branca da morte. Viu dois pares de olhos a observando com atenção e curiosidade. Jisoo piscou algumas vezes, se acostumando com a claridade que as cortinas presas proporcionavam na sala. Quando ousou se mexer, uma onda acentuada de dor subiu por sua coluna e tudo o que conseguiu fazer foi soltar um gemido insatisfeito.

 —Bom dia... — Namjoon arriscou dizer. 

   Ele tinha mudado muito desde o fim do colegial. Adquiriu um ar confiante e ficou bem mais bonito, Jisoo o elogiaria se sua língua não estivesse parecendo uma lixa. Ninguém lhe ofereceria um copo de água? Namjoon tirou os óculos e os limpou compulsivamente na blusa vermelha com estampa da universidade de Nova York. Ela lembrou dele usando o mesmo modelo de grau no Avenues.

 —Oi. — Jisoo respondeu. Parecia outra pessoa falando, uma pequena palavra que foi suficiente pra arranhar sua garganta. 

 —Deve estar com uma ressaca fodida. 

   Jisoo mirou a outra pessoa na sala querendo bufar alto e mais uma vez se contendo. Analisou minuciosamente os cabelos castanhos mais desgrenhados e secos que palha, as olheiras fundas na pele branca e o pijama xadrez de flanela. Flanela! Sabe que não está em posição de julgar a aparência alheia, mas ela podia estar melhor. Se fossem amigas, Jisoo recomendaria uma hidratação no cabelo e uma bolsa de gelo embaixo dos olhos. 

 —Olha a boca, amor! — Namjoon a repreendeu por Jisoo. — Mas está, não é? Com uma ressaca horrível? 

 —Sim. — quase concordou com a cabeça, porém seu pescoço estalou e Jisoo praticamente ouvia o cérebro remexendo no crânio, foi obrigada a se conter em apenas falar. — Estou péssima!

 —Está. — Jennie ou "cabelo de palha" como Jisoo a apelidou em seu registro mental, concordou. — Foi largada no altar?

 —Acho melhor você tomar banho antes do café da manhã! — Namjoon cortou a namorada pulando à frente dela com um sorriso desconfortável no rosto. 

   Jisoo se resumiu a abrir um sorriso simpático e agradecido, à sua maneira e do melhor jeito que pode. Talvez tivesse saído mais como uma careta de sofrimento do que um sorriso, então apenas esperava que o velho amigo entendesse. Levantou do sofá e seu corpo todo pediu por misericórdia, porém desta vez não poderia protelar. Precisava urgentemente de um banho e escovar os dentes. 

   Quando Namjoon lhe entregou uma toalha branca e macia, Jisoo foi ao banheiro. Primeiro tirou o anel de noivado e o largou na pia. Quando, sem muito de sua delicadeza, arrancou o vestido Vivienne Westwood de seu corpo, estourou os ganchinhos do fecho experimentou uma gama de estranhas sensações. 

   Sentiu a garganta apertar e incomodo no peito, tensão. Uma pontada de dor na cabeça, preocupação, não tinha ideia de como serão as coisas agora. Do que fará de sua vida. Acima de tudo, respirou com força. Se olhou no espelho, de cabelos soltos escorridos e apenas coberta pela lingerie branca rendada. 

   Liberdade. 

 

 



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