História A insustentável solidão de um homem - Capítulo 5


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS), Wonder Girls
Personagens Jung Hoseok (J-Hope), Lee Sunmi
Tags Drama, Jhope, Jung Hoseok, Myodesigners, Sadfic, Sunmi
Visualizações 23
Palavras 4.591
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi. :)

Vocês não sabem o quanto eu AMO essa fic, ela é tão lindinha, mesmo sendo tão triste.
Aproveitem mais um capítulo, obrigada pelos comentários e sigam firme.
Beijo.

Capítulo 5 - O que dizemos ao Deus da morte? Hoje não.


Fanfic / Fanfiction A insustentável solidão de um homem - Capítulo 5 - O que dizemos ao Deus da morte? Hoje não.

 Hoseok, Seoul, 2019

Dizem que depois que a peste bubônica assolou a Inglaterra ainda no século XVII, por questão de segurança resolveram tornar como norma o sepultamento das vítimas a mais ou menos 7 palmos do chão, cerca de 1,80m. Na Coreia a cremação é bem mais dispersada, poucas pessoas ainda enterram seus ancestrais, e sendo sincero não faço ideia se aqui essa regra dos sete palmos ainda funciona. 

Eu odeio cemitérios. 

O sobretudo de inverno de alguma forma ainda permitia que o vento gelado se infiltrasse pelo tecido, fazendo um tremor congelante se alastrar por todo o meu corpo. Acredito que só o ambiente puramente trazia uma sensação de frieza, vazio, solidão. Olhando aquela lápide com poucos escritos, sua foto agora meio fosca, as flores que havia trago servindo não sei se decoração seria a palavra certa, talvez somente seja a coisa certa a se trazer ao visitar alguém que já não esteja aqui.

Aproveitei o silêncio somente para pensar. Permiti por um longo período de tempo que meus pensamentos fluíssem para a época em que passamos juntos, embora não tenha sido muito, ele me marcou de uma forma inimaginável. 

As folhas das árvores voavam, o vento rugia a minha volta, uma nevasca iminente se aproximava. 

  — Eu não entendia os seus motivos antes e nem acho que entenda completamente agora, mas o compreendo melhor hoje em dia. — confessei mirando seu nome no alto daquela pedra de sepultamento. — Seu maior ato de amor foi ter nos deixado. 

Em nenhum momento pensei nessa visita com levianidade, ele errou e errou feio, mas nunca deixaria de ser meu pai e se de uma coisa eu tinha certeza, é que não queria me tornar ele. Pode parecer estranho, mas em todos esses anos nunca vim visitá-lo, nem sequer mantive qualquer sentimento de empatia pelo seu trágico fim, porém, com os anos, e talvez pela minha situação atual, eu tenha vindo em busca de redenção. 

Há doze dias inteiros eu não bebia. Agora de frente ao túmulo de meu pai reafirmei a promessa feita a mim mesmo naquela noite sombria ainda em Gwangju, quando o " bip " se tornou insuportável. 

Bip bip bip bip bip bip ...

Agora o " bip "  incessante não exista mais, a não ser dentro da minha cabeça. Ele ressoava e ressoava nos meus ouvidos como a lamúria de um fantasma atormentado, embora sua ausência fosse no mínimo, mágica.

Sunmi.

Aquele noite foi um caos. A bebedeira me tornou incapaz de realizar as mínimas tarefas necessárias para que pelo menos 1/3 daquela situação fosse resolvida. Não me tornei um inútil somente pelo álcool, devo confessar que o receio, medo e apreensão fizeram seu papel perfeitamente para aí sim me tornar um peso morto.

Yangmi me jogou uma atadura, literalmente no meio da cara para estancar pelo menos um pouco do sangue que escorria sem parar em meio aos meus trôpegos desnorteados. Nana ligou para Jiwoo, Dahyun apareceu com uma pequena mala arrumada ainda vestindo seus pijamas, e Taecyeon ficou responsável pela casa.

Dois dias.

Não é fácil contar seguidamente os dias ruins que me assolam, mas aqueles dois foram aterrorizantes. Depois dos cuidados ministrados pelas enfermeiras chegamos em tempo record ao hospital especializado de Seoul, onde o doutor Kim acompanhado de sua equipe nos esperava já a postos. Durante todo o percurso entre Gwangju e o hospital me amaldiçoei incontáveis vezes por ter cedido ao vício mais uma vez e por conta disso ter provocado toda essa quase catástrofe com a pessoa que eu mais amo nessa vida. A única pessoa que eu amo.

— Sunmi? Meu amor, eu não quero ser como ele. Não quero. — confessei baixinho ao revirar as memórias sombrias de meu pai.

Meu corpo se prostrava ao seu, todo o álcool tinha se evaporado graças a combinação de soro glicosado com a culpa. Um aparelho improvisado de ventilação mantinha sua respiração ritmada com seu peito subindo e descendo automaticamente.

— Dessa vez pode confiar em mim, eu nunca mais vou beber. — jurei minha última jura, sem ousar tocá-la, já tinha provocado danos o suficiente.

Lentamente eu me afundei, deixando a exceção se transformar em regra, abrindo espaço para aquela fraqueza se tornar de fato um vício. Ela estava chorando. Minha mulher chorou e mesmo que inconscientemente por minha culpa, eu fiz isso com ela. Ali de alguma forma, minha Sunmi demostrou que sentia, ela está viva. A razão da minha existência ainda vive.

Não faço ideia de quantos exames foram feitos. Segundo um dos orientadores do doutor Kim, uma análise cerebral embasada na técnica de imagem conhecida como FDG-PET, mostrava que a resposta comportamental do paciente em coma é fortemente conectada com o fluxo de energia cerebral. Mostrando que pacientes com metabolismo de glicose abaixo dos 42% da atividade normal pareciam estar completamente inconscientes e talvez nunca mais recuperariam a consciência. Entretanto, aqueles com atividade metabólica cerebral acima deste limite mostraram sinais de consciência parcial, estando ali a esperança de todos os envolvidos para que um dia, mesmo que bem, bem distante, ela possa acordar.

Aquela lágrima foi um indício.

E no final daquele segundo dia Sunmi conseguiu respirar sozinha, sem a ajuda de aparelhos, sem o auxílio de nenhum " bip ", pela primeira vez em longos três anos. 

O relógio no meu pulso dizia que era hora de ir. Se me atrasasse para a reunião Yoongi dessa vez com certeza desistiria de mim, e eu não queria que isso acontecesse de verdade. Com somente mais uma olhada em sua foto de sepultura, percebi o quanto somos parecidos agora que estou mais velho. Os olhos, o formato do nariz e até a boca. Garanti ao meu pai, a Sunmi, ao Universo, a mim mesmo que nossa semelhança a partir de agora ficaria somente na aparência física. 

Eu precisava mudar.

...

Pedir desculpas é um mal necessário. Não sou a melhor pessoa para se conviver nesse mundo, pelo menos não mais, porém, até eu sei que devia me redimir com Hyoyeon.  A primeira e segunda reuniões com os diretores da Kyowo foram uma provação. Fiz de tudo para garanti-los que os compromissos já marcados seriam respeitados, deixando claro que nada mais poderia ser adicionado a minha agenda.

Como seu quadro se estabilizou, Sunmi foi para Gwangju com um prognóstico mais favorável do que até mesmo eu pudesse imaginar, e como tinha mesmo que vir a Seoul, fiquei. A ansiedade por estar longe dela, as vezes se confundia com minha vontade de beber, mas que tipo de homem eu seria se quebrasse a mesma promessa seguidamente e seguidamente? Ela precisava de mim, e mesmo que ainda não possa abrir a boca e falar com todas as palavras, sei que confia em mim.

Não posso decepcioná-la de novo.

  — Aqui. — disse com um sorriso simples ao depositar outra lata de água tônica junto a um copo cheio de rodelas de limão na mesa da cozinha. 

Hyoyeon usava um avental todo colorido, parecia a vontade enquanto separava os últimos ingredientes para o jantar. Por sua vez, Yoongi se mantinha centrado nos tópicos finais da nossa agenda, Chang saiu agora pouco depois de todo os tramites por fim, estarem terminados. Amanhã após a entrevista chata e lotada de sorrisos simulados, com apenas mais uma tarde de autógrafos essa sim com reações verdadeiras por saber que alguém realmente se agrada da minha escrita, poderia enfim retornar para a luz da minha vida. O meu amarelo esfuziante que ainda de olhos fechados emanava luminescência por todos os lados. 

Minha Sunmi.

  — Todos com quem conversei até agora disseram que seu novo livro com certeza vai entrar mais uma vez para a lista da New York Times. — um sorriso gengival que há muito não via se formou em seu rosto. — Você está indo muito bem. — disse com orgulho.

Há quanto tempo alguém não se referia a mim dessa forma? Até mesmo esqueci do quão bom é ter valor, mesmo na boca e concepção de outra pessoa. Sim, eu estava indo bem. Não só pelo lançamento do livro ter sido um sucesso, como pela minha bebida preferida quase ter voltado a ser água tônica e limão. Pouco a pouco, ainda que distante eu enxergava sim uma luz embora bem fraquinha lá no final do meu túnel obscuro.

Mesmo distante, eu a via. 

  — Yoon me disse que você gosta de spaghetti com frutos do mar. — Hyoyeon disse com simpatia, segurando um pano de prato na mão ao mesmo tempo que despachava nossa papelada para longe. — Vamos jantar e depois vocês podem continuar com isso. 

Nossa relação apesar de ter começado da melhor forma não permaneceu assim, e grande parte disso era culpa minha. Tenho que confessar que esses dias confirmei o que tanto não fiz questão de notar, Hyoyeon era uma boa pessoa. Sunmi teria gostado dela, não só por saber que meu amigo não era mais um conquistador barato, mas também porque poderia ler todos os livros que quisesse com antecedência por ser amiga de uma editora famosa. 

 Ao longo dos dias os observei atentamente, dessa vez não com inveja ou cobiça da cumplicidade que partilhavam e sim com afeto, apreço e acima de tudo, amizade. Após minha última bebedeira decidi que não só me livraria do álcool como também tentaria da melhor forma possível voltar a ser pelo menos 50% do que um dia eu fui. Sendo assim, atitudes deveriam ser tomadas, promessas cumpridas, comportamentos mudados e principalmente desculpas pedidas. 

   — Me desculpe.  — pedi com amargor assim que ela foi até o armário pegar os pratos. 

  — Pelo o que?  — Yoongi perguntou confuso.  — Por ter comido todas as minhas azeitonas?  — disse divertido balançando o frasco vazio na minha direção. 

Talvez minhas desculpas pudessem sim englobar o pote de azeitonas, mas não era realmente por isso. Quis me desculpar por todo o tempo em que passei sendo um completo imbecil, rejeitando não só ele como o mundo a minha volta, e até a mim mesmo. Eu não tinha nada, e para mim os outros também não eram absolutamente nada. Deixei assim que momentos importantes na vida das outras pessoas se tornassem irrelevantes, impensáveis, sem valor. 

   — Me desculpe por não ter ido ao seu casamento.  — falei baixo, meio sem graça até com a sua olhada incrédula.  — Sei que não fui uma boa pessoa por tempo demais, quem dirá um bom amigo, mas eu realmente me alegro por você ter encontrado alguém que te faz feliz. 

Sorrir não era algo muito comum no meu dia a dia, mas eu sorri, ao menos fiz o melhor possível para isso. Nunca fomos assim tão sentimentais, ele sempre foi muito sério, e eu o respeitava dessa forma, por isso mesmo me surpreendi quando rapidamente ele deu a volta na mesa e me abraçou com tanta força que eu mal conseguia respirar.

  — Eu senti a sua falta. — confessou mais baixo ainda, porém bem mais firme. 

Sempre confiei nele, e vice-versa, mas em algum momento a confiança que tinha em mim se perdeu, a credibilidade que todos mantinham na minha pessoa se foi, e eu nem podia culpá-los quanto a isso.

Um passo.

Eu só precisava dar um passo de cada vez para voltar a ser pelo menos a sombra de quem eu fui. Retribuindo seu abraço, respondi: 

  — Também senti. 

...

A voz que vinha da TV no noticiário que há uns três dias só comunicava da tal nevasca que afligiria a cidade prendia minha atenção durante o café da manhã. Não posso dizer que minha alimentação esteja as mil maravilhas, e nem vou negar que meu café da manhã de todas as manhãs é torrada com geleia de maçã, afinal, ninguém precisa saber disso.

  — A Sunmi está bem. Eu falei com o doutor ele me deixou muito mais tranquila e até permitiu que eu pintasse as unhas dela. — Jiwoo disse animada.

Ainda que não atendesse todas as chamadas, respondia as necessárias. Precisei de um novo celular pelo tempo que passaria fora de casa, me rendendo assim mais uma vez a tecnologia. O foco do celular mudou, a chamada de vídeo não era das melhores, mas ela era nítida para mim de qualquer forma. Sunmi tinha as unhas pintadas em um tom claro de azul, apesar de amarelo ser a sua cor, ela pintava as unhas de azul dizendo que assim lembrava sempre do céu.

O que eu não daria para admitira-la mais uma vez, enquanto ela mesma admirava as estrelas?

Seu cabelo escuro foi posto de lado, trançado majestosamente em todo o seu comprimento, sem a maioria dos aparelhos no quarto a aparência agora era outra, bem mais leve, refrescante, viva. Olhá-la por aquela tela foi como observá-la não em um sono profundo, mas só em uma leve soneca antes de pôr uma música alta e começar a dançar toda descompensada a minha espera para o jantar. 

  — Eu acabo de lançar um livro e vocês começam a ler o novo da Brittainy C. Cherry? — Jiwoo tentava esconder seu exemplar já avistado atrás da poltrona, ela estava lendo para a minha mulher.  

  — Você está vendo coisas. — sua risada ressoava pelo ambiente, parecia que a leitura fora bem interessante, entretanto, não mais do que me perturbar de 5 em 5 minutos. 

  — Ok. — revirei os olhos ao completar. — Bom, diga a Dahyun que vou ligar só a noite depois do último compromisso. E por favor, parem de me incomodar com essas chamadas de hora em hora, vocês atrasam meu serviço assim. Eu estou bem, de verdade, não se preocupem.  — garanti.

Confiança é um sentimento bem difícil de se ganhar, sei que todos a minha volta temem uma recaída que me faça ficar tão ou pior do que antes. Por esses dias tive insônia, quando conseguia dormir pesadelos, me senti fatigado, minha cabeça doía e fiquei mais nervoso, irritado e agitado que o habitual. Minhas mãos tremiam todos os dias pela manhã, o suor que dominava meu corpo ao amanhecer me lembrava das ressacas provenientes do álcool embora nem uma gota do mesmo tenha estado em contato comigo. 

Não que eu pudesse abrir o jogo, mas os primeiros dias foram terríveis, em nenhum momento pensei que fosse ser fácil, mas me afastar do vício é bem mais complicado do que imaginava. Minha irmã suspirou, no fim concordando em dar um tempo, porém, apesar da sua confirmação só pensava em quantos cacos distribui por aí durante todo esse tempo. Quantos deles não se feriram por minha causa? 

   — Tudo bem, mas se agasalhe direito e tome cuidado com a pista a nevasca vai vir hoje.  — afirmou usando seu tom de irmã mais velha, preocupada e devotada. — Antes de desligar eu quero dizer que a mamãe já me ligou 4x de tão ansiosa com esse almoço. Então, seja bom pra ela, deixe-a ver que está melhorando que você não vai repetir os mesmos erros que ele cometeu. Eu acredito em você Hobi, eu confio em você. — disse convicta.

Eu acredito em você, repeti mentalmente. 

Nosso último encontro ficou para a memória de uma forma não muito agradável. Entrei em contato com minha mãe, trocamos exatamente cinco palavras até que eu dissesse que iria visita-la para uma refeição e desde então, estou mais ansioso. Ainda que lutasse arduamente para ser exatamente como ele, eu não sou o meu pai, e agora, após tomar ciência disso eu iria mostrar a ela. 

  — Só tenho que preencher algumas coisas e retornar outras ligações e vou me encontrar com ela. — reafirmei meus planos decidido a restabelecer o contato com a mulher que me deu a luz e ainda assim, hoje em dia mal conseguia olhar na minha cara. Antes de desligar pedi para virar o celular mais uma vez, tinha que me despedir dela.

  — Hei Sunmi, sou eu. Não se preocupe meu amor, tudo vai dar certo eu não vou decepcioná-la mais uma vez. — em seguida sussurrei. — Eu te amo, logo estarei em casa. 

Logo estaremos juntos. 

...

Durante a chamada de vídeo com Jiwoo não admiti, mas também estava receoso com esse encontro. Estar frente a frente com minha mãe após tudo o que aconteceu da última vez, a forma deplorável como eu estava, o jeito que a tratei, a maneira com que agredi mesmo que verbalmente todos que me cercavam aquele dia não era fácil de se esquecer. 

Implorar por perdão não seria o suficiente para o tanto de preocupação e desgosto que a fiz passar. Ela poderia facilmente me odiar, amaldiçoar o dia em que conheceu meu pai juntamente com o dia do meu nascimento, mas não o fez, pois mesmo que eu tenha sido a pior pessoa do mundo, ainda sou seu filho. 

 No início nossas poucas palavras mostravam que o desconforto era comum em ambos. Após um tempo as palavras se tornaram frases, e as frases finalmente uma conversa e com isso, eu voltei a ser mais uma vez o garoto que nunca deixei de parecer aos seus olhos.

  — Assim que seu compromisso na livraria terminar volte para o hotel e fique seguro. Já começou a nevar e a pista sempre fica escorregadia. — alertou com os olhos vidrados ao ajeitar meu cachecol no tom mais amarelo já existente. — Lembra quando a Sun deu isso a você no Natal?  

Desde que a conheceu minha mãe só se referia a Sunmi como Sun, o que era meio engraçado já que para ela eu era o Sol. 

No nosso primeiro Natal juntos ainda como namorados, ela disse que meu presente era uma surpresa. Quando abri a pequena caixa claro, embrulhada em um papel de presente cheio de flores amarelas, dentro dela encontrei esse cachecol. Assim que pus meus olhos nele por um segundo pensei ter perdido a visão, ele era tão chamativo, tão amarelo, e ao tirá-lo também percebi que suas proporções estavam completamente erradas. 

  — Você gostou? — Sunmi perguntou ansiosa, suas mãos se remexiam sem parar. — Lembra que ficou chateado porque esqueceu o cachecol que sua avó fez lá no Jeju Starlight? Você parecia tão tristinho que pensei que seria legal tricotar um e mesmo que não tenha ficado tão bom quanto o dela, eu só queria que meu Sol ficasse feliz.

Como um cara poderia não se apaixonar por alguém assim?

Fiquei sim assustado com todo aquele amarelo extravagante, qualquer um que o olhasse via nitidamente que estava torto e até com alguns fios saindo para os lados, mas aquele cachecol horroroso foi o melhor presente que eu já tinha ganhado na vida. Ela foi o melhor presente que eu já ganhei na vida.

— Lembro.  

... 

Com a finalização da nossa tão trabalhosa agenda com a Kyowo, Yoongi insistiu que devíamos comemorar. Mas, é claro a base de comida e não de bebida como seria a minha primeira opção. 

Devo confessar que eu mesmo muitas vezes duvidei que daríamos conta, principalmente pela minha cisma com entrevistas por já saber que as perguntas sempre se distanciavam do tema, indo direto para a minha vida pessoal, mas no final, tudo deu certo e agora, eu estava livre. 

  — Nem você mesmo acredita que vou deixar que volte para o hotel sozinho, fugindo de uma refeição saudável para se entupir do resto daquela geleia que eu vi na geladeira, ao invés de jantar como gente grande. — anunciou.

Sem me dar chances ele logo entrou no carro, indo direto para o banco do motorista, tendo a certeza de que assim, eu não poderia escapar. Meu quarto de hotel estava uma bagunça, meus planos eram empurrar tudo de volta na mala, ligar para casa e esperar essa neve importuna dar uma trégua para voltar de uma vez. Agora que meu trabalho estava feito, só pensava em passar um tempo com ela, pegar umas flores bonitas no jardim e notar com meus próprios olhos quão diferente ela parece sem os fios de respiração. 

Revisei mentalmente os palavrões dos quais poderia xingá-lo por além de gerenciar cada copo de líquido que consumi, ter colado em mim mais do que chiclete. Só que aí Hyoyeon surgiu da porta giratória, usando seus rascunhos não revisados como proteção da neve que caía incessantemente e se já o tinha para me perturbar, ela foi só um reforço. Então, com um suspiro desisti da minha noite tranquila e solitária ao aceitar comemorar meu novo lançamento junto com meu velho amigo. 

  — Sinceramente? Eu queria comer no Shrimper Kim, mas todos os restaurantes estão fechados por causa do tempo e sem contar que ficar aqui debaixo do aquecedor é tão atraente. — ela disse com um lápis na mão, uma caneta preta atrás da orelha e um marcador de textos servindo de prendedor de cabelo. 

Yoongi ficou responsável pelo jantar, e a mulher trabalhava em seu mais novo projeto agora que conseguiu se ver livre da minha bagunça.  

  — Sinto muito, mas você vai ter que se contentar com a minha comida. — o outro respondeu ofendido. 

Mais um vidro de azeitonas chegava ao fim, a TV estava ligada no jogo e na minha opinião só faltava ela aqui comigo para essa noite ser de fato, agradável para mim. Sentado naquela bancada conferi a hora reparando que mesmo tendo feito várias coisas em apenas um dia, ainda estava bem cedo. A essa hora o drama já tinha terminado, quase pude imaginar minha babá contando os últimos acontecimentos a Sunmi, ou Jiwoo retomando a leitura após Yewon ter servido a refeição, ou talvez, ela estivesse só sonhando. 

Será que ela sonha?

Se sonha ou não, algumas noites quando os pesadelos pelo álcool, ou a falta deste não me assolam, eu sonho com ela. 

Conforme o tempo passava a nevasca foi aumentando, se não fosse embora agora eu teria que andar com um saco de sal em meio a neve até consegui encontrar meu carro soterrado debaixo dela. 

  — Por que você não dorme aqui? O quarto de hóspedes está limpo e além do frio a neve já tomou quase toda a rua. — Yoongi ofereceu chegando ao meu lado na surdina. — Se quiser podemos até fazer uma festinha do pijama, Hyo te empresta algum dela.  

Eu ri, e mesmo que a risada tenha saído sem nenhum som, eu realmente ri. 

  — Que tentador! Mas, tenho que devolver o carro amanhã bem cedo e ainda preciso arrumar minhas coisas pra poder ir embora. — avisei ao ir em direção a porta.  

  — Bom, não custava nada tentar. — deu de ombros, mas sua olhada deixava claro que sabia que eu não suportava mais ficar um minuto em Seoul, enquanto minha mulher estava não sozinha, mas sem mim em Gwangju. 

Assim que pus o celular no bolso do casaco percebi que ainda o mantinha no silencioso desde a hora que saímos da livraria, perdendo assim 3 chamadas de Jiwoo, e 2 de Dahyun. As ligações da primeira não me chamaram atenção, minha irmã era outra que não saia do meu pé, mas Dahyun? As enfermeiras nunca me ligavam diretamente e a essa hora Yangmi já deveria ter trocado de plantão. 

  — Dahyun? Qual o problema?  

  — Senhor Jung?— respondeu exasperada do outro lado da linha. — Eu preciso falar urgente, é a sua esposa, a dona Sunmi.

Tum tum.

Tum tum.

Tum tum.

— Sunmi?— minha mão se apoiou na parede, logo meu corpo foi junto quando o ar começou a me faltar. — O que aconteceu? Ela estava bem. O médico disse que o quadro era instável, sem risco, que os medicamentos tinham dado resultado!

Percebendo o rumo daquela conversa, Yoongi tratou te se manter atento, logo a outra também se aproximou preocupada, mas nem em meus pensamentos mais malucos eu estava preparado para o que veria a seguir.

— Não é isso, ela está bem senhor Jung — disse apressada antes de respirar fundo. —, sua esposa acordou.

O que?

— O que?— minha voz foi como um pequeno sopro.

Meus batimentos se tornaram tão rápidos que isso começou a fazer minha cabeça pulsar, meu corpo tremia de encontro a parede.

  — Hoseok? O que foi? Hoseok? — Yoongi me segurou pelos ombros gritando.

— Ela acordou, ela finalmente acordou. — lágrimas rolaram pela minha face, me senti febril, anestesiado, completamente entorpecido. 

Tudo o que eu conseguia encontrar foi jogado dentro da mala, minhas mãos ainda tremulas faziam um péssimo trabalho. Yoongi insistiu em vir comigo, eu precisava pagar o hotel e adiantar o voo de amanhã para hoje, mas a maldita nevasca fez todos os pousos e decolagens serem cancelados. 

— Eu já disse isso a ele, mas não adianta Jiwoo ele está descontrolado. — mantendo o celular no ouvido, ele andava em círculos no pequeno espaço restante. 

  — Jiwoo eu já me decidi. — peguei o celular ao mesmo tempo que fechava a porta do quarto.

Puxando o casaco para cima quase congelei instantaneamente ao pisar fora do hotel, mas como poderia ficar aqui se ela tinha acordado? Minha mulher saiu do coma, minha Sunmi voltou para mim. 

— Hoseok escute o que eu estou falando, ela ainda está desorientada. — confessou tão agitada quanto a situação exigia. — Amanhã a tarde assim que o Eunwoo voltar de Ilsan ele vai pedir o jato da empresa e vocês vem direto pra cá. O doutor Kim também está vindo assim que amanhecer, então, por favor, só não venha agora, a pista está escorregadia, Seoul toda está em alerta.

Eu não posso. 

Desliguei a chamada sem me importar com mais nada, nem com o carro alugado que levaria para outra cidade, depois Chang poderia resolver isso, eu só não podia mais ficar aqui. 

  — Sua irmã tem razão, não faça isso. — pediu segurando a porta do carro antes que eu pudesse fechá-la. — Espere só mais um pouco. Podemos ir todos juntos amanhã, a Hyoyeon vai poder conhecer a Sunmi, sua mãe também já confirmou. Está escuro demais, nevando demais, por favor. 

Eu entendia, mas só pude negar, não esperaria mais um segundo.

  — Já esperei por três anos, você não acha que é tempo suficiente? Eu preciso dela Yoongi. — antes de bater a porta do carro e sair o deixando ser tomado pela neve, finalizei. — Ela é a minha mulher. 

...

As luzes dos postes piscavam, as pistas vazias devido a forte nevasca, o para-brisas trabalhando sem parar, o toque do celular ininterrupto misturados a minha ansiedade, descrença e medo.

Ela está viva, ela sempre esteve viva.

Há quem eu deveria agradecer pelo meu único sonho ter se tornado real? A Deus? Aquela estrela cadente? Minha Sunmi agora fazia parte daquela porcentagem tão ínfima, mas não nula, ela é a prova de que aqueles 10% ainda contam. 

Antes, uma barreira invisível nos mantinha separados e agora a distância é a grande vilã que impede nosso reencontro, que atrapalha o momento mais aguardado, esperado, almejado de todos. Lembranças, memórias, o som da sua voz, a cor amendoada dos seus olhos, o jeito que ela sorria, o dengo que fazia todo dia de manhã, eu mal conseguia controlar o que sentia.

Estações de rádio, GPS, nada era capaz de me dar uma rota descente para alcançar o meu destino. Na talvez milésima vez que o celular tocou, prestes a deixar mesmo com todas as dificuldades da estrada Seoul, o nome de Jiwoo apareceu na tela. 

  — Ela quer falar com você. — avisou embora contrariada pela forma que eu agia. 

O ar escapou em uma lufada, mesmo em meio ao clima congelante, eu suava. Minha mão se apertou em volta do volante, a outra tentava sem sucesso prender o celular no suporte do carro, pois, mesmo sentado, todo o meu corpo tremia. 

  — S-Sunmi? 

O último pensamento, a última palavra dita pelos meus lábios antes de perder o controle do carro. Os freios esqueceram sua função, os pneus foram deslizando muito rápido pelo asfalto, minhas mãos se agarraram ao volante, enquanto meu mundo girava até um baque seco que não feriu somente meus ouvidos acabar com a esperança que tinha sido plantada em mim há tão pouco tempo.

Acabar com tudo. 


Notas Finais




Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...