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História A love to remember. (Nian) - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Capitulo nove


*P.O.V Ian*

Dizer que o espetáculo foi um êxito estrondoso é dizer pouco.

O público riu e o público chorou, o que, na verdade, era o que se esperava que fizesse.

Mas devido à presença de Nina, a peça tornou-se, de fato, algo especial - e penso que todos no elenco ficaram tão espantados como eu com o sucesso de tudo aquilo.

Ficaram todos com a mesma expressão com que eu fiquei quando vi Nina pela primeira vez, e isso fez com que a peça tivesse muito mais força enquanto cada um representava o seu papel.

Chegamos ao fim do primeiro espetáculo sem uma falha, e na noite seguinte apareceu ainda mais gente. Até Eric veio falar comigo após o espetáculo para me felicitar, o que, depois do que me dissera antes, foi um tanto surpreendente.

- Estiveram os dois muito bem - disse simplesmente. - Estou orgulhoso de você, amigo.

Enquanto ele dizia isto, Miss Garber exclamava "É maravilhoso!" a qualquer pessoa que a quisesse ouvir ou que por acaso passasse por ela, repetindo-o tantas vezes que eu continuei a ouvi-la muito tempo depois de ter ido para a cama naquela noite.

Quando baixamos o pano pela última vez, fui à procura de Nina.

Encontrei-a num dos cantos do palco, com o pai. Ele tinha lágrimas nos olhos - era a primeira vez que eu o via chorar - e Nina correu para os seus braços e estiveram abraçados durante muito tempo.

Ele afagava-lhe o cabelo e murmurava, "Meu anjo", enquanto ela mantinha os olhos fechados.

Até eu me senti com um nó na garganta.

Fazer o que era certo, percebi então, não era assim tão mau.

Depois de, por fim, se terem desprendido, Nikolai fez-lhe sinal orgulhosamente para que fosse confraternizar com o resto do elenco, e ela recebeu uma enxurrada de felicitações de todos nós nos bastidores.

Nina sabia que se tinha saído bem, mas dizia sempre às pessoas que não percebia para que era todo aquele estardalhaço.

Era a mesma menina alegre de sempre, mas como estava tão bonita, isso revelava-se de uma maneira totalmente diferente. Mantive-me afastado, deixando-a desfrutar o seu momento de sucesso, e admito que em parte me sentia como o velho Nikolai.

Não podia deixar de me sentir feliz por ela, um pouco orgulhoso também.

Quando, finalmente, me viu à parte num dos cantos do palco, pediu licença e veio ter comigo.

Olhando-me, sorriu.

- Obrigada, Ian, pelo que fez. Fez o meu pai muito feliz.

- De nada - disse, falando a sério.

O estranho é que quando ela disse aquilo percebi que Nikolai ia levá-la de carro para casa e, pela primeira vez, desejei ter tido a oportunidade de acompanhá-la.



Na segunda-feira seguinte começava a nossa última semana de aulas antes das férias de Natal e estavam programados testes finais para todas as turmas.

Além disso, tinha de acabar as composições para a minha candidatura à UNC, trabalho que tive de adiar por causa dos ensaios.

Planejava me agarrar aos livros seriamente naquela semana, trabalhando na candidatura à noite antes de me deitar. Mesmo assim, não conseguia evitar pensar em Nina.

A transformação de Nina durante o espetáculo tinha sido espantosa, no mínimo, e imaginei que isso assinalasse uma mudança nela.

Não sei por que pensei isso, mas pensei, e daí que tenha ficado surpreendido quando ela apareceu na primeira manhã de regresso às aulas vestida como de costume: camisola castanha, cabelo preso, saia de xadrez.

Bastou olhá-la uma vez, e não pude deixar de sentir pena dela.

Durante o fim-de-semana, Nina tinha sido encarada como normal - especial até - ou assim me parecera, mas ela, de alguma forma, desaproveitara isso.

Sim, as pessoas eram um pouco mais simpáticas com ela e os que ainda não lhe tinham falado iam lhe dizer que ela se tinha saído muito bem, também, mas percebi logo que aquilo não ia durar muito tempo.

As atitudes forjadas desde a infância são difíceis de quebrar e me interrogava e em parte se as coisas não poderiam piorar para ela depois daquilo.

Agora que as pessoas sabiam que ela podia ter um aspecto normal, podiam até tornar-se mais cruéis.

Queria falar com Nina sobre as minhas impressões, queria mesmo, mas planejava fazê-lo quando terminasse a semana.

Não só tinha muito que fazer, como queria um pouco de tempo para pensar na melhor maneira de lhe dizer o que tinha para dizer. Para ser franco, ainda me sentia um pouco culpado por causa das coisas que lhe havia dito no nosso último passeio, mas não era só porque a peça tinha sido um êxito.

Tinha mais que ver com o fato de durante todo o tempo em que estivéssemos juntos, Nina não foi sido outra coisa senão amável, e eu sabia que tinha agido mal.

Também não achava que ela quisesse falar comigo, para dizer a verdade. Sabia que podia me ver com os meus amigos ao almoço enquanto ela se sentava a um canto lendo a sua Bíblia, mas nunca deu sinal de querer vir conversar conosco.

Mas quando eu ia a sair da escola naquele dia, ouvi a voz dela atrás de mim, me perguntando se não me importava de a acompanhar até casa.

Apesar de ainda não estar preparado para lhe falar dos meus pensamentos, aceitei. Em nome dos velhos tempos.

Um minuto depois, Nina foi direta ao assunto.

- Lembra daquela coisas que disse da última vez que me acompanhou até casa? - perguntou.

Acenei com a cabeça, desejando que ela não tivesse abordado o assunto.

- você prometeu que iria me compensar - disse ela.

Por um momento, fiquei confuso. Pensei que já o tivesse feito com a minha participação na peça. Nina continuou.

- Tenho andado pensando no que é que poderia fazer - continuou sem deixar que eu metesse uma palavra pelo meio - e o que eu proponho é isto.

Me perguntou então se não me importava de ir recolher os frascos de picles e latas de café que ela distribuira em estabelecimentos comerciais por toda a cidade no início do ano.

Encontravam-se em cima dos balcões, normalmente perto das caixas registradoras para que as pessoas pudessem ir lá e deixar os trocos.

O dinheiro destinava-se aos órfãos. Nina nunca queria pedir dinheiro diretamente às pessoas, queria que elas o dessem de livre vontade.

Essa na sua opinião, era a maneira cristã de fazer as coisas.

Lembro-me de ver os recipientes em lugares como o Cecil's Diner e o Crown Theater.

Os meus amigos e eu costumávamos atirar lá para dentro clipes e fichas metálicas quando os caixeiros não estavam olhando, pois o barulho que faziam ao cair era mais ou menos parecido com o de uma moeda.

Depois riamos entre nós por estarmos pregando uma pegadinha na Nina.

Gargalhavamos imaginando Nina abrindo uma das suas latas, esperando uma boa coleta por causa do peso, a esvaziá-las e a encontrar apenas fichas e clipes.

Às vezes, quando nos lembramos das coisas que costumamos fazer, arrepiamo-nos, e foi precisamente isso que me aconteceu.

Nina reparou na expressão no meu rosto.

- Não precisa fazer isso - disse, evidentemente decepcionada. - Estava só a pensando que uma vez que o Natal está se aproximando tão depressa, e como não tenho carro, vai me levar demasiado tempo a recolhê-las todas.

- Não - interrompi-a - eu faço isso. Não tenho muito que fazer, de qualquer maneira.

Então foi isso que fiz começando na quarta-feira, apesar de ter de estudar para os testes e precisar acabar as composições para a candidatura.

Nina me deu uma lista de todos os lugares onde tinha deixado uma lata.

Pedi o carro emprestado à minha mãe e, no dia seguinte, comecei num extremo da cidade. Ela distribuirá cerca de sessenta latas e imaginei que precisaria de apenas um dia para recolhê-las todas.

Comparado com a tarefa de ter de distribuí-las, ia ser fácil. Nina precisara de quase seis semanas para o fazer, porque teve primeiro de arranjar sessenta frascos e latas vazias e depois só podia distribuir duas ou três por dia, pois não tinha carro e só podia transportar esse número de cada vez.

Quando comecei, me senti meio esquisito por ser a pessoa que ia recolher os frascos e as latas, uma vez que aquilo tinha sido um projeto de Nina, mas dizia constantemente a mim próprio que fora ela quem me havia pedido para a ajudar.

Fui de estabelecimento em estabelecimento, recolhendo os frascos e as latas e, ao fim do primeiro dia, percebi que aquilo ia demorar um pouco mais do que havia previsto.

Tinha recolhido apenas cerca de vinte recipientes, porque me esquecera de uma simples realidade da vida em Beaufort.

Numa cidade pequena como aquela, era completamente impossível entrar numa loja e  pegar na lata sem ter uma conversa com o dono ou cumprimentar outra pessoa qualquer que se conhecesse.

Pura e simplesmente, não se fazia.

Assim, tinha de ficar ali sentado enquanto um tipo qualquer me contava a história do espadim que tinha pescado no Outono anterior, ou perguntavam-me como estava indo a escola e diziam que precisavam de uma mãozinha nas traseiras para descarregar umas caixas, ou, então, queriam a minha opinião sobre se deveriam mudar o expositor das revistas para o outro lado da loja.

Nina teria lidado muito bem com este tipo de coisas, e tentei me comportar como pensava que ela queria que eu me comportasse.

Afinal de contas, era o projeto dela.

Para acelerar as coisas não parava entre cada estabelecimento para verificar o dinheiro recolhido.

Depositava apenas o conteúdo dos frascos ou das latas dentro de outro recipiente juntando tudo.

Ao fim do primeiro dia, tinha os trocos todos reunidos em dois frascos grandes, e levei-os para cima para o meu quarto.

Reparei algumas notas através do vidro - não muitas - mas só fiquei realmente nervoso quando esvaziei o conteúdo dos frascos no chão e vi que os trocos consistiam, sobretudo de moedas de um centavo.

Apesar de não haver tantas fichas e clipes como imaginara, ainda assim fiquei desapontado quando contei o dinheiro todo.

Havia vinte dólares e trinta e dois centavos.

Mesmo em 1958, isso não era muito dinheiro, especialmente quando dividido por trinta crianças.

Não desanimei, porém.

Pensando se tratar de algum engano, saí no dia seguinte, recolhi duas dúzias de latas e frascos e cavaqueei com outros vinte proprietários de estabelecimentos.

A receita recolhida: vinte e três dólares e oitenta e nove centavos.

O terceiro dia foi ainda pior. Depois de contar o dinheiro, nem eu conseguia acreditar. Havia apenas onze dólares e cinqüenta e dois centavos.

Estes vinham dos estabelecimentos junto ao mar, freqüentados principalmente por turistas e adolescentes. Éramos realmente incríveis, não pude deixar de pensar.

Vendo que ao todo tinha sido recolhido tão pouco dinheiro cinqüenta e cinco dólares e setenta e três centavos senti-me pessimamente, sobretudo tendo em conta que os frascos e as latas tinham estado lá fora durante quase um ano e que eu próprio as vira vezes sem conta.

Naquela noite, devia telefonar a Nina e lhe dizer quanto é que tinha recolhido, mas simplesmente não o conseguia fazer.

Ela me falara de como queria algo de muito especial para aquele ano, e aquele dinheiro não ia dar para nada, até eu sabia isso.

Então, decidi mentir e lhe dizer que não ia contar o dinheiro até que nós dois o pudéssemos fazer junto, porque o projeto era dela, não meu.

Era, na verdade, deprimente de mais. Prometi levar-lhe o dinheiro na tarde seguinte, depois das aulas.

O dia seguinte era o 21 de Dezembro, o dia mais curto do ano. Faltavam apenas quatro dias para o Natal.

[...]

- Ian - disse ela depois de contar o dinheiro - isto é um milagre!

- Quanto é que tem aí? - perguntei. Sabia exatamente quanto era.

- São quase duzentos e quarenta e sete dólares! - Estava absolutamente radiante enquanto olhava para mim.

Como Nikolai estava em casa, foi-me permitido sentar na sala de estar. Fora aí que Nina tinha contado o dinheiro.

Estava disperso pelo chão em montinhos bem ordenados, quase tudo em moedas de vinte e cinco e dez cêntimos.

Nikolai encontrava-se sentado à mesa da cozinha, escrevendo o seu sermão, e até ele virou a cabeça quando ouviu a voz dela.

- Acha que isso é suficiente? - perguntei inocentemente.

Pequenas lágrimas escorriam-lhe pela face enquanto olhava em redor da sala, não acreditando ainda no que estava vendo ali mesmo à sua frente.

Mesmo depois do espetáculo, não tinha demonstrado tamanha felicidade. Então olhou diretamente para mim.

- É... Fantástico! - exclamou sorrindo. Nina ouvira tanta emoção na sua voz. - O ano passado consegui apenas setenta dólares.

- Fico feliz por este ano as coisas terem corrido melhor - disse através do caroço que se me havia formado na garganta. - Se não tivesse distribuído esses frascos tão cedo este ano, talvez não tivesse conseguido tanto.

Sei que estava mentindo, mas não me importava. Por uma vez, estava a fazer aquilo que era certo.

Não ajudei Nina a escolher os brinquedos de qualquer maneira, imaginei que ela soubesse melhor do que eu o que as crianças queriam, mas ela insistiu que a acompanhasse ao orfanato na véspera do Natal de modo a poder estar presente quando as crianças abrissem as prendas.

Por favor, Ian proferira, e estando ela tão entusiasmada, não tive coragem de recusar.

Assim, três dias depois, tendo o meu pai e a minha mãe ido a uma festa na casa do presidente da câmara, vesti um casaco de pied-de-poule, pus a minha melhor gravata e me dirigi para o carro da minha mãe com o presente de Nina debaixo do braço.

Gastara os meus últimos dólares numa bonita camisola, porque foi tudo o que pude pensar em comprar para lhe oferecer.

Fazer compras para ela não era propriamente a coisa mais fácil deste mundo.

Tinha de estar no orfanato às sete horas, mas a ponte junto ao porto de Morehead City encontrava-se içada e tive de esperar que um cargueiro que partia para um porto estrangeiro deslizasse lentamente canal abaixo.

Por causa disso, cheguei alguns minutos atrasado.

A porta principal já estava trancada e tive de bater com força até o senhor Jenkins finalmente me ouvir.

Remexeu no seu molho de chaves para encontrar a chave certa e, um instante depois, abriu a porta.

Entrei, dando palmadinhas nos braços para afastar o frio.

- Ah... Está aqui - disse ele alegremente. - Estávamos à sua espera. Anda, vou te levar para onde está toda a gente.

Conduziu-me ao longo do vestíbulo até à sala de recreio, o mesmo lugar onde eu estivera antes. Parei apenas um momento para respirar fundo antes de, por fim, entrar.

Estava tudo melhor do que eu imaginara.

Ao centro da sala, vi uma árvore de Natal gigantesca, decorada com fitas brilhantes e luzes coloridas e uma centena de diferentes ornamentos feitos à mão.

Por baixo da árvore, espalhados em todas as direções, havia presentes embrulhados de todos os tamanhos e feitios. Encontravam-se amontoados bem alto e as crianças no chão, sentadas muito juntas umas das outras num grande semicírculo.

Vestiam as suas melhores roupas, presumi - os rapazes de calças azul-marinho e camisas brancas de colarinho, as garotas com saias azul-marinho e blusas de manga comprida.

Estavam todos com o aspecto de se terem lavado e arranjado antes do grande acontecimento, e a maioria dos rapazes tinha o cabelo cortado.

Na mesa ao lado da porta, havia uma grande taça de ponche e travessas com bolinhos, com a forma de árvores de Natal e salpicados de açúcar verde. Reparei alguns adultos que estavam sentados com as crianças; algumas das crianças mais novas encontravam-se ao colo dos adultos, os rostos muitos concentrados enquanto escutavam a leitura de A Véspera de Natal.

Não vi Nina, pelo menos naquele preciso momento. Mas foi a voz dela que reconheci primeiro.

Era ela quem lia a história e, por fim, localizei-a, sentada no chão à frente da árvore, apoiada sobre as pernas.

Para minha surpresa, vi que trazia o cabelo solto, tal como na noite do espetáculo. Em vez do velho casaco de lã castanho que eu já tinha visto tantas vezes, vestia uma camisola vermelha com decote em V que, de certa maneira, acentuava a cor dos seus olhos castanhos.

Mesmo sem o pó brilhante no cabelo nem o comprido vestido flutuante, a visão dela era fascinante.

Sem sequer perceber, tinha estado segurando a respiração e pelo canto do olho vi o senhor Jenkins sorrindo para mim. Expirei e sorri, tentando recuperar o controle.

Nina fez uma pausa apenas para erguer os olhos do livro. Reparou que eu estava à porta, depois voltou a ler para as crianças. Levou mais um minuto ou dois para terminar e, quando o fez, levantou-se e endireitou a saia, depois contornou as crianças para vir falar comigo.

Não sabendo para onde ela queria que eu fosse, fiquei onde me encontrava.

O senhor Jenkins já se havia retirado de ao pé de mim.

- Desculpa termos começados sem você - disse quando se aproximou - mas as crianças estavam mesm muito entusiasmadas.

- Não faz mal - retorqui, sorrindo, pensando em como ela estava bonita.

- Estou muito contente por você poder ter vindo.

- Também estou.

Nina sorriu e me levou pela mão.

- Vem comigo - disse. - Pode me ajudar a distribuir os presentes.

Passamos a hora seguinte fazendo exatamente isso, observando as crianças abrir os presentes um por um.

Nina fizera as compras pela cidade inteira e escolhera duas ou três coisas para cada criança do orfanato, presentes individuais que nunca tinham recebido antes.

Os presentes que Nina comprara não eram os únicos que as crianças recebiam, tanto o orfanato como os que ali trabalhavam tinham também comprado alguma coisa.

À medida que os papéis voavam pela sala num frenesi intenso, ouviam-se gritinhos de satisfação por todo o lado. A mim, pelo menos, parecia que todas as crianças tinham recebido muito mais do que aquilo que tinham esperado e não se cansavam de agradecer a Nina.

Quando a poeira finalmente assentou, e todas as prendas estavam abertas, o ambiente começou a acalmar. Senhor Jenkins e uma mulher que eu nunca tinha visto antes arrumaram a sala e algumas das crianças menores começavam a adormecer debaixo da árvore.

Alguns dos mais velhos tinham já regressado aos seus quartos com os presentes e, ao saírem diminuíram a intensidade das luzes.

As luzes da árvore de Natal projetaram um brilho etéreo, penquanto a música Noite Feliz tocava baixinho no fonógrafo que tinha sido colocado a um canto.

Eu estava ainda sentado no chão ao lado de Nina, que segurava uma Menininha que adormecera no seu colo.

Por causa de toda aquela confusão, ainda não tivemos verdadeiramente uma oportunidade para conversar.

Não que qualquer de nós tivesse importado. Estávamos ambos olhando para as luzes na árvore, e perguntava a mim mesmo em que é que Nina estaria pensando.

Para dizer a verdade, não sabia, mas estava com uma expressão terna. Achava... Não, sabia que ela estava satisfeita pela maneira como a noite tinha corrido, e lá no fundo, eu também estava.

Até àquele momento, fora a melhor véspera de Natal que eu já tinha tido.

Olhei-a de relance. Com as luzes brilhando no seu rosto, estava bonita como ninguém.

- Te comprei uma coisa - disse, por fim. - Quero dizer, um presente. - Falei baixinho para não acordar a menina e esperava que isso escondesse o nervosismo na minha voz.

Ela desviou o olhar da árvore para mim, sorrindo docemente.

- Não precisava fazer isso. - Manteve baixa a voz, que parecia quase musical.

- Eu sei - disse. - Mas aconteceu-me. - Tinha mantido o presente junto a mim. Peguei no embrulho e entreguei-la.

- Pode abri-lo por mim? Tenho as mãos meio ocupadas neste momento. - Olhou para a menina depois para mim.

- Não precisa abri-lo agora, se não quiser - disse, encolhendo os ombros - na verdade, não é nada de muito especial.

- Não seja tolo - adiantou ela. - Só o abriria na sua frente.

Para clarear a minha mente, olhei para o presente e comecei a abri-lo, descolando a fita-cola para que não fizesse muito barulho, em seguida desembrulhando o papel até chegar a caixa.

Depois de pôr o papel de lado, levantei a tampa e tirei a camisola para fora, erguendo-a para lhe mostrar. Era castanha, como as que ela normalmente usava. Mas achei que pudesse usar uma nova.

Tendo em conta a alegria que tinha visto antes, não esperava grande reação da parte dela.

- Está vendo? É só isto. Disse que não era nada de especial avisei.

Esperava que ela não ficasse desapontada.

- É linda, Ian - comentou ela com sinceridade. - Vou usá-la da próxima vez que estiver com você. Obrigada.

Permanecemos em silêncio durante um momento, e uma vez mais comecei a olhar para as luzes.

- Também te trouxe uma coisa - murmurou Nina por fim.

Olhou para a árvore e os meus olhos seguiram os dela. O seu presente estava ainda debaixo da árvore, parcialmente escondido pela base, e estendi o braço para o retirar.

Era retangular, flexível e um pouco pesado. Pousei-o no colo e deixei-o aí sem sequer tentar abri-lo.

- Abre - disse ela, fixando-me com o olhar.

- Não pode me dar isto - disse, sem fôlego.

Já sabia o que estava lá dentro e não conseguia acreditar no que ela tinha feito. As minhas mãos começaram a tremer.

- Por favor - insistiu Nina com a voz mais bondosa que jamais ouvira - abre. Quero que fique com ela.

Com relutância abri lentamente o embrulho. Quando estava finalmente livre do papel, segurei-a com cuidado, com medo de a estragar.

Olhei para ela, hipnotizado, e passei lentamente a mão pela capa, os dedos roçando pela pele bem gasta enquanto os meus olhos se enchiam de lágrimas.

Nina estendeu o braço e pousou a mão sobre a minha. Estava quente e macia.

Olhei para ela, não sabendo o que dizer.

Nina oferecera-me a sua Bíblia.

- Obrigada por ter feito o que fez - sussurrou. - Foi o melhor Natal que já tive.

Virei a cabeça sem responder e estendi o braço para o lado onde pousara o meu copo de ponche.

O coro de Noite Feliz ouvia-se ainda, e a música enchia a sala. Bebi um golo de ponche, tentando aliviar a secura repentina na minha garganta.

Enquanto bebia, todas as vezes em que tinha estado com Nina inundaram-me a mente. Pensei no baile, e no que ela fizera por mim naquela noite. Pensei na peça, e na sua aparência tão Angelical. Pensei nas vezes em que a acompanhara a casa, e em como a tinha ajudado a recolher os frascos e as latas cheios de centavos para os órfãos.

Enquanto estas imagens passavam pela minha cabeça, a minha respiração acalmou-se de repente.

Olhei para Nina, depois para o teto e em redor da sala, esforçando-me por manter a compostura, depois novamente para Nina.

Ela sorriu para mim, e eu sorri para ela, e tudo o que conseguia fazer era perguntar a mim mesmo como é que me havia apaixonado por uma menina como a Nina Dobrev.



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