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História A Lenda de Dunstad - Capítulo 25


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Capítulo 25 - Prelúdio do destino decisivo


Fanfic / Fanfiction A Lenda de Dunstad - Capítulo 25 - Prelúdio do destino decisivo


Era cedo da noite e a lua despontava, insólita, entre suas tímidas nuvens que iam e viam. A marcha trovejante da companhia nórdica ensurdecia os demais sons ambientes; apenas se ouvia o choque do ferro chapeado contra o chão. Discorde como soava, lembrava mais ou menos a marcha de uma cavalaria — ou até quem sabe de uma borrasca infernal — cruzando as colinas e planícies élficas. As dunas côncavas da pradaria impediam que o som chegasse por completo em Vallynost, de qualquer forma; os elfos ainda não garantiriam seu conhecimento a respeito da marcha.
Na linha de frente, comandando a horda do norte, Tarso e Ynntgrad seguiam determinados, com seus machados e armaduras de ferro fundido. Ynntgrad dispunha de uma armadura enferrujada e amassada, chapeada de ferro em cada uma de suas bordas, veterana de inúmeras batalhas, porém não menos resistente que quaisquer outras dali. Em suas mãos, repousava enorme machado de dois gumes, polido e tratado com a melhor estima que um ferreiro poderia ter — E Gunmir, o ferreiro da companhia, realmente tinha grande estima pelas armas que forjava — diante de uma arma dilacerante como aquela. Tarso, mais equipado que outrora, carregava uma pesada cota de malha por baixo de longas placas divididas de aço, estas ostentando inúmeros filetes pares de guizos dourados, concedendo um ar imponente ao comandante. Carregava consigo nada mais que uma espada média, afiada como tal que cortava apenas de olhá-la, e um escudo médio arredondado com um pequeno domo côncavo de ferro no centro — um escudo muito pequeno expõe linhas adicionais de ataque que um oponente pode explorar, enquanto um escudo muito grande diminui as respostas defensivas e esgota o lutador desnecessariamente — opinava consigo mesmo mentalmente o comandante. Seguiam lentos, quase parando, os cerca de cem, cento e vinte soldados nórdicos, para dar tempo à Aydahar que se aproximava dos portões da torre, naquele momento.
Observando banalmente os longos portões de aço platinado, o elfo parara de frente aos dois guardas heráldicos, plácido. Aproximou-se calmamente, dirigindo-se logo ao guarda que o observava com um olhar afiado:
— Aydahar Tel'yam, irmão elfo. Trago informações importantes sobre o paradeiro dos nórdicos acampados na costa.
O guarda, interessado, mal esperou Aydahar terminar a frase para indagar:
— Esteve infiltrado entre os bárbaros, dhoran? Saiba que este não é assunto para brincadeiras; o comandante Enyalis, filho mais velho do Odashan, sumiu enquanto os procurava.
— Eu tenho uma carta que explica tudo. É perigoso falarmos agora, de certo. Preciso levar a informação diretamente ao Odashan.
— Certo. Que os Deuses estejam com você, e para o Mundo Inferior com esses nórdicos!
Aydahar passou por entre os guardas quase se esgueirando por entre suas armaduras, pondo suas mãos em seguida por entre os grossos portões e os empurrando como sempre fizera ao longo das décadas. Num movimento completamente casual, passou por entre a multidão do salão principal, entre os magos e lordes notórios de Vallynost, pelas janelas e vitrais adornadados, subidas e entradas e corredores labirinticos da torre até chegar no salão de portas carmesim, aromatizado, cercado pela melodia de liras e alaúdes do terceiro andar; a antiga sala de estudos do Keshan Armion, agora ocupada pelo Odashan Tharmon.
Abrindo as grandes portas levemente, entreolhando a sala com cuidado antes de adentrar, Aydahar deu um passo a frente, inicialmente se deparando com uma grande escrivaninha de tilia com pés de grifo e pontas de gárgula, finíssima  como qualquer outra mobília da sala; seguiu o doce aroma de jasmins até o outro lado do cômodo, passando por orquídeas e variadas flores que exalavam odores tão diferenciados que lhe causavam certa perturbação olfativa, chegando finalmente ao canto da sala, onde encontrou um grande sofá de canto anil, dividindo-se entre as duas extremidades do canto da parede. Despreocupadamente largado nele, repousava Tharmon, de traços fortes e braços torneados, fisicamente diferente da grande maioria dos elfos de Vallynost.
— Odashan — Aydahar ajoelhou-se diante do novo general — Venho entregar-lhe uma mensagem dos nórdicos.
— Keshan — Tharmon o interrompeu — Keshan Tharmon, meu caro. Não foi realizada ainda a cerimônia de consagração do título, claro, mas sou Keshan a partir de agora. A que devo a sua presença mesmo, dhoran?
— Uma mensagem dos vaktash da costa, senhor. Estive infiltrado, se me permite dizer, por alguns dias em seu acampamento. Tenho algumas informações que poderiam ser úteis para auxiliar na aniquilação desses bárbaros.
Tharmon, sem perder a postura despreocupada, levantou a mão direita na direção de Aydahar, enquanto com a esquerda alcançou um cálice de vinho disposto na mesa de canto próxima ao sofá. Aydahar entregou-lhe a carta e cruzou os braços.
— Isso é verdade? Não está mentindo para mim, não é, dhoran?
— Não, senhor. Analisei ser mais inteligente entregar a carta em suas mãos do que lhe falar o contéudo, pois algum ouvido alheio poderia a ouvir.
— Interessante... muito interessante isso que você tem aqui. Atacaremos esses vaktash assim que eu mobilizar todas as tropas.
— Sim, senhor. Tudo por Vallynost.
— Eu quero que você leve um aviso aos humanos, também.
— Sim?
— Diga a eles que de sua incursão não sobrará nada. Nem mesmo o pó dos ossos desses vaktash deixaremos passar.
— Informarei a eles, senhor. Por motivos de segurança, me afastarei de Vallynost por algumas horas. Voltarei assim que receber a notícia do massacre.
— Faça como quiser. Suas informações me foram muito valiosas.
Do lado de fora de Vallynost, a companhia nórdica performava a dança da formação indicada por seus comandantes; homens iam e viam para cada lado, tomando seus devidos postos. Os escaramuçadores se dispunham em todas as brechas da formação, equipados dos melhores arcos longos e curtos que a mão artesanal do norte conhecia, enquanto a infantaria pesada, equipada com as mais grossas cotas de malha e placas de ferro, permanecia em fileira no intermédio entre as duas linhas de atiradores, formando uma grande parede de escudos coloridos diante da torre élfica, aguardando ansiosamente a volta de Aydahar. As três posições de guerreiros — recrutas, veteranos e comandantes — formavam três respectivas linhas de trás para a frente, garantindo grande força defensiva às tropas, além de proteção ideal aos atiradores das linhas mais baixas.
O coração de cada homem acelerou quando Aydahar voltou, observando com firmeza cada nórdico que o observava de volta com semelhante fulgor no olhar. Podiam ser observados ali rostos despretensiosos, apreensivos, assustados, diabolicamente felizes, entre uma pletora de outras mil facetas camufladas, aguardando por uma certeza de qualquer coisa que fosse: morte ou glória, derrota ou vitória. Nenhuma dessas se concretizara até aquele dado momento.
— Tarso — Aydahar parara bem ao lado do líder, em semelhante posição de imponência, determinado como nunca antes fora visto — Lutarei com vocês hoje.
— Você fará? — Com o olhar tão focado nos portões da torre que suas palavras quase se dissiparam para qualquer sentido que os ventos a levassem, o nórdico indagara ao elfo.
— Farei — Eu não poderia deixar de presenciar uma batalha como esta.
Tarso sabia que a refrega que se seguiria seria um tudo ou nada. O fim da invasão nórdica, ou a consolidação dela. O início de sua glória, ou a total desvanecência do seu nome dos registros da história nortenha. A expansão de sua fé no Deus-Sol, ou o início de uma era de trevas eterna para sua crença. Tudo dependia de como corresse aquela batalha aclamada.
 


Notas Finais


O vocábulo 'dhoran' no dialeto élfico de Vallynost tem um sentido semelhante a 'camarada' ou 'parceiro' em português.


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