História A Imperatriz - Capítulo 10


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Categorias Amor Doce
Tags Amor Doce, Drama, Ficção Histórica, Romance
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Aqui vai mais um capítulo.
Desde já aviso que não está revisado, e que talvez hajam alguns erros que mais tarde vou corrigir assim que arranjar tempo.
Gente, cometi uma pequena canelada no capítulo passado quando coloquei o Lysandre como interesse amoroso de Phelippa. Isso na verdade é um engano, e o interesse de Phelippa deveria ser por Armin. Peço desculpas pelo vacilo.
Ah, gostaria de frisar que repudio a caçada de animais selvagens como esporte e diversão. Acho medíocre e uma deficiência grave no ego e caráter do ser humano. No entanto, o que retrato aqui são personagens de uma outra época e com pensamentos completamente arcaicos se comparados ao nosso tempo, especialmente em relação aos direitos dos animais. Só gostaria de esclarecer isso.
A pintura de capa se chama ‘Emotional Day’, feita por Leonid Afremov.
Isso é tudo.
Aproveitem o capítulo.

Capítulo 10 - Paixão e Amor


Fanfic / Fanfiction A Imperatriz - Capítulo 10 - Paixão e Amor

Apesar de toda a vilania que recebe de amantes desafortunados, a paixão é a maior graça concedida aos homens. Ela é violenta, cruel, prazerosa, pecaminosa, gentil, doce e amorosa. Sim, pois o apaixonado ama, mas quem ama nem sempre está apaixonado. Essa foi a lição que eu aprendi quando no auge dos meus 20 anos, enervado pela gentileza e calor do verão, eu descobri os caminhos da paixão.

A manhã daquele dia veio ensolarada e bela, tão linda quanto nossa terra poderia oferecer. A Estrevia finalmente estava voltando a ser gentil com seus filhos após o inverno terrível que nos dera. No entanto, aquele verão estava amargurado pela guerra, uma vez que o sul, parte mais linda e produtiva do nosso país, estava sob o comando dos Brunelhianos e de seu Rei Átila. Se nós não recuperássemos as plantações, pomares e campos férteis do sul, o próximo Inverno seria o último para metade de nossa população, que morreria assolada pela fome. Mas, ainda que as previsões fossem preocupantes, o povo queria comemorar, e São Herburgo estava em festa naquele primeiro final de semana do Verão. Eu, Armin e Lysandre havíamos conseguido uma liberação do treinamento do sábado a custa de muita adulação e promessas de esforço extra a Sir. Sebastian, e iriamos ao festival na cidade Soléria para beber, dançar e paquerar garotas em homenagem ao belíssimo dia.

– Ah, o verão! – Disse Armin, poeticamente. Ele estava deitado folgadamente na minha cama, como se lhe pertencesse, enquanto eu e Lysandre nos vestíamos – Céu límpido e claro, grama verdinha e garotas correndo nuas na beira dos rios. O paraíso, meus amigos, o paraíso.

Eu e Lysandre rimos de seu lirismo. Armin era um artista com alma de guerreiro, ou talvez o contrário, nunca soube definir bem.

– Me diga aonde é esse lugar onde as garotas correm nuas perto de rios e eu estarei indo para lá agora mesmo – Eu falei, debochando de sua descrição – Não sei aonde nessa Estrevia cristã você encontrará moças peladas correndo tão livremente.

– Com os pagãos por acaso era diferente? – Lysandre perguntou em desafio.

– Claro que sim! – Eu disse convicto – Para começar, as chances de você encontrar uma garota nua eram muito maiores. O povo era mais alegre, mais divertido e mais livre, já que não tinham um Deus para os fazerem se sentir culpados depois da festa – Lysandre estreitou os olhos destoantes para mim. Nossos confrontos sobre religião eram comuns e respeitosos. Lysandre não negava o poder dos velhos deuses pagãos, e eu não negava o poder do seu Deus cristão, mas quando o assunto era os costumes tínhamos nossas divergências – Falo sério, quando eu era criança corríamos pelados pelos campos de verão, tanto meninas quanto meninos, rolando na grama, nus em pelo. Uma pena que eu não tinha maldade nem centímetro suficiente quando vivi aqueles dias.

– Maldade com certeza você adquiriu, mas centímetro ainda está em falta – Ele disse fazendo um gesto de pequeno com os dedos.

– Engraçado, não ouvi Lady Fiorella reclamar ontem a noite – Eu disse maldoso, me referindo a sua mãe – Mas pensando bem ela não podia falar muito, já que engasgou várias vezes.

Lysandre tentou se conter pela imoralidade da minha resposta, mas gargalhou mesmo assim.

– Você é podre, Castiel!– Armin disse, atirando o travesseiro na minha direção.

Conversas entre rapazes de pouca idade e com nada na cabeça podem ser tão sujas e baixas como nenhuma outra. Eu gostaria de dizer que o tempo nos fez amadurecer, e que esse tipo de conversa sessou, mas eu estaria mentindo, pois toda vez que estávamos reunidos ou bebendo alguém, em geral Armin ou eu, sempre abria a boca para falar besteiras.

– Alexy tem escrito a Você? – Lysandre perguntou quando os risos cessaram, olhando para Armin – Estou preocupado com Mestre Vitruvio.

– A última carta foi de cinco semanas atrás – Armin respondeu – O velho continua sumido.

– Vocês acham que ele morreu? – Lysandre perguntou, receoso.

– Não! Impossível! – Eu disse, com a certeza de quem havia comprovado a imortalidade de nosso Mestre – Ele deve estar envolvido em alguma descoberta por aí. Logo vai aparecer.

– Eu não sei… – Armin soou duvidoso – Eu dentre todos quero acreditar que aquele velho maluco está vivo. Eu amo aquele desgraçado, vocês sabem. Mas Alexy disse que ele estava estranho antes de partir. Falava o tempo inteiro em “livrar a Estrevia da ignorância religiosa” e” “banir de uma vez por todas os brunelhianos”.

Vitruvio, para além de um artista extraordinário, era também um homem das ciências e um inventor brilhante. Suas máquinas de guerra e invenções práticas revolucionaram a vida na Estrevia e o fizeram cair nas graças do Imperador Viktor, O adorado, que o nomeou membro vitalicio do seu conselho de estado. Vitruvio também foi Mestre do próprio Imperador Ivan, e também de todos os seus filhos e filhas. Ele frequentemente fazia viagens para explorar o mundo e desaparecia por meses a fio, mas nunca sem deixar uma pista para Alexy, que sempre sabia onde encontrá-lo, e também nunca em tempos de guerra, pois o Imperador não tomava nenhuma decisão importante sem antes consultá-lo. O desaparecimento de Vitruvio nesses dias difíceis eram angustiantes, porque sua sabedoria e intelecto eram uma garantia confortante e racional que nem mesmos nossos deuses e Deus poderiam prover.

– Eu espero que ele volte logo, e espero que volte com um plano – Disse Lysandre – Deus sabe que vamos precisar de sua sabedoria.

–Como assim? – Armin questionou, se pondo sentado.

– O Imperador precisa recuperar o sul dos invasores antes do próximo inverno– Lysandre explicou– O que significa que a campanha deve acontecer ainda nesse verão. Nada mais do que daqui a três meses, eu suponho.

– Nós também teremos lutar? – Eu perguntei ansioso. Tinha acabado de vestir um gibão marrom de mangas e aberto por sob uma camisa de linho cinza – Quero dizer, estamos preparados? Ainda não concluímos nosso treinamento.

Lysandre balançou a cabeça

– Eu e você certamente iremos– Lysandre disse, olhando sugestivamente para mim, e só então eu compreendi o que ele quis dizer. Eu e meu companheiro de olhos destoantes já havíamos concluído nosso treinamento no dia que matamos os capangas de Herzog no pântano, além de sermos de longe os melhores e mais promissores entre os pajens, coisa que Lysandre jamais vocacionaria na frente de Armin por ser demasiado humilde – Papai e Sir. Melvin devem nos tomar como escudeiros.

– Bem, companheiros, então enquanto vocês estiverem na guerra, sangrando e matando por nosso país, eu estarei exatamente aqui bebendo e farreando em sua homenagem – Armin disse, e ele não parecia nem um pouco ressentido pela possibilidade de não ser convocado – Mas enquanto a guerra não vem devemos aproveitar o máximo possível. Exatamente por essa razão, já deveríamos estar em Solária, bebendo, dançando e amando se as minhas duas vaidosas damas – E aqui ele se levantou da cama e envolveu os braços entorno do meu pescoço e do de Lysandre – não demorassem tanto para se arrumar.

E então Descemos as escadas da torre dos cavaleiros conversando animadamente sobre o festival. Poucos festivas, ou melhor, nenhum outro era tão animado quando o de Beltane, que acontecia no primeiro final de semana do verão para dar boas vindas a estação ensolarada. O festival acontecia simultaneamente em diversas partes do país, inclusive em São Herburgo, mas o de Soléria era o mais famoso e bonito, atraindo os moradores das cidades vizinhas. A cidade de Soléria ficava em direção ao sul, e foi a última cidade sulista que sobrou entre o território tomado por Átila e a capital do Império. O festival de verão era sua maior glória, e eles deveriam mesmo se orgulhar, pois era o espetáculo mais bonito do ano, e segundo alguns, nunca dito na frente de um bispo, mais importante que o natal.

O festival começava com uma grande parada pelas ruas da cidade, onde todo mundo tinha de ir mascarado ou fantasiado, pulando e dançando até a praça central onde acontecia efetivamente o resto das comemorações. Uma vez lá, haviam barracas e tendas com atrações e competições de todo o tipo, bem como mais música e dança ininterruptas até que o final de semana se apagasse no domingo a noite. O festival também era a oportunidade perfeita para se apaixonar, uma vez que as moças estavam radiantes e agitadas, exercitando suas belezas ao máximo com cabelos soltos coroados com flores, vestidos leves e aparência de ninfas travessas correndo soltas pela cidade.

Eu estava ansioso por uma boa festa, uma festa do povo, com barulho e hidromel vagabundo, muito diferentes das comemorações opacas e cheias de discursos tediosos que o Imperador promovia no grande salão do trono. Mas, pelo visto, meus soberanos tinham outros planos para mim, porque assim que estava alcançando a saída da plebe na companhia dos rapazes, pude ouvir o chamado altivo de Sir. Sebastian, que me fez parar onde estava e me virar em sua direção para ouvir o que o cavaleiro tinha a dizer.

– Eu lamento, rapazes, mas suas altezas requisitam a presença de vocês para acompanhá-los em uma caçada! – Sir. Sebastian disse simplesmente e nossa alegria murchou rápido, dando lugar ao transtorno.

– Não mesmo! – Armin e eu protestamos ao mesmo tempo.

– Senhor, nos estávamos de saída… – Armin continuou apelando.

– O pedido não foi estendido a você, Armin – Sir. Sebastian falou – Só Castiel e Lysandre foram convocados. Pode seguir seu caminho.

– Aleluia! – Armin exclamou recuperando a animação – Nesse caso, eu vou indo, companheiros, desejo toda a sorte. Trarei lembranças das garotas a vocês. – E então ele estralou um beijo na minha bochecha como provocação e saiu correndo antes que meu soco o alcançasse. Era um bastardo sortudo.

Sir. Sebastian maneou com a cabeça acompanhando Armin sumir pelo portão da plebe, depois se virou novamente para nós.

– Suas altezas já partiram para o bosque e se vocês forem rápidos poderão alcançá-los logo.

Lysandre suspirou

– Sim, senhor – Ele disse obediente, já intuindo seguir em direção a tarefa.

– Espera, Lysandre! – Eu coloquei o braço em sua frente o impedindo de continuar – Senhor, é nosso dia de folga! O senhor mesmo nos concedeu – Eu falei olhando para o cavaleiro –Eles certamente podem encontrar outra pessoa para brincar de pique com eles. Eu não vou! – Falei petulante, e depois acrescentei rapidamente – e nem Lysandre.

Meu amigo arregalou os olhos para mim, como se me questionasse por tê-lo envolvido em minha rebeldia sem ao menos pedir sua opinião. Sir. Sebastian estreitou perigosamente os olhos para nós, e eu senti um frio na espinha, mas continuei fiquei firme.

– Eu vou subir naquela torre até meus aposentos – Sir. Sebastian disse calmamente, apontando para a torre dos cavaleiros – Quando eu chegar lá vou olhar para baixo, e é bom que eu veja vocês franguinhos caminhando obedientes em direção ao bosque para encontrar suas altezas, ou eu vou fazer vocês usarem saias durante o verão inteiro

E dito isso ele virou as costas e caminhou em direção a torre. Eu e Lysandre ficamos parados apenas o observando-o entrar na construção alta e quadrada.

– Você acha que ele falou sério? – Eu perguntei, olhando para Lysandre.

– Fique e descubra se quiser, amigo– Lysandre disse e se afastou rapidamente.

Fiquei um pouco mais de tempo somente de birra, mas quando a figura de Sor. Sebastian despontou no alto da torre e seu olhar severo me alcançou, eu tremi e soube que ele não estava blefando.

– Espere, seu idiota! – Gritei para Lysandre e corri para alcançá-lo. Eu não queria ter de usar aquela saia.

Quando alcançamos a comitiva de caça Imperial, eles já estavam em frente ao bosque. Eu e Lysandre já estávamos devidamente equipados com as lanças de caça, especialmente feitas para matar javalis, e nos aproximamos do bosque de árvores altas e afastadas, que cercava o parque do lado de fora de Westock. Estavam lá toda a prole do Imperador Ivan, acompanhados da honorável noiva Sienna e de alguns servos e guardas do castelo. A desorganização era nítida, as irmãs e Lady Sienna discutiam ferozmente entre si, enquanto o jovem Ricard inutilmente tentava apaziguar a situação, sendo ferozmente ignorado pelo bando de mulheres irritadas. O desprezível Sir. Lucan também estava lá, acompanhado de seus homens e parecia deliciado em assistir as brigas. Eu já amaldiçoava quem havia dado a ordem que me tirou do festival de Solaria para me atirar naquela situação, e me aproximei carrancudo da comitiva na companhia de Lysandre, que parecia chocado com tudo.

– Ah, Castiel, Lysandre, Graças a Deus vocês chegaram! – Ricard veio até nós, desesperado, e nós fizemos uma reverência rápida para ele – Vamos começar logo esta caçada. Eu não aguento mais toda essa gritaria.

Ricard usava um gibão escuro e sem mangas por sob uma camisa de linho. Ele segurava uma lança de caça de forma desajeitada que era duas vezes o seu tamanho. Ele também parecia verdadeiramente angustiado, mas eu, no entanto, estava irritado, e nem um pouco disposto a facilitar as coisas.

– Por que nos fomos chamados até aqui, Alteza? – Eu questionei incisivo, ligando pouco para esconder meu descontentamento, e recebi uma cotovelada nada discreta de Lysandre.

O príncipe nos encarou confuso.

– Será um prazer caçar com vocês, Alteza – Lysandre disse cortês – Mas primeiro precisamos organizar as coisas.

– Boa sorte em dizer isso a elas – Eu murmurei, apontando com o queixo para aquelas mulheres geniosas

Graças ao Deuses Lysandre era um poço de paciência, ou do contrário, se eu tivesse de assumir a organização daquela caçada, eu perderia minha língua por ter xingado ferozmente todas as Grã-duquesas. A ideia de uma caçada, como não podia ser difente, havia vindo de Sienna, para comemorar a chegada do verão do seu jeito, uma vez que eles não podiam ir até o festival. No entanto, seu erro foi envolver Alexandra que, como a própria Sienna, tinha a personalidade de uma Leoa faminta quando se tratava de controle. As duas brigavam entre si para decidir qual animal deveriam caçar. Sienna queria caçar javalis, enquanto Alexandra preferia os cervos. Edite, que sempre ficava contra Alexandra, apoiou Sienna somente por implicância, enquanto a quieta Phelippa falava a favor da irmã mais velha por pura pressão da mesma.

Felizmente, Lysandre conseguiu apaziguar as feras e, para a satisfação nada discreta de Sienna, ficou decidido que caçaríamos Javalis, pois não viemos preparados para outra coisa. Alexandra obviamente emburrou, pois odiava perder. Ela estava excepcionalmente atraente naquele dia, e por um instante eu deixei de lado todo o aborrecimento para admirá-la. Vestia roupas masculinas. Calças, botas, camisa de linho por dentro da calça e um gibão justo e sem mangas. Por sobre apenas um dos ombros ela usava uma capa até a altura da cintura, de cor vermelha e ricamente bordada com a águia de suas cabeças. Seus cabelos estavam presos no alto da cabeça e caíam em um rabo de cavalo farto até o meio das costas, deixando totalmente expostas suas orelhas. Ela também estava segurando uma coleira com três cães enormes de caça que farejavam o ar e latiam o tempo inteiro por conta da confusão. Ela me olhou rapidamente, mas estava demasiada irritada para sorrir, assim como eu estava carrancudo demais para ser simpático.

– Acho melhor nos dividirmos em dois grupos e…– Lysandre começou.

– Eu não vi ninguém colocá-lo no comando, Lysandre – Sir. Lucan que até o momento tinha se mostrado tão útil quanto um troco de árvore podre veio até nós impor sua presença – Eu sou o encarregado da organização aqui.

– Ah, estamos vendo – Falei sarcástico, dando meu melhor sorriso falso – Belíssima organização, Sir. Lucan. O senhor como sempre sendo um poço de competência.

Lucan me lançou um olhar de desprezo.

Segundo as regras da nossa ordem, sempre que um cavaleiro estivesse presente os pajens deveriam estar submetidos a ele e suas ordens. Eu não deveria me comportar assim com um superior, no entanto, eu desgostava imensamente de Sir. Lucan, e não estava com paciência para sua presunção. Ele era o mais jovem dos cavaleiros. Tinha o rosto metido, altura média e ombros largos, além de um cabelo castanho perfeitamente penteado. Ele também era muito bom nas justas, mas até onde os rumores diziam, bom apenas nisso, pois ele era um desastre no campo de batalha e em combates singulares.

– Perdoe-me, senhor, eu não tinha notado sua presença– Lysandre disse. Ele tinha essa habilidade de insultar sutilmente um sujeito que eu inveja muito.

– Que não se repita – O cavaleiro alertou, cheio de si – Eu digo que devemos nos dividir em dois grupos para cobrirmos melhor o bosque.

– Oh, quem será que deu essa ideia a ele – Eu murmurei para Lysandre, que riu da cara de pau do cavaleiro.

– Eu ficarei com Castiel e Lysandre – Lady Sienna se apressou, se colocando do nosso lado. Ela também estava vestida com roupas masculinas e usava uma capa verde sobre os ombros.

– De jeito nenhum! – Alexandra exclamou, desafiando a futura cunhada de frente –Os rapazes virão com o meu grupo.

E então nem se fez necessário uma divisão dos grupos, pois as duas já estavam fazendo daquilo uma competição.

– Ora, eu achei que você fosse se sentir mais segura na companhia de um cavaleiro mais experiente como Sir. Lucan, Irmã– Sienna disse, usando com afeição fingida o íntimo título de irmã para se referir a Alexandra – Dado a sua pré disposição para atrair maus agouros.

Alexandra estreitou perigosamente os olhos para ela, e eu quase pude vê-la soltando os cães de caça em cima de Sienna.

– Ora, mas Sir. Lucan está aqui para escoltar Ricard a pedido de mamã e não a mim – Alexandra disse, astuta – Eu achei que você, na qualidade de noiva do meu irmão, fosse querer ficar no mesmo grupo que ele – Ela sorriu em triunfo, já sabendo que tinha ganhado – Ou será que você prefere a companhia dos rapazes? Eu posso cedê-los se assim desejar.

Sienna olhou irada para Alexandra, e depois para o noivo que estava com um cara de cãozinho abandonado.

– Não! Eu não trocaria a companhia do meu senhor por nada – Sienna disse sorridente, tomando a mão de Ricard. O jovem príncipe estava deslumbrado com a noiva, bobamente apaixonado, e eu só conseguia notar a incompatibilidade daquele casal estranho. Ricard simplesmente não era páreo para Sienna.

– Eu não esperava menos de você – Alexandra disse com um sorriso ladino.

– Desejo sorte na caçada de vocês – Sienna disse com falsa cortesia– Mas vocês têm Edite, não é? Suponho que não precisem de sorte.

Aquilo fora maldoso, mas a pobre e desatenta Edite não conseguiu captar que estava sendo alvo do deboche da cunhada e sorriu contente para ela. Edite era a única no grupo que usava vestido.

– Eu não poderia pedir caçadora melhor– Alexandra disse convicta. Ela sim havia captado a intenção maldosa de Sienna, pois era igualmente maldosa, e aquela foi a primeira vez que eu a vi defender a irmã gordinha. – Vamos trazer um grande javali para sua festa de noivado hoje a noite, Sienna, eu prometo – E então ela se aproximou ainda mais de Sienna e sussurrou ferozmente – e você vai ter de comê-lo junto com suas palavras.

Sienna sorriu diplomática e se afastou com Ricard, Sor. Lucan e seus homens, entrando na floresta em seguida. Alexandra então se virou para Edite e a olhou de cima a baixo ameaçadoramente.

– Não nos atrase, Edite – Ela decretou ríspida, e saiu na frente, em direção ao bosque, sendo puxada pelos enormes cães de caça. Lysandre me lançou um olhar divertido e seguiu Alexandra de perto. Eu fiquei um pouco atrás acompanhando Edite e Phelippa.

– Deus me perdoe, Castiel, mas você deveria ter deixado aquela serpente no cativeiro de Herzog – Edite disse de repente, lançando um olhar irritado na direção a Alexandra logo a frete.

–Edite!. – Phelippa repreendeu a irmã. Ela também usava trajes masculinos e portava uma lança, que jamais pretendia usar – Não diga tais coisas. Alexandra é nossa irmã

– Pois está mais para nossa carrasca – Edite falou– Você vê como ela nos trata, Castiel? É sempre ríspida e autoritária. Aposto como odeia todos nós.

– Eu tenho certeza que a Grã-duquesa quer muito bem todos vocês, Alteza – Eu defendi Alexandra.

– Você não a conhece como nós – Edite descartou – Ela é assim desde de pequena, sempre se achando superior. Nunca, eu digo nunca, se juntou a nós para brincar, ou conversar.

– Isso é verdade! – Phelippa confirmou – Ela sempre preferiu a companhia dos mais velhos. Podia passar horas com Mestre Vitruvio, Sir. Sebastian ou mesmo papai, mas nunca conseguia ficar mais de cinco minutos conosco, seus irmãos – Phelippa não falava com rancor, mas sim com nostalgia – Bem, para ser justa, ela tinha a Rosalyia, e até passava bastante tempo com ela. Eu confesso que sentia ciúmes

Sorri com ela. Estava adorando saber um pouco mais sobre a infância de Alexandra, que ela deliberadamente escondia de mim. Uma vez a questionei sobre isso e ela disse que odiava falar no assunto. Eu nasci, cresci e sou a mulher que sou hoje, ela me disse, e é tudo que você precisa saber.

– Ciúmes, Phelippa? Ciúmes de ser um capacho dela? – Edite disse, muito rancorosa – Ela nunca ligou para você, nunca ligou para nenhum de nós. Ela achava que ia ser a futura Imperatriz da Estrevia – Edite deu um curto riso de deboche, e se virou para mim – Phelippa não lembra disso, era muito pequena, mas quando Ricard nasceu, enquanto todos estavam comemorando a chegada de um herdeiro masculino, Alexandra se trancou no quarto e chorou de raiva contra o travesseiro. Eu estava lá, só eu vi o rancor brilhar nos olhos dela. Que tipo de pessoa é capaz de odiar um bebê, Castiel? Especialmente quando esse bebê é seu irmão.

– Chega disso, Edite! – Phelippa disse firme – Castiel não tem que saber essas coisas.

– E porque nos deveríamos sustentar a máscara dela?– Edite questionou. Ela estava visivelmente irada – Estou cansada disso.

Eu não comentei mais nada. Achei que não cabia a mim me envolver em assuntos de família, especialmente quando essa família governava a Estrevia. Portanto me calei e dirigi minha atenção a caçada.

– Abaixem-se! – Lysandre disse de repente. Eu me abaixei e puxei Sua Alteza Edite, que coitada, não estava acostumada a caçadas e tinha um raciocínio lento para aquilo.

Me aproximei de Lysandre e de Alexandra que estavam abaixados mais a frente, escondidos atrás de um arbusto.

– O que é? – Questionei Lysandre.

– Um cervo – Lysandre disse, afastando um pouco os arbustos para me mostrar o belo animal de galhada farta – Lindo não é?

– Lindo de fato – Eu disse contemplativo sorrindo.

Eu e Lysandre adorávamos caçadas, e admirar a beleza dos animais fazia parte de todo o ritual. No entanto, Alexandra tinha pouca paciência para isso. Ela revirou os olhos e saiu de trás dos arbustos, afugentando o cervo com os cães de caça, que ladravam e repuxavam a coleira ferozmente na tentativa de abocanhar o animal de galhada. O cervo saltou para longe assustado. Eu estava perplexo pela sua inconsequência e avancei até ela, tomando a coleira dos cães de suas mãos.

– Ele podia ter atacado você, sabia? – Eu disse abruptamente.

Ao contrário do que muito pensam Cervos podiam ser animais extremamente arredios e violentos quanto javalis quando acuados. Eu mesmo já vira um homem morrer ao ser empalado pela galhada de um cervo furioso. Alexandra havia sido extremamente sortuda por ele ter tido espaço de sobra para fugir.

– Nos não viemos aqui observar animais, Castiel – Ela disse, sem dar a miníma para minha reclamação – Se não iriamos matar o cervo não faz sentido perder tempo admirando ele. O outro grupo avança enquanto estamos aqui discutindo o comportamento animal.

– Pode até ser, alteza, mas você não vai ganhar nada além de uma cova se continuar se arriscando desse jeito – Eu disse ríspido, e ela me desafiou com o olhar.

– Castiel! – Lysandre repreendeu, e só então eu me dei conta de que haviam mais pessoas no local e que eu estava gritando com a filha do Imperador.

– Tente ser mais cuidadosa, Alteza – Eu disse mais suavemente.

– Me devolva os cães – Ela ordenou.

Eu neguei com a cabeça e ela me lançou um olhar mortal. De jeito nenhum eu a deixaria no controle daqueles cães e tão pouco eu gostava de carregá-los, portanto achei melhor deixá-los com a única pessoa ali que não estava fazendo nada.

– Eu acho melhor sua alteza Edite guiar os cães por agora – Eu falei cauteloso, e passei a coleira para a mão gorducha de Edite, que sorriu contente em ser útil.

Alexandra não gostou nada, e olhou vingativa para irmã, que sorriu cínica ao passar por ela, sendo puxada pelos cães em direção a caça. Lysandre e Phelippa a seguiram de perto, se embrenhando entre as árvores. Fiz um gesto para que Alexandra se adiantasse em minha frente e ela passou irada por mim.

Aparentemente não estávamos com sorte, uma vez que nossa parte do bosque parecia estar vazia naquele dia. Haviam esquilos, coelhos, cervos e até uma raposa cruzou nosso caminho, mas nenhum sinal dos cobiçados javalis. Eu caminhava ao lado de Alexandra, emburrado e calado até que ela quebrou o silêncio entre nos abruptamente.

– Qual o problema com você hoje? – Ela questionou, quando não conseguiu suportar ficar quieta – Está com essa cara de desgosto desde que chegou aqui.

– Caçar não estava nos meus planos de hoje – Eu respondi carrancudo.

– Você me disse que adorava caçar – Ela apontou– Por isso eu mandei Sir. Sebastian chamá-lo. Se eu soubesse que estaria ocupado não teria atrapalhado.

– Foi você? – gritei um tanto furioso, parando abruptamente.

– Eu só achei que poderíamos passar um tempo juntos– Ela disse, rápido – Nós temos nos falado tão pouco ultimamente – Ela olhou para o chão, mas de repente ergueu os olhos furiosos para mim – Mas se preferes teus outros compromissos pode dar meia volta e sair daqui.

Ela se adiantou para se afastar e, em um súbito jorro de culpa, a puxei para mim e a envolvi em uma abraço. Nunca antes eu a tinha a abraçado, mas o choque do corpo dela contra o meu e o conforto de apertá-la contra mim foi uma das melhores sensações que já experimentei. Era o encaixe perfeito, uma vez que sua cabeça podia repousar em meu peito e ainda alcançar meu queixo. Era também verdade que eu já não a via ha pelo menos um mês. Geralmente nos encontrávamos no jardim da Imperatriz, quando um guarda da torre robusta, com quem eu fiz amizade, me deixava passar para o outro lado discretamente durante a noite. No entanto, Sir. Sebastian e Sir. Melvin pareciam querer nos preparar para enfrentar o exército de anjos do senhor, e naqueles dias, sendo isso somente para mim e Lysandre, o treino se estendia noite a dentro, tornando impossível minhas escapadas ao jardim para encontrar Alexandra.

– Desculpe– Eu disse ainda abraçando-a – Eu também senti sua falta.

– Eu não me lembro de ter dito que senti sua falta – Ela retrucou orgulhosa, se afastado levemente do abraço para me encarar.

– Eu não sou sua alteza Edite, Alexandra – Falei simplesmente e ela riu.

Mas então, o som da Voz gritante e apressada de Edite soou nos chamando, e eu me separei rapidamente de Alexandra.

– Falando no diabo… – ela disse, maldosa, se referindo a irmã, e eu a repreendi com o olhar.

Corremos até onde os outros estavam, e Lysandre acenou para nos, pedindo com um gesto de mão que fossemos abaixados até ele. Nos aproximamos da pedra enorme que ele usava como esconderijo, e espiamos por sobre seus ombros para ver dois javalis farejando o chão entre arbustos de espinheiro. Um era grande e musculoso, com presas amareladas e pele cicatrizada e suja. O outro era um tanto menor, mas nem por isso menos ameaçador. As presas afiadas de um javali, aliados a força selvagem do bicho, podiam provocar ferimentos fatais em um homem com a mesma facilidade de uma espada. Não era raro que homens morressem caçando javalis e atacá-los exigia habilidade e coragem, especialmente em um espaço apertado como aquele.

– O grandão parece ser dos fortes– Falei empolgado para Lysandre.

– Eu o vi primeiro, Castiel – Lysandre avisou, também com empolgação no olhar, fazendo questão de enfrentar o javali maior.

Aquele javali parecia velho, e tinha cicatrizes de cortes pelo corpo, o que significava que ele já havia lutado com um homem antes e, como somente o javali ainda estava ali, provavelmente o homem que o enfrentou já não podia mais contar a história.

– Vamos, deixe o para mim – Eu Pedi – Pegue você o menor.

–Quem pegou o maior na última caçada? – Lysandre questionou.

– Você! – Mentira, havia sido eu! No entanto, Lysandre tinha uma péssima memória, então me aproveitei disso.

– Está bem, pode ficar com o grandão – Ele cedeu, desconfiado – Mas o próximo é meu.

– Matarei ele em sua homenagem, amigo – Eu disse, contente.

Empurrei Lady Edite e os cães levemente para que eles não se agitassem e assustassem os javalis. Lysandre caminhou agachado e de lança na mão para cercar o Javali menor e ficou agachado atrás de um arbusto espiando o animal. Iriamos atacar ao mesmo tempo e não dar tempo para um animal ajudar o outro.

– O que eu faço? – Alexandra questionou, ela também estava aciosa e louca para participar. Ao olhar seu rosto cheio de excitação eu quis lhe dar uma lança e levá-la comigo para enfrentar o bicho, mas era perigoso demais para alguém sem experiência.

– Fique aqui, e longe do campo de visão deles – Eu falei e seu rosto emburrou, então arranjei uma tarefa para ela– Caso eu esteja em perigo e grite por ajuda, solte os cães para pegá-los, certo?

– Eu poderia fazer isso – Edite disse, dando uma passada generosa a frente. Foi nesse momento que a estratégia foi arruinada, pois ao se aproximar mais das rochas sem cuidado, Edite permitiu que os cães de caça que ela segurava avistassem os javalis e começassem a latir freneticamente, avançando ferozmente para cima da caça. A pobre Edite recebeu um puxão brusco pela força dos cães, e tropeçou nas próprias pernas, indo com tudo ao chão e sendo arrastada em direção aos javalis. A Grã-duquesa gritou de pavor, e soltou a correia quando já estava próxima ao meio do campo. Os cães, agora livres, avançaram contra o pequeno javali de Lysandre, que fugiu assustado e chiando mata adentro. Meu amigo, movido pelo impulso de caçador, correu atrás de sua presa entre as árvores, esquecendo-se de Lady Edite, que agora se via frente a frente com o Javali maior.

– Tire-a de lá, Castiel – Alexandra gritou, me empurrando pelos ombros.

Agarrei a lança e saltei sobre as rochas correndo até onde estava Lady Edite e me colocando na sua frente. Um bom javali musculoso e velho como aquele tinha a astucia e forças necessárias para correr a uma velocidade absurda e saber exatamente onde atacar. A fera abaixou a cabeça, pronto para erguer as presas, riscou o chão, gurniu e atacou. Me abaixei quando ele estava a centímetros de mim, para ficar de sua altura, e projetei a lança contra o flanco esquerdo do animal, que virou a cabeça levemente para o lado, desviando o golpe certeiro e forte com as presas.

A lança passou direto e arranhou levemente o flanco do bicho, que agora estava mais irado do que nunca, partindo com tudo para cima de mim. Se a Grã-duquesa Edite fosse esperta o bastante, ou se não estivesse paralisada pelo medo, teria percebido a gravidade da situação e saído de trás de mim. No entanto, Edite ficou lá, parada e gritando de medo, quando eu, ao recuar do ataque do javali, tropecei em seu corpanzil e caí por cima dela com um javali furioso sobre mim.

Alexandra gritou, Edite berrou, Phelippa chorou, o cães latiram ao longe e eu, meio que rindo daquela situação toda, segurava as presas afiadas do javali, colocando toda a força que tinha para empurrar a cabeça do animal para longe do meu peito.

– Mate-o Alexandra! – Eu gritei para ela, que estava atônita atrás das rochas – Pegue minha lança e mate-o.

Eu não soube o que a fez ter aquele rompante de adrenalina, Alexandra era um desastre com armas de qualquer tipo e costumava odiar usá-las, mas naquele dia, Alexandra saltou sobre as rochas, catou minha lança no chão e com a velocidade da corrida cravou a arma na barriga do javali, que esperneou e tremeu. O sangue do animal jorrou sobre mim e Edite gritou apavorada quando o líquido quente escorreu para ela. No entanto, ainda que a lança de Alexandra tenha penetrado fundo, os músculos de um javali são como placas de titânio, e o monstro continuava forçando as patas traseiras para avançar contra mim. Alexandra caiu de joelhos, e impulsionou ainda mais a lança, gritando e colocando toda a força que tinha para tentar transpassar o animal, mas não obteve sucesso. Eu já estava achando que teria que esperar Lysandre voltar, quando avistei a faça de caça no cinto de Alexandra.

– Use a faca – Gritei para ela – Acerte o pescoço dele.

Ela largou a lâmina e sacou a faca ricamente ornada em ouro da bainha, fazendo a lâmina de aço reluzir quando beijada pelo sol. Alexandra não pensou duas vezes, e cravou a faca no pescoço do javali, fazendo a enorme força da fera desaparecer e o sangue jorrar em suas mãos e meu peito. Ela tentou sacar a faca do pescoço do animal novamente, mas não teve forças para isso, então eu soltei a mão direita das presas do bicho para ajudá-la, e por isso recebi um arranhão nas costelas. Ignorei a dor lacerante e puxei a faca com força, cravando a novamente com violência em outro ponto do pescoço. De repente, o animal se debateu freneticamente, deu um último coice com as patas traseiras e caiu abruptamente sobre mim.

Joguei o corpo morto do javali para o lado, sai de cima da catatônica Edite e encarei Alexandra, caindo em uma gargalhada frenética junto com ela. Lysandre retornou em seguida, segurando morto nos braços o javali que ele tão desesperadamente havia saído para perseguir. Ele nos encarou com surpresa e confusão e veio apressadamente me ajudar a levantar e Edite.

– Você está bem, Edite? – Phelippa se aproximou exasperada, examinando a irmã.

A Grã-duquesa apenas acenou com a cabeça e a colocamos sentada em um tronco de árvore enquanto Phelippa a abanava. Eu estava coberto de sangue, com as roupas rasgadas e folhas grudadas no corpo. Quando Edite se recuperou voltamos para a entrada do bosque, onde o grupo de Ricard e Sienna já nos esperava. Nós estávamos empolgados, triunfantes e satisfeitos pela ótima caçada e, como não podia ser diferente, Alexandra foi logo esfregar a vitória na cara Sienna, que nada tinha conseguido caçar.

– Nosso presente a sua festa de noivado, querida cunhada – Alexandra disse fazendo um gesto para nós que carregávamos os javalis. Depositamos os animais nos braços dos guardas de Ricard, que limpariam e esfolariam os animais ali mesmo.

– Que sorte vocês têm – Sienna sorriu abertamente, fingindo empolgação por nós.

– Nada tem a ver com sorte, cunhada – Alexandra falou – Como você mesma disse, quem precisa de sorte quando se tem Edite? Você precisava vê-la partindo para cima daqueles javalis. Era como ver uma amazona partindo para luta.

Os guardas riram e parabenizaram a Grã-duquesa Edite, fazendo barulhos e vivas para ela, que ainda estava confusa e atônita. Eu aproveitei esse momento para sair de fininho e ir até a enfermaria para tratar do meu ferimento nas costelas causando pelas presas do javali. Avisei a Lysandre e me afastei discretamente, deixando as comemorações para trás.

A enfermaria ficava dentro da torre dos cavaleiros, e não passava de uma sala ampla com leitos cercados pro biombos de madeira. A chefe da enfermaria era a única mulher que circulava livre dentro daquela torre, e seu nome era Anália, mas nós carinhosamente a chamávamos de Nanny. Ela já era uma senhora em seus cinquenta anos, e havia sido a responsável pelo parto e cuidados de todos os filhos da Imperatriz Leonor. Quando a Imperatriz parou de gerar filhos, e as crianças cresceram o suficiente para que não precisassem mais de babá, Nanny foi colocada para chefiar a enfermaria dos cavaleiros.

– Mais será possível, Castiel! – Nanny disse exasperada, quando eu apareci na enfermaria com meu melhor sorriso, apontando para o ferimento na lateral direita do meu corpo– Você não se cansa de aparecer por aqui? Já estou enjoada de suas fuças.

Ela me deu as costas e seguiu pelo corredor, verificando os leitos. Usava um vestido azul, avental branco e um lenço da mesma cor lhe cobrindo os cabelos.

– Por favor, Nanny, eu estou ferido e morrendo – Eu a segui, fazendo Drama – Vai me negar auxílio nessa hora de necessidade? Não vê que estou coberto de sangue? Oh, mulher sem coração!

Ele parou de repente, e me estudou com os olhos estreitados de cima abaixo, vendo minhas roupas sujas de sangue, lama e gravetos. Pelo menos duas ou três vezes na semana era certo de eu vim parar na enfermaria sob os cuidados de Nanny, uma vez que os combates no treino, especialmente o de corpo a corpo, geralmente gerava hematomas feios.

– Muito bem, meu rapaz. Entre aqui– Ela disse, me empurrando para dentro de um dos leitos cercado por biombos – Para depois não dizerem que não sou uma boa mulher. Tire essa camisa de uma vez para eu ver o estrago dessa vez.

Tirei o gibão e a camisa de linho cinza, encharcados de sangue. O corte havia sido na costela direita, não era tão fundo e aos meus olhos também não parecia tão grave. No entanto, Nanny soltou uma exclamação de horror, como se eu tivesse sido transpassado por uma espada. Ela era muito impressionável.

– Mas o que em nome de Deus causou isso em você? – Ela se exasperou, me pondo sentado na maca e indo buscar um vidro com álcool para limpar o ferimento na cabeceira da cama.

– Um homem, Nanny, você tinha que ver, alto e robusto como um carvalho – Eu comecei teatralmente – Estava lá fora, gastando a língua suja a falar da senhora!

– Ora, De mim? – Ela perguntou, agitada.

Concordei com a cabeça. Nanny mergulhou o algodão preso por um instrumento longo e semelhante a uma tesoura dentro do frasco do que eu achava ser álcool.

– Sim! Disse coisas horríveis sobre a senhora – Eu falei, continuando com minha falsa história – Chamou-a de velha cafetina e alcoviteira.

A enfermeira chefe fez uma cara de horror para meu relato, e eu quase desmanchei em risos.

– Quem é maldoso homem que de forma vil espalha tais calúnias sobre uma viúva de respeito como eu?

– Não se preocupe, querida Nanny, sua língua ferina já foi silenciada – Eu confortei, e ela abriu a boca em surpresa – Não suportei ouvi-lo denegri-la, e minha espada mais que rapidamente saltou da bainha para defender sua honra – Eu falei, usando um tom épico e usando os braços para ilustrar o confronto fictício – Duelamos, Nanny! Duelamos em meio ao festival! Mas o vilão me atingiu minutos antes de eu derrubá-lo e cortar sua garganta, desafiando qualquer outro homem no local a ofender a honra de minha enfermeira favorita.

Nanny enrubesceu com meu galanteio e me encarou encantada pelo cavalheirismo.

– Que grande homem você é, Castiel! Um grande homem de fato – Ela disse apalpando meu rosto, e eu apanas dei de ombros, me fazendo de humilde – Será um grande cavaleiro um dia.

– E um contador de histórias maior ainda – Uma voz disse da porta do leito. Alexandra estava ali, recostada no batente de um dos biombos e olhando para mim em reprovação.

– Alteza! – Nanny exclamou, surpresa, fazendo uma reverência breve.

– Como vai, ama?– Alexandra se aproximou, envolvendo a enfermeira em um abraço.

– Olha só para você! – Nanny se afastou do abraço para admirá-la – Tão bela quanto o verão lá fora. A mais bela das crianças que eu já trouxe ao mundo.

– Você tem me divido visitas, ama – Ela disse, sorrindo simpática.

– Oh, meu anjo, vontade não me falta – A enfermeira disse, acariciando o rosto da Grã-duquesa – Mas você sabe que a Imperatriz não me quer por perto.

– Então eu virei visitá-la aqui – Ela disse, tomando as mãos da senhora a sua frente – Mamã tem de aprender que não se pode controlar a vontade dos outros dessa maneira – Nanny sorriu emocionada pelo gesto de carinho – Agora, ama, eu preciso que você me deixe sozinha com Castiel por um instante, certo?

– Mas, minha senhora, eu já ia começar a cuidar daquele ferimento horrivel dele – Nanny disse apontando para mim – A senhora sabe como esses pagens são levados, se eu não…

– Pode deixar, ama, eu cuido dele – Alexandra interrompeu, tomando o algodão das mãos de Nanny.

– A senhora tem certeza? – A enfermeira questionou.

– Absoluta! – Alexandra apoiou uma das mãos nas costas da sua ama, guiando-a gentilmente para fora do leito e fechando a cortina quando ela já estava fora. Ela se virou para mim com uma sobrancelha arqueada e, suponho que por eu estar despido da cintura para cima, de repente ficou envergonhada, mas não desviou o olhar, pelo contrário, só explorou ainda mais meu corpo com os olhos. Alexandra tinha essa estranha peculiaridade de ser descaradamente ousada, e ainda assim conservar uma timidez de inexperiência que a tornava adorável e desejável ao mesmo tempo.

– Não sabia que você e Nanny eram tão próximas – Eu disse, para incentivá-la a falar.

– Ela cuidou de mim até os catorze anos – Ela explicou, se aproximando e molhando novamente o algodão no álcool. Ela ficou de frente para mim e encarou meus olhos, como se pedisse permissão para me tocar, eu claramente concedi, também sem usar palavras. Alexandra se agachou na minha frente para ficar da altura das minhas costelas, apoiou uma das mãos na minha coxa e passou o algodão encharcado de álcool sobre o ferimento de forma delicada. Embora o toque de Alexandra fosse delicado, a dor da queimação foi violenta, e eu quase arfei de dor.

– Quer um beijinho para sarar logo? – Ela perguntou, debochada.

– Onde você aprendeu a fazer curativos? – Eu perguntei, genuinamente curioso, admirando-a passar o algodão em torno do ferimento com maestria.

– Durante a guerra contra os pagãos papai achou que se as Grã-duquesas ajudassem na enfermaria com os feridos isso elevaria a moral dos homens – Alexandra explicou – Claro que nós nunca colocamos o serviço como ele de fato é em prática. Só cobríamos alguns ferimentos superficiais, desejávamos melhoras e dizíamos que eles eram heróis. Os bobos voltavam para o campo de batalha cheios de si. Vocês soldados são criaturas tão simples.

Torci o nariz para seu insulto.

– Como está sua alteza Edite? – Perguntei.

– Ela vai se recuperar – Alexandra disse, divertida – Talvez tenha pesadelos com javalis em cima dela por algum tempo, mas em algum momento ela vai superar.

– Isso vai render uma boa história de caçada – Eu disse entre risos e Alexandra me acompanhou.

– Papai vai adorar ouvir – Alexandra disse – Deus sabe que ele anda precisando rir ultimamente.

Nosso Imperador andava distante, e em todo o tempo desde que eu chegara a Westock eu só o havia visto no máximo umas três vezes. Eram raras ocasiões em que ele aparecia em público e, quando o fazia, estava sempre com uma expressão cansada e de extrema preocupação. Como o próprio Sir. Melvin nos confidenciou, ele passava horas e horas dentro da sala de mapas, montando estratégias e discutindo com seu conselho para encontrar uma forma de retomar o sul das mãos do Rei Átila. Chegava a ser triste e deplorável ver como o grande leão da Estrevia, guerreiro implacável que era, devastado em seu trono alto e imponente.

– Por que o Imperador não os acompanhou hoje? – Perguntei disfarçadamente – Seu gosto por caçadas é famoso.

– Papai não têm sido mais o mesmo. A preocupação o consome – Alexandra disse – Eu gostaria que você o tivesse visto em seus melhores anos – Ela disse, nostálgica – Sempre tão alegre, forte e… vivo. Ele teria matado aquele javali em dois tempos.

– Eu não duvido.

– As coisas também não vão nada bem na família – Ela confessou – E ainda tem aquela serpente de saias que papai colocou na nossa casa.

– Você fala de Sienna?

– Eu não a suporto, Castiel – Alexandra estava irada e passou o algodão com um pouco mais de força sobre o ferimento, o que me fez reclamar – Desculpe! Ela fede a falsidade e manipulação. Ricard está de quatro por ela como um cãozinho, faz tudo o que ela quer. Vocês homens são todos uns idiotas.

Ela se levantou, foi até a mesa de cabeceira, e com a maestria de quem foi enfermeira a vida toda, cortou um pedaço de gaze para colocar sobre meu ferimento.

– Ele só está apaixonado– Eu defendi o príncipe –

– Paixões são perigosas para um príncipe, Castiel– Ela disse, se agachando novamente na minha frente – Ricard é o futuro Imperador da Estrevia, e Sienna vai se aproveitar de sua paixão cega para manipulá-lo quando estiver no trono. Você acha que eu quero ver aquela plebeia governar o meu país através de Ricard?

– Talvez ela também se apaixone por ele – Eu falei, apesar de não acreditar nisso.

– Não seja condescendente! – Alexandra ralhou – Ela já é uma mulher, Castiel, você acha que ela seria capaz de sentir qualquer atração por um garoto como Ricard?! Não, são homens o que a atrai, e pelo que tenho notado, um homem em específico.

– Você está dizendo que ela está flertando com alguém daqui, de dentro do castelo, na casa do noivo? – Eu estava perplexo – Quem é o homem?

– Você, sapo – Alexandra disse, sem me encarar, colando a gaze no ferimento e se levantando.

– O quê? – Perguntei ainda mais perplexo – Não seja absurda!

– Ela olha para você com desejo, posso ver isso de longe – Alexandra disse – Ela também tem perguntando muito a Edite sobre você, quando viu que não teria sucesso comigo. Ela já está procurando um amante, e por isso te dou um aviso, fica longe dela, Castiel.

– Você acha que eu seria capaz de me envolver com a noiva do príncipe? – Eu perguntei muito mais perplexo – Que juízo você faz de mim, Alexandra?

– O juízo que faço de todos os homens – Ela disse incisiva, e depois suspirou se aproximando – Mas confio em ti mais do que em nenhum outro, portanto te darei o benefício da dúvida.

– Se não for comigo será com qualquer outro, se ela é mesmo assim tão voraz quanto você diz – Eu falei simplesmente – O que tu vais fazer? Deixará teu irmão usar um par de chifres antes da coroa?

– É melhor que sejam com outros do que com você – Ela decretou – Ainda não sei o que farei, mas não posso deixá-la se tornar Imperatriz consorte, e não digo isso por ela ser uma noiva infiel. Você sabia que ela se casou com o falecido filho do Rei Átila?

– Mesmo? – Perguntei surpreso

– Segundo ela o casamento nunca foi consumado, porque o príncipe de Brunelha foi morto em batalha contra nós antes que pudesse deitar em sua cama. Bem feito para aquele desgraçado – Alexandra contou.

– E por que seu pai a ofereceu a Ricard?

–Átila a escolheu para ser esposa do filho porque ela era podre de rica, e podia reforçar os cofres de Brunelha com o dote. A guerra é cara. Papai pensou que se tirasse esse dote de Átila ele enfraqueceria o inimigo por um tempo –Ela explicou – Ele de fato conseguiu abalar Átila, mas trouxe para dentro da nossa casa uma serpente que pode ser tão letal quanto um exército a nossa porta. O erro de papai é subestimar demais as mulheres.

O que Alexandra queria insinuar era que Sienna poderia servir como uma traidora dentro da casa do Imperador, e que uma vez casada com Ricard poderia manipular o herdeiro do trono em favor do antigo sogro, o rei Átila. Era de fato suspeito, mas nada poderia provar tal ligação. Não era raro, especialmente em tempos de guerra, que princesas e rainhas viúvas ainda jovens fossem dadas em casamento a outros países. Nesses casos a rainha ou princesa devia abandonar tudo para trás e ser daquele dia em diante fiel ao seu novo marido e ao país para onde iria. Eu achava pouco provável que Sienna estivesse envolvida em uma conspiração como essa, apesar de não ser uma princesa, ela tinha bom senso e fome de poder e não arriscaria sua preciosa posição de Imperatriz consorte para ser uma mera traidora a serviço de um Rei que nada podia lhe dar. Eu tomei aquela acusação como uma implicância de Alexandra, e preferi não comentar nada sobre o assunto para não enfurecê-la.

– O curativo já está feito e agora eu preciso ir – Alexandra falou.

– Você veio até aqui só para cuidar de mim? – Eu perguntei cínico, sorrindo de lado para ela;

– Na verdade, o curativo foi um mero infortúnio, sapo – Ela explicou – Eu vim até aqui para te pedir um favor. Quero que você me encontre as duas da tarde no portão plebe. Leve sua montaria, pois vamos longe – E dito isso ela se afastou até a porta – Ah, e Castiel, procure tomar um banho. Não quero ter de aturar esse cheiro de javali quando estiver cavalgando com você.

Eu ia abrir a boca para perguntar aonde iríamos, mas ela desapareceu pela entrada do leito antes que eu pudesse vocacionar minhas dúvidas. Então vesti minha camisa e segui em direção a torre para tirar o cheiro de porco selvagem.

As duas horas em ponto, eu estava parado em frente ao portão da plebe, de banho tomado, devidamente perfumado e montado em Frigg esperando por um sinal de Alexandra. O sol estava forte e eu me abriguei na sombra de uma árvore que ficava próxima a muralha do castelo. Alexandra cruzou torre robusta com alguns minutos de atraso e veio até mim acompanhada de suas damas, que pareciam discutir com ela ao longo do caminho. A aquela altura eu já sabia o nome de todas elas, graças a minhas longas conversas com Alexandra. A mais alta que era bela e loira como a manhã se chamava Rosalyia, a dama de maior confiança e amiga de Alexandra. Haviam também uma ruiva chamada Íris, e uma morena de pele escura e olhos verdes implacáveis chamada Kim Arjana. A última das damas era Belarmina, uma anã de cabelos castanhos e cabeça inflada como um balão, que Alexandra havia resgatado de um chiqueiro para ser sua dama de companhia.

Desci das costas de Frigg para cumprimentá-las e beijei a mão de cada uma, arrancando sorrisinhos bobos delas. Alexandra agora estava usando um vestido de com creme de saia solta e leve. Ela usava uma capa marrom e longa, escondendo o rosto com seu capuz. Seu cabelo ondulado e castanho escuro estavam soltos e desciam como cascata por sobre seu peito e ombros.

– Podemos ir? – Alexandra apressou-se – Não quero que ninguém me note aqui.

Eu acenei e a ajudei a subir em Frigg, que protestou se agitando um pouco, ela era bastante ciumenta. Depois eu mesmo montei ficando atrás de Alexandra e tomando as rédeas para mim.

– Minha senhora, eu insisto para que desista dessa ideia – Belarmina disse angustiada com sua vozinha aguda, olhando para nós.

Não seja boba, Bela – Alexandra descartou as preocupações da amiga – Eu preciso falar com vovó, é urgente e você sabe.

– Mas minha senhora, a Imperatriz a proibiu – Rosalyia alertou – O que eu direi a ela caso me questione?

– Minta, Rosa, querida – Alexandra disse simplesmente, como se não fosse grande coisa mentir para a Imperatriz consorte – Diga que estou doente, exausta, ou mesmo morta se preferir, mas não deixe mamãe saber que saí com Castiel. Deem um jeito vocês três!

E dada sua ordem, Alexandra fez um gesto para que eu esporeasse a montaria e partisse. Deixamos as preocupadas damas para trás e cruzamos o portão da plebe. Alexandra removeu o capuz da cabeça quando já estávamos a uma distância segura dos muros de Westock. O vento acoitou contra nós, os cabelos de Alexandra flutuaram e seu cheiro veio até mim, me embriagando por completo.

– Você vai me dizer qual caminho devo seguir ou devemos somente cavalgar para sempre em direção ao infinito? – Questionei olhando para ela.

– Essa é uma ideia sedutora que um dia terei de aceitar – Alexandra disse, sorridente. Ela adorava estar livre desse jeito – Mas hoje nosso destino é o palácio das folhas nos arredores de soléria.

– O que faremos lá? – Questionei

– Minha avó, a imperatriz viúva mora lá.

– Espera, você tem uma avó?– Perguntei perplexo pela novidade

Alexandra apenas riu e maneou com a cabeça

– Vamos, corra com esse animal, Castiel! –Ela gritou para mim, cheia de empolgação.

E assim o fiz. Pressionei os calcanhares nas costelas de Frigg e ela disparou em velocidade para a alegria de Alexandra.

O palácio dos lírios ficava em direção ao sul, um pouco antes de Soléria, e era a construção mais bela da Estrevia na minha opinião. O palácio ficava cercado por uma floresta de árvores altas que o ocultava da vista de quem passava na estrada, tendo sido desviado um trecho que cortava a mata para chegar até ele. Seguindo o desvio para dentro da floresta, não demoraria até que, entre as árvores, se visse o prédio quadrado de dois andares, feito em pedra branca, de estilo renascentista, com enormes janelas efeitando a faixada esticada. O palácio era, na verdade, uma mansão, de tamanho compacto e minimalista sem deixar de ser majestosa. Era justamente por ser pequeno, que o palácio das folhas trazia essa sensação de acolhimento e conforto, que o castelo de Westock, com suas paredes enormes e tamanho exagerado não poderiam oferecer.

O palácio era a residência de inverno dos Imperadores, seu refúgio para escapar das tensões da corte com a família, mas desde de que fora construído o palácio era também uma espécie de exílio político e repouso final para os velhos membros da monarquia. Na época em que conheci o palácio das folhas, ele era o lar da Imperatriz viúva Joana de Rotskaya, mãe do atual Imperador Ivan e esposa do falecido Imperador Viktor, O adorado. Hoje em dia, o palácio das folhas é ocupado por mim e é daqui, observando os jardins e revivendo momentos, que escrevo essas memórias para meu neto Alek. Agora mesmo, é quase como se eu pudesse enxergar, eu e Alexandra parando a galope na frente das escadarias do palácio, e subindo as para encontrar a Imperatriz viúva, que já nos esperava lá em cima com suas criadas.

Alexandra amava verdadeiramente poucas pessoas, muito poucas, mas dentre elas e sempre no topo estava sua avó, e para mim isso ficou claro quando ela disparou escadaria acima como uma criança para abraçar a senhora de idade lá em cima. A Imperatriz Joana era uma mulher alta e esguia de rosto comprido e elegante. Seus cabelos eram alvos, e estavam traçados no alto da cabeça formando um arco e em coque traseiro que ela cobria com uma rede. Tinha olhos espertos e astutos como os de Alexandra, mas diferiam apenas por seres azuis.

– Oh, Vovó, eu senti tanto sua falta – Alexandra disse nos braços da Imperatriz.

– Pare com isso, querida – Lady Joana disse, se afastando do abraço e segurando as mãos da neta – Sentimentalismo barato não combina com você.

Alexandra sorriu, abraçando-a de novo

– E o que posso eu fazer se papai não me deixa mais dar um passo fora de Westock desde o sequestro – Alexandra fez um muxoxo, ficando emburrada.

– Absurdo! Seu pai é um grande temperamental, sempre foi– A imperatriz criticou – Não puxou a mim nesse aspecto. Mas me diga, como estão os meus outros insípidos netos? – A Imperatriz viúva perguntou, maldosa, se afastando mais uma vez do abraço para encarar Alexandra.

– Insípidos, de fato – Alexandra reforçou o insulto, revirando os olhos –Tão tediosos como sempre. Edite come e reclama, Phelippa borda e é boazinha e Ricard deixou de ser um capacho de mamãe para virar capacho da noiva recém-chegada.

– Eu não posso acreditar que um filho meu tenha gerado netos tão desinteressantes – A imperatriz falou – Isso é culpa da sua mãe e a aquela semente fraca dos Habsburgos. Eu avisei ao seu avô que deveríamos ter arranjado uma noiva melhor para Ivan.

Ficou claro para mim naquele momento com quem Alexandra havia aprendido a ser tão maldosa e crítica. É fato que a Imperatriz viúva, em aparência, se assemelhava mais com Grã-duquesa Phelippa, graças ao nariz afilado, altura descomunal e olhos azuis. No entanto, Alexandra havia herdado os gestos, trejeitos, a fala e o caminhar altivo de Joana, que as tornavam tão compatíveis em personalidade. Mas isso não era de se surpreender, uma vez que a Imperatriz Joana havia desempenhado o papel de mãe afetuosa da menina Alexandra quando a Imperatriz Leonor estava ocupada demais mimando o filho Ricard.

Eu estava parado atrás de Alexandra, observando a interação das duas em silêncio até que por cima dos ombros da neta a Imperatriz viúva colocou os olhos em mim, me examinando de cima a baixo.

–Pelo sangue de Santa Ginevra, que homem! – Lady Joana exclamou, passando pela neta e vindo até mim – Esse é o rapaz do qual você me falou nas cartas? – Ela se virou levemente para a neta – Lindo e atraente como um sonho quente de verão, você disse.

–Vovó! – Alexandra exclamou, envergonhada, levando as mãos ao rosto.

– Eu pensei que você estivesse exagerando, querida. Vocês jovens sempre exageram – Então ela se voltou para mim, admirada, dando uma volta em torno de mim para me analisar. Assumi posição de soldado, ficando ereto, de peito estufado e olhando para frente – Você não é simplesmente maravilhoso!? – Ela disse admirada – Você tem sorte, querida, na minha época não haviam soldados assim.

Alexandra maneou com a cabeça.

– Vovó, esse é Castiel – Alexandra apresentou– Ele é um pajem, e responsável pelo meu resgate.

Me curvei para a Imperatriz

– Um futuro cavaleiro! Beije minha mão, querido – Lady Joana disse, estendendo a mão no ar. Me curvei novamente e beijei sua mão branca, de pele encolhida e ricamente ornada com anéis.

– É um prazer conhecê-la… – Então parei por um tempo, pois não sabia que título usar para uma Imperatriz viúva – Vossa Majestade?

– É Serena alteza, querido – Ela disse sorrindo – Um título idiota. Não há nada de sereno em mim, isso eu garanto.

– Vovó, quero conversar a sós com você – Alexandra falou – É Importante.

– Muito bem, minha loba – A Imperatriz disse, envolvendo os braços ao redor da neta – Castiel, sinta-se em casa da porta do palácio para fora. Eu diria para você ir fazer a alegria das minhas criadas, mas elas são tão feias e sem graça quanto os cães.

– Eu acho melhor Castiel esperar nos jardins – Alexandra falou.

– Tente não soar tão ciumenta, querida – Lady Joana brincou, levando a neta para dentro do palácio.

E assim, fui esperar no jardim.

Westock podia ser imponente e belo, mas o jardim das folhas valia muito mais em beleza do que mil castelos. O Jardim ficava imediatamente abaixo do terraço amplo de pedra, e ocupava uma área enorme, sendo cercado por um muro alto. Uma vez que se descia o terraço para o jardim a imersão era imensa, e você se via enervado pelos corredores ladeados por sebes altas e canteiros das mais variadas flores, plantas e árvores, que iam desde tulipas, lírios e rosas, até laranjeiras e palmeiras. Muita cor, beleza e silêncio, uma vez que nada se ouvia além dos pássaros fazendo barulho. Havia também no local uma piscina romana, além de estátuas e colunas gregas, algumas caídas e cobertas por heras. Na parte sul do jardim ficava ainda uma varanda a beira de um precipício, que dava vista para o Bruma, um rio forte que se estendia por todo o sul do país.

Eu me sentei a beira da piscina romana quando cansei de explorar o jardim a espera de Alexandra. Eu ainda voltaria muitas vezes a este palácio com ela, como sempre para que ela viesse conversar e pedir conselhos a avó, e todas as vezes eu viria para esse jardim, esperar e arder em curiosidade pelo teor das conversas.

Esperei por tanto tempo, que consegui montar uma coroa de flores vermelhas, colhidas por mim ali mesmo no jardim. Coroas de flores me lembravam de Helga, e meus tempos como pagão ao seu lado. Quando o verão chegava, era tradição que Helga fizesse uma coroa de flores vermelhas ou alaranjadas para celebrar a chegada da estação apropriadamente. O verão, como ela dizia, era a estação da alegria e do amor, os deuses concediam favores e bençãos e desciam a terra para amar os mortais como nos tempos primordiais da nossa terra. Eu perdi as contas de quantos padrastos de verão Helga trazia para casa, dizendo que eles eram deuses em forma humana.

– Gosto de ver um homem de talento trabalhando – Alexandra disse, se aproximando de mim enquanto eu estava distraído finalizando a coroa de flores.

Me levantei e fui até ela, estendendo a coroa de flores.

– Uma coroa para a rainha do verão – Coloquei a coroa de flores vermelhas em sua cabeça.

– Você me lisonjeia, meu lorde – Ela fez uma reverência, dobrando os joelhos e erguendo uma ponta da saia – Caminhe comigo.

Ela entrelaçou o braço no meu e começamos a caminhar entre os corredores do jardim.

– O que você achou da vovó? – Ela questionou sorridente.

– Geniosa– Eu falei, simplesmente –Vocês se parecem muito.

– Eu sou cria dela – Alexandra deu de ombros – não podia ser diferente.

– Sobre o que vocês conversaram? – Perguntei, curioso.

– Coisas de mulher, problemas de família, conspirações, fofocas e… – Então ela parou, o sorriso morreu e ela me analisou por alguns instantes – Sobre o papai. Ele está doente Castiel, muito doente.

Recebi a notícia com mal presságio, e segurei meu amuleto de Swerna, fazendo uma prece silenciosa para afastar o mal do meu soberano.

–O que ele tem?

– Alguma doença maldita nos pulmões– Ela explicou – Ele está assim desde o inverno. Achamos que fosse um resfriado, mas simplesmente não passa. As coisas só pioraram com meu sequestro e com a tensão da guerra.

– O imperador é forte – Eu disse convicto – Ele vai melhorar logo.

– Assim eu espero – Ela falou, distante – O que vai ser da Estrevia sem nosso Imperador?

– O que vai ser de você sem o seu pai? – Eu devolvi com uma pergunta.

– Eu não sou a prioridade, Castiel – Ela falou cabisbaixa – Mas não vou negar que temo pela ausência dele.

Alexandra era apegada ao pai mais do que a qualquer outro membro da família em Westock, e quando conversávamos sobre ele, Alexandra não conseguia esconder o orgulho e afeição que sentia pelo pai. Com o Imperador não era diferente e, nas poucas vezes que o vi, nas mais raras ainda que ele sorriu, esses sorrisos foram direcionados a Alexandra.

–Você não tem com que se preocupar. Ele vai melhorar logo– Eu falei, parando de caminhar e me pondo de frente para ela – Seu pai é tão forte quanto o javali que matamos hoje.

– Essa foi uma péssima comparação, sapo – Alexandra disse.

– Eu nunca fui bom em consolar ninguém – Dei de ombros – Mas sou mais bem sucedido em arrancar sorrisos.

– E como seria isso? – Ela desafiou

– Primeiro eu me aproximo da vítima calma e cautelosamente – Eu disse me aproximando ainda mais dela – Depois eu deslizo meu dedo por sua cintura e… – Fiz suspense, e ela me olhou em expectativa – ATAQUE DE CÓCEGAS!

Gritei e pressionei suas costelas fazendo cócegas com meus dedos rápidos. Alexandra gritou e se debateu, rindo freneticamente. Em algum momento ela conseguiu se livrar do meu aperto, e disparou correndo pelo jardim comigo em seu encalço. Ela corria, sorria e me desafiava a alcançá-la, enquanto olhava para trás e os ventos agitavam seus cabelos castanhos. Sua beleza, seu sorriso, o som de sua gargalhada alegre invadindo meus ouvidos. Tudo nela, tudo naquele momento me entorpecia, ao ponto de eu não enxergar nada além de sua figura saltando e sorrindo a minha frente. De repente ela era a mulher mais linda do mundo, a razão do meu respirar e do bater de meu coração. Era como uma represa que se rompe, inundando e devastando todas as barreiras e negações que eu havia erguido em uma torrente avassaladora e violenta. Pois foi naquele momento, naquele dia de verão, que eu descobri estar apaixonado por Alexandra.

Eu era jovem, inconsequente e tinha acabado de descobrir estar apaixonado. Talvez eu estivesse tomado pelo fogo dos amantes, pela loucura do deus do amor, pois aumentei a velocidade das minhas passadas, alcançando Alexandra sem muito esforço. Agarrei-a pela cintura girando-a para o lado e encurralando-a contra uma coluna grega alta e coberta de heras. Acariciei seu rosto e ela olhou fundo nos meus olhos, olhos esses que passaram da surpresa para algo ardente que não pude identificar. Nossas respirações estavam ofegantes pela corrida e agora estávamos muito próximos.

– Castiel!? – Ela começou

– Me diga que não deseja um beijo meu, e eu me afasto de ti agora mesmo. – Falei abruptamente, ainda acariciando seu rosto.

– Deus, essa é a mais pura estupidez! – Alexandra disse com angustia na voz.

– Então não quer o meu beijo? – Perguntei, decepcionado.

– Se não quero o teu beijo? – Ela perguntou agitada, levando sua mão ao meu rosto–É tudo o que mais tenho desejado desde que nos aproximamos a ponto de ser insuportável sentir teu cheiro sem querer me atirar em seus braços – Sorri abertamente para ela, que não retribuiu. Parecia angustiada – Mas não podemos!

– Diz o que me impede de tomar seus lábios! – Pedi, desesperado, encostando sua testa na minha –Me diz o que me impete de te provar e eu juro que passo por cima, juro que resolvo só para satisfazer minha vontade – Ela levou uma das mãos ao crucifixo – Se for por causa de sua religião, se for por causa do pecado que somente você enxergar nesse ato de amor, me beija agora! Eu mesmo irei depois ao teu Deus, pessoalmente se preciso for, para fazê-lo perdoá-la por ter satisfeito o seu desejo.

– Nada tem a ver com a religião! – Ela falou, descartando – Se fossem apenas os mandados bíblicos eu já estaria te amando nesse chão de terra e grama, pois nenhum Deus seria capaz de segurar a vontade que sinto.

– Me diz então o que nos impede? – Supliquei novamente.

– O nascimento nos impende, as circunstâncias nos impedem, a tragédia e a dor implícitas nesse beijo nos impedem – Ela declarou – O que sinto por você é forte e avassalador, Castiel, mas não chega a enebriar minha razão. O que você acha que aconteceria se eu me entregasse a ti nesse beijo?

– Amor? – Falei exasperado.

– Paixão! – Ela respondeu – Príncipes não podem se apaixonar, meu Castiel! A paixão é avassaladora, ela entorpece os sentidos, cria pontos fracos e nos faz inconsequentes. Se eu te beijasse aqui e agora, eu estaria te entregando minha vida, meu corpo e minha alma em tuas mãos. Mas nada dessas coisas são minhas para te dar. Minha vida, meu corpo e minha vontade pertencem a Estrevia. É por ela que arde minha paixão, e não pode ser diferente – Ela disse, estava de olhos avermelhado e eu provavelmente também – Seu eu me entregasse a você eu atrairia um prazer e alegrias efêmeros, pois quando o dever me chamasse, eu teria de partir seu coração, e não há nada no mundo que me causaria mais sofrimento e remorso do que te ver sofrer.

Nada mais eu disse. Acenei positivamente com a cabeça e me afastei dela. Voltamos para Westock em seguida, e dessa vez, ela montou em Frigg para ficar atrás de mim, envolveu seus braços na minha cintura e repousou a cabeça nas minhas costas, mantendo-se assim a viagem inteira. Ficamos em silêncio todo o caminho, não havia mais nada a ser dito. Eu estava devastado, sentia um gosto amargo na boca, mas não havia vontade de chorar, apenas uma angustia que me corroía por dentro, como se algo estivesse contido, apertado e doloroso. A paixão é feita para ser liberada, vivida, mas nunca aprisionada, pois ela corrói como ácido uma vez contida, e mata aos poucos um sujeito por dentro. Eu estava sofrendo disso, apaixonado por uma mulher que não conseguia se dar a mim por completo como eu me dava a ela. Alexandra era um direito, uma relíquia, uma joia do povo, e sendo assim, só povo da Estrevia podia reclamá-la. Como eu odiei meu país naquele dia. 


Notas Finais


Pobre, Castiel!
E então, o que vocês acharam? Alexandra fez certo? O que acharam de Nanny, Sienna e a Imperatriz viúva? Quais suas previsões para o futuro? Vou adorar saber! Sintam-se à vontade para falar.
Beijos.
And all my love.


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