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História A Luz das Trevas - Capítulo 28


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Notas do Autor


Eu sei, eu sou um lixo. Voltei dois meses depois. A pandemia me afetou mais do que eu estava esperando.
Mesmo assim, to aqui.
Não me odeiem muito ♥

Capítulo 28 - Sombras


-Você o quê? – Era a manhã seguinte. Levantaram tarde e se evitaram até a hora do almoço. A revelação doeu mais do que Deméter esperava, mesmo tendo passado o resto da noite acordada pensando nessa possibilidade.

-Vou... ao Submundo.

-Fazer?

-Governar?

-Perséfone! – Urrou, para o desprazer da dor de cabeça de ressaca de ambas as deusas.

-Mãe! – Retrucou alto. Deméter se levantara a mesa de almoço e andava pela casa de um lado para o outro. – Eu venho lhe visitar.

-Enlouqueceu? – Disse, sem nem fitar a deusa novamente.

-Não! Não é isso que rainhas fazem?

-E o que é que deusas da primavera fazem, Perséfone? – Se virou ao dizer seu nome novamente. – Você não tem dev...

-Eu sei, eu sei! Meus deveres. Vou vir e acionar a primavera todos os anos, você não precisa se preocupar.

-“Acionar?”

 -É. Fico aqui enquanto eu tiver trabalho aqui.

-Ótimo. Você tem trabalho todos os dias.

-Não. Você tem trabalho de verdade todos os dias. Eu faço trabalho braçal que não precisa ser feito por mim durante a grande maioria do tempo. Vou vir e ficar três meses aqui e pronto.

-Não.

-Como assim “não”? Eu sou adulta! Todo mundo rege a própria vida menos eu!

-Adulta? Não é porque você é mais velha que os irresponsáveis dos seus irmãos que você virou uma deusa-adulta. Muito menos por causa dessa coisa no seu dedo.

-Você não pode me proibir de descer.

-Não? Por que? Seu maridinho vai aparatar aqui dentro da minha casa e me arrancar a minha filha?

-Eu... – Perséfone hesitou, a raiva transbordando. Não queria fazer aquilo. Odiava fazer aquilo. Deméter já estava à beira de um colapso. – Comi sementes de romã. De lá. - Deixou que a mentira saísse de seus lábios. Não comera nenhuma semente. 

-O quê? - O choque atingiu a deusa em cheio. - De propósito? Para ter que voltar? Ou ele te enganou? – A face de ira da deusa se desmanchou e lágrimas começaram a cair por suas bochechas.

-Mãe... Ele não me enganou. – A deusa mais velha esperou para ver se ela complementaria algo.

-Você não respondeu todas as perguntas.

-Por favor. Eu vou, fico um tempo e volto. Te visito durante esse tempo também.

-Quanto tempo? – Conseguiu dizer, se virando de costas e respirando fundo, segurando o choro.

-Enquanto não for primavera.

-Três-quartos do ano?

-Uhum.

-Não. Muito tempo. E o verão?

-Você não precisa de mim para o verão.

-Eu não preciso de você para nada, Perséfone. – Brandiu, se arrependendo depois. Se virou para fitar a deusa. – Eu comando as estações muito bem sozinha. Eu quero o jeito que você faz a primavera. E o verão. Eu não tenho todos os seus poderes elaborados de flora, mas me viro muito bem sozinha. Você sabe bem disso. Por que não faz o contrário agora no começo, vai apenas durante o inverno? Você mal conhece ele, filha...

-Não vou discutir sobre ele com você. Vou metade do ano então. Mas, vou visita-lo quando quiser. Você não pode me trancar aqui.

-Nem ele te trancar lá!

-Ele não quer me trancar! Ele não me pediu para voltar! Ele quer que eu seja feliz. Eu não gosto do Olimpo, mãe! Eu quis voltar! – Esbravejou, saindo pela porta da frente para o meio dos campos.

A deusa não se prestou para segui-la. Se arrastou até o quarto e desabou na própria cama.

___

Perséfone corria por entre as árvores. Cansou e desabou sobre o chão, chorando. Odiava brigar. Com sua mãe, principalmente. Odiava se sentir como uma criança. Bateu com força os punhos fechados no chão e sentiu a terra se abrir aos seus pés. Desabou sobre a pedra gelada, olhos tentando se ajustar a escuridão. O frio cortava sua pele ainda quente do sol e suor da corrida.

Sentiu algo fungar ao seu lado e lamber sua perna descoberta pelo curto comprimento do vestido que usava. Sorriu.

-Oi, bebezão. – Abriu os braços o suficiente para tentar comportar as três cabeças do cão se jogando sobre ela. Bocejou. – Pelo visto eu aprendi um novo truque. Os poderes do seu pai são confusos, sabia? – Cérbero murmurou como se compreendesse. A deusa se deitou sobre o corpo do cão e deixou-se adormecer.

Havia consumido tanta energia que acabou dormindo profundamente. Não acordou nem quando o cão ajeitou seu corpo sobre o dele e caminhou até o Castelo. Arranhou as portas de entrada até Hades gritar lá de dentro que podiam abrir para ele.

-Você é pior que uma criança humana, sabia? – Hades resmungou quando o grande cão apareceu na entrada da sala de tronos. Não se sentou para não deixar a deusa cair, mas aguardou pacientemente enquanto o rei terminava a reunião que estava tendo com algum deus que fazia os fucinhos do cão coçarem. – Bom garoto. – O deus parabenizou depois que o convidado saiu e ele se ergueu.

Cérbero andou até o centro do salão e inclinou delicadamente seu bumbum gigante, desenrolando seu rabo do corpo delicado da deusa. Hades ergueu os olhos, apavorado, e a pegou nos braços antes que ela atingisse o chão.

-Você a roubou? – Sussurrou. Duas das cabeças, as que ainda estavam prestando atenção no deus e não numa alma solta que parecia deliciosa, negaram e latiram, o barulho ecoando pelo salão e fazendo a deusa se remexer nos braços dele. – Shh. Podia ter roubado, não ia lhe julgar. – Ele conjurou petiscos o suficiente para seis cabeças e deixou no chão. – Depois vá trabalhar.

Esperou que as cabeças lambessem de leve a deusa e fossem comer para sair com ela do salão. Foi até o quarto dele. Deles, agora, pelo visto. Trancou as portas e a colocou na cama, enrolando-a em cobertas. Serviu um copo de água para a deusa, deixando no criado mudo ao seu lado. Puxou uma cadeira para o seu lado e alguns pergaminhos para passar o tempo.

__

-Boa tarde, irmã. Pela sua expressão, imagino que você veio gritar comigo novamente. – O rosto inchado e enfurecido da deusa não gostou da brincadeira de Zeus. – Vou me arrepender de perguntar: aconteceu algo?

-Você tem que proibir que Hades leve Perséfone daqui.

-O que? Não.

-Sim. Você é o inútil que fez com que isso acontece. Você e Hera ajudaram ele a fazer isso. Conserte isso.

-Não tenho que consertar nada. Você nem me disse o que aconteceu.

-Ele fez ela voltar para o Submundo.

-Ele “fez”? Ele a buscou de novo?

-Sequestrou é a palavra que você está querendo. Não, porém acredito que vá.

-Por?

-Ela disse que vai voltar para lá. Ele vai ter que vir busca-la. E eu...

-Só um minuto. Ela disse que vai voltar?

-Sim.

-Ele não fez nada.

-Claro que fez, Zeus! É a sua filha, aja como pai uma vez na vida! Ele está manipulando ela! É uma criança.

-Hey! Sem ofensas. Deixe a menina viver, Deméter.

-Ela não é mais criança, pare com isso. – A voz de Hera chegou no salão antes de sua silhueta, vinda de um dos corredores laterais da sala de tronos. – Se ela quer ir, deixe que vá. Converse você com a sua filha. Nós não vamos impor a ela nada. - Zeus lançou um olhar agradecido à esposa quando Deméter saiu do aposento.

__

Pouco menos de meia hora depois ela se remexeu. Bocejou, se espreguiçou e piscou várias vezes, desorientada de onde estava.

-Boa tarde. – Ele sussurrou, aproximando seu rosto do dela.

-Boa tarde. – Respondeu, sorrindo, sonolenta. - Como eu vim parar aqui?

-Você que me diz. Cérbero te trouxe desmaiada nas costas dele. Negou quando perguntei se te roubou. – Hades deu de ombros. Perséfone esfregou os olhos, forçando sua memória a voltar a trabalhar. Bebeu um pouco da água que ele ofereceu enquanto lembrava.

-Briguei com minha mãe. – Ele assentiu. Imaginou que isso aconteceria quando ela fosse comunicar seus desejos. – Saí de casa frustrada. Fui para o meio da floresta. Não entendo como parei aqui.

-Entrou em algum rio? Não chamou por mim ou ninguém daqui?

-Não. Quis muito estar aqui, queria reclamar dela para alguém. Bati as mãos no chão e caí do lado de Cérbero. É isso que lembro. Nem lembro de dormir com ele.

-Hum. – Murmurou. Levou sua mão ao rosto da deusa, acariciando-o antes de encaixar uma mecha rebelde de cabelo atrás da orelha. Ela sorriu e fechou os olhos ao toque gentil dele, a pele fria arrepiando a deusa. – Acho que você viajou pelas sombras. Por isso ficou cansada.

-Eu dormi muito? Que dia é hoje?

-Não foi muito, não se preocupe. No máximo uma hora. Mas posso ver que você ainda precisa dormir mais. – Ela bocejou no meio da frase dele e riu. - Se quiser ficar, tudo bem.

-Acho melhor não. Ela vai achar que fugi.

-Eu lhe levo então. Pode ir dormindo na carruagem. – Ela assentiu e se ergueu para segui-lo.

____

Deméter foi amaldiçoando aos irmãos até em casa. Se desviou algumas vezes do caminho, levando mais tempo do que pretendia. Pelo menos se distraiu um pouco.

Quando chegou em seus domínios, um arrepio a sacudiu. A carruagem de Hades estacionada em sua porta. Segurou as lágrimas de caírem. Estava acontecendo.

Segurou o grito que ia dar para que ele fosse embora quando o viu descendo da carruagem abraçado em algo. Um... corpo? Perséfone?

Apertou o passo indo até eles. Viu de longe Hades passar para dentro da casa fazendo uma diminuta referência à ninfa que guardava a porta que claramente estava prendendo a respiração, imóvel.

Quando ela entrou porta adentro, não os encontrou. Viu a porta do quarto da deusa aberta e se apressou por ali. Deu de cara com ele, se esbarraram pouco depois do marco da porta. O olhar suave do deus encontrou o enfurecido da deusa.

Por sorte, antes de gritar com ele, ela escaneou o quarto. Viu Perséfone dormindo, tranquila, as cobertas puxadas sobre si. Lançou um novo olhar, agora confusa, dela para ele.

-O que você fez? – Rangeu entre os dentes.

-Nada. – Ele rangeu de volta. Nunca teve muita paciência com a irmã. Acenou para fora com a cabeça. Saíram e Deméter encostou a porta atrás deles. – Não fiz nada, ela está dormindo, apenas.

-“Apenas”? Ela some de casa por horas, aparece desmaiada sendo carregada por você e quer que eu acredite que não fez nada?

-Eu não quero que você acredite em nada. Pouco me importa o que você pensa. Adeus. – Disse, virando as costas.

-Não, não. Você não vai embora sem me dizer o que aconteceu. – Interrompeu, se colocando no caminho entre ele e a porta de saída.

-Pois parece que vou. – Disse, sarcástico, enquanto desfazia sua forma em sombras ao atravessar o corpo da deusa, reaparecendo do outro lado. Foi interrompido novamente quando ela agarrou seu braço e o fez se virar para fita-la.

-Você... machucou ela? – O deus bufou, a frustração emanando de si o suficiente para agitar seus próprios cavalos na rua, que bateram os cascos no chão.

-Você não entendeu ainda, não é mesmo? Não, eu não a machuquei. Eu não vou machucar. Eu não a toquei. Eu não fui atrás dela hoje. Ela apareceu já dormindo, e não “desmaiada”, na minha sala de tronos.

-O que?

-É isso mesmo que você ouviu. Ela apareceu no Submundo. Sozinha. Me disse que vocês brigaram e que ela foi para a rua descontar sua raiva no chão e de repente estava lá. Só o que eu fiz foi deixa-la dormir um pouco e trazê-la de volta em segurança.

Silêncio. Deméter não sabia o que dizer. Soltou o braço do deus.

-Como ela pode ter simplesmente aparecido lá? – Finalmente falou.

-Supus que como foi rápido e ela ficou exausta, usou as sombras para viajar.

-Aquele truque de batalha que você faz? – Questionou, flashes de quando lutaram lado a lado contra os titãs vindo à mente da deusa.

-Não é um “truque”, porém sim, isso. É útil para se locomover. Consome muita energia, principalmente longas distâncias.

-Por que?

-Que ela usou? Não sei. Não sei nem se era o que pretendia.

-Não. Por que ela consegue? Fazer isso.

-Porque ela está herdando os meus poderes, Deméter. – Disse, se aproximando, o olhar mais feroz agora. – Você não aceitar não muda o fato de que ela é minha esposa. Vai ser minha rainha. Vai dividir comigo tudo, os poderes, os deveres, o reino, a riqueza.

Novamente, ela não sabia o que dizer. Engoliu em seco. Já havia feito toda aquela reflexão. Já quase aceitara eles dois, por quê estava tão inconformada. Então a percepção a atingiu. Estava caindo sua ficha. Piscou algumas vezes. Lembrou da expressão altiva com que a mãe contara a ela que aceitara seu destino, e que todos deveriam aceitar aos seus. Lembrou de quando a filha deixou de ser Core para ser Perséfone. Suspirou. Notou que Hades a analisava. Pigarreou.

-Chá? – Acenou para a cozinha.

-Vai tentar me envenenar? – Disse, erguendo uma sobrancelha.

-Não tenho nada que derrube um homem do seu tamanho. – Disse, embora o sorriso no canto de seu lábio fizesse Hades se perguntar se isso era verdade. 


Notas Finais


Espero que gostem. Sei que vocês estão ansiosos/sofrendo para o final
Eu também
calculo ainda no mínimo uns 2 capítulos


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