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História A Lenda de Dunstad - Capítulo 22


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Capítulo 22 - Reflexões e decisões na chuva forte


Fanfic / Fanfiction A Lenda de Dunstad - Capítulo 22 - Reflexões e decisões na chuva forte


Tarso parou de frente à tenda de orações ornamentada com idólos pendurados, e a olhou parado por bons minutos, pensando nas decisões que havia tomado. Achava que enviar a águia Myrmir era uma boa ideia, mas mal aplicada. Deveria ter enviado outro destacamento junto dela, apesar de confiar nas habilidades de seu irmão e dos outros, pensava. Aquela ainda não era uma invasão, e sim uma simples coleta de informações seguida da eliminação de um alvo perigoso.
O que realmente passava por sua cabeça eram os motivos de fazer tudo o que fez. A vontade do Deus-Sol era mesmo um bom motivo? Seus soldados mantinham a mesma fé que ele? E se eles simplesmente desertassem por desinteresse em seus motivos? Apesar da mente conturbada — Eu já estou aqui, e agora o farei. — era o que pensava. E estava mais decidido do que nunca. O ataque aconteceria assim que Ragnar voltasse.
Algum tempo após a flagelação necrótica de Raganvad, chovia forte na praia, e o acampamento nórdico estava no epicentro da chuva. Aydahar e boa parte dos homens se abrigaram nas tendas menores usadas para guardar suprimentos, enquanto Tarso e Melanna sentaram-se debaixo das passarelas da paliçada, observando a chuva.
— Aqui sempre chove assim? - Tarso perguntou à elfa com um tom abrandado, diferenciado de seu habitual discurso enérgico. Só falava assim com ela, pensava.
— Apenas nos períodos de chuva, como esse. Às vezes, durante eles, algumas partes da planície alagam e acabam servindo de esconderijo para muitos bandidos de estrada.
— Engraçado. Pensei que entre os elfos não haviam bandidos comuns. Apenas dragões e grifos.
— Não seja rídiculo.
— Sabe, antes de vir para Kraggstad, eu pensava que esse lugar não existia. Que era um sonho distante, fruto da imaginação do meu povo. E agora que aqui cheguei, estou lutando para realizar algo no qual sempre acreditei: meus sonhos.
— Você sabe que eu estou com você. — Melanna diz, ao virar-se na direção de Tarso — Mas você não se importa se seus sonhos destruírem os de outros?
— Eu estou disposto a fazer de tudo para realizar meu sonho. E eu estou decidido.
— Tarso... só não vá se precipitar.
— Eu não irei. Irei fazer o que me foi mandado por Kaloshniik.
— Você... não odeia nosso povo, não é?
— Eu não os odeio... mas as gerações futuras acreditarão que sim, como pretexto para guerras e rebeliões. Quando eu morrer, diga aos elfos que não foi nada pessoal.
— Tarso... saiba que estarei sempre com você.
— Estaremos unidos para a eternidade. Seu nome estará no meu coração quando eu estiver no Salão do Descanso Eterno.
O líder nórdico levantou-se rapidamente, e ao sentir a chuva em seus ombros apressou o passo, dirigindo-se às tendas nas quais se encontravam a maioria de suas tropas, escondidas da chuvarada que fazia subir cheiro forte de gramado molhado.
— Estejam preparados. — Disse com a voz firme e forte de sempre — Os preparativos para o ataque vão começar assim que Ragnar e seu grupo voltarem.
Aydahar levantou a mão com calma, esperando a permissão de Tarso para falar.
— Pode falar, Aydahar.
— Como tomou essa decisão tão repentinamente?
— Não questione minhas decisões. Venha falar comigo em minha tenda se quiser entender melhor. Qualquer um aqui que tenha interesse em saber os motivos do ataque acontecer em breve, vá junto á Aydahar.
E naquele momento, uma multidão de soldados, a grande maioria dos que estavam ali, levantaram-se. Tarso quase não acreditou que seus homens estavam se importando com os motivos pessoais do ataque, quando um de seus soldados começou a falar:
— Nós acompanhamos você até aqui comandante. Gostaríamos de compartilhar com você os motivos que você tem. Afinal, somos todos uma família, certo? Não foi o que nos foi dito quando nos juntamos em Sovntuld?
Hrothgar era um dos membros fundadores do bando de Tarso, junto de Ynntgrad e Magnus. Foi exilado do principado em que exercia suserania num golpe de estado, e tornou-se um caçador das tundras. Juntou-se a Tarso meses antes da viagem.
— Hrothgar — Tarso pôs as mãos na saída da tenda, plácido — Você tem razão. Todos vocês tem. Vamos cumprir nossos objetivos.
Após um longo discurso que inflamou os corações dos nórdicos com a vontade necessária para ir a luta, Tarso e todos aguardaram a chegada de Ragnar e seus companheiros. As luzes das lamparinas e o sibilar dos grilos ao longe cantavam uma calma melodia de fúria na noite surda, aguardando para alcançar o clímax da sinfonia de guerra e horrror que viria.
Ynntgrad e Magnus discutiam a respeito dos elfos, sentados em frente à paliçada que levava para a saída do acampamento, agora coberta por uma grande manta vermelha ostentando um dragão negro de duas cabeças, que Tarso mandara bordar, brasão de armas da família da mãe do general, este que era apresentado com orgulho. Adorava o sobrenome da mãe, "Syndrahoth", e dizia que queria colocar esse nome em algo que conquistasse um dia. Ynntgrad e Magnus discutiam exatamente sobre isso.
— E se ele chamar a torre élfica de Syndrahoth quando a conquistarmos? — Ynntgrad questionou, como se aquela possibilidade fosse algo ruim.
— Não será má ideia. É um ótimo nome, salvo o fato de ele nunca ter me dito o significado.
— A mãe dele falava um dos dialetos antigos dos povos do Lago Heareck. Provavelmente está é a origem do nome. 
— Conheci uma vez um caçador que falava um dos dialetos dos povos do lago. Era reservado e estranho, como se nunca houvesse perdido a inocência da infância. Caçava para sobreviver, e não por fama e glória. Era uma ótima pessoa, realmente.
— E esse caçador por acaso é o mesmo da história do ataque de lobo? - Ynntgrad indaga ironicamente, com uma expressão jocosa.
— Sim, ele mesmo — Magnus responde visualmente decepcionado, com os dedos entre seus colares — É uma pena que tenha morrido de maneira tão estúpida.
— Que Kaloshniik o tenha.
Aydahar olhava, do topo de uma das torres de observação da paliçada, Vallynost, ao longe. Seus olhos esverdeados e cansados dilatavam ao pensar em livrar-se da vida à qual estava atado. Servindo lordes élficos arrogantes e cumprindo ordens mesquinhas. Pensava também deixar Tarso de lado, um dia, ou quando a conquista da torre fosse sucessiva. Queria conhecer todo o continente, almejava ter experiência como todo elfo aventureiro recém amadurecido; estes que não envelheciam muito mais tarde que os humanos, nos meados dos seus dezenove, dezoito anos de idade. Aydahar contava bem mais que isso, mas não exercia mentalidade forte como a de seus semelhantes, e mesmo habilidoso com o arco e com as lâminas queria algo mais. Pensava que talvez lutar uma guerra fosse algo que lhe faltasse; sabia que em breve esse questionamento seria posto á prova. 
Faltavam 22 horas para o ataque, naquele momento, quando Ragnar e o jovem Ruvar encontraram, numa grande poça de água da chuva em meio à relva, restos da roupagem do batedor Raganvad. Um cheiro pútrido vinha dali, escondido por entre os arbustos e gramas altas. O cheiro da chuva não era mais distinguível no ar. Os sentidos de ambos afloraram. 



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