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História A Luz das Trevas - Capítulo 27


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Notas do Autor


Ai eu sei que eu demorei me perdoem
agora vai
espero que gostem
acho que to procrastinando pra não terminar

Capítulo 27 - Escolha


Já haviam percorrido mais de três quartos do caminho quando ela acordou. Demorou um pouco para se situar, remexendo-se lentamente nos braços do deus. Hades parou e deixou que ela se orientasse melhor.

                Ela o fitou, ainda confusa. Depois, vasculhou o seu redor e percebeu que estava há mais metros do chão do que deveria e, só então, entendeu que estava sendo carregada.

                -Bom dia. - Disse a deusa, um sorriso preguiçoso nos lábios.

                -Bom dia. - Ele respondeu. Ela bocejou, piscou algumas vezes e fez menção de se esticar. Hades se inclinou para deixar os pés da deusa o mais próximo do chão. - Desculpe ter te pegado no colo, achei que adiantaríamos o caminho assim. - Ela franziu o cenho em resposta. Ele demorou alguns segundos para entender o porquê e logo que o fez, retificou-se. - Quero dizer que teríamos mais tempo juntos sem ter de caminhar se eu lhe carregasse enquanto você descansava.

                Ela sorriu e assentiu, bocejando novamente.

                -Concordo completamente. Obrigada. Não precisa se desculpar.

                Retornaram seu caminho a passos lentos, acelerando com o tempo, enquanto a deusa se acordava. A lua já quase não era visível no horizonte quando eles chegaram nos limites externos do terreno de Deméter.

                Alguns cães faziam a ronda noturna para evitar que os frutos fossem roubados, dada a vastidão do terreno e distância dos locais mais movimentados. Só apareciam à noite e nunca notavam a deusa, em suas voltas noturnas, já que estavam acostumados com seu cheiro. Hades, no entanto, chamou a atenção de um há um quilômetro de distância.

                O cachorro veio correndo e latindo, chamando a atenção dos outros, até que Perséfone erguesse as mãos e lançasse seu perfume pela plantação, acalmando a todos. O que já chegara mais perto olhava desconfiado para o deus.

                Se era para intimidá-lo, não funcionou. Hades sorriu e se sentou no chão, esticando a mão para o cão se aproximar. A deusa tentou dissuadi-lo da ideia, pois estava sujando toda sua roupa de festa de terra, porém ele pouco se importou. Ganhou algumas fungadas e lambidas do cão até que ele deitasse em seu colo.

                Ela ficou apenas observando enquanto ele fazia o feroz cão de guarda adormecer tranquilamente. Assim que ele dormiu, Hades se levantou, bateu o pelo e a terra para fora das vestes e se virou para ela, que o esperava com um mix de admiração e dúvida. Deu de ombros.

                -Quando você aprende a acalmar três personalidades caninas em um corpo imenso, lidar com os cães normais se torna muito mais fácil.

                A risada da deusa acordou o pobre cachorro, que bufou e voltou a dormir.

                Passaram dos limites do terreno e ela notou a mudança de postura do deus, agora claramente desconfortável.

                -Hades?

                -Sim?

                -Você está bem?

                Silêncio.

                Não, não estava, porém não quis ser tão direto. Nem precisou. Ela pegou a mão dele e o desviou da rota que ia diretamente até a mansão, guiando-o por entre as árvores.

                -Sabe, estava pensando lá na festa. Você fala muito para alguém que diz não gostar de conversar com olimpianos. - Disse, quebrando o silêncio entre eles. Hades riu de leve.

                -Sim, sim. Infelizmente, meu cargo me obriga a essas socializações. - Respondeu enquanto parava perto de uma clareira no meio de árvores mais densas.

                -Vou ter de me acostumar, então. - O silêncio voltou a se estender por eles. Hades piscou forte e franziu o centro. Pensou. Ergueu uma sobrancelha.

                -E isso quer dizer o quê, exatamente? - A deusa sentiu suas mãos tremerem e começarem a suar. Odiava sua semelhança com os mortais e suas reações fisiológicas.

                -Você sabe o quê, não?

                -Acho que sim, mas odiaria estar presumindo errado.

                -Eu… - Ela começou a falar, fitando o chão. - Estive pensando, sabe? - Fitou a ele. - Sobre nós. Sobre ficar ou não aqui… - Hades lutou contra sua vontade de fechar os olhos e se obrigar a ouvir apenas à voz da deusa, sua mente um turbilhão. Esperou que ela continuasse e, quando não o fez, tornou a quebrar o silêncio.

                -Sim? - Ele havia se aproximado um pouco mais e ambos trocavam olhares intensamente. Ela mordeu o lábio e respirou fundo antes de falar.

                -Decidi que quero voltar ao Submundo.

 

__________

                O deus desequilibrou o tapa que levou nas costas, o estalo interrompendo as conversas paralelas há metros de distância. Zeus virou enfurecido identificar o agressor e deu de cara com o irmão de braços cruzados, fitando bravo. O rei do Olimpo se virou para as duas deusas menores com quem antes trocava boas palavras e olhares entusiasmados, se desculpou e se virou novamente, se afastando delas com Poseidon ao lado.

                -O que é que você está pensando? – Indagou, tentando manter a voz cheia de ira ainda num tom de sussurro.

                -O que eu estou pensando? Acabei de levar sua mulher até a casa de vocês, sozinha e desolada.

                -Ah, me poupe, você também? Preferia quando estávamos na mesma sintonia.

                -Zeus, vá para casa. Chegue sem feder a outra mulher, num horário razoável, abrace a sua esposa e sossegue.

                -O que foi que ela lhe prometeu para convencer você a vir aqui, hein?

                -Nada, seu estrupício. Eu olhei no fundo dos olhos dela e vi o quão miserável ela está. Acorde e veja o mesmo.

                -O que você quer que eu faça? Siga seu exemplo e me separe sem me divorciar? Grande diferença.

                -Cresça. Ambos aceitamos desistir do casamento romântico e achamos o meio termo que fazia sentido para nós, não fazia bem a nenhum de nós eu fingir que conseguiria ser fiel a uma mulher que não amo.

                -Eu amo Hera!

                -Pois eu não estava falando de você, mas pode vestir a carapuça. Repense seu casamento, Zeus.

                -Está bem. Vou para casa. – Se virou, acenou adeus para as deusas que ainda o aguardavam e que suspiraram, desapontadas e foram embora. – Está feliz, irmãozinho?

                -Não. E não me venha com apelidos. Demorei séculos para deixar de lhe considerar um cunhado e te ver de fato como irmão, e isso pode se desfazer rapidamente. Hera é minha irmã caçula e eu estou farto de ver você a destruindo. Tenho certeza de que todos estamos. Novamente: cresça. – Se virou e ignorou quaisquer ofensas que o deus urrava, os trovões atrás dele ajudando-o a abafar da mente a voz do deus. Pulou para cima de seu cavalo, soltando a carruagem atrás de si, e disparou para fora do Olimpo. Não adiantaria de nada brigarem fisicamente agora. Ambos o deus e o cavalo alado se dissolveram ao sair do Olimpo e sobrevoar o oceano, as gotas se misturando com a água.

                Logo, reapareceu já entrando em seu quarto. Suspirou. Odiava ser adulto. Preferia deixar Hades ser o responsável da família. Se jogou na cama e adormeceu rapidamente.

___

                Deméter acordou ainda meio confusa. Bocejou, esfregando os olhos. Piscou múltiplas vezes tentando adaptar a visão à escuridão. Notava alguns raios de luar entrarem pela janela do quarto, a lua já quase não mais visível. Pelo que calculou ter sido o horário que foi retirada da festa e as múltiplas dores em seu corpo, presumiu que não dormira nem duas horas.

                Se ergueu e foi ao banheiro lavar o rosto e trocar suas vestes. Já com a camisola para dormir, se esgueirou silenciosamente para fora do quarto. Anotou mentalmente que precisava agradecer a Poseidon quando o sol raiasse. Teria sido bom ter tido (mais uma) noite sem compromisso com ele, porém sabia que teria acordado arrependida.

                 Suspirou desapontada ao notar a porta aberta do quarto da filha. Quase amanhecendo e ainda não voltara.

                Dispensou a ninfa que montava guarda fora do seu quarto e foi à cozinha preparar um chá. Deixou a água fervendo enquanto buscava de seu estoque de ervas um pouco de cidreira e hortelã.

                Sentou-se na varanda na frente de casa e fitou o horizonte, tentando localizar a silhueta da filha no caminho à sua frente. Quanto mais o tempo passava, maior ficava o aperto que a deusa sentia no peito. Não se conformava com a ideia de que há alguns meses estava ali, no mesmo local, tomando o mesmo chá, fitando o nascer do sol com a certeza de que moraria e trabalharia com a filha para sempre, e agora observava o campo imaginou se ela voltaria para casa naquela noite ou não.

 ___

                -Hades? – Foi obrigada a perguntar, depois de dois minutos do deus em silêncio. Sua voz pareceu trazê-lo de volta, para fora de seu devaneio. Piscou repetidamente e esbanjou um enorme sorriso.

                -Você o quê? – Ela foi obrigada a sorrir junto.

                -Quero voltar com você. – Se abraçou no pescoço do deus e beijou-lhe os lábios rapidamente, ainda sorrindo. - Quero viver com você. – Ele abraçou a cintura dela e a trouxe para perto em um forte abraço. Estava terminando seu suspiro aliviado quando ela voltou a falar. – Porém...

                -Sim? – Perguntou rapidamente, desfazendo o abraço para fixar o olhar no dela.

                -Não quero ficar sem ver minha mãe para sempre.

                -Você é livre para vir vê-la quando quiser. Eu entendo que essa também é sua casa. – Ela assentiu e pegou as mãos dele nas dela.

                -Eu não sei nem se ela vai aceitar que eu vá, quiçá que eu venha apenas visitar ocasionalmente.

                -O que queres dizer com isso?

                -E ainda tem a primavera...

                -Perséfone? – Foi a vez de ela sair do devaneio. – Não precisa dar voltar comigo. Você tem uma solução, pode me dizer o que é. Se for para você passar dois dias do ano comigo, eu vou aceitar. Eu quero que você seja feliz do jeito que você quiser ser. – Ela sorriu e o beijou, contendo as lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos.

                -Eu... pensei em ficar aqui durante os meses da primavera e descer nos outros. Assim, minha mãe tem a certeza de que vou voltar todos os anos e menos espaço para fazer drama com as minhas tarefas.

                -Acho ótimo.

                -Você está falando isso só para me agradar, não está?

                -Não. – Ele a trouxe para perto novamente, se curvando para conseguir juntar suas testas e fita-la de muito perto. – É óbvio que eu preferia te ter comigo todos os dias, mas achei essa ideia de fato muito boa. Me odiaria se te privasse do papel que você nasceu para exercer, mesmo que agora você quisesse ficar mais tempo comigo, entendo que isso pode mudar.

                -Obrigada.

                -Não me agradeça. É o mínimo que eu posso fazer para te ter comigo. Agradeça a sua mãe se ela aceitar.

                -Vamos falar com ela! – A deusa disse, saltitando no mesmo lugar e puxando o deus pela mão, sem ver sua careta de dor.

                -Não sei se é uma boa ideia falar com ela agora, fim de festa, após bastante álcool. – Disse, tentando vencer a barreira de animação que tomou conta da deusa. Sentiu os primeiros raios de sol rasgando o céu e terminando a noite dos dois.

                Depois de alguns metros, ela parou abruptamente, como se tivesse batido em uma parede invisível. O solavanco fez Hades quase cair por cima dela, parando a centímetros dela. A deusa se virou e sorriu, se erguendo nas pontas dos pés para poder beijá-lo.

                -Você tem razão, converso com ela outra hora. Agora vá, sua hora chegou. – Beijou ele de novo que, sem entender a princípio a motivação da deusa, quase a seguiu quando ela saiu saltitando em direção a mansão, há pouco mais 400 metros de distância deles. Depois que conseguiu desgrudar os olhos da deusa esvoaçante em sua frente, focou na varanda de entrada.

                Só então entendeu.

                Deméter se postava de pé, foice em mãos. Hades não precisava conseguir enxergar seu rosto para saber que estava com cara de furiosa.

__

Perséfone deu uma última olhada para trás com um tímido aceno de mão e entrou em casa, passando sem olhar a mãe, apenas murmurando um “boa noite”. Deméter bufou e permaneceu fitando a escura figura altiva de seu irmão no meio de seus campos. Manteve o olhar alto, mesmo que soubesse que ele não conseguia distinguir sua face, até que ele virasse as costas e marchasse em direção da estrada, onde, sem nenhum dos dois ver, sua carruagem já aguardava.

O viu indo embora para ter certeza de que não aprontaria nada. Suspirou e desconjurou a foice. Sua menina estava em casa, podia descansar agora, embora Deméter tivesse um pressentimento de que essa seria a última noite que descansaria de verdade por muito tempo.


Notas Finais


De novo, espero que tenham gostado
e espero que estejam bem, seguros e lavando bem as mãos
tenho mais uma semana de quarentena, vou aproveitar para tentar render, meu bloqueio criativo sumiu finalmente
amo vocês
be safe be strong, Harry


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