História A love for life!!! - Capítulo 28


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Categorias Orgulho e Paixão, Os Bridgertons
Personagens Aurélio Cavalcante, Julieta Sampaio Bittencourt "Rainha do Café", Mariana Benedito
Tags Aurieta
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Palavras 3.642
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Romance e Novela, Suspense

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 28 - Uma falsa....


Aurélio não conseguia se lembrar da última vez que entrara num salão de baile sentindo tamanha apreensão.


Os últimos dias não tinham sido os melhores de sua vida. Estivera de péssimo humor, e o fato de ser bastante conhecido pelo bom humor só piorara a situação, porque todos se sentiam na obrigação de comentar sua terrível disposição.


Para alguém mal-humorado, não havia nada pior do que ser sujeitado a constantes questionamentos como “Por que você está de mau humor?”.


A família parou de perguntar depois que ele rosnou – rosnou! – para Lídia quando ela lhe pediu que a acompanhasse ao teatro na semana seguinte.


Até aquele momento Aurélio não sabia nem que era capaz de rosnar.


Teria de se desculpar com a irmã, o que ia ser uma dor de cabeça, já que Lídia simplesmente não sabia aceitar desculpas – ao menos não as que provinham de outros Cavalcantes.


Mas a caçula era o menor dos seus problemas. Ela não era a única pessoa que merecia um pedido de desculpas.


E era por isso que seu coração batia tão rápido e ele estava nervoso como nunca ao entrar no salão dos Macclesfields. Julieta estaria ali. Sabia disso porque ela sempre comparecia aos principais bailes, ainda que agora quase exclusivamente como acompanhante da irmã.


Sentir aquele nervosismo ao ver Julieta de certa forma o enchia de humildade. Ela era... Julieta . Sempre estivera ali, sorrindo com polidez nos limites do salão de baile. E ele achara que ela sempre estaria ali. Algumas coisas não mudavam, e Julieta era uma delas.

Só que ela havia, sim, mudado.


Aurélio não sabia quando acontecera ou se alguém além dele se dera conta disso, mas Julieta Sampaio não era a mesma mulher que ele conhecia.


Ou talvez tivesse sido ele quem havia mudado.


O que o fazia sentir-se ainda pior, porque se fosse esse o caso, isso significaria que Julieta era interessante, encantadora e beijável há anos e ele não tivera a maturidade necessária para percebê-lo.


Não, era melhor achar que ela tinha mudado. Aurélio nunca fora fã da autoflagelação.


Qualquer que fosse o caso, precisava se desculpar, e logo. Tinha que se desculpar pelo beijo, porque ela era uma dama e ele era (na maior parte do tempo, pelo menos) um cavalheiro. E precisava se desculpar por ter se portado como um idiota logo depois,porque era, simplesmente, a atitude certa a ser tomada.


Só Deus sabia o que Julieta achava que ele achava dela agora.


Não foi difícil encontrá-la. Nem se deu o trabalho de procurar entre os casais que dançavam (o que o deixava com raiva – por que os outros homens não a convidavam para dançar?). Em vez disso, concentrou a atenção nas paredes e, com efeito, lá estava ela, sentada ao lado de... ah, Deus... Lady Danbury.


Bem, não havia mais nada a fazer senão ir direto até elas. A julgar pela maneira como Julieta e a velha bisbilhoteira seguravam a mão uma da outra, não esperava que Lady Danbury desaparecesse tão cedo.


Ao chegar até as duas, virou-se primeiro para Lady Danbury e fez uma elegante reverência.

– Lady Danbury – cumprimentou, antes de voltar a atenção para Julieta. – Srta. Sampaio.


– Sr. Cavalcante – disse Lady Danbury, com uma surpreendente falta de rispidez na voz –, que prazer em vê-lo.


Ele assentiu com a cabeça, então fitou Julieta, perguntando-se o que ela estaria pensando e se conseguiria enxergá-lo em seus olhos.


Mas o que quer que estivesse pensando – ou sentindo – estava oculto por baixo de uma grossa camada de nervosismo. Ou talvez o nervosismo fosse a única coisa que ela estava sentindo. Não podia culpá-la. Considerando a forma tempestuosa com a qual ele deixara a sala de visitas dela, sem uma explicação... ela só podia estar confusa. E Aurélio sabia por experiência própria que a confusão sempre levava à apreensão.

– Sr. Cavalcante – murmurou ela, enfim, sua postura transmitindo uma polidez escrupulosa.


Ele pigarreou. Como extraí-la das garras de Lady Danbury? Aurélio realmente preferia não ter de expor toda a sua humildade diante da velha abelhuda.


– Eu gostaria de... – começou ele, com a intenção de dizer que gostaria de falar com ela em particular.


Lady Danbury podia ser a criatura mais curiosa que ele conhecia, mas não havia outra linha de ação a seguir, e talvez ser deixada no escuro uma vez na vida fizesse bem a ela.


Mas, no instante exato em que ele ia continuar a frase, percebeu que algo estranho acontecia no salão. As pessoas sussurravam e apontavam em direção à pequena orquestra, cujos integrantes haviam acabado de baixar os instrumentos.

Além disso, nem Julieta nem Lady Danbury estavam lhe dando a menor atenção.


– O que todos estão olhando? – indagou Aurélio .


Lady Danbury nem se deu o trabalho de olhar para ele ao responder:


– Josephine Tibúrcio vai fazer uma declaração.


Que coisa mais irritante. Ele nunca gostara de Josephine Tibúrcio . Fora má e intolerante quando solteira e ficara ainda pior depois que se casara. Mas era linda e inteligente, apesar de cruel, de maneira que ainda era considerada uma líder em alguns círculos da sociedade.


– Não consigo pensar em nada que ela tenha a dizer que me interesse ouvir – murmurou Aurélio.


Espiou Julieta tentar conter um sorriso e lhe lançou um olhar de “peguei você”. Mas o olhar também dizia “e concordo plenamente”.


– Boa noite a todos – cumprimentou o conde de Macclesfield.


– Boa noite! – gritou algum bêbado no fundo do salão.


Aurélio se virou para ver quem era, mas a multidão tornou isso impossível.


O conde falou mais um pouco, então Julieta tomou a palavra, momento em que Aurélio deixou de prestar atenção. O que quer que ela dissesse não ia ajudá-lo a solucionar seu maior problema: descobrir como se desculpar com Julieta. Tentara ensaiar as palavras na cabeça, mas nunca soavam certas, então estava contando com sua tão famosa fluência para conduzi-lo na direção correta quando chegasse a hora. Sem dúvida Julieta compreenderia...


– Whistledown!

Aurélio só ouviu a última palavra do discurso de Josephine, mas não havia a menor forma de ignorar a comoção que tomou todo o salão.


As pessoas sussurravam sem parar, todas ao mesmo tempo e sobre o mesmo tema, o que só acontecia quando alguém era flagrado em público em posição muito embaraçosa e comprometedora.


– O quê? – perguntou ele atabalhoadamente, virando-se para Julieta , que ficou branca como uma vela. – O que ela disse?


Mas Julieta estava sem fala.


Ele olhou para Lady Danbury, porém a velha senhora tinha levado a mão à boca e parecia que iria desmaiar a qualquer momento.


O que era um tanto alarmante, pois Aurélio seria capaz de jurar que, em seus quase 80 anos, Lady Danbury jamais perdera os sentidos.


– O quê? – insistiu ele, na esperança de que uma das duas despertasse de seu estupor.


– Não pode ser verdade – sussurrou Lady Danbury, por fim, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Não acredito.


– O quê?


Ela apontou em direção a Josephine, o dedo indicador tremendo à luz bruxuleante de uma vela.


– Essa senhora não é Lady Whistledown.


Aurélio virava a cabeça de um lado para outro. Para Josephine. Para Lady Danbury. Para Josephine . Para Julieta.


– Ela é Lady Whistledown? – cuspiu ele, finalmente entendendo.


– É o que ela diz – respondeu Lady Danbury, a dúvida estampada no rosto.


Aurélio também tinha suas dúvidas.

Josephine Tibúrcio era a última pessoa que ele teria imaginado ser Lady Whistledown. Que ela era esperta, não havia como negar. Mas não era engenhosa nem espirituosa, a não ser que estivesse zombando dos outros. Lady Whistledown tinha um senso de humor bastante ferino, porém, com exceção de seus comentários infames com relação à moda, nunca parecia implicar com os membros menos populares da sociedade.


No final das contas, Aurélio era obrigado a admitir que Lady Whistledown tinha bom gosto no que dizia respeito às pessoas.


– Não posso acreditar numa coisa dessas – declarou Lady Danbury em um tom de repulsa. – Se eu tivesse imaginado que isto aconteceria, jamais teria lançado aquele desafio abominável.


– Isto é horrível – sussurrou Julieta.


A voz dela tremia, e isso deixou Aurélio apreensivo.

– Você está bem? – perguntou ele.


Ela fez que não.


– Acho que não. Na verdade, estou um pouco enjoada.


– Quer ir embora?


Julieta balançou a cabeça mais uma vez.


– Se não se importar, vou ficar sentada aqui.


– É claro – assentiu ele, olhando para ela com preocupação.


Continuava terrivelmente abatida.


– Ora, pelo amor de... – blasfemou Lady Danbury, pegando Aurélio de surpresa, mas, em seguida, ela soltou um verdadeiro impropério, o que ele achou que poderia muito bem ter tirado o planeta do eixo.


– Lady Danbury? – disse ele.


– Ela está vindo nesta direção –murmurou a velha senhora, virando a cabeça para o outro lado. – Eu deveria saber que não escaparia.


Aurélio olhou para a direção de Josephine, que tentava abrir caminho em meio à multidão, aparentemente para confrontar Lady Danbury e resgatar o seu prêmio. Ia, como era de se esperar, sendo abordada a cada passo pelos convidados. Parecia estar adorando o assédio, o que não era nenhuma surpresa – Josephine sempre adorara ser o centro das atenções – mas também parecia bastante decidida a chegar até Lady Danbury.


– Não há qualquer forma de evitá-la, sinto dizer – observou Aurélio.


– Eu sei – resmungou ela. – Venho tentando evitá-la há anos e jamais fui bem-sucedida. – Ela olhou para Aurélio, contrariada. – Achei que estava sendo tão esperta... Pensei que fosse ser divertido expor Lady Whistledown.


– É, bem... foi divertido – disse Aurélio, mas não estava sendo sincero.


Lady Danbury lhe deu uma estocada na perna com a bengala.


– Não está sendo nem um pouco divertido, seu menino tolo. Olhe só o que eu vou ter de fazer agora! – Ela agitou a bengala em direção a Josephine, que estava cada vez mais perto. – Jamais sonhei em ter de lidar com alguém da laia dela.


– Lady Danbury – cumprimentou Josephine, aproximando-se com a barra do vestido roçando no chão. Parou bem em frente à velha senhora. – Que prazer em vê-la.


Lady Danbury nunca fora conhecida por sua graciosidade, mas se superou ao ignorar qualquer tentativa de saudação e dizer direto, asperamente:

– Imagino que esteja aqui para cobrar o seu dinheiro.


Josephine inclinou a cabeça para o lado num gesto encantador e ensaiado.


– A senhora disse que daria mil libras a quem desmascarasse Lady Whistledown. – Ela deu de ombros, num gesto de falsa humildade. – Jamais estipulou que ela não poderia desmascarar a si mesma.


Lady Danbury se levantou, estreitou os olhos e disparou:


– Não acredito que seja você.


Aurélio gostava de achar que era fino e imperturbável, mas até ele arfou diante daquilo.


Os olhos de Josephine brilharam de fúria, mas ela logo se recompôs e retrucou:


– Eu ficaria chocada se a senhora não reagisse com algum grau de ceticismo, Lady Danbury. Afinal de contas, não é do seu feitio ser crédula e bondosa.


A velha senhora sorriu. Bem, talvez aquilo não fosse um sorriso, mas os seus lábios se moveram.


– Vou encarar isso como um elogio – falou – e deixarei que me convença que foi essa a sua intenção.


Aurélio assistiu ao impasse atentamente – cada vez mais alarmado –, até Lady Danbury se virar de repente para Julieta , que se levantara poucos segundos depois dela.


– O que acha, Srta. Sampaio? – perguntou.


O corpo inteiro de Julieta tremeu, ainda que de leve, enquanto ela gaguejou:


– O q-quê... e-eu, eu... c-como disse?


– O que acha? – repetiu Lady Danbury. – Acha que Lady Tibúrcio é Lady Whistledown?

– Eu... Eu realmente não sei.


– Ora, vamos, Srta. Sampaio . – A velha senhora pousou as mãos nos quadris e olhou para Julieta com uma expressão que beirava a exasperação. – Sem dúvida você tem uma opinião sobre o assunto.


Aurélio involuntariamente deu um passo à frente. Lady Danbury não tinha direito de falar com Julieta daquele jeito. E, além do mais, ele não estava gostando da expressão de Julieta. Parecia se sentir acuada, olhando na direção dele com um pânico que ele jamais vira.


Ele já vira Julieta desconfortável, já a vira magoada, mas jamais em pânico. Então lhe ocorreu que ela odiava ser o centro das atenções. Sim, ela zombava da própria solteirice e do fato de parecer invisível em meio à sociedade, e talvez fosse gostar de receber um pouco mais de atenção, mas aquele tipo de atenção... Todos olhando para ela e esperando que falasse...


Ela estava completamente infeliz.


– Srta. Sampaio – disse ele com delicadeza, passando para o seu lado –, a senhorita me parece indisposta. Gostaria de se retirar?


– Gostaria – respondeu ela, mas então algo estranho aconteceu.


Ela mudou. Aurélio não conseguiu pensar em outra palavra para descrever o que viu. Ela simplesmente mudou. Bem ali, no salão de baile dos Macclesfields, ao lado dele, Julieta Sampaio se transformou em outra pessoa.


Sua coluna ficou ereta e ele podia jurar que o calor que emanava de seu corpo aumentou quando ela falou:


– Não. Não, eu tenho algo a dizer.


Lady Danbury sorriu.


Julieta olhou direto para a velha condessa e afirmou:


– Acho que ela não é Lady Whistledown. Acho que está mentindo.


Aurélio instintivamente puxou Julieta um pouco mais para perto. A expressão de Josephine levava a crer que ela poderia pular em seu pescoço a qualquer instante.


– Eu sempre gostei de Lady Whistledown – continuou Julieta , erguendo o queixo e adotando uma postura quase régia. Fitou Josephine e os olhares das duas se cruzaram quando ela acrescentou: – E meu coração ficaria partido se eu descobrisse que ela era alguém como Lady Tibúrcio é.


Aurélio tomou a mão dela e a apertou. Não conseguiu deixar de fazê-lo.


– Muito bem dito, Srta. Sampaio! – exclamou Lady Danbury, batendo palmas de puro contentamento. – Era exatamente isso que eu estava pensando, mas não consegui encontrar as palavras. – Virou-se para Aurélio com um sorriso. – Ela é muito inteligente, sabe?


– Eu sei – respondeu ele, com um estranho e inédito orgulho brotando dentro de si.


– A maioria das pessoas não nota – prosseguiu Lady Danbury, de maneira que suas palavras só fossem ouvidas pelo rapaz.


– Eu sei – murmurou ele –, mas eu noto.


Teve de sorrir diante do comportamento de Lady Danbury, que tinha certeza que fora proposital, apenas para irritar Josephine, que não gostava de ser ignorada.


– Não admito ser insultada por essa... por essa... por essa ninguém! – exclamou Josephine, furiosa. Virou-se para Julieta com um olhar fuzilante e sibilou: – Exijo um pedido de desculpas.


Julieta limitou-se a assentir lentamente e retrucou:

– Você pode exigir o que quiser.


Então, ficou em silêncio.


Aurélio teve que se esforçar muito para tirar o sorriso do rosto.


Estava claro que Josephine desejava continuar discutindo (e, talvez, cometer um ato de violência no processo), mas se conteve, talvez por ser óbvio que Julieta se encontrava entre amigos. No entanto, sempre fora conhecida por sua segurança e seu equilíbrio, portanto Aurélio não se surpreendeu quando ela se recompôs, virou-se para Lady Danbury e perguntou:


– O que planeja fazer com relação às mil libras?


Lady Danbury a encarou por um longo instante, então se virou para Aurélio – por Deus, a última coisa que ele queria era se envolver naquela confusão – e indagou:


– O que acha, Sr. Cavalcante? Acha que Lady Tibúrcio está dizendo a verdade?


Aurélio sorriu.


– A senhora deve estar louca se pensa que vou oferecer a minha opinião.


– O senhor é um homem surpreendentemente sábio, Sr. Cavalcante – retrucou Lady Danbury, em tom de aprovação.


Ele assentiu com modéstia, então arruinou o efeito ao dizer:


– Me orgulho disso.


Ora, não era todos os dias que um homem era chamado de sábio por Lady Danbury. Afinal, a maior parte dos adjetivos usada por ela tinha conotação negativa.


Josephine nem se deu o trabalho de olhar para ele. Como Aurélio sabia muito bem, ela não era idiota, apenas má, e depois de mais de dez anos frequentando a alta sociedade, devia ter consciência de que ele não gostava muito dela e que sem dúvida não se tornaria vítima de seus encantos. Então, ignorando-o, ela encarou Lady Danbury e manteve a voz perfeitamente calma ao perguntar:


– O que fazemos agora, milady?


A velha senhora ficou em silêncio por um longo instante e em seguida decretou:


– Preciso de provas.


Josephine piscou, aturdida.


– O que disse?


– Provas! – Lady Danbury bateu a bengala no chão com uma força incrível. – Que parte você não compreendeu? Não vou lhe entregar uma fortuna sem ter provas.


– Como se mil libras fosse uma grande fortuna... – comentou Josephine, com petulância.


Lady Danbury estreitou os olhos.


– Então por que está tão ansiosa para recebê-las?


Josephine ficou calada por um instante, mas sua postura, seu rosto, cada fibra de seu ser estavam tensos. Todos sabiam que o marido a deixara em péssima situação financeira, mas aquela era a primeira vez que alguém tocava no assunto com ela de forma tão direta.


– Arranje-me as provas – falou Lady Danbury – e eu lhe darei o dinheiro.


– Está dizendo – retrucou Josephine (e por mais que a detestasse, Aurélio foi forçado a admirar a sua capacidade de manter a voz serena) – que a minha palavra não é o suficiente?


– Sim, é isso que estou dizendo – ladrou Lady Danbury. – Pelo amor de Deus, menina, ninguém chega à minha idade sem permissão para insultar quem bem entender.


Aurélio achou ter escutado Julieta engasgar, mas, ao olhá-la de soslaio, ela estava impassível, apenas observando o diálogo. Seus olhos castanhos brilhavam e ela recuperara a cor que perdera quando Josephine fizera o anúncio inesperado. Na verdade, agora Julieta parecia estar verdadeiramente intrigada pelos acontecimentos.


– Muito bem – disse Josephine , a voz grave e letal. – Eu lhe trarei provas no decorrer dos próximos quinze dias.


– Que tipo de provas? – indagou Aurélio, para logo em seguida se arrepender.


A última coisa que desejava era se envolver naquela confusão, mas a curiosidade tomara conta dele.


Josephine se virou para ele com o rosto notavelmente plácido, a julgar pelo insulto que acabara de escutar de Lady Danbury diante de várias testemunhas.


– Saberá quando eu as entregar – disse ela, irônica.


Então estendeu o braço, esperando que um de seus sabujos o tomasse e a conduzisse para longe.


O que foi de fato impressionante, porque um jovem (um tolo apaixonado, pelo jeito) se materializou ao seu lado como se ela o tivesse invocado com a mera inclinação do braço. Um instante depois, haviam desaparecido.


– Bem, que coisa desagradável – comentou Lady Danbury, quebrando o silêncio meditativo, ou talvez atordoado, em que todos se encontravam havia quase um minuto.


– Eu nunca gostei dela – declarou Aurélio, para ninguém em especial.


Uma pequena multidão se formara em torno dos três, então as palavras dele não foram ouvidas apenas por Penelope e Lady Danbury, mas ele não se importou.

– Aurélio!


Ele se virou e deparou com Lídia, que arrastava Julia Sampaio consigo enquanto deslizava em meio à aglomeração até chegar ao seu lado.


– O que ela disse? – perguntou sua irmã caçula, sem fôlego. – Tentamos chegar aqui antes, mas estava tão tumultuado...


– Disse exatamente o que você esperaria dela – respondeu ele.


Lídia fez uma careta.


– Homens são péssimos em intrigas. Quero as palavras exatas.


– É muito interessante – comentou Julieta , de repente.


Seu tom pensativo chamou a atenção da multidão e, em segundos, todos fizeram silêncio.


– Fale – pediu Lady Danbury –, estamos ouvindo.

Aurélio esperava que isso fosse deixar Julieta desconfortável, mas a onda de autoconfiança que a tomara alguns minutos antes continuava em ação, pois se empertigou orgulhosamente e disse:


– Por que alguém haveria de se revelar como Lady Whistledown?


– Pelo dinheiro, é claro – retrucou Lídia.


Julieta fez que não com a cabeça.


– É de imaginar que Lady Whistledown estaria bastante rica a esta altura. Temos comprado seus jornais há anos.


– Meu Deus, ela tem razão! – exclamou Lady Danbury.


– Talvez só quisesse atenção – sugeriu Aurélio.


Não era uma hipótese tão impensável: Josephine havia passado a maior parte de sua idade adulta tentando estar no centro das atenções.


– Pensei nisso – admitiu Julieta –, mas será que ela quer mesmo esse tipo de atenção? Lady Whistledown insultou um bom número de pessoas ao longo dos anos.


– Ninguém que signifique qualquer coisa para mim – brincou Aurélio. Então, ao ver que todos esperavam uma explicação, acrescentou: – Vocês nunca notaram que Lady Whistledown só insulta gente que merece?


Julieta pigarreou delicadamente.


– Ela já se referiu a mim como uma fruta madura demais.


Ele fez um gesto com a mão descartando a inquietude de Julieta .


– Com exceção dos detalhes sobre moda, é claro.


Julieta deve ter decidido não insistir no assunto, pois se limitou a avaliar Aurélio com um longo e penetrante olhar antes de se virar outra vez para Lady Danbury e dizer:


– Lady Whistledown não tem nenhum motivo para se revelar. Josephine, obviamente, sim.


Lady Danbury ficou radiante, mas depois, de repente, seu rosto se transformou numa careta de desaprovação.


– Acho que preciso lhe conceder os quinze dias de prazo para que apareça com a tal “prova”. Para ser justa.


– Eu, particularmente, estou muito interessada em ver o que ela vai inventar – comentou Lídia. Então, virou-se para Julieta e acrescentou: – Nossa, você é mesmo muito esperta, sabia?


Julieta ruborizou, modesta, em seguida virou-se para a irmã e disse:


– É melhor irmos andando, Julia.

– Tão cedo? – retrucou a garota.


Aurélio , consternado, se deu conta de que articulara, silenciosamente, as mesmas palavras.


– Mamãe queria que chegássemos cedo em casa – explicou Julieta.


Julia assumiu um ar de perplexidade.


– É mesmo?


– É, sim – disse Julieta, com firmeza. – Além do mais, não estou me sentindo muito bem.


Julia assentiu, a contragosto.


– Vou pedir a um criado que traga nossa carruagem até a frente da casa.


– Não, não – falou Julieta, colocando a mão sobre o braço da irmã. – Pode deixar que eu providencio isso.


– Eu o farei – anunciou Aurélio .


Ora, de que servia ser um cavalheiro quando as damas insistiam em fazer tudo sozinhas?


E então, antes mesmo de se dar conta do que estava fazendo, ele facilitara a partida de Julieta e ela acabou indo embora sem que ele tivesse lhe pedido perdão.


Talvez devesse considerar a noite um fracasso por esse único motivo, mas, na verdade, não conseguia pensar dessa forma.


Afinal, passara quase cinco minutos segurando a sua mão.



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