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História A Little Piece of Heaven - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Oi, meus amores. Espero que estejam todos se cuidando e seguindo todas as orientações para preservarem não só a saúde de vocês, mas a de outros.
Enfim.
Gostaria de agradecer a todos que leram, favoritaram e comentaram no prólogo que postei há algum tempo. Fiquei muito fez em saber que deram uma chance para ALPH, de verdade.
Boa leitura! <3

AVISO: Palavras de baixo calão e violência.

Capítulo 2 - 01: A Church With No God.


FIRST 

A CHURCH WITH NO GOD

(trad. uma igreja sem deus)

by junobowie

 

Chanyeol não acreditou que Sehun fosse ingênuo àquele ponto. Mas, obviamente, não hesitou em tomar impulso quando o arqueiro ofereceu-se como alicerce para que saísse do buraco. Fincou as mãos na terra e, com a ajuda do empurrão que recebeu, voltou à superfície e respirou o ar nem um pouco puro. Era um momento propício demais para uma fuga e que fosse para inferno o moreno arrogante. 

— Porra. — Sehun parecia finalmente ter notado a besteira que acabara de fazer, fechando os olhos e respirando fundo. — Porra. Eu sou um imbecil. — concluiu o pensamento, rindo sem humor. 

— Sim, você é. — Chanyeol concordou. — Mas eu não sou o tipo de pessoa que deixa outra para virar comida. Não mesmo. — disse sério, estendendo o braço para o arqueiro, que não perdeu tempo em agarrá-lo.

— Somos muito diferentes, Park. — Seu olhos esbanjaram sarcasmo e incredulidade. 

O mais alto tentou não pensar demais nos significados daquela óbvia constatação, dando de ombros e fingindo uma indiferença que não existia. Sehun puxou a alça que prendia a besta em seu corpo, trocando-a do ombro direito para o esquerdo. Assim que o fez, ajeitou a postura e encarou o rosto do Park, completamente perdido. Não fazia a mínima ideia do que fazer pela primeira vez desde que a merda do mundo fora para o ralo — por mais absurdo que isso pareça.

— Vem comigo, precisamos chegar na fronteira do Sul antes de anoitecer. — Virou-se, dando alguns passos na direção que julgou correta. 

— Olha, escuta bem, Sehun. — A voz de Chanyeol soou nitidamente estressada. — Não sou um cuzão para te deixar pra morrer, mas também não sou completo imbecil sem noção para continuar com você. — explicitou seus pensamentos, irritado. 

— E o que te faz pensar que isso foi a porra de um convite? — Um riso seco escapou após a indagação grosseira. 

— E o que te faz pensar que vou obedecer se não tenho nada que me force a isso? 

Ótimo. — Riu sarcástico. — Vou dar um motivo para te forçar a me obedecer, princesa. 

O impacto forte do punho de Sehun no rosto cansado de Chanyeol foi rápido e certeiro, sem margem para erros. O Park cambaleou alguns passos para trás desnorteado, como se ainda estivesse processando o que havia acabado de acontecer. Quando deu-se conta, outro golpe foi desferido direto na boca de seu estômago e, porra, se tivesse comido alguma coisa teria vomitando na hora. Seu corpo parecia tremer e fraquejar a cada soco que recebia — estes que tornavam-se cada vez mais precisos e dolorosos.

Chanyeol, ainda que estivesse morrendo de cansaço e com o corpo inteiro latejando, ficou tão puto com a ignorância e atitude animalesca do arqueiro — que havia acabado de salvar, aliás —, que usou o resto de sua força para segurar o punho de Sehun e torcê-lo. Seria mentira se dissesse que não sentiu certa satisfação ao ouvi-lo gritar. Encarou-o tentando reproduzir o mesmo ódio que os olhos dele emitiam. 

— Eu detesto isso, mas pelo que pude ver, você age como um animal faminto, Sehun — respirou fundo, arrumando a postura. — Terei de fazer o mesmo. 

O selvagem não respondeu, apenas jogou as coisas que carregava no chão antes de partir para cima do Park. Seria uma longa "conversa". 

 

.xxx.

 

— Conseguiram se comunicar com o Park? — Seulgi questionou pela quarta vez seguida. 

— Não, senhora. — Yifan respondeu, engolindo seco. — Procurei até mesmo nos aposentos do chefe, mas não encontrei nada que pudesse dar alguma pista sobre um possível desvio de rota durante a busca. — Suspirou, sentando-se na poltrona de frente à comandante.

Kang Seulgi era vice-governadora da civilização, que tanto se expandia, denominada Atena. Responsável por assumir o controle quando o líder principal, Park Chanyeol, deixava o local para fazer parcerias ou acordos com as outras organizações. No entanto, diferente de todas as outras vezes, Chanyeol havia saído para realizar uma tarefa que, aos olhos dos cidadãos de Atena, não era sua obrigação. Obviamente, o Park discordava completamente. 

— Eu avisei que era a porra de uma ideia péssima, caralho. — Do Kyungsoo adentrou a sala de negócios, bufando e chamando a atenção de todos os presentes. — A enfermaria continua lotada e mais pessoas estão ficando doentes. Não podemos esperar mais, Kang. — explicou, sem um pingo de hesitação no olhar. 

— Kyungsoo… — Yifan tentou acalmar a situação, mas foi interrompido. 

— Eu vou liderar uma equipe de buscas. — Kyungsoo voltou a se pronunciar. — Vou precisar de no máximo dois caçadores e um dos nossos farmacêuticos. 

— Mas senhor, você é o nosso único farmacêutico. — Yifan disse, confuso.

— Exatamente. Só precisarei de duas pessoas. — Sorriu orgulhoso. 

Seulgi pareceu ponderar, andando de um lado para o outro, mesmo sabendo que não tinha escolha. O Conselho estava começando a exigir explicações sobre a demora da chegada dos medicamentos para os doentes, além da ausência daquele que diziam ser o verdadeiro líder. Precisava tomar uma decisão logo.

— Leve cinco de nossos aprendizes. São mais jovens e adeptos à rotina pesada, será mais fácil encontrar Chanyeol com eles. — Seulgi sugeriu, ainda que o tom de sua fala houvesse soado como uma ordem.

— Quem disse que estamos indo buscar pelo idiota do Chanyeol, Kang? — Kyungsoo questionou, confuso. — A equipe que estou sugerindo é para a busca de medicamentos, que são essenciais, diferente do burro do Park. — Riu sem humor, cruzando os braços. 

— Kyungsoo, o Conselho está a um passo de fazer um abaixo-assinado para me tirar do comando. Se o Chanyeol não aparecer, Atena vai se tornar uma bagunça completa! — exclamou, tão nervosa que a voz tremia. Sentou-se, pois jurou que cairia de nervoso se permanecesse em pé. 

— Porra, Seulgi, estamos no fim de mundo e você ainda não sabe como colocar esse Conselho machista pra dormir? Por favor, poupe-me. — Do riu, descruzando os braços e apoiando-se na mesa em que a Kang estava. — Mostra para esses idiotas que Atena, sem o Park e completamente desestabilizada, não é a merda de uma democracia. Não mais. É monarquia e você é nossa maldita monarca. Fim de papo. Isso vai segurá-los por um tempo. E, durante esse período, é melhor Chanyeol dar um jeito de aparecer, de preferência, vivo. Por ora, nossa prioridade é zelar pela saúde e conseguir os remédios. 

— Tudo bem… — A governadora suspirou, derrotada. — Mas você pode ao menos checar a farmácia onde Chanyeol disse que iria? Por favor. — pediu, preocupada.

Contrariado, Kyungsoo apenas assentiu em silêncio antes de deixar o recinto, determinado a dar uns bons sopapos no Park quando o encontrasse. Moleque petulante, pensou o Do antes de continuar seu caminho até a sala de armas.

 

.xxx.

 

Sehun estava tão cansado que poderia morrer ali mesmo, caído no chão e com o canto da boca destruído. Concluiu que Park Chanyeol sabia usar os punhos bem para caralho e nem parecia um merdinha emotivo quando estava socando a cara de alguém. A sorte do Oh era que tinha uma certa experiência no quesito violência e conseguiu desviar de alguns golpes que, se tivessem o acertado, estaria desmaiado, com toda certeza. 

Ainda com o corpo dolorido, o arqueiro levantou-se, pegou as coisas que havia jogado no chão e ajeitou-as de volta nas costas, encarando Chanyeol com o mesmo olhar arrogante de sempre. Era sua marca, afinal.

— Levanta, porra. — Chutou-o de leve na coxa, recebendo uma encarada raivosa. — Daqui a pouco vai escurecer, precisamos encontrar algum lugar para passar a noite. Amanhã partimos rumo ao Sul. — O rosto de Chanyeol se contorceu em desgosto ao ouvir aquelas palavras de novo.

— Vou ter que foder com o outro lado da sua boca para entender que eu não vou com você? — O duplo sentido não existia, mas foi impossível para Chanyeol não se sentir constrangido quando Sehun arqueou uma sobrancelha. — N-Não foi isso que eu quis dizer. — gaguejou.

— Que graça, vai ficar vermelho também, princesa

Chanyeol realmente cogitou a possibilidade de socar Oh Sehun de novo, mas grunhidos suspeitos fizeram-o mudar de ideia. 

Começaram a caminhar rapidamente entre as árvores da mata fechada, imersos em um silêncio desconfortável. O céu começava a escurecer e, com isso, aumentava a preocupação do arqueiro, que enxergava muito mal à noite; sentia-se praticamente cego, na verdade. Não sabia se era algum problema em sua visão ou se as noites eram muito escuras por natureza. Nunca enxergava as estrelas que Baekhyun apontava, também.

— Por que eu? — A pergunta soou vaga, então Chanyeol dispôs-se a repeti-la de uma forma diferente. — Por que você e aquele baixinho esquisito me sequestraram? — Encarou o perfil de Sehun, notando o maxilar travado dele.

— Não falo sobre o negócio dos outros, Park. — respondeu-o, aumentando o ritmo da caminhada. 

— Se não é o seu negócio, por que está participando dele? — voltou a questionar, irritado e confuso na mesma proporção. Apressou-se ao notar que a distância entre si e Sehun aumentara.

— Cala a boca — Sehun ordenou, parando bruscamente. 

— Eu quero entender qual o seu interesse em tudo isso. Não faria parte se não quisesse e não iria querer se não tivesse alguma vantagem individual. Certo? — Chanyeol continuou falando, ignorando a ordem do moreno.

— Eu disse pra calar a porra da boca, Park. — Desta vez, Sehun sussurrou, ainda mais irritado. 

— Não ligo para o que você disse- 

Um grunhido alto interrompeu Chanyeol que, por reflexo, afastou-se de Sehun. A escuridão da noite já se fazia presente, portanto, o arqueiro não notou a silhueta contorcida tão próxima de si, dando-se conta apenas quando sentiu o aperto da mordida em seu ombro. 

Chanyeol não acreditou quando ouviu o moreno gritar, entrando em desespero automaticamente. Sentiu seus órgãos se comprimindo dentro do próprio corpo e um gosto amargo tomar conta da ponta de sua língua. Um aperto no peito, seguido do coração disparado. Sempre surtava em momentos como aquele, entrando num estado de choque. Sehun ainda tentava empurrar o caminhante que continuava pressionando seu ombro com os dentes podres, grunhindo de desespero enquanto lutava para livrar-se do morto-vivo e arrancar o punhal que guardava no coturno direito.

Quando o arqueiro caiu no chão com o zumbi, Chanyeol pareceu sair de seu estado letárgico, correndo até os dois e arrancando o errante de cima do Oh, pressionando-o contra uma das árvores. O monstro remexia-se e grunhia, faminto. Enojado com a carne podre, o Park tomou coragem e respirou fundo antes de socar o crânio apodrecido até que fosse esmagado e o sangue escuro escorresse entre seus dedos.

— Porra, que nojo! — Chanyeol praguejou, soltando o cadáver e olhando para as próprias mãos sujas. 

O silêncio estendeu-se por tempo o suficiente para que Chanyeol começasse a se preocupar com o selvagem machucado. Encarou-o com o olhar apreensivo, notando que ele já estava sentado, arrancando a camiseta grossa de manga longa que vestia. Não disse nada, apesar de sentir que precisava. Ele estava mordido e não havia muito o que se fazer, visto que amputação estava fora de cogitação na situação em que estavam. 

— Eu sinto muito. — Foi sincero, apesar de tudo. Aproximou-se do selvagem, ficando frente a frente.

— Pelo quê? — Sehun sorriu, tirando a proteção que usava sob as roupas, exibindo o ombro intacto, apesar de vermelho devido à pressão exercida. — Não sou burro, Park. — Tentou segurar uma risadinha quando a expressão de Chanyeol passou de preocupada para incrédula. 

— Eu deveria ter deixado por mais tempo — provocou. — Quem sabe essa sua proteção não fosse ultrapassada…

— Nem se você quisesse, princesa

Chanyeol odiava ser chamado daquela maneira, sem dúvidas. Ainda assim, tentou não deixar seus instintos primitivos e patéticos tomarem conta de si enquanto observava as costas largas, já viradas para si, cheias de cicatrizes e uma tatuagem intrigante. 

Caminharam em silêncio por longos minutos até visualizarem, de longe, uma construção decente o bastante para passarem a noite. Chanyeol viu-a primeiro, na verdade; a visão de Sehun estava uma verdadeira merda naquele breu. Apressaram-se e precisaram pular uma cerca malfeita para entrarem no terreno. Sehun ganhou três cortes no peitoral graças ao arame enferrujado.  

Não haviam caminhantes ao redor, o que tornava o lugar um tanto suspeito. Quando viram-a de perto, os rapazes perceberam que a construção era, na verdade, uma igreja católica. Uma cruz de madeira grande e uma placa um tanto apagada comprovaram o fato — além de algumas esculturas de gesso quebradas espalhadas pelo chão. Chanyeol não hesitou em se aproximar da entrada, porém fora parado pelo arqueiro.

— Espera — disse em um tom de voz baixo, a mão ainda parada no ombro de Chanyeol. — Sem zumbis, cercada e com coisas jogadas em volta… Esse lugar não está abandonado. —  concluiu. 

— Sehun, estamos no meio do nada, ninguém sobreviveria aqui. Não tem nem um lago por perto! — Chanyeol parecia confiar em suas palavras.

— Não é preciso muita coisa para sobreviver, Park. E olha — apontou para a igreja — Têm janelas próximas ao chão. — Silêncio. — Tsc. Isso significa que tem um porão. O lugar é grande, dá para armazenar bastante comida e gente, principalmente. — explicou. 

— Certo, então vamos pedir educadamente e sem violência para que eles nos deixem passar a noite. Simples e pacífico. — Enfatizou pontos extremamente específicos, recebendo um revirar de olhos do arqueiro.

— Tanto faz. 

Chanyeol respirou fundo para não perder a paciência com o modo como Sehun julgava tudo desinteressante e banal. Como se nada além de seus próprios interesses valesse a pena — insuportável, na visão do Park. 

Caminharam lado a lado até a porta de entrada e Chanyeol bateu algumas vezes, mas não houve resposta. Tentou chamar, também; aproximou-se das janelas para que fosse ouvido ou conseguisse enxergar algo dentro da construção, contudo, era impossível com os vidros selados com fita adesiva do lado de dentro. Sehun, já sem paciência e completamente irritado, ignorou o que o acastanhado disse e chutou a porta-dupla com tanta força que um dos lados acabou cedendo e caindo sobre o chão. 

— Caralho, você não escuta ninguém?! — Chanyeol esbravejou avançando na direção do selvagem.

— Não. — Os olhos escuros permaneceram inexpressivos. — Você e esse seu showzinho de gritaria e bateção não ia nos ajudar. No máximo atrairia zumbis. Idiota. — Ignorou o discurso que o Park estava começando e adentrou a igreja, procurando por rastros. 

— Ei! — Chanyeol, ainda indignado, surpreendeu-se com a ousadia do Oh ao adentrar o local sem pensar duas vezes.

— Oh, vejo que você não é bom em fazer visitas, rapazinho — Uma voz desconhecida soou entre as paredes sujas, chamando a atenção dos invasores. — Essa porta foi muito bem reforçada… Você é um tanto forte, sim? — Uma senhora de baixa estatura e cabelos grisalhos saiu detrás do altar do centro da igreja, sorrindo. — Não sejam tímidos, entrem por favor. Está ficando escuro e perigoso… 

— Senhora, me desculpe pelo comportamento animalesco desse idiota, garanto que ele irá consertar o que quebrou. — Chanyeol devolveu o sorriso à idosa, que apenas balançou a cabeça. 

— Vou? Estranho, não me lembro de ter dito isso. — Sehun disse sarcástico e recebeu uma encarada raivosa do Park. Estava começando a se acostumar.

— Não se preocupe, rapazinho. Meus filhos podem cuidar disso. — Ela garantiu. — Queridos! Temos visitas! 

Tudo estava ficando cada vez mais bizarro. Apesar da simpatia, a mulher possuía um sorriso tão forçado que causava rugas ao redor dos olhos e dos lábios secos e finos. O olhar, por sua vez, fazia com que Sehun tivesse vontade de vomitar e deixava-o psicologicamente desconfortável, também. Como se ela estivesse lendo todo o seu passado, seus erros e acertos. A situação tornou-se ainda mais estranha quando quatro homens aparentemente perturbados surgiram na ponta da escada que levava em direção ao porão do lugar. 

— Mamãe, não pode deixar pessoas entrarem assim, elas podem ser malvadas! — O mais alto e magro de todos deu um passo à frente, alertando a senhora já de idade. 

Sehun não foi capaz de dizer uma palavra sequer. Observou o diálogo entre Chanyeol e os esquisitões sem realmente escutá-lo. O tempo parecia estranho, como se estivesse acontecendo de maneira diferente para si. Tudo parecia lento e distorcido. Talvez fosse apenas muito cansaço por estar há mais de três dias sem dormir de verdade. Sentia como se sua própria mente tivesse se desconectado do corpo. Tão distante… 

A última coisa que viu foram os olhos castanhos de Chanyeol esbanjando uma preocupação que não via alguém demonstrado há tempos desde YoungSoo. Talvez fosse um mal dos Park.

 

[...]

 

Quando moleque, Sehun costumava ir à igreja com a sua mãe. Não porque acreditava em seres superiores e perfeitos ou algo do tipo, longe disso. Apenas acompanhava a única pessoa que costumava importar-se consigo. Ela cortava seu cabelo quando começava a tapar-lhe os olhos; fazia suas sobrancelhas quando tornavam-se um único ser (era horrível, com toda certeza); cozinhava todas as suas refeições e até mesmo lhe dava presentes quando não ficavam "apertados" e cheios de contas no final do mês. Era a mulher mais incrível que poderia ter conhecido. 

No entanto, nada pode ser perfeito por muito tempo. Pelo menos Sehun acreditava que um dia existiu perfeição em todos os seus dias. Principalmente quando acordava com o sorriso tão bonito da mãe... Era a melhor coisa do mundo, porra. Isso até Dong Hoojong aparecer. Toda a luz foi embora, assim como a felicidade, o aconchego, a tranquilidade e até mesmo o amor. Sehun já não via a mãe sorrir ou sequer ter forças para cozinhar. O rosto antes bonito e saudável tornou-se marcado pela violência e Oh Sehun jurou ódio à coisas violentas desde então. 

A última vez em que esteve em uma igreja, explodiu com todos os sentimentos ruins que sentiu. Não teve coragem de se aproximar do caixão da mãe. Não gostaria de vê-la uma última vez, pois, se o fizesse, estaria aceitando o fato de que jamais a veria novamente. Foi o seu primeiro pior dia. Vieram tantos após toda a avalanche da perda que seria impossível contá-los. Oh Sehun também jurou ódio à igrejas e ao que elas representam. Toda a devoção que sua mãe havia tido fora em vão? 

Era apenas uma criança com o coração partido e, no mundo real, as pessoas não têm tempo para corações partidos.

 

[...]

 

Sehun acordou assustado e quando tentou se levantar, percebeu que as costas latejavam e uma enxaqueca terrível acertou-o em cheio. Estava extremamente escuro e, por já possuir uma visão péssima à noite, o arqueiro estava praticamente de mãos atadas diante daquela situação. Permaneceu em silêncio absoluto, tentando ouvir quaisquer ruídos ou sons que pudessem orientar-lhe à alguma saída. Não conseguia se lembrar de nada além dos olhos castanhos de Chanyeol encarando a si com preocupação. 

— Chanyeol? — Moveu-se lentamente, na esperança de que o Park estivesse ali também. 

Depois de mais alguns sussurros que não obtiveram resposta, Sehun já estava irritado e angustiado o suficiente para mandar para o inferno todas as dores que sentia para forçar-se a se levantar. Grunhiu de dor assim que os joelhos se esticaram, cambaleando pelo recinto enquanto mantinha a mão esquerda sobre as costas e a destra esticada à sua frente, tateando em busca de algo para apoiar-se. 

— Levem-os para o galpão, esse mais alto não parece muito saudável, mas é o suficiente. Depois lembrem-se de checar o bravinho, ele é forte e esperto, logo vai ficar inquieto no depósito. — A voz da mesma senhora de antes soou distante, porém o arqueiro foi capaz de ouvir cada palavra dita. — Tivemos sorte grande, queridos. Teremos comida por um bom tempo! 

— Devemos manter o bravinho por mais tempo, mamãe… Ele parece tão gostoso

— Podemos começar com as pernas, assim ele não vai fugir. — Outra voz surgiu na conversa. — Vai ser divertido comer alguém tão bonito!

Sehun precisava urgentemente se acalmar ou desmaiaria novamente. Ouvi-los falando sobre aquilo de forma tão natural era demais até mesmo para si. Sabia que havia algo muito suspeito quando encontrou a igreja, contudo, canibalismo foi a última coisa que se passou pela sua cabeça. Não deveria ter entrado, estava óbvio que era uma burrice completa, mas não conseguia pensar direito tendo que vigiar o Park. Argh, queria matá-lo.

Ainda sentindo dores insuportáveis por todo corpo, Sehun cambaleou mais um pouco, batendo as mãos nas paredes até encontrar uma maçaneta aparentemente suja. Forçou o corpo contra a porta que, obviamente, estava trancada. Mesmo sabendo que se arrependeria mais tarde, bateu-se contra a madeira até que cedesse e caísse. Fora do depósito era um pouco mais claro e Sehun conseguiu enxergar um corredor estreito. Julgando pela escada que encontrou após passar pelo corredor, estava no porão. Precisava sair daquele lugar o mais rápido possível, mas não tinha a menor ideia de onde Chanyeol estava e não podia abandoná-lo. Cumprir a promessa que fez a YoungSoo era o único objetivo que possuía quando concordou com Baekhyun. 

— Ma-ma-ma — O timbre grosso assustou o arqueiro, que virou-se na direção do barulho. — Ma-ma-ma… 

Um homem alto e muito acima do peso encarava Sehun com desconfiança, todavia, ele não parecia estar consciente. Nas mãos largas e grandes, havia uma faca de açougue, fato que preocupou o moreno automaticamente. O brutamonte poderia até ser lento e mentalmente perturbado, mas não iria deixá-lo passar de jeito nenhum. Durante longos segundos, ambos permaneceram parados apenas encarando um ao outro, entretanto, quando Sehun tentou mover-se em direção às escadas, o homem pôs-se a correr e gritar. As dores impediam o arqueiro de se mexer corretamente e logo o canibal já estava próximo o suficiente para agarrar-lhe os cabelos. Fora impedido, no entanto, por um zumbi que aparecera de repente, saindo de uma das portas de um dos cômodos do extenso porão. O caminhante mordeu o pescoço do homem, derrubando-o e dando a chance para a fuga do Oh. 

Sem pensar duas vezes, Sehun subiu as escadas às pressas, respirando fundo enquanto apoiava as mãos nos joelhos. Nunca havia ficado em várias situações de quase morte tantas vezes antes. Park Chanyeol realmente estava amaldiçoando sua vida como a porra de demônio. 

— Ora, ora! — A velha segurava um facão, acompanhada dos outros três filhos. — Você é um rapazinho muitíssimo problemático, uhn? — Sorriu. 

— Vai pro inferno, vadia. — xingou, ajeitando a postura. — Não vou ser a porra do seu banquete. — Deu alguns passos para trás, buscando por algo que pudesse usar como arma. 

— Olha a boca, rapazinho! — advertiu-o. — Estamos em um templo sagrado!

— Sagrado minha bunda! — Chanyeol, que estava pendurado como um pedaço de carne em um gancho, pronunciou-se pela primeira vez. — Caralho Sehun, pensei que ia dar uma de Bela Adormecida. 

— Vai se foder, Park.

Se não estivesse tão ocupado desviando dos ataques de dois dos brutamontes esquisitões, Sehun teria notado o pequeno sorriso aliviado que Chanyeol deixou escapar. 

— Cuidem do bravinho, queridos. Vou continuar as preparações. — Sorriu novamente e tudo que o Park queria era acertar um chute bem dado naquele rosto assustador. 

Sehun cansou-se rápido e acabou ficando incapaz de se defender quando um dos homens acertou-lhe com um bastão de ferro na perna esquerda. Aproveitando-se do momento de fraqueza do arqueiro, o outro atacou-o com a faca que segurava, cortando abaixo de seus olhos. O Oh grunhiu de dor, caindo e sendo acertado por inúmeros golpes, gritando cada vez mais alto. Do outro lado do salão, Chanyeol tentava se soltar enquanto a idosa aquecia a lâmina do facão no fogo improvisado que haviam feito ali. 

O desespero era quase palpável no ambiente, e, após ouvir um último grito, o Park teve a certeza de que Sehun estava desmaiado novamente — no pior dos casos, morto. Logo os homens voltaram a se aproximar da mãe, um deles carregou o arqueiro completamente apagado e machucado no ombro até jogá-lo contra uma das paredes, apenas por puro lazer pessoal.

— Não quebre tanto, Hyesung! — a mais velha ralhou. — Vai estragar e ficar ruim depois. 

— Desculpa, mamãe…

— Nojentos do caralho. — Chanyeol grunhiu. — Eu vou acabar com vocês! 

— Quietinho, quietinho… — Aproximou-se de Chanyeol, pronta para começar a cortá-lo.

O Park debatia-se desesperado, a mente nublada pela agonia e pelo medo. Já havia desistido de ser salvo quando um estouro incomodou seus ouvidos. Sentiu algo molhando as próprias pernas e ao abrir os olhos — e sequer notou tê-los fechado — pôde ver uma silhueta próxima, segurando uma escopeta. O mesmo som característico de antes repetiu-se três precisas vezes.

— Oi, eu sou o Jongin. — O homem se apresentou, sorrindo nervosamente. 

— Oi? — Chanyeol repetiu, assustado. 

— Desculpa, acho melhor eu te ajudar, né? 

Por favor. 

Jongin subiu em um dos bancos e desamarrou as mãos de Chanyeol, oferecendo-se como apoio para que ele descesse sem se machucar. Sehun permanecia apagado no chão sujo, coberto pelo sangue dos canibais mortos. Um pouco hesitante, Chanyeol colocou-o sobre o ombro para que saíssem dali o mais rápido possível — concluiu que o selvagem era bem mais pesado do que parecia, também. 

— Ei, você sabe onde eles colocaram nossas coisas? — questionou.

— Sei sim, fica lá embaixo. Senta aí e espera, vou pegar suas coisas e um pouco de água. Eles têm um carro então podemos roubar pra não precisarmos andar a noite toda. — Jongin tagarelou, correndo até às escadas.

— Não demora, eles podem se transformar a qualquer momento. 

— Às ordens, senhor! 

Chanyeol decidiu ignorar suas desconfianças em relação ao rapaz esquisito de cabelos compridos e desgrenhados. Encarou o rosto conturbado de Sehun, que parecia estar em um estado de dor insuportável. Estranhou ao notar que não queria que nada de mal acontecesse ao selvagem. Talvez tivesse enlouquecido após tantos acontecimentos em um curto período de tempo.

 

.xxx.

 

Sehun deu um pulo no banco de trás da camionete com o barulho alto que a porta fez quando Jongin bateu-a. 

— Porra! — gritou de dor. Estava com o corpo todo ferrado de tanto apanhar. 

— Deita aí! — Chanyeol advertiu-o, virando-se para trás e tomando um tapa de Jongin.

— Você tá dirigindo! 

— Quem é esse cara? — o arqueiro questionou, tentando encontrar uma posição que não lhe fizesse sentir tanta dor.

— Kim Jongin, prazer em conhecê-lo, Oh Sehun. — Sorriu, estendendo a mão para o moreno. Obviamente, ele não apertou-a. — Eu não sou nenhum assassino, ok? Quer dizer, na verdade eu sou um pouquinho, sim. Mas isso não significa que sou uma pessoa ruim. — Sehun sentiu a dor de cabeça piorar com todo o discurso. — Ou significa? 

— Só cala a porra da boca. — mandou, estressado. — Têm água nessa merda? — Chanyeol bufou antes de atirar uma garrafinha ao Oh. — Não acredito que você trouxe uma vitrola, Chanyeol. Somos escoteiros agora? Caralho. 

— Dá um tempo, Sehun. Enquanto você estava praticamente morto no chão, Jongin salvou nós dois, recuperou nossas coisas e ainda conseguiu um carro. 

— Grande coisa. — respondeu. — Onde estamos? 

— Acabamos de cruzar a fronteira do Sul. Agora preciso saber aonde você estava me levando. 

— Por que uma pessoa dirigiria até o lugar onde o sequestrador queria levá-la? Você é imbecil? 

— Escuta aqui — O carro foi parado bruscamente. — Cansei da porra do seu joguinho, Oh Sehun. Eu tenho certeza de que tem algo que você não me contou e, melhor, não contou nem para aquele louco daquele anão. Então, facilita as coisas e abre o jogo.

— Quer saber para onde eu ia te levar, Park? — Sehun, novamente, ignorou toda a dor que sentia e levantou-se do banco. A mão gelada apertou o rosto alheio com força. Chanyeol engoliu seco antes de assentir. — Tô' te levando para a pessoa que você sequer pensou duas vezes antes de abandonar. — O maxilar do arqueiro estava travado, os olhos expressando o mais puro ódio; desprezo. — Estou te levando para Park Sooyoung. Bom, pelo menos ele costumava ser, antes. Agora, ele não é nada seu. Nada. Ainda assim, preciso cumprir com a minha promessa, por mais que a minha vontade seja jogar você para algum bando e te ver morrer lentamente. Da pior forma possível. 


Notas Finais


Caramba que loucura, hein? nem o Jongin conseguiu descontrair esse climão...
Aliás, tomem cuidado ao lerem ALPH, não confie nem se apegue a ninguém, nunca se sabe o que pode acontecer!
HEHEHE
Espero que vocês tenham gostado do capítulo, que foi bem pesado, aliás, passei mal de agonia escrevendo. Enfim, até a próxima amores. <3
(ps: caso algo venha te deixar desconfortável ou você considere quebra das regras do site, por favor, entre em contato comigo por MP, estou mais que disposta a conversar e resolver!)


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