História A Gravidade nos Levará para Casa - Capítulo 8


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Categorias Histórias Originais
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Palavras 1.138
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Misticismo, Romance e Novela, Sci-Fi, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Promessa


Fanfic / Fanfiction A Gravidade nos Levará para Casa - Capítulo 8 - Promessa

— Eu sei que há algo de errado nisso tudo e sei que não irá me contar, Florence.

Miles estava com as veias do braço saltadas de uma maneira muito atrativa no volante.

— Não sei o que está pedindo, Miles. – me fiz de desentendida, olhando pela janela para o rio, enquanto atravessávamos a infinita ponte que ligava o hospital público à parte da cidade onde Miles mora.

— Você vai continuar tentando, mesmo na minha própria casa? – ele perguntou, com a voz cheia de tremores.

Não perguntei ao que ele se referia, porque seria idiotice.

Mas também não respondi. Eu mesma não sabia.

E o silêncio permaneceu no carro.

Então, Miles freou, bruscamente, e virou o volante para parar no acostamento.

— Miles? – chamei-o. Ele parecia perdido em pensamentos – o que aconteceu?

— Eu preciso respirar um pouco – disse.

E saiu do carro.

Não o segui com o olhar. Já estava doloroso o suficiente do jeito que era.

Nunca soube como reagir às pessoas depois de morrer e voltar vezes e vezes.

Passei meus dedos sobre meu braço enfaixado, desejando um pouco da dor dos pontos de volta. Sei que seriam mais cicatrizes horríveis, mas também sabia que desapareciam em breve, então não me importei.

A indiferença mediante a vida sempre prevaleceria.

Miles deu um soco no capô do carro. Estava tremendo muito, murmurando coisas que eu não conseguia ouvir. Ele também não saberia reagir a pessoas que morrem e voltam vezes e vezes. Eu não poderia culpá-lo.

Contudo, poderia me culpar. Era a única coisa plausível na minha cabeça, naquele momento.

“Por que alguém se importaria tanto comigo?”, pensei, e senti uma pontada no peito com o pensamento.

E a pontada no peito passou a se tornar garras e a perfurar os meus pulmões. Angústia: era esse o nome.

Miles se aproximou da beirada da ponte, os cabelos bagunçados e negros esvoaçando com o vento frio da região. Barulhos de veículos disputavam com a sua graça. Eu quis abrir a porta e tentar acalmá-lo, mesmo que não vesse motivo para seu nervosismo, mas não o fiz.

Miles não deveria ter se envolvido comigo dessa maneira. Eu nunca pedi por isso. Ele nunca pediu por isso. E agora a minha carapaça servia como algema para uma pessoa tão boa como ele, por mais que a minha memória sobre a nossa amizade tenha desaparecido, como tantas outras coisas.

Senti-me um lixo. Um desperdício. Um erro.

Tudo que eu tocaria se tornaria desastre.

Por que eu não posso ir embora?

Bati minha cabeça com força no painel à minha frente. Senti meus dentes rangerem.

Por que ele se importa?

Miles se aproximava do carro.

Por que alguém se importa?

Depois de um tempo, senti a porta ao meu lado ser aberta.

Ergui meu rosto choroso para encará-lo, mas o que me vi me assustou de verdade.

Ele parecia furioso, de repente.

Abri a boca, mas me contive ao ser jogada para fora, batendo minhas costas com brusquidão no parapeito de concreto da ponte. Grunhi de dor.

— Miles? O que está fazendo? – consegui perguntar, assustada, enquanto ele fechava a porta e se virava pra mim.

Suas mãos tensas agarraram meus pulsos e me puxaram pra cima. Gritei com o movimento, sentindo os pontos repuxarem minha pele e o sangue brotar nas ataduras e comecei a chorar desesperadamente.

— Florence, cala a boca; - ele disse, empurrando seu corpo sobre o meu, apoiado no parapeito.

Miles parecia um maníaco. Senti o concreto contra o meio da minha coluna, sua pélvis junto à minha, o sangue subindo para minha cabeça, à margem da ponte. Eu via o rio longo e fundo correndo logo abaixo de mim, com suas águas turvas e suas fortes corredeiras.

Ele quer me matar.

— Florence, olha pra mim – disse, bufando. Apertou mais meus pulsos e eu gemi.

Ele quer me matar.

— Florence. – tornou a repetir, de maneira autoritária.

Semicerrei os olhos, tentando focar em seu rosto tenso.

— M-Miles... – forcei a garganta, engasgada.

— Florence, é isso que você quer de mim?

Não entendi o que queria dizer. Meu fôlego escapou pela boca quando ele me ergueu mais ainda sob a margem da ponte.

Quis implorá-lo para parar. Algo dentro de mim pulsava, gritava por ajuda.

— Alg- Alguém me ajud-

— É isso mesmo o que você quer? – tornou a dizer, ignorando meu pedido fraco.

Por que ninguém que passava por ali parecia notar o que estava acontecendo? Alguém sequer estava passando por ali? Eu já não conseguia ouvir muita coisa senão o bater frenético do meu coração.

— O q-quê? – disse, e então ele soltou um dos meus braços, que caiu sem forças e sangrando, pendurado ao meu corpo sob o abismo da queda – MILES! - gritei.

— Se não é o que quer, então diga. – e afrouxou o aperto no meu outro braço, aumentando meu desespero.

Então, só então, eu entendi.

O entendimento me inundou como o barulho me inunda quando estou chapada. O entendimento me fodeu, de forma literal.

Eu ri, de maneira sôfrega.

Eu poderia dizer que fiquei comovida e as minhas palavras a seguir foram dotadas do poder do acaso e do calor do momento, mas mil coisas passaram na minha cabeça, e eu só consegui agarrar uma única certeza: eu não queria morrer. Não naquele momento.

E foi o que eu disse, com o fôlego que eu puxei do inferno. Sentia-me prestes a desmaiar.

E foi o que aconteceu, assim que Miles me puxou para seu abraço de maníaco. Foi tudo tão repentino que eu senti o meu peito esfriar e palpitar e depois...

— Não assim – eu disse, e as palavras foram desaparecendo conforme eu mesma deslizava para a inconsciência – não por você...

 

Quando chegamos em casa, trocou minhas ataduras e me deu um banho quente.

Indo e voltando do mundo da inconsciência, por estar tão fraca, não pude distinguir muito bem o que ele falava ou não, o que era real ou não. Uma das coisas que pude ouvir, mais ou menos, quando sua voz me acarinhava com promessas, foi “eu vou te fazer sentir coisas boas, de novo”.

Eu nada disse por um bom tempo, mesmo depois que recobrei a mente.

Miles dormiu comigo, e pouparei os detalhes. Ele estava cansado demais.

Abraçou-me, dormiu, e não recusei o seu toque sobre mim. Queria me proteger. Proteger-me de mim mesma.

O que pareceu ter dito ia e voltava: não dormi a noite toda, apenas quando amanheceu. Como ele poderia me fazer sentir coisas boas, “novamente”? Como sequer me faria sentir algo?

Eu era uma casca vazia, sem conteúdo suficiente para montar as tais sensações de boa ventura. Eu era um produto descartável que passou do prazo. Miles se agarrava a falsas esperanças de tornar-me inteira de novo.

Eu sei que ele se despedaçaria no caminho.

E saber disso me despedaçava cada vez mais.

Somos todos criaturas condenáveis, não somos? Que se dane.



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