História A Gente Continua - Capítulo 18


Escrita por:

Postado
Categorias Malhação
Tags Lica, Limantha, Malhação, Samantha, Vad
Visualizações 835
Palavras 6.654
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), FemmeSlash, Festa, LGBT, Romance e Novela, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Boa noite, leitores maravilhosos!!
Gente, tô postando numa correria total esses dias, porque minhas férias acabaram e meu e-mail tava abarrotado de serviço acumulando lá. Sério, se fosse nos tempos da dona máquina de escrever acho que minha mesa ia estar igual aquelas propagandas que o cara some atrás dos papéis. (Mas vai dar certo!!!).

Agora já vou pedir desculpas por antecipação, porque o próximo capítulo vai ser escrito com o mesmo cuidado que um artesão vai suas peças. Então amores... Paciência. Vai dar certo...

Tô me desculpando demais já, né? Então vamos ao cap.

Espero que gostem.

Capítulo 18 - Nós só não sentíamos o que queríamos


O salão estava lindo e, com exceção de seu pai, todos os seus familiares estavam lá. Até sua avó, que Samantha não via há alguns meses.

A senhora sempre foi moderninha demais e quanto mais o tempo passava, menos filtro ela tinha. Viu Samantha chegar com Tadeu e nem deu tempo para apresentações:

- Samantha! Que homenzarrão! – Samantha arregalou os olhos e Helena sorriu. – Eu devia ter casado com um homem assim. Seu avô era muito franzino.

- Aí nenhum de nós teria nascido, mamãe. – Helena sorriu e cumprimentou a filha e seu acompanhante. – Está linda, minha filha!

- Obrigada mãe. – Samantha se virou para sua avó. – A gente não namora não vó. O que quer dizer que o Tadeu tá bem disponível. Se a senhora quiser posso fazer o cupido. – Piscou para a senhora.

- Deus me livre! – Ela sorriu. – Não tenho nem fôlego pra tanto músculo não.

Enquanto isso, Tadeu parecia um pimentão. Cumprimentou todos na mesa e agradeceu quando Tina apareceu afobada.

- Você veio, cachorraaaa! – Se tocou que estava na frente da família da amiga, olhou para a mesa e se censurou mentalmente. A avó de Samantha sorriu mais uma vez.

- Eu devia ter nascido nessa época. Esses jovens de hoje são muito mais legais. – Deu um tapa no braço da neta. – Vá se divertir com seus amigos, cachorra!

- Mamãe! – Helena a repreendeu.

- Ué? Não é assim que eles se chamam hoje em dia?

Samantha deu um beijo no rosto da avó e seguiu Tina com Tadeu ao seu lado.

- O pessoal tá lá na frente.

Como em todo início de festa, o DJ tocava um set de músicas eletrônicas mais calmas. Em um dos sofás próximos à pista de dança, estavam Guto e Benê, ela com uma careta por causa da música, Felipe e sua mina do Recife, Clara e Juca. Tina e Anderson se sentaram e Tadeu e Samantha se juntaram aos amigos.

- Cadê o Jota e a Ellen? – Perguntou e Anderson respondeu.

- Ficaram mexendo em computador lá em casa.

- Essa sua irmã é uma decepção. – Tina brincou.

- Deixa ela. É ela quem vai levar o dinheiro pra casa.

- Você tá linda, amiga. – Clara, que também estava deslumbrante num vestido azul, a elogiou.

- Você também arrasou, amiga.

Tina sacou seu celular do bolso do paletó de Anderson e se acomodou entre as meninas.

- Fotos! Muitas fotos!

- Isso mesmo. – Samantha brincou. – Vamos tirar o maior número de fotos agora, antes da primeira dose. Porque depois... Só Jesus!

- Isso mesmo. – Tina se posicionou e gritou para os amigos. – Junta aí povo! – Tadeu se juntou no fundo da foto, com um sorriso tímido.

Tiraram várias fotos. Na primeira, Guto piscou, na segunda, Clara tinha resmungado algo na hora da foto e saiu horrenda, na terceira, Samantha fez uma careta só para implicar com Tina, na quarta, Felipe e a sua namorada saíram discutindo, só na quinta tentativa Tina conseguiu tirar uma foto aceitável.

- Agora os casais. – Tina continuava, mais animada para tirar fotos do que tia em festa de natal.

A foto de Benê e Guto saiu quase como um retrato de casal dos anos quarenta, de tão sérios.

- Pelo amor, gente. Sorri uma vez na vida!

Benê deu um sorriso estranho, e Guto um sorriso impaciente de quem não queria mais tirar foto nenhuma.

Felipe era um cara desinteressado e mal se colocou ao lado da garota para tirar a foto. Aquele casal não ia durar muito tempo mesmo... Então Tina nem se preocupou em tirar outra foto.

Tadeu tirou a foto de Tina e Anderson e, sem dúvidas, era o casal mais exibido do lugar. Parecia que a foto ia para uma capa de disco.

Clara e Juca tiraram uma foto fofa. Ele a abraçando por trás e lhe dando um beijo no rosto.

- Agora vocês. – Tina apontou para Samantha e Tadeu. Os dois se entreolharam e não se mexeram. – Qual o problema? Não precisa beijar não gente. É só uma foto.

Então os dois se posicionaram em frente ao celular. Tadeu não sabia se pegava na mão da garota ou lhe abraçava. Queria muito abraça-la, mas não sabia se Samantha lhe daria espaço pra isso. E ela não sabia se daria alguma esperança se abraçasse sua cintura para posar para a foto, já que ela sabia que ele estava afim dela e não queria nutrir um sentimento que não seria recíproco.

Meio desajeitados, ele passou o braço pelo ombro dela e ela rodeou a cintura dele com um braço. Pronto. Tinham uma foto.

Ficaram ali jogando conversa fora e relembrando dos bons tempos de escola que agora chegavam ao fim. Todos tomavam cuidado para não falar o nome de Lica ou de MB perto de Samantha, mas era quase impossível achar alguma história em que os dois não tivessem envolvidos.

Mas um ser apareceu para lembra-los bem disso. Percebendo que Samantha estava acompanhada de Tadeu e sabendo da história de Lica, Rafael apareceu com sua gangue para atormentá-la uma última vez em sua vida.

- Boa noite. – Ele cumprimentou com um sorriso cínico. – Ué Samantha. Cadê sua namoradinha? Voltou a gostar de homem?

- Ai Rafael, vaza vai... – Samantha revirou os olhos e Tadeu se colocou ao seu lado. Ele era o dobro do tamanho de Rafael, mas o rapaz não se intimidou.

- Calma, gata. Só tô curioso. Você batia no peito pra dizer que era a sapatona arco-íris e agora tá aí com esse cara? A zé-droguinha te traumatizou tanto que te fez correr pra ele? Ou bateu a necessidade de uma foda de verdade?

Nessa hora, Tadeu se colocou a frente de Samantha e encarou Rafael. Sua voz saiu bem mais grossa e o sotaque carregado fez Rafael estremecer.

- Respeita a moça seu verme. Eu não sei quem tu é, mas hoje tu não vai estragar a noite de ninguém.

- Eu sou o cara que comeu ela primeiro. E você, gauchinho? Sabe o que dizem dos gaúchos né... – Engoliu o medo e sorriu cínico.

- Tá curioso porque? Quer provar?

Samantha reagiu, com ira daquele idiota tocando no nome da sua amada e infernizando a noite de todo mundo.

- Esquece, Tadeu. Nem vai ter graça brigar com esse aí. – Para Rafael. – Já esqueceu a surra que você levou da Lica? – Rafael fechou a cara. – O Tadeu aqui te dá um soco só e você só acorda na próxima encarnação.

Rafael olhou ao redor e viu que seus amigos já tinham dado vários passos para trás. Então ele apenas mordeu os lábios, fez sua típica cara marrenta, alinhou o paletó e saiu resmungando.

- Viadinho...

Quando Rafael saiu, Juca foi o primeiro a falar.

- Nossa... Que cara folgado.

Clara brincou para amenizar o climão.

- Você me defenderia assim, paixão?

Juca tossiu e arrumou os óculos. Se tinha uma coisa que ele não fazia bem era brigar. Nem rebater ofensas ele conseguia fazer direito.

- Claro. – Disse um pouco desconcertado e todos caíram na gargalhada.

- Acho que a Clara é quem vai te defender, Juca. – Anderson brincou.

- Eu não sou machista. – Juca brincou. – Ela pode me defender a vontade.

O DJ diminuiu o som para fazer o anúncio de que os alunos e pais deveriam se preparar para a valsa.

Na fila, Samantha viu Edgar se posicionar com Clara e o estômago de Samantha revirou na mesma hora.

Marta e Luis tinham se desculpado com Clara, mas não aguentariam ficar na mesma mesa que Malu por muito tempo, então só a prestigiaram na colação de grau mesmo. Se ao menos Luis estivesse ali a coisa ficaria menos tensa.

Isso porque toda vez que Samantha olhava para Edgar, ela pensava que se Lica não estava ali com ela, era porque esse idiota tinha sido um grandessíssimo merda como pai.

- Você tá bem? – Tadeu, que substituía Bruno naquela dança, perguntou.

- Tô sim. – Entrelaçou seu braço no dele. – Você sabe valsar né?

- Eu jogo futebol americano... – Brincou. - ... É óbvio que eu não sei valsar.

Samantha sorriu.

- Então deixa que eu te conduzo, tá bem? – Ela perguntou e ele sorriu com aquelas covinhas mágicas. Repetiu a brincadeira de Juca mais cedo.

- Eu não sou machista.

- Então tá bom. – Samantha fez uma reverência. – O senhor me concede essa dança?

- Com prazer, senhorita.

A cerimônia seguiu. Os alunos entraram e as famílias se amontoavam para tirar fotos, apesar de os fotógrafos terem sido contratados pelo colégio justamente para isso.

O DJ colocou uma valsa e eles dançaram. Samantha tentava conduzir Tadeu, mas o rapaz era uma negação para dança. Foram duas pisadas no pé e Samantha gargalhava com a postura rígida dele. Era como dançar com uma prancha amarrada ao corpo.

Mas é que ele estava concentrado demais em se movimentar e não abraça-la demais. Samantha usava um perfume tão bom e sua boca era tão convidativa que ele teve que pensar no vestiário pós-jogo para não se precipitar e fazer uma bobagem.

Deus ouviu suas preces e a valsa tinha acabado.

- Eu disse que eu era muito ruim.

- Verdade. – Samantha sorriu. – Eu te perdoo se você pegar uma bebida pra mim.

Enquanto ele se movimentava entre a multidão de pais e alunos, Clara apareceu e brincou com Samantha.

- O que tem de bonito tem de desajeitado né?

- Verdade. – Samantha deu uma risadinha. – O que importa é ter saúde né?

- Pelo menos eu sei dançar. – Juca falou todo convencido.

- Valsa né? Quero ver dançar um funk comigo.

O olhar dele foi longe e Juca nem percebeu que pensava alto.

- Eu prefiro olhar... – Deixou escapar um sorriso safado. - ... Rapaz...

- Caipiroska? – Tadeu trouxe o copo e entregou um para Samantha.

- Já estamos bebendo? – Clara arqueou a sobrancelha.

- Ué? Não esperamos três anos por esse momento? Então... Jogo o copo pro alto e vamos beber, minha filha! – Samantha estendeu o copo em um brinde solitário e puxou um gole grande pelo canudinho.

Enquanto o grupo começava a festa de verdade, Lica já tinha chorado tudo o que tinha pra chorar e agora conversava com Selma.

- Então você ia ver sua namorada?

- De longe. Só pra matar a saudade. – Ela respondia, de cabeça baixa. – Ela tava tão bem...

- Que bom né? Você queria que ela tive mal?

- Não! Eu queria que ela seguisse em frente e namorasse alguém normal, sem tantos problemas... Aquele cara deve ser o cara certo pra ela.

- Como você pode ter tanta certeza? Você conhece ele? – Lica negou com a cabeça. – Você conversou com ela sobre isso? – Mais uma resposta negativa? – Você então é adivinha?

- Não... Mas ela tava linda e o cara abriu a porta do carro pra ela.

- E o que isso tem a ver, garota?

- Que é um cara legal. Homens não abrem a porta do carro a menos que sejam caras legais.

- Além de tudo você não sabe nada de homem. Homens abrem a porta do carro até te comer, depois eles nem se lembram de destravar a porta do passageiro pra você entrar.

- Tanto faz... O cara parecia legal e pronto.

- Tá. Digamos que o cara seja mesmo um cara legal. Sua garota gosta dele? – Lica deu de ombros. – Ela acha que ele é o homem ideal? – Lica abriu a boca para responder, mas Selma a interrompeu. – Se você responder que ele abriu a porta do carro pra ela eu te meto a bolacha na cara. – Lica revirou os olhos. – Escuta uma coisa patricinha. A gente não escolhe quem ama. Se essa menina te ama mesmo, e pelo que você me contou ela te ama pra caramba, ela pode até sair com esse cara, namorar, casar e ter três filhos com ele, mas no dia em que você aparecer, ela vai te escolher.

- Ela tá bem melhor sem mim...

Selma a analisou, pensou se fazia ou não aquela pergunta, mas fez.

- Você a ama?

- Amo.

- De verdade? Você quer vê-la feliz?

- Eu sumi pra ela ficasse bem. Eu fiz isso porque a amo muito. Eu daria minha vida por ela se possível.

- Engraçado... Você faria de tudo por ela... Daria até sua vida por ela... Então por que você não larga essa merda por ela?

Lica a encarou por alguns segundos. Pensando bem na resposta. Respondeu aquilo que lhe veio na mente.

- Porque eu não consigo parar. – Passou as mãos pelos cabelos. – Eu tentei. Eu juro que eu tentei. Duas vezes até! Mas não dá! A dor é insuportável e eu ia morrer sozinha...

Selma a interrompeu.

- E se morresse? Você acabou de me dizer que daria sua vida por ela. – Chegou mais perto de Lica e falou, dura e direta. – Você faria mesmo tudo por ela? Qualquer coisa mesmo? Você a ama tanto quanto diz que ama?

- É claro que eu a amo! – Lica se levantou, irritada por estar acuada.

- Eu acho que você não enfrentaria tudo por ela. Você fugiu ao invés de lutar por vocês.

Lica balançou a cabeça.

- Eu vou sair.

Se virou em direção a porta e Selma falou mais alto para interrompê-la.

- E tá fugindo de novo! É isso que você sempre faz, não é? Papai e mamãe sempre resolveram tudo pra você, não é patricinha? – Lica não a encarava. Estava com a mão na maçaneta, incapaz de girá-la e sair. – Aí quando os heróis viraram vilões e você não podia mais contar com eles começou a se drogar pra fugir dos problemas, não é? E aí a droga também virou um problema e aí você fugiu de todo mundo. Agora eu estou sendo um problema e você vai fugir. É isso não é!? Você não passa de uma covarde! A garota lá sim era corajosa e te amava, porque pelo que você falou ela estava disposta a passar por qualquer coisa com você.

Lica abriu a porta.

- Sai mesmo! Vai esfriar a cabeça e olhar ao seu redor. Pensa nas pessoas que você conheceu e tudo o que eles passam. Você está agora entre guerreiros. Vê se aprende alguma coisa com eles.

Lica saiu e, antes que fechasse a porta, Selma lhe gritou:

- E se comprar qualquer bagulho com outro não precisa mais voltar!

Ela saiu enfurecida. Selma tinha enfiado o dedo na sua ferida com vontade e a reação foi essa. Selma sabia que Lica não faria nenhuma besteira. Na verdade, aquela situação era como se Selma quisesse ajudar um cão ferido. Você se aproxima com a intenção de ajudá-lo, mas ao tocar a ferida, a intensa dor o faz te atacar para que você para de trazer ainda mais dor do que ele já está sentindo.

Ela sabia que Lica primeiro a xingaria mentalmente de todos os nomes, depois caminharia por horas e horas, se acalmaria e pensaria bem no que tinha sido falado e, quando a vontade pela droga batesse, ela voltaria.

Tranquila e, como se nada tivesse acontecido, sentou-se ao sofá, ligou a TV e voltou a assistir o programa de auditório.

Enquanto Lica saía enfurecida, em pleno Centro de São Paulo, a festa rolava madrugada adentro num salão próximo dali.

Samantha estava mais que alegre depois de muitas caipiroskas. Ela, Tina e Clara já tinham tirado os saltos e dançavam enlouquecidas ao ritmo do funk. Até a avó de Samantha se remexia na cadeira com aquele ritmo frenético.

Tadeu apenas observava, mas Rafael chegou perto de Samantha e sussurrou algo no ouvido dela. Quando a garota fez careta, Tadeu se impôs novamente, fazendo Rafael sumir dali e ele achou mais seguro ficar próximo de Samantha e se forçar a dançar alguma coisa.

Guto e Benê já tinham ido embora para comemorarem a noite em um lugar mais calmo. A pista de dança estava uma grande bagunça de jovens dançando, bebendo e se agarrando. Edgar até teve certeza de que alguns pais bateriam em sua porta na segunda-feira para reclamar.

Mas ele também estava pouco se importando com os pais. Aliás, depois de todas as sessões com Bóris, ele finalmente assumiu que odiava aquele trabalho e queria mesmo era mandar os pais para a puta que o pariu e sumir daquela escola.

Samantha não estava podre de bêbada, nunca foi de beber muito. Mas estava alta o suficiente para se soltar e viver o momento, esquecendo de escola, de Lica e de tudo o que passara até ali. Estava até com a mente aberta para perceber como Tadeu era mesmo um cara bonito e, sem o paletó, com a gravata frouxa e as mangas dobradas, ficava ainda mais sexy.

Esqueceu até da conversa com Benê sobre ele ser um cara legal e não machucá-lo. Iria beijar aquela boca, e se ele topasse, o levaria para algum lugar. Tomou mais uma caipiroska, piscou para Tina e começou a dançar coladinha com ele, que tratou logo de mentalizar o vestiário e aquele bando de homem feio e suado novamente, pra Samantha não correr o risco de sentir algo com todo aquele contato e ele ficar ainda mais constrangido.

Assim ficaram até a madrugada. A família de Samantha foi embora e Helena a fez prometer que ela voltaria direto para casa e que não usasse o pobre do Tadeu para a levar para outra balada. Sua vó ainda tentou argumentar que Helena deveria deixar de ser chata e aconselhou que os dois emendassem a noite num motel e até deu o nome de um que ficava ali perto.

- Como a senhora conhece essas coisas!? – Helena se espantou.

- Até pouco tempo atrás seu pai ainda me surpreendia.

- Não me diga mais nada, mamãe. Vamos embora. – Para Samantha. – Por favor, volta pra casa antes do café, tá bem?

- Tá bem, mãe. – Sorriu sapeca e piscou para a avó.

Mais no final da festa, o DJ colocou músicas lentas para os casais. Era o momento em que quem estava se pegando por puro fogo, sumia para algum lugar para aliviar o tesão, quem já estava cansado ia para casa, quem queria ferver procurava outra balada e quem queria namorar ficava ali, dançando agarradinho.

Samantha se sentou e viu os casais e seus amigos dançando. Anestesiada bela bebida e sem filtro no seu cérebro, pensou em Lica e reprisou o que ela vinha sonhando há muito tempo, desde que ainda namoravam.

Como Lica odiava essas formalidades, Samantha chegaria sozinha, mas Lica não aguentaria e invadiria aquela festa sorrateiramente. Ela aproveitaria que estaria tocando Arcitc Monkeys e estenderia a mão para Samantha, convidando-a para dançar a sua banda preferida. Samantha brincaria que Velvet Underground era muito melhor só para implicar e as duas dançariam coladinhas. Pele na pele, olho no olho e, por fim, boca na boca.

Curiosamente, estava tocando Mad Sounds, a música que Lica brincava que seria a valsa do seu casamento. Mas quando acordou dos pensamentos, era Tadeu quem lhe estendia a mão.

- Você tá aí sozinha... Dança comigo. Eu juro que vou me esforçar pra te acompanhar.

Samantha soltou um suspiro e sorriu. Tadeu era mesmo um cara muito legal e Samantha quis muito poder se apaixonar por ele. Mas estava ocupada demais amando Lica para se apaixonar por outras pessoas.

Talvez fosse hora de se forçar ter uma nova chance no amor. Aceitou a mão do garoto e deixou ser conduzida para a pista de dança.

Ele se posicionou como se fosse dançar a valsa novamente, então Samantha o surpreendeu passando os braços ao redor do seu pescoço e descansando a cabeça em seu ombro. Demorou para cair a ficha, mas quando caiu, Tadeu a abraçou e os dois se moveram no ritmo lento da música e Samantha pôde sentir as batidas fortes do coração dele.

O perfume dele era bom, o abraço era quente e aconchegante. Ela se sentiu bem e protegida ali, mesmo que em sua cabeça algo não estivesse encaixando. Fechou os olhos e se deixou levar, já que ele a conduzia dessa vez.

Em um dado momento, ela o encarou. O olhar dele era puro e sereno, mas o dela estava perdido e confuso. Se esticou na ponta dos pés e capturou os lábios do garoto.

Os outros amigos observavam curiosos aquela dança e quando os dois começaram a se beijar as reações forem idênticas. Todos sabiam que aquilo não era o ideal, que outra pessoa deveria estar ali, mas ficaram felizes por Samantha seguir em frente.

O beijo não foi ruim, como Samantha temia. Pelo contrário, Tadeu era carinhoso e o beijo foi tranquilo. Apesar de se um cara forte, a pegada era sensível e Samantha foi quem acariciou seu cabelo curto com mais força para aprofundar o beijo.

O problema foi quando se separaram e ele sorriu aliviado.

- Nossa, Sammy... Isso foi maravilhoso.

Ele estava nas nuvens. No fim, suas investidas pacientes deram certo e Samantha o beijou. Mas quando ele abriu os olhos, Samantha o olhava séria, com os brilhando talvez por lágrimas? Ele se preocupou.

- Eu fiz algo errado? – Ela se afastou, engolindo em seco e balançando a cabeça. – Samantha?

- Eu... – Ela gaguejou. – Desculpa eu...

Nem conseguiu terminar de falar. Correu para pegar as sandálias, deixando um Tadeu confuso e aflito para trás.

- O que foi Sam? – Clara apareceu preocupada. Samantha secou uma lágrima teimosa. – Ele falou alguma coisa?

- Ele é perfeito, Clara. – Samantha disse com a voz embargada. – Mas ele não é ela.

Clara suspirou e sentiu pena da amiga, arrebentando a corda e voltando para o fundo do poço outra vez.

- Onde você vai? – Perguntou assim que Samantha corria para fora do salão. Sem resposta, ela foi atrás de Tadeu. – O que aconteceu? Pra onde ela foi?

- Não sei... Eu só disse que tinha gostado do beijo e ela ficou assim do nada. Eu não sei o que eu fiz, mas eu achei que tava tudo bem... Eu vou atrás dela.

Tina balançava a cabeça.

- Relaxa Tadeu. – Segurou o braço do rapaz. – O problema foi que você a chamou pelo apelido.

- Eu achei que não tinha problema. A gente tinha acabado de se beijar, aí não ia chamar ela de Samantha, como se não tivesse sido algo especial.

Clara continuava confusa.

- Tá. Você chamou ela de Sam e não de Samantha. O que tem de errado nisso?

Tina respondeu a sua pergunta.

- Ele chamou ela de Sammy.

Clara finalmente entendeu. Tadeu continuava perdido.

- Fiz mal? Achei que combinava com ela.

- Não Tadeu... Era o apelido que minha irmã deu pra ela. Desculpa, mas eu acho que a Lica nunca vai sair da cabeça da Samantha.

Tadeu abaixou a cabeça e suspirou derrotado.

- Eu ainda acho melhor ir atrás dela. O Centro de São Paulo não tem boa fama.

- Ô! E a gente não sabe? Você tá de carro né? – Tadeu assentiu e Tina continuou. – Pega as chaves, vamos atrás dela.

Samantha caminhava pelo Centro. Fazia frio e o vestido de alças finas não ajudava em nada a manter seu calor. Mas ela precisava sair de perto de Tadeu, da formatura do colégio Grupo e das amigas. Porque tudo aquilo lembrava Lica e do jeito como Tadeu havia pronunciado seu apelido com tanta paixão quanto Lica, fez Samantha ter a sensação de que tudo ali estava fora de lugar. Ao mesmo tempo em que se sentia frustrada por não conseguir tirar Lica da sua cabeça. Afinal, já tinham se passado três malditos meses. Já era pra ela ter superados, não? Agora Tadeu a chama de Sammy e ela sai correndo feito uma pateta no meio da rua...

E se considerou uma idiota quando a emoção passou e percebeu que andava sozinha, a noite, no Centro de São Paulo, em roupas de festa. Infelizmente, nesse Brasil de meu Deus, não era a ideia mais inteligente e se algo acontecesse, ainda teria que aguentar os dedos na sua cara dizendo que a culpa foi dela de se colocar em risco daquele jeito.

E como uma interferência do mal no universo, ouviu passos atrás de si. Um homem magro e aparentemente bêbado gritou alguma gracinha, Samantha apertou o passo, fingindo que não tinha ouvido.

Por pura coincidência ou destino mesmo, Lica estava caminhando na rua adjacente, fumando um cigarro e refletindo bem as palavras de Selma. Pensou em tudo o que Samantha passou ao seu lado e o que ainda estava disposta a passar... Ela sim tinha coragem, e isso era inegável...

Mas Lica sempre se julgou tão valente que tinha certeza, até aquele momento, que poderia rebater as acusações de Selma. Ela enfrentou Edgar em todas as vezes que foi preciso, enfrentou o preconceito ao lado de Samantha, ajudou a fazer um parto!, e teve coragem para fugir e deixar todos bem.

Exatamente... Teve coragem pra fugir... Não para ficar e enfrentar...

Começou a entender que o problema não era seu vício. Se ela quisesse e tivesse coragem ela resolveria esse problema com a ajuda todos, por mais difícil que fosse.

O problema era ela mesma!

Continuaria pensando naquele assunto se não tivesse ouvido um grito de uma mulher e um resmungo de um cara.

Era uma mulher e um cara, a essa hora da noite, naquele lugar... Não podia ser boa coisa. Então ela seguiu o barulho.

Virou a esquina e, numa pequena praça, viu um homem tentando agarrar uma mulher, que se debatia.

- Ei! – Gritou. – Larga ela!

O homem a largou e Lica reconheceu que era um bêbado que sempre estava por ali arrumando confusão. Apenas enxotou o cara e pediu que ele deixasse a moça em paz.

Mas quando ela viu quem era a moça, sua respiração parou e o ódio lhe subiu a cabeça. Usando das lições de Guilherme, partiu pra cima do idiota, o empurrou com facilidade, lhe deu um chute com extrema força nas partes íntimas do cara e, quando ele se revirou de dor, lhe deu vários socos até ele desmaiar. Não foi difícil e nem o machucou muito.

Se virou e Samantha estava parada, lhe olhando assustada.

- Você tá bem? – Lica perguntou, procurando por qualquer ferimento em Samantha.

- Tô... – Ela respondia, embasbacada. – Meu Deus... É você mesmo? – Sorriu emocionada.

Lica olhou ao redor para ver se tinha mais alguém por ali. Viu as roupas de Samantha e, pelo frio que fazia, a tirou dali.

- Vem. Vamos sair daqui...

A abraçou para esquentá-la e saiu em direção ao lugar mais próximo que conhecia.

Lola calçou as pantufas e, em sua sua camisola, saiu resmungando pelo apartamento diante das frenéticas batidas na porta.

- Já vai! – Lica continuava a bater. – Quieta o facho menina! Já vô. - Finalmente ela destrancou a porta e viu Lica com uma visita inesperada. – Tá. Pode começar a se explicar.

- Ela foi atacada na rua e tá sem bolsa, dinheiro ou celular. Deixa a gente passar a noite aqui? A Selma me mata se eu a levar lá.

Ao ouvir o “atacada”, Lola abriu a porta rapidamente e Lica conduziu Samantha até o sofá.

- Eu vou fazer um chá de cidreira. – Lola foi para a cozinha e Lica se agachou na frente de Samantha.

- Sammy... Você tá bem?

Samantha ainda a olhava perplexa. Somando o fato de quase ter sido violentada, mais o fato de que Lica a salvo e o incrível fato de estar ali com ela naquele momento.

Era sua Lica. Uns dez quilos mais magra, com o cabelo maior e os olhos mais fundos. Mas era ela mesma...

Samantha pensou que nunca mais veria aqueles olhos ou sentiria o toque suave da sua garota novamente. E agora ela estava ali, bem na sua frente, no momento mais oportuno possível.

- Sammy... – Lica insistiu e Samantha começou a sorrir. Um sorriso um tanto engasgado pela emoção.

Foram apenas três meses, mas parecia uma eternidade...

Acariciou o rosto de Lica e a morena abaixou a cabeça num sorriso tímido. “Ela estava bem.” Pensou.

- É você mesmo Lica...

- Sim. Sou eu. – Insistiu. – Você tá bem? Aquele nojento te machucou?

- Não... Você chegou bem a tempo. – Samantha a olhava como se observasse uma pintura de uma exposição itinerante, que logo sairia do seu alcance. Mas reparou que a ex-namorada estava magra demais e usava roupas estranhas. – E você? Tá bem? Tá tão magra...

Lica abaixou a cabeça envergonhada e deu um sorriso sem humor.

- É... Coisas da heroína...

- Você ainda usa. – Samantha disse mais como uma afirmação do que como uma pergunta. Mesmo assim, Lica assentiu.

Samantha preferiu não falar mais nada. Nem sabia o que dizer, na verdade. Ou fazer...

Observou que  Lola estava parada em frente a porta da cozinha, observando as duas com um carinho maternal.

Lica se levantou e foi até ela pegar a xícara com chá.

- É a sua musa? – Sussurrou.

- Aham. – Lica sussurrou de volta e Lola sorriu abertamente para o reencontro das duas garotas.

Lica entregou a xícara para Samantha e se sentou ao seu lado.

- Toma vai. Pra te esquentar...

Samantha tomou um gole do chá e sorriu.

- Obrigada. Por mais cedo.

Lica sorriu de volta. Um sorriso genuíno por ter feito algo bom para Samantha.

- Por nada. – Coçou a garganta. – E o seu namorado? Onde tava?

- O Tadeu não é meu namorado. – Sem perceber, Lica sorriu. – E a... Selma? – Samantha perguntou ao lembrar que Lica a havia citado quando chegaram ao apartamento.

- A Selma... Bom... Ela é... Como minha mãe.

Samantha olhou para Lola, o apartamento simples onde estava e as roupas de Lica.

- Pelo visto você tá vivendo uma outra vida. Bem mais... Humilde.

- Hum... – Lola cruzou os braços. – Pobre. Pode dizer. – Lica sorriu da carranca da amiga. Igual quando se viram pela primeira vez. – Mas o que falta de dinheiro aqui a gente preenche com muito amor, não é, mon cher?

- É sim Lola. Eu vou repetir isso sempre. Vocês são minha família.

Samantha a olhou confusa.

- Você não pensa em voltar? – Lica abaixou a cabeça. – Lica, tá tudo mundo louco atrás de você.

- Eu liguei e...

- Disse que estava bem. Eu sei. Mas a Marta tá sofrendo pra caramba, Lica. Ela até se juntou com um grupo de mães de dependentes químicos e toda vez que elas saem pra distribuir roupa e comida na Cracolândia ela procura por você... A Clara sente sua falta, as five, eu sinto sua falta.

- Sammy...

- Você pediu pra eu seguir a vida e eu até tentei. Mas não consigo te esquecer. Eu te amo, Lica. – Agarrou as mãos de Lica e olhou para o braço marcado por agulhas. – Mesmo com os seus defeitos.

Lola percebeu o momento e viu que era hora de se retirar para dar mais privacidade às duas.

- Com licença, meninas. Eu vou me recolher. – Tocou o ombro de Lica. – Cuida bem dela, mon cher. Depois passa no meu quarto e pega uma roupa confortável pra ela, cobertor e travesseiro, tá bem?

- Tá bem, Lola. Obrigada.

- Fica bem, Samantha. Se essa ridícula aprontar alguma é só gritar que eu jogo ela fora.

Samantha riu e acenou para Lola. Quando ela saiu, Samantha comentou.

- Ela é legal.

- Sim. Ela é.

Samantha a olhava curiosa. Não era só a aparência física mudada... Lica estava diferente até no olhar e na fala. Ela falava pausadamente, tranquila e não levantava a voz. Parecia mais madura... Na verdade, nem parecia Lica.

Podia considerar uma evolução da espécie Gutierrez?

Se sim, Samantha adorou aquela versão.

- E o MB?

- Ele se internou. – Lica a olhou interessada. – Depois daquele dia no hospital ele foi pra uma clínica em Minas, pra um programa de três meses. A K1 manda notícias direto.

- E ele... Tá bem? Tipo...

- Você quer saber se ele parou? – Lica assentiu. – Sim. A K1 não deu detalhes porque durante a desintoxicação eles não deixam a família participar, mas agora ele tá bem.

- Que bom...

Samantha acariciou as mão de Lica.

- Não é impossível, Lica. Você pode largar a heroína. Agora eu tô vendo que você tá rodeada de gente boa, mas ainda assim vou me preocupar com você usando isso aí ainda.

Lica cortou o assunto.

- Bom... Eu vou pegar uma roupa da Lola pra você. Vai ficar um pouco grandinho, mas você não se importa, né?

- Não. Qualquer coisa é melhor que esse vestido. – Sorriu. - Será que eu posso só usar o telefone pra avisar que eu tô bem? Saí louca da festa e deixei meu celular pra trás.

- Claro. Ele fica na cozinha. Só... – Coçou a nuca. - ... Não conta pra ninguém que me viu, ou onde você tá... Por favor?

Samantha suspirou.

- Pode deixar. Eu guardo seu segredo.

- Obrigada.

As duas ainda trocaram um olhar cúmplice. Em que Samantha dizia entender o lado de Lica e a morena agradecia a compreensão em retorno.

Pegou tudo o que Samantha precisaria para passar a noite, a mostrou o banheiro e, enquanto ela tomava um banho, improvisou uma cama no sofá de Lola.

- E aí, mon cher... – Lola quase lhe matou de susto chegando tão de repente. – Lindinha essa sua namorada, hein.

- Ela não é minha namorada, Lola.

- Porque você é uma idiota. Eu não acredito que você largou esse mulherão, sua estúpida.

- Foi ela quem terminou comigo primeiro. Não tiro a razão dela também...

- Mas ela tá aqui agora.

- Eu não ia deixar ela sozinha na rua. É só até amanhã e...

- Não se faz de sonsa. – Lica levou um tapa amistoso no braço – Eu tô falando de você não deixar ela escapar. Ela ainda te ama.

- Eu também a amo muito, Lola.

- Então... Aproveita que o destino trouxe sua musa de volta. – Se aproximou e deu um beijo na testa da garota. -... Boa noite.

- Boa noite. E Lola? – A mulher se virou. – Obrigada... Por tudo.

- Foi um prazer, mon cher.

Quando Samantha voltou, estava exausta. Lica deixou que ela deitasse e a cobriu com a coberta.

Incrível como até com as roupas de Lola ela ficava linda.

Lica ia até a cozinha pegar uma cerveja, mas Samantha segurou seu braço, achando que ela a deixaria novamente.

- Fica aqui. – Lica olhou para a garota que tinha um certo temor nos olhos e assentiu com um sorriso sereno.

- Claro. -Se sentou no chão ao lado do sofá acariciou a mão de Samantha. – Vou ficar aqui do seu lado.

- Não vai dormir?

- Estou sem sono. – Estava mesmo era querendo admirá-la dormir. – Dorme bem.

- Com você do meu lado? Não tenho como ter uma noite melhor.

Fechou os olhos e Lica sorriu. Ficou um bom tempo admirando Samantha dormir e, quando sua respiração parecia ritmada, Lica foi até a geladeira e pegou uma das cervejas que Guilherme deixava por ali.

Geralmente, eles bebiam assistindo ao futebol, ele Corinthians e ela Palmeiras. Mas agora ela se sentou para assistir algo que lhe dava muito mais prazer do que ver seu Palmeiras massacrar o Corinthians. Ela velava o sono de Samantha e era invadida de uma felicidade sem limites.

Pensou bastante também... Se lembrou de tudo o que vivera até ali, toda curva da sua história e, nisso pensou até sua cabeça doer, nas palavras de Selma.

Samantha dormindo parecia um anjo, mas aquela garota tinha uma força inimaginável. Lica não se lembrava dela fugir de nenhuma batalha. Samantha sempre enfrentava tudo e mesmo que não pudesse enfrentar sozinha, Samantha tinha a inteligência para pedir ajuda. Mas nunca, nunca mesmo, ela entregava os pontos.

E a maior prova disso era a própria Lica. Quantas vezes ela deu motivos suficientes para que Samantha a abandonasse sem nem olhar pra trás, mas ela continuou lá, ao seu lado, insistindo que tudo daria certo... E ainda agora, estava ali pedindo que Lica não fosse embora depois de três meses sem se verem e mesmo sabendo que Lica não tinha largado as drogas nesse tempo.

Ela tinha medo. Muito medo... Mas Selma tinha razão. Não podia fugir pra sempre e rejeitar todas as oportunidades que batiam a sua porta. Precisava crescer e enfrentar o mundo de cara.

Bom... Pelo menos depois de cumprir com suas obrigações, porque o relógio do dvd marcavam cinco horas e Selma e Guilherme precisavam do seu pão quente para o café da manhã.

Lola acordou e Lica pediu que ela cuidasse de Samantha até ela voltar.

- Você volta então...

- Volto. – Disse determinada. – Mas preciso falar com a Selma antes.

- Pois então vá logo, mon cher. Vê se não demora.

Lica saiu, passou na padaria de sempre e depois voltou para o apartamento de Selma para preparar café.

Tomou sua última dose, que, mesmo após a discussão, estava lá no seu quartinho.

Preparou o café e deixou a mesa posta quando em condições de fazê-lo. Tudo como sempre.

Guilherme chegou e se sentou à mesa.

- Bom dia patricinha.

- Bom dia.

Já quando Selma entrou na cozinha, para surpresa de todos, Lica a abraçou.

- Obrigada, Selma. Obrigada por tudo.

- Tá bem... Pensou no que eu disse?

- Se eu te disser o que aconteceu... – Sorriu e começou a contar como foi a sua noite. Selma ouvia tudo com um sorriso no rosto e, enquanto tomava um dos melhores cafés que já tinha tomado na vida, pensava no dever cumprido. Finalmente a patricinha que cruzou sua porta meses atrás caía na real.

- Vai se cuidar e viver sua vida.

- Eu venho sempre te visitar.

- Não... Aqui não é lugar pra você garota. Você precisa conquistar seu espaço de volta.

- Vocês me ajudaram a me encontrar. Vocês são meu lugar tanto quanto Higienópolis.

Se despediram com uma certa emoção. Para Lica, ficou a maior lição de sua vida; para Guilherme, a prova de que se pode seguir em frente; e para Selma, fica a consciência lavada de recuperar uma alma boa que ela mesma ajudou a danificar.

Lica só não correu pelas ruas do Centro porque já estava cheia de gente e não queria esbarrar nas pessoas. Mas andou o mais rápido que pôde, torcendo para que Samantha não tivesse desistido ali, nos quarenta e cinco do segundo tempo.

Tocou o interfone como se não houvesse amanhã, Lola já tinha deixado a porta aberta e Samantha e Lola conversavam, tomando café e comendo bolo.

- Voltou mesmo hein... – Lola brincou. – Essa menina maravilhosa aqui já tinha desistido viu. O que te salvou foi meu bolo de fubá divino.

- Eu disse que voltava. – Pegou a mão de Samantha. – Você me perdoa Samantha? Por tudo o que eu te fiz passar esse último ano? Eu fui imatura, fraca, estúpida e, achando que eu tava ajudando, só piorei tudo. Mas esse tempo aqui com pessoas legais me fizeram finalmente perceber isso e eu quero corrigir tudo de errado que fiz, eu quero ser uma pessoa melhor, quero ficar bem e te fazer bem. Eu vou entender se você disser não e, ainda assim vou me tratar. Mas se você estiver comigo vai ser muito melhor. Então, por favor, não desiste de mim agora. Me dá uma última chance de ser sua mulher e de fazer o possível pra te fazer feliz.

Lola já chorava igual tia em casamento, limpando uma lágrima com o guardanapo antes que saísse do olho. Samantha a observava sem reação e Lica se preocupou, dizendo quase num gemido:

- Tudo bem. Eu entendo...

Samantha não a deixou responder, soltou suas mãos da de Lica para pular no pescoço da mais alta e lhe dar um baita beijo, cheio de saudade e amor.

E aquele beijo sim tinha encaixado bem. Era o melhor beijo do mundo e nunca que Samantha desistiria dele.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...