História A Imperatriz - Capítulo 20


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Categorias Amor Doce
Personagens Castiel
Tags Aventura, Bruxas, Drama, Ficção Histórica, Magia, Medieval, Romance
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Palavras 4.036
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, belos. Demorei, mas nem tanto. Aos poucos estou voltando voltando a ativa. Bem, aproveitem, foi feito com o coração, a mente e os dedos do que vos fala.

Capítulo 20 - O Último Guerreiro Pagão


Eu estava enebriado. Não conseguia fazer nada, prestar atenção em nada, que não fosse a garota fantasma postada em minha frente, com seus olhos gentis e ternos fixos nos meus. Ousei mais, e toquei seu rosto da mesma forma que ela fazia com o meu. Era quase como se analisássemos um ao outro, como que para saber se éramos mesmo reais, feitos de carne e sangue pulsante.

Erika era bela, tinha o rosto de traços joviais e olhos amarelados, cor das folhas outonais, que transmitiam ternura; uma bondade verdadeira e cativante. Era baixa, da altura do meu queixo, e tinha o cabelo curto, de fios finos e delicadamente sobrepostos. Usava um vestido de serviçal, simples e cinza; sob o colo repousava uma delicada corrente de prata, cujo o pingente exibia o cristo pregado em sua cruz.

Admirei-a pelo que pareceu uma eternidade, com a cabeça elaborando mil questões que eu não conseguia vocacionar. Eu não sabia nada dos planos dos deuses para nós, mas sabia que Erika e eu compartilhávamos algo tão profundo quanto inexplicável.

Mas então a beleza do momento se partiu, e Erika pareceu despertar do transe. O horror tomou conta do seu rosto, e ela se afastou de mim, como se visse em mim a maior das ameaças.

–V-você não deveria estar aqui –Disse ela, olhando para todos os lados, nervosamente.–Precisa ir embora, agora!

Encarei-a em confusão pela mudança repentina de atitude.

–Ir embora? – inqueri, confuso, tentando me aproximar novamente.

A garota recuou um passo. Franzi o cenho para ela.

–O que há com você? Eu não vou te fazer mal, e você sabe disso –Eu sabia que ela podia sentir o que havia em mim, pois eu também sentia ela; e havia medo, muito medo – Só quero que você me explique tudo… bem, tudo isso!

Abri o braço, exibindo o amuleto que ela me dera.

–Esconda-o! –Erika exclamou, quase desesperada. Mais uma vez ela olhava sob os ombros nervosamente –Não há nada para explicar. Eu não o conheço. Vá embora, e não volte nunca mais.

E dito isso, a garota virou as costas, voltando a caminhar em direção a cozinha.

Me apressei para alcançá-la. Segurei o seu braço.

–Solte-me –Ela pediu.

–Eu sei que era você – Falei, puxando-a para perto – Por favor, eu sumplico que me ouça. Conte-me o que aconteceu. Porque me deu este amuleto? Foi Helga quem lhe enviou naquela noite, no cemitério, não foi?

–Eu não sei do que você está falando! –Ela disse, agora um tanto aflita. Olhava sempre para os dois lados, como se estivesse sob os atentos olhos de alguém.

– Não minta! –Irritei-me, apertando levemente seu braço –Me chamou de Bjorn, meu nome pagão. É claro que me conhece.

–Já disse, nada sei sobre você –Ela falou, e em seguida gritou –Solte-me!

–O que se passa aqui?

A voz fria soou atrás de mim, e percebi que o som das espadas haviam parado de tinir no pátio. O rosto de Erika se encheu de terror, e então compreendi do que ela tinha tanto medo.

–Lorde Guilherme – Erika falou, se desvencilhando de mim e curvando-se para o Duque.

Virei-me para ele. Estava lá; o rosto bonito, de compleição forte e imponente. O cabelo negro, rente a cabeça, estava encoberto por uma boina, e ele vestia um grosso casaco de pele, a espada pendendo no cinto.

–Vocês não me responderam. O que se passa aqui, Erika? – Inqueriu mais uma vez Guilherme. Seus olhos iam de mim para a garota, cheios de desconfiança.

–Nada, meu lorde – Disse ela, trêmula, com cabeça abaixada. Percebi que não ousava olhar para ele.

–Não pareceu “nada” para mim –Ele falou, insatisfeito

Erika estremeceu. Estava morrendo de medo, e era claro que não conseguiria articular uma palavra diante dele. Sor. Draian, que estava atrás de Guilherme me fazia um questionamento mudo. Resolvi, então, entrevir.

–Não é culpa dela. Eu estava perturbando a garota –Falei, preguiçosamente, trazendo os olhos frios de Guilherme para mim –Você sabe, senhor Duque, eu não aguento ver um rabo de saia. Perdoe-me.

A aquela altura alguns servos que passavam pelo pátio e os garotos que treinavam pararam para assistir. Eles riram da minha quairela, mas logo se silenciaram quando Guilherme olhou em volta com irritação.

–Você faria bem em lembrar, Sor. Castiel –Ele sempre falava meu nome com desprezo –que não está em um dos bordéis de São Herburgo. Esta é a minha casa, e aqui eu não tolero tais comportamentos.

Encarei Guilherme, me perguntando o quanto daquele discurso não passava de hipocrisia. Quantas das criadas de seu castelo ele já não levara para cama? Eu sabia que ele não era casado. Demasiado Estranho para um jovem nobre, cheio de terras e riquezas, que necessitava de um herdeiro saudável para continuar o nome da família.

–Claro, meu senhor, não vai se repetir –Eu disse, cínico, curvando a cabeça rapidamente.

–Ótimo –Ele respondeu, amargo. Virou-se então para a garota postada aos seus joelhos –Quando a você, Erika, volte para seus afazeres, e tire um tempo de orações para mim. Ah, e reze também pela alma-perdida do seu irmão. Talvez ele não passe de hoje.

Erika estremeceu ao ouvir aquilo, e levantou-se, caminhando em direção a cozinha. Aquilo havia me intrigado. Eu precisava a todo custo descobrir mais sobre aquela garota. Tinha a convicção de que eu não fora enviado a ela pelo mero acaso. Ela sabia de algo. Talvez algo sobre Helga. Além do mais, a forma como ela se rebaixava a Guilherme me causava repulsa inexplicável. Ela era uma mulher pagã. Em seu sangue corria a força da natureza, e, ainda assim, ela se curvava aquele cristão.

Apertei o amuleto de Swerna, e a acompanhei caminhar em direção as cozinhas do castelo. Lá, mais adiante, vi também o pescoço das cozinheiras se esticarem para ver o que se passava no pátio. Reconheci Alexandra entre elas, inconfundível, entre as demais. Seu porte altivo a denunciava. Era como ver um gato sagaz em meio a um grupo de ratinhos. Quis ir até a ela e contar tudo, mas não podia, não agora que Guilherme voltara sua atenção para mim.

–Espero que esteja pronto, Sor. Castiel –Ele disse, com uma nota de malícia na voz, que por acaso não gostei –Estamos partindo em nossa pequena empreitada, logo cedo, pela manhã. Espero que não se importe em sujar sua espada com um pouco do sangue de seus irmãos.

Arrepiei-me, e minha cicatriz queimou, como que em reprovação aquelas palavras sombrias.

–Eu não matarei ninguém, até que haja um julgamento justo –Determinei.

Guilherme sorriu.

–Claro, claro. Você vem?

–Depois do senhor–Eu disse, fazendo um gesto para os portões da fortaleza.

Guilherme se afastou, gritando ordens aos seus homens, que se reuniam as pressas, trazendo cavalos, armaduras e armas.

–Eu não vou fazer parte disso, Draian –Eu disse, me virando para o cavaleiro.

Sor. Draian deu um gole no seu caantio, e me estudou. Usava ainda o coque no topo da cabeça calva. Os espertos olhos castanhos me espiaram, e ele sorriu, exibindo os dentes meio amarelados.

–Eu entendo sua aflição, Castiel –Disse o cavaleiro –Mas pense bem, é melhor que estejamos lá para assegurar que não haja derramamento de sangue do que deixar isso nas mãos de Guilherme.

Bem, ele tinha razão, e isso me deixou um tanto aliviado. Nós, cavaleiros, deviamos manter a justiça do imperador, e portanto, em casos como esse, em que o próprio Imperador havia nos enviado, nossa palavra era a de Ricard. Talvez eu conseguisse manter os pagãos longe da fogueira, afinal.

–Porém, lembre-se, estes pagãos não são santos imaculados – Draian falou, espiando-me com cautela –Eles mataram e saquearam, destruíram plantações e são criminosos. Devem ser julgados como tal, e tratados como tal. Entende isso?

Sim, eu entendia. Sabia que não podia fazer vista grossa para os crimes deles. No entanto, enquanto eu estivesse ali, eles seriam julgados pela justiça dos homens, longe das fogueiras de Guilherme. Não os deixaria morrer em agonia.

No entanto, minha aflição em confrontar meus irmãos pagãos, não esperaria até o amanhecer, pois naquele mesmo dia, sob o manto da noite, os pagãos atacaram a fortaleza de Guilherme.

Eu estava no quarto que me foi dado, junto de Alexandra, quando o alarme dos sentinelas foi dado. Saltei da cama, e apanhei a espada na cabeceira da cama.

–Só pode ser um alarme falso –Alexa falou, sentando-se na cama. Seus cabelos negros estavam ligeiramente bagunçados – Seria impossível passarem pelas muralhas.

Olhei para ela. Alexa tinha razão, era mesmo impossível. A fortaleza de Guilherme era inexpugnável. Até mesmo um exército padecia em anos de cerco se quisessem tomá-la. Rompê-la em uma noite, era algo impossível.

–Eu vou lá fora –Falei –Fique aqui, e reforçe a porta. Não abra para ninguém.

Alexa acenou, saindo da cama e me acompanhando até a porta. Assim que saí do aposento, Alexandra selou a porta atrás de mim. O corredor estava vazio, mas eu podia ouvir o tinir das espadas e gritos de morte vindos do pátio.

Corri na direção do barulho, e antes que eu dobrasse o corredor que me levava a saída, vi um machado se precipitar na minha direção. Saltei para o lado, e cravei Aquila na barriga do inimigo, só então virando-me para ver seu rosto. Era uma criatura barbuda, de olhos azuis e cabelo longo. Metade do seu rosto era tatuado com runas,e eu soube que havia matado um pagão. Puxei a espada e o corpazil foi ao chão, estrebuchando.

Lá fora, o caos estava instalado. Os homens de Guilherme, pegos de surpresa, ainda cambaleavam para fora de seus alojamentos, alguns sendo mortos logo na saída pelos machados pagãos. Fogo foi ateado a um dos alojamentos, e os poucos soldados que já se recuperavam, lutavam no pátio.

Sor. Draian estava entre eles. Lutava sem as calças, uma vez que devia ter saltado da cama para a batalha. Apesar disso, o vi cortar dois pagãos com o dobro do seu tamanho, e apunhalar um terceiro pelas costas enquanto este ameaçava a vida de um soldado.

Ele me gritou, gesticulando para que eu me juntasse a luta. A cicatriz queimou, mas eu era um cavaleiro, e meus irmãos não me deixaram escolha. Parti para luta, cortando e me esquivando de ataques imprudentes e amadores de forcados e machados de lenha. Aqueles homens não eram guerreiros. Deuses, não passavam de fazendeiros que não conseguiam aguentar o peso da espada.

A maioria dos pagãos sempre foram criaturas estúpidas em batalha. Nossos guerreiros se deixam levar pelo ardor, e se atiram na luta, ensandecidos, sem olhar aonde vão. No entanto, invadir uma fortaleza de homens treinados, com um bando de camponeses e com números inferiores era mais que estupidez, era suicídio.

Tentei ao máximo não machucar nenhum dos meus adversários. Usei mais as mãos e o cabo do que a lâmina da espada, e desarmei a maioria dos homens que enfrentei. Mas foi então que meu caminho se cruzou com o de Ysvar. Ele sim era um guerreiro pagão, reconheci pelo seu porte. Estava sem camisa, e lutava com dois pequenos machados de cortar lenha, saltando com a agilidade de um felino, massacrando os adversários de armadura como se estes fossem árvores em seu caminho. Era esguio, de porte atlético, seu dorso e braço eram cobertos por runas e desenhos de nosso povo.

Ele se virou para mim, os anéis de sua barba média e castanha, cintilando ao fogo bruxuleante do alojamento queimado. E sorriu, partindo na minha direção. Rebati seus ataques com aquila. Seus golpes eram rápidos como minha esquiva, e vi que Ysvar apertou os olhos, surpreendendo-se, imagino, ao perceber que enfrentava um inimigo de treinamento semelhante ao dele. A velocidade era a maior arma de um guerreiro pagão.

–Você é bom demais para um cristão engessado – Ele disse, me cortejando como um lince.

– Quem disse que sou um cristão? – Rebati, com um meio sorriso. Meu peito arfava. Havia dito aquilo em nossa língua mãe, a língua de kravia.

– Hohoho. Você é o bastando traidor que eles chama de leão, não é? – Disse Ysvar – Para mim, você não passa de uma cadelinha.

Então ele atacou novamente, cortando e saltando, gritando como um louco. Também gargalhava, e eu gargalhava junto com ele. Eu havia gostado de Ysvar. Ele lembrava as raízes que eu havia perdido. Se Alexa nunca tivesse cruzado meu caminho, eu seria exatamente como ele. Não que eu tivesse qualquer arrependimento.

Então, foi minha vez de atacar, e eu girei, golpeando por baixo, e abrindo um corte na sua coxa. O primeiro sangue era meu. Ysvar gritou, largou os machados, e saltou na minha direção, se jogando sobre mim.

Eu podia tê-lo matado, bastava um movimento, e eu poderia abrir um rasgo no seu estômago. Mas eu larguei a espada no chão e me atraquei com Ysvar ao socos, rolando pela grama enquanto a batalha ardia ao nosso redor.

Ele socou meu estômago, uma, duas, três vezes. Cuspi sangue contra seu rosto, e ele ficou satisfeito em perceber que havia arrancado algo de mim. Os deuses não consideravam guerreiros que não sangrasse o inimigo. Consegui me desvencilhar dele, me pondo de pé para tomar fôlego.

Ysvar girou na poeira, se erguendo de um salto, e tornando a correr na minha direção, como um touro feroz. Aguardei o impacto, e prendi seu pescoço com meu braço. Usei o joelho para chutar seu estômago, enquanto ele socava debilmente minhas costelas. Quando retribuí os três golpes que ele me dera, empurrei-o e chutei seu peito, fazendo-o cair de costas na terra batida do pátio.

Ysvar ainda se ergueu, e gritando como um louco correu novamente na minha direção. Ataquei com a direita, mas Ysvar se abaixou. Meu soco cortou o ar, e ele se ergueu novamente, acertando minha testa com uma cabeçada que fez o mundo girar de forma enjoativa.

Caí para trás, estirado no chão. Eu ainda sorria, e Ysvar se aproximou, montando sobre meu dorso, em uma atitude debochada.

–Parece que a cadelinha tinha dentes, afinal –Debochou ele.

Eu ri.

–Qual o seu nome? – Perguntei, ainda usando nossa língua mãe.

–Ysvar, filho de Uriek.

Eu ouvira falar de Uriek. Era um dos maiores guerreiros pagãos de nossa era. Fora o campeão do Rei Sávio, mas havia traído o rei pagão e fugido poucos dias antes da queda de nosso acampamento para junto da família. Minha mãe o amaldiçoara, ela odiava os traídores.

–Sou Bjorn, filho de Helga – Disse.

Ysvar riu.

–Eu sei –Disse ele, se divertindo com a cara de confusão que fiz – Eu não acho que ela teria muito orgulho de você. Mas não se preocupe, vou dizer a ela que você morreu lutando como um de nós. Foi, um prazer, Bjorn.

Então ele ergueu a mão em punho. Ysvar Socaria minha testa até que ela se partisse, mas antes que pudesse ter tido a chance, uma fecha cortou o ar atingindo-o no ombro. O pagão fora atirado para trás com a força do impacto, gemendo de dor.

Virei-me, e me deparei com as patas de um cavalo negro, como frigg. Montado sobre o garanhão, Guilherme, segurava um besta, o rosto triunfante. Atrás dele, seus homens se reuniram e se espalharam pelo pátio. A luta terminaria em segundos. Os pagãos não teriam chance contra aquilo.

O duque me olhou com um sorriso de deboche, e mais que rapidamente me ergui da sujeira, tentando recuperar a dignidade na frente daquele desgraçado. Porém, Guilherme saltou do cavalo, e passou direto por mim. Parou perto de Ysvar e pisou em seu peito.

–Ora, o filho ingrato sempre retorna à casa –Disse gUuilherme – Você não sabe o prazer que é te ver de novo, Ysvar.

Ysvar rugiu sob as botas de Guilherme. Havia ódio puro destilado em seus olhos. Guilherme pisou ainda mais forte.

–Xii, acabou para você, velho amigo –Falou o duque – Olhe ao redor. Sua horda de animais está aniquilada. Somos só eu, você, e o criador olhando para nós.

O pagão riu, o peito obstruído pelas botas de Guilherme.

–Que se foda seu criador, Guilherme! –Berrou Ysvar –A única coisa que ele vai assistir será meus dentes rasgando sua garganta.

Guilherme suspirou dramaticamente, balançando a cabeça.

–Vejo que você não mudou. Sua irmã ficará desapontada.

Ysvar arregalou os olhos.

– Erika? O que você fez com ela, seu pedaço de lixo?

–Sua irmã está muito bem –Declarou o Duque, de forma mansa – Eu cuidei dela em sua ausência. Mostrei o verdadeiro caminho para a verdade. Ela é uma cristã agora, arrependida de seus pecados.

Estava aí algo que eu não esperava. Erika e Ysvar eram irmãos. Bem, não se podia negar leves semelhanças na aparência dos dois, mas afora isso, eram o completo inverso um do outro.

–No entanto, o seu caso está além de qualquer ajuda – Continuou Guilherme –Apenas o fogo sangrado o livrará dos seus pecados.

Guardas se aproximaram para segurar Ysvar. Ele se debatia como um animal ensandecido. Mataria Guilherme com as mãos se o deixassem. Mas aquilo tudo era demais para eu aguentar calado. Eu não permitiria que Guilherme instalasse novamente uma inquisição.

–Você não pode queimá-lo –Falei, me abaixando para recolher minha espada do chão – O Imperador Ivan pro

ibiu as fogueiras.

–O que você disse? – Guilherme se voltou para mim. Desafiava-me a desafiá-lo.

–O que você ouviu, senhor duque – Falei, me pondo de frente para ele –a fogueira é proibida. O máximo que poderá fazer com seu prisioneiro, é enforcá-lo. A lei de Ivan é clara.

Guilherme avermelhou-se. Eu sabia que Guilherme jamais iria se contentar com a forca. Queria ver Ysvar queimar. Acreditava que o fogo purificava, e suspeito que houvesse um prazer sórdido envolvido no ato. Eu esperava ganhar tempo para Ysvar, ou mesmo lhe dar uma morte menos dolorosa. No entanto, o duque rapidente recuperara sua compostura.

–Você está blefando – Disse Guilherme. Um sorriso tingindo o rosto –Se conhecesse mesmo a lei, Cavaleiro, saberia que tenho o direito de fazer o que quiser com esse herege. Ele invadiu meu castelo, matou meus homens. A lei dos homens está a meu favor, tanto quanto a de Deus.

Foi a minha vez de ficar com raiva. Era tudo verdade, e eu torcia, tolamente, para que Guilherme esquecesse esse pequeno detalhe. Violar a casa de um homem, pior, a de um homem nobre, era algo abominável. Ysvar queimaria, e eu não poderia fazer nada.

–Alguma outra objeção, cavaleiro? –perguntou Guilherme, e ao meu silêncio carrancudo, ele prosseguiu – Eu imaginei que não. Guardas, levem o prisioneiro às celas. Amanhã, ao meio dia, ele vai queimar.

E os homens levaram-no. Pensei em voltar para ver Alexa, mas sabia que ela ficara bem. A torre fora intocada pelo falho ataque. Então caminhei para fora das muralhas. Ficar ali só me faria mal. Ouvi Draian gritar, mas não dei ouvidos.

Mais tarde, quando o sol já oferecia a face, voltei para o castelo. Desci até as celas, e me coloquei na frente de Ysvar. Os guardas não me queriam deixar entrar na cela, mas minha ordem de cavaleiro e um pouco de ameça o fizeram abri-la para mim.

Ysvar estava amarrado pelas mãos e pés por correntes ligadas a parede. Havia apanhado bastante. Claro, que guilherme não perderia a oportunidade de torturá-lo. Ele me olhou com divertimento, pelo olho que não estava roxo e fechado, e eu me sentei de frente para ele.

–Eu preciso dizer, irmão –Ele começou –Sua atuação lá fora tentando me salvar fora comovente.

Sorri.

–Você é um idiota, sabia? –Falei. Estava com raiva de sua estupidez –Se não tivesse invadido o castelo, eu poderia ter salvo você.

Ysvar deu um sorriso de escárnio.

–Me salvar? Atravéz de leis e protocolos cristãos? Prefiro a fogueira.

Eu entendia seu orgulho. Era humilhante se submeter a eles.

–Por que trazer tudo isso de volta agora? – Perguntei, um tanto amargo –Essa guerra já acabou, Ysvar. Nós perdemos. Nossos deuses e reis estão mortos.

–Eu gosto de você, Bjorn – disse Ysvar –Eu mal o conheço, e você é um traidor desgraçado, mas eu gosto de você. No entanto, sua falta de fé realmente me perturba.

–Fé em quê? –Perguntei, dando de ombros.

Um sorriso de descrença cortou o rosto de Ysvar.

–Você não sabe!–Ele gargalhou –Ou Pior, você sabe e ainda se faz de descrente.

– Do que você está falando? – perguntei.

–Sua mãe, tolo!–Ysvar falou – Helga vive. Foi ela quem começou tudo isso. Sussurrando nos sonhos das sacerdotisas. Eu sou um mero peão da revanche de Helga.

Estremeci.

–Onde ela está? – Perguntei –Você a viu?

– Não, não a vi – Disse ele – Só as bruxas falam com ela. Para ser honesto, eu não compreendo a coisa toda. Mas iriamos nos reunir na Durnóvia, durante o ápice do verão. As bruxas prometeram que ela estaria lá. Que a haviam-na encontrado.

Helga estava sepultada na Durnóvia, mas aparentemente, somente eu, Alexandra e Draian sabiamos a localização do seu túmulo. Aquilo não era uma mera coincidência.

–Então porque mudou seus planos? – perguntei –Por que veio para cá, em vez de partir para a Durnóvia.

Ele baixou os olhos

–Eu vim por minha irmã. Eu prometi a Erika que a tiraria daqui. Mas falhei nisso também, e agora ela é um deles. Acho que nosso povo está fadado ao fracasso, irmão. Somos um bando de merda.

E lá estava. Erika.

–Eu não acho que ela seja tão cristã quanto Guilherme o fez crer.

Ysvar me espiou.

–Como sabe disso. Você a viu? – Havia esperança em sua voz.

–De certa forma, sim –Falei, mostrando-o o amuleto de Swerna – Ela me deu isto. Parece algum deus cristão pregado para você?

Pela primeira vez, vi algo brilhar em seus olhos além de ódio e divertimento. Ele sorriu, singelamente.

–Ela sempre gostou de Swerna – Ele falou, com carinho –Quando criança, ela dizia que podia falar com a deusa mãe. Papai sempre acreditava, e ouvia suas histórias.

–O que aconteceu com sua família? –Perguntei –Como vieram parar aqui, nesse inferno?

Sverk apertou os punhos.

–O Duque de Hemgrov foi o que nos aconteceu. Antes mesmo do fim da Guerra, meu pai fugiu conosco para construir uma vida em segurança. Mas o pai de Guilherme nos achou, com sua campanha de inquisição. Minha mãe e meu pai queimaram na fogueira, mas ele decidiu poupar a mim e a minha irmã, por algum princípio cristão idiota. Fomos criados aqui, junto de Guilherme, como servos, sim, mas amigos –Olhei para ele com descrença, e Ysvar deu de ombros –Ele não era tão idiota quando criança, acredite. Apodreceu com o tempo, e a influência dos pais. Mas eu sempre lembrei das minhas raízes pagãs. Eu era diferente dele, e toda a opressão para apagar isso, só me irritava ainda mais. Quando os sonhos com Helga começaram em Erika, eu sabia que era minha chance de ter liberdade, finalmente. Nós planejamos fugir, mas a essa altura Guilherme estava obcecado por Erika, e a queria manter aqui a todo custo. Ele estava apaixonado, se quer saber o que acho –Ele apertou ainda mais os punhos com as lembranças –Ele tentou nos impedir. Eu consegui escapar, mas Erika não. Eu prometi que voltaria por ela, mas falhei nisso também. Só os deuses sabem a quais crueldades ele a submeteu para domá-la.

Compreendi então porque ele tinha tanta raiva de Guilherme. Não havia percebido até aquele momento, os olhares de Duque direcionava para ela. A preocupação excessiva, a intimidade em pequenas palavras e o crucifixo de prata que ela usava no pescoço. Tudo fazia mais sentido.

O medo que vi nos olhos de Erika também pareceram justificados. Ela o obedecia por medo. Reprimia sua natureza, e só ela podia dizer os horrores que passou para desenvolver tamanho pavor e subserviência para com um homem. Meu peito se encheu de tristeza e raiva. Era como se eu pudesse sentir a dor dela.

– Eu lamento –Foi tudo o que consegui dizer.

– Sua lamentação não me serve de nada – disse ele –Se você quer mesmo ajudar, tire-a daqui. Dê a Erika a liberdade que ela merece.

Eu o encarei. Sim, eu poderia fazer aquilo.

–Eu prometo –Falei – Algum último desejo?

–Não de você, irmão.

–Vou trazê-la para vê-lo –Falei – Eu não vou deixar que você morra antes de vê-la novamente.

Ele acenou com a cabeça. Um gesto duro, mas era o que bastava entre nós, pagãos.


Notas Finais


E então, o que acharam? Espero ter respondido algumas perguntas que pairavam no ar, e principalmente ter atiçado a curiosidade de vocês para o futuro. Me deixem saber o que vocês acharam do capítulo, sério, vocês não têm ideia de como é importante.
Isso é tudo, pessoal.
Um abraço na alma.


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