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História A história de amor de Sirius Black e Marlene McKinnon. - Capítulo 3


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Notas do Autor


Sim... SUMI POR UM ANO ***boca escancarada***, mas, hey, acho que mais de 6.000 palavras podem compensar isso, não é? Tentei tirar partes não importantes, mas tudo precisa ser incluido. Então, reservem um momento para conseguirem ler. Espero que gostem.

Capítulo 3 - Parceiros diabólicos.


"Dear sir, you are, without any doubt, a rouge, a rascal, a villain, a thief, a scoundrel and a mean, dirty, stinking, sniveling, sneaking, pimping, pockect-piking, thrice double-damned no-good son-of-a-bitch." 

— "1976", Howard da Silva, 1972.

 

Em uma noite no meio do verão europeu, quatro estudantes do segundo ano da escola de magia e bruxaria de Hogwarts, assim como diversos outros jovens, encontravam-se acomodadas no aconchegante Salão Comunal de sua casa, a prestigiosa Grifinória. Tinham em si o entusiasmo e a energia de viver, que se possui quando novo e perde-se com o passar dos anos, nos quais o ser vê-se em rotinas entediantes e cansaço incessante. 

— Mary, matar-te-ei se isso não prestar. Estou falando sério. Se tem algo que prezo é a forma que me apresento para o mundo.

Marlene, sentada numa poltrona, escutando a conversa das amigas, tentava concentrar-se num livro avançado de transfiguração. Não era uma missão tão desafiante, pois treinara por anos com seus irmãos, indivíduos infinitamente mais barulhentos e irritantes. Sem falar que o livro era muito interessante. O capitulo atual falava sobre sombras e como transformar algo em uma.

Quem proferira a ameaça foi Emmeline Vance, uma bruxa de 12 anos, que tinha a habilidade de manter a pele bronzeada mesmo durante intensos invernos europeus e preferiria comer terra a suar. Ela era alta, esbelta e escandalosa.

— Fique quieta e dará certo. Você me fará borrar! — Mary McDonald exclamou. Ela agarrava o pé de Emme, ambas sentadas no chão, e tentava pintar as unhas com um utensílio trouxa... es-esma...? Esma-alguma coisa, Marlene não se recordava. — Pare de puxar seu pé!

A caçula dos McKinnon convivia harmonicamente com Mary, em uma relação supérflua. Eram colegas para encargo de precisão. Não que Lene tivesse algo contra ela – Mary era agradável e quando sorria mostrava as covinhas nas bochechas rechonchudas, o que era uma graça –, só que, por dormirem em quartos diferentes, naturalmente tinham menos contato.

— A culpa é sua! Seu aperto faz cócegas.

— Francamente. Maldita hora que sugeri isso. É melhor pararmos — Mary empurrou o pé da amiga para longe.

— O quê?! Não! Não posso ficar com apenas três unhas azuis. Não seja cruel, Marysita. Hm? Prometo ficar quietinha. — Emme jogou-se no pescoço dela, abraçando-a com força. — Hm? Hmm?

— Onde estão Lily e Ali? — Dorcas Meadowes olhou em volta com seus olhos puxados, fazendo o cabelo liso chicotear o ar.

Era uma menina tímida e gentil; uma das primeiras amigas que Marlene estabelecera na escola. Dorcas era a personificação de uma tarde de verão: pacífica, divertida e despreocupada. Um dom, de verdade. Ela conseguia, apenas com sua presença, mudar para melhor o humor do ambiente.

— Foram à biblioteca procurar um livro para o dever do professor Slughorn — Mary informou. Tirava o borrado da unha de Emme com cuidado e precisão, como um médico comporta-se frente a uma cirurgia.

— Argh! Nem me lembre disso — Emme grunhiu e inconscientemente puxou o pé. Mary a encarou, estupefata. — Desculpa. Desculpa. Foi a emoção. Quem passa poções avançadas para alunos do segundo ano? Ainda não aprendemos um quinto daquela lista!

Marlene revirou os olhos:

— Não reclama. Nem é tão difícil assim. Terminei a minha rapidinho.

— Ah, é? Se tem tanto tempo livre assim, pode fazer a minha se quiser.

— É só ler o livro, Emmeline. A não ser que leitura também seja muito difícil para você.

Emme lançou uma almofada na direção de Marlene, que se esquivou enquanto passava a página de seu livro. Sorriu vitoriosa sem mostrar os dentes, só para irritar ainda mais a colega de quarto.

Sim, as duas sempre implicavam assim entre si. Alguns, equivocados, pensariam que era pura brincadeira, sem saber que na realidade as personalidades delas colidiam – uma elegante e controlada, e a outra chamativa e espontânea. Claro, no fim do dia elas se amavam, mas não significava que não queriam se matar na maior parte do tempo.

Um alvoroço chamou a atenção das amigas: vários murmúrios e dedos erguidos apontando para o retrato aberto da mulher gorda. Dorcas arfou e Mary levou a mão à boca. Um atrás do outro, quatro meninos surgiram sujos dos pés à cabeça com uma substância verde.

— O quê tu fizeste dessa vez? — Marlene perguntou insípida. Recusava-se a esboçar qualquer reação às artimanhas do melhor amigo.

James Potter pertencia a um quarteto de relativa popularidade, conhecidos por se meterem em confusão com suas pegadinhas tolas, as quais interrompiam o sossego alheio, ou como eles gostavam de afirmar e sempre faziam Marlene revirar os olhos azuis: "traziam um pouco de diversão à monotonia da vida estudantil”.

Sirius Black (óbvio), Remus Lupin e Peter Pettigrew, que dividiam o quarto com James, completavam a gangue de marotos, como Professora McGonagall uma vez disse em classe, e, inintencionalmente, criou o apelido perfeito para eles. Agora quase toda escola os conhecia assim.

— É, fala para elas o que aconteceu, Sirius — foi Remus quem falou quando os quatro pararam em frente a elas. Magro e alto, com olheiras profundas e ar doentio, fuzilava o amigo com o olhar, suas mãos cerradas em punhos.

— Nada demais — Sirius fez um aceno desdenhoso com a mão, lançando gotículas verdes pelos ares e fazendo Emme e Mary abaixarem-se, em meio a grunhidos, para não serem acertadas. — Só um pequeno acidente.

— Pequeno?! A sala explodiu, Sirius. EXPLODIU!

— Quando você fala desse jeito até parece maior do que realmente foi. Depois eu que sou o dramático.

Remus fez um barulho exasperado com a boca.

— Foi um absurdo. Pessoas podiam ter se ferido! Porém, claro que não pensaste nisso — Remus costumava usar o discurso formal quando muito irritado, como era o caso.

— Pessoas? Só tinha o Filch e a gente por lá.

— Exato. Por mais que tente negar, ele é um ser humano e eu não quero ser um assassino. Sério! O que diab...

— A culpa não foi minha! — Sirius o interrompeu antes que ele começasse a ralhar mais.

— Que falas? Tu que ficaste responsável pelo feitiço na sala.

— Culpe a todos então. Todos sabem que James é o melhor nessa modalidade. Por que não o escolheste?

— Ano passado acertaste todas as questões da prova — Remus o encarou blasé.

— Tu e James também!

— É… — o menino gordinho e rosado, Peter Pettigrew, limpou a garganta e evitou olhar para Sirius. — Não é por nada não, mas...eh... Você meio que se candidatou à tarefa.

Remus ergueu as sobrancelhas e tinha uma expressão de conquista que irritou Sirius:

— Sim, mas no fim não fui eu quem fez merda, foi?

— Tu literalmente fizeste o feitiço que explodiu a sala! De que merda estas falando? — Remus perguntou.

— Vocês dois deviam avisar-me sobre qualquer movimentação no perímetro… — cruzou os braços. — Bem, como avaliam seus desempenhos?

— Ah, só pode ser piada.

— Ele insiste nisso? — Peter revirou os olhos.

— Claro! Filch apareceu gritando. O susto foi tanto que proferi o feitiço errado. Quer dizer, a culpa é mais de vocês do que minha, sejamos sinceros. De James também, que devia ter distraído Filch até terminarmos.

— Avisamos-te que ele estava chegando, mas tu não ouviste.

— É, tenho certeza que cantarolava aquela música... Qual é o nome? — Peter estralava os dedos no ar. — Ah! Sei lá o que satisfation.

(I Can’t Get No) Satisfaction — Sirius murmurou a contragosto.

— Essa!

— Como pode afirmar isso? Você nem estava por perto.

— Conheço-te o suficiente.

— Devíamos ter gritado enquanto Filch se aproximava. — Remus assentiu com a cabeça, sarcasmo cobrindo cada palavra. — Por que não pensamos nisso? Ah, porque não pensávamos que tu irias explodir a sala!

— A culpa é de vocês…

— Nossa? Foi tu quem…

— Eu não sou o responsá...

As vozes dos três começaram a sobrepor-se, ao ponto de ser inexecutável distinguir o que diziam.

— É uma longa história — James intrometeu-se, dirigindo-se as meninas, que assentiram ainda em choque.

— Que nos resultou em um mês de detenção — Remus adicionou ainda muito zangado.

— Um mês?! — Dorcas e Marlene exclamaram em uníssono. Era muito difícil alguém conseguir tanto tempo de castigo de uma única vez.

— Um exagero, se querem saber minha opinião — Sirius disse.

— Não, não queremos — Remus falou entredentes.

— Vai, Remus, temos que admitir que um mês foi demais. Só pegamos tanto tempo porque Filch nos odeia — James falou.

— E por que será, né? — Emme murmurou e Dorcas concordou.

— Perdão — Marlene levantou a mão. —, não quero que pareça que estou contra ti, Jamie, porém... Vós explodistes um cômodo da escola. Esperavam o quê? Um chá e um abraço?

— Ela está... Ela está defendendo aquele velho desgraçado? — Sirius segurou os ombros de James, tremendo de raiva. Virou-se para ela: — Era para termos explodido é o quarto dele, isso sim! Na verdade, acho que ainda dá tempo...

— Não vou explodir mais nada hoje. Ou em qualquer outro dia. — Remus disse. — Uma vez já foi o suficiente para uma vida inteira.

— Sim. Vi minha curta vida passar por meus olhos. Pensei que iria morrer ali mesmo de tanto tossir poeira — Peter falou sério. — Não posso dizer que estou ansioso para repetir o ocorrido.

— Tá... Espera aí. — Dorcas franziu as sobrancelhas. — Vós explodistes uma sala, nesse caso... Por que estão cobertos com essa gosma verde?

Remus sorriu com desdém, Peter inclinou a cabeça para o lado e James suspirou alto antes de olharem para Sirius, que sorria amarelo.

— Esta é uma ótima pergunta. — Remus ainda sorria. — Queres narrar a continuação do nossa história, Sirius?

— Antes que vocês recomecem a troca de farpas, anuncio minha retirada do recinto. Nunca me senti tão enojado em minha própria pele. Preciso lavar essa gororoba do meu cabelo o quanto antes — James dirigiu-se a escadaria do dormitório masculino.

— Não antes de mim! — Sirius correu atrás dele.

Remus olhou para o teto e suspirou.

— Jujuba? — Dorcas sorriu com compaixão e pena, erguendo o saco para ele.

***

— Quem mandou passarmos no Salão Principal para pegarmos comida? Era para termos ido direto para sala. Se já estávamos atrasadas, agora então...

Dorcas corria atrás de Marlene com uma torrada na boca:

— Café da manhã é a refeição mais importante do dia! — disse mastigando.

— Rápido! Não temos tempo a per... — o resto da frase perdeu-se, sendo substituída por um grito estridente.

Naquele instante, enquanto as duas amigas desesperadamente tentavam chegar à aula de história da mágia, um lustre de velas apagadas espatifou-se no chão há centímetros delas. O barulho repentino e o susto fez com que, em meio a gritos, ambas se abaixassem por reflexo.

— Você quase me acertou! — Marlene reclamou horrorizada, olhando para o teto. Pirraça ficou de ponta cabeça e estirou sua língua fantasmagórica para ela.

Filch apareceu correndo, tendo seguindo o estrondo.

— O que aconteceu aqui... Como vocês duas conseguiram destruir... Sempre soube que delinquentes não têm aparência ou gênero, abrange todas as crianças.

— O quê? Tu não achas mesmo que nós... Nós?! Não foi a gente! Foi o... — Marlene olhou para cima, mas pirraça já tinha sumido.

— Chega de desculpinha esfarrapada. Não vejo mais ninguém por aqui.

— Nem a gente, mas Pirraça estava aqui há um minuto — Marlene garantiu.

— Típico. Sempre tentam culpar o poltergeist para se safarem do castigo. Infelizmente isso não cola comigo. As duas, castigo amanhã à noite.

— Mas não fizemos nada!

— Querem mais uma noite?

— Não devíamos ter noite alguma. Somos inocentes!

— Três noites, hm? Continuem reclamando e o número só vai aumentando.

Dorcas adiantou-se e segurou o antebraço de Marlene com desespero.

— Shiu! Deixa para lá, Lene.

— Mas...

Dorcas balançou a cabeça. Filch não era imparcial. Odiava crianças e adorava fazê-las sofrer.

— Sério. O melhor é aceitar as coisas como elas são.

(...)

Marlene seguiu Dorcas até os únicos lugares livres – cadeiras lado a lado, ambas nas penúltimas fileiras. Ela nunca se sentara tão no fundo da sala. Preferia sentar-se na frente e prestar completa atenção ao professor. O fundão era reservado para pessoas baderneiras, todos sabiam. E ela não era uma delas.

Escrevia desesperadamente, numa tentativa de alcançar o que já fora escrito no quadro, quando a conversa dos meninos atrás dela chamou-lhe a atenção.

— To dizendo, é uma ideia genial.

— Você acha que todas as suas ideias são geniais.

— Porque são!

— Se esqueceu de que mês passado nós quase morremos? Ênfase no quase morremos!

— Eu daria ênfase só no quase. Continuamos vivos. O que é a vida sem um pouquinho de adrenalina? Agora escute... Esconder a gata seria o aperitivo. Filch vai enlouquecer a procura desse bicho e aí teremos tempo de preparar as outras pegadinhas.

Os olhos de Marlene brilharam. Eles iam se vingar do Filch!

— Posso ajudar? — perguntou, virando-se para os dois.

Eles trocaram um olhar longo e significativo, antes que Sirius dissesse num tom desinteressado:

— Não.

E, simples assim, eles retomaram a conversar entre si. Lene abriu a boca em surpresa. Não passou por sua cabeça que eles pudessem recusá-la.

— Por que não? — disse já recomposta. 

— Preferimos fazer as coisas sem a intromissão de terceiros.

— É melhor mesmo que tu não se envolvas — Remus tentou consolá-la. — Os planos de Sirius são terríveis.

— Mas também quero me vingar! — ela insistiu. Suas sobrancelhas se erguendo e enrugando a testa.

— Que pena. Por que não desconta toda essa raiva contra seu travesseiro? Ou então – como é mesmo o nome? – faz um crochê para relaxar. Adoraria um cachecol novo.

— Só se fosse para te estrangular com ele — ela murmurou cerrando os dentes. Não valia a pena se estressar com Sirius Black, ela sabia – o menino vivia para atormentar os outros –, porém às vezes era difícil manter a calma.

— Ei, não desconta a raiva em mim!

— Lene, o professor Binns não para de olhar para você — Dorcas cutucou discretamente a amiga e Marlene teve de endireitar-se na cadeira.

***

— Ficou de castigo? — William perguntou ao parar em sua frente.

Marlene sentiu o ar escapar-lhe dos pulmões, tamanho o susto. Encarou seus irmãos com os olhos arregalados.

— C-como você ficou sabendo? Só contei a...

Thomas passou por trás de William, dando um tchauzinho para ela e estirando a língua. Por que ainda insistia em confiar nele?

— Como isso aconteceu? — Josh perguntou suavemente.

Encurralada, narrou o ocorrido.

— Não importa se Filch se equivocou — William falou quando Marlene terminou. —, você tem que ser responsável e agir com ética. Chocar-se com a figura de autoridade e tentar fugir da punição realmente é infantilidade. Existem maneiras melhores para lidar com situações assim. Não consigo acreditar em como você decidiu agir. Sinceramente.

Marlene sentiu-se atingida, de forma física, com cada palavra proferida por Will. E doía mais do que qualquer castigo físico que ela conseguia imaginar, visto que nunca de fato vivenciara um deles.

Will conseguia, desde que Marlie tinha consciência de sua existência, motivá-la como ninguém, e deprimi-la com igual facilidade. Com o tempo Marlene compreendeu que não era ideal alguém ter tanta influência sobre os sentimentos alheios, mas como evitar? Will significava o mundo para ela.

— Por favor, não conte aos nossos pais.

— Não sei... Eles deviam ter consciência do que ocorre nas vidas dos filhos.

— Por favor — sua voz tremeu.

William a observou por alguns segundos.

— Tudo bem. Não falarei nada dessa vez.

Ele encaminhou-se para os amigos sentados no banco embaixo de uma das janelas do Salão Comunal. Só então Marlene permitiu que as lágrimas descessem.

— Não fica assim — Josh sentou-se no braço da poltrona. — Sabe que dar sermão é a forma que Will mostra se importar com a gente. Ele só quer o seu melhor.

Sua voz não passava de um sussurro abatido:

— Eu sei. Só... Não queria tê-lo decepcionado.

— Uma detenção não é o fim do mundo, Marlie — Matt agachou-se em frente à irmã e tocou gentilmente a pele branca e delicada de seu joelho. — Josh mesmo já acumulou umas cinco durante os anos.

— Ei! Se quiser dar um exemplo, use seu nome, não o meu! Você teve bem mais detenções do que eu.

— Isso não vem ao caso. Não acho que um número alto seja algo que devemos usar para incentivar a nossa irmãzinha.

Marlene fungou.

— Quantas detenções teve Will?

Trocaram um olhar nada discreto.

— Will é anormal. Você não devia focar nele — Josh apressou-se em dizer.

— Quantas?

Josh coçou a cabeça e desviou o olhar, deixando nítido seu desconforto.

— Ne-nenhuma — Matt admitiu.

Mordeu a bochecha e, sensível as mordidas anteriores, não demorou para sentir o gosto de sangue.

Odiava Filch com cada célula de seu corpo. Ele fez com que seu irmão favorito brigasse com ela! Zelador idiota. Idiota. Idiota. Ele abusava do insignificante poder que possuía e isso era doentio.  

Marlie respirou fundo e foi até Will. Os amigos a viram antes dele. Ela precisou cutucá-lo para ser notada. Ele estava rindo até então, mas, quando seus olhos pararam na irmã caçula, assumiu uma postura séria e feições nada convidativas.

— O que quer?

— Ãhn... Nossa! Que fome — a menina preta de sorriso bonito e olhos gentis falou com tato. Ela era legal. Uma vez tinha dado uma caixa de bombons para Marlene.— Guardamos um lugar para você, Will. Vamos, pessoal — e puxou os amigos dali.

Os grandiosos olhos azuis de Marlene transbordavam a tristeza que carregava na alma e teriam amolecido o coração de qualquer indivíduo, menos o de Will. Ele era muito mais duro com ela do que seus próprios pais – aliás, ele representava de vários modos uma figura paterna, cuidando dos irmãos quando os pais pediam, até o ponto que virou um habito fazê-lo. William carregava consigo a responsabilidade de zelar pelos irmãos, colocando as necessidades deles em frente a sua.  E talvez por tudo isso ela quisesse orgulhá-lo tanto.

Limpou a garganta com determinação:

— Não choramingarei pela injustiça sofrida. Aceitarei o castigo que me foi dado, como tem que ser feito. Não me envolverei em outra situação do tipo. Só queria que você soubesse... O meu posicionamento diante da situação — terminou insegura e desviou o olhar.

Ergueu, confusa, a cabeça ao sentir o cafuné no cabelo.

— É um comportamento maduro de sua parte. Fico feliz que tenha chegado a essa conclusão.

Marlene assentiu com seu semblante ainda taciturno. William suspirou, de repente parecendo muito cansado:

— Você sabe por que estou tão chateado com sua detenção?

Marlie ergueu uma sobrancelha. Não era óbvio?

— Porque significa que estou sendo punida por algo que fiz de errado. Não devo ir contra as regras.

— Mas você não fez nada de errado — ela não compreendeu o que estava por trás do sorriso tristonho dele. Will se curvou até ficar da altura da irmã. — Ficarei muito orgulhoso quando descobrir por que estou chateado com sua detenção. — bagunçou o cabelo dela, que grunhiu e afastou sua mão. Will se endireitou. — Está na hora do jantar.

— Pode ir à frente. Ainda não estou com fome.

— Marlie...

— Esperarei minhas amigas descerem para irmos juntas — mentiu. O nó em sua garganta impediria que qualquer comida descesse.

— Tem certeza? Tudo bem. Peço sua licença para retirar-me.

— Licença concedida.

Suspirou quando William sumiu pelo retrato da mulher gorda. Ela só teria paz quando descobrisse o que fez para chatear Will. Mas não tinha a menor ideia! Argh! Fora de angustiada para inquieta em questão de minutos.

Andava de um lado para o outro no Salão Comunal, cogitando diversas hipóteses, quando quase foi atropelada por seus colegas de casa. James entre eles.

— O que está acontecendo? — perguntou a James.

— Marcaram treino de última hora. Marlene! — exclamou, como se só agora se desse conta de quem era. — Pode me fazer um favor?

— Qualquer coisa — disse com sinceridade. Ela não conseguia pensar em um exemplo no qual diria não a um pedido de James.

— Ache Sirius e diga que não posso ajudá-lo — e então correu escada acima, em busca de seus equipamentos.

***

— Finalmente você chegou. Vamos, tempos pouco tempo para...

Sirius encarou a pessoa, cada centímetro de seu rosto cravado em surpresa.

— Olá — Lene balançou o corpo para frente e para trás. — Acho que não sou quem você imaginava.

Ele se recompôs.

— Não mesmo. O que estás fazendo aqui? Não tenho tempo para ficar fofocando ou...

— James mandou-me. Ocorreu um imprevisto – um treino de última hora – e, portanto, ele não conseguirá vir.

— Fala sério! Já perdi Remus e Peter. Agora James?

— O que houve com Lupin e Pettigrew?

— Doente e detenção, respectivamente. Argh! O que farei sem eles?

— Pois é. Se apenas tivesse uma pessoa para auxiliar-te... — deixou a frase pairar no ar. Sirius captou o sentido das palavras, porém não reagiu a elas. — Sinto muito por ti. Bem, vou-me... como era mesmo? Ah! “fofocar ou tricotar”.

— Não! Espere.

Que dilema! Ele realmente não queria a ajuda dela. Pelo que sabia Marlene poderia simplesmente estragar tudo. Ela era certinha demais, nunca desrespeitava uma regra, não era uma pessoa com o sangue para marotices. Mas... Ele precisava dela. Não havia a menor possibilidade de colocar tudo que imaginou em prática se não tivesse ajuda de outra pessoa. Era tão irritante que essa pessoa tivesse que ser ela.

Olhou para o relógio. Talvez desse tempo de chamar outra pessoa.

— Estamos ficando sem tempo, não é? Mas, claro, posso ir embora e te deixar aqui, sem auxilio. Tu quem sabes.

— Tá.

Ela sorriu vitoriosa.

— Por onde começaremos?

(...)

— Esse é o plano genial?

Sirius conduzira-a até o que se revelou uma sala de aula não utilizada no fim do terceiro andar. Tudo ali era coberto por uma espessa camada de poeira, exceto quatro carteiras, agrupadas em circulo no centro do cômodo, que pareciam recém-utilizadas. Agora Marlene ocupava uma delas, Sirius em sua frente enrugava a testa.

— Desculpa, mas esperava algo... genial, de fato — ela concluiu.

— Isso é genial!

— Bombas de fedor? Isso dura o quê? Três minutos? Tua detenção vai durar mais do que isso.

— Sim, porém tem também...

— Dar um banho nele? Cobri-lo com cocô? São ideias boas, não me entenda mal. Só... Parece incompleto. Precisamos de um gran finale.

— Capitaste minha atenção. O que sugeri, ó, grandiosa mente cruel? — Sirius debochou. Se tinha algo que abominava era críticas aos seus esquemas.

Marlene ergueu uma sobrancelha.

— Foi o que eu pensei, você não tem algo a contribuir. Portanto, é melhor que se cale e ajude-me a colocar minha vingança em prática — Sirius saltou da carteira.

De pé, uma sombra se formou atrás de Sirius. Marlene inclinou a cabeça para o lado.

— O que foi? Estas tento um AVC? Que expressão é essa?

Ela abriu um sorriso que Sirius não atribuía a suas delicadas feições faciais e que, normalmente, costumava ver em si próprio ao encarar-se no espelho. Não sabia se iria se divertir ou se arrepender, mas estava intrigado em descobrir. De qualquer modo, seria mais uma história para sua coleção.

— Acho que sei, sim, como melhorar nossa vingança — ela anunciou.

 

***

— Tem certeza que consegues fazer? — Sirius perguntou. Batucava a perna contra o chão.

Sapos cantaram em algum lugar, o que parecia acompanhar bem a ocasião.

— Sim, digo, acho que sim. O quê? Nunca o fiz antes, mas entre nós dois acho que sou a melhor alternativa já que pelo menos li a respeito.

— Tá, só tente... Sei lá... Não me matar no processo.

— Não é uma Avada Kedrava, Black.

— Para o seu bem, espero que não. Porque estou te avisando: volto como fantasma para assombrar o resto da tua vida, que convenhamos, caso falhe, não será longa.

— Entendi, entendi. Agora – sei que é grosseria dizer isso, mas é de suma importância, então terei que ignorar as regras de etiqueta, sinto muito – cale a boca. Preciso do máximo de concentração.

Fechou os olhos e...

— NÃO FECHE OS OLHOS! — Sirius berrou e a assustou. — Está maluca? Vai fazer o feitiço de olhos fechados?

— Sim! Conectar-me-ei com meu poder interior.

— Merlin me abençoe. É cada doida que eu encontro.

Marlene revirou os olhos. Inspirou profundamente e voltou a fechá-los. Após alguns instantes ergueu a varinha e, como tinha visto nas ilustrações do livro, fez os movimentos indicados. Por último proferiu as palavras.

— Há! Deu certo! — pulou em êxtase ao ver o resultado. — Às vezes me surpreendo com minhas próprias habilidades. Bem, sabes o que fazer? Tu tens consciência de que seu rosto está apagado, não é? Não consigo ver sua cara de deboche.

— Consegue imaginar. É o suficiente — sua voz soou estranha até para ele. Mais crespa e grossa.

— Sério, está preparado?

— Sempre. É melhor você se esconder, antes que ele chegue. 

— Estou indo. Boa sorte — ela nem deu o primeiro passo quando Sirius a interrompeu, grunhindo. 

— A execrável gata! Esquecemo-nos do fundamental! Ela não pode estar circulando por aí, por mais que eu gostasse de castigá-la junto, ela só iria atrapalhar.

— Calma. Eu posso cuidar disso. O que faço com ela?

— E se a pendurássemos pela calda num candelabro do Salão Principal?

Marlene horrorizou-se. Quem, em sã consciência, sugeriria algo assim, mesmo que de brincadeira? E pela primeira vez ela parou para pensar que talvez, de fato, Sirius Black fosse desequilibrado mentalmente e que ninguém parecia notar. Por que ele aparentava indiferença, até inclinação à crueldade?

— Não. — respondeu firme. Sirius a encarou, espantado com a mudança em seu tom. Ele fez algo errado? — Deixar-lhe-emos em uma sala vazia e de difícil acesso, com água e ração.

— Com ração? Perda de tempo ir atrás disso.

— Tem coisas pelas quais vale a pena perder tempo.

— E ração de gato é uma delas?

— Sirius... Gostarias de ficar trancafiado em um ambiente sem nada para comer? Com sede? Digo, nunca ouvistes o ditado mais clichê de todos os tempos? “Não faça com o outro aquilo que não quer que façam com você”.

Sirius a encarou por longos segundos, perdido em memórias dolorosas.

— Tá. Só... Seja breve. 

Marlene assentiu.

— Filch está vindo. Saia. Rápido!

Sirius não a observou praticamente se arrastar dali para não ser vista, pois estava ocupado observando Filch. Quando o zelador aproximou-se o suficiente ele correu e se jogou, ocupando o lugar originalmente preenchido pela sombra do homem.  

Quando Marlene compartilhara a proposta, Sirius ficou admirado e também apreensivo. Era uma mudança de planos e tanto. Não teve no que pensar, como Remus teria feito – ele considerava todas as eventualidades –, pois afinal de contas ele era Sirius Black, o que significava que adorava aventuras com alto risco de dar errado. 

Acompanhou o zelador por três corredores até começar a agir. Seu primeiro feito foi simples: apagou as velas por onde o homem passava.

— O quê...? — Filch se virou quando a escuridão ficara impossível de ignorar. — Só pode ser piada. Nem está ventando tão forte assim!

Ele arrastou-se até uma vela acesa e retirou-a de seu lugar, indo acender outra com a chama dela. Ao completar todo o corredor, um suor escorrendo pela testa, Sirius sorriu enquanto soprava cada uma delas. O corredor voltou ao breu total.

— Maldição! Que grande porcaria! Que assim fique. Eu que não me importo — Filch ralhou para o nada, continuando seu percurso.

Chegaram a um cruzamento iluminado e Sirius cutucou o ombro de Filch. Ele se virou em um pulo – não costumava ser cutucado. Enrugou o rosto já muito enrugado, tentando ver se havia alguém no corredor escuro pelo qual passara. Não obtendo sucesso, voltou a ronda do castelo. Tinha dado uns trinta passos quando Sirius voltou a cutucá-lo. Ele virou-se com ainda mais rapidez (Sirius não teria se surpreendido caso ele tivesse gritado “eureca!” naquele momento) e decepcionou-se ao dar de cara com o vazio, exceto por sua sombra, mas ela não significava nada.

Sirius sorriu consigo. Era mais cômico do que previra assombrar o velho. Alcançou a orelha dele e murmurou:

— Uuuuuuuh!

Os pelos da nuca dele levantarem-se. Há! Hilário.

— Quem está aí? — Filch deu uma volta em circulo sem sair do lugar. — Vamos! Apresente-se! Qual dos fantasmas é responsável por essa gracinha de mau gosto?

— Quem disse que sou um fantasma?

— Hã? Onde você está? Apareça!

— Eu estou aqui.

— Mentiroso. Não tem-tem ninguém aqui... — seu olhar se fixou mais uma vez em sua sombra.

— Você sabe que isso não é verdade. Você está aqui. E eu sou você — esse era o ápice de sua encenação. Refletia a posição de Filch até então e, de repente, colocou as mãos na cintura. — Bu!

— AAAAHHHHHHH!

O velho correu com tanta rapidez que Sirius ficou atônito por alguns segundos.

— Aonde vai? Não adianta fugir. Estou onde você está e qualquer lugar é lugar para te castigar. Mandaram-me para a terra para fazer você provar dos castigos que efetua contra pobres almas inocentes, seu verme.

— Vai embora, assombração! Sai. Xô! Chispa!

— Posso fazer isso à noite toda. Até quando você aguenta? — Sirius flutuava deitado, com direito a pernas cruzadas e cabeça descansando contra o braço. Mais confortável impossível.

Filch virou um corredor, olhando por cima do ombro e acabou esbarrando em alguém.

— Sr. Filch?

— O QUÊ?! — berrou antes de ver quem era. — Ah, diretor Dumbledore...! Venha, deixe-me ajudar — estendeu a mão e ergueu o homem do chão.

— Está tudo bem, Sr. Filch? Posso ajudá-lo com algo? Estás pálido e suado. Parece até que viu um fantasma.

À menção da palavra, Filch agarrou-se à manga do diretor, aterrorizado:

— Sim! Vi, sim, senhor! Uma verdadeira aparição do além — olhava para todos os lados, na tentativa de achar a sombra falante.

— Acalme-se, Sr. Filch. Ao que se refere? Não compreendo.

Ele ficou na ponta dos pés para falar contra o ouvido de Dumbledore:

— Minha sombra fa-falou comigo. Me ameaçou, na verdade. Fui perseguido até aqui. A-acho que consegui despistá-la.

— Sombra? Tipo essa atrás do senhor?

Filch pareceu mover-se em câmera lenta para conferir e soltou um berro ao ver sua penumbra no chão. Não pensou antes de agir e simplesmente jogou-se nos braços do diretor, olhos fechados e corpo trêmulo.

— Sr. Filch! Ora... — Dumbledore cambaleou para trás com o peso. — Por gentileza, controle suas ações — soltou-o.

— Desculpe, diretor. Só... só... Estou apavorado. O senhor precisa me ajudar.

— A se livrar de sua sombra? — Dumbledore ajeitou os óculos meia-lua com a ponta de um dedo.

— Sim! O quanto antes, por favor! Ela é uma assombração. Um ser de magia negra.

— Parece-me bastante normal para mim.

Eles observaram a sombra em silêncio. Realmente não tinha nada de esquisito nela. Filch ergueu o braço no ar e a sombra fez o mesmo. Ergueu o outro e o mesmo aconteceu. Balançou as mãos, depois os pés.

— Andou comendo algo de diferente hoje? — Dumbledore perguntou.

— Não. Nada de incomum que me recorde.

— Certo. Se o problema está resolvido, estava a caminho de meu quarto.

Será que tinha imaginado tudo?

— Sim, diretor. Boa noite.

— Sim, sim. O mesmo para o senhor.

Dumbledor lançou um último sorriso amigável antes de virar-se. Deu dois passos e precisou parar.

— Sr. Filch! — encarou o homem caído aos seus pés, segurando suas calças. Não sabia que o velho tentara salvá-lo do fatídico fato, mas perdera a luta contra a sombra, que conseguiu expor a cueca de lhamas do diretor.

— Nã-não é o que parece, diretor! — soltou as calças e ergueu-se às pressas. — A sombra! É culpa dela!

— Francamente — Dumbledore vestiu-se. —, é melhor visitar Madame Ponfrey. Não se deve ignorar alucinações. Por favor, vá agora mesmo até ela. Amanhã procuro o senhor. 

— Sim, senhor — Filch abaixou a cabeça.

Direcionou-se a enfermaria, mas não chegaria ao destino – Sirius tinha outros planos para ele. Só bastou ficarem a sós:

— Enfermaria? Que perda de tempo. Não poderão te ajudar lá.

— O que você quer de mim?!

— Já disse. Puni-lo.

— Faça o que precisa fazer! Quero me livrar de você o quanto antes.

— Awn, se fosse tão simples assim. Uma lareira seria essencial para isso, pena que não tem nenhuma por perto — plantou a semente. O rosto do zelador se iluminou quando concluiu exatamente o que Sirius queria que ele concluísse.

Lá estava ele, correndo mais uma vez, seguido de perto por Sirius. Ficaria sem andar por dias, Sirius tinha certeza. Um bônus da pegadinha!

— Sombra burra — ele parou sem fôlego em frente à porta de seu quarto, levando a mão à maçaneta. — Eu tenho uma lare...

Foi atingido por milhares de litros de água, previamente armazenada em seu quarto. Sirius gargalhou alto.

— Sua desgraçada! — o velho ralhou, limpando a visão. Sirius estirou a língua para ele e voou para longe. — Volte aqui! Você vai se ver comigo!

O velho correu direto para as bombinhas de fedor, que Marlene – escondida numa das salas do corredor – acionou, abrindo uma fresta na porta, quando Sirius passou e bateu uma vez para alertá-la.

O fedor foi avassalador. O cheiro era de dar ânsia. Ainda bem que, como sombra, Sirius não tinha comida no estômago, nem estômago.

— Argh! — Filch tossiu. Ele tentava livrar-se da nuvem verde de fumaça agitando o ar e buscava um local onde ela ainda não havia chegado. Exatamente como o planejado.

Ao ir para frente ele desequilibrou-se na pista de gelo que Sirius previamente fez, escorregando por diversos metros. Marlene observava da porta e esperou ele passar pelo lugar exato para despejar os cocôs de coruja suspensos no ar.

— AH! — Filch gritou ao ser atingido. Fez força para ficar de pé. — Já chega!

Marlene tinha pena de sua inocência. Ainda não tinham chegado ao fim. Com um movimento confiante de varinha, ela libertou os diabinhos da gaiola – precisara invadir a sala de um professor para adquiri-los! – e abriu a porta para que voassem. Eles bem que gostavam de cocô de coruja.

Filch gritou mais uma vez, sendo atacado. Esqueceu-se que pisava em gelo e caiu de bunda no chão. Essa doeu.

— Seu fantasminha! Vou te matar! — Filch sacudia as mãos para espantar as criaturas.

— Essa frase é um paradoxo, você percebe, não é?

Sirius voou, sinalizando que Marlene o seguisse, e desapareceu por outro corredor. As ameaças de Filch ecoavam ao fundo enquanto ele ainda tentava se livrar das mordidas dos diabinhos.

— Aqui, rápido! — indicou uma porta que Marlene jurava nunca ter visto ali. Inclusive, supunha ter surgido do nada.

— Ufa! Essa foi por pouco! — ela desabou no chão. Era muito para o corpo absorver.

— Onde está?! Não pode se esconder para sempre! — escutaram os gritos de Filch do lado de fora.

Sorriram como verdadeiros parceiros.

— E aí? Não se sente eufórica ao retaliar quem é acostumado a punir-te? — todos os dentes de Sirius estavam à mostra.

Ela apenas sorriu em resposta, a mente ocupada demais para formular frases. Não pode afastar o pensamento de que talvez ele não quisesse se referir apenas a Filch. E, de algum modo, aquilo a fez compreendê-lo um pouquinho melhor, mesmo que inconscientemente e de um jeito peculiar e distorcido.

(...)

Eles ainda estavam sentados, de vez em quando escutando passos do lado de fora – possivelmente Filch vistoriando o andar. Esperavam que ele fosse para outro andar para poderem sair.

— Por que ficaste de detenção? — Sirius perguntou. Marlene já tinha o transformado em humano de novo e ele mordia o canto de unha por puro tédio.

— Pirraça derrubou um lustre — ela respondeu. Estava apoiada contra uma parede.

— Hã?

— É. Filch pensou que fomos nós.

— Esse é o motivo mais idiota para se ganhar uma detenção. Você não fez nada de errado!

— Eu sei.

— Então por que não tentou se defender?

— Ah, eu tentei. Ele ficou aumentando os dias de detenção e precisei aceitar a realidade.

— Precisou aceitar? Que burrice. Para alguém que tira notas tão boas, você parece não usar o cérebro com frequência. Quem simplesmente aceita uma injustiça?

— Hã? Não é bem assim...

— Se você visse uma pessoa maltratando uma coruja, você simplesmente aceitaria e continuaria com sua vida como se nada tivesse acontecido?

— Não. Claro que não.

— Por que você demonstra mais compaixão e determinação para um animal do que por si mesma?

Marlene ficou sem palavras.

— Sei lá. Só não me parece muito grifano de sua parte a forma como agiu — Sirius deu de ombros.

Sirius tinha razão.

Ela não tinha parado para pensar por aquele ângulo. Obviamente sabia que tinha sofrido uma injustiça, mas não considerara seu próprio papel no desenrolar do fato. Se tivesse insistido mais ou ido até um professor e contestado. Se tivesse feito mais do que fez, teria sido diferente. Mesmo que o resultado não mudasse, ela saberia que fez o que pode. Se em uma questão boba como aquela ela simplesmente abaixou a cabeça, perguntava-se como decidiria agir se fosse importante. Como a pessoa se comporta nos pequenos momentos dita como ela se comportará frente algo crítico.  

Era a isso que Will se referira. Ele estava chateado por ela ter agido por inércia e não ter sido uma força da natureza. Sua barriga se revirou. Sentia nojo de si mesma.

— Podemos ir — Sirius tinha o ouvido contra a porta. Abriu uma fresta e colocou a cabeça para fora, só para ter certeza. — Vamos.

Eles correram até chegarem a uma escadaria, longe o suficiente da cena do crime para finalmente sentiram-se seguros.

— Sua mimética é incrível — Sirius falou pela primeira vez desde que saíram da sala. Já tinha percorrido metade dos degraus.

— Hm? Desculpe?

— Mimetismo. Não conhece o termo? — ela balançou a cabeça, chacoalhando os fios loiros. — E eu aqui pensando que tu lesses a biblioteca inteira de sua casa.

— Li — ela confirmou. Quando lhe dissera isso? — Porém não enxergo a relação.

— Nem um deles era sobre biologia ou, quem sabe, animais?

— Meu pai não é um amante da natureza. A não ser que tu incluas caças, o que eu não incluo.

— Mimetismo: “adaptação na qual um organismo possui características que o confundem com um indivíduo de outra espécie”. No sentido coloquial, tu tens uma capacidade de adaptação apreciável.

Marlene já fora elogiada de diversas maneiras – corriqueiramente de linda, esperta, educada – , mimética, no entanto, esquisitamente foi o adjetivo mais fascinante que passara por seus ouvidos.

Parando para pensar, surpreendeu-se com seus feitos na noite. Não costumava ser rebelde, mas não  teve dificuldades em por o planejado em prática. Hm! Será que sempre teve o espírito baderneiro e apenas escolhera ignorá-lo até aquele momento? 
             — Em resumo, eu “mandei bem” — falou incerta. Ouvira James proferindo aquelas palavras algumas vezes, mas era a primeira vez que as utilizava.

— Não foi isso o que eu disse — a frase em si era desencorajadora, mas ele sorria, então o efeito foi o contrário.

— Foi o que quiseste dizer.

— Isso tu que estás dizendo.

— Então? Sou uma marota agora? — ela pulou os últimos dois degraus.

— Não é para tanto. Estás mais para marota honorária.

— Quer saber? Estou aceitando. Tu não vais para a torre da grifinória? — perguntou, pois ele virou para um corredor diferente, em busca de uma escadaria mais escondida por onde não cruzasse com Filch.

— Não. Vou ao encontro de James no campo de quadribol.

— O treino já deve ter acabado à uma hora dessas.

— Ah, eu sei. É que ele sempre fica para trás treinando um pouco mais.

Antes isso a teria incomodado, Sirius conhecendo partes de James que eram ocultas a ela. Agora não a estressava não saber cada detalhe da vida de James. Estava satisfeita com o que sabia.

— É a cara dele fazer algo assim — Marlene sorriu com afeto. — Bem, então tchau.

— Tchau.

 

 


Notas Finais


Comentem. Vocês não sabem como me motivaram, mesmo nesse longo período de hiatus. Quero muito escrever logo o cap. 4!!


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